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entre teorias e práticas Sidney Washington de Lima Melquiades Organizador ENSAIOS EDUCACIONAIS ENTRE TEORIAS E PRÁTICAS Este livro foi composto pela Editora Bagai. www.editorabagai.com.br /editorabagai /editorabagai contato@editorabagai.com.br Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Bibliotecária responsável: Aline Graziele Benitez CRB-1/3129 E26 Ensaios educacionais: entre teorias e práticas 1.ed. [recurso eletrônico] / [org.] Sidney Washington de Lima Melquiades– 1.ed. – Curitiba-PR, Editora Bagai, 2022. Recurso digital. Formato: e-book Acesso em www.editorabagai.com.br ISBN: 978-65-5368-116-3 1. Educação. 2. Teorias e Práticas. 3. Ensino e aprendizagem. I. Melquiades, Sidney Washington de Lima. CDD 370 10-2022/20 CDU 37.01 Índice para catálogo sistemático: 1. Educação: Teorias e Práticas. R https://doi.org/10.37008/978-65-5368-116-3.23.09.22 Proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização prévia da Editora BAGAI por qualquer processo, meio ou forma, especialmente por sistemas gráficos (impressão), fonográficos, microfílmicos, fotográficos, videográficos, repro- gráficos, entre outros. A violação dos direitos autorais é passível de punição como crime (art. 184 e parágrafos do Código Penal) com pena de multa e prisão, busca e apreensão e indenizações diversas (arts. 101 a 110 da Lei 9.610 de 19.02.1998, Lei dos Direitos Autorais). Sidney Washington de Lima Melquiades Organizador ENSAIOS EDUCACIONAIS ENTRE TEORIAS E PRÁTICAS 1.ª Edição - Copyright© 2022 dos autores Direitos de Edição Reservados à Editora Bagai. O conteúdo de cada capítulo é de inteira e exclusiva responsabilidade do(s) seu(s) respectivo(s) autor(es). As normas ortográficas, questões gramaticais, sistema de citações e referencial bibliográfico são prerrogativas de cada autor(es). Editor-Chefe Cleber Bianchessi Revisão Os autores Diagramação Brenner Silva Arte da Capa Sidney Washington de Lima Melquiades Adequação da Capa Alexandre Lemos Conselho Editorial Dr. Adilson Tadeu Basquerote – UNIDAVI Dr. Anderson Luiz Tedesco – UNOCHAPECÓ Dra. Andréa Cristina Marques de Araújo - CESUPA Dra. Andréia de Bem Machado – UFSC Dra. Andressa Graziele Brandt – IFC - UFSC Dr. Antonio Xavier Tomo - UPM - MOÇAMBIQUE Dra. Camila Cunico – UFPB Dr. Carlos Luís Pereira – UFES Dr. Claudino Borges – UNIPIAGET - CV Dr. Cledione Jacinto de Freitas – UFMS Dra. Clélia Peretti - PUCPR Dra. Daniela Mendes V da Silva – SEEDUCRJ Dra. Denise Rocha – UFC Dra. Elnora Maria Gondim Machado Lima - UFPI Dra. Elisângela Rosemeri Martins – UESC Dr. Ernane Rosa Martins – IFG Dr. Helio Rosa Camilo – UFAC Dra. Helisamara Mota Guedes – UFVJM Dr. Humberto Costa – UFPR Dr. Jorge Henrique Gualandi - IFES Dr. Juan Eligio López García – UCF-CUBA Dr. Juan Martín Ceballos Almeraya - CUIM-MÉXICO Dra. Karina de Araújo Dias – SME/PMF Dra. Larissa Warnavin – UNINTER Dr. Luciano Luz Gonzaga – SEEDUCRJ Dr. Luiz M B Rocha Menezes – IFTM Dr. Magno Alexon Bezerra Seabra - UFPB Dr. Marciel Lohmann – UEL Dr. Márcio de Oliveira – UFAM Dr. Marcos A. da Silveira – UFPR Dr. Marcos Pereira dos Santos - SITG/FAQ Dra. María Caridad Bestard González - UCF-CUBA Dra. Nadja Regina Sousa Magalhães – FOPPE-UFSC/UFPel Dra. Patricia de Oliveira - IF BAIANO Dr. Porfirio Pinto – CIDH - PORTUGAL Dr. Rogério Makino – UNEMAT Dr. Reginaldo Peixoto – UEMS Dr. Ricardo Cauica Ferreira - UNITEL - ANGOLA Dr. Ronaldo Ferreira Maganhotto – UNICENTRO Dra. Rozane Zaionz - SME/SEED Dra. Sueli da Silva Aquino - FIPAR Dr. Tiago Tendai Chingore - UNILICUNGO – MOÇAMBIQUE Dr. Thiago Perez Bernardes de Moraes – UNIANDRADE/UK-ARGENTINA Dr. Tomás Raúl Gómez Hernández – UCLV e CUM - CUBA Dr. Willian Douglas Guilherme – UFT Dr. Yoisell López Bestard- SEDUCRS 5 SUMÁRIO CONTEXTO HISTÓRICO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE EDUCAÇÃO ESPECIAL E INCLUSIVA NO BRASIL 11 Dinéia Ghizzo Neto Fellini | Elsa Midori Shimazaki | Raquel Franco Ferronato PROCESSO FORMATIVO NA PERSPECTIVA DA TEORIA CRÍTICA DA SOCIEDADE: UMA ANÁLISE DA POLÍTICA NACIONAL DE ALFABETIZAÇÃO (PNA) 25 Vanessa Freitag de Araújo | Gabriely Silveira Nogueira PRODUÇÃO DE TEXTO ESCRITA MULTIMODAL NOS ANOS FINAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL: UMA DISCUSSÃO A PARTIR DA BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR 43 Eurico Rosa da Silva Júnior | Tiago de Aguiar Rodrigues A ESCOLARIZAÇÃO DOS ALUNOS(AS)SURDOS-NEGROS(AS) 59 Helleni Priscille de Souza Ferreira Oliveira | Élida Soares de Santana Alves | Fernanda Marcelo Souza | Leia Silva Santos | André Luiz de Alcântara Brandão | Alan dos Santos Andrade Ferreira | Roselin Angelita Dantas Reis | Damaris Oliveira Souto UMA REVISÃO SISTEMÁTICA DE LITERATURA SOBRE O CONCEITO DE FUNÇÃO USANDO A LENTE DA TEORIA ANTROPOLÓGICA DO DIDÁTICO 69 Jefferson Dagmar Pessoa Brandão | Iracema Campos Cusati UMA PROPOSTA TEÓRICO-METODOLÓGICO DE ENSINO DE LÍNGUA INGLESA COM BASE NA LINGUÍSTICA GERATIVA E NA ABORDAGEM DA APRENDIZAGEM ATIVA 83 Glaucyenne Cavalcante dos Santos | Jessé de Sousa Mourão COMO SURGIU O MODERNO ESTUDO DOS SEMICONDUTORES E QUAIS FORAM SUAS PRIMEIRAS APLICAÇÕES TECNOLÓGICAS? 99 Francisco Vadimar Bezerra Alves | João Erineudo Cavalcante | Marlene Francisca de Andrade A INTERNET NA SALA DE AULA E A SALA DE AULA NA INTERNET: AS NOVAS TECNOLOGIAS COMUNICACIONAIS E SUA INTERFACE EDUCADORA 117 Leonardo Freire Marino O FENÔMENO DA MONOTONGAÇÃO NAS AULAS DE LÍNGUA PORTUGUESA NOS ANOS FINAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL 131 Julieta Vilar Medeiros | Marleide Maria Arruda Linhares Isaias | Samara Cornélio Fernandes dos Santos 6 CURRÍCULO ESCOLAR: REFERECIAL NA TRANSMISSÃO DA CULTURA E COMO PONTO DE PARTIDA PARA UMA APRENDIZAGEM CONSTRUCIONISTA 145 Moacir de Souza Júnior | Leila Melo Cajazeira | Maria do Socorro Furtado Silva Silveira | Maria do Carmo da Silva Souza | Maria Cristiane Raimundo da Costa | Maria Ivanilda Cassimiro de Brito | Célia Maria da Silva A PRODUÇÃO TEXTUAL ESCRITA EM LIVROS DIDÁTICOS DO ENSINO FUNDAMENTAL ANOS FINAIS 159 Benigna Soares Lessa Neta | Mônica de Souza Serafim PROPOSTA DE ENSINO DO CONJUNTO DOS RACIONAIS COM BASE NA TEORIA HISTÓRICO-CULTURAL COM ABORDAGEM GEOMÉTRICA 175 Sarah Galatto Cancillier | Mateus Bitencourt | Maxwel Fernandes Bernardes | Eloir Fátima Mondardo Cardoso LETRAMENTO LITERÁRIO: RELATO DE EXPERIÊNCIA DE LEITURA EM SALA DE AULA VIRTUAL 189 Adilma Gomes da Silva Machado | Antônia Caroline Alves da Silva Sidney Washington de Lima Melquiades AS TECNOLOGIAS DIGITAIS E O ENSINO DE QUÍMICA: QUAIS SÃO AS FERRAMENTAS GRATUITAS DISPONÍVEIS PARA O DESENVOLVIMENTO UMA PRÁTICA DOCENTE INOVADORA? 203 Maria Stella Nunes de Oliveira Nogueira O REFLEXO DO MOVIMENTO MIGRATÓRIO NA REDE MUNICIPAL DE ENSINO DE CUIABÁ: A PRÁTICA DO PROFESSOR E SUA FORMAÇÃO CONTINUADA 217 Taysa Paganotto Lemes | Caique dos Santos Silva MEMÓRIAS DE VERÃO: O LUGAR DA AUSÊNCIA NO ROMANCE AO FAROL, DE VIRGINIA WOOLF 231 Francielle Aparecida Garuti de Andrade DOCUMENTÁRIO “NOSSO SAGRADO” NO COMBATE AO RACISMO RELIGIOSO NO ESPAÇO ESCOLAR 245 Jorge Santana RELATO DE EXPERIÊNCIA: REFLEXÕES SOBRE O PRODUTIVISMO ACADÊMICO, AVANÇOS E DESAFIOS259 Tânia Aparecida Soares SOBRE O ORGANIZADOR 294 ÍNDICE REMISSIVO 295 7 APRESENTAÇÃO As práticas educativas estão em constante processo de avaliação, adaptando-se as demandas e características da sociedade no decorrer do tempo. Desta forma, diversas práticas educacionais perpetuadas como tradicionais estão tornando-se gradualmente obsoletas, abrindo passagem para a inserção de novas metodologias de ensino mais bem adaptadas as características dos estudantes da atualidade. A obra “ENSAIOS EDUCACIONAIS: entre teorias e práticas” advem de pesquisas que envolvem teorias, inovações ou aperfeiçoamento de prá- ticas educativas tradicionais, com a finalidade de proporcionar melhores condições para o processo de ensino-aprendizagem em relação a tríade escolar: professores(as), estudantes e construção de conhecimento. No primeiro capítulo, intitulado Contexto Histórico das Políticas Públicas de Educação Especial e Inclusiva no Brasil, das autoras Dinéia Ghizzo Neto Fellini, Elsa Midori Shimazaki e Raquel Franco Fer- ronato, que objetivam fazer um giro histórico e epistemológico a respeito da educação especial e os encaminhamentos que resultaram na oficialização da educação inclusiva no Brasil. No segundo capítulo, Processo Formativo na Perspectiva da Teoria Crítica da Sociedade: uma análise da Política Nacional de Alfabetização (PNA), produzido pelas autoras Vanessa Freitag de Araújo e Gabriely Silveira Nogueira, que tem como objetivo analisar da Política Nacional de Alfabetização (PNA) lançada em 2019 pelo Ministério da Educação à luz da perspectiva da Teoria Crítica da Sociedade. No terceiro capítulo, cujo título é Produção de Texto Escrita Multimodal nos Anos Finais do Ensino Fundamental: uma discussão a partir da Base Nacional Comum Curricular, dos pesquisadores Eurico Rosa da Silva Júnior e Tiago de Aguiar Rodrigues, a pesquisa tem por objetivo investigar como tem sido colocada em prática a produção de textos multimodais para o ensino fundamental conforme prevista na Base Nacional Comum Curricular. 8 No quarto capítulo, A Escolarização dos Alunos(as) Surdos-ne- gros(as), escrito por Helleni Priscille de Souza Ferreira Oliveira, Élida Soares de Santana Alves, Fernanda Marcelo Souza, Leia Silva San- tos, André Luiz de Alcântara Brandão, Alan dos Santos Andrade Ferreira, Roselin Angelita Dantas Reis e Damaris Oliveira Souto, onde objetivam discutir a pauta da educação de pessoas com sur- dez para a educação brasileira. No quinto capítulo, intitulado Uma Revisão Sistemática de Lite- ratura Sobre o Conceito de Função Usando a Lente da Teoria Antropológica do Didático, dos escritores Jefferson Dagmar Pessoa Brandão e Iracema Campos Cusati, que tem como objetivo identificar as contribuições da Teoria Antropológica do Didático nas investigações que adotaram o conceito de função como objeto de pesquisa. No sexto capítulo, com título Uma Proposta Teórico-Metodológico de Ensino de Língua Inglesa com Base na Linguística Gerativa e na Abor- dagem da Aprendizagem Ativa, escrito por Glaucyenne Cavalcante dos Santos e Jessé de Sousa Mourão, tem como objetivo apresentar uma proposta teórico-metodológica baseada no modelo de Pilati (2017) e adaptada para o contexto de ensino e aprendizagem de segunda língua, particularmente de língua inglesa. No sétimo capítulo, designado Como Surgiu o Moderno Estudo dos Semicondutores e Quais Foram Suas Primeiras Aplicações Tecno- lógicas?, produzido por Francisco Vadimar Bezerra Alves, João Eri- neudo Cavalcante, Marlene Francisca de Andrade, em que o objetivo do trabalho foi fazer um levantamento bibliográfico de como surgiu o moderno estudo dos semicondutores, como também as suas pri- meiras aplicações tecnológicas. No oitavo capítulo, nominado A Internet na Sala de Aula e a Sala De Aula na Internet: as novas tecnologias comunicacionais e sua interface educadora, escrito por Leonardo Freire Marino, com objetivo de apontar de que forma as tecnologias digitais e as redes infor- macionais têm contribuído para a construção de um novo arranjo pedagógico e, consequentemente, possibilitado o soerguimento de um novo arcabouço metodológico. 9 No nono capítulo, sob o título O Fenômeno da Monotongação nas Aulas de Língua Portuguesa nos Anos Finais do Ensino Fundamental, escrito por Julieta Vilar Medeiros, Marleide Maria Arruda Linha- res Isaias e Samara Cornélio Fernandes dos Santos, onde objetiva- ram apresentar um percurso possível de reflexão sobre o fenômeno de monotongação com alunos do 6º ano do ensino fundamental nas aulas de língua portuguesa. No décimo capítulo, Currículo Escolar: referecial na transmissão da cultura e como ponto de partida para uma aprendizagem construcio- nista, os pesquisadores Moacir de Souza Júnior, Leila Melo Caja- zeira, Maria do Socorro Furtado Silva Silveira, Maria do Carmo da Silva Souza, Maria Cristiane Raimundo da Costa, Maria Ivanilda Cassimiro de Brito e Célia Maria da Silva, objetivaram apresentar um levantamento sobre currículo e tem a intenção de provocar uma reflexão, a partir de debates que acontecem frequentemente entre os profissionais da área educacional. No décimo primeiro capítulo, A Produção Textual Escrita em Livros Didáticos do Ensino Fundamental Anos Finais, escrito por Benigna Soares Lessa Neta e Mônica de Souza Serafim, com objetivo de analisar as propostas de produção textual escrita presentes em livros didáticos de Língua Portuguesa da primeira e da última série do ensino Ginasial, atual Ensino Fundamental Anos Finais. No décimo segundo capítulo, nominado Proposta de Ensino do Conjunto dos Racionais com Base na Teoria Histórico-Cultural com Abor- dagem Geométrica, produzido pelo autores Sarah Galatto Cancillier, Mateus Bitencourt, Maxwel Fernandes Bernardes e Eloir Fátima Mondardo Cardoso, que objetivou-se desenvolver, aplicar e avaliar uma proposta de ensino dos conjuntos dos racionais com base na Teoria Histórico-Cultural - THC. No décimo terceiro capítulo, intitulado Letramento Literário: relato de experiência de leitura em sala de aula virtual, dos pesquisadores Adilma Gomes da Silva Machado, Antônia Caroline Alves da Silva e Sidney Washington de Lima Melquiades, com objetivo de trabalhar o 10 eixo de leitura e oralidade a partir do gênero conto, visando as práticas de leitura: antes, durante e depois da leitura. No décimo quarto capítulo, As Tecnologias Digitais e o Ensino de Química: quais são as ferramentas gratuitas disponíveis para o desenvolvi- mento uma prática docente inovadora?, escrito por Maria Stella Nunes de Oliveira Nogueira, tem como objetivo disponibilizar algumas tecnologias digitais importantes para o ensino de Química. No décimo quinto capítulo, designado O Reflexo do Movimento Migratório na Rede Municipal de Ensino de Cuiabá: a prática do pro- fessor e sua formação continuada, os autores Taysa Paganotto Lemes e Caique dos Santos Silva, objetivaram abordar os aspectos legais que asseguram aos imigrantes e refugiados, os direitos fundamentais que permeiam sua formação educacional dentro do Brasil e em seus estados e municípios, nos quais se encontra, e quais políticas educa- cionais estão propostas e eles. No décimo sexto capítulo, Memórias de Verão: o lugar da ausência no romance ao Farol, de Virginia Woolf, da pesquisadora Francielle Apa- recida Garuti de Andrade, que tem como objetivo analisar o lugar da ausência no romance Ao Farol de Virginia Woolf à luz dos conceitos de memória coletiva e individual. No décimo sétimo capítulo, intitulado Documentário “Nosso Sagrado” no Combate ao Racismo Religioso no Espaço Escolar, do pes- quisador Jorge Santana, objetivou trazer as experiências das exibições e rodas de conversas do documentário “Nosso Sagrado” em diversas escolas privadas e públicas no estado do Rio de Janeiro. No décimo oitavocapítulo, Relato de Experiência: reflexões sobre o produtivismo acadêmico, avanços e desafios, da autora Tânia Aparecida Soares, com objetivo de apresentar análises e reflexões sobre o produ- tivismo acadêmico, seus avanços e desafios postos pela quantificação de produções, amparada pela política de avaliação. Diante do exposto, esperamos que as leituras sejam alvo de boas reflexões e de transformação da realidade educacional brasileira. Organizador 11 CONTEXTO HISTÓRICO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE EDUCAÇÃO ESPECIAL E INCLUSIVA NO BRASIL Dinéia Ghizzo Neto Fellini1 Elsa Midori Shimazaki2 Raquel Franco Ferronato3 INTRODUÇÃO A defesa pelo acesso de todos ao ensino, tornou-se bandeira dos organismos internacionais a partir da década de 1990, quando ganhou ênfase com a Declaração de Jomtien. A educação inclusiva passou a ser o centro das discussões, a partir da Declaração de Salamanca (1994) estando, posteriormente nos discursos e documentos de âmbito internacional, e leis e decretos de âmbito nacional, sendo preconizada como nova proposta de escolarização. Diante disso, as pessoas com deficiência, TGD e AH/SD, passaram a receber uma atenção maior, embora, os ideais que circundam tal proposta, nem sempre vão de encontro com a formação humana desejada e necessária defendidas pela Teoria Histórico-Cultural e pela Pedagogia Histórico-Crítica. Diante do cenário atual e fazendo uma comparação com o con- texto histórico da educação ofertada a esses sujeitos em tempos remotos, constata-se, evidentemente que melhorias ocorreram, inclusive no caráter de aceitação e acolhimento. Mas apenas isso, não é o suficiente, é a formação ofertada que devemos abordar como ponto de estudo. Para Orso (2008), atualmente defrontamo-nos com uma educação formal 1 Doutora em Educação (UEM). Professora Adjunta (UNILA). CV: http://lattes.cnpq.br/2603261007140303 2 Doutora em Educação (USP). Professora aposentada do Programa de Pós-Graduação em Educação (UEM). Professora (UNOESTE). CV: http://lattes.cnpq.br/9372609347074339 3 Doutora em Educação (UEM). Professora colaboradora (UENP). CV: http://lattes.cnpq.br/0978100384431802 12 voltada para a característica de adestramento, treinando os indivíduos, ofertando conteúdos abstratos e conformismo, ignorando a sua ver- dadeira função, a de promover uma transformação e revolução social. Diante dessa realidade pontuada pelo autor e reconhecendo a concepção de função da escola defendida por Saviani, logo, confron- tamo-nos com um problema maior, que não se remete apenas ao ato de incluir, mas reserva-se a formação que está sendo ofertada nestes espaços inclusivos de educação. Nesta perspectiva, o estudo aqui se propõe, a princípio, fazer um giro histórico e epistemológico a res- peito da educação especial e os encaminhamentos que resultaram na oficialização da educação inclusiva no Brasil. Logo, nosso foco será observar na região nordeste do Brasil, quais encaminhamentos as políticas do estado têm aplicado quanto ao processo inclusivo e seu caráter substancial de formação dos alunos, considerando a priori, os investimentos na área e as práticas pedagógicas de ensino DESENVOLVIMENTO A discriminação, a exclusão e o preconceito contra as pessoas com deficiência, são atitudes verificadas em diferentes civilizações no decorrer da história, sendo retratadas nas obras de Silva (1986), Mazzotta (2001), Bueno (1993), Bianchetti (1998), dentre outros autores. Cabe considerar nestas circunstâncias, duas questões principais, a adaptação social e a capacidade de produção, pois, a visão de inca- pacidade e anormalidade diante do socialmente “correto” e “normal”, foram motivos preconizados em muitas civilizações inóspitas. Em relação aos quatro estágios da Educação Especial, Miranda (2003) destaca que o primeiro, apresenta-se na era pré-cristã, cuja visão estereotipada das pessoas em relação a deficiência, desencadeava o abandono ou a eliminação desses sujeitos. Na era cristã, existiam duas concepções a respeito, uma considerada como castigo, a outra, pelo caráter de piedade, lhes garantiam a existência. O segundo estágio surge entre os séculos XVIII e XIX, período descrito pela segregação dessas 13 pessoas em instituições residenciais. O terceiro estágio, período que compreende o final do século XIX e meados do século XX, onde escolas especiais de caráter público passam a atender essas pessoas, e por fim, o quarto e último estágio, a integração social nas escolas por volta de 1970. É importante, de acordo com Bianchetti (1998), compreender sob a visão do materialismo dialético, como as sociedades primitivas e as atuais abordaram e abordam esse tema. Nas antigas civilizações, se manter vivo e colaborar com o grupo nas funções da caça e da pesca era inevitável, sendo assim, algumas tribos abandonavam aqueles integrantes que não apresentassem condições para tal função (BIANCHETTI, 1998). Embora o homem tenha adquirido ao longo do tempo, maior conhecimento sobre o assunto, para Fonseca (1995), o julgamento que distingue pessoas com deficiência das demais, está implícito na relatividade cultural que afasta ou exclui aqueles cuja presença, perturba ou ameaça a ordem social vigente. Com a expansão do Cristianismo, aos poucos, hospitais cristãos foram sendo criados para atender os doentes e as pessoas com defi- ciência. O enclausuramento ao qual eram submetidos, os impedia do convívio social (CARVALHO, 2009). A fundação de novas institui- ções específicas para o atendimento de cegos, paralíticos, deficientes mentais, em sua maioria mutilados pelas guerras, foram surgindo. O modelo místico perde aos poucos suas características e questiona- mentos em torno do teocentrismo surgem (CARVALHO, ROCHA e SILVA, 2006). O Humanismo trouxe novas concepções no período Renascentista e foi neste período que a atenção com as pessoas com deficiência repercute e o poder público passa a prestar ajuda aos mos- teiros, paróquias e hospitais (SILVA, 1986). No Brasil, esse trabalho inicialmente era desenvolvido pelos Jesuítas, paralelamente a catequização e o ensino das primeiras letras, além da cura de enfermidades. A primeira instituição fundada no Bra- sil foi a Casa da Misericórdia, entre 1545 a 1567, logo, outras foram sendo criadas (Bahia – 1549; Rio de Janeiro – 1570; Recife – 1590; 14 Espírito Santo – 1595) (SILVA, 1986). Na área da surdez, destaca-se a criação do Instituto Nacional de Surdos-Mudos em Paris em 1770. No Brasil destaca-se dois períodos importantes. O primeiro período vai de 1854 a 1956 com iniciativas oficiais e particulares isoladas e o segundo período, de 1957 a 1993 com iniciativas oficiais de âmbito nacional (MAZZOTTA, 2001). O primeiro instituto criado em 1854 foi o Imperial Instituto dos Meninos Cegos, atual Instituto Benjamin Constant. O segundo foi o Instituto dos Surdos-Mudos, atualmente, ou seja, Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), criado em 1857 (BUENO, 1993; MAZZOTTA, 2001). Na metade do século XIX, devido a dualidade na educação dos surdos, o uso de gestos e a oralidade, foi realizado um congresso em Milão, em 1880, cuja votação, optou-se pelo oralismo como método de trabalho nas instituições. É importante frisar que na segunda metade do século XIX, preocupações em torno do potencial das pessoas com deficiência no sistema de produção visando suprir suas necessidades de sobrevivência repercutiram (SILVA, 1986), a exemplo, fábricas Ford registravam em 1908, um total de 7.882 tarefas especializadas. Desse total, enfatizava que “670 tarefas podiam ser preenchidas por homens sem pernas, 2.637 por homens com uma perna só, duas por homens sem braços, 715 por homens com um braço só e 10 por homens cegos” (TOFFLER, 1980, p. 62 apud BIANCHETTI, 1998, p. 38-9). A institucionalização passou a ser contrariada, pois seus objetivos estavam distantes de desenvolverem uma vida independente a essas pessoas, destaca-se ainda, que esse modelo de atendimento não priori-zava a educação, que gerou muitos adeptos a concepção de integração que estava “[...] alicerçado na oferta de serviços, com a finalidade de “normalizar” as pessoas com deficiência” (CARVALHO, 2008, p. 110). Sendo assim, a integração, tida como novo paradigma, surge com a possibilidade de assemelhamento entre “normais” e “anormais”. A Educação Especial voltada ao desenvolvimento educacional dessas pessoas, passa a ser considerada e difundida. 15 Pesquisas em torno das pessoas com deficiência desencadearam múltiplas facetas. No Brasil, em 1883, ocorreu o 1º Congresso de Instrução Pública, tendo como pressupostos, a educação das pessoas cegas e surdas. A criação de um currículo, bem como, a formação de professores na área, estava entre as prioridades (MAZZOTTA, 2001). Esse movimento já não se caracterizava como reabilitação, mas apresentava outro viés, mais educacional. No aspecto produtivo, esse período se sobressaiu, muitas pes- quisas realizadas pela escola vygotskiana, iniciados em 1917 e, por conseguinte, nos anos seguintes, vieram a contribuir para as pessoas com e sem deficiência. A Teoria Histórico-Cultural foi construída num cenário de insatisfação da classe operária na Rússia, dos quais, visavam à socialização dos meios de produção e da propriedade privada. Vygot- sky procurou aprofundar seus conhecimentos no desenvolvimento da linguagem e do pensamento humano, mas seus estudos não se restrin- giam apenas ao contexto geral da educação, mas também, a educação das pessoas com deficiência. O objetivo é que a educação permita o desenvolvimento das funções psíquica superiores, por conseguinte, a compensação da deficiência (TULESKI, 2008). Para Ross, é importantíssimo refletir sobre as transformações que ocorreram e ocorrem na sociedade, principalmente na questão econômica, porém, “[...] não podemos dar primazia às interpretações de cunho econômico, sob o risco de negligenciar mudanças de men- talidade e de comportamento que também ajudam a compreender o papel da educação no processo de integração do portador de deficiência” (1998, p. 64). A marginalização das pessoas com deficiência ocorreu no mundo do trabalho nos diferentes períodos históricos, contudo houve, iniciativas para atender essas pessoas, devido ao processo de urbanização e industrialização, e nas áreas da saúde e da educação, foram introduzidas pela sociedade civil, criando assim, novas organizações com objetivos de trabalhos diferenciados (LANNA JUNIOR, 2010). 16 A partir de 1954, organizações filantrópicas foram sendo implan- tadas, como o das pessoas com Deficiência Física, devido ao surto de poliomielite que se desencadeou nesse período, entre elas, a Associação de Assistência à Criança Defeituosa (AACD) de São Paulo (LANNA JUNIOR, 2010). O Brasil superou os demais países quanto ao aten- dimento, enquanto os demais países priorizavam os mutilados das guerras, no Brasil, atendia-se independente da causa de sua deficiência. Bueno (1993) adverte que enquanto essas entidades se formalizavam em instituições especializadas, atendendo às diferentes deficiências, o poder público inseria seus investimentos nas classes especiais em escolas regulares, restringindo-se à deficiência mental. Na década de 50, o Brasil continha inúmeras instituições públi- cas, filantrópicas e privadas na área. No período que segue até 1959, aumentou-se o número de estabelecimentos, em sua grande maio- ria de caráter público (MIRANDA, 2003). Outros movimentos a partir da década de 1960 foram surgindo, expansão de instituições privadas de caráter filantrópico sem fins lucrativos, isentando assim, o governo da obrigatoriedade na oferta desse atendimento na rede pública de ensino (MIRANDA, 2003). A primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), nº 4.024/61, criada em 1961, apresenta nas suas alíneas nos artigos 88 e 89, as pessoas com deficiência. Destaca-se que a educação dos excepcionais passa a ser enquadrada no sistema geral de educação, tendo como princípio a integração desses sujeitos a sociedade. A lei veio garantir tratamento especial por meio de empréstimos, subvenções e bolsas de estudo para as iniciativas privadas que tinham atendimentos eficientes na questão educacional dessas pessoas. Na LDBEN nº 5.692 de 1971, aparece em seu Art. 9º, com base nas normas fixadas pelos Conselhos de Educação, considerações acerca da educação de alunos com deficiência, principalmente os alunos com Deficiência Física e Intelectual. De acordo com Ferreira (2006), a lei veio atribuir definições para a educação das pessoas com deficiência, 17 entre elas, a efetivação de carreiras dos professores para atuarem com esses alunos e, por fim, a organização de equipes que trabalhem na reabilitação dessas pessoas, bem como, na educação formal. A influência da Declaração dos Direitos das Pessoas Deficientes, aprovada pelas Nações Unidas em 1975 foi decisiva nas reformas de esfera educacional. Miranda (2003) aponta que a prática de inte- gração social ocorrida a partir da década de 80, teve repercussão no mundo todo, abrangendo também, a Constituição Federal (CF/88, artigo 208), estabelecia o direito de todos pela educação e o atendi- mento de pessoas com deficiência. Consolidaram-se, assim, até a década de 1990, as classes especiais nas escolas de ensino comum, e as salas de recursos para alunos com deficiência sensorial. Na constituição brasileira destaca-se a Educação Especial como modalidade educativa de abrangência desde a infância até o Ensino Médio. Esse período representou a disseminação de inú- meros documentos, propostos por organismos internacionais em defesa do direito de todos a educação, inclusive das pessoas com deficiência, fortalecendo assim, o processo da inclusão. A interferência constante de outros setores na esfera educacional como a política e a economia tornaram-se notórias. Os financiamentos no sistema educacional vão permitindo a participação do Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial (BM), o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BIRD), além da Unesco, que aparece após a Segunda Guerra Mundial com o intuito de promover a paz e criar condições de acesso à educação. Entre as conferências realizadas, a de Jomtien na Tailândia, em 1990, representaria a proposta mais complementar para a reso- lução dos problemas sociais e, consequentemente, educacionais, mas a reunião entre os países latino-americanos e o Caribe, que ocor- reria no final de 1989 e início de 1990, no Equador, representou a possibilidade de reverter as condições dos países desestabilizados economicamente pela dívida externa em benefícios posteriores para a área educacional (GADOTTI, 1999). 18 A partir da década de 1990, observa-se um pacote de reformas do BIRD no que tange à descentralização dos estados. Trata-se de uma nova configuração nas políticas educacionais e na Reforma Estatal. Entre essas reformas, constavam aos governos em âmbito educacional: “(1) fixar padrões, (2) facilitar os insumos que influenciam o rendimento escolar, (3) adotar estratégias flexíveis para a aquisição e uso de tais insu- mos; e (4) monitorar o desempenho escolar” (ALTMANN, 2002, p. 80). No Brasil, a escola torna-se o espaço de mudanças e as políticas versam para a superação do déficit escolar. Paralelamente a esse discurso, dá-se ênfase a educação inclusiva e o acesso das pessoas com deficiência a escolarização. Na Lei nº 8.069/90 no Art. 54, no inciso III, preconiza o “atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino” (BRASIL, 1990). Em 1994, à Declaração de Salamanca, reafirma e reconhece a necessidade urgente de providências na área educacional, além do compromisso com a educação de crianças, jovens e adultos com defi- ciência no sistema regular de ensino (UNESCO, 1994). Em janeiro de 1995, Fernando Henrique Cardoso assume a presidência da República, seu mandato reforçou algumas normatiza-ções e instrumentalizou novas, como “modalidade de educação escolar, oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, para educandos portadores de necessidades especiais” (BRASIL, 1996). Além disso, atribuem serviços e apoios especiais para o atendimento a esses alunos na rede regular, considerando as peculiaridades de cada um, e o AEE é necessário quando a deficiência impede a frequência na classe comum. Em 2001, a Declaração Internacional de Montreal sobre Inclu- são foi aprovada no Canadá pelo Congresso Internacional “Socie- dade Inclusiva”, cujo objetivo maior é a parceira de todos os estados, buscando soluções quanto aos estilos de vida que sejam sustentáveis, além de serem seguros, acessíveis, adquiríveis e úteis, destacando que “o desenho acessível e inclusivo de ambientes, produtos e servi- ços aumenta a eficiência, reduz a sobreposição, resulta em economia 19 financeira e contribui para o desenvolvimento do capital cultural, econômico e social” (CANADÁ, 2001). Em 2004, foi aprovado o Decreto nº 5.626, que enfatiza que o professor e instrutor de LIBRAS precisam ter formação em Letras/ Libras ou Pós-Graduação em LIBRAS, tanto para surdos quanto para ouvintes, porém dar-se-á prioridade para professores surdos (BRASIL, 2005). Em 2005, cria-se os Núcleos de Atividades de Altas Habilidades/ Superdotação (NAAH/S) em todos os estados e no Distrito Federal, cujo objetivo era orientar os pais, capacitar profissionais, além de destacar o atendimento especializado desses alunos (BRASIL, 2010). De acordo com Solano e Rodrigues (2010), no ano de 2007, foi lançado pelo MEC o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), mais conhecido como “O PAC da Educação” e aprovado o Decreto nº 6.094/07 que dispõe sobre a implementação do Plano de Metas Compromisso Todos pela Educação, um regime colaborativo entre a União Federal, estados e municípios (BRASIL, 2007). Em 2008, foi aprovada a “Política Nacional de Educação Inclu- siva”, a qual se refere à distribuição de recursos do Fundo de Manuten- ção e Desenvolvimento da Educação Básica (FUNDEB). Seguindo os objetivos dessa política, as escolas têm a obrigação de ofertar o AEE, ou seja, a organização dos serviços e recursos da Educação Especial de forma complementar ao ensino regular. Com base na Constitui- ção Nacional, a oferta busca superar a visão do caráter substitutivo da Educação Especial ao ensino comum, ofertado no turno inverso, garantindo ao aluno o acesso à educação comum. 0a forma, com vistas a apresentar orientações que devem nortear os sistemas de ensino para a efetivação do direito ao AEE, fica proposto na Resolução CNE/ CEB nº 4/2009 o financiamento via Fundeb. Diante dessas perspectivas, a inclusão comporta um novo modelo de atendimento que almeja reconhecer esses alunos como parte consti- tutiva histórica da sociedade. Da exclusão para a inclusão social foi um longo período, porém muito se tem a fazer, e oportunidades a oferecer. 20 A escola especial é necessária como suporte de atendimento às neces- sidades desses alunos, mas a inclusão de fato se dá pela possibilidade de serem reconhecidos como pessoas, de promover a interação entre seus pares e de se desenvolverem humanamente. CONSIDERAÇÕES FINAIS O contexto de construção histórica da Educação Especial nunca esteve desassociado das relações de poder econômico, social e religioso que afetaram a formação das pessoas com deficiência. As formas de discriminação ou tolerância, antes vivenciadas por essas pessoas nos grupos sociais ao qual pertenciam, denotam para paradigmas que hoje já foram desmistificados, demonstrando que independente da deficiência, cada sujeito com sua peculiaridade, apresenta capaci- dade de conviver em sociedade, e na maioria dos casos, apresentam condições de estudar e trabalhar. Entende-se, que o processo adotado como inclusão não se refere apenas a inserção desses sujeitos no meio social, é necessário reconhecer e respeitar a diferença do outro, a sua condição, limitações e potencia- lidades. O formato precedente a inclusão se efetivava pela reabilitação, e em sua grande maioria, tinham acesso, apenas os mais abastados financeiramente. Do período de abandono e eliminação dessas pes- soas até a segregação, poucas mudanças atitudinais foram observadas. Mudavam-se os termos, mas não se modificavam as práticas e atitudes. O assistencialismo que predominou por certo período, delimitava as pessoas com deficiência, tirando-lhes a autonomia e privando-os de demonstrar suas potencialidades na educação e no trabalho. O reconhecimento e a valorização decorreram da credibilidade de profis- sionais que reconheceram a capacidade desses sujeitos de participarem ativamente da sua própria formação cultural, social e linguística. Esse reconhecimento permitiu que amparos legais oportunizassem o acesso ao mercado de trabalho, a escolarização e a participação social 21 Embora se reconhece a influência política e econômica na tra- jetória das escolas públicas de um modo geral, e na Educação Espe- cial não seria diferente, cujo os propósitos, ocorrerão também no caráter profissionalizante de formação, assim como a transferência da Educação Especial para o setor privado, mas é relevante pontuar que todos esses encaminhamentos, também foram positivos, permi- tiram que muitos sujeitos antes ignorados e esquecidos, tivessem o direito ao trabalho e a escola. O retorno não foi tão imediato, mas foi o suficiente para que novas propostas fossem aprovadas e leis fossem promulgadas. Mesmo com uma abordagem voltada para atender ao mercado de trabalho, a Declaração de Salamanca, cujo princípio era a equalização de oportu- nidades para as pessoas com deficiência, reforçou o direito a educação. Posteriormente, as leis e normatizações oportunizaram o acesso, bem como, a escolha pela modalidade de ensino, oportunizando as pessoas com deficiência, o direito e a autonomia de escolha. O que deve ser primordial em ambas as modalidades, Educação Especial e Educação Inclusiva, é o acesso aos conteúdos sistematiza- dos e a formação ofertada. Nos três estados analisados, fica evidente que os documentos norteadores da educação inclusiva nos estados, seguem as normativas propostas na federação. Os estados do Ceará e Bahia reforçam o atendimento escolar desses alunos desde na edu- cação infantil, creches e pré-escolas, sempre que houver necessidade, mediante avaliação, o atendimento no AEE também. Essa atenção desde a educação infantil apresenta-se necessária, principalmente no caso dos surdos em cidades que não tenham escolas de surdos. Quanto a organização curricular, Pernambuco assegura enca- minhamentos para uma ação interdisciplinar adequada, com proce- dimentos e instrumentos que orientem melhor o atendimento desse alunado. Esta é uma preocupação necessária e determinante para a formação desses alunos. No Ceará, destacou-se além de currículos, também métodos, técnicas e recursos educativos visando uma orga- nização específica. Essa ênfase ao currículo, embora seja contemplada nos documentos, na sala de aula da rede regular, se apresenta como um 22 desafio aos docentes, devido ao número de alunos e as peculiaridades que apresentam. No estado da Bahia, ressalta o documento norteador, a organização dos currículos escolares e em seus projetos pedagógicos as disposições necessárias para o atendimento desses alunos. O que se observa é que os projetos políticos pedagógicos das escolas nem sempre atendem as exigências que compreendem as nor- mativas na área do AEE, na maioria dos casos, esses documentos estão descontextualizados da realidade objetiva de suas escolas. Ademais, no quesito de serviços, materiais e recursos humanos, os documentos seguem à risca o que determina as leis federais, mas na prática, o desafio maior está em oferecer profissionais habilitados para atuarem na área. Segundo a Teoria Histórico-Cultural, a inclusão tem entre seus pontos positivos, a interação social e a mediação.Para Vygotski, a compensação da deficiência caracteriza-se pelas condições que o meio social propicia ao sujeito, e a educação intencional e dirigida corrobora positivamente para o desenvolvimento das funções psíquicas superiores, que no caso das pessoas com deficiência podem ser estimuladas por meio de instrumentos mediadores como os conhecimentos científicos. Dessa forma, os avanços adquiridos até então na Educação Especial e na Educação Inclusiva devem ser analisados pelo caráter educativo que cada modalidade tem oportunizado e é na prática escolar que se pode compreender, se realmente as lacunas de práticas excludentes estrão sendo sanadas com um ensino que oportunize a hominização desses sujeitos. REFERÊNCIAS BIANCHETTI, L. Aspectos históricos da apreensão e da educação dos considerados deficien- tes. In: BIANCHETTI, L.; FREIRE, I. M. (Orgs.). Um olhar sobre a diferença: Interação, trabalho e cidadania. Campinas: SP: Papirus, 1998, pp. 21- 51 (Série Educação Especial). BRASIL. Lei nº 5.692, de 11 de agosto de 1971. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Ministério da Educação/ MEC. Brasília: 1971. Disponível em: http://www.planalto. gov.br/ccivil_03/leis/L5692.htm. Acesso em: 23 jul. 2012. 23 BUENO, J. G. S. Educação especial brasileira: integração/segregação do aluno diferente. São Paulo: EDUC, 1993. CARVALHO, A. 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Ed. – Maringá: Eduem, 2008. 25 PROCESSO FORMATIVO NA PERSPECTIVA DA TEORIA CRÍTICA DA SOCIEDADE: UMA ANÁLISE DA POLÍTICA NACIONAL DE ALFABETIZAÇÃO (PNA) Vanessa Freitag de Araújo4 Gabriely Silveira Nogueira5 INTRODUÇÃO Trata-se de uma análise da Política Nacional de Alfabetiza- ção (PNA) lançada em 2019 pelo Ministério da Educação à luz da perspectiva da Teoria Crítica da Sociedade. O debate sobre a alfa- betização e as limitações do processo é uma questão presente desde o final do século XIX, quando o Brasil fazia os primeiros ensaios na busca de soluções para consolidar a estrutura educativa e aten- der a demanda social do período. Falar sobre o processo de alfabetização implica, necessariamente, situá-lo no quadro social, político e econômico mais amplo, a fim de promover uma reflexão crítica sobre as condições históricas que interferem em sua produção. É preciso enfatizar que a alfabetização, vincula-se a compreensão da educação na condição de movimento geral, presente na sociedade com a tarefa de moldar os indivíduos aos estágios históricos em desenvolvimento ou em manutenção. A história da alfabetização no Brasil conecta-se aos métodos de ensino. A disputa entre métodos, que objetivavam garantir a inserção dos educandos no mundo da cultura letrada, produziu uma variedade 4 Doutorado em Educação (UEM). Professora do Departamento de Teoria e Prática da Educação (UEM). CV: http://lattes.cnpq.br/8491095222648301 5 Pós-graduanda em Arteterapia, Musicalização e Contação de Histórias no Ambiente Escolar (Instituto Rhema). Pedagoga (UEM). CV: http://lattes.cnpq.br/9028291345523180 26 de teorizações apresentadas em estudos dedicados à investigação dessa problemática. Na primeira década republicana utilizou-se o método analítico, a partir da segunda metade da década de 1920, passou-se a empregar o método analítico-sintético. No início da década de 1980, observa-se no Brasil, “[...] a mudança conceitual a respeito da aprendizagem da língua escrita” (SOARES, 2004, p. 9), grande parte das escolas aderiram ao construtivismo, fruto das pesquisas de Emília Ferreiro e Ana Teberosky a respeito da Psicogênese da Língua Escrita. Na época citada, constatou-se um grave problema no processo de alfabetização, o elevado índice de pessoas consideradas “analfabetos funcionais”, ou seja, que decodificam os signos linguísticos, mas não conseguem fazer o uso social da linguagem escrita. Os estudos da área passam a discutir e promover reflexões que indicam ser fundamental a compreensão entre o processo de alfabetização e letramento. Soares (2004) aponta que o construtivismo, ao congregar o uso social da linguagem escrita, priorizando o processo de letramento em detrimento da alfabetização, trouxe outro problema à tona para o pro- cesso de aquisição da língua escrita no país. O processo de alfabetização dissociou-se do processo de letramento, gerando uma nova forma de fracasso escolar, alunos não alfabetizados ou semi alfabetizados que estão matriculadosno ensino fundamental. O hiato proveniente das falhas acumuladas durante o processo de alfabetização impacta na dimensão formativa dos indivíduos, levando a escola na contramão de sua função social de promoção do homem, uma vez que é função da educação tornar o indivíduo “[...] cada vez mais capaz de conhecer os elementos de sua situação a fim de poder intervir nela transformando-a no sentido da ampliação da liberdade, comunicação e colaboração entre os homens” (SAVIANI, 1980, p. 52). Tal temática não é inédita, contudo, ao realizar um levantamento bibliográfico conciso para conhecer a área de estudo e as produções 27 relativas ao tema, sinalizou-se a possibilidade de uma análise alicerçada nos pressupostos da Teoria Crítica da Sociedade, por constituir-se, “enquanto uma vertente metodológica fundamental para se com- preender as implicações da razão moderna e o contexto cultural da sociedade de massas no capitalismo tardio” (FABIANO, 2014, p. 126). HISTÓRIA DA ALFABETIZAÇÃO NO BRASIL: QUESTÃO DOS MÉTODOS Ao tomar a PNA como objeto de estudo pretende-se realizar uma reflexão crítica a respeito do conceito de alfabetização apresen- tado pelo documento. A relevância do estudo vincula-se ao alicerce teórico-metodológico, que será observado no sentido de assunção da dimensão crítica, que permitirá identificar os princípios e objetivos propostos para condução do processo de alfabetização nas escolas públicas. Objetiva-se então apresentar reflexões sobre a temática da alfabetização, com o intuito de responder a seguinte questão: por que o processo de alfabetização ainda é uma tarefa complexa para alunos e professores? Algumas hipóteses podem auxiliar na resposta a este questionamento. De acordo com estudos de Smolka (2003) a tarefa pedagógica de alfabetização nas escolas, tem favorecido o elevado índice de crianças que não consegue aprender a ler e escrever, colocando-as à margem de uma sociedade letrada, globalizada e dominada pela indústria cultural. Nessas perspectivas, a alfabetização atua enquanto: [...] instrumento e veículo de uma política educacional que ultrapassa amplamente o âmbito meramente escolar e acadêmico. A ideologia da ‘democratização do ensino’ anuncia o acesso à alfabetização pela escolarização, mas, efetivamente, inviabiliza a alfabetização pelas próprias condições da escolarização: oculta e se esconde nessa ideologia a ilusão e o disfarce da produção do maior número de alfabetizados no menor tempo possível. 28 Nesse processo da produção do ensino em massa [...], as práticas pedagógicas não apenas discriminam e excluem como emudecem e calam (SMOLKA, 2003, p. 16). Ao reconhecer os limites impostos pelo paradigma contem- porâneo constituído sob a lógica do capitalismo tardio, almeja-se estabelecer relações para compreender a importância do processo de alfabetização, como auxiliar na formação da autonomia social dos indivíduos. Portanto, precisa ser concebido como “uma prática social e cultural em que se desenvolvem a formação da consciência crítica [...]” (GONTIJO, 2008, p. 198). Ao abordar sobre métodos de alfabetização, refere-se, em uma perspectiva histórica, a um processo cognitivo e social de aquisição inicial da leitura e da escrita que se respalda em conceitos metodoló- gicos. Para Soares (2016), é esse conjunto de procedimentos pautados em teorias e em princípios que encaminha a aprendizagem inicial da leitura e da escrita designada como alfabetização. Nesse sentido, quando pergunta-se qual a razão para o processo de alfabetização ainda ser uma tarefa complexa para alunos e professores, podemos nos assentar no entendimento de que, quando transformamos os métodos em questões a serem respondidas sobre diversas concepções, sempre priorizamos um determinado objeto: Uma reflexão sobre a questão dos métodos de alfabeti- zação evidencia que as causas de que métodos tenham sido, e continuem sendo, uma questão é que cada um deles privilegia determinada função, determinada faceta, determinados pressupostos teóricos ignorando ou mar- ginalizando os demais (SOARES, 2016, p. 32). É possível observar que perduram questionamentos sobre o que se ensina, sendo que a escolha do conteúdo, além da questão técnica, envolve uma questão política imbricada a interesses que ultrapassam a esfera pedagógica. Ela se relaciona a um projeto educativo amplo e 29 permeado por disputas e por interesse alinhados ao capital, portanto, marca-se a cada tempo uma espécie de tendência a ser adotada pelas escolas públicas na área da alfabetização. Tal conduta política, antes mesmo de ser pedagógica, apadrinha um só método deixando os outros isolados. Nessa perspectiva, a história da alfabetização conec- ta-se aos métodos ao longo dos períodos, para melhor entendermos de que forma a polêmica acerca da questão do método explicada por Soares (2016) permanece até hoje. A necessidade de um sistema público de ensino no início do Brasil República carregava junto a carência de um novo homem com valores republicanos, que resultaria, posteriormente, em um ensino público centrado na moral civil. O fim do Brasil Império deixou lacunas em sua organização com as poucas escolas que restavam. Nesse período, para ensinar a leitura era utilizado o método sintético. De acordo com Mortatti (2016), 1876 foi um marco na história da alfabetização, pois coincide com a publicação, em Portugal, da Cartilha Maternal ou Arte a Leitura, escrita por João de Deus. A partir de 1880, esse material didático passou a ser divulgado, ordenadamente, nas províncias de São Paulo e do Espírito Santo: Esse 1º. momento se estende até o início da década de 1890 e nele tem início uma disputa entre os defensores do ‘método João de Deus’ e aqueles que continuavam a defender e utilizar os métodos sintéticos: da soletração, fônico e da silabação. Com essa disputa, funda-se uma nova tradição: o ensino da leitura envolve necessaria- mente uma questão de método, ou seja, enfatiza-se o como ensinar metodicamente, relacionado com o que ensinar; o ensino da leitura e escrita é tratado, então, como uma questão de ordem didática subordinada às questões de ordem lingüística (da época) (MORTA- TTI, 2016, p. 6). 30 Mortatti (2016, p. 1) explica que a face mais visível da alfabeti- zação se relaciona aos métodos de alfabetização e a suas alternâncias, que desde o século XIX geram “[...] tensas disputas relacionadas com ‘antigas’ e ‘novas’ explicações para um mesmo problema: a dificuldade de nossas crianças em aprender a ler e escrever, especialmente na escola pública.” Nesse sentido, podemos compreender esse período da história da alfabetização em uma perspectiva de transformações sociais, econômicas, políticas e educacionais. Mendonça (2011) organiza, de maneira cronológica, a histó- ria da alfabetização em quatro períodos: o primeiro ocorreu entre a antiguidade e a idade média; o segundo, entre os séculos XVI e XVIII; o terceiro período teve início em meados da década de 1980 e, finalmente, o quarto período, denominado pela autora de “reinvenção da alfabetização”, que apresenta discussões sobre o contexto atual. Os denominados métodos sintéticos priorizavam a menor unidade existente, sucessivamente em direção à maior unidade, ou seja, dava-se maior importância ao valor sonoro das letras e sílabas, fazendo com que, da soletração, prosseguisse para os métodos fônicos e silábicos: Assim, os métodos da soletração, o fônico e o silábico são de origem sintética, pois partem da unidade menor rumo à maior, isto é, apresentam a letra, depois unindo letras se obtém a sílaba, unindo sílabas compõem-se palavras, unindo palavras formam-se sentenças e jun- tando sentenças formam-se textos. Há um percurso que caminha da menor unidade (letra) para a maior (texto) (MENDONÇA, 2011, p. 28). Surgem também os chamados métodos analíticos que, segundo Soares (2016, p. 24), “[...] passou-se a considerar a realidade psicoló- gica da criança”, no qual o percurso traçadoagora é da maior unidade sonora para a menor, isto é, parte-se da palavra escrita, segmentando-a até chegar ao menor valor sonoro: sílabas e grafemas. Soares (2016) afirma que dessas duas tendências nasceu a tão polêmica e controversa questão, a que predominou até a década de 1980, com o chamado 31 movimento pendular, pois ao longo do período ambas as concepções predominaram, em momentos distintos, durante quase todo o século. Apesar de serem consideradas distintas e antagônicas, elas estão inse- ridas nos mesmos moldes pedagógicos e psicológicos. A primeira transformação no paradigma do estudo da alfabetiza- ção ocorreu no final do século XIX. De acordo com Soares (2016), essa foi a primeira ruptura metodológica que ocorreria ao longo dos séculos; posteriormente, na década de 1980, temos uma segunda e decisiva mudança no paradigma da alfabetização, com a chamada psicogênese da língua escrita, difundida no Brasil pelo estudo de Emília Ferreira: A partir do início da década de 1980, essa tradição pas- sou a ser sistematicamente questionada, em decorrência de novas urgências políticas e sociais que se fizeram acompanhar de propostas de mudança na educação, a fim de se enfrentar, particularmente, o fracasso da escola na alfabetização de crianças. Como correlato teórico- metodológico da busca de soluções para esse problema, introduziu-se no Brasil o pensamento cons- trutivista sobre alfabetização, resultante das pesquisas sobre a psicogênese da língua escrita desenvolvidas pela pesquisadora argentina Emília Ferreiro e colaboradores (MORTATTI, 2016, p. 10). O novo paradigma que buscava evitar o fracasso escolar contras- tava com os métodos sintéticos e com os analíticos, trazendo consigo uma nova perspectiva a respeito da alfabetização: o centro da apren- dizagem agora é deslocado do professor para o aluno. Questionando os métodos e as cartilhas, o construtivismo buscava afastar-se das práticas tradicionais em que ambos se pautavam. Apesar do cons- trutivismo, o fracasso escolar persistia, trazendo em evidência outro problema que agora não mais atinge os anos iniciais, mas se alastra por todo o ensino fundamental. Mendonça (2011, p. 24), aponta que esse impasse consistia em priorizar o processo de letramento, consi- derando o uso social da linguagem escrita “[...] em detrimento dos 32 conhecimentos específicos, indispensáveis ao domínio da leitura e da escrita, que ficam diluídos no processo”. A controversa questão que acompanha o processo de alfabetização até os dias atuais com seus altos índices de reprovação escolar e de baixo desempenho estudantil nos exames nacionais e internacionais de proficiência na Língua Portuguesa. Para responder o questionamento essencial dessa pesquisa, Mendonça (2011) enfoca o quarto período da história da alfabetização, denominado “reinvenção da alfabetização”: Sabe-se, por meio de pesquisas institucionais que, hoje, no Brasil, apenas 15% dos alunos concluem a Educação Básica sabendo ler e escrever. Deste modo, se o fracasso até meados da década de 1980, quando se usava car- tilha era da ordem de 50% na 1ª série, hoje, é de 85% na 8ª série. Nesse contexto, uma nova metodologia, fundamentada na sociolinguística e na psicolinguística, propõe a organização do trabalho docente e a sistema- tização da alfabetização cujo objetivo é o de alfabetizar letrando. Sugere um trabalho que partindo da realidade do aluno desenvolva e valorize sua oralidade por meio do diálogo, que trabalhe conteúdos específicos da alfa- betização e utilize estratégias adequadas às hipóteses dos níveis descritos na psicogênese da língua escrita. Recomenda, também, a leitura de textos de qualidade, de diferentes gêneros, interpretação e produção tex- tual, estratégias indispensáveis ao desenvolvimento de aspectos específicos da alfabetização aliados a sua função social (MENDONÇA, 2011, p. 24). Tais informações referem-se aos dias atuais que, devido ao contexto histórico, pautam-se nas políticas voltadas à alfabetização, investigando uma resposta para tal fracasso. Fica evidente em ava- liações realizadas, sobretudo na Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA), que o Brasil enfrenta uma dificuldade em alfabetizar os alu- nos. As lacunas de aprendizagem podem ser observadas desde muito cedo no processo de escolarização das crianças. A partir das últimas 33 edições da ANA (2014 e 2016), é possível perceber que a maioria das crianças terminam a primeira etapa do ensino fundamental sem que estejam alfabetizadas, já que “em 2016, menos da metade dos alunos do 3º ano do Ensino Fundamental atingiram níveis de proficiên- cia suficientes em Leitura e Matemática: 45,3% e 45,5%, respecti- vamente” (BRASIL, 2019, p. 52). É importante ressaltar as desigualdades presentes no sistema escolar brasileiro. Segundo o documento, 14,1% das crianças que estão abaixo do nível socioeconômico possuem uma alfabetização aceitável no quesito leitura. No entanto, crianças com alto índice socioeconômico alcançam 83,5% nas competências de leitura. Em 2016, os resultados da ANA mostraram que 54,73 % dos 2 milhões de alunos que concluíram o 3° ano do ensino fundamental tiveram um desempenho insatisfatório em relação à compreensão da leitura. No quesito escrita, 33,95% apresentaram estar em níveis insufi- cientes (1, 2 ou 3), ou seja, entre as crianças de 8 anos, estimativamente 680 mil alunos identificados no nível 1 e 2 não conseguem produzir um texto coerentemente; já em relação às competências em matemática, 54,46% apresentaram estar em uma posição abaixo do esperado. Tais resultados demonstram que o objetivo de alfabetizar todas as crian- ças, no máximo, até o final do 3º ano do ensino fundamental não foi alcançado como propõe a meta 5. O Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes (Pisa) tem como alvo os estudantes entre 15 anos e 2 meses e 16 anos e 3 meses. No ano de 2015, o Brasil ficou em 59° lugar em leitura e em 65° lugar em matemática nessa avaliação externa: Dos estudantes brasileiros, 51% ficaram abaixo do nível 2 em leitura, patamar mínimo necessário para o pleno exercício da cidadania, segundo a OCDE. Em matemática, 70,3% situaram-se abaixo do nível 2, sendo a pontuação média de 377 pontos, ao passo 34 que a média dos estudantes dos países membros da OCDE alcançou 490 pontos (BRASIL, 2019, p. 11). Com os dados expostos, é possível perceber que aquele percalço em relação à dificuldade de se alfabetizar observado nos textos que perduram por décadas, ainda é uma problemática presente. Segundo os resultados do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf ), do Instituto Paulo Montenegro, 3 a 10 brasileiros com idades entre 15 e 64 anos são considerados analfabetos funcionais. POLÍTICA NACIONAL DE ALFABETIZAÇÃO À LUZ DA TEORIA CRÍTICA DA SOCIEDADE Os conceitos da Teoria Crítica da Sociedade possibilitam uma análise sobre a crise da formação e nos dirigem a fatores contem- porâneos convergentes com uma educação pautada em princípios que se adequam ao capital e que perpetuam a semiformação. Nos termos de Adorno (1995, p. 21), a semiformação é um mecanismo da Indústria Cultural que ameaça a subjetividade, pois “ocorre uma interferência na apreensão da sociedade pelos seus ‘sujeitos’ pelo meca- nismo da ‘semiformação’: seja com conteúdos irracionais, seja com conteúdos conformistas”. Considerando o princípio contraditório que rege a sociedade burguesa, as classes sociais, Adorno (2005, p. 2, grifos nossos) afirma que a: [...] crise da formação cultural não é um simples objeto da pedagogia, que teria que se ocupar diretamente desse fato, mas também não pode se restringir a uma sociolo- gia que apenas justaponha conhecimentos a respeito da formação. Os sintomas de colapso da formação cultural que se fazem observar por toda parte, mesmo no estrato das pessoas cultas, não se esgotam com as insuficiências do sistema e dos métodos da educação, sob a crítica de sucessivas gerações. Reformas pedagógicas isoladas,indispensáveis, não trazem contribuições substan- 35 ciais Poderiam até, em certas ocasiões, reforçar a crise, porque abrandam as necessárias exigências a serem feitas aos que devem ser educados e porque revelam uma inocente despreocupação frente ao poder que a realidade extrapedagógica exerce sobre eles [ ] Assim, ao analisar as políticas educacionais que estão expressas nos programas e nas ações que devem ser executadas pela escola, verifi- ca-se a presença do dualismo presente na própria sociedade reproduzido via conteúdos curriculares e sob a forma de conhecimento relacionado à semiformação. Para Adorno (1996, p. 1), a semiformação é o reverso da formação; está relacionada ao “colapso da formação cultural que se fazem observar por toda parte, mesmo no estrato das pessoas cultas, não se esgotam com as insuficiências do sistema e dos métodos da educação, sob a crítica de sucessivas gerações”. Ao contrário disso, a formação deveria dizer respeito: [...] ao indivíduo livre e radicado em sua própria consciência, ainda que não tivesse deixado de atuar na sociedade e sublimasse seus impulsos. A formação era tida como condição implícita a uma sociedade autônoma [...]. Se na idéia de formação ressoam momentos de finalidade, esses deveriam, em consequência, tornar os indiví- duos aptos a se afirmarem como racionais numa sociedade racio- nal, como livres numa sociedade livre (ADORNO, 1996, p. 389). Em relação às políticas educacionais, a BNCC (BRASIL, 2017) representa uma forma de padronização do currículo escolar; inclusive, em seu contexto encontra-se a alfabetização. Ela parte de uma Política Educacional sincronizada com as demandas internacionais com vistas à “[...] lógica da mensuração de resultados e padronização mundial da educação”; sendo assim, o documento é “[...] ferramenta fulcral nessa edificação” (VENCO; CARNEIRO, 2018, p. 7). Nesse processo de elaboração da referida política de currículo estiveram envolvidos aspectos de ordem econômica e política que, por vezes, aparecem antes daqueles relacionados aos processos cognitivos de ensino e de 36 aprendizagem da língua escrita, sem que sejam relacionados à cultura como possibilidade de formação dos sujeitos. A PNA foi elaborada em consonância com a Base Nacional Comum Curricular que prevê os objetivos para a alfabetização que se desdobram em ações, em programas e em orientações para guiar a organização do trabalho pedagógico. No subtítulo denominado Os fundamentos pedagógicos da BNCC, a referência inicial está dire- cionada para o desenvolvimento de competências, com amparo no Art. 32 da Lei n.º 9.394/96 que define o ensino fundamental como “formação básica do cidadão”. Para isso, prevê: I - o desenvolvimento da capacidade de aprender, tendo como meios básicos o pleno domínio da leitura, da escrita e do cálculo; II - a compreensão do ambiente natural e social, do sistema político, da tecnologia, das artes e dos valores em que se fundamenta a sociedade; III - o desenvolvimento da capacidade de aprendiza- gem, tendo em vista a aquisição de conhecimentos e habilidades e a formação de atitudes e valores; IV - o fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de solidariedade humana e de tolerância recíproca em que se assenta a vida social (BRASIL, 1996, p. 12). É importante considerar que das orientações contidas na BNCC (BRASIL, 2017) para o ensino da linguagem e da escrita nos anos iniciais do ensino fundamental desdobram-se políticas e programas para a alfabetização, como é o caso da PNA, foco desta pesquisa, instituída pelo Decreto n.º 9.765, de 11 de abril de 2019. A referida política faz referência a conceitos, a princípios e objetivos, e diretrizes, ao público-alvo, à avaliação e ao monitoramento seguido das disposições finais. Por se tratar de normativa oficial, destaca-se o conceito adotado para orientar o processo de alfabetização, que deve se pautar “[...] em evidências científicas, com a finalidade de melhorar a qualidade da alfabetização no território nacional e combater o analfabetismo abso- 37 luto e o analfabetismo funcional [...]” (BRASIL, 2019, p. 1). Dentre os princípios, destacam-se os seguintes: III - fundamentação de programas e ações em evidên- cias provenientes das ciências cognitivas; IV - ênfase no ensino de seis componentes essenciais para a alfa- betização: a) consciência fonêmica; b) instrução fônica sistemática; c) fluência em leitura oral; d) desenvolvi- mento de vocabulário; e) compreensão de textos; f ) produção de escrita (BRASIL, 2019, p. 2). De forma articulada e complementar ao Decreto, no dia 15 de agosto de 2019, o Ministério da Educação (MEC) coordenou outras duas ações, quais sejam: o lançamento do caderno da PNA ‒ um guia detalhado ‒ e a Portaria n.º 1.460, de 15 de agosto de 2019, que institui a Conferência Nacional de Alfabetização Baseada em Evi- dências (CONABE), realizada de 22 a 25 de outubro de 2019, em Brasília, com o tema “A Política Nacional de Alfabetização e o estado da arte das pesquisas sobre alfabetização, literacia e numeracia”. O Caderno da PNA (BRASIL, 2019) está assim estruturado: Contex- tualização; Alfabetização, Literacia e Numeracia e Política Nacional de Alfabetização. A primeira seção aponta a alfabetização como tema relevante à sociedade brasileira e sinaliza para a “[...] urgência de mudança na concepção de políticas voltadas à alfabetização, à literacia e à numeracia” (BRASIL, 2019, p. 10). Tal proposta de mudança ancora-se nos dados da ANA, os quais revelam que 2 milhões dos estudantes concluintes do terceiro ano do ensino fundamental – aproximadamente 54,73% – apresentaram desempenho insuficiente em leitura (BRASIL, 2019), uma vez que “cerca de 450 mil alunos foram classificados no nível 1 da escala de proficiência, o que significa que são incapazes de localizar informação explícita em texto simples de até cinco linhas [...]” (BRASIL, 2019, p. 10). O Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf ) também é utili- 38 zado para demarcar que o Brasil não corresponde, de forma satisfatória, aos indicadores de qualidade do ensino e da leitura. Especificamente no que se refere à leitura, o indicador aponta para o analfabetismo fun- cional, uma vez que “[...] 3 de 10 brasileiros entre 15 e 64 anos podem ser considerados analfabetos funcionais [...]” (BRASIL, 2019, p. 13). Com base nesses índices insatisfatórios, o Caderno da PNA faz referência, de forma sintética, a estudos sobre alfabetização realizados no Brasil e em outros países. Quanto aos estudos brasileiros, destaca o relatório final “Alfabetização infantil: os novos caminhos da Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados”, reeditado em 2007, que aponta o atraso do Brasil em relação às práticas de alfabetização e à formação de professores (BRASIL, 2019). Em síntese, a defesa é a de que a alfabetização de qualidade precisa pautar-se em cinco pilares: consciência fonêmica, instrução fônica sistemática, fluência em leitura, vocabulário e compreensão de textos. Assim, fica clara a indicação de que os países que reformularam as suas práticas de alfa- betização “incorporando instruções fônicas” apresentaram avanço na aprendizagem da leitura e da escrita (BRASIL, 2019). No entanto, a identificação dos “pilares” promotores da aprendi- zagem da leitura e da escrita, ainda que executados com eficiência via método ou protocolo específico, padronizados para todo o sistema, pode resolver somente uma parte do problema de aprendizagem, visto que a padronização do método encobre as condições objetivas de cada escola, de seus sujeitos e da própria desigualdade inerente à sociedade de classes. Na segunda seção, o Caderno da PNA apresenta os conceitos de alfabetização, de literacia e de numeracia. Quanto ao conceito de alfabetização, “a PNA, com base na ciência cognitiva da leitura, define alfabetização como o ensino das habilidades de leitura e de escrita em um sistema alfabético” (BRASIL, 2019, p. 18). A alfabetizaçãobaseada em evidências diz respeito à consulta por parte dos professores e dos 39 gestores da “[...] literatura científica nacional e internacional para conhecer e avaliar o conhecimento mais recente sobre os processos de ensino e de aprendizagem” (BRASIL, 2019, p. 20). Pode-se afirmar que, nesse sentido, desde o século XIX, a alfa- betização faz parte da produção científica acadêmica, revelando-se ampla e sempre utilizada para constituir os referenciais e as diretrizes pedagógicas da área. Destaca-se a dinâmica de cada contexto, ou seja, o fato de o referencial adotado estar coerente com os interesses daqueles que conduzem o processo de formulação das políticas para a alfabeti- zação. No contexto atual, o MEC considera que, “entre os ramos das ciências que mais contribuíram nas últimas décadas para a compreensão dos processos de leitura e de escrita, está aquele que se convencionou chamar ciência cognitiva da leitura” (BRASIL, 2019, p. 20). O conceito de ciência cognitiva da leitura apresentado na PNA (BRASIL, 2019) refere-se à utilização das imagens do cérebro para mapear o seu funcionamento durante o processo de aprendizagem da leitura e da escrita, cujos dados indicam o ensino explícito e sistemático como mais exitoso. Esses elementos teóricos não são distintos daqueles já apresentados na produção científica acadêmica da área, inclusive aqueles referenciados ao longo do nosso estudo. O avanço da ciência comprovou a plasticidade cerebral por meio de imagens tomográficas que permitem mapear as modificações cerebrais que ocorrem quando a criança aprende a ler e a escrever. De acordo com a PNA: Aprender a ler e a escrever faz criar no cérebro um caminho que liga as áreas de processamento fonológico com as de processamento visual, de modo que uma palavra, quando é vista, ativa no cérebro as mesmas áreas que uma palavra quando é ouvida [...]. As pesquisas em neurociências indicam que existe uma área do cérebro que passa a especializar-se no reconhecimento das letras quando se aprende a ler e a escrever. É a chamada Área da Forma Visual das Palavras (AFVP), situada na região 40 occipitotemporal esquerda, correspondente a uma área atrás da orelha esquerda, onde se conectam as regiões de processamento visual com as regiões de processa- mento fonológico e, por isso, é ideal para responder ao processo de leitura e de escrita (BRASIL, 2019, p. 26). Não é objetivo deste trabalho negar ou desconsiderar esses avan- ços que fundamentaram a elaboração do Caderno da PNA (BRASIL, 2019); não discorda-se da sua relevância e das possibilidades criadas para a atuação docente. Sabe-se que esta teoria será acompanhada de uma implementação prática. Nesse aspecto, teoria e prática, na sua relação, precisam de condições objetivas para serem efetivas e para colaborarem com os processos de ensino e de aprendizagem, sabendo-se que o processo de formação dos sujeitos é forjado no limite das contradições determinadas pelas condições objetivas da produção da vida material. CONSIDERAÇÕES FINAIS Após a década de 1990, com a reforma da educação básica, a alfabetização passou a ser a questão central dos anos iniciais do ensino fundamental. Com o intuito de que as crianças sejam alfabe- tizadas até os 8 anos de idade, a PNA (2019) reafirma a centralidade e destaca que a alfabetização contribui para a promoção da cida- dania. Todavia, essa política precisa de meios objetivos e materiais viáveis para a sua implementação. Assim, quando trata dessa questão, afirma vagamente que “a implementação da PNA se dará por meio de programas, ações e instrumentos” (BRASIL, 2019, p. 44). Os ins- trumentos indicados no documento referem-se apenas a orientações curriculares e a materiais didáticos pautados em evidências científicas e na ciência cognitiva da leitura. A perspectiva da Teoria Crítica, concebida enquanto “[...] a teoria das relações sociais entre os homens apenas na medida em que também é a teoria da desumanidade dessas relações” (ADORNO, 1998, p. 32) 41 permite compreender o movimento histórico, bem como permite per- ceber e interpretar os fenômenos da educação para romper os determi- nismos e a linearidade que corrompe e conforma, gerando elementos de cunho ideológico. Tal ideologia permeia a educação que, como reflexo social fica à mercê de políticas de governo, que podem desconsiderar todos os avanços e conquistas de momentos históricos anteriores. Acredita-se que é tarefa da educação veicular estudos para apreender os conteúdos teóricos, instrumentalizar análises sobre as formas de manipulação cultural que são transpostas nos conteúdos escolares. Em virtude dessa compreensão teórica, os educadores pode- rão reavaliar hábitos alienantes e conformistas e diante dos meios e materiais de massificação, questionar os conteúdos, intervindo na reorientação dos seus usos, essa intervenção por vezes não aparece de forma imediata, mas ao causar pequenas rupturas no processo educativo, contribui para formação da vida social legítima. REFERÊNCIAS ADORNO, Theodor. Educação e Emancipação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995. ADORNO, Theodor. Prismas: crítica cultural e sociedade. São Paulo: Ática, 1998. ADORNO, Theodor. Teoria da Semicultura. In: Educação & Sociedade, Campinas, SP, v.17, n.56, p.388-441, dez. 1996. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Educação é a Base. Brasília, DF: MEC; CONSED/ UNDIME, 2017. BRASIL. Ministério da Educação. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 20 dez. 1996. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Alfabetização. PNA Política Nacional de Alfabetização/Secretaria de Alfabetização. Brasília: MEC, SEALF, 2019. FABIANO, Luiz Hermenegildo. Escola de Frankfurt e educação: sociedade de massas e potencial formativo. In: MACIEL, Lizete Shizue Bomura, VIEIRA, Renata de Almeida, SOUZA, Fátima Cristina Lucas de. (Orgs). Pesquisas em educação: diferentes abordagens teórico metodológicas. Maringá, EDUEM, 2014. GONTIJO, Cláudia Maria. A escrita infantil, São Paulo: Cortez, 2008. 42 MENDONÇA, Onaide Schwartz. Percurso Histórico dos Métodos de Alfabetização. In: Sônia Maria Coelho. (Org.). Caderno de Formação: Formação de Professores Didática dos Conteúdos. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2011, p. 23-35. MORTATTI, Maria do Rosário Longo. História dos métodos de alfabetização no Brasil. Brasília, 2006. SAVIANI, Dermeval. Educação: do senso comum à consciência filosófica. São Paulo: Autores Associados, 1980. SMOLKA, Ana Luiza Bustamante. A criança na fase inicial da escrita: Alfabetização como processo discursivo. Ed. São Paulo: Cortez, 2003. SOARES, Magda. Alfabetização: a questão dos métodos. São Paulo: Contexto, 2016. SOARES, Magda. Alfabetização e letramento, 2° ed. São Paulo: Contexto, 2004. VENCO, Selma Borghi; CARNEIRO, Reginaldo. Para quem vai trabalhar na feira... essa educação está boa demais: a política educacional na sustentação da divisão de classes. Revista Horizontes, São Paulo, v. 36, n. 1, p. 7-15, jan./abr. 2018. 43 PRODUÇÃO DE TEXTO ESCRITA MULTIMODAL NOS ANOS FINAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL: UMA DISCUSSÃO A PARTIR DA BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR Eurico Rosa da Silva Júnior6 Tiago de Aguiar Rodrigues7 INTRODUÇÃO A produção escrita na escola por muito tempo foi vista como obrigação, como cumprimento de uma demanda, algo engessado, desprovido de significado para o estudante-autor e distante de sua realidade. Estudos nesse direcionamento apontam que as aulas de língua portuguesa ainda estão distantes do real papel de língua enquanto um instrumento que ancore os indivíduos para as práticas reais no meio social; tais aulas são cansativas e constituem-se em meras repetições, descontextualizadas, da prescrição da gramática tradicional. Isso nos assegura Ferrarezi Jr. e Carvalho (2015) ao postular que “o ensino da escrita no Brasil tem sido assistemático,esparso e tratado como uma espécie de conteúdo sem prioridade, um segundo plano em relação aos conteúdos programáticos teóricos, especialmente, em relação às coisas chamadas gramaticais” (FERRAREZI JR.; CARVALHO, 2015, p. 15) bem como aponta ainda que Muito infelizmente, podemos constatar que o ensino da escrita no Brasil, quando acontece, é mesmo um ensino do tipo “vai escrever”. Com um “vai escrever” 6 Mestre em Linguística e Ensino (UFPB). Professor (SME - São José do Egito – PE). CV: http://lattes.cnpq.br/1417394158108828 7 Doutor em Linguística (UnB). Professor adjunto do departamento de língua portuguesa e linguística (UFPB). CV: http://lattes.cnpq.br/6418588531824212 44 ninguém aprender a escrever. As coisas do redigir, ou seja, as habilidades implicadas na competência do escrever, têm de ser ensinadas de forma sistemática, constante, metódica, progressiva (FERRAREZI JR.; CARVALHO, 2015, p. 15). Diante disso, surge a necessidade de a escola trabalhar com textos que propiciem a interação do estudante com seu meio de con- vívio, mostrando que o texto escrito é a ampliação do registro do dia a dia. Para tanto, é essencial que o professor perceba a importância da realização de atividades direcionadas e reais para os momentos de produção escrita dos gêneros textuais. Nesse prisma, a produção textual deve partir da ideia de que os textos têm alguma função e que serão lidos e ouvidos por outras pessoas, partindo ainda de situações diversificadas e contextualizadas com a vivência do aluno, atrelando o seu dia a dia ao produto de sua produção. As exigências da sociedade cada vez mais multimidiática, demandam da escola e consequentemente do professor sólida for- mação para lidar com as novas formas dos textos em suas delineações multimodais, e não é novidade dizer que o professor ainda não está preparado para lidar com a produção textual embasada nas novas facetas da mídia (RIBEIRO, 2020). Pensar a produção textual den- tro do viés multimodal é pensar a inserção do indivíduo dentro de uma sociedade digital e mutável. Pensando no papel e nos usos dos textos multimodais dentro da sala de aula, esta pesquisa tem por objetivos investigar como tem sido colocada em prática a produção de textos multimodais para o ensino fundamental conforme prevista na Base Nacional Comum Curricular – BNCC (BRASIL, 2017); trazer contribuições signifi- cativas para o campo das pesquisas na área acadêmica concernente à produção escrita multimodal; destacar a relevância da produção dos textos multimodais na prática de sala de aula do professor de língua portuguesa; e por fim apresentar as contribuições trazidas pela BNCC acerca da produção de textos multimodais. 45 Nossa pesquisa tem demonstrado que grande parte da produção acadêmica que consta na base de dados Google acadêmico a partir do tema de pesquisa produção de texto multimodal, com o limite de tempo do ano de 2018 até o presente momento só consta artigos com maior ênfase na leitura do texto multimodal ou ainda aqueles que se detém a produção /leitura de um gênero específico. Apenas dois trabalhos foram levados em consideração tomando como base a pesquisa realizada. Os trabalhos com maior relevância para esta pesquisa foram encontrados no Google acadêmico, sendo uma dissertação de mestrado do Programa de Pós-graduação em Ensino, Linguagem e Sociedade da UNEB, publicado no ano de 2021. Neste trabalho intitulado “A Autoria na Produção de Textos Multimodais: uma proposta para a constituição do(a) aluno(a)-autor(a) nos anos finais do Ensino Fundamental”, a autora, por meio do desenvolvimento de oficinas de produção de texto multimodal procurou compreender o papel da autoria e sua consti- tuição a partir da produção de textos multimodais com foco em uma turma do 9º ano do ensino fundamental de uma escola municipal do estado da Bahia. Nesta pesquisa a autora traz uma metodologia baseada em estudos bibliográficos com aporte teórico em defesa da autoria na produção textual, bem como o uso da “Pesquisa Crítica de Colaboração (PCCol), tendo em vista que essa abordagem contempla a relação entre os sujeitos e o contexto criado pelos participantes em uma relação de colaboração, que envolveu em sua ação diagnóstica e formativa [...]” (LESSA, 2021, p. 23). Toda a metodologia e estudos realizados nesta pesquisa apontam para a constituição do estudante durante a produção textual como aluno(a) autor(a). O segundo trabalho encontrado no repositório de teses e dis- sertações da UFAL – Universidade Federal de Alagoas é intitu- lado a “A produção de textos multimodais com foco no cotidiano de alunos do 9º ano” de autoria de Silva (2019) foi defendido como dissertação do mestrado em rede nacional – PROFLETRAS pela Universidade Federal de Alagoas no ano de 2019. Neste trabalho 46 observamos que a ênfase foi dada tanto na produção como na leitura de textos multimodais partindo do uso das tecnologias digitais para promoverem o multiletramento. A pesquisadora utilizou a pesquisa etnográfica para dar vida a seu trabalho. Durante a pesquisa houve a criação de blogs, roda de conversas por meio de ferramentas digitais, uso de diário de bordo e produções multimodais com uso de celulares. Os encaminhamentos da pesquisa demonstram que grande parte dos alunos mostram-se mais interessados durante as aulas partindo da ideia de uso de seu contexto sociocultural e identitário, bem como quando o repertório de leitura e produção dos textos multimodais pertencem ao centro de interesse do alunado Na base de dados Scielo com a pesquisa intitulada produção de textos multimodais a partir do ano 2018 até o presente momento não houve produção com o título sugerido, há pesquisas apenas no que diz respeito a leitura do texto multimodal. Partindo destas contações observamos que as produções aca- dêmicas no que diz respeito a produção textual multimodal ainda não está tão amplamente desenvolvida. Assim, tomamos como jus- tificativa a produção textual multimodal com ênfase na Base Nacio- nal Comum Curricular tendo em vista se tratar de uma pesquisa pioneira que conjuga a produção textual multimodal apontada pela BNCC, bem como traz apontamentos de como tem ocorrido as pro- duções multimodais em sala de aula. Nesse sentido, propomos os seguintes questionamentos concer- nentes a produção de textos escritos, em especial aos textos multimodais na sala de aula: sobre os textos multimodais, o que está proposto na BNCC (BRASIL, 2017)? Quais desafios são colocados aos docentes, frente ao uso dos textos multimodais? Trazemos à luz os questionamentos propostos acima uma vez que a BNCC nos coloca frente ao desafio da produção do texto multimo- dal na sala de aula, e que cada vez mais nossos estudantes entram em 47 contato com as diferentes mídias e nisso a escola não pode ser omissa com a introdução do estudante frente as multissemioses dos textos. PRODUÇÃO DE TEXTO ESCRITA MULTIMODAL NOS ANOS FINAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL E A BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR A BNCC (BRASIL, 2017) está organizada em cinco tópi- cos principais, sendo estes: 1-Introdução, apresentando os aspectos introdutórios e históricos do documento; 2 Estrutura da BNCC, na qual se elenca a estrutura organizacional de cada etapa da educação básica contida no documento como campos de atuação e áreas do currículo; no item 3- Etapa da Educação Infantil, apresenta os campos de experiências para esta etapa, bem como a organização estrutural da etapa na educação básica; no item 4-Etapa do Ensino Funda- mental, contendo todas as áreas do currículo e ainda a subdivisão entre anos iniciais e anos finais, no qual nos deteremos neste último mais precisamente no eixo de Produção Textual, nesta seção há um recorte com as competências básicas para cada etapa e para cada área do conhecimento; o último item 5-Etapa do Ensino Médio, traz as competências específicas da etapa e sua organização. A BNCC aponta uma diversidade de competências a serem desenvolvidasna educação básica pelos estudantes ao longo dos anos de estudos, na área de língua portuguesa. Especificamente para o ensino fundamental, a BNCC apresenta as seguintes competências: 1. Compreender a língua como fenômeno cultural, histórico, social, variável, heterogêneo e sensível aos contextos de uso, reconhecendo-a como meio de cons- trução de identidades de seus usuários e da comunidade a que pertencem. 2. Apropriar-se da linguagem escrita, reconhecendo-a como forma de interação nos diferentes campos de atuação da vida social e utilizando-a para ampliar suas possibilidades de participar da cultura 48 letrada, de construir conhecimentos (inclusive escolares) e de se envolver com maior autonomia e protagonismo na vida social. 3. Ler, escutar e produzir textos orais, escritos e multissemióticos que circulam em diferentes campos de atuação e mídias, com compreensão, auto- nomia, fluência e criticidade, de modo a se expressar e partilhar informações, experiências, ideias e senti- mentos, e continuar aprendendo. 4. Compreender o fenômeno da variação linguística, demonstrando atitude respeitosa diante de variedades linguísticas e rejeitando preconceitos linguísticos. 5. Empregar, nas interações sociais, a variedade e o estilo de linguagem adequados à situação comunicativa, ao(s) interlocutor(es) e ao gênero do discurso/gênero textual. 6. Analisar informações, argumentos e opiniões manifestados em interações sociais e nos meios de comunicação, posicionando-se ética e criticamente em relação a conteúdos discrimi- natórios que ferem direitos humanos e ambientais. 7. Reconhecer o texto como lugar de manifestação e negociação de sentidos, valores e ideologias. 8. Sele- cionar textos e livros para leitura integral, de acordo com objetivos, interesses e projetos pessoais (estudo, formação pessoal, entretenimento, pesquisa, trabalho etc.). 9. Envolver-se em práticas de leitura literária que possibilitem o desenvolvimento do senso estético para fruição, valorizando a literatura e outras manifestações artístico-culturais como formas de acesso às dimensões lúdicas, de imaginário e encantamento, reconhecendo o potencial transformador e humanizador da experiên- cia com a literatura. 10. Mobilizar práticas da cultura digital, diferentes linguagens, mídias e ferramentas digitais para expandir as formas de produzir sentidos (nos processos de compreensão e produção), aprender e refletir sobre o mundo e realizar diferentes projetos autorais (BRASIL, 2017, p. 87). Todas as competências elencadas pela BNCC trazem em si aspectos a serem trabalhados em toda a etapa do ensino fundamental 49 propiciando a base de todo o conhecimento desta etapa e da disciplina de língua portuguesa a serem construídos pelos alunos. Nas compe- tências elencadas, o documento traz aspectos com elevada relevância para a noção do estudante enquanto sujeito participante de todo o processo de interação, criando situações para que ele possa atuar conscientemente no meio social, tal como o uso dos textos multimo- dais e as novas tecnologias (competência 10). Nesse tocante, como indivíduo, o estudante necessita compreender o papel da autonomia e da argumentação para expor-se e fazer uso adequados das mídias e de todas as habilidades que a língua dispõe para atingir os seus obje- tivos pretendidos (ANTUNES, 2009). É notável a importância atribuída à produção textual multimodal no Ensino Fundamental pela BNCC, o que se verifica nas competências 2, 3 e 10. Nelas o texto tem seu lugar privilegiado pelas interações que estes propiciam através das multissemioses; assim, nessas competências apresenta-se a importância da produção textual escrita enquanto lugar de identidade do aluno e de ampliação da participação da cultura letrada. O documento apresenta a reorganização das práticas de lin- guagens, dos objetos de conhecimentos e das habilidades em cam- pos de atuação, nomenclatura não utilizada em documentos nor- matizadores anteriores à BNCC. Assim, na BNCC, a organização das práticas de lin- guagem (leitura de textos, produção de textos, oralidade e análise linguística/semiótica) por campos de atua- ção aponta para a importância da contextualização do conhecimento escolar, para a ideia de que essas práticas derivam de situações da vida social e, ao mesmo tempo, precisam ser situadas em contextos significativos para os estudantes (BRASIL, 2017, p. 84). A intenção do uso dos campos de atuação é acima de tudo elencar o trabalho com os gêneros textuais principalmente em seus contextos de usos, e que o estudante observe a relação entre o texto em 50 uso e o contexto em que se encontra o gênero e que acima de tudo que esta prática seja significativa para o estudante. Os campos de atuação inseridos para os anos finais do ensino fundamental são quatro: campo jornalístico-midiático, campo de atuação na vida pública, campo das práticas de estudo e pesquisa e campo artístico-literário. Nesse sentido, Brasil (2017) concernente ao uso dos campos de atuação afirma que: Compreende-se, então, que a divisão por campos de atuação tem também, no componente Língua Por- tuguesa, uma função didática de possibilitar a com- preensão de que os textos circulam dinamicamente na prática escolar e na vida social, contribuindo para a necessária organização dos saberes sobre a língua e as outras linguagens, nos tempos e espaços escolares (BRASIL, 2017, p. 85). A BNCC aponta que, nos anos finais do ensino fundamental, os estudantes estão cada vez mais em contato com situações comunicativas diversas, interagindo de novas formas e olhares com pessoas novas e com novas situações, nesse sentido a prática docente nas escolas deve primar pela preparação do aluno para a grande diversidade das novas experiências comunicativas e interacionais (BRASIL, 2017). O primeiro campo, jornalístico-midiático, busca incrementar o repertório dos alunos no tocante às informações e opiniões para que estes sejam capazes de posicionar-se em relação aos temas de seu interesse. Assim, neste campo pretende-se ainda: [...] propiciar experiências que permitam desenvolver nos adolescentes e jovens a sensibilidade para que se interessem pelos fatos que acontecem na sua comuni- dade, na sua cidade e no mundo e afetam as vidas das pessoas, incorporem em suas vidas a prática de escuta, leitura e produção de textos pertencentes a gêneros da esfera jornalística em diferentes fontes, veículos e mídias, e desenvolvam autonomia e pensamento crítico 51 para se situar em relação a interesses e posicionamentos diversos e possam produzir textos noticiosos e opinati- vos e participar de discussões e debates de forma ética e respeitosa (BRASIL, 2017, p. 140). O foco principal neste campo é o envolvimento do estudante dos anos finais do ensino fundamental com práticas reais de convívio com as mais diversas modalidades dos textos através da mídia e que este contato seja de forma crítica e autônoma, partindo da produ- ção escrita, e que o estudante possa posicionar-se frente às opiniões e discussões colocadas pelos gêneros deste campo. Nesse campo o eixo de produção de texto apresenta um total de quatro objetos de conhecimento (relação do texto com o contexto de produção e expe- rimentação de papéis sociais; textualização; revisão/edição de texto informativo e opinativo; e planejamento de textos de peças publici- tárias de campanhas sociais), nos quais se destacam as habilidades do aluno de publicar textos multimodais nos diversos gêneros textuais para que ele possa se colocar no papel de ator deste processo de pro- dução da matéria jornalística, bem como compreender as condições de produção desta esfera de circulação. Há ainda a habilidade concer- nente à revisão do texto já produzido, uma habilidade que requer do escritor a retomada de conceitos linguísticos e inerentes ao contexto de produção do gênero pretendido, tornando-o mais adequado para atender ao seu objetivo comunicativo. Aqui se insere a importânciada habilidade da revisão textual colocada por Passarelli (2012), uma vez que oportuniza ao aluno o retorno imediato ao seu texto para que possa rever, reescrever e melho- rá-lo. Uma última habilidade para o eixo de produção neste campo de atuação é o planejamento prévio de textos a serem produzidos pelos alunos; assim, pretende-se que o estudante possa aperfeiçoar cada vez mais suas habilidades de escrita. O segundo campo de atuação que a BNCC apresenta para os anos finais é o campo de atuação da vida pública, o qual se destina a 52 “ampliar e qualificar a participação dos jovens nas práticas relativas ao debate de ideias e à atuação política e social [...]” (BRASIL, 2017, p. 146). Este campo apresenta um objeto de conhecimento (textualiza- ção, revisão e edição); assim, o trabalho com a produção escrita nesse campo privilegia as habilidades de produção e revisão de textos com objetivos reivindicatórios no tocante à resolução de problemas do dia a dia da escola ou ainda do contexto do estudante. Tanto as habilidades quanto o objeto de conhecimento desse campo pretendem levar o estudante a ser sujeito ativo nas mais diversas situações em que ele se envolve em seu contexto e busca ainda incutir no aluno habilidades que façam com que ele possa posicionar-se e usar suas produções textuais para a resolução de problemas reais em situações reais; para tanto, busca agregar no estudante a ideia de comunidade. No terceiro campo de atuação, a BNCC apresenta o campo das práticas de estudo e pesquisa, campo que, assim como os demais, perpassa desde os anos iniciais. Esse campo pretende “ampliar e qua- lificar a participação dos jovens nas práticas relativas ao estudo e à pesquisa” (BRASIL, 2017, p. 150); assim, privilegia-se o trabalho com três objetos de conhecimento (consideração das condições de produção de textos de divulgação científica; estratégias de escrita: textualização, revisão e edição; e estratégias de produção) que colocam o estudante diante da qualificação e ampliação de sua participação em práticas de estudo e pesquisa e o desenvolvimento de habilidades inerentes a esfera científica, pesquisa, estudo e divulgação de conhecimento. Todas as habilidades a serem desenvolvidas nesse campo propi- ciam ao estudante a atuação produtiva e crítica na esfera do estudo e científica em sua vida cotidiana, propiciando ainda que este produza e compartilhe novos conhecimentos adquiridos com seus pares numa relação de interação e reciprocidade mútua. O campo artístico-literário apresenta-se como o quarto e último campo de atuação referente à organização da Base para os anos finais do ensino fundamental, neste campo pretende-se possibilitar aos 53 estudantes “o contato com as manifestações artísticas e produções culturais em geral, e com a arte literária em especial, e oferecer as condições para que eles possam compreendê-las e fruí-las de maneira significativa e, gradativamente, crítica” (BRASIL, 2017, p. 156). Assim, o objetivo da base é encaminhar o estudante a ter contato com as mais diversas manifestações artísticas, principalmente a literária, habilidades já desenvolvidas nos anos iniciais, pretendendo que tais habilidades sejam desenvolvidas de forma crítica e significativa. Esse campo apresenta três objetos de conhecimento (relação entre textos; consideração das condições de produção de textos; estratégias de produção: planejamento, textualização e revisão/edição), nos quais as habilidades desenvolvidas levam o estudante a adquirir o domínio da retextualização, transformando um gênero dado em outro, prezando pelas características de cada gênero, demandando assim habilidades desenvolvidas em outras etapas da escolarização. Podemos identificar o destaque do campo de atuação jorna- lístico-midiático, o que se justifica pelo fato de que nesse campo se produz uma diversidade de gêneros ainda mais próximas do dia a dia dos jovens do ensino fundamental, sendo essas informações transmi- tidas por meios multimodais, seja pelo rádio, televisão ou pela internet. Dessarte, o ensino de produção textual almejado na BNCC para os anos finais do ensino fundamental preza pelo trabalho principal- mente pela dinamicidade dos gêneros textuais e pela sua constante midiatização, apresentando cada vez mais textos involucrados pelas multissemioses. Uma constante na BNCC referente à produção textual é o apego ao trabalho com os textos multimodais, tendo em vista que “são contempladas habilidades para o trato com o hipertexto e com ferramentas de edição de textos, áudio e vídeo e produções que podem prever postagem de novos conteúdos locais [...]” (BRASIL, 2017, p. 137). Destaca-se ainda o trabalho com o planejamento da produção textual, tendo em vista que tal habilidade tem sido negligenciada na educação básica, como já afirmamos, sendo tal habilidade colocada em 54 desuso pela prática de um ensino pautado em atividades meramente gramaticais descontextualizadas (ANTUNES, 2009). A produção de textos multimodais, segundo a Base Nacional Comum Curricular (BRASIL, 2017, p. 76), deve compreender as mais diversas práticas de produção de usos da linguagem que se relacionam à “interação e à autoria”, nesse sentido, sua aplicação nas diversas modalidades do texto, seja ele oral, escrito e multis- semiótico, deve abranger as mais diversas finalidades, permitindo ao estudante aproximar-se ainda mais da noção de autor autônomo de sua produção. De acordo com a BNCC (BRASIL, 2017, p. 67), as aulas de língua portuguesa devem assumir a centralidade do texto como “unidade de trabalho” de forma que a produção textual seja sem- pre atrelada aos contextos de produção com a utilização da diversi- dade de mídias e semioses. Assim se assume que as novas práticas de linguagem nos moldes dos textos multimodais envolvem “novas formas de produzir, de configurar, de disponibilizar, de replicar e de interagir” (BRASIL, 2017, p. 68). Quando o professor traz à sua prática docente as novas tec- nologias atreladas à produção textual, tende a melhorar a qualidade dos textos produzidos pelo estudante e, por conseguinte, traz o texto aos contextos de produção. Se pensarmos em relação à situação de produção na sala de aula, podemos verificar que a sua qualidade está efetivamente relacionada com o significado que tais propostas têm na realidade social do aluno, ou seja, uma atividade sem significados é então uma produção distante do dia a dia do educando. Quando o aluno vê na produção textual um objetivo significativo ligado ao seu entorno social, acaba atingindo resultados positivos. “Em outras palavras, é importante, [...], que o texto não seja usado como mero pretexto para o estudo da nomenclatura gramatical desvinculado da atribuição de sentido” (PORTO, 2009, p. 29). 55 Diante disso, as atividades de produção devem ser ampliadoras do contexto de atuação que o estudante tem, para que ele compreenda a prática da escrita como algo ligado a seu dia a dia, levando-o a questionamentos como: para que escrever? Para quem escrever? O que escrever? E de que modo escrever? A introdução da escrita enquanto multimodal e multissemiótica leva o aluno a perceber-se como autor de um texto que faz relação à sua realidade e que o ato da escrita não é apenas a materialização do texto, mas também planejamento, revisão e consequentemente leitura pelo seu público-alvo. Como reforço a essa discussão, Munhoz e Abreu (2019) nos apresentam, no tocante à diversidade de metodologias com o trabalho de produção textual, que [...] a BNCC propõe que a escola trabalhe com gêneros textuais mais conhecidos pelos estudantes e, portanto, que se inserem na internet. Esses gêneros do presente devem ser aliados às aulas. Como estratégia, o professor pode trabalhar conteúdos já conhecidos ou familiari- zados pelos estudantes e debater a linguagem utilizada por eles, dialogar sobre o modo como estes gêneros do presente são organizados e quais os princípios éticos envolvidos.Dependendo do contexto, pode-se também traçar táticas de possibilidades para que os estudantes, também, produzam textos desses gêneros do presente (MUNHOZ; ABREU, 2019, p. 83). Ribeiro (2020) nos mostra que muito se tem feito em se tratando de produções acadêmicas na área dos multiletramentos, embora ainda percebamos que muito precisa avançar no tocante aos investimentos reais dentro dos espaços escolares para a prática dos multiletramentos, enquanto o Estado continua com a prática do [...] não investimento na equipagem e na manutenção de escolas públicas, subestimação do tema na formação de professores/as, adiamento de ações mais práticas voltadas aos usos benéficos das tecnologias, dificuldades 56 de pôr planos em prática, desinformação e preconceito quanto a tecnologias na escola e ao ensino a distância, etc. (RIBEIRO, 2020, p. 6). As ideias trazidas na BNCC nos colocam frente ao desafio dos textos multimodais e multissemióticos, mostrando ainda o desafio para a compreensão e produção desses novos textos advindos da evolução tecnológica também dentro das salas de aula. Isso deixa a escola frente ao desafio de aprimorar, inovar sua didática. Não cabe mais diante disso aquela produção engessada, fixa no objetivo de ver se o aluno sabe escrever “corretamente”, herança de um passado distante. Roza e Menezes (2019) não nos deixam olvidar que a introdução do uso das mídias na produção de texto é um enorme desafio, desde a formação docente – até certo ponto precária –, à alta evolução dos recursos tecnológicos tendo em vista que a escola não tem acompanhado tal avanço, bem como a “familiaridade dos estudantes com as mídias digitais em sua rotina diária fora da escola” (ROZA; MENEZES, 2019, p. 125), o que deixa a prática docente em atraso. CONSIDERAÇÕES FINAIS Nossas discussões aqui levantadas convergem no direcionamento do que nos assegura Passareli (2012), que a produção de textos nas escolas continua sendo tomada como uma atividade de exercícios para desenvolvimento somente da capacidade textual do sujeito, sendo meramente atribuídas como exercício gramatical. Em contrapartida a isso, a produção de texto deve ser compreendida como um trabalho de reflexão que depende de diversas habilidades adquiridas pelo aluno ao longo de sua vida estudantil, e é papel da escola criar situações pro- pícias para que ele aprenda a escrever seus textos cada vez melhores. Nesse sentido, pretende-se que o estudante seja um produtor de textos que transforme a realidade, tomando posse de seu próprio texto. Nas palavras de Silva e Luna (2015, p. 23), “sendo a língua 57 tida como lugar de interação, o sujeito é compreendido como agente ativo na construção do sentido”. O texto multimodal deve levar em conta a mistura de culturas nas salas de aulas, bem como a multiplicidade dos textos e como estes circulam nos diversos meios, seja nas redes sociais, no celular, no tablet ou no laptop. Ainda para Rojo (2012), os multiletramentos são estruturas textuais interativas e colaborativas. Eles acontecem no aqui e no agora e sua produção subentende a ativa participação de diversos atores nesse processo. Os multiletramentos também são caracterizados por transgredirem as relações de poder demandadas pelas configurações textuais convencionais, aqueles não se submetem à noção de propriedade, de posse. Estes textos são o que Rojo chama de “híbridos, fronteiriços, mestiços” (ROJO, 2012, p. 23). Nisso dis- cernimos que os multiletramentos perpassam a noção de texto físico, indo além das fronteiras das letras; são híbridos pelo seu caráter de misturas de suas semioses e modalidades; são fronteiriços porque perpassam as próprias estruturas do texto físico; e são mestiços porque carregam em si muito da diversidade cultural na qual se propagam. A Base Nacional Comum Curricular postula que as novas face- tas dos gêneros textuais e das práticas da cultura digital dentro das salas de aulas da educação básica contribuem para que o aluno e suas práticas de linguagens tenham seu lugar na escola bem como permi- tem que o estudante seja o autor de sua própria produção, passando de mero usuário da língua a produtor do conhecimento, assim “a BNCC procura contemplar a cultura digital, as diferentes lingua- gens e os diferentes letramentos, desde aqueles basicamente lineares, com baixo nível de hipertextualidade, até aqueles que envolvem a hipermídia” (BRASIL, 2017, p. 70). 58 REFERÊNCIAS ANTUNES. Irandé. Língua texto e ensino – outra escola possível São Paulo: Parábola Editorial, v. 1, 2009. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2017. FERRAREZI JUNIOR, Celso; CARVALHO, Robson Santos de. Produzir textos na educação básica: o que saber, como fazer. 1 ed. - São Paulo : Parábola Editorial, 2015. LESSA, Maria Angélica Rosa Fagundes Laranjeira. A Autoria na Produção de Textos Multimodais: uma proposta para a constituição do(a) aluno(a)-autor(a) nos anos finais do Ensino Fundamental. 2021. 159 f. Dissertação (Mestrado Profissional em em Ensino Linguagem e Sociedade) – Programa de Pós-Graduação em Ensino Linguagem e Socie- dade - (PPGELS), UNEB – Universidade Estadual da Bahia DCHT - Departamento de Ciências Humanas e Tecnologias Campus VI – Caetité – Bahia, 2021. MUNHOZ, Renata ; ABREU, Aline. Os gêneros digitais nas aulas de língua portuguesa do ensino básico. In: AZEVEDO, Isabel Cristina Michelan de; COSTA, Renata Ferreira Multimodalidade e práticas de multiletramentos no ensino de línguas. São Paulo: Blucher, 2019. p. 75-92. PASSARELLI, Lílian Maria Ghiuro. Ensino e correção na produção de textos escolares. São Paulo : Telos, 2012. PORTO, Márcia. Um diálogo entre os gêneros textuais. Curitiba: Aymará, 2009. RIBEIRO, Ana Elisa. Textos multimodais: leitura e produção. São Paulo: Parábola Edi- torial, v. 1, 2016. RIBEIRO, Ana Elisa. Que futuros redesenhamos? Uma releitura do manifesto da Pedagogia dos Multiletramentos e seus ecos no Brasil para o século XXI. Diálogo das letras, Pau dos Ferros, v. 9, p. 1-19, e02011, 2020. ROJO, Roxane; BARBOSA, Jaqueline. Hipermodernidade, multiletramentos e gêneros discursivos. São Paulo: Parábola Editorial, 2015. ROJO, Roxane. Pedagogia dos Multiletramentos. in: ROJO, Roxane; MOURA, Eduardo. Multiletramentos na escola. São Paulo: Parábola Editorial, 2012. Cap. 1, p. 11-31. ROZA, Edleide Santos; MENEZES, Ângela Maria de Araújo. Multimodalide: ampliação e ressignificação dos sentidos - novas conexões em ambiente escolar. In: AZEVEDO, Isabel Cristina Michelan de; COSTA, Renata Ferreira. Multimodalidade e práticas de multile- tramentos no ensino de línguas. São Paulo: Blucher, 2019. cap. 6, p. 123-145. SILVA, Jéssica Pereira da; LUNA, Jéssica Simões e. Ensino de produção textual visando à autoria: uma proposta para a construção da autonomia na escrita. Revista Prolíngua, João Pessoa, v. 10, p. 18-34, Nov/dez 2012. ISSN 1983-9979. SILVA. Karinne Michelle Florêncio da. A Produção de textos multimodais com foco no cotidiano de alunos do 9º Ano. 2019. 185 f. Dissertação (Mestrado Profissional em Letras em Rede Nacional) – Faculdade de Letras, Programa de Pós Graduação em Mestrado Pro- fissional em Letras e em Rede Nacional, Universidade Federal de Alagoas, Maceió, 2019. 59 A ESCOLARIZAÇÃO DOS ALUNOS(AS) SURDOS-NEGROS(AS) Helleni Priscille de Souza Ferreira Oliveira8 Élida Soares de Santana Alves9 Fernanda Marcelo Souza10 Leia Silva Santos11 André Luiz de Alcântara Brandão12 Alan dos Santos Andrade Ferreira13 Roselin Angelita Dantas Reis14 Damaris Oliveira Souto15 INTRODUÇÃO A educação de pessoas com surdez é uma pauta recorrente nas discussões pedagógicas no Brasil. A Libras por exemplo, é uma abre- viação relacionada a Língua Brasileira de Sinais, e é reconhecida como linguagem gestual das pessoas surdas em duplicidade a comunicação oral de pessoas surdas brasileiras. É utilizada pela comunidade surda especialmente, como recurso linguístico norteador pedagógico quegarante a educação inclusiva nas escolas brasileiras. 8 Mestra em Ensino e Relações Étnicas-Raciais (UFSB). Tradutora Intérprete de Libras – PROLIBRAS (IF Baiano). CV: http://lattes.cnpq.br/0170774841922552 9 Mestra em Educação (UFRRJ). Docente EBTT do Atendimento Educacional Especializado (IF Baiano). CV: http://lattes.cnpq.br/7236854215589810 10 Mestranda em Educação em Ciências e Matemática (UESC). Revisora de Texto Braille (IF Baiano). CV: http://lattes.cnpq.br/6054329727163854 11 Especialista em Libras (FAMESUL). Proficiente Libras–PROLIBRAS. Tradutora/Interprete de Libras (IF Baiano). CV: http://lattes.cnpq.br/8873352745367684 12 Especialista em Ética e Filosofia (FINOM). Advogado sob o n° 54365 OAB/BA. Técnico em Assuntos Educacionais (IF Baiano). CV: http://lattes.cnpq.br/3625323386735668 13 Pós-Graduado em Marketing e Gestão Estratégica (UCAM). Técnico de Tecnologia da Informação (IF Baiano). CV: http://lattes.cnpq.br/7696482155417900 14 Especialização em Psicopedagogia Clínica e Institucional (FUNIP). Técnico-Pedagógico (IF Baiano). CV: http://lattes.cnpq.br/6905784327311756 15 Mestranda em Economia Regional e Políticas Públicas (UESC). Coordenação NAPNE (IF Baiano). CV: http://lattes.cnpq.br/3136114193854328 http://lattes.cnpq.br/0170774841922552 http://lattes.cnpq.br/7236854215589810 http://lattes.cnpq.br/6054329727163854 http://lattes.cnpq.br/8873352745367684 http://lattes.cnpq.br/3625323386735668 http://lattes.cnpq.br/7696482155417900 http://lattes.cnpq.br/6905784327311756 http://lattes.cnpq.br/3136114193854328 60 De acordo com esta concepção, a língua de sinais, é uma língua de representação imagética das experiências de saberes formalizadas pelos sinais e seus significados. Os estudantes com essas vivências apren- dem mais facilmente assim como os estudantes não surdos (ouvintes) quando essas interpretações dos significados do mundo estão em sua língua de comunicação, ou seja, Língua de Sinais. (QUADROS, 2013). Além disso, a educação de pessoas surdas que também são negras, desafia os muitos educadores nos espaços de sala de aula coti- dianamente. Contudo, para muitos pesquisadores, a educação a partir da decolonialidade da comunidade surda-negra, antirracista, inclusiva e bilíngue - encontra ressonância cada vez mais com a realidade vivenciada por esses indivíduos nos espaços formais e não formais de educação na sociedade brasileira. Portanto, a linguagem é a característica de um ser humano, que interage com outros sujeitos e implica primordialmente refletir sobre sua comunicação. Em virtude dos registros históricos e sociais que esses sujeitos surdos-negros vivenciaram e, muitos ainda viven- ciam, desde seus primórdios, os registros históricos trazem poucas compreensões da sociedade acerca da melhor maneira para inclusão e escolarização das crianças surdas. Como Frantz Fanon (2009, p. 81) sinaliza “Todo o mundo já o disse, para o negro a alteridade não é o outro negro, é o branco”. DESENVOLVIMENTO A epistemologia da decolonialidade e da interculturalidade para o ensino de crianças surdas negras, com propostas de revisitar as práxis de ações cotidianas e profissionais, objetiva a reflexão sobre as práticas pedagógicas e o modo como formaremos os nossos alunos(as) surdos(as) negros(as). A intenção é observar se esses sujeitos serão apenas copistas reprodutores de discursos excludentes ou serão atores e atrizes reflexivos, conscientes, balizados em um ensino democrático laico e inclusivo. A 61 educação brasileira precisa refletir sobre as repetições de práticas no ensino de surdos, práticas essas que tem deixado de fora essas vozes. Nesse contexto, Candau (2013, p. 30) aponta duas características, relacionadas às diferenças da cultura. [...] a primeira é que ela faz tentando construir uma nova postura, onde o confronto com diferentes correntes pedagógicas é fundamental. Então, essa nova postura vai sendo construída, de alguma forma, em confronto com o que se costuma chamar pedagogia tradicional. (CANDAU, 2013, p. 30). Essa preocupação precisa alcançar todos os indivíduos que ele se propõe a transformar por intermédio da escolarização. Mendes (2020) afirma que decolonialidade e interculturalidade são dimensões episte- mológicas complexas e que não devem atuar apenas no plano ideológico epistémico. A autora nos diz ainda que decolonialidade e intercultura- lidade são faces de uma mesma moeda, dimensões e movimentos que estão sempre se retroalimentando, são epistemologias e modos de ação que não devem ser balizados em uma estrutura eurocêntrica colonial. Freitas (1998, p. 91) afirma que: [...] uma criança interage como mundo através da lin- guagem, na criança surda essa interação é diferente, necessitando que o próprio ambiente se adapte a ela de uma forma compensatória, permitindo-lhe outra alternativa para o seu desenvolvimento. [...] alunos surdos devem trabalhar a linguagem como um signifi- cativo modo de comunicação e interação com os outros, usando todos os possíveis instrumentos e atividades sígnicas. (FREITAS 1998, p. 91). Portanto, a criança surda, em geral, nasce em famílias de pessoas não surdas que por consequência, utilizam um canal de comunicação diferente, de modalidade oral-auditivo, assim, essas 62 crianças surdas ficam expostas somente ao português oral e escrito desde a infância (ALMEIDA, 2009). De acordo com esta percepção, o conhecimento da trajetória educacional dos surdos faz com que seja possível depreender mais sobre o processo de segregação social ao qual muitos ainda são sub- metidos, sendo duplamente marginalizados: pela sua condição auditiva e étnica. Por isso, este estudo também se refere às diferenças, onde essas se tornam uma espécie de marca na vida dos sujeitos que as possuem; marcas que, na maioria das vezes, os coloca em posição de desvantagem em relação aos ditos “normais”, fazendo com o que os diferentes sejam vistos como inferiores No pensamento de Buzar (2012), ele aborda em sua pesquisa as adversidades que os surdos negros vivenciam em relação ao preconceito intrinsecamente ligados à raça e à surdez em variados ambientes, como na escola, na família, entre amigos, dentre outros espaços. Portanto, tais proposições estruturais e sociais vêm reforçando, ao longo dos tempos, a dupla desvantagem que esse alunado enfrenta no acesso à escola, permanência e conclusão dos estudos no ensino público, principalmente em cidades interioranas onde a educação é mais precarizada devido à falta de investimento do poder público. Por isso, essa a efetivação dessa discussão, tem como premissas refletir sobre as problemáticas dos alunos(as) surdos(as) negros no tocante da ausência da usualidade da língua Libras no processo de escola- rização nos espaços de formação. Desta forma, como explica Monteiro (2006, p. 279), devido à sua condição de surdez e de raça, as crianças desde muito novas conhecem a exclusão nos espaços sociais, ou seja, em suas famílias e também nos espaços formais de ensino. Podemos destacar algumas dessas pro- blemáticas enfrentadas por esses indivíduos como, por exemplo, não compreendem efetivamente a fala dos pais e irmãos, não são estimu- ladas a todo tempo em uma língua “alfabética” como crianças ouvintes e serem visualizadas muitas vezes como crianças agressivas, porque, ao 63 tentarem se comunicar, emitem sons altos, que os caracterizam como “inquietos”, “nervosos” e “doentes” Uma cultura determinada pelo con- texto sócio-histórico. Dessa forma, desde criança somos empurrados pelo racismo estrutural, que permeia as nossas relações sociais. No imaginário coletivo dos educadores o fracasso é produ- zido, predominantemente, por ‘culpa’ do aluno que, segundo muitos: é pouco inteligente, com problemas de comportamento, defasado intelectualmente, é oriundo de famílias muito pobres, desajusta- das, e sem exemplos domésticos a serem seguidos, como ideais de vida (CARVALHO, 2007, p. 124). Dessa maneira e concordando com autor/autora,na maioria dos casos, quando as crianças surdas ingressam na escola, são desafiados primeiramente a aprenderem a ler e escrever em português, mesmo sem nem mesmo terem adquirido sua própria língua considerada materna, a língua de sinais. Além disso, muitas também não foram ensinadas sobre igualdade racial e cultural, dessa maneira, têm dificuldades para defenderem sua identidade enquanto sujeito minoritário em um espaço excludente. – gerando atrasos na construção de identidade, cultura e desenvolvimento pois parte-se do princípio que o ser humano aprende e se desenvolve a partir das interações com o outro que são media- das pela língua (OLIVEIRA, 2018). Entretanto, Bruno (2008) pondera que, apesar dos avanços das políticas públicas, principalmente, das ações afirmativas, que incluem a implementação das leis n° 10.639/2003 e n° 11.645/2008, que modificaram a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), tornando obrigatório o ensino da História da África e Cultura Afro-Brasileira, além da Lei de Libras n° 10436/02 e do Decreto n° 5626/05, o espaço escolar continua sendo reflexo de uma sociedade preconceituosa que, guiada por um discurso de inclusão e igualdade, desconsidera a identidade, a língua e a etnia dos sujeitos envolvi- dos nos processos de formação . 64 Ora, a maioria dos casos, quando as crianças surdas ingressam na escola, são desafiados primeiramente a aprenderem a ler e escrever em português, mesmo sem nem mesmo terem adquirido sua própria língua considerada materna, a língua de sinais. Além disso, muitas também não foram ensinadas sobre igualdade racial e cultural, dessa maneira, têm dificuldades para defenderem sua identidade enquanto sujeito minoritário em um espaço excludente. Nesse contexto, acentua-se ainda mais quando esses alunos surdos-negros chegam à escola com a idade avançada, adolescentes ou adultos e precisam lidar com situações de preconceitos, bullying e chacotas. Escolas, predominantemente, de pessoas não surdas e brancas, ou seja, ouvintes que desconhecem a Libras e geralmente desrespeitam sua raça, sua cultura e sua identidade, impondo-lhes a uma padroniza- ção hegemônica que dificulta a escolarização. Por conta disso, muitos alunos desistem antes de concluírem o ensino básico. Dessa forma, desde criança somos empurrados pelo racismo estrutural, que permeia as nossas relações sociais, como assinala Silva (2000). É importante ratificar que, a educação das relações Étnico-Raciais tem por alvo a formação de cidadãos, mulheres e homens empenhados em promover condições de igualdade no exercício de direitos sociais, políticos, econômicos, dos direitos de ser, viver, pensar, próprios aos diferentes pertencimentos étnico-raciais e sociais. Em outras palavras, persegue o objetivo precípuo de desencadear aprendizagens e ensinos em que se efetive participação no espaço público. Isto é, em que se formem homens e mulheres comprometidos com e na discussão de questões de interesse geral, sendo capazes de reconhecer e valorizar visões de mundo, experiências históricas, contribuições dos diferentes povos que têm formado a nação, bem como de negociar prioridades, coordenando diferentes interesses, propósitos, desejos, além de propor políticas que contemplem efetivamente a todos. (SILVA, 2000, p. 190). Diante disso, esse processo dificulta a percepção, a construção e a valorização de uma identidade étnico-racial diversificada, ao mesmo 65 tempo que fortalece a imposição de padrões á preestabelecidos. A linguagem é a forma do ser humano interagir com outros sujeitos. No processo de comunicação entre surdo-surdo e surdo-ouvinte é possível perceber que há diferenças significativas. “A visão dicotômica centra-se na separação de teoria e da prática “dentro deste esquema, corresponde aos ‘teóricos’ pensar, elaborar, refletir, planejar e, aos ‘práticos’ executar, agir, fazer” (CANDAU, 2013, p. 60). Atualmente, no Brasil, é possível diagnosticar um expressivo quan- titativo de pessoas surdas-negras e com deficiência auditiva. Segundo o IBGE (2010), os pretos e pardos representam respectivamente 50,9% da população. A maior parte da população brasileira é negra e deveria estar ocupando todas as estruturas da sociedade, o que não acontece atualmente, visto que a população negra ainda é minoria nas universi- dades, nos órgãos públicos e nas esferas estatais na sociedade brasileira. Se pensarmos sobre um indivíduo negro que ainda apresenta algum tipo de deficiência essa realidade se torna ainda mais cruel/caótica. Assim, facilmente visualizamos no dia a dia: um expressivo número de pessoas surdas e negras não só no Brasil. Isso reforça ainda mais a necessidade de políticas que visibilize essa população. Nas esco- las, surdos sofrem para além das questões clínicas e de acessibilidade; pois ainda não encontramos um ensino que seja pautado nas vivências surdas e nem em suas histórias africanizadas. As disciplinas de histó- rias não mencionam o contexto de luta de seus(as) alunos surdos(as) negros(as). Não há sequer interação na comunicação entre professor e seu aluno surdo. A segregação não é física, mas é, principalmente, social e linguística. A escola é um espaço que deve garantir os direitos de acesso e permanência escolar e não somente pautado no AEE. Ou seja, o AEE, não deve ser o único momento que o aluno é visibilizado na escola. O serviço precisa ser um complemento da escola comum, direcionando os atendimentos de acordo com as especificidades e as necessidades de cada um, retomando atividades que fortalecem a identidade e cultura do aluno 66 É importante memorarmos que, há aproximadamente 30 anos, era muito difícil encontrarmos pessoas com deficiência incluídas em rede regular de ensino. Essa situação é completamente diferente atualmente. Naquele tempo não se discorria sobre o direito desses sujeitos serem incluído ou não em rede regular; até porque as pessoas com deficiência eram segregadas e excluídas da coletividade e de ambientes que apresentavam “pessoas com normalidade”, ações essas, que muito contribuía com uma sociedade, os excluíam cada vez mais. Assim, acreditava-se na ideia de que pessoas que apresentavam qualquer tipo de limitação não estavam aptas para frequentar o mesmo ambiente que pessoas “sem deficiências’’ Nesse contexto, ainda que os (a) aluno(a) surdo(a) e negro(a), ao ser matriculado em uma escola comum, em que não tenha uma política linguística bilíngue em uso, está sujeito a um processo de exclusão, já que por não ser compreendido em sua língua de sinais, seja durante as aulas seja nos espaços comuns da escola, não conseguirá ser atendido em suas dificuldades ou anseios, ou seja, não terão “voz’’. A falta de for- mação de profissionais da educação que desconhecem as singularidades linguísticas da comunidade surda e suas representações étnicas, com os quais os alunos convivem constantemente, faz com que esses discentes sejam encarados como sujeitos que devem ser reparados socialmente. Por isso, os professores acabam aprovando-os independentemente do rendimento obtido pelos alunos. Além disso, estar matriculado não deve ser somente uma garantia de que o acesso à educação foi dis- ponibilizado e de que os alunos serão aprovados; mesmo se questões sociais importantes de identidade e de cultura não forem fomenta- das. Como podemos observar nas informações, a maioria dos alunos surdos acabem sendo aprovados pelo conselho de classe, e ainda não apresentam fundamentos documentados que justificam esse processo avaliativo excludente, o que reforça os estigmas históricos exclusivos e os predestina a uma educação seletiva. 67 CONSIDERAÇÕES Diante disso, a marca indelével imposta socialmente que é a sua condição étnica e surda, além de serem nomeados como diferentes e, em muitos momentos, como incapazes. Esses estigmas reforçam ainda mais um processo desigual de escolarização e contribuem para um aprendizado mais precarizado. Dessa maneira, esse públicotem necessidades abrangentes quanto à garantia de seus direitos de inclu- são, afirmação e fortalecimento de sua identidade. É de necessidade urgente mais discussões que abordem temáticas surdas decoloniais que, viabilizem práticas pedagógicas fundamentadas em um currículo aberto à diversidade humana, e contribuía para uma maior autoestima dos estudantes, pois todo o processo inclusivo possibilitará, a criação de pontes facilitadoras que tornam o processo de escolarização mais diverso, inclusivo e afetivo. Além de, fortalecer a militância bilíngue/ escolar, com a certeza de que toda criança tem o direito de se identificar com a sua língua materna, seus pares linguísticos e ter esta identificação aceita e respeitada pelos outros. REFERÊNCIAS ALMEIDA, J. D. Inclusão do aluno com deficiência auditiva: um desafio à família e aos profissionais da educação. Monografia (Especialização em Desenvolvimento Humano, Educação e Inclusão Escolar) UAB/UnB-IP, Brasília, 2009. BUZAR, Francisco José Roma. Interseccionalidade entre raça e surdez: a situação de surdos (as) negros (as) em São Luís - MA., il. 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Revista Virtual de Cultura Surda, n.24, 2018. 69 UMA REVISÃO SISTEMÁTICA DE LITERATURA SOBRE O CONCEITO DE FUNÇÃO USANDO A LENTE DA TEORIA ANTROPOLÓGICA DO DIDÁTICO Jefferson Dagmar Pessoa Brandão16 Iracema Campos Cusati17 INTRODUÇÃO A Revisão Sistemática de Literatura (RSL) consiste, para Gal- vão e Pereira (2014, p. 183), em “[...] um tipo de investigação focada em questão bem definida, que visa identificar, selecionar, avaliar e sintetizar as evidências relevantes disponíveis [...]” de determinado tema de interesse, a fim de auxiliar, segundo Brizola e Fantin (2016), em duas vertentes, ter clareza das principais questões teórico-me- todológicas abordadas sobre o tema investigado e compor o cor- pus que permitirá conhecer o que foi pesquisado sobre o tema nos anos anteriores a pesquisa atual. A RSL é uma modalidade de pesquisa científica composta por objetivos próprios, problematização, metodologia, resultados e con- clusão, o que significa dizer que vai além de uma revisão de literatura usual, pois segue protocolos específicos visando apresentar logicidade a um grande conjunto de pesquisas, segundo Galvão e Ricarte (2019). Portanto, é um desenho de pesquisa científica ordenada que utiliza como fonte de dados a literatura sobre tema especifico e de inte- resse. A RSL é caracterizada por uma análise cuidadosa da literatura selecionada e se desenvolve por meio de busca fundamentada com critério de inclusão e exclusão. 16 Doutorando em Educação Matemática e Tecnológica – EDUMATEC (UFPE). Professor (IFPB). CV: http://lattes.cnpq.br/6743103980451012 17 Doutora em Educação (FEUSP). Professora Permanente do PPGFPPI (UPE) e do EDUMATE (UFPE). CV: http://lattes.cnpq.br/2629444811211201 http://lattes.cnpq.br/6743103980451012 http://lattes.cnpq.br/2629444811211201 70 A elaboração de uma RSL, sobre determinado objeto de investi- gação é importante para evidenciar o que vem sendo pesquisado sobre o tema de interesse (GIL, 2002). No entanto, como afirma Mendes e Pereira (2020), na área de Ensino e Educação Matemática não se tem realizado revisões sistemáticas de Literatura que considerem os critérios próprios dessa modalidade de busca. Se fossem usados poderiam, segundo os referidos autores, orientar e facilitar o trabalho do pesquisador como já vem ocorrendo na área de Ciência da Saúde. Na Revisão apresentada neste capítulo empregamos as cinco etapas propostas por Galvão e Ricarte (2019) que constituem a RSL realizada acerca do conceito de Função sob a ótica da Teoria Antro- pológica do Didático (TAD) como recurso de análise, quais sejam: i) delimitação da questão a ser tratada na revisão; ii) seleção das bases de dados; iii) elaboração de estratégias para busca avançada; iv) seleção de textos e v) sistematização dos resultados. O objetivo geral desta RSL foi identificar as contribui- ções da TAD nas investigações que adotaram o conceito de função como objeto de pesquisa. Após essas considerações iniciais, a seguir é exposto o percurso metodológico utilizado para definição, escolha e análise dos textos sele- cionados em função do objeto de estudo e dos critérios metodológicos para RSL; bem como um esboço analítico e as conclusões da pesquisa. CRITÉRIOS METODOLÓGICOS Para seguir as etapas da RSL, o objetivo da revisão foi iden- tificar em teses e dissertações quais as contribuições da TAD nas investigações que adotaram o conceito de função como objeto de pesquisa, destacando os aspectos da teoria que são utilizados nas investigações e como são utilizados. A primeira etapa definida por Galvão e Ricarte (2019) é a delimitação da questão a ser abordada. Para este estudo buscamos 71 compreender: Quais as contribuições da TAD nas dissertações e teses defendidas a partir do ano de 2013 que adotaram o conceito de Função como objeto de pesquisa? Após a definição da pergunta, seguindo a próxima etapa pro- posta por Galvão e Ricarte (2019), foi consultado o Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES. Na terceira etapa, de elaboração de estratégias para busca avan- çada (GALVÃO e RICARTE, 2019), foram definidos termos de busca para a base selecionada. Nessa etapa, recorreu-se ao uso de elementos de restrição, conforme indicado para as pesquisas de revisão do tipo sistemática, cujos descritores utilizados combinaram as palavras-chave: “Teoria Antropológica do Didático”, “Transposição Didática” e “Con- ceito de função”. Para o cruzamento das palavras-chave utilizou-se os operadores booleanos “AND” e “OR”. Das dissertações e teses encontradas, foram selecionadas aquelas que continham o conceito de Função como conteúdo investigado, combinado com a Transposição Didática e a TAD. Nesta quarta etapa, como sugerida por Galvão e Ricarte (2019), a seleção de textos pode ser extensa. Nesta busca, a lista de dissertações e teses encontradas somou setenta e, portanto, foram submetidas aos critérios de exclusão de repetições que, por conta do uso dos booleanos e pela permuta das palavras, restaram vinte e quatro investigações selecionadas. Outro critério adotado foi retirar os trabalhos que tanto no título quanto no resumo não identificavam o uso do conceito de Função. Assim, foram excluídas mais nove pesquisas que abordavam os con- teúdos ciclo trigonométrico, operações elementares, área de figuras geométricas, conceito de números, entre outros. Após a utilização dos critérios de busca e exclusão, realizadas todas as etapas da pesquisa sistemática no Catálogo da CAPES, foram elencados treze trabalhos, constituindo quatro teses de doutorado e as demais dissertações de mestrado. 72 Destaca-seque o ano de 2016 sobressaiu com três dissertações defendidas e 2019 com duas teses. As instituições cujos trabalhos foram desenvolvidos são PUC/SP, UFRPE e UFBA, todas com duas publicações, as demais foram UFJF, UNIAN, UFOPA, UESC, UFPE, UFPA e UEPB, com uma defesa em cada uma destas instituições. A figura 01 a seguir resume as cinco etapas propostas por Galvão e Ricarte (2019) e deixa em destaque os critérios considerados para o desenvolvimento dessa RSL em cada etapa. Essas etapas não são desconexas e podem ser reutilizadas em qualquer tempo. Figura 01: Etapas da RSL definidas nesta pesquisa Fonte: Adaptação dos autores. Cumpridas as quatro primeiras etapas para RSL propostas por Galvão e Ricarte (2019), chega-se à última, de sistematização das informações encontradas. Foram destacadas, nas leituras, as catego- rias previamente determinadas: objetivo, metodologia de pesquisa e resultados alcançados, tomando nota dos aspectos da TAD com o intuito de responder à questão definida para o artigo, que per- 73 mitirá ordenar e organizar as contribuições da TAD nas pesquisas no campo da Educação Matemática. DESCRIÇÃO E APRESENTAÇÃO DOS DADOS DA RSL Foi realizada uma leitura acurada de três partes dos textos que compõem essa RSL: o resumo, a introdução e as considerações finais, além de uma leitura transversal das outras partes da pesquisa. Os realces considerados para esse capítulo, foram dispostos por meio de suas semelhanças de abordagens e investigações. Nos textos analisados e na triagem de análise foram priorizados o uso da TAD em análise de provas, passando por livros didáticos, opinião dos professores, até a proposta de um Percurso de Estudo e Pesquisa (PEP), entre outros, conforme é descrito a seguir: Sobre a prova do ENEM, mesmo havendo contextualização, foi percebido por Campos (2014) que nada vale a questão estar relacionada com o cotidiano do discente se ele não tem compreensão do conceito e que ao resolver as tarefas os alunos aplicam técnicas que diferem das técnicas dos professores, geralmente utilizam sensibilidade numérica. As contextualizações cotidianas, nos livros didáticos, embora existam um apelo das situações-problema para alguns aspectos da realidade, tais parâmetros serviram de maquiagem, sem importância na construção dos saberes matemáticos. O que ocorre também com uma suposta interdisciplinaridade e a contextualização com outros conteúdos da matemática. Chaves (2016) afirma que a diversidade de contexto envolvendo o objeto estudado não garante que proporcionará condições para a apropriação de conhecimento do objeto em jogo pelo aluno. A partir do estudo das dissertações e teses percebemos que os aprendizes fazem o uso mecânico, via de regra, das técnicas para solucionar as tarefas. As investigações asseguram que isso ocorre já que em sala de aula é anteposto esse recurso pelos professores, onde é dado destaque no bloco prático-técnico. Até mesmo a proposi- ção de questões das avaliações segue um cuidado para que as tarefas 74 sejam parecidas com as que foram executadas em sala de aula pelos docentes, como afirma por Maduro (2015), quando destaca uma orga- nização didática tecnicista. Os livros didáticos também privilegiam as tarefas e como executá-las, não dando ênfase sobre a reflexão na utilização de determinada técnica. A apresentação dos livros didáticos, sobretudo os exercícios resolvidos, destacados por Santana (2016) e Teixeira (2016), em sua maior parte, utilizam uma técnica e em seguida propõem outra tarefa similar àquela resolvida, confirmando que a apresentação do conteúdo no livro didático geralmente apresenta a teoria referente aos conceitos do objeto, seguido de exemplos resolvidos e no final surgem as tare- fas propostas, dando ênfase às tarefas de fixação e memorização de fórmulas. Quando algum livro explora o trabalho da técnica, os pro- fessores tendem a enfatizar apenas o seu uso para resolver as questões (MADURO, 2015). Segundo ele, os docentes afirmam que é impor- tante a demonstração de fórmulas e teoremas nas aulas, porém não o fazem porque os alunos não sinalizam interesse por essa abordagem e o tempo disposto para aula é insuficiente para outras explorações. Na maioria das organizações matemáticas predomina-se o uso da aplicação repetitiva de uma mesma técnica ou procedimento, pre- valecendo a praxeologia pontual, segundo Santos (2017). O autor afirma que em determinadas tarefas, a praxeologia é expandida, tendo um discurso tecnológico de justificação e percepção de regularidades na aplicação de algumas técnicas, nessas foi identificada a praxeologia regional, entretanto ocorre pouco. Sobre o uso de materiais didáticos, o estudo de Gouvêa (2014) aponta que, apesar da orientação dos documentos oficiais e de outros materiais de apoio indicarem um caminho alternativo para o ensino de função, por meio do entendimento de proporcionali- dade, os professores priorizam o que é proposto nos livros didáticos e introduz função por meio de conjuntos, apesar de reconhecer a importância do material de apoio. 75 Dessa forma, o livro didático é posto como um organizador do saber matemático que deve ser ensinado como afirma Santos (2017). Chaves (2016) constata que a escolha do livro que vai ser ofertado e usados pelos alunos não passam por uma seleção e análise criteriosa, geralmente essa escolha é feita em reunião rápida em que um dos professores apontava sua opção baseada no autor mais conhecido e os outros o seguiam, isso ocorre apesar da importância que os livros didáticos têm para o cotidiano da sala de aula. Segundo Freitas (2015), a TAD dispõe de um suporte relevante para que se tenha uma noção do que os livros didáticos oferecem, pois faz evidenciar como é abordado o conceito, identificando tanto o bloco prático-técnico como o tecnológico-teórico. Ou seja, a TAD permite ter uma visão ampla dos livros didáticos, sendo a noção de praxeologia ferramenta indispensável para as análises das atividades propostas nos livros didáticos e nas atividades. Pantoja (2017) verificou que as organizações matemáticas e didáticas dos professores diferem das propostas pelo livro didático, isso foi detectado através da transposição didática realizada pelo pro- fessor em situações quando selecionou o conteúdo a ser ensinado de acordo com o que considerava relevante; quando alguns aspectos ou parte do conteúdo eram mais ou menos enfatizados do que outros; quando determinou uma forma de apresentar e organizar o conteúdo por meio da apresentação e da resolução de tarefas. Em contrapartida, Santos (2017) afirma que os professores guiam suas aulas conforme a sequência apresentada no livro didático e que o mesmo exerce grande influência na prática da sala de aula. Outro ponto de destaque é o uso de tecnologias digitais nas atividades matemáticas, a partir das praxeologias desenvolvidas sem a presença da tecnologia digital ou quando ela foi simplesmente jus- taposta à prática, estavam ligadas a técnicas sem muita complexidade, através de fórmulas e a algoritmos de cálculos. Já as praxeologias das atividades com o uso de tecnologias digitais ganham, além da otimiza- 76 ção de tempo nas construções gráficas, uma dinamicidade, aponta Sousa (2020). As ferramentas tecnológicas, nas situações didáticas, são os objetos ostensivos que, por meio da exploração e do manuseio na expe- riência empírica, possibilitam compreender os objetos não-ostensivos O uso das ferramentas digitais integrado ao processo de ensino e aprendizagem, ajudam segundo Sousa (2020) na comunicação de saberes, na construção de novas praxeologias e na dialética da ostensividade dos objetos, abrindo um leque para novas análises dos fenômenos didáticos. Uma alternativa de uso da TAD para melhor qualidade do ensino e da aprendizagem é a utilização do Percurso de Estudo e Pesquisa (PEP). O PEP promove alterações nas Organizações Matemática e Didática dos professores; oportuniza mudanças na praxeologiados alu- nos e do professor, ao mesmo tempo que influencia as práticas de ensino do professor, proporciona formação profissional; permite a utilização e articulação de técnicas, fazendo com que o professor e seus alunos as justifiquem com uma discussão tecnológica fundamentada por uma teo- ria (CARVALHO, 2019; RODRIGUES, 2019; CARNEIRO, 2020). CONEXÕES ESTABELECIDAS ENTRES AS PESQUISAS Durante a realização da RSL foram registrados os temas con- siderados nas pesquisas selecionadas e percebemos quais conteú- dos são mais estudados e as possíveis lacunas ainda existentes. Das treze dissertações e teses analisadas a maioria dos textos, abordava o estudo da Função Quadrática. Sobre as modalidades de ensino verificamos que existem pesqui- sas da TAD com o objeto Função, no ensino fundamental 2; no ensino médio, com predomínio da primeiro série, sendo apenas uma pesquisa realizada na terceira série, que investigou questões do ENEM e de vestibular, nenhuma na segunda série; no primeiro ano de curso supe- rior, encontramos uma investigação, entretanto não foi na licenciatura 77 em Matemática, quatro pesquisas foram realizadas na Licenciatura, uma no último ano de uma turma de estágio supervisionado, outra pela experimentação de um PEP, a terceira e quarta, respectivamente nas disciplinas de “Função I” e “Cálculo Diferencial e Integral”, na primeira também foi experimentado o PEP; uma pesquisa, a partir do critério de busca retornou a modalidade EJA e uma nos anos ini- ciais. Diagnosticamos a abrangência da utilização da TAD em várias modalidades de ensino, também notamos que existe grande tendência de realização de pesquisas com o conceito de Função usando a TAD no primeiro ano do ensino médio. Os recursos mais utilizados foram, o livro didático, que é o mais frequente, quase todas as pesquisas reservaram um capítulo para análise de livros didáticos, sobretudo utilizando e identificando a praxeologia matemática (tarefa, técnica, tecnologia e teoria). Os outros recursos identificados foram: questões do vestibular tradicional e as questões do ENEM, propostas curriculares, caderno do professor e caderno do aluno, uma sequência didática, software GeoGebra, documentos oficiais, recursos tecnológicos, planejamentos de aulas e tarefas matemáticas. Nas pesquisas estudadas os pesquisadores utilizaram sete tipos diferentes de metodologias de pesquisa: Engenharia Didática, Pes- quisa Documental, Observação de aulas, Entrevista Semiestruturada, Análise Institucional, Pesquisa Exploratória e Percurso de Estudo e Pesquisa. A seguir são apresentadas aquelas que se destacaram pela maior quantidade de uso e de que forma foram abordadas. Tiveram investigações que utilizaram a Engenharia Didática de Artigüe, todos os trabalhos que usam, como metodologia de pesquisa, a Engenharia Didática faz considera a de primeira geração como suporte para o desenvolvimento de toda a pesquisa. A Pesquisa Documental foi utilizada como subsídio para análise de currículo, de materiais de apoio e de livros didáticos. A Observação de aulas buscou identificar 78 as organizações matemáticas e didáticas feitas pelos professores em sala de aula, a transformação do saber em jogo, se o planejamento da aula corresponde a organização matemática efetivamente ensinada e as praxeologia efetiva em sala de aula. Entrevista semiestruturada buscou entender o que o professor narra a respeito do uso da pra- xeologia matemática, tarefa, técnica, tecnologia e teoria. Já o PEP apareceu em pesquisas dos anos de 2019 e 2020, revelando que seu uso é recente nas investigações, elas propunham a construção de um modelo praxeológico alternativo para o estudo do conceito em jogo. Na figura 02 apresentamos um quadro que esboça uma síntese do que foi considerado como conexões percebidas na leitura das investigações, destacando a quarta coluna que são os aportes teóricos da TAD que foram utilizados pelos pesquisados, levando a perceber a amplitude que essa teoria é capaz de atingir. Figura 02: Conexões advindas das pesquisas. Fonte: Criada pelos autores. 79 CONSIDERAÇÕES FINAIS O direcionamento da RSL feita buscou responder: Quais as contribuições da TAD nas dissertações e teses defendidas a partir do ano de 2013 que adotaram o conceito de Função como objeto de pesquisa? Com esta pergunta, a intenção foi identificar as con- tribuições da TAD nas investigações que adotaram o conceito de função como objeto de pesquisa e mostrar que as pesquisas de revisão sistemática possibilitam condições de compreensão da contribuição da TAD nos estudos da Educação Matemática, sobretudo na análise praxeológica do conceito de Função. Identificamos e explanamos a importância que a TAD possui nas pesquisas, tanto para análise de livros didáticos, como para documentos escolares, soma-se as relações institucionais entre professor e material de apoio. Constatamos que o livro didático continua sendo o mais utilizado, sua proposta curricular é seguida pela maioria dos professores, existem convergências entre as praxeologias a serem ensinadas, propos- tas pelos livros didáticos e as praxeologias efetivamente ensinadas pelos docentes, não obstante, as investigações indicam que os professores se utilizam de outros recursos para complementação de seu planejamento. Nas análises de livros didáticos, com informações das pesquisas, foi possível verificar que, mesmo os problemas envolvendo contextua- lizações diferentes, as técnicas e tecnologias utilizadas eram sempre as mesmas, a diversificação de contextos, no caso especifico analisado, não ajuda na apropriação do conhecimento. Os livros didáticos priorizam as tarefas e como executá-las, não dando ênfase na explicação da utilização de determinada técnica. Geralmente a técnica usada nos exercícios resolvidos são as mesmas cobradas nas atividades propostas, existe uma excessiva preocupação com a fixação e memorização de fórmulas, levando a prevalência, nas 80 tarefas propostas nos livros didáticos, pela praxeologia pontual, são poucos os casos que expandem para a praxeologia regional. Nas pesquisas em que houveram observação das aulas, há uma valorização da técnica, tanto pelos professores como pelos alunos, refletindo uma tendência tecnicista. Existe um distanciamento entre o que é realmente ensinado pelos professores e a organização matemá- tica de referência, ou seja, o saber sábio sofre diversas transformações e chegam até o aluno de maneira que distorce o conceito e geram dificuldades no entendimento, pelos alunos. O PEP favorece a mudança de praxeologia do aluno e do pro- fessor e influencia as práticas de ensino utilizadas. Outra perspectiva que beneficia o ensino e aprendizagem é o foco na Transposição Didática Reflexiva, junção das perspectivas da Transposição Didática e da Educação Matemática Crítica. As pesquisas que usaram tecnologias e são analisadas por meio da TAD, mostram que os recursos tecnológicos favorecem a otimização do tempo e uma dinamicidade na utilização da técnica. Por dispor de leque grande de elementos, a TAD se mostra, a partir de todos os trabalhos aqui catalogados, como uma teoria que consegue ser base de avaliação de diversos fenômenos no processo de ensino e aprendizagem, mesmo nosso olhar sendo voltado para o conceito de Função, destacamos que TAD pode contribuir da mesma forma para outros conceitos matemáticos. De maneira geral, acreditamos que a questão norteadora dessa RSL foi respondida, principalmente a relação da TAD com as diversas modalidades de ensino e sua aplicação em diversos ambientes, como o material didático e prática do professor. 81 REFERÊNCIAS BRIZOLA, J.; FANTIN, N. Revisão da literatura e revisão sistemática da literatura. Relva, Juara/MT/Brasil, v. 3, n. 2, p. 23-39, jul./dez. 2016. Disponível em: https://periodicos2.unemat. br/index.php/relva/article/download/1738/1630. Acesso em: 26 jan. 2022. CAMPOS, P. T. G. A influência do cotidiano nas questões de função do Exame Nacionaldo Ensino Médio. Dissertação (Mestrado Profissional em Educação Matemática). Juiz de Fora: UFJF, 2014. CARNEIRO, A. de O. Análise das Praxeologias dos estudantes do 1º ano do ensino médio em um modelo interdisciplinar envolvendo função afim entre Matemática, Química e Física. Dissertação (Mestrado em Ensino, Filosofia e História das Ciências). Salvador: UFBA, 2020. CARVALHO, E. F. 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A Influência do software GeoGebra na aprendizagem de funções quadráticas. Dissertação (Mestrado em Educação Matemática). Ilhéus: UESC, 2016. SOUSA, D. C. de. Tecnologias Digitais No Ensino De Função Afim: Estudo De Caso A Partir Da Teoria Antropológica Do Didático. Dissertação (Mestrado em Ensino de Ciências e Matemática). Campina Grande: UEPB, 2020. 83 UMA PROPOSTA TEÓRICO- METODOLÓGICO DE ENSINO DE LÍNGUA INGLESA COM BASE NA LINGUÍSTICA GERATIVA E NA ABORDAGEM DA APRENDIZAGEM ATIVA Glaucyenne Cavalcante dos Santos18 Jessé de Sousa Mourão19 INTRODUÇÃO Em geral, o ensino de segunda língua nas escolas brasileiras consiste em uma aprendizagem fragmentada não focada no aprendiz como centro do processo de aprendizagem. Nesse contexto, não se considera que o aluno traga para a sala de aula suas experiências e conhecimentos prévios. Ele é tido como uma folha em branco. Con- forme Del Ré et al. (2012, p. 86), O ensino/aprendizagem de uma língua é assim consi- derado como um processo mecânico de formação de hábitos com a ajuda de estímulos e de respostas visuais e sonoras (como, por exemplo, as frases de um diálogo e as imagens correspondentes em um manual ou tela). Nesse sentido, essa perspectiva behaviorista tem focado prioritaria- mente nos elementos externos do processo de aquisição de linguagem e aprendizado de línguas naturais, não levando em conta o próprio aprendiz. Uma concepção e um modelo mais atualizados de ensino de lín- guas têm sido proposto por Pilati (2017). A autora lança mão dos pres- supostos teóricos da Linguística Gerativa e da Abordagem da Apren- dizagem Ativa para elaborar uma proposta teórico-metodológica que 18 Especialista em Neurociência e Aprendizagem (IBRA). CV: http://lattes.cnpq.br/7215155649772302 19 Doutor em Linguística (UFC). Professor adjunto (UVA). CV: http://lattes.cnpq.br/3551885027852388 http://lattes.cnpq.br/7215155649772302 http://lattes.cnpq.br/3551885027852388 84 enfatiza a capacidade inata do ser humano para adquirir línguas e a par- ticipação ativa do aprendiz no processo de aprendizagem de uma língua. Este capítulo objetiva apresentar uma proposta teórico-meto- dológica baseada no modelo de Pilati (2017) e adaptada para o con- texto de ensino e aprendizagem de segunda língua20, particularmente de língua inglesa. A proposta de Pilati é desenvolvida tendo em vista o ensino de gramática no contexto de aprendizagem de Português como língua materna. Pretendemos mostrar que a proposta de Pilati apresenta elementos e concepções teórico-metodológicas que também podem ser aplicados no contexto de aprendizagem de segunda língua. O ENSINO DE GRAMÁTICA PELA PERSPECTIVA DA LINGUÍSTICA GERATIVA E DA ABORDAGEM DA APRENDIZAGEM ATIVA A proposta de Pilati (2017) foi motivada pela constatação de alguns problemas comuns no contexto do ensino de gramática de língua portuguesa no âmbito da educação básica brasileira. Um des- ses problemas é a dificuldade que professores, mesmo já formados e experientes, têm em estabelecer uma relação adequada entre as con- tribuições dos estudos linguísticos e sua prática docente. Sabemos que apesar da quantidade substancial de conhecimento sobre a linguagem humana advindo das pesquisas linguísticas, pouco desse conhecimento é convertido e efetivamente utilizado nas práticas docentes. Outro problema observado é a abordagem pouco reflexiva que é empregada no ensino e aprendizagem de gramática na educação básica. Nesse contexto, é muito comum a prática de ensino e estudo de gramática baseada na memorização de listas de regras gramaticais. A autora também aponta que há uma distância entre as concepções de línguas e linguagem empregadas nos livros didáticos e as concepções trazidas pelos estudos linguísticos. 20 O termo “segunda língua” é empregado aqui em referência a qualquer língua que é adquirida ou aprendida após uma primeira língua/língua materna do aprendiz. 85 A partir dessas percepções, a autora propõe uma abordagem que busca articular os conhecimentos atuais dos estudos linguísticos e a metodologia da aprendizagem ativa (PILATI, 2016). O principal modelo teórico que fundamenta a proposta de Pilati é o da Linguística Gerativa, também chamada de Gramática Gerativa. Essa proposta teórica se estabelece nos estudos linguísticos a partir dos trabalhos de Noam Chomsky, por volta dos anos 50. Chomsky situa sua teoria da linguagem humana no mesmo campo dos estudos cognitivos, mas se contrapondo aos modelos cognitivos de aprendizagem de linguagem vigentes na época, como as teorias compor- tamentalistas, que tinham como principal nome Skinner. É com as obras Syntactic Structures (CHOMSKY, 1957), Current issues in linguistictheory (CHOMSKY, 1964), Aspects of the theory of syntax (CHOMSKY, 1965) e Lectures on Government and Binding (CHOMSKY, 1981), que as ideias de Chomsky ganham mais notoriedade. A partir desses trabalhos, novas concepções sobre a linguagem humana são propostas. As principais são: a) a linguagem é uma facul- dade inata do ser humano e b) o sistema linguístico é criativo. A noção de que a linguagem é uma faculdade inata propõe que o ser humano já nasce predisposto a aprender uma língua. É essa capacidade que Chomsky denomina de Gramática Universal (GU). Isso significa que o conhecimento que os seres humanos têm com respeito à linguagem é formado por dois componentes: um conjunto de conhecimentos que é adquirido quando o indivíduo entra em contato com uma lín- gua particular e um conhecimento que não é adquirido a partir da experiência, mas que é apenas ativado na experiência, pois já existe na mente/cérebro do indivíduo como uma dotação genética. O outro fator atribuído à linguagem humana é a criatividade. Chomsky (1965, p. 6) afirma que “uma propriedade essencial da lin- guagem é que ela fornece os meios para expressar indefinidamente muitos pensamentos e para reagir apropriadamente em uma variedade indefinida de novas situações”. A noção de criatividade linguística, por- 86 tanto, tem a ver com o potencial da língua para expressar ideias novas por meio de estruturas linguísticas que nunca foram utilizadas antes. Com base nessas concepções teóricas, Pilati (2017) propõe que, no contexto de ensino de Português como língua materna, é importante considerar que nenhum aprendiz inicia os estudos formais da língua sem nenhum conhecimento. Geralmente quando a criança inicia sua vida escolar, ela já chega à escola com uma carga grande e significativa de conhecimento de sua língua. Primeiro, ela já possui uma carga de conhecimento inata, uma competência linguística (a GU), mesmo antes de ter aprendido qualquer língua. Segundo, ela já desenvolveu uma competência linguística particular (sua língua materna) sem qualquer instrução, isto é, apenas como resultado de sua inserção em um contexto familiar/social de uso de uma língua particular. Pilati argumenta que, no contexto de ensino de Português, “a ideia não é ensinar Português para os alunos, mas sim torná-los mais conscientes do seu saber linguístico’’ (2017, p. 87). A ABORDAGEM DA APRENDIZAGEM ATIVA Pilati assume uma concepção da abordagem da aprendizagem ativa a partir das ideias de Cagliari (2009) e Bransford et al. (2007). Cagliari trata de duas perspectivas metodológicas que podem orientar as práticas de ensino/aprendizagem. Uma é o que ele chama de método do ensino e a outra é o método do aprendizado. Modelos baseados no método do ensino tipicamente assumem a perspectiva do professor. Esse é tido como o responsável pela aprendizagem, aquele que se encarrega de transferir o seu conhecimento para o aprendiz, que por sua vez está em um estado de conhecimento zero sobre um determinado assunto, e que após a aula terá dominado aquele conteúdo e deverá ser capaz de reproduzi-lo da forma como aprendeu. No campo da aprendizagem de línguas, essa abordagem se efetiva por meio de exercícios que exigem a mera memorização de palavras ou conceitos gramaticais metalinguístico, a rotulação e classificação de 87 elementos e estruturas linguísticas, sem nenhuma reflexão aprofun- dada sobre essas estruturas ou poucas oportunidades de uso criativo desse conhecimento linguístico. Já o método do aprendizado, conforme os autores, é um modelo que parte do pressuposto de que o aprendiz possui conhecimentos prévios e capacidade crítico-reflexiva sobre as informações a que é exposto. O método do aprendizado, portanto, é uma abordagem que coloca o aprendiz em perspectiva. A responsabilidade de construção do conhecimento sai do domínio do professor e é compartilhada também com o aprendiz, que passa a assumir um papel ativo nesse processo, mas sem dispensar o auxílio do professor. Nesse sentido, o professor deveria criar situações em que o aluno participasse de forma proativa, reflexiva e autônoma da exploração dos conteúdos das aulas. No contexto do ensino e aprendizagem de línguas, essa perspectiva também é totalmente coerente com a teoria gerativa, pois reconhece os saberes prévios dos alunos (nesse caso, os saberes linguísticos) que preci- sam ser ativados, reconhecidos ou relacionados a conhecimentos novos. Para a formulação de uma metodologia de aprendizagem ativa, Pilati assume particularmente os princípios de aprendizagem de Bransford et al (2007). Conforme esses autores, a aprendizagem deve ser orientada por três princípios: a consideração do conhecimento prévio, o aprofundamento do conhecimento e o desenvolvimento de habilidades metacognitivas. Com base nesses princípios, Pilati estrutura sua proposta metodológica, que será mais detalhada a seguir. ELEMENTOS DA PROPOSTA METODOLÓGICA DE PILATI (2017) A partir dos princípios de aprendizagem de Bransford et al (2007), Pilati (2017) elabora sua proposta aplicando-a para o campo de ensino/aprendizagem de gramática. O princípio do conhecimento prévio, por exemplo, é embasado na perspectiva teórica da gramática gerativa, principalmente no entendimento de que os aprendizes já pos- 88 suem uma carga de conhecimento inato (sua competência linguística) antes mesmo de iniciarem sua vida escolar. Mas o conhecimento prévio também contempla conhecimentos não inatos, que foram aprendidos em momentos anteriores, como o conhecimento sobre as propriedades particulares de sua língua. Todo esse conjunto de conhecimentos é muito rico, deve ser considerado e recuperado no estudo formal da língua. O princípio do aprofundamento do conhecimento sobre os fenômenos estudados diz respeito à construção do conhecimento em um nível que vai além da simples retenção ou reconhecimento de um conjunto de fatos. Nas palavras de Bransford et al (2007, apud PILATI, 2017, p. 104), a compreensão profunda envolve a transfor- mação de “conhecimento factual em conhecimento utilizável”. No contexto do ensino/aprendizagem de línguas, não basta, portanto, apenas memorizar listas de palavras, expressões ou regras. É pre- ciso conseguir aplicar esse conhecimento e usar a língua eficiente- mente em contextos comunicativos. Conforme Pilati (2007, p. 105), para que os alunos desenvolvam uma compreensão profunda é necessário que eles consigam “entender os fatos e as ideias no contexto do arcabouço conceitual e organizar o conhecimento a fim de facilitar sua recuperação e aplicação”. Para possibilitar esse entendimento e organização do conhecimento é preciso elaborar atividades de aprendizagem que levem os alunos a: a. aprender a identificar padrões; b. desenvolver uma compreensão profunda do assunto; c. aprender quanto, onde e por que usar tal conhecimento, levando em conta as condições (PILATI, 2007, p. 105). A identificação de padrões, no campo da aprendizagem de lín- guas, é muito importante, pois sabemos que as línguas são formadas por sistemas bem estruturados. A estrutura linguística é constituída por 89 padrões, isto é, ela não consiste em um encadeamento ou combinação aleatória de itens linguísticos. Em relação ao desenvolvimento do conhecimento profundo do objeto de estudo, nesse caso a gramática da língua, Pilati dis- cute a importância de criar oportunidades de compreensão apro- fundada. Isso deve ser garantido por meio de atividades que valori- zem a reflexão sobre os fatos linguísticos e não apenas a identifica- ção e memorização desses fatos. É fundamental também, conforme Pilati, que todo esse conhe- cimento refletido e aprofundado seja posto em uso, e isso pode ser feito, por exemplo, por meio de “elaboração de textos, leitura crítica, revisão e análise de textos” (PILATI, 2017, p. 108). Quanto ao princípio do desenvolvimento de habilidades meta- cognitivas, de Bransford et al. (2007), Pilati argumenta que o aprendiz deve ser capazde avaliar seu próprio processo de aprendizagem. Para isso, a autora propõe que “haja momentos para a criação do sentido, para a autoavaliação e para a reflexão sobre o que funciona e o que precisa ser melhorado no processo de aprendizagem” (PILATI, 2017, p. 108). Para o desenvolvimento dessas habilidades metacognitivas, a autora faz uma sugestão bem interessante: utilizar materiais con- cretos nas aulas. Esses materiais concretos são objetos físicos (como brinquedos, materiais reciclados, tabelas etc) associados aos conceitos, funcionamento e propriedades da língua, e que podem ser manipulados pelos alunos. É nesse processo de uso e manipulação desses materiais que os alunos poderão transformar os conceitos abstratos em elementos concretos, e assim alcançar uma maior compreensão e consciência da estrutura sintática e dos fenômenos gramaticais da língua em estudo. Para orientar a ação prática do professor na promoção de uma aprendizagem ativa, Pilati propõe uma sequência didática que pode ser utilizada para estruturar uma aula com essa abordagem. Essa sequência é apresentada no quadro abaixo: 90 Quadro 1 - Sequência didática da aprendizagem ativa Atividade Explicação dos objetivos da atividade 1. Avaliação do conheci- mento prévio dos alunos No primeiro momento da aula, é importante que se investiguem os conhecimentos prévios dos alunos acerca do fenômeno a ser estudado. 2. Experiência linguística O momento da “experiência linguística” está diretamente relacionado ao conhecimento factual. O professor deve selecionar conjuntos de dados relevantes, orações ou textos, em que os aspectos linguísticos a serem estudados estejam presentes e possam ser objeto de análise pelos alunos. 3.Reflexões linguísticas Os alunos devem ser incentivados a refletir sobre os fenômenos linguísticos e a expor suas intuições sobre os aspectos linguísticos relacionados ao tema que está sendo investigado. 4. Organização das ideias Nessa etapa, devem ser sistematizadas as descobertas dos alunos. 5. Apresentação das ideias Para que os conhecimentos linguísticos adquiridos sejam utilizados de forma consciente, os alunos devem ser incentivados a produzir textos e a expressar suas ideias nas formas oral e escrita e também por meio do uso de materiais concretos. 6. Aplicação dos conheci- mentos em textos Para desenvolver o conhecimento factual dos alunos, é recomendável que o professor apresente para eles textos em que o fenômeno estudado ocorra. Dessa forma, o aluno poderá entender como determinado fenômeno ocorre em situações reais de uso e poderá desenvolver seu conhecimento linguístico explícito em situações complexas, parecidas com as que enfrentará em situações reais de leitura, análise ou produção de textos. SOBRE A METACOGNIÇÃO: Devemos incentivar os estu- dantes a usar a metacogni- ção em todos os momentos da aula, ou seja, ensinar os estudantes a aprender o controle da sua própria aprendizagem por meio da definição dos objetivos da aprendizagem e do moni- toramento do seu progresso em alcançá-lo. Fonte: Pilati (2017, p. 118-119) Conforme podemos observar no quadro, essa sequência didática compreende os vários aspectos levantados e discutidos no quadro teórico que fundamenta a proposta. Vai desde o momento inicial de avaliação do conhecimento prévio do aluno, passando pelos momen- tos de experiência, reflexão e organização dos fatos linguísticos, até o momento de aplicação dos conhecimentos adquiridos. A metacognição, como é destacada no quadro, é um elemento que perpassa todos esses momentos, pois é importante que todo o processo de aprendizagem seja acompanhado por essa tomada de consciência e avaliação dos conhecimentos desenvolvidos. Essa proposta de sequência didática 91 também é incluída na proposta elaborada neste trabalho e será arti- culada e contextualizada nas seções seguintes. ADAPTAÇÃO DA PROPOSTA DE PILATI PARA O CONTEXTO DE ENSINO/APRENDIZAGEM DE SEGUNDA LÍNGUA De todo o quadro teórico da gramática gerativa, o que Pilati (2017) destaca para compor sua proposta é a concepção de uma capa- cidade ou conhecimento inato que habilita o ser humano para o desenvolvimento de uma língua. Uma vez que a criança já é dotada desse conhecimento, tal conhecimento não precisa ser aprendido. Quando tratamos de ensino e aprendizagem de segunda língua, no entanto, precisamos repensar esse ponto de vista. Normalmente, as crianças, adolescentes e adultos que são submetidos à aprendizagem de uma segunda língua, como a língua inglesa no contexto educacional brasileiro, têm muito pouco conhecimento específico dessa língua. Grande parte do sistema lexicogramatical, bem como as habilidades de uso dessa língua, ainda precisam ser desenvolvidos. Nesse ponto, há uma grande distinção entre o ensino da língua materna e o ensino de segunda língua. Enquanto que no contexto da primeira língua, o ensino deve proporcionar uma complementação (isto é, a aprendizagem da modalidade escrita da língua e da metalinguagem linguística) sobre o conhecimento que o aprendiz já tem; no contexto de segunda língua, o ensino deve proporcionar praticamente todo o conhecimento necessário para domínio da língua, não apenas conhecimento sobre a modalidade escrita e a metalinguagem, mas principalmente as competências orais e comunicativas necessárias. Desse modo, o ensino de língua inglesa na educação básica não pode se limitar apenas à promoção de uma maior consciência sobre os fatos linguísticos, como é enfatizado para o ensino de língua materna na proposta de Pilati (2017). A outra distinção que precisa ser feita diz respeito ao conhe- cimento prévio que o aprendiz já carrega antes de iniciar o processo 92 de aprendizagem da língua. No contexto da língua materna, esse conhecimento prévio inclui, além da GU, o conhecimento do sistema linguístico particular de sua língua materna, e por isso, o papel das aulas de português seria apenas complementar esse conhecimento com a modalidade escrita e compreensão mais consciente do sistema linguístico já desenvolvido. Já no contexto de segunda língua, o conhe- cimento prévio inclui esse mesmo conhecimento da língua materna, e possivelmente o conhecimento inato universal (a GU), mas pouco conhecimento específico da língua-alvo já está disponível. Considerando o ensino de língua inglesa, por exemplo, pode- mos dizer que há uma grande quantidade de conhecimento de língua portuguesa que poderá ser aproveitado na língua inglesa. Essas duas línguas compartilham de um conjunto de propriedades tanto no nível lexical quanto no nível sintático e gramatical. Com base nessa discussão, os elementos da proposta de Pilati (2017) que podem ser incluídos numa proposta de ensino e apren- dizagem de segunda língua são: a capacidade inata do indivíduo para adquirir uma ou mais línguas e o conhecimento prévio linguís- tico que o aprendiz já carrega. PROPOSTA DE APLICAÇÃO Para exemplificar a proposta aqui apresentada, que é uma adap- tação da proposta de Pilati (2017), escolhemos como tópico de estudo a estrutura de sentenças simples em língua inglesa. A estrutura de sentenças é um conhecimento que qualquer falante de qualquer língua precisa desenvolver. Na aprendizagem da língua inglesa, o desenvol- vimento de conhecimento sobre a estrutura das orações mobiliza diversos tipos de conhecimentos, como os diversos tipos de verbos e seus padrões de seleção argumental, os tipos e formas dos argu- mentos/complementos, os tipos e formas de adjuntos, bem como a estrutura sintática de uma sentença. 93 O exemplo de aplicação será apresentado seguindo a sequên- cia didática de Pilati (2017) dada no quadro 1, que inclui as etapas: avaliação do conhecimento prévio dos alunos, experiência linguística, reflexões linguísticas, organização das ideias, apresentação das ideias, aplicação dos conhecimentos em textos, além do exercício da meta- cognição que deve perpassar todas as etapas. a) A avaliação do conhecimento prévio Aavaliação do conhecimento prévio consiste em checar quanto de conhecimento sobre um determinado assunto o aprendiz já possui. Em relação ao estudo da língua inglesa, e particularmente da estru- tura de sentenças simples nessa língua, é importante que o professor verifique o quanto já conhecem da estrutura linguística de sentenças do inglês e das palavras que serão objeto de estudo. O professor pode, por exemplo, pedir que os alunos expressem oralmente ou por escrito algumas possíveis sentenças em inglês que eles já conheçam. Em relação ao conhecimento lexical, é provável que boa parte das palavras que serão exploradas na aula ainda seja desconhecida dos alunos, e são essas palavras que eles começarão a incorporar ao seu conhecimento da língua. Antes disso, é necessário que o professor verifique as palavras que já são conhecidas pelos alunos e as que ainda não são. A partir dessa avaliação do conhecimento prévio, o profes- sor ajustará sua aula de modo a focar mais nos elementos que ainda são pouco conhecidos da maioria. b) A experiência e reflexão linguística O momento da experiência linguística é aquele em que o apren- diz entrará em contato com os fatos linguísticos, é nesse ponto que os aprendizes serão expostos a palavras, sentenças e textos em língua inglesa. Uma das fontes de dados linguísticos são os gêneros textuais. Os gêneros textuais são muitos e variados e sua adequação vai depender do conteúdo que será objeto de estudo e do público alvo. Para esse 94 exemplo de aplicação, escolhemos o texto da música Every breath you take de Gordon Sumner / The Police. O objetivo dessa atividade é apresentar o texto da música aos alunos e pedir que eles mesmos procurem explorar a linguagem, e principalmente as palavras, desse texto de modo a compreenderem as ideias e mensagem do texto. Para isso, eles podem utilizar tanto o conhe- cimento prévio que eles têm quanto outros recursos, como dicionários. Após um momento de experiência e descoberta pelos próprios alunos, o professor pode fechar esse momento discutindo com eles a compreen- são que tiveram da música, ajustando os sentidos com eles. A música também deve ser tocada para apreciação e exposição à língua oral. c) Organização das ideias A fase de organização das ideias consiste na sistematização do conhecimento que foi explorado, experimentado e descoberto na fase anterior. Uma maneira de fazer isso, como sugerido em Pilati (2017) é usar tabelas linguísticas. O professor pode disponibilizar tabelas com duas colunas, uma para os substantivos e outra para os verbos e pedir que os alunos preencham essa tabela com as palavras retiradas do texto da música. Pode ser necessário discutir com os alunos as noções de substantivos e verbos. E outras categorias lexicais podem ser incluídas também se for o objetivo da aula. O quaddro abaixo exemplifica as palavras que podem ser identificadas a partir da música explorada: Quadro 2 - Modelo de tabela para organização dos elementos linguísticos Substantivos Verbos breath bond step day word game night take make break watching say play stay see Fonte: elaborado pelos autores. 95 Uma continuação dessa etapa pode ser pedir aos alunos que formulem frases simples com essas palavras. Uma outra tabela pode ser disponibilizada para a formulação das frases, e os verbos podem ser incluídos numa coluna central, deixando em branco os espaços para os argumentos desses verbos, como demonstrado no quadro abaixo. Quadro 3 - Modelo de tabela para elaboração de estruturas make brake watch play Fonte: elaborado pelos autores. Nessa segunda atividade, os alunos colocarão em prática os conhecimentos prévios e novos conhecimentos sobre a estrutura de uma sentença em língua, além da estrutura argumental desses verbos. d) Apresentação das ideias A etapa de apresentação das ideias consiste na exposição e exteriorização consciente que os alunos devem fazer do conhecimento adquirido e explorado. É nesse momento que Pilati (2017) sugere o uso de materiais concretos para instigar o uso ativo do conhecimento e também o aprofundamento e conscientização dos fatos linguísticos estudados. Uma forma de fazer isso, no estudo da estrutura de sen- tenças simples do inglês, é confeccionar (o professor e/ou os alunos) figuras, ou coletar objetos, que representem os substantivos explorados nos textos já vistos, além de outros que sejam necessários. Os verbos, e outras palavras, como artigos e preposições, particularmente, podem ser representados pela própria palavra escrita em cartões. Essas figuras e/ ou objetos então podem ser manipulados pelos alunos como forma de representar sentenças simples, simplesmente pela disposição e ordena- ção desses objetos em uma mesa, no quadro ou no chão da sala de aula. 96 Outra possibilidade seria o inverso: o professor coloca apenas as figuras no quadro (sem figuras com palavras) e os alunos devem formar as frases apenas com cartões de texto. e) Aplicação dos conhecimentos em textos A etapa final é a de aplicação dos conhecimentos estudados. É uma etapa que deve permitir a consolidação dos fenômenos e fatos linguísticos explorados na aula. Pilati sugere o uso da análise e revisão textual. Considerando o contexto de estudo da estrutura das sentenças simples em inglês, e os exemplos de aplicação dados anteriormente, uma sugestão é solicitar que os alunos anotem todas as frases elaboradas pelos outros grupos, e depois haja um momento de leitura e revisão dessas sentenças, para que possam apontar os problemas encontradas e os ajustes necessários a serem feitos. Por fim, é necessário destacar a importância do uso da meta- cognição que pode estar presente em todas essas etapas. É papel do professor, portanto, levar os alunos em todos esses momentos a refletirem sobre suas escolhas linguísticas realizadas durantes as ativi- dades, de modo que eles consigam explicar essas escolhas e se tornar mais conscientes dos conhecimentos que já possuem e daqueles que adquiriram a partir das atividades. CONSIDERAÇÕES FINAIS Esse trabalho teve como finalidade apresentar uma alternativa metodológica para o ensino tradicional de segunda língua, historicamente marcado por uma abordagem behaviorista-estruturalista. Propomos uma abordagem teórico-metodológica baseada na proposta da Apren- dizagem Ativa e da Gramática Gerativa desenvolvida por Pilati (2017). Conforme discutido, essa proposta se mostra mais adequada e promissora para o estudo da gramática das línguas por ser ancorada em uma teoria linguística, a Gramática Gerativa, que tem como prin- 97 cipal hipótese a ideia de que o ser humano já nasce dotado de uma predisposição para a aquisição e desenvolvimento de uma língua; e também por assumir a abordagem da aprendizagem ativa, que deve possibilitar uma experiência de aprendizagem em que o aprendiz não é apenas um sujeito passivo, receptor de informações, mas sim um participante ativo e atuante no desenvolvimento da sua própria aprendizagem. A combinação desses elementos na proposta da autora, se consolida em um modelo que deve guiar a aprendizagem dos fatos gramaticais linguísticos a partir de três princípios: a consideração do conhecimento prévio, o aprofundamento do conhecimento e o desenvolvimento de habilidades metacognitivas. Como vimos, embora a proposta de Pilati (2017) tenha sido originalmente elaborada visando o ensino/aprendizagem da gramática da língua portuguesa (enquanto língua materna), a proposta também se mostrou adequada e promissora para o campo do ensino/apren- dizagem de segunda língua. Os dois aspectos dessa abordagem que podem ser mantidos nesse contexto de ensino/aprendizagem são: i) o reconhecimento de conhecimentos prévios (inatos ou aprendidos) trazidos pelos aprendizes para sua experiência formal escolar, e que devem ser considerados no estudo da segunda língua, pois formam uma base inicial para o desenvolvimento de conhecimentos novos e ii) o emprego de uma metodologia ativade aprendizagem, que tanto no ensino de primeira língua quanto no ensino de segunda língua será muito válido, uma vez que torna os aprendizes participantes ativos, engajados e responsáveis, em parte, por sua própria aprendizagem. Com base nessas discussões, a proposta apresentada de aplicação desse modelo ajustada para o ensino de segunda língua é uma sugestão didática modelo que pode ser expandida para variados contextos e realidades de ensino formal de língua inglesa e variados tópicos linguís- ticos. Cabe ao professor de segunda língua/língua inglesa se apropriar desse quadro teórico-metodológico de forma crítica e reflexiva, levar em consideração sua realidade de atuação docente e reestruturar suas 98 aulas a partir dessa proposta. É somente a aplicação dessa proposta em situações e contextos reais de ensino de segunda língua/língua inglesa que mostrará sua adequação, pertinência e viabilidade, bem como pos- síveis lacunas, inconsistências e necessidades de ajuste ou ampliação. REFERÊNCIAS BRANSFORD et al. (orgs.). Como as pessoas aprendem: cérebro, mente, experiência e escola. São Paulo: Editora Senac, 2007. CAGLIARI, Luiz Carlos. Alfabetizando sem o Ba - Be - Bi - Bo - Bu. São Paulo: Sci- pione, 2009. CHOMSKY, N. Lectures on government and binding. Dordrecht: Foris, 1981. CHOMSKY, N. Aspects of the theory of syntax. Cambridge: The MIT Press, 1965. CHOMSKY, N. Current issues in linguistic theory. The Hague: Mouton, 1964. CHOMSKY, N. Syntactic structures. The Hague: Mouton, 1957. DEL RÉ, Alessandra et al. (Orgs.) Aquisição da linguagem: uma abordagem psicolinguística. 2. ed., São Paulo: Contexto, 2012. PILATI, Eloisa. Linguística, gramática e aprendizagem ativa. 2 ed. São Paulo: Pontes, 2017. 99 COMO SURGIU O MODERNO ESTUDO DOS SEMICONDUTORES E QUAIS FORAM SUAS PRIMEIRAS APLICAÇÕES TECNOLÓGICAS? Francisco Vadimar Bezerra Alves21 João Erineudo Cavalcante22 Marlene Francisca de Andrade23 INTRODUÇÃO Os semicondutores são elementos que desempenham uma fun- ção seletivamente condutora ou isolante dependendo das condições externas a que estão expostos, como temperatura, pressão, radiação e campos elétricos ou magnéticos. Os semicondutores são sólidos cris- talinos tem uma certa condutividade elétrica, de modo que podem funcionar como condutores e isolantes. O objetivo desse trabalho é fazer um levantamento bibliográfico de como surgiu o moderno estudo dos semicondutores, como também as suas primeiras aplicações tecnológicas, uma vez que, possa contribuir para a aprendizagem, permitindo assim, a compreensão de assuntos de forma esclarecedora, também, relatar sobre a importância do surgimento do moderno estudo dos semicondutores, contando com referências conceituais analisadas durante a pesquisa bibliográfica. O presente trabalho está estruturado em seis tópicos, no primeiro tópico discutirá a introdução no qual serão apresentados os procedi- mentos que serão utilizados para a execução da pesquisa. O segundo tópico será apresentado um breve histórico dos semicondutores, também serão apresentadas as primeiras aplicações tecnológicas. O terceiro tópico será trabalhado os tipos de semicondu- 21 Mestrando em Física (UFERSA). CV: http://lattes.cnpq.br/0767978937985302 22 Mestrando em Física (UFERSA). CV: http://lattes.cnpq.br/5308017948875229 23 Mestranda em Física (UFERSA). CV: http://lattes.cnpq.br/6039002341455819 100 tores. O quarto tópico apresentará os procedimentos metodológicos que serão utilizados para a execução da pesquisa e caracterizando a mesma. No quinto tópico serão expostos de maneira organizada os resultados encontrados durante a pesquisa, assim, como serão dis- cutidos através de mapas conceituas durante a pesquisa bibliográfica consultada. No sexto tópico, serão expostas as considerações finais, a partir da presente pesquisa, e logo mais as referências bibliográficas que foram utilizadas para a consecução desta pesquisa. Portanto, a finalidade desta pesquisa é demonstrar como surgiu o moderno estudo dos semicondutores e quais foram as suas primeiras aplicações tecnológicas para o mundo moderno. UM BREVE HISTÓRICO DOS SEMICONDUTORES A história dos semicondutores começou em 1833, quando o físico e químico inglês Michael Faraday descobriu que o sulfeto de prata apresentava um coeficiente de resistência a temperatura. Este fato, provavelmente foi a primeira descoberta significativa no campo dos semicondutores (REVISTAS ANTIGAS DE ELETRÔNICA, 2017). Faraday ao aquecer o Ag2S percebeu que sua resistência elétrica diminuiu à medida que sua temperatura era aumentada até determi- nado valor. Fato totalmente inesperado e em completo desacordo com outras substâncias metálicas já estudadas. Na época não foi apresentado explicação sobre o ocorrido, assim como todas as outras observações iniciais sobre os semicondutores. Seis anos após a descoberta de Faraday, o físico francês Alexandre Edmund Becquerel, conhecido na sociedade científica por seus trabalhos iniciais no campo radioatividade, que tinha uma importante contri- buição nos estudos dos semicondutores ao observar em uma solução de selênio, o aparecimento de uma diferença de potencial entre os ele- trodos de solução condutora, quando submetido a iluminação solar, uma corrente elétrica era criada, seu neto Antoine Becquerel que tambem 101 atuou em trabalhos mais recentes sobre radiotividade. Portanto, estava aí mais uma descoberta ao estudo dos semicondutores, a fotovoltagem. Mais tarde, por volta do ano de 1870, o efeito fotovoltaico foi estudado em sólido por um engenheiro eletricista de nome, Willoughby Smith, que durante suas pesquisas com cabos submarinos precisava de um material que demostrasse uma alta qualidade e resistência, a haste de selênio material escolhido por Smith, parecia desenvolver com satisfação o propósito almejado, porém, quando levado a prática, mostrou muitas inconsistências (TEICHHOLTZ, 1967). Após investigações, descobriu que a condutividade das hastes de selênio aumentou significativamente quando exposta à uma forte luz. Sem explicação, foi preciso averiguar as possíveis causas para o fenômeno e, em 1873 W. Smith, descobriu a fotocondutividade ao perceber que a resistência do selênio (material que não conduz eletrici- dade), poderia ser reduzida com a incidência de luz sobre ele, passando de isolante para condutor. Três anos depois, foi verificado pelo próprio Smith que o selênio também gerava energia a partir dos raios solares. No ano seguinte (1874) veio a descoberta de uma quarta pro- priedade semicondutora, a retificação. Karl Ferdinand Braun, observou que o sulfeto de chumbo em contato com uma ponta metálica causava uma não linearidade, ou seja, permitia a passagem de corrente elétrica em uma direção e sentido, mas o mesmo não era possível com mesma intensidade na direção e sentido contrários. “Na verdade, a corrente da direção é tão pequena, que quando aplicada diz-se que gira em uma direção” (SANTOS, 2013). O retificador galena como é conhecido o sulfeto de chumbo, foi o primeiro detector de estado sólido para ondas de rádio, e ficou popularmente conhecido como bigode de gato. Arthur Schuster, estudou a retificação entre não manchados (elementos de natureza pura), e manchados (elementos com algum nível de impureza). Muitos pesquisadores da época acreditavam que o foco dos trabalhos de Schuster sobre a retificação era voltado para o óxido de cobre, talvez por ser possível controlar o tipo de portadores 102 majoritário de cargas devido a adição de dopantes. É valido salien- tar que, por muito tempo o fenômeno da retificação acreditava-se tratar de um efeito térmico, e o cobre apresenta uma resistência ao calor e durabilidade considerável. Em 1876, W.G. Adams e R.E. Day criaram o primeiro elemento fotovoltaico do tipo moderno de camada de barreira, sua base foi feita com selênio. Eles observaram que a presença de luz podia mudar a direção da corrente, fluindo através do selênioconectado a uma bateria. Continuando o trabalho de W.G. Adams e R.E. Day sobre o selênio, C.E. Fritts produziu o primeiro retificador seco de grande área em 1883, que foi a primeira célula fotovoltaica. Com isso, Fritts sintetizou o selênio em filmes muito finos no substrato metálico e pressionou uma pequena folha de ouro em cima para fazer um segundo contato, o filme de ouro era fino o suficiente para deixar a luz passar. Em 1885, quatro das principais propriedades dos semicondutores foram observados, embora em materiais distintos. Ainda em 1885, foi conhecido as propriedades básicas dos semi- condutores, alguns dispositivos foram criados, mas sem grande apreciação uma vez que, ninguém sabia ao certo o que era um semicondutor, nem sua finalidade. Em 1925 a resposta para o que seria semicondutor veio com a equação de Schrödinger, a partir desse ponto, a física do estado sólido deu um grande passo rumo ao desenvolvimento da microele- trônica. A equação fundamental da mecânica quântica de Schrödinger resultou na invenção do diodo. Nos anos seguintes o aumento por conhecimentos dos semicon- dutores foi notório devido a comercialização do mesmo. “A propriedade fotocondutor desses materiais foi explorada comercialmente para fotocélulas e sua propriedade de retificação foi usada para elementos não lineares em circuitos eletrônicos” (TEICHHOLTZ, 1967, p. 11). 103 Figura 1: Mapa conceitual com noções básicas sobre a história dos semicondutores. Fonte: Autores, 2022. AS PRIMEIRAS APLICAÇÕES TECNOLÓGICA Os Semicondutores na Industria Eletrônica Uma das primeiras funcionalidades de um semicondutor acon- teceu em 1883, quando Charles Edgar Fritts produziu a primeira célula solar, que contia em sua estrutura física uma placa metálica, uma fina camada de selénio revestida com uma fina camada de ouro. Diferente dos dias atuais, a eficiência dessa célula solar ficou abaixou de um por cento. Em 1904, J. C. Bose, foi convencido a patentear seu retificador de ponto de contato PBS, mesmo sendo contra o patenteamento por acreditar que o conhecimento não deve ser restrito e sim, dis- ponível a todos. Dois anos depois G. Pickarde demonstrou que os retificadores de contato ponto-contato feito com silício eram úteis na detecção de ondas de rádio. Russell Ohl pesquisando sobre possíveis problemas com os detectores de onda de rádio que utiliza bigode de gato, constatou uma uniformidade na união do silício com quartzo. Ohl acidentalmente descobriu a junção p-n que culminou na criação do primeiro transístor. 104 Praticamente a invenção do transistor foi idealizada e concre- tizada pelos laboratórios de pesquisa da empresa Bell Telephone, nos Estados Uinidos, denominada Bell Labs, no início do século XX, pouco antes da 2ª guerra mundial. Devido o estudo e aplicação da lei de Shoringer em 1925, o estudo Ja havia sido iniciado por George Clarke Southworth, que trabalhou com guias para microondas e usando detectores de ondas de rádio ou chamados rádio-galena desenvolveu o radar, usado na segunda guerra mundial. Em 1931 Allan Wilson, formulou a teoria de bandas e Russel ohl, descobriu um melhor material semicondutor o Silício, em 1935 Willian Shockley começa a trabalha nos laboratórios Bell em 1936, onde em 1939 aprimorou uma maneira de converter os cristais retificadores em dispositivos de amplificação de sinais elétricos. Juntamente com Russel Ohl em 1940 que foi integrado a trabalhar nos laboratórios Bell, aprimoram o uso de cristais de germânio que controlam a corrente elétrica, no entanto pararam os estudos por conta da 2ª guerra mundial. Durante o início da década de 30, o período que antecede a 2ª guerra mundial e o período pós-guerra, teve um grande avanço da utilização de materiais semicondutores, como no caso da descoberta do Germânio (Ge) como primeiro díodo. Possibilitando a criação do transístor em 1947 por Bardeen, Shockley e Bratain, através dos laboratórios Bell, ganharam o prêmio Nobel de 1956. Portanto, sendo usado com grande importância, como transístor de rádio e outros ins- trumentos na 2ª guerra mundial. Continuando a crescente evolução dos transístores, John Shive de monstrou em 1948 um transístor de contato pontual fun- cionando com perfeição com o coletor e emissor colocado nos estre- mos de uma fina tira de germânio. Depois da invenção do transístor, o físico japonês Leo Esaki alcançou o díodo de túnel Esaki em 1957, ao estudar o germânio e silício fortemente dopados. Após engenheiros da Sony descobrirem um defeito no transístor 2T7, Leo e seus estagiários notaram que, 105 quando o nível de dopagem ultrapassava um certo valor, o transístor de junção PN parava de funcionar. A solução para o problema veio após a descoberta de uma resistência negativa gerada com o auto teor de impurezas. Esse díodo foi o primeiro dispositivo de elétron quânticos. Depois da invenção do transístor, o físico japonês Leo Esaki descobriu o díodo de túnel Esaki em 1957, ao estudar o germâ- nio e silício fortemente dopados. O primeiro circuito integrado (circuito eletrônico minia- turizado), surgiu um ano depois da criação do díodo de túnel. Jack Kilby apresentou vários dispositivos fabricados em um substrato de silício conectados por fios. Frank Wanlass inventou circuitos lógicos CMOS (semiconduto- res de óxido metálico complementar), no ano de 1963, essa tecnologia é utilizada na maioria dos microchips modernos. Figura 2: Mapa conceitual sobre as primeiras aplicações. Fonte: Autores, 2022. Devido aos seus poderosos recursos de processamento e armaze- namento de dados, a tecnologia de semicondutores se expandiu para a https://pt.wikipedia.org/wiki/Circuito_eletr%C3%B4nico 106 eletrônica, substituindo muitos dispositivos analógicos, como válvulas termiônicas. A gama de componentes eletrônicos é definida pela famosa Lei de Moore, dita que o poder de processamento dos dispositivos semi- condutores dobra a cada 18 meses. Mesmo após 4 anos, tal previsão ainda é justa para a situação atual (CAMPANÁRIO; SILVA; COSTA, 2009). Díodo Um diodo é o tipo mais simples de semicondutor. É um com- ponente eletrônico que permite que a corrente flua apenas em uma direção. Amplamente utilizado na retificação de sinal AC, retificação de sinal de áudio, detecção de sinal de rádio, etc. A figura abaixo mos- tra representação de diodos usados em dispositivos e componentes eletrônicos reais. Portanto, o mecanismo de diodo mostrado na Figura 3, é semelhante a uma célula fotovoltaica. Mas há trabalhos diferentes, uma delas é a correção, ou seja, con- trolar a corrente no circuito em apenas um sentido. O princípio usado para fazer um diodo é conectar dois semicondutores, um tipo p e um tipo n. Quando esta conexão ocorre, os elétrons preenchem rapidamente os buracos na área de montagem. Não há portadores de carga neste componente porque elétrons e buracos são conectados para formar uma barreira que não permite a entrada de corrente no dispositivo. Essa barreira é chamada de camada de depleção (MALVINO, 1997). Figura 3: Díodo. Fonte: Do site Achei Componentes. 107 Quando ddp é aplicado ao terminal de diodo do lado n (cátodo), a força eletromotriz quebra a camada de desaceleração, permitindo que a corrente flua através do fio. No entanto, quando a corrente entra pelo terminal p do diodo (ânodo), os elétrons conectam buracos no semicondutor, aumentam a camada de redução, interrompem o fluxo. Transistores A principal função de um transistor é atuar como uma chave ana- lógica. Possui três camadas de materiais semicondutores polarizados tipo p e tipo n. Portanto, temos a combinação pnp e npn, conforme mostrado na Figura 4. Cada uma dessas camadas tem uma taxa de dopagem dife- rente para se descrever como coletor, base e emissor. Como resultado, a junção semicondutora produz um fluxo e amplifica o sinal dentro do elemento e retorna ao circuito usando um emissor (MALVINO, 1997) Figura 4: Transistores em arranjos NPN e PNP. Fonte: Dosite Portal Eletricistas. Os transistores são, sem dúvidas, os componentes eletrônicos baseados em semicondutores mais utilizados e importantes, e essa fle- xibilidade possibilitou o desenvolvimento de computadores moderno. Essa tecnologia se aplica ao processamento e armazenamento de informações. Eles foram desenvolvidos nos laboratórios de Bell em 1947, utilizando o germânio como matéria-prima, a partir da necessi- dade de umas eletrônicas mais eficientes do que as espaçosas e frágeis válvulas termiônicas (CAMPANÁRIO; SILVA; COSTA, 2009). 108 TEORIA DE BANDAS A teoria de bandas foi desenvolvida em 1931 por Alan Wilson, essa teoria define com precisão a estrutura eletrônica do sólido em toda sua extensão, o mesmo mostrou a diferença existente entre um material condutor e um isolante, usando o conceito de condutividade elétrica, consistindo na migração de elétrons de uma barra de maior concentração de energia para uma de menor concentração. Portanto, teremos um sólido isolante, se a diferença entre as duas bandas de energia for bastante extensa. Em contrapartida, o sólido será condutor quando o espaço entre as bandas for inexistente. Mostrando na figura 5, representação esquemática de diagramas sobre os materiais semicondutores, o espaçamento entre as bandas de valência (maior energia), e a banda de condução (menor energia), são consideravelmente pequenos. Figura 5: Comportamento de corrente no metal Fonte: Imagem adaptada do material de SANTOS, 2016. 109 Este modo, emprega átomos formados a partir de núcleos (com- postos de prótons e nêutrons) e esferas elétricas (compostas de elétrons). Os elétrons percorrem órbitas horizontais determinadas pela distância do núcleo. À medida que essa distância aumenta, a atração entre o núcleo e o elétron se torna menor, e a carga negativa é facilmente removida quando o corpo está sob energia eletromotriz. No nível macroscópico, o fluxo de elétrons é equivalente à corrente elétrica. CONDUTIVIDADE ELÉTRICA Elétrons com órbitas fixas, segundo a conjectura clássica, só são possíveis devido ao equilíbrio entre a gravidade do núcleo e a força centrífuga criada pelo seu movimento de transporte. Deve-se notar também que quando a órbita é grande, ela puxa levemente e, portanto, o elétron distante deve girar levemente, caso contrário sua força central o afastará do alcance do núcleo atômico (MALVINO, 1997). Para objetos de estudo de condutividade, as camadas subjacen- tes da camada elétrica não são muito importantes. De fato, apenas o último orbital é de interesse para o estudo da condutividade, pois nele se encontra o número de elétrons que podem ou não converter um elemento em potencial condutor. Ao observar a estrutura de bons condutores como cobre, ouro e prata, verifica- se que cada um desses elementos possui apenas um elétron na camada de valência. A ideia é que, devido à sua distância do núcleo, esse único elétron seja suscetível à voltagem, puxando-o facilmente para fora da bola elétrica, transformando-o em um elétron livre. PROCESSO DE DOPAGEM Dopagem de semicondutores consiste em adicionar ao cristal puro, pequenas quantidades de impurezas para modificar as caracte- rísticas elétricas de forma controlada, tornando-o mais condutor. A dopagem de um material semicondutor para lhe conferir propriedades 110 condutoras envolve basicamente a aplicação de impurezas em sua estrutura cristalina. Esta concentração deve ser controlada para obter um material com uma condutividade especificada de acordo com sua aplicação. Este é um processo minucioso em que as impurezas devem estar presentes em quantidades de 1 átomo por 104 átomos de elementos elementares (SCHIMIDT, 2010). Como mencionado anteriormente, materiais semicondutores puros se comportam como isolantes. Se uma pequena diferença de potencial de ordem (ddp) for aplicada a ele à temperatura ambiente, não haverá fluxo de corrente. A condutividade elétrica é ativada por portadores de carga na estrutura cristalina deste material. CÉLULAS FOTOVOLTAÍCA As células fotovoltaicas são dispositivos semicondutores que tem como função converter energia proveniente do sol em energia elétrica. A confecção dessas placas solares pode utilizar diferentes materiais semicondutores, entre eles o principal elemento é o silício cristalino. Há dois tipos de painéis fotovoltaicos com grande utilização atualmente, os painéis monocristalinos e policristalinos; cada tipo atende uma necessidade específica. Os Monocristalinos: Um tipo de silício usado em quase todos os dispositivos eletrônicos. Hoje, tem uma forte capacidade de aceitar a radiação, devido à sua pureza, a eficiência energética é entre 14% e 21% superior ao polissilício. Os Policristalino: Consiste em pequenos cristais de silício, também conhecidos como polissilício. O material é produzido em vidro de sílica desalinhado, entre silício amorfo sem ordem de longo alcance e silício monocristalinos; As Células Solares ou Células fotovoltaicas, usadas para produzir energia elétrica a partir da radiação solar. https://www.aldo.com.br/blog/tudo-o-que-voce-precisa-saber-sobre-placas-fotovoltaicas/ 111 Figura 3: Placas solares feitas com cristais de silício ultra puro. Fonte: Do site Geocities. TIPOS DE SEMICONDUTORES Existem diferentes tipos de materiais semicondutores, depen- dendo das impurezas que apresentam e de sua resposta física a diferentes estímulos ambientais. Os Semicondutores intrínseca: sua estrutura molecular inclui ape- nas um tipo de átomo. Entre esses tipos de semicondutores internos estão o sílico e o germânio, cujas bandas eletrônicas produzem um gap de baixa potência, ou seja, o espaço entre a banda de valência e a banda de acionamento é pequeno, dando preferência ao fluxo elétrico. A ocorrência da semicondução depende de dois dispositivos de carga que se distribuem por todos os defeitos da rede cristalina: elé- trons e buracos (que pode ser entendido como a ausência de elétrons produzidos ao passar pela banda de valência). Portanto, um buraco pode ser considerado como uma partícula bem carregada com o mesmo tamanho, mas um sinal oposto, como um elétron. 112 Desta forma, os semicondutores internos possuem o mesmo número de condutores positivos e negativos, pois a cada elétron desen- volvido na banda de valência, é produzida uma lacuna na banda condu- tora. Portanto, a condutividade elétrica do semicondutor intrínseco é definida pelo produto do número de elétrons e lacunas, seu custo e fluxo. A estrutura molecular de um semicondutor intrínseco é tetra ética, ou seja, tem fortes ligações entre os quatro átomos ao seu redor. Cada átomo semicondutor intrínseco contém elétrons de valência, isto é, os elétrons giram em torno da camada externa de cada átomo. Cada um desses elétrons forma ligações com elétrons vizinhos. Já os Semicondutores extrínseca: atendem ao incluir impurezas nos condutores internos, isto é, combinação de elementos trivalentes ou pen- tavalentes. Introduz um comportamento de semicondução que depende muito do foco material no assunto, que pode ser de dois tipos: n ou p. Os semicondutores externos são aqueles que possuem menos impurezas eletrônicas, ou seja, as impurezas possuem uma banda de valência com valores de gap de energia mais baixos que o material puro. Portanto, são capazes de fornecer elétrons para a banda. Por outro lado, os semicondutores do tipo p externos possuem impurezas receptoras de elétrons, ou seja, possuem bandas flexíveis, possuem um elemento de banda de valência, um gap de energia menor que o próprio objeto. Desta forma, os átomos de impurezas atuam como receptores de elétrons na banda de valência do material. Com isso em mente, é possível fazer um semicondutor dopado adicionando impurezas do tipo n ou p para melhorar as propriedades elétricas desses materiais. Esse processo é chamado de dopagem e visa aumentar a con- dutividade elétrica dos materiais de construção, melhorando suaspropriedades físicas e elétricas. Ao substituir o átomo semicondu- tor interno por outro átomo atômico, dois tipos de semiconduto- res externos podem ser obtidos. • Semicondutor do tipo P. 113 Neste caso, a impureza é um elemento semicondutor triva- lente; ou seja, com três (3) elétrons em sua camada de valência. Os elementos que penetram no interior da estrutura são chamados de elementos dopados. Exemplos de tais elementos para um semicondutor do tipo P são boro (B), gálio (Ga) ou índio (In). • Na ausência de elétrons de valência para formar quatro ligações semicondutoras interconectadas, o semicondutor do tipo P tem um buraco na ligação ausente. • Semicondutor tipo N. O elemento intrusivo na configuração é dado pelos elementos pen- tagonais; ou seja, substâncias com cinco (5) elétrons na banda de valência. Neste caso, as impurezas embutidas no semicondutor interno são elementos como fósforo (P), antimônio (Sb) ou arsênico (As). Dopantes com mais um elétron de valência sem ligações covalentes para se unir, se moverão automaticamente pela rede. METODOLOGIA A metodologia empregada é a pesquisa bibliográfica, onde será utilizada trabalhos publicados relacionados as contribuições do sur- gimento do moderno estudo dos semicondutores e também as pri- meiras aplicações tecnológicas. Quando a exposição de dados e por ser bibliográfica se define como qualitativa, por fazer exposição de pesquisas publicadas, dis- cutindo os resultados de uma determinada metodologia, no caso é a importância dos semicondutores para compreensão de conhecimento referentes à Física no ensino Médio regular. Em outras palavras, a pesquisa qualitativa não foca em dados quantitativos, e sim na interpretação de fatos ou acontecimento. Silveira e Córdova (2009, p. 31) afirma: “A pesquisa qualitativa preocupa-se, 114 portanto, com aspecto não qualificáveis da realidade, focalizando a compreensão e a explicação da dinâmica das relações sociais”. Logo, por mais que nos trabalhos publicados hajam dados qua- lificados, esta é classificada como bibliográfica e qualitativa por não objetivar a discussão dos dados coletados por uma percentagem ou qual- quer outro dado numérico, do contrário, expõe pontos positivos sobre a inserção das primeiras aplicações tecnológicas como metodologia. Por esse motivo, esta pesquisa se enquadra como descritiva, pois considerando os objetivos, procurar descrever o que os artigos ou monografias pesquisadas apontam de benefício ao processo de ensino e de aprendizagem da Física no ensino médio. Colaborando com a tal afirmação, Gil (2002, p. 42) ressalta que um dos objetivos primordiais das pesquisas descritivas é caracterização de um fenômeno. Ou seja, analisar e discorrer sobre o tema se faz relevante. RESULTADOS Para a avaliação dos resultados da pesquisa devidamente aplicada, a abordagem empregada, conforme descrito anteriormente, é por meio da análise de pesquisa bibliográfica e qualitativa, a fim de selecionar temas com base em estudos previamente definidos e aprovados. Os resultados deste projeto nos mostram um breve histórico de como surgiu a pesquisa moderna de semicondutores. Em forma geral, um material é classificado como semicondutor quando sua resistividade à temperatura ambiente está na faixa de 10-2 e 109 Ω•cm, referindo-se a um valor intermediário entre um bom condutor e um bom isolante. Portanto, as propriedades elétricas únicas desses materiais se tornam particularmente úteis na construção de dispositivos eletrônicos (diodos, transistores, células fotovoltaicas, etc.) e aplicações envolvendo processos fotocatalíticos. Semicondutores são sólidos que podem facil- mente mudar seu estado de isolante para condutor. Isso ocorre porque os semicondutores têm intervalos de banda intermediários. 115 A banda proibida é a região que fica entre a banda de valência ou camada de valência de um átomo e a banda de condução (a região onde a corrente flui sob a ação de um campo elétrico). Quando os elétrons ganham uma certa quantidade de energia, eles se tornam livres e movem-se da camada de valência para a camada de condução. A condutividade de um semicondutor pode ser alterada a tem- peratura para atingir uma condutividade semelhante à de um metal, ou pode vir da excitação térmica, conhecida como condutividade intrínseca. Os semicondutores podem ser feitos de silício ou germânio e são usados para fazer componentes eletrônicos, como transistores. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os dispositivos semicondutores são base da eletrônica moderna, embora os avanços científicos em materiais que possuam uma mudança para outros tipos de tecnologia, como a spintrônica. A questão é que as estruturas de semicondutores ainda são úteis em muitas indústrias, principalmente na fabricação de microprocessadores e células solares. As demandas futuras de energia exigirão fontes de energia reno- váveis, e as células fotovoltaicas, que usam propriedades semicondu- toras na produção de energia, desempenhando um papel importante. Embora o silício seja um elemento abundante na crosta terrestre, novos materiais estão sendo pesquisados para substituí-lo, ou pelo menos rivalizá-lo, devido ao valor agregado de seu processo de purificação, que é muito caro em relação à matéria-prima. Além disso, há um grande paradoxo na questão das células sola- res, pois a obtenção do silício metalúrgico que produzirá o silício solar requer muita energia a ser gastada por meio de um processo de cabo térmico, que também utiliza o carbono como agente redutor presente em substâncias como petróleo, minerais e carvão vegetal. 116 REFERÊNCIAS CAMPANÁRIO; SILVA; COSTA, 2009 Ciências da Administração, ISSN-e 2175-8077 Vol. 11, Nº. 24, 2009, p. 69-101. GIL, A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2002. MALVINO, ALBERT P. Eletrônica: Vol 2. 4ª Ed. Editora Makron Books. 1997. RIBEIRO, W.S. – Semicondutores: um panorama geral com ênfase na purificação do silício. WDOSS RIBEIRO – 2013. Disponível em: http://repositorio.faema.edu.br:8000/xmlui/ handle/123456789/445. Acesso em: 10 maio 2022. SILVEIRA, D. T.; CÓRDOVA, F. P. A pesquisa científica. 2009. In: Métodos de pesquisa. GERHARDT, T. E.; SILVEIRA, D. T. (Orgs.). Universidade Aberta do Brasil – UAB/ UFRGS. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2009. Disponível em: http://www.ufrgs.br/ ufrgs/results?q=M%C3%A9todos+de+pesquisa&domains=www.u frgs.br&sitesearch=www. ufrgs.br. Acesso em: 10 nov. 2021. SANTOS, Carlos Alberto. A fantasminha camarada da microeletrônica. Revista ciências hoje. 27. 07. 2007. https://cienciahoje.org.br/coluna/o-fantasminha-camarada-da-microeletronica/. Acesso em: 10 maio 2022. ________. A cereja no bolo da microeletrônica. Revista ciências hoje. 04.10.2013. Disponível em: https://cienciahoje.org.br/coluna/a-cereja-no-bolo-da-microeletronica/#:~:text=Esta- mos%20na%20era%20do%20transistor,foi%20um%20dispositivo%20eletr%C3%B4nico%20 popular. Acesso em: 10 maio 2022. TEICHHOLTZ, Nathan Alan. A History of Semiconductor Research. MASS. INST. OF TECHNOLOGY. Jun 1967. https://dialnet.unirioja.es/servlet/revista?codigo=15491 https://dialnet.unirioja.es/ejemplar/310319 http://repositorio.faema.edu.br:8000/xmlui/handle/123456789/445 http://repositorio.faema.edu.br:8000/xmlui/handle/123456789/445 http://www.ufrgs.br/ufrgs/results?q=M%C3%A9todos%2Bde%2Bpesquisa&domains=www.ufrgs.br&sitesearch=www.ufrgs.br http://www.ufrgs.br/ufrgs/results?q=M%C3%A9todos%2Bde%2Bpesquisa&domains=www.ufrgs.br&sitesearch=www.ufrgs.br http://www.ufrgs.br/ufrgs/results?q=M%C3%A9todos%2Bde%2Bpesquisa&domains=www.ufrgs.br&sitesearch=www.ufrgs.br http://www.ufrgs.br/ufrgs/results?q=M%C3%A9todos%2Bde%2Bpesquisa&domains=www.ufrgs.br&sitesearch=www.ufrgs.br https://cienciahoje.org.br/coluna/o-fantasminha-camarada-da-microeletronica/ 117 A INTERNET NA SALA DE AULA E A SALA DE AULA NA INTERNET: AS NOVAS TECNOLOGIAS COMUNICACIONAIS E SUA INTERFACE EDUCADORA Leonardo Freire Marino24 INTRODUÇÃO O analfabetodo século XXI não será aquele que não consegue ler e escrever, mas aquele que não consegue aprender, desaprender e reaprender. Alvin Toffler (1928-2016) Quando analisamos o entorno em estamos inseridos, percebemos as marcas de um mundo em permanente transformação. Passamos a conviver intensamente com artefatos tecnológicos, que contribuem para a concreção para um cotidiano marcado pela intensificação do fluxo de comunicação e por instantâneas conexões virtuais. Entretanto, quando observamos o interior de uma instituição escolar, a realidade é muito diferente, na maior parte dos casos, presenciamos a existência de um ambiente marcadamente analógico, pouco integrado as novas tecnológicas e caracterizado, majoritariamente, pela utilização de metodologias de ensino estabelecidas há alguns séculos. É como se as escolas estivessem congeladas no tempo, servindo como testemunhas do passado, de uma realidade social que não existe mais fora de seus muros. O contraste, entre o interior e o exterior das instituições de ensino, expõe um descompasso, um desacerto temporal, entre um mundo em permanente transformação e o conservadorismo metodológico presente no ambiente escolar. Mas, será possível que as escolas permaneçam desta 24 Doutorado em Geografia (UFF). Professor Adjunto (UERJ) e no Mestrado Profissional de Ensino em Educação Básica (PPGEB) e Mestrado Profissional em Ensino de Geografia (PROFGEO). ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4492-1023 118 forma? Acredito que a resposta para esse questionamento é não. Não é possível que as escolas continuem realizando suas práticas por meio de um modelo de ensino tradicional e analógico, criado nos primórdios do processo de industrialização. No entanto, para que o modelo escolar seja modificado não é preciso apenas a incorporação de novos recursos tecnológicos, mas, sobretudo, a construção de novos métodos, a revisão de suas relações com o mundo atual e o reconhecimento de que as novas tecnologias interferem no estabelecimento de subjetividades. Buscando contribuir para a superação do distanciamento entre o ambiente escolar e as novas tecnologias proponho o presente ensaio. Seu objetivo reside em apontar de que forma as tecnologias digitais e as redes informacionais têm contribuído para a construção de um novo arranjo pedagógico e, consequentemente, possibilitado o soer- guimento de um novo arcabouço metodológico. Para atingir este objetivo, o trabalho foi dividido em duas partes. A primeira, nomeada como ‘A internet na sala de aula e a sala de aula na internet’, discute de que forma a rede mundial de computadores impacta os processos de ensino-aprendizagem e de como ela deve balizar a concreção de novos processos formativos. A segunda, intitulada como ‘A constru- ção de uma educação curiosa, criativa e colaborativa’, apresenta uma possibilidade metodológica, considerada como capaz de auxiliar o estabelecimento de novas práticas docentes e, consequentemente, de um modelo escolar que se apoie na produção de sujeitos emancipados, curiosos, criativos e colaborativos. A INTERNET NA SALA DE AULA E A SALA DE AULA NA INTERNET É inegável a importância que a internet adquiriu. Atualmente, parte considerável das atividades que realizamos cotidianamente se apoiam em artefatos tecnológicos conectados as redes digitais. O uso de aparelhos eletrônicos constitui um aspecto fundamental de nosso tempo, uma consequência direta do ambiente comunicacional- 119 cultural que emergiu no final do século XX e que se expandiu consideravelmente neste século. Frente a este cenário, a presença de artefatos tecnológicos e, consequentemente, as manifestações culturais estabelecidas por meio deles, se tornou natural e ordinária, ultrapassando os muros escolares. Apesar de serem, majoritariamente, marcadas por procedimentos metodológicos tradicionais e analógicos, as instituições de ensino não se encontram apartadas da influência das redes informacionais. A relação dos sujeitos com a cultura estabelecida e disseminada pela internet impõem novos hábitos e formas de acessar os conhecimentos historicamente produzidos. Ao passo que presenciamos sujeitos-escolares cada vez mais conectados, observamos uma alteração na forma como os saberes tradicionais são acessados. Em nossos dias, parte considerável dos conteúdos escolares se encontra disponível em plataformas digitais. Tal fato retirou das aulas, do encontro presencial com docentes, em instantes temporalmente estabelecidos, a exclusividade pela exposi- ção de informações e conteúdos escolares. Este por exemplo, é o caso das inúmeras vídeos-aulas disponibilizadas na plataforma de vídeos Youtube ou de Empresas que atuam na oferta de ‘aulas online’. De acordo com reportagem publicada na Revista Pequenas Empresas e Grandes Negócios, publicada no dia 10 de março de 2020, a plata- forma de ensino online Descomplica, contava a época com mais de 300 mil assinantes e 27.500 vídeos. Caracterizados por uma linguagem que integra imagens, sons e movimentos, atributos imanentes dos ambientes virtuais, o acesso a informações por meio das plataformas digitais aponta para o soer- guimento de procedimentos que se apresentam como mais atraentes, quiçá mais eficientes, para parte considerável dos estudantes. Esse novo arranjo informacional determina a ampliação do acesso aos conteúdos escolares e, consequentemente, a diversidade de formas de apresentação. No entanto, uma observação mais atenta a respeito do que é veiculado e, consequentemente, acessado nas redes, aponta a necessidade de 120 uma análise substancial, pois, em muitos casos, existem incorreções, imprecisões, ambiguidades e, em páginas especificas, a manipulação de informações essenciais. Aspectos que tornam a avaliação constante dos conteúdos digitais uma prática docente fundamental em nossos dias. Não resta dúvida que o contato com um universo maior de informações representa um aspecto positivo da disseminação do uso da rede mundial de computadores. Contudo, ao contrário do que ocor- reu nas primeiras décadas de existência da internet, onde o acesso às informações ocorria de maneira descentralizada e independente. Hoje, como consequência direta dos avanços tecnológicos, do marketing digital e do estabelecimento de interesses econômicos e políticos nos ambientes virtuais, convivemos com o soerguimento de sistemas de direcionamento de conteúdos por meio de mecanismos de inteligência artificial – IA (LEE, 2019). Contraditoriamente, a ampliação do uso da internet possibilitou a multiplicação da produção de conteúdos digitais, mas o acesso a eles, ao longo dos últimos anos, tem sido cada vez mais restrito, sendo direcionado pelos algoritmos de inteligência artificial. Para o pleno funcionamento dos algoritmos de IA é necessário um intenso processo de coleta e armazenamento de dados. A partir dos dados coletados, são traçados padrões de acesso e construídos os perfis dos usuários. É por meio desses perfis que as informações são disponibilizadas em nossos feeds, são os algoritmos que determinam o que será apresentado, as notícias e os links que serão disponibiliza- dos nas primeiras posições em um site de busca. Foi pensando nestes mecanismos que o pesquisador norte-americano Eli Pariser (2012), denunciou que o direito de escolha dos usuários da rede mundial de computadores foi subtraído pelos algoritmos de inteligência artificial. De acordo com suas formulações, se dois indivíduos acessarem o mesmo buscador comercial e pesquisarem o mesmo assunto, os resultados apresentados serão diferentes. Isso ocorrerá devido à ‘personalização’ realizada pelos algoritmos, que direcionarão os resultados com base no histórico de navegação, cliques e curtidas dos usuários. É a inte- 121 ligência artificial quem direciona o que tem sido exposto e que tipos de informações serão disponibilizados (CANCLINI, 2016). A crítica a personalização não reside em sua existência, mas na forma arbitrária e velada,quase imperceptível, que os perfis são estruturados. Os usuários não decidem o que será disponibilizado, não têm ideia do que não será exibido, ou seja, informações que pode- riam ser interessantes não estarão acessíveis, serão desprezadas pelos algoritmos (MOROZOV, 2018). A consequência mais perceptível desse processo reside na criação das chamadas ‘bolhas digitais’ que, entre outros aspectos, impedem o contato com opiniões contrárias e divergentes. As bolhas digitais constroem uma ilusão, uma miragem da realidade, cujo desdobramento determina uma falsa percepção do mundo, como, por exemplo, na ideia de que a posição política pessoal de um indivíduo é a única possível e existente. Em diversos momentos, os fatos e a complexidade que caracterizam os aspectos sociais, eco- nômicos e políticos são desprezados em razão de convicções pessoais alimentadas pela inteligência artificial. É por meio da personalização estabelecida pelos algoritmos que as bolhas ampliam a disseminação de diversos conteúdos, incluindo notícias falsas ou servindo aos pro- cessos de desinformação (HUI, 2020). Com base nessa realidade, torna-se essencial que docentes e dis- centes tenham um comportamento mais ativo em relação ao ambiente digital e, especialmente, que percebam os direcionamentos estabele- cidos pelos algoritmos. É preciso que as informações e os conteúdos disponibilizados na internet sejam, permanentemente, discutidos, confrontados e submetidos a uma análise crítica. Além disso, se o que recebemos como informação tem origem em algoritmos, precisamos questionar se de fato possuímos liberdade de escolha e se a internet democratizou, verdadeiramente, o acesso à informação. Vivemos um momento da era digital diferente daquele que existiu em seu início. Passamos de uma ‘sociedade em rede’, como descreveu o sociólogo espanhol Manuel Castells (2006), para uma ‘sociedade 122 de dados’. Se o advento da cultura digital, em seus primeiros anos, foi associado a democratização da informação, com a ampliação do acesso e da produção de conteúdos digitais, de saberes e de expressões culturais, atualmente, este processo tem sido solapado. Na sociedade de dados, ao passo que acontece a ampliação do número de usuários e de acesso aos serviços digitais, ocorre a redução da liberdade de escolha e do contato com o contraditório, com o diferente. A livre escolha foi subtraída dos indivíduos nos ambientes virtuais (MOROZOV, 2018). A incorporação da cultura digital nas práticas escolares não pode envolver apenas a disponibilização de artefatos tecnológicos ou o acesso às novas mídias, mas, fundamentalmente, a garantia de que os estudantes consigam perceber suas ‘bolhas’ e compreendam os fatores envolvidos no direcionamento de informações e conteúdos digitais. As redes informacionais precisam ser percebidas conforme o seu potencial, a cultura digital deve ser incorporada nas práticas de ensino, mas esses processos devem envolver análises criteriosas dos limites inerentes a sua utilização em nossos dias. Portanto, é preciso construir projetos pedagógicos que contemplem, simultaneamente, o potencial formativo presente nas redes e o estabelecimento de análi- ses críticas do que é acessado. Informação e conhecimento não são sinônimos. A informação tem sido facilitada por meio das redes virtuais, mas o conhecimento é uma construção mental, estabelecida através do processamento, da interpretação e da compreensão das informações recebidas. O conhecimento é o significado que atribuímos as informações que acessamos ao longo do tempo. Nesse sentido, podemos afirmar que a Internet criou uma geração de aprendizes mais informados, porém os algoritmos da inteligência artificial limitam as possibilidades de escolha e, consequentemente, interferem na produção de conhecimen- tos. Desta forma, é preciso que as informações acessadas não sejam entendidas como verdades absolutas, os conteúdos digitais precisam 123 ser confrontados, analisados e validados com base nos conhecimen- tos historicamente produzidos. É por esta condição que defendo que devemos levar a internet para o interior das salas de aula, mas, igualmente, precisamos levar as salas de aula para a internet. Aqui reside a importância das instituições de ensino e das práticas docentes, uma vez que os instantes de ensino devem ser transformados em momentos de reflexão a respeito das informações, cotidianamente, acessadas e de curiosidade para correlacionar diferentes visões de mundo. Existe um elevado potencial educativo nos ambientes virtuais, mas sua utilização depende de como esse recurso é apropriado pelos sujeitos. É preciso que as novas tecnologias sejam encaradas como um instrumental favorável a construção de novos processos de aprendizagem, porém esses recursos não substituem os momentos de formação, o contato com os docentes e a construção de processos de reflexão e aprendizagem (MORAN, 2018). A seguir apresentaremos uma possibilidade metodológica que pode subsidiar as ações docentes. Neste ponto uma ressalva deve ser feita, uma vez que não apontaremos um procedimento defini- tivo e acabado ou o relato de uma experiência pedagógica exitosa, o que busco é elencar uma possibilidade, um caminho metodológico que pode contribuir para a incorporação dos recursos digitais nos ambientes escolares e que, simultaneamente, favorecerá a formação de estudantes curiosos, criativos e colaborativos, competências atitu- dinais que considero como essenciais para a concreção de processos educativos adaptados ao momento atual. A CONSTRUÇÃO DE UMA EDUCAÇÃO CURIOSA, CRIATIVA E COLABORATIVA Historicamente, a escola apresenta seu foco no ato de ensinar. Em seu interior, os docentes possuem a centralidade dos processos formativos, selecionando de que forma as informações são expostas aos discentes. Em um contexto como o atual, marcado pela ampliação 124 do acesso à informação, parte do que é ensinado se encontra dispo- nível nas plataformas digitais. Por esta condição, não podemos negar que a rede mundial de computadores passou a interferir na escola- rização dos indivíduos. Frente a este cenário, defendo que as escolas objetivem a construção de reflexões, de análises e de correlações a respeito do emaranhado de informações que acessamos diariamente, procurando fomentar a curiosidade, a criatividade e a colaboração na construção de conhecimentos. O estabelecimento desses processos no interior das escolas, mesmo que ainda seja incipiente, está em curso, dado que compreende um percurso inevitável para a construção de um novo modelo educa- cional (RIFKIN, 2016). As escolas estão mudando suas arquiteturas metodológicas, transformando-se em espaços de fomento aos proces- sos de aprendizagens, contribuindo para a concreção de indivíduos autorregulados, corresponsáveis pelos seus itinerários formativos e pela seleção dos instrumentos mais adequados para a construção de seus conhecimentos. Porém, esse processo tem ocorrido de forma lenta, sendo marcado por idas e vindas e, curiosamente, resistências por parte de docentes e discentes. Acredito que a resistência ao novo decorre, sobretudo, do desconhecimento do potencial formativo presente nos novos arranjos pedagógicos e, principalmente, pela incompreensão do papel que será desempenhado pelos docentes neste novo cenário. Defendo que, neste novo arranjo pedagógico, os docentes assu- mam uma dimensão que ultrapassa a simples exposição de conteúdos, cabendo-lhes a função de confrontação de informações e, consequen- temente, de estabelecimento de momentos de construção coletiva de análises e correlações a respeito das informações disponibilizadas pelas redes digitais. Frente a este novo papel, o professor não abandona inte- gralmente o papel de expositor de conteúdos, mas, agora, é essencial que ele ultrapasse esta função, assumindo o papel de formulador de atividades e de promotor de experiências educadoras. 125 Apesar de estarmos sempre aprendendo,a construção sistemática do conhecimento não é um procedimento facilmente estabelecido. Hoje, com base nos inúmeros avanços da neurociência associados a educação, sabemos que a consolidação do conhecimento demanda uma combinação mental complexa, onde as informações adquiridas precisam ser confrontadas, analisadas e, quando necessário, reconstruídas por ava- liações e combinações (COSENZA, 2011). Portanto, a complexidade dos processos mentais relacionados a consolidação de conhecimentos, requer mais do que o acesso a informações e a apresentação de con- ceitos no interior de uma sala de aula. É cada vez mais necessário que os procedimentos escolares se apoiem em experimentações, vivências, inferências e pelo compartilhamento de saberes. Procedimentos que entendo que devam balizar todas as atividades escolares. Em um mundo marcado pela virtualidade, pela ampliação do acesso às informações e pela existência de filtros de inteligên- cia artificial, o papel desempenhado por docentes na construção de conhecimentos é ampliado. As redes informacionais têm produzido processos de alienação, reduzindo o direito a escolha e limitando o contato com o contraditório e o diverso. Por isso, é vital que as prá- ticas docentes passem a promover uma análise crítica a respeito das informações acessadas pelos estudantes por meio das redes digitais. O fomento a autonomia dos estudantes precisa ser entendido como uma questão central, que direcionará a seleção das metodologias empregadas no interior das escolas. Sobre esse prisma, Mitchel Resnick (2020) defende que deve- mos estimular os estudantes para se transformarem em pensadores criativos. De acordo com suas formulações, a criatividade constitui uma habilidade fundamental, devendo ser ambicionada em todas as atividades escolares. Para que esse processo ocorra, os ambientes escolares precisam ser reestruturados, as salas de aula estanques e desconectadas, marcadas pela presença de estudantes dedicados a tarefas disciplinares, devem ser abandonadas; em seu lugar precisam 126 ser estabelecidos ambientes que estimulem uma postura ativa, criativa e colaborativa. Resnick (2020) propõe que os processos de aprendi- zagem sejam estruturados por meio de atividades práticas, projetos, compondo o que ele denominou como ‘aprendizagem mão na massa’. A metodologia de aprendizagem proposta por Resnick (2020) estimula os estudantes a assumirem o protagonismo dos itinerários formativos, sendo corresponsáveis pela construção dos processos de aprendizagem. Ao passo que vivenciam a construção do conheci- mento, ocorrem estímulos para o desenvolvimento da autonomia, da capacidade argumentativa e da avaliação e contraposição de infor- mações e conceitos, levando os discentes a selecionarem os recursos mais adequados para a execução dos projetos propostos. A proposta metodológica de Resnick (2020), apoiada na criatividade, deve ser considerada, igualmente, como essencial no fomento a curiosidade e a colaboração entre os estudantes, visto que ela provoca um pro- cesso permanente de autoavaliação, de percepção de erros e acertos, de reconhecimento da necessidade de ajustes e de estímulo a troca de informações entre os envolvidos. Considero que a metodologia proposta por Resnick (2020) compõem uma estratégia didática que pode ser empregada na elaboração de processos de aprendizagem mais adaptados ao cenário atual, uma vez que compreendo como necessária a horizontalização das práticas docentes, aspecto que possui a capa- cidade de tornar menos exaustivos os momentos de permanência dos sujeitos no interior das escolas. Em um mundo marcado pelo direcionamento de informações por algoritmos de inteligência artificial, acredito que o fomento a curiosidade, a criatividade e a colaboração devem ocupar uma posição central nas práticas escolares. A emancipação dos sujeitos em um mundo marcado por transformações permanentes, pelo acréscimo de novas tecnologias, por interconexões virtuais e pela cultura digital dever se considerada como uma atividade fundamental nas práticas docentes. 127 CONSIDERAÇÕES FINAIS É impossível progredir sem mudança, e aqueles que não mudam suas mentes não podem mudar nada. George Bernard Shaw Até recentemente, predominava a visão de que as novas tec- nologias e as redes informacionais contribuíam para a ampliar nossa capacidade de agir coletivamente, determinando avanços na demo- cracia, na política, no pensamento científico e no acesso à cultura. Hoje, essa visão tem sido objeto de questionamentos. Contudo, não acredito que o potencial transformador presente na internet se esvaiu. Devemos reconhecer que nos últimos anos, as redes informacionais têm se apresentando como uma força de individualização, empregada para dissolver o coletivo e servindo para alienar os sujeitos. A forma como os algoritmos colonizaram a internet solapou nossa liberdade de escolha e criou mecanismos de manipulação cada vez mais amplos e efetivos. Porém, o potencial transformador das redes digitais não desapareceu, ele continua presente. Com base nessa realidade, cabe a todos os profissionais de educação, não apenas aos docentes, compreender a importância das redes digitais e da cibercultura no ambiente escolar, reconhecendo o potencial transformador presente nelas, mas, igualmente, desve- lando os desafios que envolvem a sua utilização. O emprego das novas tecnologias de informação e da cultura digital nas práticas docentes aponta para a seleção e utilização de metodologias adequa- das, capazes de fomentarem a compreensão de que vivemos em um mundo em permanente transformação. Na sala de aula tradicional a construção do conhecimento é tratada como um processo individual, o saber é visto como um bem exclusivo e intransferível. No arranjo pedagógico que proponho, os discentes são estimulados a compartilharem os saberes, a dialogarem com os diferentes sujeitos e a integrarem as diversas áreas de conheci- 128 mento. A escola deve objetivar a formação de sujeitos que apresentem a capacidade de se adaptar as mudanças, que consigam perseguir objetivos em meio a um ambiente em constante transformação e compreendam o conhecimento como um bem que deve ser compartilhado. Para atender estes objetivos, as escolas não podem permanecer buscando disciplinar os indivíduos com base em metodologias envelhecidas, assentadas, quase exclusivamente, na memorização de informações e conteúdos afastados da realidade vivenciada pelos estudantes. Na construção deste novo arranjo pedagógico, uma nova concepção do processo de escolarização deve ser estabelecida e nela as novas tecnolo- gias e a cultura digital devem ser percebidas como recursos essenciais. Portanto, é preciso que estejamos dispostos a caminhar, que tenhamos a consciência do caminho que estamos percorrendo, dos movimentos que precisamos estabelecer e dos atalhos disponíveis. Todavia, independentemente da velocidade de consolidação deste processo, existe uma certeza, este é um fluxo permanente, as mudan- ças estão em curso, e nos levarão a um novo arranjo educacional. O que fará a diferença no ritmo que utilizaremos para percorrer esse percurso dependerá de nossa capacidade de aprender a aprender e, especialmente, da pré-disposição dos sujeitos-escolares em construir ambientes de aprendizagens que rompam o individualismo, a passi- vidade e a memorização de conteúdos escolares. Portanto, sejamos todos curiosos, criativos e colaborativos. REFERÊNCIAS BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: Ministério da Educação, 2018. Dis- ponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/a-base. Acesso em: 11 nov. 2021. CASTELLS, M. A Sociedade em Rede. São Paulo: Paz e Terra, 2006. CANCLINI, N. O mundo inteiro como lugar estranho. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2016. COSENSA, M. Neurociência e Educação: como o cérebro aprende. 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Acredita-se que isso ocorra porque o ensino da gramática aconteça de forma descontextualizada, priorizando os conceitos e classificações, além de considerar apenas a norma padrão como a linguagem “certa” a ser usada nas interações comunicativas sejam elas orais ou escritas. Nessa perspectiva compreendemos que para o ensino da gra- mática contribuir de forma efetiva é primordial que os estudantes analisem a funcionalidade da língua nos diversos contextos de usos. Segundo Neves [...] a competência lingüística dos sujeitos é enten- dida, numa teoria funcionalista da linguagem, como a capacidade que os falantes têm não apenas de acionar a produtividade da língua (jogar com as restrições), mas também - e primordialmente - de proceder a escolhas 25 Mestranda em Linguística e Ensino (UFPB). CV: http://lattes.cnpq.br/8935727995752600 26 Mestranda em Linguística e Ensino (UFPB). CV: http://lattes.cnpq.br/5047479674415940 27 Mestranda em Linguística e Ensino (UFPB). CV: http://lattes.cnpq.br/0827503690978561 132 comunicativamente adequadas (operar as variáveis den- tro do condicionamento ditado pelo próprio processo de produção). (NEVES 1997, p. 19). Logo, este estudo tem por objetivo apresentar um percurso pos- sível de reflexão sobre o fenômeno de monotongação com alunos do 6º ano do ensino fundamental nas aulas de língua portuguesa, no intuito que eles construam paulatinamente essa competência comunicativa por meio das reflexões sobre os usos da língua nas diversas interações. O ponto de partida do tema “Monotongação nas aulas de língua portuguesa nos anos finais do Ensino Fundamental” foi escolhido por ser um fenômeno recorrente nas turmas de 6º ano, visto que os alunos escrevem palavras com ditongos registrando o apagamento da semivogal sem perceber a influência direta da fala na escrita. Diante desse fato fomos instigados a pensar num percurso metodológico que levasse os estudantes a refletirem sobre a escrita das palavras nas diversas situações de produção e leitura de textos, embora não fosse um conteúdo listado no livro didático. É lícito frisar que por meio de um ensino reflexivo e sistemático, o fenômeno da monotongação tende a reduzir ou a desaparecer quando os estudantes produzem ou leem textos. Sob esta perspectiva, estabe- lece-se, neste ensaio, um diálogo com autores como Barbosa (2016), Cagliari (2002), Travaglia (2002), Marcuschi e Dionísio (2007), Aragão (2014), Mollica (1998), dentre outros que nos auxiliará a ratificar nossa tese citada acima. PERCURSO TEÓRICO No cenário acadêmico muito se tem discutido a necessidade do ensino da gramática na educação básica com o intuito de desenvolver a competência comunicativa dos estudantes. Entretanto, é fundamental que tenhamos claro de qual gramática estamos falando. Segundo Cunha e Tavares (2016) a gramática tradicional se propõe a estudar o conjunto de conceitos e categorias dos estudos 133 gramaticais greco-latina de forma fragmentada, dogmática, prescritiva e sem nenhuma reflexão sobre as regras. Vieira (2020) contribui com esse diálogo afirmando que a gra- mática tradicional apresenta dois eixos principais: o da norma-padrão e o da análise metalinguística. O primeiro eixo foi utilizado por especia- listas para nomear a gramática tradicional como gramática normativa e tem a sua prioridade nas regras da escrita e falas corretas e que “[...] esse eixo idealiza um padrão gramatical homogêneo e estável, mas distantes dos usos linguísticos […]” (VIEIRA, 2020, p. 88). O eixo da análise metalinguística aborda uma conceituação e cate- gorização amparada pela Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB). Ainda segundo o autor, esses dois eixos são articulados como uma engre- nagem, que dão a estrutura de funcionamento da gramática tradicional. Esse entendimento reforça um conceito de gramática tradicional como sendo uma gramática regidapor regras uniformes e invariáveis, focada na norma padrão como a única maneira correta de escrita, preo- cupada apenas com a conceituação e classificação das nomenclaturas, desconsiderando os usos reais da língua. Entretanto, esse estudo procura abordar uma outra concepção de gramática que é utilizada diariamente pelos falantes nas diversas interações, sempre voltada para as situações de uso, oportunizando aos estudantes a reflexão sobre o contexto em que estão inseridos. Antes de adentrarmos na discussão da monotongação nas aulas de língua portuguesa gostaríamos de enfatizar que na gramática tra- dicional o fenômeno da monotongação pouco ou quase não aparece nas aulas, possivelmente por não estarem presentes nos livros didá- ticos que se limitam a apresentar apenas o conceito de ditongo e sua classificação em crescente, decrescente, nasal, oral, desconsiderando a reflexão sobre a relação direta da fala e da escrita. Frente a isso temos que levar em consideração também as contri- buições da fonologia para compreendermos melhor os fenômenos da monotongação. Inicialmente precisamos entender que não existe uma supremacia entre a fala e a escrita como nos alerta Marcuschi e Dionísio 134 [...] não se pode afirmar que a fala é superior à escrita ou vice-versa. Em primeiro lugar, deve-se ter em mente o aspecto que se está comparando e, em segundo, deve-se considerar que essa relação não é nem homogênea nem constante. (MARCUSCHI e DIONÍSIO, 2007, p. 26) Portanto não podemos dizer que a fala é informal e não pla- nejada sendo tudo aceito e nem que somente a escrita seja plane- jada e estruturada, as duas são importantes e devemos evitar atitudes estigmatizadas para certas formas orais, principalmente direcionadas a estudantes com menor instrução escolar. Barbosa nos orienta que [...] devemos dar subsídios linguísticos, principal- mente os de conhecimentos fonético-fonológicos, aos professores para que acompanhem, identifiquem e compreendam o desenvolvimento da escrita do aluno, sanando crenças linguísticas - como as que dicotomi- zam fala e escrita - e que lhes permitam desenvolver uma consciência linguística (ou, mais uma consciência fonológica). (BARBOSA, 2016, p. 36). Diante desse contexto apresentamos o fenômeno fonético-fono- lógico da monotongação, fenômeno esse que deflagra a interferência da fala nas produções escritas dos estudantes sendo perceptível os desvios de escrita como marca da oralidade. Cagliari (2002) corrobora com as discussões quando afirma que os fenômenos fonético-fonológico são “[...] as alterações sonoras que ocorrem nas formas básicas dos morfemas, ao se realizarem fonetica- mente [...]” (CAGLIARI, 2002, p. 99), são explicadas por regras que caracterizam processos fonológicos, isto é, quando o estudante fala ou escreve determinada palavra, e um som é acrescido ou perdido devido a articulação no momento da fala. Portanto, é essencial que a consciência fonológica seja sistematizada tornando estes sons parte do cotidiano dos estudantes e desta forma incorporados em sua consciência. Segundo Aragão (2014) a monotongação é “[...] uma redução do ditongo à vogal simples ou pura, por um processo de assimilação completa”. (ARAGÃO, 2014, p. 112) Ou seja, é o apagamento da 135 semivogal tanto na fala quanto na escrita em palavras como peixe - pexe, beijo - bejo, roupa - ropa, entre outras. Essas interferências tanto ocorrem na língua falada quanto na produção escrita das crianças que se encontram no processo de aquisição da escrita, entretanto percebe-se que esse apagamento permanece por todo o ensino fundamental, necessitando do professor um trabalho de reflexão sobre esse fenômeno. Barbosa afirma que [...] precisamos compreender os motivos que levam o aluno a optar por determinadas formas quando vai escrever, ou seja, fazer a representação gráfica das pala- vras. Ao optar por uma forma e não outra, o aluno está fazendo tentativas de possíveis adequações que tornem a sua escrita o mais próximo da fala do seu dia a dia, sua única referência. (BARBOSA, 2016, p. 37). Logo, o professor necessita conhecer o caminho que o aluno percorre para propor atividades de intervenção que o auxilie na refle- xão desse fenômeno e consequentemente a superar esse apagamento. Mollica (1998) reforça essa discussão quando apresenta o resul- tado de sua pesquisa sobre a monotongação relacionado com a influência da linguagem oral sobre a escrita na aquisição da linguagem escrita. Os sujeitos foram divididos em dois grupos, sendo que um recebeu instruções explícitas sobre a escrita das palavras e o outro não. A autora constatou que à medida que os estudantes avançam em sua escolarização diminuem o índice de monotongação desde que recebem orientações explícitas de seu professor acerca da fala e escrita. Segundo Neves (1997) a “[...] gramática funcional visa expli- car regularidades dentro das línguas e através delas, em termos de aspectos recorrentes das circunstâncias sob as quais as pessoas usam a língua”. (NEVES, 1997, p. 20). Neste sentido, é oportuno frisar que quando os alunos participam de momentos de interações reflexivas sobre a língua em uso, tendem a reduzir o fenômeno de monotongação tanto na fala quanto na escrita. 136 A Base Nacional Comum Curricular - BNCC, documento nor- mativo que determina as aprendizagens essenciais na educação básica traz em seu arcabouço pressupostos importantes como: o desenvol- vimento das competências e habilidades, o desenvolvimento integral do estudante focando no seu protagonismo e uma maior inserção da tecnologia no processo de ensino aprendizagem. A BNCC propõe para a área da linguagem [...] a centralidade do texto como unidade de trabalho e as perspectivas enunciativo-discursivas na abordagem, de forma a sempre relacionar os textos a seus contex- tos de produção e o desenvolvimento de habilidades ao uso significativo da linguagem em atividades de leitura, escuta e produção de textos em várias mídias e semioses. (BNCC, 2017, p. 69). Analisando a BNCC observa-se que a perspectiva pedagógica difere e muito da proposta defendida pela gramática tradicional. As práticas de linguagem enfocam a leitura e escuta, oralidade, produção de texto e análise linguística e semiótica. A terminologia gramática foi substituída por análise linguística/semiótica, [...] que envolve o conhecimento sobre a língua, sobre a norma-padrão e sobre as outras semioses, que se desenvolve transversalmente aos dois eixos – leitura/escuta e produção oral, escrita e multissemiótica – e que envolve análise textual, gramatical, lexical, fonológica e das materialidades das outras semioses.” (BNCC, 2017, p. 82). Nesse contexto fica evidente que embora na BNCC não venha expresso o trabalho do fenômeno da monotongação ela apresenta oportu- nidades para o desenvolvimento desse fenômeno por meio da habilidade (EF67LP32) que é o de escrever palavras com correção ortográfica, obedecendo às convenções da língua escrita oportunizando aos estudantes uma reflexão sobre os usos reais da língua nas diversas interações. (BNCC, 2017, p. 171). 137 É importante ressaltar que a monotongação é considerada um “erro” na gramática tradicional, mas na concepção linguística não se apresenta como erro e sim como um fenômeno linguístico apoiado na variação da fala. Partindo dessa premissa, apresentamos uma pro- posta, embasada na reflexão dos fenômenos fonético-fonológico da monotongação que pretende contribuir com o professor na mediação de automonitoramento do estudante com relação a diferença existente entre fala e escrita dos usuários da língua. Os estudos da linguagem a partir de uma perspectiva funciona- lista podem contribuir para uma abordagem mais descritiva e menos prescritiva no fenômeno da monotongação, uma vez que difere de outras abordagens como afirmam Cunha, Costa e Cezario O Funcionalismo Linguístico contemporâneo difere das abordagens formalistas - estruturalismo e gera- tivismo - primeiropor conceber a linguagem como um instrumento de interação social e segundo porque seu interesse de investigação linguística vai além da estrutura gramatical, buscando no contexto discursivo a motivação para os fatos da língua. A abordagem fun- cionalista procura explicar as regularidades observadas no uso interativo da língua analisando as condições discursivas em que se verifica esse uso. (CUNHA, COSTA e CEZARIO, 2015, p. 21) Cunha e Tavares (2016) também dialogam com essa perspec- tiva ao afirmarem que “[...] o funcionalismo explica a organização da gramática e a codificação lingüística das estratégias gramaticais com base em princípios de natureza cognitiva e comunicativa.” (CUNHA e TAVARES, 2016, p. 18 e 19) Na abordagem funcionalista a gramática é observada a partir de situações reais de uso, como um sistema aberto, sujeito a variações e interferências de contextos linguísticos e extralinguísticos. A gramática funcionalista por meio da linguística Cognitiva pro- cura explicar os atratores linguísticos. Abreu (2013) afirma que as “Alte- rações fonéticas, muitas vezes, dependem da manutenção do sentido.” 138 (ABREU, 2013, p. 233), diante disto o atrator de sentido e economia pode ser usado também para explicar a ocorrência da monotongação. Vejamos então o que Abreu afirma sobre os atratores de sen- tido e economia. O sentido é o principal atrator. Afinal, a função básica da lin- guagem humana é a comunicação, e isso não se faz na ausência de sentido. Em tensão dialética com o sentido, encontra-se o atrator geral da economia, também chamado de lei de Zipf, segundo a qual, em todas as línguas do mundo, as palavras de uso mais frequente serão sempre as menores. Alterações fonéticas, muitas vezes, dependem da manutenção do sentido. (ABREU, 2013, p. 232). Diante desse conceito, podemos perceber que quando o usuário da língua apaga a semivogal tanto na fala quanto na escrita ele está utilizando o atrator de sentido e economia, pois ele reduz retirando a semivogal não modificando o significado da palavra. A BNCC E A MONOTONGAÇÃO A BNCC estrutura seu eixo de análise linguística/semiótica em consonância com a gramática funcionalista, articulando as diversas habilidades que envolvem a língua em uso nas práticas de leitura e produção de texto oral e escrito. O documento contempla todos os campos de conhecimentos linguísticos como a fono-ortografia, mor- fologia, sintaxe, semântica, variação linguística e outros. Na BNCC a terminologia monotongação não aparece expressa, entretanto é possível ser abordada tanto no objeto de conhecimento da fono-ortografia, como também na variação linguística. De acordo com o documento, a fono-ortografia está presente em todos os campos de atuação, seja jornalístico-midiático, atuação na vida pública, práticas de estudo e pesquisa e artístico-literário. Dessa forma ampliando a perspectiva de trabalho reflexivo nos diversos usos da língua. O nosso percurso metodológico teve como ponto de partida a fono-ortografia por meio da habilidade “(EF67LP32) Escrever palavras com correção ortográfica, obedecendo às convenções da língua escrita.” 139 (BNCC, 2018, p. 170), uma vez que formar usuários competentes da língua tornando-os capazes de desenvolver habilidades de leitura, compreensão e de produção textual, significa trabalhar a competência comunicativa do falante que é objetivo indispensável, junto a outros, em que o professor deve considerar na sua prática pedagógica. Para Travaglia (2002, p. 163), o ensino da gramática traz noções conceituais e/ou práticas de análise sobre determinados elementos da língua, oferecendo a possibilidade de usar esse conhecimento como recurso auxiliar no seu ensino. Como por exemplo, ao trabalharmos com o fenômeno monotongação, o aluno precisa ter o conhecimento dos conceitos gramaticais sobre o ditongo, tritongo e hiato. O ensino da gramática também faz com que os estudantes possam desenvolver o raciocínio e a capacidade de pensar, fazendo com que eles percebam a dinâmica da língua e compreendam que as normas sociais de seu uso são escolhas da sociedade. Segundo Travaglia [...] teremos como resultado o fato de termos pessoas mais capazes intelectualmente, cientes e confiantes de que não só podem aprender teorias científicas (gra- mática), mas também podem descartá-las, modifi- cá-las e, melhor ainda, construí-las. (TRAVAGLIA, 2002, p. 167). Isso posto, compreendemos que o ensino da gramática na escola não deve ser eliminado, e sim apresentar uma abordagem mais refle- xiva que proporcione ao estudante desenvolver a capacidade de cons- truir criticamente o conhecimento. EXPERIÊNCIA DIDÁTICA Partindo do tema “Monotongação”, escolhido por ser um fenô- meno recorrente entre os estudantes em seus registros na escrita de ditongos com o apagamento da semivogal, pensou-se em um percurso metodológico que levasse os alunos a refletirem sobre a escrita das palavras nas diversas situações de produção e leitura de textos, consi- derando esse fenômeno fonológico. 140 Apresentamos uma proposta de análise linguística/semiótica com objeto de estudo fono-ortografia, que tem como foco a habilidade “(EF67LP32) Escrever palavras com correção ortográfica, obedecendo às convenções da língua escrita.” (BNCC, 2018, p. 170), para alunos do 6º ano do ensino fundamental em contexto de ensino remoto. Como estratégia pedagógica, o ponto de partida foi a apresen- tação da música “Amei te ver” do compositor e intérprete Tiago Iorc. A escolha pela canção se deu primeiramente por ser uma música da atualidade bastante tocada nas plataformas de streaming e nas estações das rádios brasileiras e, provavelmente, conhecida por boa parte da turma. Em segundo, porque ela apresenta palavras com ditongo em que ocorrem a monotongação, como por exemplo: cheiro - “chero”, inteiro - intero e beijo - bejo. Observamos nos trechos a seguir da composição em que aparecem essas palavras: “O coração dispara Tropeça, quase para Me encaixo no teu cheiro E ali me deixo inteiro [...] O coração dispara Tropeça, quase para Me enlaço no teu beijo Abraço teu desejo” Após apreciação da música foi realizada a observação do texto escrito em comparação com o texto oral, levando-os a percepção da ocorrência de variação nessas palavras, percebendo assim o apagamento da semivogal em alguns ditongos e compreendendo que essas inter- ferências tanto ocorrem na língua falada quanto na produção escrita. Em seguida, foi solicitado que os alunos registrassem na lousa digital Jamboard outras palavras com ditongo, no qual ocor- rem esse mesmo fenômeno, para com isso construir coletiva- mente o conceito de monotongação. 141 Com as discussões levantadas a partir dos registros dos estudantes também foi possível trazer a reflexão do porquê desse fenômeno aconte- cer com alguns ditongos e outros não. A língua sofre mudanças a partir de elementos externos que mexem no sistema linguístico, denominados como atratores, entre eles temos o sentido e economia que ocorre na linguagem humana, durante a comunicação o atrator da economia ocorre sem prejuízo, portanto não interfere no sentido comunicativo (ABREU, 2013, p. 231-232). No fenômeno em estudo ocorre a alteração fonética apenas nos ditongos que permitem a manutenção do sentido. Na sequência foi apresentado outro gênero, o meme, muito comum e compartilhado por eles nas redes sociais e no qual a presença do fenômeno da monotongação é recorrente. Trabalhamos com os alunos dois exemplos. Na figura 1 com a palavra dinheiro - dinhêro e na figura 2 com a palavra apresentou - apresentô. Figura 1 <https://www.facebook.com/BodeGaiato/photos/a.463935863669678/356687259 6709307/> <https://www.facebook.com/BodeGaiato/photos/a.463935863669678/356687259 6709307/> <https://www.facebook.com/BodeGaiato/photos/a.463935863669678/356687259 6709307/> 142 Figura 2 <https://www.facebook.com/BodeGaiato/photos/a.463935863669678/35581459309 15307> No caso dos memes, observamos queos textos escritos repre- sentam tal qual a fala dos personagens, uma representação escrita da oralidade, essa é uma compreensão que deve ficar clara para os alunos, reconhecendo assim, o fenômeno fonético no texto em estudo. Para finalizar, solicitamos o preenchimento de palavras cruzadas através da plataforma Crosswordlabs como atividade interativa, possibi- litando ao estudante perceber na escrita a falta da semivogal, devido ao espaço em branco, caso ocorresse a monotongação em seu registro. A proposta didática proporcionou novas reflexões sobre a mono- tongação diante de situações cotidianas, através da análise e discussão dos textos, como também a identificação e comparação de palavras, tanto na escrita quanto na fala. Desse modo facilitará o avanço dos estu- dantes na redução da ocorrência desse fenômeno em seus textos escritos. 143 CONSIDERAÇÕES A monotongação vai muito além do período da aquisição da linguagem escrita, pois é nítido esse fenômeno nas produções orais e escritas dos estudantes do 6º ano. Diante dessa constatação e por compreendermos que quando é oportunizado aos estudantes momentos reflexivos sobre a mono- tongação, esse fenômeno tende a reduzir ou desaparecer na fala e na escrita. Por isso propomos apresentar um percurso metodoló- gico de ensino reflexivo e sistemático onde os alunos possam obser- var tanto a pronúncia quanto a escrita das palavras refletindo sobre os atratores, como também, a análise da comparação de pares de palavras percebendo em que casos acontece o monotongo e em que casos não ocorre de forma alguma. Sabemos que os progressos são lentos, entretanto as pesquisas nos revelam que devemos abandonar o ensino da gramática tradi- cional voltada apenas para a conceituação e classificação dos termos, precisamos sim, promover um ensino da gramática funcional que tem como objeto de estudo a língua em funcionamento. Por conseguinte, consideramos profícuo o percurso metodológico sobre o ensino sistemático reflexivo que vivenciamos. Esperamos con- tribuir com os docentes que se propõem a aventurar-se num caminho mais audacioso do estudo da língua em funcionamento. Vale ressaltar que esse ensaio não pretende encerrar o debate sobre o ensino sistemático e reflexivo da monotongação, mas abrir caminhos para novas discussões. REFERÊNCIAS ABREU, A. S. Integração conceptual na descrição de fenômenos gramaticais do português. Alfa, São Paulo, 57 (1): 229-256, 2013. ARAGÃO, M. do S. S. de. XVII Congresso Internacional Asociación De Lingüística Y Filología De América Latina (ALFAL 2014). João Pessoa - Paraíba, Brasil. Acesso em: 20 out. 21, disponível em https://alib.ufba.br/sites/alib.ufba.br/files/r0395-1.pdf BAGNO, M. (Orgs.). História das línguas, histórias da linguística: homenagem a Carlos Alberto Faraco. São Paulo: Parábola Editorial, 2020. https://alib.ufba.br/sites/alib.ufba.br/files/r0395-1.pdf 144 BARBOSA, J. B. Meu aluno escreve “pexe”! Contribuições da fonologia para entender desvios de escrita. in ABREU, Antônio Suárez, CRISCUOLO, Ana Carolina Sperança (org). Ensino de Português e Linguística: Teoria e Prática. São Paulo: Contexto, 2016. BODE GAIATO [10 de jul 2020]. 1 figura. Disponível em: <https://www.facebook.com/ BodeGaiato/photos/a.463935863669678/3566872596709307/> Acesso em: 11 ago. 2022. BODE GAIATO [07 de jul 2020]. 2 figura. Disponível em: <https://www.facebook.com/ BodeGaiato/photos/a.463935863669678/3558145930915307> Acesso em: 11 ago. 2022. BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017. Disponível em: http:// basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNC C_20dez_site.pdf. Acesso em: 20 out. 2021. CAGLIARI, L. C. Análise fonológica: introdução à teoria e prática, com especial destaque para o modelo fonêmico. Campinas: Mercado de Letras, 2002. FURTADO DA CUNHA, M. A.; TAVARES, M. A. Linguística funcional e ensino de gramática. Em: FURTADO DA CUNHA, M. A.; TAVARES, M. A. Funcionalismo e ensino de gramática Natal: EDUFRN, 2016. p. 12-58. IORC, T. Amei Te Ver. SLAP - Som Livre: 2015. YouTube (duração 4:22). Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=W62-ZG9tPpI> Acesso em: 11 ago. 2022. MARCUSCHI, L.A. Da fala para a escrita: atividades de recontextualização. 8 ed. São Paulo: Cortez, 2007. MOLLICA, M. C. Da linguagem coloquial à escrita padrão. Rio de Janeiro: 7Letras, 2003. ______. Influência da fala na alfabetização. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1998. NEVES, M. H. de M. A gramática de usos é uma gramática funcional. Alfa, São Paulo, 41(n. esp.), 15-24,1997. Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/alfa/article/view/4029/3693. Acesso em: 24 out. 21. TRAVAGLIA, L. C. Para que ensinar teoria gramatical. Revista de Estudos da Linguagem, Belo Horizonte, v. 10, n. 2, p. 135‐231, 2002. ISSN/ISBN: 01040588. VIEIRA, F. E. Tradição gramatical: história, epistemologia e ensino. In: VIEIRA, F. E.; BAGNO, M. (Orgs.). História das línguas, histórias da linguística: homenagem a Carlos Alberto Faraco. 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Nesse sen- tido, os docentes questionam sobre as maneiras de atender os desafios envolvidos nas diretrizes institucionalizadas, em consonância com a estrutura escolar limitada e a realidade social complexa do alunado. 28 Doutor em Ciências da Educação. Universidade da Madeira (UMa). Portugal. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7612-2034 29 Mestre em Ciências da Educação. Universidade da Madeira (UMa). Portugal. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0098-2473 30 Mestre em Ciências da Educação. Universidade da Madeira (UMa). Portugal. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4302-4312 31 Doutora em Ciências da Educação. Universidade da Madeira (UMa). Portugal. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6217-2305 32 Doutoranda em Educação. Universidad Columbia del Paraguay. Paraguai. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1924-5158 33 Doutoranda em Educação. Universidad Columbia del Paraguay. Paraguai. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6149-1323 34 Doutoranda em Educação. Universidad Columbia del Paraguay. Paraguai. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8093-772X 146 É bom considerar que, na atualidade, a escola tem sua autonomia pedagógica atrelada às políticas públicas vigentes e orientações dos sistemas de ensino. Nessa perspectiva, ações de caráter inovador, bem como intervenções revolucionárias, são delimitadas pelas normas oficiais que quase sempre expressam a ideologia dominante. Em busca de apontar o sentido da palavra currículo, Sousa (2007, p. 16) afirma que, “ainda no século XVI, quando a palavra currículo foi, pela primeira vez, utilizada, foi-lhe conferida a ideia de organização lógica do conhecimento”. Na atualidade, o currículo permanece disposto de forma sequen- cial detalhando as diferentes disciplinas escolares, como um roteiro pormenorizado a seguir dentro de prazos pré-estabelecidos. A sociedade moderna tem, na racionalidade, na ciência e na tecnologia, sua base de sustentação, daí que novas formas curriculares seguem com caracte- rísticasfabris antigas. “Ora, as concepções modernas de currículo não podiam deixar de estar imbuídas desta lógica de obsessão com a pro- dutividade e eficácia, oriunda do mundo fabril” (SOUSA, 2007, p. 19). Entende-se que essa busca atual pela produtividade e eficácia, antes decorrente do mundo fabril, deriva de objetivos característicos da economia neoliberal, que continua a formar na escola, a mão-de- -obra necessária à realização de suas metas. Fala-se da necessidade de mudanças profundas no currículo, entretanto a escola, como instituição, continua preservando e assegurando a estrutura social e econômica vigente, servindo aos propósitos hegemônicos. Nesse sentido, discute-se sobre a necessidade da escola definir o seu currículo de forma a atender à realidade dos alunos e às especi- ficidades locais de origem desses alunos. 147 METODOLOGIA O processo de curiosidade é próprio do ser humano. Estamos sempre em busca de satisfazer nossa busca por informações. Tentar entender o porquê das coisas e como elas acontecem. Para respaldar o estudo, a metodologia utilizada tem nos conceitos de Minayo (1999) a base para a elaboração de um projeto de pesquisa, artigo, dissertação e/ou mesmo uma tese, na qual o pesquisador está a trabalhar com três eventos que são a técnica, na qual as regras devem ser seguidas para a elaboração do trabalho em si; ideológica, onde o que prevalece são os desejos e/ou escolhas do pesquisador, seguindo tempo uma cronologia histórica; e, por fim, a científica, em que o método cientfíco se sobrepõe ao senso comum. Diante do acima descrito Minayo (2007) ainda assevera que o uso da metodologia traz em seu interior certa organização nos caminhos que se deve trilhar ao longo da jornada de pesquisa, com o intuito de se fazer uma ciência responsável e ética. Pesquisa essa que Gil (2007, p. 17) caracteriza como sendo um “[...] procedimento racional e sistemático que tem como obetivo proporcionar respostas aos problemas que são propostos. A pesquisa desenvolve-se por um processo constituído de várias fases, desde a formulação do problema até a apresentação e discussão dos resultados”. Dialogando com a citação de Gil (2007) entende-se que para existir a pesquisa é necessário que a dúvida esteja presente. Que a pergunta para responder determinada indagação possa obter a resposta necessária. É como certifica Selltiz (1965, p. 5), “descobrir respostas para questões, mediante a aplicação de métodos científicos”. O artigo em si traz em seu interior uma pesquisa bibliográfica como ponto de partida da investigação, na qual a leitura de todo material se fez mais do que necessário, onde o uso de revistas, livros, monografias, dissertações e teses foram essenciais, bem como a utilização de sites que sejam de confiança. É necessário estar em consonância com os teóricos 148 que tratam do assunto em questão, ao mesmo tempo em que se faz preciso se utilizar de materiais atuais (MARCONI, LAKATOS, 2003). A pesquisa em questão pode ser considerada como sendo de caráter exploratório e bibliográfico, no qual o referencial teórico fez uso de autores como Apple (2006), Freire (2011, 1987), Gil (2007), Sacristán (2000, 1999) entre outros. CONSIDERAÇÕES SOBRE CURRÍCULO, IDEOLOGIA E PODER O termo ‘currículo’ emerge associado à organização escolar e infiltra-se cada vez mais noutras organizações ligadas à formação. Seja reconhecido ou não, o currículo é algo que transportamos sobre o nosso dorso, desde que iniciámos a escolarização e nos tornámos cidadãos de uma cultura tão intersectada pela instrução e profissão. O currículo define-nos, de forma progressiva e oculta, relativamente aos itinerários educativos que fazem parte do nosso quotidiano (PACHECO, 2007, p. 45-46). A ideia principal inserida nessa citação é de que o currículo, ao qual os indivíduos são submetidos desde o início da nossa escolarização, irá definir a maneira como estes deverão interagir com a coletividade, trabalho e poderes constituídos. Dessa forma, sua essência ficará incorporada, fazendo parte da nossa educação. Sendo a escola um lugar onde se constrói o conhecimento, os conteúdos curriculares a serem ministrados aos estudantes farão parte do acervo cultural desses indivíduos, transferindo seus fundamentos essenciais para a vida adulta, norteando e delimitando, inclusive, e principalmente, a vida profissional de acordo com a instrução recebida. Acontece, porém, que os currículos escolares estão molda- dos numa base com características conservadoras, uma vez que os adultos pretendem ensinar para as crianças, num modelo de edu- cação que se distancia da práxis libertadora e democrática, uma 149 forma de educação que traduz a expressão da ‘educação bancária’, definida por Freire (2011) como um modelo de educação conserva- dora, tradicional incapaz de tornar o jovem um indivíduo autônomo, sujeito e partícipe da sua própria aprendizagem. Conforme enfatiza Apple (2006, p. 125) “a hegemonia é criada e recriada pelo corpus formal do conhecimento escolar e também pelo ensino oculto que vem acontecendo”. Se os conteúdos e textos escolares são vistos com os olhos da classe dominante, a escola enquanto instituição confirma a estrutura social vigente e assegura a sua perpetuação. Isso pode acontecer quando o professor utiliza o ‘currículo oculto’ para contestar uma ou outra situação, proferindo normas e valores ao alunado que ficam omissos nos planos de aula expressos dos documentos oficiais. Segundo Apple (2006) a educação não é um empreendimento neutro, uma vez que na escola são repassados “significados” pré-fa- bricados, intencionalmente preparados para garantir os objetivos das classes dominantes das sociedades. O autor (2006, p. 68) ainda argu- menta que as escolas ‘produzem’ ou ‘processam’, tanto o conhecimento quanto as pessoas. Diz, ainda, que o conhecimento formal ou informal é filtrado na formação de diversas classes sociais e que diferentes apti- dões e valores são ensinados a diferentes populações. Dessa forma, as escolas constroem disparidades culturais e econômicas, embora não tenha intenção ou mesmo a consciência dessa prática. Ademais, as políticas curriculares, em geral, resultam de com- plexas decisões derivadas do poder político vigente oficialmente ins- tituído, bem como de outros agentes com capacidade para intervir direta ou indiretamente, em virtude de estarem inseridos em fun- ções dessas esferas decisórias. Nesse contexto, não se pode esquecer que o social e o econô- mico seguem direções opostas com o advento do neoliberalismo já globalizado, o qual busca a maximização do lucro, com consequente abandono dos anseios humanos de uma sociedade mais justa e igua- 150 litária, que fica, cada vez mais, distante do modelo caracterizado pela crescente desigualdade entre ricos e pobres. Assim qualquer sociedade que aumenta a lacuna entre, digamos, ricos e pobres, no que diz respeito ao controle do “capital” cultural e econômico (como relatos econô- micos recentes demonstram, nossa sociedade de fato faz isso) precisa ser questionada (APPLE, 2006, p. 66-67). Assim, a economia, que domina os demais setores das sociedades, com o poderio da moeda, decide a criação ou extinção de empregos no cenário mundial, objetivando atender às necessidades de mão-de- -obra, interferindo, face ao exposto, decisoriamente na alteração dos currículos, quando estabelece quantas e quais vagas no mercado de trabalho estarão disponíveis. Segundo Sousa (2007, p. 17), a escola, através de um currí- culo ordenado, sequencializado e territorializado, preparou mão-de- -obra destinada aos fins fabris. Atualmente, o ensino é organizado em torno de disciplinas como português, matemática, biologia, física e outras, mas poderia ter seu foco em outros assuntos que refletissem, sobretudo, as necessidades humanas contemporâneas, não objetivando, apenas, o ingresso nas universidades, ou a entrada no mercado de trabalho. As escolas recebem alunos de culturasdiversas, que trazem consigo suas linguagens, seus valores, seus costumes, com maneiras diferentes de viver e de ver a vida. Dentro de sua cultura própria, cada um se desenvolve de maneira peculiar, com facilidade naquilo que lhe é familiar, ou dificuldade frente ao desconhecido. Entretanto, a escola não consegue adequar seus currículos aos educandos, pois eles estão configurados e sedimentados em contextos cultural, político, social e escolar, historicamente constituídos, quase sempre, a serviço das classes dominantes. 151 O currículo, em seu conteúdo e nas formas através das quais se nos apresenta e se apresenta aos professores e aos alunos, é uma opção historicamente configurada, que se sedimentou dentro de uma determinada trama cultural, política, social e escolar: está carregado, por- tanto, de valores e pressupostos que é preciso decifrar (SACRISTAN, 2000, p. 17). Observa-se que os conteúdos propostos ao alunado vêm através de programas com temas pré-definidos a serem desenvolvidos em cada série. São transmitidos sem verificar se eles ajudam a explicar a realidade individual de cada aluno, ou se levantam e solucionam problemas, de maneira crítica, dentro do contexto vivenciado, ou ainda, se continuam a contribuir para tornar os estudantes mais alie- nados no contexto em que vivem. Com o intuito de atualizar a educação, ocorrem episódios de revisão dos currículos. Os desafios contemporâneos pretendem refletir as políticas públicas curriculares com base em princípios políticos e filosóficos coerentes com a realidade do corpo docente e alunado. Entretanto, as reformas resultam disso, por vezes, temporárias e ineficazes. O Estado centraliza a autoridade e o faz através da legislação, cuja aplicação é orientada no sentido de cima para baixo. Na ponta, a escola fica incumbida de implementar a mudança, sem entender claramente a ‘engenharia’ utilizada na confecção da reforma, nem ter feito uma análise crítica e ponderada do caso. Assim, a escola passa a cumprir essa nova metodologia imposta, sem estudar o conflito gerado, perdendo a oportunidade de chegar ao cerne dessa orientação educacional. Assim, ela cria um consenso falso ante o conflito, confirmando essa preferência quando acata aquilo que é decretado sob a forma de lei, permitindo a manutenção da hegemonia ideológica das classes dominantes. [...] o modelo constitutivo da maioria dos currículos das escolas gira em torno do consenso. Há poucas 152 tentativas sérias de lidar com o conflito (conflito de classes, conflito científico, ou outros). Em vez disso, fazemos nossas “investigações” dentro de uma ideologia consensual que tem pouca semelhança para com as relações e contradições complexas que cercam o controle e a organização da vida social (APPLE, 2006, p. 41). Como afirma Althusser (1983), a escola é um Aparelho Ideo- lógico do Estado (AIE), sendo, assim, um forte aliado do poder polí- tico, transmitindo através de seus currículos, conteúdos e valores destinados à dominação e submissão. Ainda, segundo Althusser (op. cit.), tudo isso acontece natural- mente. O professor não questiona as práticas de ensino ou métodos novos e tenta acatá-los fazendo o melhor de si, sem perceber que está executando um trabalho dirigido pelo sistema, sem entender que acaba contribuindo para manter essa representação ideológica do Estado. Apple (2006, p. 66) enfatiza a importância da escola na reprodução cultural e econômica. A escola, como agente bastante significativo da repro- dução cultural e econômica, se torna, obviamente, uma instituição importante (afinal de contas, toda criança frequenta a escola, e a escola tem efeitos importantes como instituição de referência e socialização). As crianças que frequentam a pré-escola aprendem ‘significados’ que são incorporados durante a sua socialização, enquanto são prepa- radas para os anos subsequentes que permanecerão como educandos. Essa cultura é transportada para a vida adulta, confirmando a escola como um veículo eficaz na reprodução cultural e econômica. Fatores como o tempo de permanência na escola, número expres- sivo de crianças a frequentá-la, redução ou inexistência de educação familiar, aumentam, mais ainda, a influência escolar na construção social, tornando-a um espaço estratégico e viável de disseminação 153 da ideologia vigente. Segundo Apple (2006, p. 35) “o educador está envolvido em um ato político, esteja ciente ou não disso”. Diante disso, o educador precisa localizar e contextualizar o conhecimento transmitido aos alunos, para formar indivíduos inde- pendentes, dispostos a questionar a ordem social e política. Precisa ensinar à criança a recepcionar, de maneira séria e crítica, as informações recebidas e, principalmente, tomar consciência, de que seus ensinamen- tos farão parte da vida dos alunos e que, agindo de modo diferente, permitirá que a situação de opressão se mantenha por mais tempo. A escola não se pode esquecer de que ensina modos de pensar que, uma vez interiorizados, não podem ser isolados da vida e da cultura dos alunos. A educação existe na cultura que é poder e, por isso mesmo, ela não está acima da política. Ela está na política (RODRI- GUES, 2007, p. 171). Entende-se, portanto, que o autor anteriormente citado vê que a educação e a política caminham lado a lado, devendo a escola formar pessoas questionadoras e éticas, cientes do seu papel transformador na sociedade em que vivem. O currículo é uma das características mais marcantes da sua importância para um ensino de qualidade e que engloba em si uma aprendizagem visando sempre uma aprendi- zagem na construção de conhecimento. O mesmo em si não deve ser visto como um plano de aula, mas, sim, como algo além dos muros da escola, mas sim, ser visto como um conceito que contempla o contexto escolar e todos os fatores que contribuem para o seu enriquecimento. Silva (1996, p. 23) conceitua currículo como: [...] um dos locais privilegiados onde se entrecruzam saber e poder, representação e domínio, discurso e regu- lação. É também no currículo que se condensam relações de poder que são cruciais para o processo de formação de subjetividades sociais. Em suma, currículo, poder e identidades sociais estão mutuamente implicados. O currículo corporifica relações sociais. 154 Moreira e Silva (1997, p. 28) indicam que “o currículo é um terreno de produção e de política cultural, no qual os materiais existentes funcionam como matéria-prima de criação e recriação e, sobretudo, de contestação e transgressão”. Sacristán (1999, p. 61) analisa o currículo como uma: [...] ligação entre a cultura e a sociedade exterior à escola e à educação; entre o conhecimento e cultura herdados e a aprendizagem dos alunos; entre a teoria (idéias, suposições e aspirações) e a prática possível, dadas determinadas condições. Cada autor conceitua currículo de uma forma particular. Silva entende que o currículo carrega consigo uma relação de poder, de ideo- logia; já para Moreira e Silva, o currículo é visto como uma produção do mundo social, onde o aparelho ideológico é o ponto de partida na construção do currículo. Sacristán destaca que o currículo é o ponto de partida para o processo de ensino e de aprendizagem. Ao partir da ideologia e do aparelhamento ideológico do Estado, Althusser (1983) indica que as relações de poder estão intimamente ligadas dentro da educação. Podemos indicar que o processo cultural é um processo inseparável do currículo. Ele deve ser visto como algo que pode mudar uma situação, como algo inovador, que pode trans- formar o ensino e a aprendizagem que temos no presente momento. CURRÍCULO E A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO NA ABORDAGEM CONSTRUCIONISTA O construcionismo é uma abordagem teórica que tem suas raízes no trabalho exposto pelo pesquisador sul-africano Seymour Papert, afirma que a construção do conhecimento acontece quando o mesmo se sente plenamente comprometido na busca pelo novo. Ao trabalharmos comum currículo inovador em que a aborda- gem construcionista seja a tônica principal, devemos ver o processo 155 de aprendizagem de uma nova maneira, onde o papel do profes- sor muda completamente. Ele deixa de ser um mero repassador de ensino, para criar novos ambientes mais adequados para a aprendiza- gem. Ele se coloca à disposição como um facilitador, um orientador da aprendizagem (VALENTE, 1993). Moran (1998) afirma que o perfil do professor na abordagem construcionista é ser um profissional mais aberto, que busca na humani- zação a sua prática pedagógica, que motiva e estimula seu alunado, onde as relações de poder entre professor e aluno sejam democráticas e éticas. Ao trabalhar dessa forma o professor insere um currículo muito mais participativo, um currículo que valoriza as relações interpessoais, bem como cria um ambiente propício para que a aprendizagem seja efetiva. Um currículo que acolhe a diversidade, que é interativo em sua essência e acima de tudo transcende a sala de aula permanentemente. O currículo na abordagem construcionista deve acompanhar as mudanças constantes por quais passam a sociedade mundial. Como indica Toffler (1970) em sua obra “O Choque do Futuro”, a educação precisa se ver livre de suas amarras do passado. Ele ainda afirma que currículos obsoletos geram seres humanos padronizados e homogêneos. É necessário revê-los com a maior urgência, pois assim como o processo de ensino e de aprendizagem, queremos uma sociedade heterogênea. Ao se abordar um currículo construcionista, acenamos que é preciso “aprender a aprender” (TOFFLER, 1970, p. 332), onde os valores, os relacionamentos e as escolhas não podem ser transmiti- dos sem nenhum sentido. Nesse sentido, o currículo deve perceber a potencialidade de cada aluno. Devemos prever no currículo a cons- trução do conhecimento com o objetivo de atingir a elevação do pensamento lógico dos nossos alunos. [...] o conhecimento não procede, em suas origens, nem de um sujeito consciente de si mesmo, nem dos objetos já constituídos (do ponto de vista do sujeito) que se lhe imporiam: resultaria de interações que se 156 produzem a meio caminho entre sujeito e objeto, e que dependem, portanto, dos dois ao mesmo tempo, mas em virtude de uma indiferenciação completa e não de trocas entre formas distintas (PIAGET, 1990, p. 8). De acordo com a concepção acima, ao elaborar um currículo flexível, que busca no seu âmago um estudante que construa seu próprio conhecimento, que tente resolver as situações problemas, produzimos assim seres humanos mais questionadores, que são conscientes de suas ações e que se veem mais preparadas para enfrentarem o mundo. O currículo, em seu conteúdo e nas formas através das quais se nos apresenta e se apresenta aos professores e aos alunos, é uma opção historicamente configurada, que se sedimentou dentro de uma determinada trama cultural, política, social e escolar: está carregado, por- tanto, de valores e pressupostos que é preciso decifrar (SACRISTAN, 2000, p. 17) Devemos ver s conteúdos que são propostos aos estudantes como política pública educacional que deve refletir e oferecer uma educação de qualidade e que seja para todos. Embora a tecnologia desempenhe um papel essencial na realização de minha visão sobre o futuro da educa- ção, meu foco central não é a máquina, mas a mente e, particularmente, a forma em que movimentos intelec- tuais e culturais se autodefinem e crescem (PAPERT, 1988, p. 23). Em um currículo com abordagem construcionista se faz neces- sário a busca por uma aprendizagem que valorize a organização das estruturas cognitivas de cada aluno que se encontra dentro da escola. Na citação acima o autor indica que o uso da máquina em um cur- rículo construcionista serve apenas para compor o cenário para o desenvolvimento da autonomia do alunado. Onde é possível sempre favorecer um currículo justo, solidário e acima de tudo responsável por todos que fazem parte da escola. 157 CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao final deste estudo, pode-se dizer que, para se entender a coletividade social da qual se faz parte, precisa-se estudar a relação das ideologias vigentes e os currículos escolares. É importante, também, saber de que forma a sociedade reproduz a si mesma, por meio da escola, que sendo um dos aparelhos ideológicos do Estado, assegura a reprodução social e econômica das classes dominantes. Pela revisão da literatura, alcançou-se o objetivo geral deste estudo, que foi investigar as práticas curriculares da escola e discutir sobre a necessidade da escola, por meio de seu currículo atender à realidade dos alunos e às especificidades locais. Nessa perspectiva, pôde-se compreender as relações de domi- nação e desigualdade que tem vitimado, historicamente, a sociedade, através da educação, que deveria ser democrática e socialmente justa e, na perspectiva da modernização historicocultural, deve favorecer a formação plena de cidadãos autônomos e livres. Viu-se que a elaboração dos currículos escolares sempre esteve condicionada ao poder e às políticas do grupo dominante, reafirmando suas ideias, sua cultura, seus valores, prevalecendo sua essência em prejuízo daqueles que pertencem às classes menos favorecidas. Diante dessa realidade, é preciso questionar criticamente o ensino institucionalizado, analisando as concepções políticas que estão por trás da educação imposta à sociedade. Enfim, a escola precisa formar o pensamento crítico dos educandos no sentido de torná-los construtores de suas vidas e da sociedade em que vivem. Um currículo voltado para uma abordagem construcionista não impõe uma redução do ensino. O fato de estimular o conhecimento através do ato de pensar, de fazer com que o aluno encontre soluções para os problemas dá um novo significado no papel formativo da educação. Ou seja, ao invés de só inserir conteúdos, os professores passam a serem mediadores, contribuindo de forma efetiva para que os 158 próprios educandos se sintam confiantes para buscar as mais diversas possibilidades de construírem o seu próprio aprendizado. A pedagogia do oprimido é a pedagogia dos homens empenhan- do-se na luta por sua liberdade. “A liberdade, que é uma conquista, e não uma ação, exige uma permanente busca” (FREIRE, 2011, p. 46). REFERÊNCIAS ALTHUSSER, L. Aparelhos Ideológicos do Estado. Rio de Janeiro: Graal, 1983. APPLE, M.W. Ideologia e Currículo. 3.ed. Porto Alegre: Artmed, 2006. FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. 50.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011. _________. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. GIL, A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. 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Em Aberto, Brasília, 12, n. 57, p. 3-16, jan/mar. 1993. 159 A PRODUÇÃO TEXTUAL ESCRITA EM LIVROS DIDÁTICOS DO ENSINO FUNDAMENTAL ANOS FINAIS Benigna Soares Lessa Neta35 Mônica de Souza Serafim36 INTRODUÇÃO Com o advento das teorias linguísticas voltadas para os aspectos sociais e cognitivos dos seres humanos, várias críticas passaram a ser feitas ao ensino de Língua Portuguesa, desde o fato de o seu ensino não considerar a realidade dos estudantes nem seus interesses, o uso do texto como mero pretexto para explorar aspectos gramaticais, a valorização da gramática normativa e, consequentemente, o preconceito a determinadas variedades linguísticas utilizadas pelos estudantes, até a adoção de um ensino descontextualizado, com o emprego de exercícios mecânicos, voltados simplesmente para a identificação de aspectos linguísticos em frases isoladas. Diante de tais constatações, começamos a nos fazer as seguintes perguntas: 1) Essas críticas ao ensino também poderiam ser empregadas ao principal instrumento de trabalho de grande parte dos professores, o livro didático? No caso de uma resposta afirmativa, em que medida essas críticas poderiam ser empregadas e quais seriam elas? 2) As produções textuais escritas cobradas nesses livros didáticos e elabo- radas pelos estudantes: em que consistiam, como eram apresentadas e a partir de quais critérios de análise eram avaliadas? Foi pensando nesses questionamentos e, especialmente, nas suas possíveis respostas, assim como também considerando a importância 35 Doutorado em Linguística (UFC). Professora (IFCE). CV: http://lattes.cnpq.br/4075144210695334 36 Pós-Doutorado em Linguística (UFMG). Pós-Doutorado em Educação (UnB). Doutorado em Linguística (UFC). Professora (UFC). CV: http://lattes.cnpq.br/3137228410037896 160 do ensino de produção textual escrita, que apresentamos essa pesquisa sobre o ensino de produção textual, mais especificamente sobre as propostas de produção textual escrita presentes em livros didáticos de Língua Portuguesa da primeira e da última série do ensino Ginasial, atual Ensino Fundamental Anos Finais. A investigação justifica-se pelo fato de, não obstante as propostas de produção textual escrita nos livros didáticos de Língua Portu- guesa (LDLP), tanto do atual Ensino Fundamental Anos Finais, foco deste estudo, quanto do Ensino Médio, terem passado por profundas mudanças terminológicas, conceituais, estruturais e metodológicas ao longo do tempo, o ensino da escrita é um fenômeno recente, uma vez que histórica e tradicionalmente o ato de escrever sempre esteve em desvantagem ao de decodificar e memorizar regras gramaticais. No que diz respeito à organização do trabalho, ele está dividido em cinco partes: após esta introdução, será exposto um panorama da situação da produção textual escrita no Ensino Fundamental Anos Finais em livros didáticos de Língua Portuguesa a partir dos conceitos de língua e de linguagem subjacentes a eles, posteriormente, serão discutidos os procedimentos metodológicos adotados na investigação; depois, serão feitas as análises e as discussões; em seguida, apresenta- remos as conclusões e as referências. PRODUÇÃO TEXTUAL: DO PRODUTO AO PROCESSO Desde a década de 80, começaram a surgir trabalhos, em dife- rentes lugares do mundo e sob diferentes perspectivas teóricas, que defendiam o ato de escrever não mais como um produto, a ser ela- borado mecanicamente pelos estudantes e sem qualquer interven- ção do professor, cabendo a este apenas a correção – também esta improdutiva – mas como um processo complexo, composto por várias etapas, todas elas importantes no difícil exercício de tornar o ato de escrever mais fácil e eficaz. 161 Fayol (1984) constata que os estudantes escrevem mal porque não lhes foi ensinado escrever bem, por isso, a partir de uma abordagem cognitiva da escrita, ele defende a necessidade de se priorizar o pro- cesso, denominado por ele de composição, em detrimento do produto. Essa constatação acerca do despreparo dos estudantes é plenamente compreensível se considerarmos que eles, muitas vezes, são obrigados a redigir textos sem propósitos definidos, prática infelizmente ainda adotada por muitos professores, como se pode ler em Albuquerque (2006, p. 26) que, ao analisar a Proposta Pedagógica de Língua Por- tuguesa da Prefeitura da Cidade de Recife, questionou à didática dos professores em relação ao ensino da escrita: “A prática de ensino da escrita na escola é criticada do ponto de vista didático, uma vez que sua dimensão pragmática não é considerada”. Tantos os professores quanto os estudantes precisam compreen- der que, como diz Marcuschi (2008, p. 218), “o trabalho de escrita é também um trabalho de reescrita. O processo de produção deve ser de algum modo distinguido da produção final do texto, pois o produto final é o resultado de um processo de muitas revisões”, e o livro didá- tico pode funcionar como um guia nesse processo, pois ele continua sendo o principal referencial teórico utilizado pelos professores e manuseado pelos estudantes, de modo que, quanto mais abrangente for a sua abordagem sobre o processo da escrita, mais eficaz será o resultado da atividade pelos estudantes. É importante lembrarmos que, quando falamos de produção textual enquanto processo, estamos recuperando uma proposta de escrita que foi discutida, pela primeira vez, ainda nos anos 80, por J. R. Hayes e L.S. Flower, quando estes, inspirados por uma série de protoco- los verbais de redatores proficientes, propuseram que a escrita consistisse em três grandes processos: Planejamento, Textualização e Revisão. 162 METODOLOGIA A pesquisa teve como contexto 6 livros didáticos de Língua Por- tuguesa, com base nos seguintes critérios: livros utilizados na primeira ou última série do Ensino Fundamental Anos Finais nas últimas sete décadas, compreendendo o período de 1960 a 2020. Quanto ao corpus, foram selecionadas 6 propostas de produção textual para o desenvolvimento da pesquisa, retiradas dos livros didáticos coletados, sendo três propostas anteriores aos PCN, correspondendo respectivamente às décadas de 60, 70, 80, uma do período de transição, correspondendo à década de 90, e duas posteriores à publicação dos PCN, mais especificamente às décadas de 2010 e 2020, correspon- dendo a uma proposta do atual sexto ano do Ensino Fundamental Anos Finais e a uma referente ao atual 9º ano. A seleção dos livros de onde foram retiradas as propostas seguiu os seguintes parâmetros: 1) livros didáticos utilizados em escolas públicas ou particulares; 2) livros que apresentavam ou não propos- tas de produção textuais, uma vez que a ausência de atividades dessa natureza também poderia receber tratamento analítico, podendo ser identificado o atendimento ou o não atendimento aos Documentos Oficiais de base e 3) livros de uma mesma década, um do ano inicial e um do ano final do Ensino Fundamental Anos Finais. As propostas de produção textual escrita foram coletadas diretamente de livros didáticos destinados ao Ensino Fundamental Anos Finais, pertencentes ao acervo da Biblioteca do Livro Didático, localizada na Faculdade de Educação, da Universidade de São Paulo (USP). Após a realização da coleta e do estudo desses documentos, foi realizado o levantamento da quantidade de propostas de produções textuais presentes em cada um dos livros didáticos de Língua Por- tuguesa do Ensino Fundamental Anos Finais, ao longo das últimas sete décadas, que compuseram o corpus, pois, ainda que a pesquisa se caracterizasse como qualitativo-interpretativa, foi considerado 163 relevante contabilizar a quantidade de vezes em que o livro didático fornecia oportunidades de escrita aos estudantes. No que diz respeito à análise das propostas de produção textual escrita que compuseramo corpus, fizemos um recorte, necessário quando se estuda determinado objeto, e apresentaremos os achados no tocante ao aspecto da concepção de ensino de produção textual escrita que vigorava em cada período destacado, a saber, as décadas de 60, 70, 80, 90, 2010 e 2020. O QUE OS DADOS NOS REVELAM? No que diz respeito aos elementos analisados, o aspecto obser- vado aqui será o da concepção de ensino de produção textual escrita subjacente às propostas, ou seja, investigamos se a produção textual escrita era abordada como um produto ou como um processo. As propostas de produção textual escrita dos livros da década de 60 coletados consistem na apresentação de quatro temas a serem desenvolvidos pelos estudantes, mas, pelo laconismo das estruturas dos enunciados, não é possível inferir se este teria de escolher um desses temas ou se teria, necessariamente, de escrever sobre todos. Figura 1 –Temas para redação – década de 60 (1ª série) Fonte: (CEGALLA, 1964, p. 31) 164 O ensino de produção textual escrita partia da noção de que os estudantes deveriam redigir um produto, pois não havia qualquer preocupação com a estrutura dos enunciados objetivando orientar os estudantes quanto ao tipo de texto a ser elaborado (narrativo, descri- tivo ou dissertativo), ou quanto às etapas de seu planejamento, de sua execução ou de sua avaliação (MARCUSHI, 2008). Acerca dos temas sugeridos pelo LD, podemos dizer que eram superficiais e que não instigavam os estudantes a elaborarem textos autônomos. Sobre as propostas de produção textual escrita na década de 70, notamos uma ligeira diferença na concepção de ensino de produção textual, uma vez que, apesar de não ser possível perceber etapas de um processo, há uma preocupação em determinar e explicar o tipo textual e propor um plano modelo. Figura 2 – Temas para redação – década de 70 (4ª série) Fonte: (MAROTE, 1972, p. 149). Nessa proposta, o estudante não é mais um sujeito inteiramente passivo, pois a proposta, apesar de orientá-lo a seguir um modelo (ALBUQUERQUE, 2006), permite que ele escolha o tema que desejar para escrever, ou seja, vislumbra-se aí, já no início da década de 70, um processo de interação discursiva, ou, de modo menos otimista, uma intensificação do ensino tecnicista, que também vigorava na época, e almejava resultados imediatos, o que pode ser conseguido de muitas formas, inclusive se apresentando um modelo a ser seguido: “se preferir, mude de assunto, mas conserve o plano” (MAROTE, 1972, p. 149). 165 Nos anos 80, tivemos o fim da Ditadura Militar, a consolidação da democratização do ensino, e uma maior divulgação da Linguística no Brasil, inclusive aproximando-a da realidade do professor, com os conhecimentos advindos dessa ciência, por exemplo as concepções da Sociolinguística, da Pragmática e da Linguística Textual, chegando até as salas de aulas, uma vez que os concludentes dos cursos de Letras já estavam inseridos nas escolas, produziam material didático e participavam de debates em torno do ensino de Língua Portuguesa. A concepção de ensino depreendida da proposta analisada ainda é a de produto, apesar de, como se observou na década de 70, haver uma preocupação em trazer temas mais próximos da realidade dos estudantes, na tentativa de atender aos documentos oficiais da época, que recomendavam: “o tema pode incluir certos acontecimentos, cenários, aspectos da realidade para os quais os estudantes possuem não só experiências vividas, mas também um sistema satisfatório de representação (SÃO PAULO, 1988, p. 38-41). Figura 3 – Tema para redação – década de 80 (5ª série) Fonte: (FARACO, C; MOURA, 1984, p. 190) Nos anos 90, a concepção de ensino de produção textual escrita permanece sendo essencialmente a de produto contudo, alguns livros didáticos, como vemos na figura 4, termos uma noção de processo mais explícita apesar de ainda não muito aprofundada, pois percebe-se a etapa de geração de ideias, quando o autor solicita que o estudante vá à janela de sua casa ou de sua escola e observe as coisas que ocorrem do lado de fora; a de execução, fase de escrita propriamente dita; a 166 de avaliação do texto elaborado, quando é solicitado que o estudante releia sua produção e imagine a recepção dele pelo interlocutor e a de refacção, quando, após reler o texto e pensar se ele está suficientemente claro para o leitor, é sugerido que ele faça uma revisão do texto e, só depois, passe-o a limpo e o mostre ao colega; é importante notar que essas etapas de avaliação e de revisão seguem a orientação dos PCN, quando estes sugerem que o estudante analise e revise o próprio texto em função dos objetivos estabelecidos, da intenção comunicativa e do leitor a que se destina, redigindo tantas quantas forem as versões neces- sárias para considerar o texto produzido bem escrito. (BRASIL, 1998). Figura 4 – Hora de escrever – década de 90 (5ª série) Fonte: (DISCINI, N; TEIXEIRA, L, 1999, p. 20) Podemos dizer, portanto, que na proposta elaborada durante a década de 90, período de transição em que ocorreu a idealização, o planejamento, a elaboração, a aprovação e a implantação dos PCN, tivemos, em meio a uma crise política e econômica, uma série de 167 reformas educacionais, que, pelo menos na teoria, buscaram melhorar o sistema educacional brasileiro. Na figura 5, referente aos anos 2010, temos, de modo bem mais acentuado, a concepção de produção textual escrita como processo, sendo discriminadas, ainda que de forma não detalhada, as etapas de planejamento, de produção, de revisão e de publicação. Figura 5 – Produção escrita – década de 2010 (6º ano) Fonte: (DELMANTO; CARVALHO, 2012, p. 305-306) 168 No planejamento, especifica-se o que deve ser feito e como o texto deve ser elaborado: os estudantes deverão elaborar um verbete e, para isso, devem, primeiro, pesquisar a respeito em enciclopédias, jornais, revistas e, se os estudantes puderem, na internet; deverão, também, planejar os espaços entre os parágrafos, a disposição das ilustrações e dos boxes etc.; diferentemente das propostas analisadas anteriormente, nesta, além de o professor ou de os colegas de sala, o próprio estudante, a partir de uma série de critérios, avaliará seu texto quanto aos aspectos textuais, visuais e relacionados ao conteúdo; depois da fase de revisão, temos a fase de publicação, quando, depois de os estudantes terem realizado as correções propostas pelo profes- sor e inserido suas sugestões, o texto irá compor uma enciclopédia e, também, no projeto do final do ano, um almanaque. A escolha do tema da proposta de 2010 fica, em parte, a cargo do estudante, uma vez que é solicitada a elaboração de um verbete enciclopédico sobre um animal, sem que seja especificado qual. Esse tema, caso estivesse desassociado das motivações apresentadas para a escrita, poderia ser considerado distante da realidade do estudante ou genérico, mas é o contrário disso, a unidade inteira do livro didá- tico, intitulada “Definindo o mundo que nos cerca”, traz como tema transversal o meio ambiente e como tema associado a exploração de animais, a extinção de espécies e a preservação da natureza, forne- cendo, com isso, inspiração para a escrita e despertando a consciência crítica do estudante. A estrutura do enunciado, por sua vez, apresenta o que deve ser feito e como deve ser feito, atendendo às condições de produção: finalidade, publicação na enciclopédia e no almanaque; o gênero, verbete de enciclopédia; suporte, a enciclopédia e o almanaque; interlocutor, os colegas de sala, possíveis leitores da enciclopédia e do almanaque; e, assim como nas propostas anteriores, não são apresen- tadas restrições quanto aos lugares de circulação. Por fim, a partir de 2020, a concepção de produção textual escrita da figura 6 é a de processo, sendo apresentadas diferentes etapas 169 (apresentação da proposta, planejamento, revisão e reescrita e publi- cação) e coaduna-se com a da BNCC, uma vez queestá relacionada à interação e a autoria (BRASIL, 2017), pois não apenas sugere a elaboração de uma resenha a partir do acesso a um site, como também há um investimento no processo de interação entre os estudantes, sendo isso enfatizado tanto no momento da revisão e reescrita quanto durante a etapa de publicação. Figura 6 – Língua Viva – década de 2020 (6º ano) SANTA BARBARA, M.G. Língua Portuguesa. 1. ed. São Paulo: Saraiva, 2020, p. 39. 170 O tema abordado, uma das telas da pintora modernista Tarsila do Amaral, possibilita o cumprimento de algumas competências dis- criminadas na BNCC, como o conhecimento e a exploração de uma prática de linguagem artística, democratizando, assim, por meio do uso de tecnologias digitais, o acesso a esse tipo de expressão artística; e o desenvolvimento do senso estético, com o intuito de os estudantes reconhecerem, fruírem e respeitarem esse tipo de arte, apesar de não os inserirem em um contexto totalmente real de interação. A motivação para a escrita também se concentra em textos de apoio, cujo gênero textual é o mesmo solicitado na proposta de produção textual escrita da unidade, o que é interessante, pois auxilia o aluno no processo de elaboração do gênero, contudo, o fato de ser apresentada apenas uma resenha e com organização retórica não convencional, pois é apresentada em forma de tópicos, pode comprometer o processo de criação do estudante, cabendo ao docente apresentar um material extra a fim de ilustrar melhor a forma composicional do gênero. Contudo, o tipo de atividade proposta, tour virtual, pode funcionar como elemento motivacional, apesar de, considerando a multiplicidade de gêneros sugeridos pela BNCC (vlogs, vídeos, podcasts variados e produções e gêneros próprios das culturas juvenis, como fanzines, fanclipes, e-zines, gameplay, detonado etc.), além da resenha, que também é apresentada como gênero textual possível, não há um investimento na abordagem dessa multiplicidade de gêneros nem no acesso dos alunos às demais produções e eventos culturais apontados pela Base (produções culturais: livro, filme, série, game, canção, disco, videoclipe etc.; ou evento: show, sarau, slam etc.), ou seja, a proposta não apresenta avanços no que diz respeito aos gêneros solicitados nas décadas anteriores. Quanto às condições de produção, que se assemelham bastante às dos PCN, todas são disponibilizadas na proposta: os enunciadores são os próprios estudantes e o papel assumido por eles é o de elabo- 171 radores de resenhas; o objetivo está explícito “auxiliar seus colegas nas suas escolhas para leitura, apreciação e compartilhamento de impres- sões sobre obras de arte, como as pinturas em tela”, o gênero textual é apresentado desde o início da unidade e há um quadro explicando sua estrutura, o lugar de circulação também fica bastante claro no enunciado da proposta, será o blog da turma, site da escola, ou em outro lugar definido com o auxílio do professor. CONSIDERAÇÕES FINAIS Tendo por base as análises realizadas e os resultados alcan- çados, seguem as respostas a que chegamos para as três indagações feitas no início desta pesquisa: 1. As críticas feitas ao ensino podem ser empregadas ao principal instrumento de trabalho de grande parte dos professores, o livro didático? Analisando especificamente a parte de produ- ção textual escrita presente nos livros didáticos das últimas sete décadas, a resposta é “não mais”, algumas críticas ainda podem, e devem, ser feitas, mas dos anos 90 para cá houve uma visível melhora dessas propostas. 2. As produções textuais escritas cobradas nesses livros didáti- cos e elaboradas pelos estudantes: em que consistiam, como eram apresentadas e a partir de quais critérios de análise eram avaliadas? Nas propostas anteriores aos PCN, mais especifica- mente nas décadas de 60 e 70, que viam o ensino de produção textual essencialmente como um produto, tínhamos apenas títulos no espaço reservado para a produção textual, nessa época denominada de “Composição”; nas décadas seguintes, com uma visão inicialmente parcial de produção textual como processo, passamos a encontrar diferentes e recorrentes etapas, 172 inclusive um momento específico para revisão e reescrita, a partir de um roteiro de avaliação. 3. Quanto aos documentos oficiais de ensino anteriores aos Parâmetros Curriculares Nacionais: o que eles diziam? Trata- vam de produção textual escrita? Adotando qual perspectiva teórica? Os PCN trouxeram uma nova perspectiva de se pensar o ensino de Língua Portuguesa e, por participação, o ensino de produção textual escrita, antes havia uma série de documentos oficiais (pareceres, decretos e cartilhas), que abordavam a questão da produção textual escrita, mas de uma maneira muito superficial, ou seja, não havia nada tão completo nem tão claro quanto os Parâmetros, tanto que a BNCC, reconhecendo seu valor, aproveitou muito de seus princípios, inclusive seu percurso pedagógico baseado no usoreflexão-uso. Essas respostas puderam ser formuladas a partir da análise de nossos resultados, pois eles revelaram que nas propostas de produção textual escrita elaboradas antes da publicação dos PCN, especificamente nas décadas de 60, 70 e 80, adotava-se uma concepção de ensino vertical, em que a língua era tida ora como código ora como representação do pensamento, e as produções textuais eram vistas essencialmente como produto; já nas propostas produzidas durante o período de transição, década de 90, foi possível perceber mudanças incipientes na concep- ção de ensino de produção textual escrita e, consequentemente, nas estruturas dos enunciados, sendo apresentada, aos estudantes, uma proposta mais rica de conteúdo e a elaboração de um planejamento, de uma avaliação e, até, de uma reescrita; por fim, nas propostas ela- boradas após a publicação dos PCN, período em que passou a vigorar uma concepção de língua como instrumento de interação humana, as propostas, de uma maneira geral, apresentaram-se numa perspectiva 173 de processo, atendendo às etapas de planejamento, elaboração, revisão, avaliação, refacção e publicação, assim como, também, às suas condições de produção (finalidade, especificidade do gênero, suporte, lugares preferenciais de circulação e interlocutor). Finalmente, gostaríamos de ratificar o descompasso entre o que se propõe nos livros didáticos, especialmente naqueles elaborados nas três últimas décadas, que obedecem às orientações dos documentos oficiais e propõem atividades de produção textual escritas pautadas na concepção de processo, abordagem que, em tese, deveria promover uma maior qualidade nas produções textuais elaboradas pelos estu- dantes, e o que demonstram as avaliações de larga escala lançadas por programas federais, ficando, assim, a reflexão sobre onde de fato está o problema que impede o sucesso dos estudantes no que diz respeito à plena realização dessa habilidade. REFERÊNCIAS ALBUQUERQUE, E.B.C. de. Mudanças didáticas e pedagógicas no ensino de Língua Portuguesa: apropriações de professores. Belo Horizonte: Autêntica, 2006. BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais – terceiro e quarto ciclos do Ensino Funda- mental: Língua Portuguesa. Brasília: MEC/SEF, 1998. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular (2017). Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_20dez_site.pdf. Acesso em: 14 fev. 2018. CEGALLA, D. P. Português: gramática, antologia, exercícios (1ª série ginasial). 13. ed. São Paulo: Companhia Editoria Nacional, 1964, p. 31. DELMANTO, D; CARVALHO, L.B. de. Jornadas.port: língua portuguesa, 6º ano. 1. ed. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 305-306. DISCINI, N; TEIXEIRA, L. Leitura do mundo. São Paulo: Editora do Brasil, 1999, p. 20. FARACO, C; MOURA, F. Comunicação em Língua Portuguesa (Primeiro Grau – 5ª série). São Paulo: Editora Ática, 1984, p. 190. FAYOL, M. L’approche cognitive de la rédaction: uma persective nowvelle. Repères, nº 63, maio de1984. Disponível em: http://www.persee.fr/docAsPDF/reper_0755-7817_1984_num_ 63_1_1783.pdf. Acesso em: 6 mar. 2018. 174 MARCUSCHI, L.A. Produção Textual, análise de gêneros e compreensão. São Paulo: Parábola Editorial, 2008. MAROTE, J.T.D. PortuguêsFuncional (8ª série do novo ensino de 1º grau – antiga 4ª série ginasial). São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1972, p. 149. SANTA BARBARA, M.G. Língua Portuguesa. 1. ed. São Paulo: Saraiva, 2020. 175 PROPOSTA DE ENSINO DO CONJUNTO DOS RACIONAIS COM BASE NA TEORIA HISTÓRICO-CULTURAL COM ABORDAGEM GEOMÉTRICA Sarah Galatto Cancillier37 Mateus Bitencourt38 Maxwel Fernandes Bernardes39 Eloir Fátima Mondardo Cardoso40 INTRODUÇÃO De acordo com a Teoria Histórico-Cultural (THC), por meio da atividade humana se possibilitam o desenvolvimento e as transfor- mações sociais. A matemática não é uma exceção, podemos defini-la como uma ciência humana, produzida pelo ser humano durante a história, sendo assim variável e com incertezas (PERES; FREITAS, 2014). Ademais, faz-se o estudo da educação matemática de forma a possibilitar as melhores condições de ensino e aprendizado matemá- tico. Esta tem como principal estudo o contexto social das relações matemáticas (DAMAZIO; ROSA, 2013). Com isso, a seguinte proposta utiliza como base a THC, a qual é referência para o Currículo Base de Santa Catarina. Os pressupostos desta teoria objetivam superar o conhecimento empí- rico e almejam desenvolver o pensamento teórico dos estudantes. Além disso, esse estudo propõe a organização do ensino dos núme- ros racionais, de modo a relacionar: geometria, álgebra e aritmética, 37 Graduanda em Matemática (UNESC). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9720-5245 38 Graduando em Matemática (UNESC). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0322-0725 39 Graduando em Matemática (UNESC). CV: http://lattes.cnpq.br/0592073531179886 40 Doutoranda em Educação (UNESC). ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3489-8771 176 com o intuito de promover a inter-relação desses conceitos mate- máticos (SANTA CATARINA, 2019). Na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) também consta a necessidade dessa inter-relação entre os diversos campos da matemática, além da estatística e da probabilidade. Em vista disso, esta proposta desenvolve os conceitos e propriedades do conjunto dos racionais asso- ciados com os polígonos regulares (triângulo equilátero, quadrado, hexá- gono regular), tanto seu perímetro quanto equivalência de suas áreas, os quais constam como objetos de conhecimentos previstos pela BNCC para o ensino do sétimo ano do Ensino Fundamental (BRASIL, 2018). Então, objetivou-se neste estudo desenvolver, aplicar e avaliar uma proposta de ensino dos conjuntos dos racionais com base na THC em estágio obrigatório com estudantes do sétimo ano de uma escola estadual de Santa Catarina, de modo a verificar a necessidade da subdivisão da unidade de medida; realizar o processo de medição, relacionado com o perímetro de polígonos regulares; desenvolver o conjunto dos racionais interligado à geometria, álgebra e aritmé- tica; avaliar a apropriação do conhecimento sobre os conjuntos dos racionais por parte dos alunos. Os alunos foram desenvolvendo os conceitos durante as tarefas. Algumas tarefas foram desafiadoras para eles, bem como o processo de síntese, com o qual não estavam acostumados. Eles se apropriaram de muitos conceitos, principalmente da geometria, e apresentaram dificul- dade no processo de divisibilidade e subdivisão da unidade de medida. DESENVOLVIMENTO DAS AULA E ATIVIDADES DE ENSINO Ao se pensar e elaborar uma situação de ensino possível, leva- -se em consideração os sujeitos envolvidos no processo, dentre eles as escolas, os professores e os alunos. No percurso formativo, estes sujeitos se relacionam a partir da atividade humana, especificamente, atividade de aprendizagem. Rosa (2012) diz que a atividade humana 177 tem como característica o direcionamento à criação de um objeto. Baseada em Leontiev, a autora aponta que a atividade é estruturada por elementos que se interligam e se transformam, surgindo de uma necessidade a fim de um objetivo. Isto é, “Estabelecer uma tarefa para um indivíduo é determinar uma meta a ser atingida em condições específicas” (ROSA, 2012, p. 40). O estudo foi aplicado em uma turma do sétimo ano do Ensino Fundamental II, de uma escola estadual de Santa Catarina. A elabo- ração do referencial teórico foi realizada durante o primeiro semestre do ano de 2021, com pesquisa sobre a abordagem teórica adotada e desenvolvimento da metodologia das aulas e dos materiais. Durante o segundo semestre de 2021, por conta da pandemia (Covid-19) e por consequência a necessidade de distanciamento social, a turma foi dividida em A e B, com aulas presenciais intercaladas com atividades para casa. Foram realizadas 16 aulas de observação, divididas em 8 aulas para A e 8 para B. Ademais, foi realizada a regência durante 25 aulas (A = 12, B = 13). As aulas de tarefas práticas foram realizadas no laboratório de matemática, em mesas redondas e em grupo. Deste modo, a abordagem escolhida foi a THC e partiu de uma situação problema com base no ladrilhamento presente em colmeias das abelhas. A partir dessa situação foram desenvolvidas tarefas. O modo de avaliação foi dividido em três trabalhos, para acompanhar o desen- volvimento dos alunos durante as 3 semanas de aula. Os dois primeiros foram por meio de sínteses das discussões das aulas da semana, com peso três, foram propostas questões bases para cada síntese como modo de orientar o aluno no desenvolvimento da atividade. A última avaliação foi a representação dos polígonos e áreas no papel, com peso quatro. As abelhas constroem os alvéolos nas colmeias para depositar o mel que fabricam. O formato dos alvéolos apresenta relações matemá- ticas que possibilitam um armazenamento maior com menos gastos na construção das paredes dos alvéolos, produzidas com matéria orgânica dos corpos das abelhas (TAHAN, 1987; SILVA; XAVIER; BENTO, 178 2012). Este é um dos casos da natureza em que a matemática está inserida formando um padrão harmonioso, o que pode ter decorrido do acaso ou da seleção natural (SILVA; XAVIER; BENTO, 2012). Uma das relações matemáticas presentes nos alvéolos da colmeia para o maior armazenamento, é a utilização de formas que se encaixam, de forma a utilizar a mesma parede do alvéolo para o adjacente, as únicas formas planas regulares que possibilitam isso são o triângulo equilátero, o quadrado e o hexágono regular. Isto ocorre devido ao valor dos seus ângulos internos que são divisores de 360º graus, uma circunferência. Contudo, as abelhas utilizam o formato hexagonal, porque quando construídos prismas triangulares, quadrangulares e hexagonais, com a mesma altura e perímetro, o único fator que influencia nos seus volumes é a área da base, e a do prisma hexagonal possui a maior área (TAHAN, 1987). Com esses dados foi apresentado aos alunos o que são os alvéolos, seus possíveis formatos (baseado no ladrilhamento) e sua função na colmeia das abelhas – armazenamento – e relatada a necessidade de armazenar a maior quantidade com uma determinada quantidade de cera. Após explicar o que são os alvéolos, foi questionado: “Quais os padrões que podem ser observados nos alvéolos”, “Quais seus possíveis formatos?” e “Será que eles poderiam ser circulares? De que forma isso influenciaria na colmeia?”. Com isso, objetiva-se que os alunos investiguem as propriedades geométricas do objeto estudado. Na primeira pergunta, devem observar alguns padrões, como o formato do hexágono, o encaixe perfeito entre os polígonos, a repetição do mesmo formato e tamanhos. Após verificar essas pro- priedades geométricas, deve-se verificar o que elas influenciam na colmeia e no armazenamento. Para a segunda e a terceira pergunta, faz-se a ligação com as respostas da pergunta anterior, principalmente sobre como os polí- gonos se encaixam perfeitamente paraque se aproveite todo o espaço e não haja um gasto a mais de cera, já que nos encaixes perfeitos 179 as paredes dos alvéolos coincidem. Durante os questionamentos e investigação com os alunos, objetiva-se concluir que formatos circu- lares não formariam um ladrilhamento, apesar de terem maior área, sobraria espaço entre os alvéolos, assim os únicos polígonos regulares que possibilitariam, seriam o triângulo equilátero, o quadrado e o hexágono regular. Com os possíveis polígonos definidos, chega-se ao questionamento: “Mas por que o hexágono é um o formato melhor do que o triangular e o quadrangular?”. Definido que o formato deve armazenar a maior quantidade de mel, para a menor quantidade de cera, deve ser identificado por meio de questionamentos, a qual parte dos polígonos equivalem à cera e ao mel. O primeiro reveste as paredes do alvéolo, então, em uma figura plana, equivale ao seu contorno (perímetro), já o segundo preenche o formato equivalendo a sua superfície (área). Posteriormente à dedução dessas informações, chega-se na pergunta principal: “Qual polígono tem maior área, caso todos apresentem o mesmo perímetro? Com o desenho de um hexágono regular como ponto de par- tida, desafia-se os alunos a comprovarem se este é o melhor formato, por meio da construção dos outros polígonos e dimensionamento de todos eles. Para isso, é estabelecida uma característica comum entre eles, o mesmo perímetro. Tomando o hexágono como base, os alunos devem verificar qual a medida do lado e de seu perímetro. Após isso, devem verificar qual lado do quadrado e do triângulo possibilitariam o mesmo perímetro para os polígonos. Com isso chega-se ao problema de medição, deve-se orientar os alunos a pensarem alguma forma de medir o perímetro do hexá- gono, o primeiro pensamento provável seria a utilização da régua. No entanto, será orientado utilizar outra forma e questionar: “E se não tivéssemos régua, o que poderíamos utilizar para medição?”. Deste modo, objetiva-se chegar ao processo histórico de medição. 180 Para a atividade, foi proposto o uso de cordas para a medição, por poder se modelar aos segmentos dos polígonos e ainda ser padrão para todos, e não variante, como medidas baseadas em partes do corpo. Inicialmente foi medido o perímetro ( ) e com a sua divisão o lado do hexágono ( ), após isso, utilizando outras cordas do mesmo tamanho de , e dividindo em 3 e 4 foram formados os segmentos dos lados do quadrado ( ) e do triângulo ( )(Figura 1). Figura 1. Representação dos segmentos , e em relação ao perímetro Fonte: Elaboração dos autores, 2021. Com todos os segmentos medidos com as cordas, foram ana- lisadas as propriedades das cordas e suas equações, como: “Qual segmento é maior que o outro?”, “Qual segmento é menor que o outro?”, “Existe algum segmento igual ao outro?” e “Quantas vezes os segmentos dos lados são menores que o perímetro?”. Com esses questionamentos podemos definir: Deste modo, observa-se também que um segmento tem dife- rentes resultados numéricos, se consideradas unidades de medida diferentes. Após essas análises, foi definido um dos segmentos para ser utilizado como unidade de medida, para realizar as medições. O lado 181 do hexágono (, por ser o menor, seria o mais indicado para a situação. Quando comparadas as cordas, pode-se concluir que: Porém, quando utilizado como unidade de medida para a medição do lado do quadrado, surge uma nova necessidade, não cabe vezes inteiras no comprimento . Surge a reflexão: “será que não há um valor para esse segmento ou só não o conhecemos?”. As discussões permi- tiram concluir que existe, mas não pode ser expresso por um número inteiro. Além disso, também foi verificado que é um número entre um e dois, porque a unidade cabe uma vez inteira e mais uma parte dela em , ou seja, a unidade cabe mais de uma vez e menos de duas vezes em . Pode-se representar o novo número como: Mas de que modo podemos medir com exatidão esse novo número? Deste modo, chega-se à necessidade da subdivisão da unidade de medida , em dois, formando , a nova unidade de medida (medida inter- mediária). Realizando novamente o processo de medição, encontra-se: Figura 2. Medição do lado do hexágono regular e do quadrado com a unidade de medida intermediária Fonte: Elaboração dos autores, 2021. 182 Conforme a representação do número m, a medição com a unidade de medida intermediária , temos e , conclui-se que: Assim, o segmento medido com , resulta em uma fração. Pos- teriormente a medição e quantificação do perímetro e dos segmentos, os alunos são orientados a representarem em uma reta numérica, par- tindo da origem (O), para possibilitar o movimento do pensamento do concreto ao abstrato. Para finalizar a situação dos alvéolos, já que os valores dos lados estão definidos, deve-se orientar a construção do triângulo equilátero e do quadrado, posteriormente analisando o tamanho das áreas por meio da divisão e sobreposição das formas. O estágio foi iniciado com a fase de observação. Neste período os alunos estavam aprendendo multiplicação e divisão com números intei- ros e foi observada a dificuldade dos estudantes em relação aos cálculos com as operações básicas. A maior parte das aulas foi destinada à reso- lução de exercícios com auxílio da professora supervisora e da estagiária. Ainda no período de observação, foi percebido, pela professora supervisora, que os alunos ficavam um período muito longo sem estudar matemática, as aulas eram realizadas em um dia da semana e a próxima aula ocorria somente após duas semanas. Durante a primeira aula da regência, cada grupo recebeu um polígono diferente e precisavam verificar quais formavam um ladri- lhamento. A maioria dos alunos desconhecia muitos dos conceitos de geometria vistos, na turma A, associaram inicialmente o ladrilhamento com o quadrado e somente após a tarefa perceberam que nem todos os polígonos poderiam se encaixar sem sobrar espaços. Em continuidade, foi realizada a síntese no dia seguinte, em que os alunos não lembravam de alguns tópicos da aula anterior, porém a maioria marcou no círculo (360°) formado pela soma dos ângulos no encaixe dos polígonos. 183 Na sequência, foi realizada a tarefa com a turma B, a qual conse- guiu associar o ladrilhamento com outros polígonos, além do quadrado. Durante a realização da síntese, apresentaram autonomia (Figura 3). Todas as propostas da primeira semana foram desenvolvidas no mesmo dia e, com as respostas, foi verificado que compreenderam os conceitos. Figura 3 – Tarefa de ladrilhamento com polígonos regulares. Fonte: Dados dos autores, 2021. Além disso, ambas as turmas inicialmente demonstraram não conhecer o uso do transferidor, porém, no decorrer das aulas passaram a utilizá-lo. Ademais, foi colocada uma pergunta optativa na síntese I (Figura 4), os alunos poderiam colocar o que eles aprenderam nas aulas, nas respostas, relatavam ter aprendido o conceito dos polígonos regulares, o ladrilhamento e a medição de ângulos. 184 Figura 4 – Respostas dos alunos sobre seus aprendizados na aula. Fonte: Dados dos autores, 2021. Durante a segunda semana, foram introduzidos os números racionais com a medição dos polígonos. Nesta aula, alguns conceitos eram conhecidos pelos alunos: procedimento de medição, relação universal de multiplicidade e divisibilidade. Mas também surgem novos, como: ampliação do processo de medição e subdivisão da unidade de medida (FREITAS, 2016). A turma A apresentou, inicialmente, dificuldades para encon- trar o lado de um polígono a partir do perímetro, o qual representa a relação da divisibilidade, para esta atividade utilizaram o desenho do polígono e o contornaram com o barbante. Em contrapartida, foram muito participativos na discussão dos resultados do processo de medição e subdivisão da unidade de medida. Novamente, a síntese foi realizada, em sua maioria, no dia seguinte, e houve uma descontinuidadedo aprendizado, os alunos não lembravam mais da tarefa realizada, por isso a aula foi dedicada 185 para a sua realização com o auxílio da professora, para retomar o que haviam aprendido. No entanto, foi necessária a continuação em casa, muitos alunos não fizeram ou entregaram somente o realizado em sala, prejudicando a análise do conhecimento apropriado pelos alunos sobre este conceito e o tornando incerto, por isso sugere-se uma retomada dos tópicos fora do período de regência. Contudo, a turma B realizou com mais facilidade a tarefa, mesmo ainda necessitando do recurso visual da construção do polígono com o barbante para encontrar seus lados. Com a síntese e comentários em sala de aula, foi verificada a compreensão da relação dos segmentos (maior, menor ou igual) e representação na reta numérica (Figura 5). No entanto, a maior dificuldade foi entender a subdivisão de medidas com exemplos fora de situações problema ou práticas com os polígonos. Figura 5 – Representação do perímetro com o lado do hexágono e representação do polígono para obtenção do segmento referente ao lado. Fonte: Dados dos autores, 2021. 186 Para concluir, foi realizada na última aula a tarefa de construção dos polígonos, sendo necessária a apropriação dos conceitos anterio- res, como os conceitos de ângulos, polígonos regulares e medição de comprimento. Além disso, foi complementada com o conceito de medição de áreas de retângulos e decomposição de áreas (Figura 6). Figura 6 – Cálculo das áreas e decomposições dos polígonos Fonte: Dados dos autores, 2021. As duas turmas conseguiram entender a medição de áreas com unidades quadradas e como se calcula, verificando as linhas e as colunas de um retângulo. Além disso, apresentaram diferentes soluções para a decomposição dos polígonos e transformação em quadriláteros. Durante a tarefa foi necessário o auxílio do questionamento da professora para os alunos relembrarem alguns conceitos das aulas anteriores. 187 CONSIDERAÇÕES FINAIS Assim, foi composta uma proposta de ensino segundo a THC, a qual foi aplicada em uma turma do sétimo ano e com o obje- tivo de proporcionar a apropriação dos conceitos no campo teó- rico, interligando as áreas da matemática e abordando o desenvol- vimento histórico do conceito. A proposta abordou os conceitos do conjunto dos números racionais, por meio do processo de medição, em uma situação geomé- trica. Desta forma, os alunos estudaram com a interligação dos dois campos da matemática, aprenderam a utilizar novos instrumentos e se apropriaram de novos conceitos. As tarefas foram organizadas de forma que o aluno descobria os conceitos durante as tarefas, o que se mostrou desafiante para alguns. Além disso, os alunos também não estavam acostumados com a realização da síntese, a qual foi de extrema importância para a apropriação dos conceitos e avaliação. Os alunos conseguiram se apropriar de muitos conceitos, prin- cipalmente da geometria. No campo dos números racionais, desta- cam-se os primeiros conceitos e o do processo de medição. Contudo, sugere-se para trabalhos futuros, destinar mais aulas para o estudo dos números racionais, a fim de desenvolver os conceitos de divisibilidade e operações com os números racionais. REFERÊNCIAS BRASIL/MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017. 472p. DAMAZIO, A.; ROSA, J. E. Educação Matemática: possibilidades de uma tendência his- tórico-cultural. Espaço pedagógico, Passo Fundo, v.20, n. 1, p. 33-53, jan/jun, 2013. PERES, T. C.; FREITAS, R. A. M. M. Ensino Desenvolvimental: uma alternativa para a educação matemática. Poiésis, Tubarão, Volume Especial, p. 10 - 28, Jan/Jun, 2014. ROSA, Josélia Euzébio da. Proposições de Davydov para o ensino de matemática no primeiro ano escolar: inter-relações dos sistemas de significações numéricas. 2012. 244 f. Tese (Douto- 188 rado) - Curso de Educação, Ufpr, Curitiba, 2012. Disponível em: http://www.ppge.ufpr.br/ teses%20d2012/d2012_Joselia%20Euzebio%20da%20Rosa.pdf. Acesso em: 27 maio 2021. SANTA CATARINA. Currículo Base da Educação Infantil e do Ensino Fundamental do Território Catarinense. Florianópolis-SC. Secretaria do Estado da Educação, 2019. 492p. Disponível em: http://uaw.com.br/pagflip/pdf.php?pag=portifolio&cod=35. SILVA, R. A.; XAVIER, C. S. F.; BENTO, A. N. S. Explorando o formato hexagonal dos favos de mel das abelhas na sala de aula de matemática. In: Encontro Paraibano de Educação Matemática – EPBEM, nº 7, 2012, João Pessoa, Paraíba. TAHAN, M. As maravilhas matemáticas. 2ª ed. brasileira, Rio de Janeiro: Bloch Editores, 1973. http://uaw.com.br/pagflip/pdf.php?pag=portifolio&cod=35 189 LETRAMENTO LITERÁRIO: RELATO DE EXPERIÊNCIA DE LEITURA EM SALA DE AULA VIRTUAL Adilma Gomes da Silva Machado41 Antônia Caroline Alves da Silva42 Sidney Washington de Lima Melquiades43 INTRODUÇÃO [...] uma comunidade de leitores é definida pelos leitores enquanto indivíduos que, reunidos em um conjunto, interagem entre si e se identificam em seus interesses e objetivos em torno da leitura, assim como por um repertório que permite a esses indivíduos comparti- lharem objetos, tradições culturais, regras e modos de ler. (COSSON, 2014, p. 138-139) O domínio da leitura ainda é bastante preocupante para nós educadores, e isso mostra-se nos resultados de pesquisas nacionais e internacionais, como o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes – PISA, que avalia os conhecimentos dos alunos em ciên- cias, matemática e leitura. Em 2018 o principal componente avaliado foi a leitura, composto de uma escala de proficiência distribuída em oito níveis – 1c, 1b, 1a, 2, 3, 4, 5 e 6. O nível 1 é considerado de baixa proficiência; os níveis 2, 3 e 4 medianos e os níveis 5 e 6 considerados mais elevados dentro dessa escala, onde o Brasil ficou 74 pontos abaixo da média mundial e classificado no nível de proficiência 2. Diante disso, entendemos ser fundamental incorporar nas práticas pedagógicas de leitura, atividades que aperfeiçoem o contato direto 41 Mestranda em Linguística e Ensino (UFPB). CV: http://lattes.cnpq.br/6698663075218742 42 Mestranda em Linguística e Ensino (UFPB). CV: http://lattes.cnpq.br/3875671872212548 43 Mestrando em Linguística e Ensino (UFPB). CV: http://lattes.cnpq.br/7129040181714788 190 dos estudantes com a leitura, com o livro e com narrativas, atividades que possibilitem a eles momentos de interação leitor-texto-leitor, mas também interação entre os educandos por meio de socialização das histórias lidas, narradas, vividas. Infelizmente a grande maioria dos estudantes ainda não têm consciência da importância e da necessidade da leitura em seu percurso de desenvolvimento e aprendizagem, ou melhor, na maioria das vezes leem por obrigação, leem apenas o que lhes foi solicitado, sem dar à leitura o seu real valor. A escola tem função essencial de ensinar aos alunos a importância de se praticar a leitura, pois a prática da leitura contribui para a formação intelectual, moral e cultural. Solé (2014) assevera que a leitura decorrente de processo de ensino não é apostar em um método único, fechado, que pode ser aplicado a qualquer caso, contexto ou aluno. Muito pelo contrário, as práticas pedagógicas e metodologias devem levar em consideração o indivíduo, seus conhecimentos prévios, seus objetivos e suas condições. Desse modo, a disciplina Leitura e Ensino, ministrada pelas professoras Eliana Esvael e Josete Marinho, no Mestrado Profissional em Linguística e Ensino da Universidade Federal da Paraíba - UFPB, no segundo semestre de 2021, nos proporcionou refletir sobre vários olhares do nosso cotidiano docente e entender a leitura como uma prática social importante para o desenvolvimento dos educandos, mas que ainda temos muitos desafios a enfrentar. Para a culminância da disciplina, as professoras solicitaram que criássemos e desenvolvêssemos uma vivência, adaptada para o meio virtual, envolvendo de forma dinâmica esignificativa uma metodologia para o ensino de leitura, na qual pudéssemos não só discutir as teorias, mas também colocá-las em prática. Dessa forma, realizamos as vivên- cias com nossa própria turma de mestrado por meio da plataforma Google Meet. Com esse capítulo, pretende-se refletir sobre o que foi vivenciado e compartilhar os saberes, pois a construção coletiva em nosso meio é muito relevante para nossa prática enquanto docente. 191 Nesse sentido, foram realizadas diversas discussões teóricas sobre leitura e suas definições, bem como os procedimentos de leitura: antes, durante e depois. Para este fim, nos ancoramos em Leffa (1996), Kleiman (2005), Martins (2006), Solé (2014) e Cosson (2014) que propõem um trabalho com leitura, visando à interação nas práticas sociais de letramento. Os resultados foram obtidos a partir das leituras e discussões na disciplina Leitura e Ensino, bem como da aplicação de uma aula, que nos proporcionou refletir sobre as várias situações do nosso cotidiano docente e a entender a leitura como uma prática social importante para o desenvolvimento dos educandos, em que as estra- tégias de leitura contribuem positivamente para a formação do leitor. Nossa vivência utilizou o livro “A colcha de retalhos” de Con- ceil Corrêa e Nye Ribeiro que aborda a descoberta de sentimentos e descobertas de novas sensações que influenciam no nosso jeito de ver o mundo. Esta vivência foi pensada para alunos do 6º ano do ensino fundamental II, mas dependendo da abordagem é aplicável em qualquer segmento de ensino, tendo duas horas de duração. O nosso objetivo foi trabalhar o eixo de leitura e oralidade a partir do gênero conto, visando as práticas de leitura: antes, durante e depois da leitura. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA A leitura, parte fundamental do saber, alicerça nossas interpreta- ções e conhecimento de mundo e concretizar esse processo para com a linguagem necessitamos do domínio da palavra, pois é através dela que nos posicionamos socialmente. Para tentar compreender a questão da leitura, podemos nos ancorar em Martins (2006, p. 30) quando a autora define a leitura como “um processo de compreensão de expressões formais e sim- bólicas, não importando por meio de que linguagem”. Nessa pers- pectiva, podemos perceber que o processo de desenvolvimento da leitura no indivíduo perpassa por experiências individuais, com a decodificação de signos linguísticos e, além disso, o leitor dá sentido 192 ao que lê, fazendo um diálogo entre objeto lido e leitor. Comungando dessa ideia Cosson (2014) enfatiza: [...] ler consiste em produzir sentidos por meio de um diálogo, um diálogo que travamos com o passado enquanto experiência do outro, experiência que com- partilhamos e pela qual nos inserimos em determinada comunidade de leitores. Entendida dessa forma, a leitura é uma competência individual e social, um processo de produção de sentidos que envolve quatro elemen- tos: o leitor, o autor, o texto e o contexto. (COSSON, 2014, p. 36) Aqui, o ato de ler ganha uma compreensão mais ampla no qual texto, autor e leitor interagem, sendo assim, o processo de leitura mobiliza o leitor, ativando seus conhecimentos prévios, dialogando com o texto e construindo sentidos. Segundo Leffa (1996a, p. 10) “ler é, portanto, reconhecer o mundo através de espelhos. Como esses espelhos oferecem imagens fragmentadas do mundo, a verdadeira leitura só é possível quando se tem um conhecimento prévio desse mundo”. Dessa forma, a leitura não se limita ao encontro do leitor e texto, apenas, e sim, há muitos processos e elementos que permeiam essa relação para dar sentido, alcançando o objetivo da leitura que é a compreensão. Para os Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN (1998, p. 71), formar leitores “é algo que requer condições favoráveis, não só em relação aos recursos materiais disponíveis, mas, principalmente, em relação ao uso que se faz deles nas práticas de leitura”. Essas práticas sociais também podemos chamar de práticas de letramento. O letramento é um termo relativamente recente, tendo con- ceituações diversas. Kleiman (2005), em seu livro intitulado “Preciso ensinar o letramento?”, aborda inicialmente o que o letramento não é, para em seguida, apontar o que é. Dentre os vários conceitos apre- sentados pela autora, talvez o mais comumente usado seja o de que 193 essa nomenclatura se refira aos usos que se faz da escrita nas diversas instâncias da vida em sociedade. Nesse sentido, o letramento literário torna-se membro desse campo tão abrangente de usos da escrita no meio social. Conforme Paulino e Cosson (2009, p. 67), o letramento literário é “o processo de apropriação da literatura enquanto construção literária de sentidos”. Para que os alunos se apropriem da literatura e possam construir senti- dos a partir daquilo que lê, é necessário que o processo de ensino da lei- tura na escola dê condições de o aluno tornar-se letrado literariamente. É nessa perspectiva que as estratégias de leitura antes, durante e depois, conforme foram apontadas por Solé (2014) e diversos autores (Pearson e Johnson, 1978; Raphael, 1982, dentre outros), contribuem substancialmente para a formação do leitor, incluído aí o leitor de textos literários. Cabe, nesse momento, apresentar sucintamente a que se refere cada estratégia. Solé (2014) apresenta pelo menos cinco estratégias que podem ser realizadas antes mesmo de a leitura iniciar e que contribuem para a compreensão do texto: motivar os alunos, indicar o objetivo da lei- tura, atualizar o conhecimento prévio, ajudar a formular previsões e incentivar as perguntas dos alunos. A motivação pode ocorrer mediante a apresentação de textos desafiadores (não conhecidos pelos alunos), bem como mediante a contextualização da leitura em uma situação real, como ler para obter determinada informação ou por prazer, sem que o aluno se sinta pres- sionado, dentre outras situações. A indicação do objetivo de leitura se refere ao fato de o professor expor a finalidade daquela leitura. A atualização do conhecimento prévio, por sua vez, é um elemento fundamental, dado que se o aluno não sabe de que se trata a história, isto é, não tem um conhecimento prévio, a construção do sentido é afetada. Se, por outro lado, o leitor já sabe de tudo que a história vai tratar, provavelmente essa leitura não será interessante. Dessa maneira, propor uma leitura que permita que o conhecimento prévio do aluno/ leitor se amplie é fundamental. Segundo Solé (2014): 194 Se ler é um processo de interação entre um leitor e um texto, antes da leitura (antes de saberem ler e antes de começarem a fazê-lo quando já sabem) podemos ensinar estratégias aos alunos para que essa interação seja o mais produtivo possível. (SOLÉ, 2014, p. 154) A ajuda do professor para que os alunos formulem previsões acerca do texto é outra estratégia interessante. Para propormos previ- sões, podemos nos basear na capa, no título, na tipologia. Podem ser efetuadas perguntas do tipo: “Pelo título, vocês acham que a história vai tratar sobre o quê?”, ou “Será que vão aparecer quais personagens nessa história?”. Por fim, a estratégia de incentivar os alunos a formu- larem perguntas permite que os educandos atuem de forma ativa no processo da leitura, visto que muitas vezes quem detém o maior espaço na sala de aula para a fala é o professor. Dessa forma, os alunos podem mostrar o que compreenderam e o que ainda não compreenderam do texto, o que pode orientar o professor na tomada de decisões. A autora pontua que as estratégias antes da leitura estão rela- cionadas entre si e podem, portanto, ser utilizadas de forma mesclada, sem seguir uma linearidade. Mais do que saber quais são essas estraté- gias, vale compreender que elas têm a finalidade de que o aluno sinta a necessidade de ler e que posteriormente possa se tornar um leitor ativo, que sabe o porquê e como ler, tornando-se responsável pelo seu próprio processo de leitura. No que serefere às estratégias que podem ocorrer durante a leitura, Solé (2014) elenca duas: as que favorecem a interpretação do texto, bem como as que possibilitam a resolução de problemas que ocorrem nessa etapa da leitura. Quanto às primeiras (as que favorecem a compreensão), Palincsar e Brown (1984, apud Solé, 2014) apontam pelo menos quatro estratégias possíveis de serem mobilizadas em atividades de leitura compartilhada: formular previsões sobre o texto a ser lido; formular perguntas sobre o que foi lido; esclarecer possíveis dúvidas sobre o texto; resumir as ideias do texto. Atentamo-nos aqui que essas estratégias devem ser acionadas, pelo menos num primeiro 195 momento, em tarefas de leitura compartilhada porque como a leitura é um processo que requer um maior esforço de compreensão, essas atividades poderão ser realizadas pelo professor e pelo aluno. É válido mencionar que é necessário que o professor demonstre tais estratégias primeiro para que o aluno possa apreendê-las e a assumir a responsa- bilidade pelo processo de leitura e compreensão desta. Com relação às estratégias que possibilitam resolver problemas durante a leitura, Solé (2014) fomenta que como os desafios encontrados nesse processo são distintos, as resoluções também são distintas. Em geral, a autora aponta que, dentre as várias possibilidades de tentar encontrar soluções para os desafios encontrados - como ignorar uma palavra que não se sabe o sentido e continuar lendo, por exemplo, a última estratégia a ser adotada seja a de interromper a leitura (e ir consultar um dicionário ou uma fonte especializada), pois para retornar de onde parou é mais complexo. Além disso, é durante esse processo que o leitor desenvolve outras estratégias como: ler, resumir, solicitar esclarecimentos e prever. Sobre esse processo a autora ressalta: [...] resumir – talvez fosse mais adequado falar aqui de recapitulação – significa expor sucintamente o que foi lido. Esclarecer dúvidas refere-se a comprovar se o texto foi compreendido, fazendo perguntas para si mesmo. Com o autoquestionamento pretende-se que os alunos aprendam a formular perguntas pertinentes para o texto em questão. A previsão consiste em esta- belecer hipóteses ajustadas e razoáveis sobre o que será encontrado no texto, baseando-se na interpretação que está sendo construída sobre o que já se leu e sobre a bagagem de conhecimentos e experiências do leitor. (SOLÉ, 2014, p. 161-162). Por último, as estratégias que ocorrem após a leitura são, na verdade, uma extensão do que ocorre nas etapas anteriores. São deta- lhadas por Solé (2014) três estratégias que podem ser realizadas nesse momento: resumo, identificação das ideias principais e respostas de 196 perguntas. Para a autora, essas estratégias têm em comum o fato de que todas elas devem ser ensinadas na escola, uma vez que, embora o pro- fessor acredite que os alunos já as tenham desenvolvido, é bem provável que não o saibam ou o saibam de uma forma diferente da pretendida pelo professor. Sendo assim, considerar que, por exemplo, o que um aluno acredita que é a ideia principal de um texto pode ser diferente da ideia pretendida pelo próprio autor do texto, já é um bom caminho para refletir sobre as atitudes frente ao que é solicitado aos alunos. Desse modo, percebemos que as estratégias antes, durante e após a leitura dialogam entre si, contribuindo para a formação do leitor e do leitor de textos literários que progressivamente pode atuar como sujeito ativo, não somente no processo de leitura, mas também na comunidade em que está inserido. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS No tocante ao percurso metodológico, podemos classificar esse estudo como pesquisa bibliográfica. Segundo Macedo (1994, p. 13), a pesquisa bibliográfica “Trata-se do primeiro passo em qualquer tipo de pesquisa científica, com o fim de revisar a literatura existente e não redundar o tema de estudo ou experimentação”. Assim, a pesquisa bibliográfica busca analisar criticamente textos já publicados com o mesmo tema, e com isso, desenvolver o conhecimento. Além da pes- quisa bibliográfica, adotamos a pesquisa-ação enquanto metodologia de investigação, já que realizaremos a análise e discussão dos resultados obtidos a partir da própria prática docente. Utilizamos o livro “A colcha de retalhos” de Conceil Corrêa e Nye Ribeiro para a realização da atividade de leitura. Trata-se de uma obra que desperta sentimentos, uma vez que leva as pessoas a recuperarem em suas memórias, histórias vivenciadas em sua traje- tória de vida. Vale ressaltar que essa experiência aconteceu em uma turma de Pós-Graduação, mas ela foi planejada para uma turma de 6º ano do Ensino Fundamental II. 197 Durante a aula utilizamos vários objetos, como: óculos antigo, carretéis de linha de costura, linhas, tesoura, agulha, pedaços de tecidos, uma colcha feita com retalhos e uma máquina de costura antiga. Esta atividade teve como objetivo desenvolver nos alunos a curiosidade e vontade de poder participar da atividade para sentir a liberdade de relatar suas experiências a partir da abordagem do livro “A colcha de retalhos”. Além disso, foi utilizado um jogo na plataforma virtual WordWall44. Nesse jogo solicitamos que cada aluno entrasse no link disponibilizado no chat da sala de aula no Google Meet e escolhesse um número, ao clicar o aluno visualizava uma ilustração da história. Em seguida foi realizada a leitura da narrativa do livro “A colcha de retalhos” para os alunos ali presentes, a história foi relatada com riquezas de detalhes, imagens e entonações diferenciadas para cada situação da narrativa. Após a história contada, os discentes puderam participar de forma ativa com relatos de experiências e produção de uma colcha de retalhos com riquezas de memórias e sentimentos. Os relatos ali realizados pelos discentes da turma de mestrado foram descritos a partir das recordações que carregamos durante toda a nossa vida e, que são em momentos como estes que temos a opor- tunidade de dividir com pessoas a nossa volta, com cada relato feito pudemos tecer a nossa colcha de retalhos da nossa turma de mestrado. RESULTADOS E DISCUSSÃO Considerando o contexto atual pandêmico, que pressupõe a adoção de medidas de distanciamento social, esta vivência foi realizada virtualmente por meio da plataforma Google Meet, durante o segundo semestre do ano de 2021 com os alunos do curso de Pós-Graduação em Linguística e Ensino (MPLE) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), na disciplina de Leitura e Ensino. 44 É uma plataforma projetada para a criação de atividades personalizadas, em modelo gamificado, utilizando apenas poucas palavras. Disponível em: https://wordwall.net/pt/features. https://wordwall.net/pt/features https://wordwall.net/pt/features 198 A primeira etapa diz respeito à estratégia: antes da leitura. A partir dessa estratégia, antes mesmo de mostrar o livro, convidamos os alunos a fazerem uma viagem, e fomos instigando utilizando perguntas norteadoras como: “Vocês gostam de viajar?”, “Para onde foram?”, “Podemos fazer outro tipo de viagem, ou apenas para conhecer luga- res?”. Após o convite, aguçamos a curiosidade dos alunos utilizando alguns objetos: óculos antigo, carretéis de linha de costura, linhas, tesoura, agulha, pedaços de tecidos, uma colcha feita com retalhos e por último o som de uma máquina de costura bem antiga, aquela com pedal e correia, para que os alunos descobrissem que som era aquele e depois mostramos o objeto e questionamos se aqueles objetos teriam algo a ver com a história, qual assunto o texto trataria, qual seria o título. Falamos um pouco sobre os autores, mostramos a capa do livro e fazendo a mediação: “Alguém já ouviu falar no livro A colcha de retalhos?”, “O título deste livro lembra o quê?”, “Quais os detalhes da capa que lhe chamaram mais atenção?”, “O que esses retalhos pode- riam significar para vocês?”, “Esse nome aqui, colcha de retalho, faz vocês lembraremde alguma coisa?”. Com essa exploração inicial, os alunos ficaram curiosos para saber como é a história e partimos para a estratégia durante a leitura. Para isso, criamos um jogo na plataforma virtual WordWall, nesse jogo solicitamos que cada aluno entrasse no link45 disponibilizado no chat e escolhesse um número, ao clicar o aluno visualizava uma ilustração da história. 45 Disponível em: https://wordwall.net/pt/resource/25854813/escolha-uma-carta-e-observe. https://wordwall.net/pt/resource/25854813/escolha-uma-carta-e-observe https://wordwall.net/pt/resource/25854813/escolha-uma-carta-e-observe 199 Figura 1: Tela inicial do jogo. Fonte: Autores 2021. Em seguida, aleatoriamente perguntávamos quem tinha escolhido o número 1 e descrevesse o que estava vendo, depois quem tinha esco- lhido o número 2, 3 e 4. Com as descrições, foram surgindo variadas interpretações visuais e solicitamos que vissem todas as figuras. Nesse momento da vivência, compartilhamos a tela com um vídeo animado e sem som, onde houve a contação da história em sincronia com as animações do vídeo. Figura 2: Tela inicial da história. Fonte: É na sala de aula46, 2021. (Adaptação nossa) 46 Adaptação a partir do vídeo disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=yCXYnADbZAo https://www.youtube.com/watch?v=yCXYnADbZAo https://www.youtube.com/watch?v=yCXYnADbZAo 200 Seguindo com a estratégia depois da leitura, fizemos uma breve compreensão de texto, munindo-se das seguintes questões norteadoras: “Vocês gostaram dessa história?”, “Por que gostou?”, “Quem são os personagens?”, “O que vocês imaginaram que seria essa história, era assim mesmo?”, “A colcha de retalhos feita pela vovó causa lembranças em Felipe porquê?”. Para continuar nossa viagem indagamos: “E você sente saudades de alguma coisa, de sua avó ou de uma situação que você sente saudade até hoje?”. Essa abordagem deu margem para o desenvolvimento do eixo oralidade. Expomos vários retalhos de diversas cores, texturas, e soli- citamos que o aluno escolhesse um retalho que lhe chamou mais a atenção e que contasse uma memória vivida que marcou sua vida e que foi tecida pelas relações familiares e amizades. A cada memória contada, fomos pegando o retalho e costurando um ao outro. No fim da vivência, tínhamos uma colcha de retalhos feita com nossas memórias, que estão interligadas e tecidas por pessoas com as quais convivemos e que marcam nossa vida, deixando lições, emoções e saudades. Essas memórias representam a história de cada uma das pessoas ali presente, que somando todas as histórias formamos uma colcha de retalhos. Assim é a experiência de cada um, como também as experiên- cias de todos juntos relatada em um único espaço que foi a sala de aula, escutamos vários relatos durante a aula, como: passeios na infância na casa da avó; passeios na praia no verão; lembranças de momentos de felicidades; como também de momentos de dor, tristezas e angústias; lembranças dos filhos ainda pequenos; momentos da infância na escola. Percebemos a importância desde o momento da leitura do conto até o momento final que foi a construção da colcha de retalhos. 201 CONSIDERAÇÕES FINAIS Consideramos que é de suma importância que o professor des- perte nos discentes o prazer de ler e, que assim o discente desenvolva o hábito de leitura, assim com o hábito da leitura o leitor irá des- cobrir o sentido que todo texto tem. Por isso, ao planejar uma aula com propósito do ensino de leitura, é interessante que o professor desenvolva estratégias e práticas de letramento que venham desper- tar no leitor a vontade de ler. É importante que o professor conheça o seu público, para que, a partir daí, preparar a aula com ferramentas que venham contribuir com o desenvolvimento dos futuros leitores. O Livro “A colcha de retalhos” de Conceil Corrêa e Nye Ribeiro é uma ferramenta de leitura que o pro- fessor pode explorar vários campos de aprendizado dos discentes, assim, o professor estará aproximando o texto do leitor, o leitor ao mundo de imaginação, atribuindo sentidos em todos os campos da vida social. REFERÊNCIAS BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Brasil no Pisa 2018 [recurso eletrônico]. – Brasília: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Edu- cacionais Anísio Teixeira, 2020. Disponível em: https://download.inep.gov.br/publicacoes/ institucionais/avaliacoes_e_exames_da_educacao_basica/relatorio_brasil_no_pisa_2018.pdf. Acesso em: 06 jan. 2021. BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: língua portuguesa/Secretaria de Educação Funda- mental. Brasília: MEC/SEF, 1998. COSSON, Rildo. Letramento literário: teoria e prática. São Paulo: Contexto, 2014, p. 138-139. KLEIMAN, Ângela B. Preciso “ensinar” o letramento? Cefiel/IEL/ Unicamp, 2005. LEFFA, Vilson J. Aspectos da leitura: Uma perspectiva psicolinguística. Porto Alegre: Sagra/ DC Luzzatto, 1996a. MACEDO, N. D. Iniciação à pesquisa bibliográfica: guia do estudante para a fundamentação do trabalho de pesquisa. São Paulo, SP: Edições Loyola, 1994. https://download.inep.gov.br/publicacoes/institucionais/avaliacoes_e_exames_da_educacao_basica/relatorio_brasil_no_pisa_2018.pdf https://download.inep.gov.br/publicacoes/institucionais/avaliacoes_e_exames_da_educacao_basica/relatorio_brasil_no_pisa_2018.pdf https://download.inep.gov.br/publicacoes/institucionais/avaliacoes_e_exames_da_educacao_basica/relatorio_brasil_no_pisa_2018.pdf 202 MARTINS, Maria Helena. O que é leitura? São Paulo: Brasiliense, 2006 (Coleção Primeiros Passos; 74). PAULINO, Graça; COSSON, Rildo. Letramento literário: para viver a literatura dentro e fora da escola. In: ZILBERMAN, Regina; RÖSING, Tania (Orgs.). Escola e leitura: velha crise; novas alternativas. São Paulo: Global, 2009. SOLÉ, Isabel. Estratégias de leitura [recurso eletrônico] / Isabel Solé; tradução: Claudia Schilling; revisão técnica: Maria da Graça Souza Horn. – 6. ed. – Porto Alegre: Penso, 2014. 203 AS TECNOLOGIAS DIGITAIS E O ENSINO DE QUÍMICA: QUAIS SÃO AS FERRAMENTAS GRATUITAS DISPONÍVEIS PARA O DESENVOLVIMENTO UMA PRÁTICA DOCENTE INOVADORA? Maria Stella Nunes de Oliveira Nogueira47 INTRODUÇÃO A educação e a sociedade têm passado por importantes transfor- mações nas últimas décadas. Estas transformações são decorrentes dos grandes avanços observados em diferentes campos sociais, principal- mente o notório e fundamental desenvolvimento da área de tecnologia. As Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação (TDIC) desencadearam significativas transformações em várias áreas da sociedade e na educação essas mudanças não foram diferentes (VERASZTO; BAIÃO; SOUZA, 2019). As TDIC possibilitam novos panoramas e olhares em âmbito educacional, provocando mudanças importantes na forma de intera- girmos e nos comunicarmos. Desta forma, as tecnologias digitais têm transformado as tradicionais e ultrapassadas práticas educacionais fazendo uso de inovações que podem trazer mais significado e melhor interpretação dos conteúdos nas unidades curriculares (LEITE, 2020). Através do uso de tecnologias educacionais há o estabelecimento de novas perspectivas na relação docente-discente, reforçando o papel social e humanizador que a prática pedagógica deve fundamentalmente ser pautada (ARRUDA, 2020). É importante compreender que ao diversificar os espaços de construção do conhecimento, as tecnologias 47 Doutoranda em Ensino de Ciências (IFRJ). Docente de Química Geral e Química Inorgânica (IFRJ). CV: http://lattes.cnpq.br/5155222246293976 204 modificam os processos e metodologias de aprendizagem. Ademais, as TDIC facilitam a relação entre a sociedade e a escola, haja vista que nos encontramos na era da informação e da cultura digital, sendo também papel da escola introduzir e promover o letramento digital e a cidadania digital de seus educandos (PAIVA, 2020). Desse modo, é de extrema importânciao aumento da utilização das tecnologias educacionais na prática docente na última década, para que ocorra a integração adequada do educando na sociedade da infor- mação no qual ele está inserido. É papel da escola formar o educando para ser cidadão, democratizando o conhecimento, formando pessoas conscientes, críticas, engajadas e com potencial de transformação de si mesmas e da sociedade (LEITE, 2020; PAIVA, 2020). O início do ano de 2020, apresentou-se como um grande marco na história mundial e certamente será recordado e estudado profunda- mente ao longo ao longo dos próximos anos (ARRUDA, 2020; FIORI, 2020). A emergência sanitária provocada pelo aparecimento de um novo vírus, surgido na província de Wuhan, na China, em novembro de 2019, trouxe uma inquietação sem precedentes na sociedade. A epidemia resultante do aparecimento do novo coronavírus (SAR- S-CoV-2) se tornou um dos maiores flagelos da história moderna, afetando drasticamente vários países e originando, plausivelmente, a maior política e regime de distanciamento social já observada (ARRUDA, 2020; PAIVA; GOI, 2020). Muitas instituições de ensino, a partir do advento do novo coronavírus, rapidamente introduziram e incorporaram metodologias diferenciadas de ensino e aprendizagem inteiramente online e atividades remotas para toda a comunidade acadêmica, como forma de preservar a saúde dos educandos e dos profissionais da educação, mantendo em segurança toda a coletividade, além de aderir e seguir às orientações de saúde pública propostas pelas entidades governamentais (BRASIL, 2020; CARVALHO; CUNHA; QUIALA, 2021). 205 Para o processo de ensino e aprendizagem de disciplinas como a Química, a Física e a Matemática, tão temida pelos educandos, o uso de tecnologias educacionais tanto no ensino remoto (durante a pandemia de coronavírus), quanto no ensino presencial (adaptação pós-pandemia) pode ser um fator importante para a melhoria do apren- dizado, podendo atuar, desde maneira, como ferramentas importantes na superação de barreiras ideológicas que apenas contribuem para a desentusiasmo em estudar as disciplinas da área de exatas. Nesse sentido, o seguinte questionamento pode ser evidenciado: quais ferramentas digitais estão atualmente disponíveis, de forma gra- tuita, para uso por docentes e discentes, que sejam de fácil manuseio e que promovam uma melhor aprendizagem dos conceitos de Química? A Química, enquanto unidade curricular, é parte integrante do programa do Ensino Médio. Busca-se, de forma geral, o desenvolvi- mento do conhecimento científico e da compreensão de fenômenos atrelados a esta ciência. A obtenção dos conhecimentos da Química visa fundamentalmente preparar os discentes para serem cidadãos críticos e reflexivos, conscientes de seus deveres e inteirados do papel desta ciência na sociedade (BRASIL, 2017). No decorrer do período das atividades remotas, o uso das tecno- logias digitais foi descrito como uma prática bem-sucedida que coopera com a busca por um ensino de qualidade, integrado e contextualizado em diferentes conteúdos da unidade curricular Química (LAMBACH; LOMAS, 2021). Dentre as muitas possibilidades observadas nas publi- cações científicas mais recentes, tem-se o uso de vídeos, de softwares e simuladores, e de plataformas de laboratório, dos jogos e das salas virtuais, que quando associados a outras metodologias e abordagens, como a CTS (Ciência-Tecnologia-Sociedade), as práticas investiga- tivas, a sala de aula invertida e as sequências didáticas, podem induzir a uma aprendizagem significativa, através de uma prática inovadora (LEITE, 2020, 2021; YAMAGUCHI, 2021). 206 Nestas circunstâncias, o presente trabalho tem como objetivo disponibilizar, no contexto de apresentar de forma resumida e não exaustiva, algumas tecnologias digitais importantes para o ensino de Química. Busca-se, portanto, na presente pesquisa, a apresentação das ferramentas disponíveis gratuitamente para uso especialmente na educação básica. Para alcançar tal objetivo foi realizada revisão bibliográfica, usando a ferramenta Google Acadêmico, com especial enfoque a documentos do tipo artigo, publicados durante a pandemia de Covid-19, que possam contribuir para a melhoria e a inovação no processo de ensino e aprendizagem de Química, tanto no ensino remoto quanto no ensino presencial, a partir do uso de tecnologias educacionais. DESENVOLVIMENTO A pesquisa, o desenvolvimento e a implementação de novas metodologias e ferramentas educacionais vêm ocorrendo de modo sistemático e ostensivo, como forma de adequar a escola e os pro- cessos educacionais às mudanças e aos avanços tecnológicos perma- nentes em âmbito global. Esse contexto vem modificando intrin- secamente a docência e os processos de ensino e aprendizagem (SILVA; ALVES; FERNANDES, 2021). Desta forma, as Tecnologias Digitais da Informação e Comunica- ção (TDICs) são, atualmente, imprescindíveis e fundamentais na socie- dade moderna. Mais do que simplesmente úteis, as tecnologias digitais se tornaram indispensáveis nas salas de aula virtuais durante o período de ensino remoto provocado pela pandemia de coronavírus (PAIVA, 2020). Há considerável oferta de ferramentas e recursos, no entanto, a apropriação e assimilação por parte de docentes e dis- centes depende, dentre muitos outros fatores, do contexto esco- lar e do ambiente social que a comunidade escolar está inserida (SOUZA; SILVA; NETO; REZENDE, 2021). Ademais, é urgente e fundamental apoiar a formação inicial e continuada de docentes atuantes no período de ensino remoto e, 207 principalmente, no período presencial pós-pandemia, quanto ao debate sobre o uso das tecnologias digitais na educação, e com isso também criar alternativas e condições de mudanças no enfadonho e pouco eficaz modelo tradicional de ensino (PAULETTI, 2017). A metodologia adotada neste estudo foi a pesquisa descritiva, de cunho qualitativo, fundamentada em bibliografia digital que pre- viamente tratou do assunto e contribuiu para uma reflexão sobre as tecnologias digitais (LAMBACH; LOMAS, 2021). Para a realização desta pesquisa, foi realizada revisão bibliográfica, usando a ferramenta Google Acadêmico. Foram selecionados artigos publicados entre período de 2020 e 2022 (agosto), escritos em língua portuguesa e que citavam especificamente softwares e plataformas para uso por docentes e discentes no processo de ensino e aprendizagem de Química. Realizou-se uma pesquisa por meio da consulta ao banco de dados da ferramenta Google Acadêmico, utilizando-se as palavras- -chave “Tecnologias digitais” AND “Ensino de Química” e como critério a publicação ter ocorrido no período de 2020 e 2022 (agosto). A escolha pelo repositório Google Acadêmico ocorreu em virtude da praticidade do acesso à plataforma e da facilidade na busca de artigos, dissertações, teses e outros instrumentos que pudessem ser importantes para o embasamento teórico e metodológico da presente pesquisa. Foram encontrados 2.600 trabalhos publicados que contem- plam a perspectiva de busca. Os critérios de exclusão foram: os tra- balhos de conclusão de curso, as dissertações, as teses, os resumos publicados em anais de congresso, os artigos de revisão, os trabalhos não disponíveis na íntegra e as publicações duplicadas. Para efeitos de exclusão foram avaliados, o título, o resumo, as palavras-chave e, eventualmente, a metodologia. Tendo sido estabelecidos todos os critérios de inclusão e exclusão de publicações, foram selecionados 11 (onze) artigos científicos. Tais produções foram submetidas à criteriosa revisão integrativa (SOUZA; SILVA; CARVALHO, 2010), na qual foram tratadas e interpretadas 208 todas as informações, explicitadas e sistematizadas a seguir. Foram selecionados, a partir da análise dos artigos obtidos, e serão explicitados a seguir, as plataformas, os aplicativos e os softwares mais citados e com maior potencial de inovação nos relatos de experiência em sala de aula. AS TECNOLOGIASDIGITAIS NO ENSINO DE QUÍMICA E SUAS POSSIBILIDADES Uma das importantes maneiras de complementar o ensino utili- zando os aparelhos móveis (smartphones) e sua versatilidade é a partir da utilização de softwares educacionais e de aplicativos que possam ser úteis aos processos de ensino e aprendizagem (SOUZA; SILVA; NETO; REZENDE, 2021). Para o êxito do processo de ensino e aprendizagem de Química é importante e fundamental tornar menos abstratos os conceitos, os modelos e as representações-chave para um melhor e mais significativo desenvolvimento cognitivo dos discentes no que concerne a aprendizagem de Química. É justamente nesse cenário que os programas e aplicativos se propõem a auxiliar os docentes na construção e representação estrutural de fórmulas químicas e moléculas, entre outras funções úteis. Desta maneira, tais ferramentas são de fundamental importância por facilitar a visualização de conceitos químicos, muitas vezes ensinados de maneira abstrata e puramente representacional, ilustrando e apresentando de forma gráfica, visualmente facilitada, os conhecimentos químicos (YAMAGUCHI, 2021). Dentre os mais variados softwares educacionais disponíveis para auxílio no processo de ensino e aprendizagem de Química, encon- tram-se o ChemSketh, o BKChem e o Avogadro. Estes três programas podem ser obtidos de forma gratuita e podem ser utilizados livremente no ambiente escolar (SOUZA; SILVA; NETO; REZENDE, 2021). O ChemSketch, especificamente, se destaca por suas variadas funções, podendo ser empregado no desenho de estruturas químicas, de orbitais moleculares, de reações químicas e de objetos importan- 209 tes utilizados em Química, tais como vidrarias e outros materiais de laboratório. Este software permite inclusive copiar a estrutura criada e colar no programa Microsoft Word. Com este aplicativo também é possível converter estruturas planas em moléculas tridimensionais (SOUZA; SILVA; NETO; REZENDE, 2021). Quadro 1. Algumas das funcionalidades e aplicações dos softwares de desenho molecular mais populares Fonte: SOUZA, Luan. D; SILVA, Bárbara V.; NETO, Waldmir N. Araujo; REZENDE, Michelle J. C. Tecnologias Digitais no Ensino de Química: Uma Breve Revisão das Categorias e Ferramentas Disponíveis. Revista Virtual de Química, v. 13 n. 3, 2021, p. 716. A utilização de recursos de áudio na Química, pode auxiliar na aprendizagem significativa de um determinado conteúdo por guiar o educando através de um segundo caminho, o não visual, despertando nos estudantes uma sensibilidade mais aguçada na ponderação de questões e situações gerais desta disciplina, saindo do lugar comum e da exclusividade da linguagem escrita (LEITE, 2021). Dentro do cenário dos recursos de áudio, surgem os chamados podcasts. Esta tecnologia, trata-se, mais simplificadamente, de um modo de difusão de conteúdo de áudio, de forma online. Os áudios podem ser disponibilizados através de arquivos para download ou reprodu- zidos em serviços de streaming. Ainda é modesto no Brasil o uso de podcasts como ferramenta didática. No entanto, o uso e a aplicação desta ferramenta são ilimitados haja vista a possibilidade de os dis- centes complementarem os conteúdos fora do contexto de sala de aula 210 – como, por exemplo, ouvindo-os em seus smartphones durante o seu transporte até a escola (SOUZA; SILVA; NETO; REZENDE, 2021). Dentre importantes podcasts disponíveis, citaremos neste traba- lho o podcast Moléculas, criado com o propósito de divulgar a Química e sua relação com o cotidiano; e o Deviante, site que reúne diver- sos podcasts de temáticas científicas, abordados de forma divertida (SOUZA; SILVA; NETO; REZENDE, 2021). Os simuladores têm se apresentado como recursos bastante úteis na aprendizagem de Química. A possibilidade de demonstrar e tra- balhar de forma lúdica e interativa, conceitos importantes que muitas vezes são apresentados ao educando de forma puramente abstrata e desconectada da realidade cotidiana (LEITE, 2020). Nesse sentido, um simulador que merece destaque é o do projeto PhET (Universidade de Colorado Boulder). Trata-se de uma plataforma que cria e disponibiliza simulações interativas de Química e de outras ciências, possibilitando a visualização de conceitos abstratos e aspectos microscópicos (SILVA; VASCONCELOS; SILVA, 2022). O docente, ao empregar o PhET em sua prática, pode utilizar as simulações para apresentar e ilustrar os conceitos subjetivos e teóricos da Química, de maneira a reproduzir de forma simulada ambientes laboratoriais ou ainda melhorar a visualização dos conteúdos abordados por parte dos discentes (LEITE, 2021; YAMAGUCHI, 2021). Além dos simuladores, os jogos didáticos virtuais são uma exce- lente ferramenta para a aprendizagem ativa e significativa, e vêm sendo amplamente testados e aplicados nas últimas décadas na área de educação. A gamificação é uma realidade em âmbito escolar e tem como principal objetivo a introdução das estratégias de variados jogos nas atividades em sala de aula, com o intuito de aumentar o interesse e o engajamento dos educandos (FIORI; GOI, 2020). Para se ter sucesso na aplicação dos jogos educativos, sejam eles físicos ou virtuais, é necessário definir muito bem as suas funções, objetivos e estratégias, proporcionando de forma equilibrada a função 211 lúdica e a função educativa, que é o principal objetivo, haja vista a importância da ampliação e do aprofundamento dos conhecimentos e saberes (SOUZA; SILVA; NETO; REZENDE, 2021). Nesse sentido, dentre as muitas possibilidades de criação e aplicação de jogos didáticos, temos: os jogos de adivinhação, os jogos de estratégia, as palavras cruzadas, os jogos de perguntas e respostas (quizzes), entre outros (FERREIRA; GOMES; BRAGA, 2022). Em relação à aplicação de quizzes, a plataforma de aprendizagem Kahoot! se apresenta de maneira interessante, sendo ao mesmo tempo lúdica e didática. São basicamente jogos de aprendizado, denominados “Kah- oots”, cuja abordagem é de testes online de múltipla escolha. Para a participação no jogo, cada discente deve gerar um usuário e acessar o jogo por meio de um navegador da Web ou do próprio aplicativo. O interessante do Kahoot! é que toda a turma pode participar con- comitantemente do jogo, provendo a aprendizagem integral sob um aspecto lúdico e leve (SOUZA; SILVA; NETO; REZENDE, 2021). Além dos jogos didáticos que podem ser utilizados tanto como ferramentas do processo de ensino-aprendizagem, quanto no processo avaliativo, existem importantes aplicativos e softwares para avaliação dos conteúdos ministrados. Sabe-se que a avaliação é uma etapa fundamental dos processos educativos e, portanto, merece especial importância quanto ao uso de TDICs (LIMA; BARROSO, 2020). Dentre as opções de softwares disponíveis, podemos enfatizar aqueles que funcionam como questionários e formulários eletrônicos online, tais como o Google Forms, SurveyMonkey e Socreative (SOUZA; SILVA; NETO; REZENDE, 2021). O interessante dessas ferramentas eletrônicas é que seus formulários podem ser aplicados tanto no contexto escolar (no horário da aula) quanto fora deste (de forma assíncrona). A personalização dos formulários permite a inclusão de palavras cruzadas, imagens, vídeos, entre outros arquivos, tornando as ques- tões da avaliação muito mais dinâmicas, interativas e interessantes. Os formulários eletrônicos são uma grande e importante ferramenta 212 para tornar o processo avaliativo mais instigante e potencializadora de uma aprendizagem significativa. O desenvolvimento de mapas mentais e de mapas conceituais pelos educandos têm se apresentado como uma importante estra- tégia no processo de aprendizagem de conceitos da Química. Os mapas mentais se diferenciam especificamente dos mapas concei- tuais. Enquanto os mapas mentais articulam e conectam ideias a partir de um tópico central, interligando conceitos semelhantemente a estrutura de uma árvore, os mapas conceituais são diagramas queapresentam conexões em rede, estruturando conceitos e informações de maneira esquematizada, cujo objetivo principal é classificar e hie- rarquizar os conteúdos (LEITE, 2020). Para o desenvolvimento de mapas mentais, têm-se, dentre outros, os aplicativos gratuitos Coggle e Goconqr. São excelentes ferramentas para a construção de mapas mentais, inclusive de forma colaborativa, permitindo a visualização e a organização de ideias, de forma clara e prática. A construção de mapas conceituais, por sua vez, pode ser facilitada pelo aplicativo CmapTools. Esta ferramenta permite a ela- boração de esquemas conceituais, representando-os graficamente. Desenvolvida por Joseph Novak, ainda na década de 1970, a teoria dos mapas conceituais se apresenta como uma forma de inter-relacionar conceitos de maneira a proporcionar uma aprendizagem significativa (FERREIRA; BRANCHI; SUGAHARA, 2020). Os memes e as histórias em quadrinho têm se mostrado como importantes ferramentas didáticas para uma prática de ensino inova- dora. Podem ser utilizadas tanto para iniciar uma discussão ou uma sequência didática quanto como método avaliativo, com os discentes desenvolvendo seus próprios memes e histórias em quadrinho. Essas ferramentas podem estimular o hábito da leitura e influenciar, inclu- sive, na observação de signos, desenhos e gestos a partir da importante leitura não-verbal. Tanto o meme quanto as histórias em quadrinhos 213 trazem o lúdico para a sala de aula, podendo tornar o ensino leve e interessante para o educando. Alguns softwares podem ser utilizados com sucesso por docentes e discentes para a construção personalizada de memes e histórias em quadrinhos. Dentre eles, pode-se citar o Comica, o Pixton, o HagáQue e o ToonDoo (CARDOSO, 2022). Tratam-se de aplicativos gratuitos, de fácil utilização, com excelente visual gráfico e que pode propor- cionar ao usuário uma vasta gama de recursos e ilustrações para a construção de memes e histórias de forma lúdica em sala de aula, melhorando a aprendizagem de Química. Outras importantes tecnologias digitais são aquelas capazes de que criar vídeos personalizados, interativos e animados. Os vídeos são importantes recursos didáticos e podem ser utilizados com as mais diversas aplicações, inclusive na composição de formulário avaliativos e como alternativa aos tradicionais slides produzidos no PowerPoint ou no Canva. As ferramentas Edpuzzle e Powtoon são tecnologias importantes para esta finalidade. O Edpuzzle é um criador de vídeos interativos. Esta tecnologia permite integrar questões aos vídeos e modificar vídeos já disponíveis em plataformas on-line, como o Youtube, por exemplo, para a criação de atividades personalizadas. É uma excelente ferramenta para a criação de conteúdos e vídeos interativos com grande apelo visual (MONTEIRO; JUNIOR; COSTA, 2020). O Powtoon, por sua vez, permite a elaboração de apresentações e vídeos animados, de maneira fácil e intuitiva, constituindo-se um importante recurso didático para uso pelos educandos quanto pelos docentes para uma prática atual e inovadora (ROSA; SILVA; SOARES, 2021). Uma ferramenta que também merece neste texto é o Wordwall. Trata-se de uma plataforma para a criação de atividades personali- zadas e de jogos (online e impressos), permitindo que o docente crie seus próprios recursos didáticos. O Wordwall é mais uma ferramenta na gameficação do ensino, que pode estimular o raciocínio e o enga- 214 jamento, além de promover a fuga da aprendizagem mecânica e tra- dicional. Com esta tecnologia digital é possível criar palavras cru- zadas, questões de verdadeiro ou falso, forca, jogos de correlação, entre outros, viabilizando uma aula mais dinâmica e atraente para o educando ( JUNIOR et al, 2022). Tendo em vista toda a discussão apresentada acima, é funda- mental conhecer as características técnicas de cada recurso educacional antes da aplicação em sala de aula, testando previamente cada um deles e avaliando profundamente a proposta pedagógica da atividade a ser realizada (YAMAGUCHI, 2021). É igualmente fundamental refletir sobre as alternativas metodológicas de condução de aulas utilizando tecnologias educacionais adequadas para cada momento e processo. Portanto, é imprescindível estar preparado para a utilização de tecno- logias digitais e recursos educacionais. É justamente nesse sentido que os cursos de capacitação e atualização para docentes e profissionais da educação se tornam indispensáveis e urgentes. O docente precisa estar plenamente capacitado e amparado para a superação dos grandes desafios que podem ser enfrentados na sala de aula da atualidade. CONCLUSÃO Não há dúvidas de que as TDICs possibilitam novas perspectivas educacionais. As tecnologias digitais podem provocar mudanças signi- ficativas na forma que interagirmos e nos comunicarmos no contexto escolar. Nesse sentido, os recursos educacionais têm transformado as obsoletas e tradicionais práticas da educação fazendo uso de inovações mais ricas significação, eficácia e interpretação. O número significativo de publicações durante a pandemia de Covid-19 que aborda o tema em voga nesta pesquisa, é um demons- trativo da importância do assunto. O uso de artigos e publicações na área das TDICs no Ensino de Química pode se pautar como um importante apoio para docentes em sua prática didática. 215 No entanto, é importante salientar que a tecnologia ou o sistema por si só não modificará magicamente o desempenho do docente e nem do discente. As tecnologias educacionais são ferramentas cruciais na condução do processo de ensino e aprendizagem, mas dependem de metodologia adequada e de uma excelente proposta pedagógica para o sucesso em sua aplicação em sala de aula. REFERÊNCIAS ARRUDA, Eucidio Pimenta. Educação Remota Emergencial: Elementos para Políticas Públicas na Educação Brasileira em Tempos de Covid-19. EmRede - Revista de Educação a Distância, vol. 7, no. 1, pp. 257–275, 2020. BRASIL. Base Nacional Curricular Comum: área de Ciências da natureza e suas tecnologias. Brasília, MEC, 2017. BRASIL. Portaria 343, de 17 de março de 2020. 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Esses deslocamentos humanos ocorrem a décadas e se tornaram um fenômeno histórico que auxiliou e ainda auxilia no desenvolvimento das sociedades. Na atualidade, a diversidade e a complexidade que esse movimento apre- senta exige múltiplos olhares interdisciplinares, pois, “[...] como fato social total, a imigração está formada por deslocamento de pessoas no espaço geográfico, mas também em outros espaços, como podem ser o social, o econômico, o político ou o cultural. (CAVALCANTI; OLIVEIRA; TONHATI, 2014, p. 47). Para melhor compreender a importância desse movimento em termos globais e sociais, retomemos a memória desse processo no Bra- sil, por exemplo, onde as Grandes Navegações, que tinham atividades marítimas com objetivos comerciais, realizadas principalmente por Portugal e Espanha nos séculos XV e XVI, ocasionaram a ocupação do Brasil pelos europeus a partir de 1500. Mesmo após esse período, nosso país ainda continuou a receber diversos povos estrangeiros ao longo 48 Pós-graduanda em Administração Escolar e Orientação Escolar (FAVENI). CV: http://lattes.cnpq.br/1567216853258148 49 Mestrado em Educação (PUC-GO). Professor (SME / Cuiabá - MT). CV: http://lattes.cnpq.br/8505026449088528 218 do tempo, isso resultou em uma grande miscigenação étnica e cultural que hoje contribui para a diversidade e pluralidade da nossa sociedade. Em muitas situações, isso se dá involuntariamente por motivos de conflitos armados, perseguições políticas, raciais, religiosas e sociais e/ou graves violações de direitos humanos. Deixando pretensiosamente de lado os mais variados motivos pelos quais países, como o Brasil, acolhem/recebem esses imigrantes, tem-se o fato de que a vulnera- bilidade é um elemento que caracteriza a situação dos envolvidos em movimentos migratórios interpelando sobre as consequências deste ato que se aplica as suas dimensões constitutivas, sob uma realidade que ainda não conhece suficientemente e na qual ainda tem escassas relações pessoais, sociais e trabalhistas. De acordo com um estudo da Unesco (2018), sobre apren- dizagem e educação de refugiados e migrantes no Brasil, uma das maiores e mais significativas barreiras que incorre na dificuldade de acolhimento dos refugiados e migrantes é a da comunicação decorrente do pouco ou nenhum domínio da língua portuguesa a qual, não só integra o indivíduo socialmente, mas também o possibilita de exercer o pertencimento a determinado grupo social. Delineando esta pesquisa, abordaremos os aspectos legais que asseguram aos imigrantes e refugiados, os direitos fundamentais que permeiam sua formação educacional dentro do Brasil e em seus estados e municípios, nos quais se encontra, e quais políticas educacionais estão propostas e eles. Indicaremos as práticas pedagógicas que instrumen- talizam os docentes que, apesar de hercúleos esforços, ainda se sentem despreparados e desarmados para tal enfrentamento. E por último, e não menos importante, será evidenciado as possibilidades formativas ofertadas pela Secretaria Municipal de Educação (SME) e pela prá- tica individual que constitui o elixir para equilibrar os elementos que envolvem a garantia da educação como direito de todos. 219 ASPECTOS LEGAIS E POLÍTICAS EDUCACIONAIS QUE INTEGRAM A FORMAÇÃO EDUCACIONAL DO IMIGRANTE E DO REFUGIADO Os intensos movimentos migratórios e seus mais variados motivos acabaram por gerar a necessidade de criar mecanismos de proteção internacional. Decorrente desta necessidade, os documentos que orientam as práticas humanitárias foram assinados por diversos países. Após a Segunda Guerra Mundial, foi adotada a Convenção das Nações Unidas relativa ao Estatuto dos Refugiados: Alto Comissa- riado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR, 1951), tratado que distingue quem pode ser considerado refugiado e que estabelece direitos e deveres entre este e o país de acolhimento. No Brasil e no mundo, a agência ACNUR tem como função: coordenar ações que possam proteger e garantir o deslocamento e alocação de refugiados. Criada em 1951, ela tem uma longa trajetória de atuação e se coloca em estreita relação com entidades governamentais ou a sociedade civil na elaboração e execução das ações, auxiliando os países de acolhimento na inserção dos refugiados nas comunidades locais. ACNUR define a pessoa refugiada como aquela que: [...] em consequência dos acontecimentos ocorridos antes de 1º de janeiro de 1951, temendo ser perseguida por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas, se encontra fora do seu país de nacionalidade e que não pode ou, em virtude desse temor, não quer valer-se da proteção desse país. (ACNUR, 1951, n. p.) Em um documento firmado em Nova York em 1967, o Protocolo Relativo ao Estatuto dos Refugiados, desfaz-se a restrição de tempo, per- mitindo que “todos os refugiados abrangidos na definição da Conven- ção, independentemente do prazo de 1 de janeiro de 1951, possam gozar de igual estatuto.” (Série Tratados da ONU Nº8791, Vol.