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ZOONOSES 
AULA 1 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Mariana Forgati 
 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Você já deve saber que os seres humanos são bastante próximos a outras 
espécies de animais. Essa convivência é prazerosa (no caso dos animais 
domésticos e de companhia), necessária (no caso dos animais criados para o 
consumo humano) ou inevitável, como a convivência com roedores nos grandes 
centros urbanos. Porém a proximidade com outras espécies de animais traz 
consigo a exposição a uma grande variedade de patógenos, capazes de causar 
problemas sérios de saúde. Este será o nosso tema central: zoonoses. 
Nesta aula, faremos uma breve introdução ao tema central da disciplina, 
bem como faremos um breve levantamento histórico das zoonoses ao redor do 
mundo. Teremos, também, definições de alguns conceitos que serão 
importantíssimos para o prosseguimento de nosso trabalho. Por fim, veremos as 
definições e exemplos de zoonoses emergentes e reemergentes. 
TEMA 1 – INTRODUÇÃO 
A saúde humana e a saúde animal estão intimamente ligadas, uma vez 
que os seres humanos convivem com várias espécies de animais e são delas 
dependentes para obtenção de alimento, trabalho e companhia. Esses animais, 
entretanto, podem ser fonte de zoonoses virais, bacterianas, protozoárias, 
helmínticas, entre outras. 
A origem do termo zoonose vem do grego zoonosos, sendo que zoo- 
significa animal e -nosos, doenças. Logo, a palavra zoonoses pode ser definida, 
segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), como as infecções 
naturalmente transmissíveis entre animais e seres humanos adquiridas pelo 
contato direto com animais, ou pela ingestão de alimentos contaminados. 
Os potenciais agentes causadores das zoonoses encontram-se nos 
ambientes urbanos, devido à presença dos animais domésticos, como também 
nos ecossistemas naturais, sejam eles em seu estado natural ou modificado pelo 
ser humano (Costa; Higa, 2018). 
As infecções zoonóticas são ainda um grande desafio para a saúde 
pública, bem como para a economia dos animais domésticos e proteção e 
preservação dos animais silvestres (Zanella, 2016). 
 
 
3 
Como as zoonoses causam prejuízos sociais e econômicos, é necessária 
a adoção de medidas eficientes para minimizar seus efeitos negativos, tais como 
a adoção de métodos de prevenção, controle e erradicação de infecções. 
 Os responsáveis pela perpetuação das zoonoses são os animais 
vertebrados, sejam eles domésticos, domesticados, silvestres, exóticos, 
inclusive os animais sinantrópicos, que são animais acostumados com a 
presença humana (ratos, pombos, morcegos etc.) (Costa; Higa, 2018). A seguir, 
você verá uma breve menção aos principais grupos de animais envolvidos na 
transmissão de zoonoses aos seres humanos. 
1.1 Animais domésticos e sinantrópicos 
É sabido que a convivência com animais de companhia, como cães, 
gatos, entre outros, traz inúmeros benefícios aos seres humanos. Entretanto, 
essa maior proximidade traz consigo uma grande quantidade de patógenos para 
o ambiente doméstico, que, se não controlados, podem causar infecções 
bastante graves. 
Inclusive, os responsáveis pela maioria das zoonoses são os animais de 
companhia já que estão em contato próximo com os seres humanos, 
principalmente nos grandes centros urbanos. 
Outro grupo de animais com importância zoonótica são os animais criados 
para o consumo humano, como aves, bovinos, suínos e peixes. Conforme a 
população humana aumenta e exige mais alimentos, principalmente de origem 
animal, incrementa-se também a indústria agropecuária. Porém, em muitos 
casos, a expansão desordenada dos sistemas de produção animal, além de 
causar impactos ambientais negativos, expõe a população humana a uma ampla 
gama de zoonoses (Zanella, 2016). 
Os animais sinantrópicos são, também importantes agentes 
transmissores de zoonoses. Animais sinantrópicos são as espécies que buscam 
alimento e abrigo junto às populações humanas, tais como insetos (dípteros, 
pulgas, baratas, formigas, vespas etc.), aracnídeos (ácaros, aranhas e 
escorpiões), aves (pombos domésticos e pardais) e mamíferos (morcegos e 
roedores) (Neves, 2016). Inúmeras infecções zoonóticas são atribuídas a esses 
animais. 
 
 
 
4 
1.2 Animais silvestres e exóticos 
Estima-se que 75% das zoonoses emergentes sejam transmitidas por 
animais silvestres e exóticos. 
Os animais silvestres estão cada vez em maior contato com os seres 
humanos, principalmente devido à ação predatória destes sobre os 
ecossistemas naturais. É atribuída a morcegos e civetas a transmissão ao ser 
humano da síndrome respiratória aguda (Severe Acute Respiratory Syndrome - 
SARS), causado por um coronavírus, que resultou em uma epidemia em 2003. 
Um surto de varíola dos macacos nos Estados Unidos foi associado aos cães da 
pradaria nesse mesmo ano. Em 2009, também nos Estados Unidos, um surto de 
salmonelose, uma infecção bacteriana, foi associado à exposição a répteis e 
anfíbios (Estevam; Job, 2016). A pandemia da Covid-19, causada pelo novo 
coronavírus (Sars-CoV2), também tem sido atribuída a animais silvestres, 
provavelmente morcegos, reservatórios reconhecidos de coronavírus. 
Por sua vez, os animais exóticos, sejam ele domesticados ou não, 
também são potenciais agentes causadores das zoonoses devido à sua 
proximidade crescente com o ser humano. Nos últimos anos, tem aumentado 
muito o hábito das pessoas de manter animais de estimação diferentes dos 
habituais. Estima-se que 40.000 primatas, 4 milhões de pássaros, 640 mil répteis 
e 350 milhões de peixes tropicais ornamentais são comercializados por ano, 
sendo a esses animais atribuídas a transmissão de raiva, tuberculose, brucelose, 
psitacose (Chlamydia psittaci), entre outras (Zanella, 2016). 
TEMA 2 – HISTÓRICO 
 Vamos, nesta seção, compreender como tem evoluído o conhecimento a 
respeito das zoonoses ao longo do tempo. 
Apesar de o termo zoonose só ter sido cunhado no século XIX, pelo 
médico alemão Rudolf Virchow, as infecções de outras espécies de animais que 
podem ser transmitidas ao ser humano ocorrem desde o período pré-histórico 
da humanidade. 
Há indícios de que a domesticação de cachorros ocorreu há cerca de 15 
mil anos; já transição de uma sociedade de caçadores-coletores para uma 
sociedade agrícola ocorreu em torno de 9 mil anos a.C (Harari, 2018). A partir 
da Revolução Agrícola, os seres humanos passaram a viver em assentamentos 
 
 
5 
permanentes, o que favorecia tanto o maior contato com animais quanto a 
transmissão de infecções entre as pessoas. 
 No Egito Antigo já se realizava a medicina comparada. O papiro de Kahun 
(3000-2000 a.C.) é o mais antigo documento sobre medicina animal. Nesse 
achado arqueológico de aproximadamente 4.000 a.C., encontram-se relatos de 
procedimentos de diagnóstico, sintomas e tratamento de doenças de diversas 
espécies animais, como a tripanossomíase africana (Steverding, 2008). 
 Na Grécia Antiga, Hipócrates (460-370 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.) 
já relacionavam a ocorrência de doenças transmitidas por animais. 
A sociedade feudal, em vigor entre os séculos V e XV, reunia condições 
favoráveis à transmissão de infecções, principalmente devido ao descarte 
inadequado de alimentos e resíduos, favorecendo a proliferação de animais 
sinantrópicos. Os roedores da família Muridae são originários da Ásia, mas com 
o advento das Navegações, se disseminaram por todo o mundo. Esses fatores 
conseguem justificar a pandemia de peste bubônica, causada pela bactéria 
Yersinia pestis, presente em pulgas de roedores, responsável pela morte de 
cerca de 50 milhões nos continentes africano, asiático e europeu, no século XV 
(Neves, 2016). 
No século XIX, Edward Jenner introduziu a prática da imunização ativa 
para a prevenção da varíola, após 20 anos de estudos e experimentos com a 
varíola bovina, dando origem ao termo vacina (derivados do termo latino vacca). 
Classificadacomo uma das doenças mais devastadoras da história da 
humanidade, a varíola foi considerada erradicada pela OMS, em 1980, após 
realização de um programa de vacinação em massa de ordem mundial (Aps et 
al., 2018). 
Após a Segunda Guerra Mundial, com a criação da Organização das 
Nações Unidas (ONU) e da OMS, foi proposta a inclusão de um componente de 
saúde pública veterinária, responsável pela coordenação de ações destinadas à 
prevenção e controle de zoonoses. Desde então, vários esforços têm sido 
dedicados a esse assunto, principalmente no que tange às infecções 
emergentes e reemergentes, como veremos nas seções seguintes. 
TEMA 3 – CONCEITOS 
A seguir, encontram-se definidos alguns dos conceitos-chave para a 
nossa disciplina. 
 
 
6 
O primeiro deles é o conceito de agentes zoonóticos, ou seja, parasitos 
causadores de zoonoses, que podem ser representados por um príon, vírus, 
bactéria, fungo, protozoário, helminto ou artrópode. 
A próxima definição importante é a de parasito. O significado biológico do 
termo parasito é ser vivo, ou vírus, de menor porte, que vive associado a outro 
ser vivo de maior porte, retirando matéria para sua nutrição e causando-lhe 
danos variáveis a pequenos distúrbios, ou doenças graves que levam à morte 
(Soares, 1993). 
Os parasitos podem ser classificados de diversas formas, por exemplo, 
de acordo com o número de células: podendo ser acelulares (vírus), unicelulares 
(bactérias, protozoários, alguns fungos) e multicelulares (helmintos e artrópodes, 
por exemplo). 
Além disso, os parasitos podem ser classificados como endoparasitos, 
quando vivem dentro do corpo do hospedeiro; ectoparasitos, quando vivem 
externamente ao corpo do hospedeiro; e hiperparasitos, quando o parasito 
habita outro parasito (ex.: o protozoário Entamoeba histoytica pode ser 
parasitado por fungos ou bactérias) 
Hospedeiros, por sua vez, são os organismos que abrigam o parasito, ou 
seja, são seu habitat. Os hospedeiros podem ser de três tipos: hospedeiro 
intermediário, definitivo ou paratênico. O hospedeiro intermediário é aquele que 
apresenta o parasito em sua fase imatura (larval, por exemplo) ou quando o 
parasito se reproduz assexuadamente. O hospedeiro definitivo é aquele que 
apresenta o parasito em sua fase adulta ou quando ele se reproduz de forma 
sexuada. Já o hospedeiro paratênico, ou de transporte, atua como refúgio 
temporário ao parasito, até que ele atinja seu hospedeiro definitivo. O ciclo de 
vida do parasito independe da presença do hospedeiro paratênico (Costa; Higa, 
2018). 
Outro conceito fundamental para o estudo das zoonoses é o conceito de 
reservatório, que é qualquer local ou ser vivo onde vive e se multiplica 
determinado parasito. A partir do reservatório, o agente etiológico consegue 
atingir seus hospedeiros. Contudo, o reservatório pode ou não apresentar 
sintomas relativos à presença do agente etiológico. 
Há três tipos de reservatórios: reservatório humano (agentes causadores 
do sarampo, caxumba e muitas infecções sexualmente transmissíveis, ISTs), 
reservatório animal (são as zoonoses, propriamente ditas, quando atingem os 
 
 
7 
humanos de forma acidental) e reservatório ambiental (quando água, solo e 
plantas atuam como reservatórios de agentes infecciosos). 
As zoonoses podem ser transmitidas das seguintes formas, segundo 
Acha e Szyfres (2001): 
• Direta: quando ocorre contato com fluidos corporais (saliva, sangue, urina, 
fezes) contaminados com agente viral, bacteriano, fúngico etc., ou através 
arranhaduras, mordeduras e ferimentos; 
• Indireta: quando ocorre por meio de vetores, contato indireto com 
secreções, consumo de alimento contaminado. 
As zoonoses podem ser classificadas de acordo com seu sentido de 
transmissão (Neves, 2016): 
• Anfixenose, quando a infecção circula entre humanos e animais de forma 
indiferente. Ex. Trypanosoma cruzi circula entre humanos e animais 
silvestres); 
• Antropozoonose, quando a infecção é primariamente de outros animais e 
passa a ser transmitida a humanos. Ex.: brucelose, que é uma doença de 
bovinos e pode ser transmitida aos humanos de forma acidental; 
• Zooantroponose, quando o ser humano é reservatório da doença, mas ela 
pode ser transmitida a outros animais. Ex.: esquistossomose no Brasil, 
cujo hospedeiro definitivo é o ser humano, mas pode infectar roedores, 
bovinos e outros primatas. 
As zoonoses, ainda, podem ser classificadas conforme o ciclo do agente 
etiológico (Rouquayrol; Gurgel, 2018). 
As zoonoses diretas possuem apenas uma forma evolutiva ao longo de 
todo o ciclo de vida do parasito, mesmo ao passar de um hospedeiro a outro. 
Ex.: raiva e brucelose 
As ciclozoonoses são aquelas que necessitam passar por pelo menos 
dois hospedeiros vertebrados (ciclo heteroxênico), ao longo do seu ciclo de vida. 
ex. hidatidose e complexo teníase-cisticercose. 
As parazoonoses não dependem do seu humano para ter seu ciclo 
completo. O ser humano é apenas um hospedeiro acidental. Ex.: equinococose-
hidatidose. 
Porém, no caso das euzoonoses, o ser humano tem papel fundamental 
no ciclo biológico do parasito. Ex.: complexo teníase-cisticercose. 
 
 
8 
Nas metazoonoses, o parasito tem parte do seu ciclo biológico 
dependente de um hospedeiro invertebrado. É o caso, por exemplo, da febre 
maculosa, Chagas e leishmaniose. 
Por fim, as saprozoonoses dependem de transformações que ocorrem 
externamente a um hospedeiro (solo, matéria orgânica, plantas). É o caso da 
toxoplasmose e da toxocaríase, por exemplo. 
TEMA 4 – ZOONOSES EMERGENTES 
Entre 1918 e 1919, houve uma pandemia da gripe espanhola, responsável 
pelo adoecimento de um quarto da população mundial, dos quais 10% vieram a 
óbito. Em 2009, a OMS emitiu seu primeiro alerta global de pandemia para a 
gripe suína. Em 2020, teve início a pandemia da Covid-19, que assolou a 
humanidade. Ao que tudo indica, cada vez mais estaremos sujeitos a infecções 
emergentes. Mas, afinal, o que são infecções emergentes? 
Infecções emergentes são aquelas que surgiram recentemente em uma 
população ou que sofrem ameaça de expansão em um futuro próximo. 
(Rouquayrol; Gurgel, 2018). Ou seja, são novas infecções, que surgem de 
tempos em tempos e que ameaçam a saúde pública, demandando esforços para 
seu controle. 
Estima-se que os custos associados ao tratamento e à perda de produção 
associados às infecções emergentes chegam atualmente a 1 trilhão de dólares 
por ano, no mundo inteiro (Brooks; Boeger, 2019), um valor que certamente 
aumentará no futuro próximo. 
São vários os fatores que favorecem o surgimento de zoonoses 
emergentes, dentre os quais podemos citar o comércio internacional, 
demografia, o comportamento humano, a suscetibilidade humana a infecções, a 
desigualdade social, situações de conflitos, o uso incorreto de medicamentos, as 
alterações ambientais, a adaptabilidade e a alteração genômica dos agentes 
patogênicos, além da maior possibilidade de diagnóstico (Morens; Folkers; 
Fauci, 2004). 
O processo de degradação ambiental sempre esteve intimamente 
relacionado ao processo de surgimento de novas infecções. Então, dentre os 
fatores citados acima, talvez o mais preocupante e, quem sabe, irreversível, 
sejam as alterações ambientais antrópicas. 
 
 
9 
Em agosto de 2021, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças 
Climáticas (Intergovernmental Panel on Climate Change – IPCC), em seu 6º 
Relatório de Avaliação, emitiu um alerta grave sobre as mudanças climáticas. 
Nesse relatório, dentre outras considerações, o IPCC estima que a temperatura 
média global ultrapasse a meta de 1,5 ºC, nas próximas décadas, muito 
provavelmente como consequência direta das emissões antrópicas dos gases 
de efeito estufa (IPCC, 2021). 
São inestimáveis as consequências desse aquecimento, mas, 
certamente, a crise de doenças emergentes continuará enquanto ocorrerem 
mudanças climáticas globais (Brooks; Boeger,2019). 
Vamos agora compreender melhor o processo pelo qual um parasito pode 
mudar de hospedeiro. 
A princípio, pensava-se que os patógenos se tornavam tão fortemente 
adaptados a um único hospedeiro que seria extremamente improvável que os 
patógenos mudassem de hospedeiro. Entretanto, o que se tem visto é 
justamente o contrário: o surgimento cada vez mais frequente de novas 
infecções. Patógenos conhecidos começaram a infectar novos hospedeiros, em 
novas localidades, ou mesmo em localidades onde já tinham sido previamente 
erradicados (veremos com mais detalhes as infecções reemergentes na próxima 
seção). Além disso, patógenos desconhecidos têm infectado humanos, plantas 
e animais dos quais dependemos socioeconomicamente. 
Quais motivos levariam, então, patógenos ecologicamente especializados 
a se tornarem generalistas a ponto de expandir sua gama de hospedeiros e 
distribuição geográfica? 
Os filósofos do século XIX acreditavam que os organismos eram 
perfeitamente adequados aos seus ambientes. Porém, Darwin, em sua Teoria 
da Seleção Natural, reconheceu que a evolução dos organismos nada mais era 
que uma questão de capacidade (adaptação ecológica que garante sua 
sobrevivência e persistência em determinado ambiente) e oportunidade 
(variação das condições ambientais). Ou seja, embora os organismos sejam 
adaptados aos seus ambientes, mudanças ambientais criam novas 
oportunidades para que explorem outros nichos, levando a eventos de expansão 
biótica. Portanto, as espécies podem oscilar entre generalistas e especialistas a 
depender das condições ambientais, independente do seu grau de 
especialização (Brooks; Boeger, 2019). 
 
 
10 
A diversificação evolutiva dos patógenos inicia com uma maior oferta de 
hospedeiros, por exemplo, quando o ser humano invade uma área natural, passa 
a conviver com novos patógenos. Como o ambiente do patógeno se modificou, 
ele passa a ter uma maior liberdade para se tornar generalista, preparando o 
palco para o surgimento de novas linhagens, que poderão, nesse exemplo, ser 
capazes de infectar o ser humano. 
Existem quatro possibilidades para que um patógeno aumente sua gama 
de hospedeiros (Brooks; Boeger, 2019): 
1. Alterando a estrutura trófica, anteriormente inacessível, com os 
hospedeiros tornando-se acessíveis ao patógeno; 
2. Trazendo novos hospedeiros suscetíveis, que nunca encontraram o 
patógeno para o ecossistema; 
3. Expandindo o patógeno para novas localizações geográficas, onde vivem 
hospedeiros potenciais, mas anteriormente não expostos; 
4. Havendo a expansão da própria capacidade do patógeno em parasitar 
novos hospedeiros, devido ao acúmulo de novidades evolutivas ao longo 
do tempo. 
Resumindo, perturbações ambientais levam a expansões bióticas com 
base nas capacidades inerentes aos seres vivos (adaptação ecológica); isso leva 
à generalização (adaptação ecológica em um ambiente variável). Essas 
propriedades conseguem explicar o surgimento de infecções emergentes, bem 
como são capazes de predizer que, enquanto houver alterações ambientais 
significativas, os seres humanos estarão sujeitos ao aparecimento dessas 
infecções, ou zoonoses, emergentes. 
A Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (US 
Agency for International Development – USAID), em seu relatório de 2009, 
indicou que mais de 75% das doenças humanas emergentes do último século 
são zoonoses (United States Agency for International Development, 2009). 
Ainda, nesse mesmo relatório, a Amazônia encontra-se em uma situação 
preocupante, como hot spot para o surgimento de novas infecções, graças à sua 
imensa diversidade de vírus e microrganismos (Zanella, 2016). 
 
 
 
 
11 
TEMA 5 – ZOONOSES REEMERGENTES 
As infecções reemergentes são aquelas que estavam sob relativo 
controle, mas que se tornaram resistentes a medicamentos, ou estão se 
expandindo rapidamente, aumentando o número de casos ou se alastrando para 
uma região geográfica mais ampla (Rouquayrol; Gurgel, 2018). 
Se nas infecções emergentes, o aumento da população humana e 
mudanças ambientais são os principais fatores para o estabelecimento de novas 
relações entre parasitos e hospedeiros, para as infecções reemergentes a 
aquisição de novos fatores de virulência é fundamental. 
Como novos fatores de virulência, podemos citar o aumento no potencial 
de invasão do parasito em seu hospedeiro, a difusão espacial (transporte de 
pessoas ou animais doentes), a produção de toxinas pelos parasitos, a 
resistência desses parasitos a medicamentos (Zanella, 2016), sem mencionar a 
popularização dos movimentos antivacinação, que têm favorecido a 
reemergência de infecções anteriormente controladas. 
Dentre os fatores de virulência mencionados, gostaria de destacar a 
facilidade pela qual a difusão de patógenos pode ocorrer nos tempos atuais. Os 
meios de transporte rodoviário, ferroviário, marítimo e aeroviário favorecem a 
disseminação de patógenos, seja por condução de seres humanos infectados, 
seja pela condução de vertebrados e invertebrados de uma região a outra. 
No final de 2019, um novo coronavírus (Sars-CoV2) passou a infectar 
seres humanos, causando, inicialmente, um surto na cidade chinesa de Wuhan. 
Em pouco tempo, difundiu-se rapidamente para o restante do mundo através do 
transporte de pessoas infectadas. Em questão de poucos meses essa infecção 
adquiriu status de pandemia, levando à morte milhões de pessoas ao redor do 
mundo. 
A resistência microbiana e parasitária a medicamentos é motivo de 
preocupação mundial. Devido a erros de prescrição causados pela incerteza 
diagnóstica e desconhecimento farmacológico, bem como abuso desses 
medicamentos, são selecionadas cepas resistentes de bactérias, fungos e outros 
parasitos. 
Em 1947, menos de 20 anos após a descoberta da penicilina, ocorreu o 
primeiro aparecimento documentado de resistência microbiana à penicilina, 
sendo que o biólogo britânico J.B.S. Haldane escreveu sobre a necessidade de 
 
 
12 
estudar a resistência a patógenos como um problema evolutivo (Haldane, 1949). 
Em 1961, a OMS reconheceu a resistência de cepas de Plasmodium, à 
cloroquina, um medicamento antimalárico (Sá, 2011). 
Esse problema é tão sério que os custos com hospitalizações decorrentes 
da resistência bacteriana a antibióticos chegaram a 1,3 bilhões de dólares no 
Estados Unidos (Wannmacher, 2004), o que tende a aumentar, tendo em vista 
o crescimento alarmante da resistência de patógenos aos medicamentos. 
Apesar da notória relevância na erradicação ou controle de diversas 
doenças infectocontagiosas, movimentos antivacinação são cada vez mais 
frequentes e persuasivos. Esses movimentos utilizam estratégias como 
distorção e divulgação de informações falsas que questionam a eficácia e 
segurança de diversas vacinas. Esse movimento de antivacinação, apesar de 
ainda ser minoritário, contribui com a queda na cobertura vacinal, podendo 
reduzir a imunização a níveis em que o fenômeno da imunidade coletiva já não 
exista. Tanto que A OMS declarou que a relutância ou recusa em vacinar é uma 
das dez maiores ameaças para a saúde global. 
O ressurgimento do sarampo nos Estados Unidos tem sido atribuído a 
ação dos movimentos antivacinação nesse país e em outros países do mundo, 
como o Brasil. Como o sarampo é uma infecção altamente transmissível, por 
isso é necessária uma ampla cobertura vacinal da população, de modo a 
interromper a cadeia de transmissão viral (Aps, 2018). 
Para termos uma noção da gravidade dessa questão, no último século, 
emergiram ou reemergiram pelo menos 14 doenças infecciosas ou parasitárias 
(Imagem 1), pelos motivos já mencionados. Além do sarampo, ebola, dengue, 
chikungunya, zika, febre amarela, SARS, varíola, HIV/ AIDS, gripes e 
parasitoses (Zanella, 2016), passaram, ou voltaram a adquirir importância 
epidemiológica, como veremos ao longo da nossa disciplina.13 
Figura 1 – Exemplos globais de doenças emergentes (azul) e reemergentes 
 
Crédito: João Miguel Moreira. 
NA PRÁTICA 
Como proposta prática desta nossa aula, sugiro duas atividades. 
Saiba mais 
1. Primeiramente, gostaria que você assistisse ao seguinte vídeo: 
O QUE DESMATAMENTO tem a ver com novas pandemias? Pesquisa 
Fapesp, 17 ago. 2020. Disponível em: 
<https://www.youtube.com/watch?v=nodoQt9DsHI>. Acesso em: 1 fev. 2022. 
2. Em seguida, acesse o simulador virtual Covid Sim: 
COVID SIM. Virus vs. vaccine – A science-based simulation. Covid Sim, 
S.d. Disponível em: <https://askabiologist.asu.edu/covid-sim/index.html>. 
Acesso em: 1 fev. 2022. 
Neste site, será possível simular o surto de Covid-19 em uma cidade, sob 
diferentes condições, verificando as variáveis que interferem no surto dessa 
infecção, como percentual da população vacinada, eficácia da vacina, uso de 
máscaras e/ou distanciamento social dos habitantes 
 
 
 
14 
FINALIZANDO 
 Nesta aula, vimos que a definição do termo zoonose, segundo a OMS, é 
a de uma infecção naturalmente transmissível entre animais e seres humanos 
adquirida pelo contato direto com animais, ou pela ingestão de alimentos 
contaminados. Ou seja, zoonose é uma infecção decorrente do contato do ser 
humano com outra espécie de animal, seja doméstica, sinantrópica, exótica ou 
silvestre. 
 Após conhecermos um pouco sobre o histórico do desenvolvimento do 
conhecimento a respeito das zoonoses, vimos as definições de alguns conceitos 
fundamentais para a nossa disciplina. 
 Por fim, vimos que as ações antrópicas são as principais responsáveis 
para a emergência e reemergência de infecções. 
Apesar de serem consideradas um dos principais problemas do século 
XXI, as zoonoses precisam ser alvo de políticas públicas, principalmente devido 
à facilidade de disseminação de doenças. Isso foi verificado no início da 
pandemia da Covid-19. 
 Posteriormente, veremos as principais zoonoses virais, priônicas e 
bacterianas de relevância epidemiológica. 
 
 
 
 
15 
REFERÊNCIAS 
ACHA, P. N.; SZYFRES, B. Zoonosis y enfermedades transmisibles 
comunes al hombre y a los animales. 3. ed. Washington: OPAS, 2001. 
APS, L. R. M. M. et al. Eventos adversos de vacinas e as consequências da não 
vacinação: uma análise crítica. Revista de Saúde Pública, v. 52, n. 40, p. 1-13, 
2018. 
BROOKS, D. R.; BOEGER, W. A. Climate Change and Emerging Infectious 
Diseases: Evolutionary Complexity in Action. Current Opinion in Systems 
Biology. v. 13, p. 75-81, 2019. 
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