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ZOONOSES AULA 1 Profª Mariana Forgati 2 CONVERSA INICIAL Você já deve saber que os seres humanos são bastante próximos a outras espécies de animais. Essa convivência é prazerosa (no caso dos animais domésticos e de companhia), necessária (no caso dos animais criados para o consumo humano) ou inevitável, como a convivência com roedores nos grandes centros urbanos. Porém a proximidade com outras espécies de animais traz consigo a exposição a uma grande variedade de patógenos, capazes de causar problemas sérios de saúde. Este será o nosso tema central: zoonoses. Nesta aula, faremos uma breve introdução ao tema central da disciplina, bem como faremos um breve levantamento histórico das zoonoses ao redor do mundo. Teremos, também, definições de alguns conceitos que serão importantíssimos para o prosseguimento de nosso trabalho. Por fim, veremos as definições e exemplos de zoonoses emergentes e reemergentes. TEMA 1 – INTRODUÇÃO A saúde humana e a saúde animal estão intimamente ligadas, uma vez que os seres humanos convivem com várias espécies de animais e são delas dependentes para obtenção de alimento, trabalho e companhia. Esses animais, entretanto, podem ser fonte de zoonoses virais, bacterianas, protozoárias, helmínticas, entre outras. A origem do termo zoonose vem do grego zoonosos, sendo que zoo- significa animal e -nosos, doenças. Logo, a palavra zoonoses pode ser definida, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), como as infecções naturalmente transmissíveis entre animais e seres humanos adquiridas pelo contato direto com animais, ou pela ingestão de alimentos contaminados. Os potenciais agentes causadores das zoonoses encontram-se nos ambientes urbanos, devido à presença dos animais domésticos, como também nos ecossistemas naturais, sejam eles em seu estado natural ou modificado pelo ser humano (Costa; Higa, 2018). As infecções zoonóticas são ainda um grande desafio para a saúde pública, bem como para a economia dos animais domésticos e proteção e preservação dos animais silvestres (Zanella, 2016). 3 Como as zoonoses causam prejuízos sociais e econômicos, é necessária a adoção de medidas eficientes para minimizar seus efeitos negativos, tais como a adoção de métodos de prevenção, controle e erradicação de infecções. Os responsáveis pela perpetuação das zoonoses são os animais vertebrados, sejam eles domésticos, domesticados, silvestres, exóticos, inclusive os animais sinantrópicos, que são animais acostumados com a presença humana (ratos, pombos, morcegos etc.) (Costa; Higa, 2018). A seguir, você verá uma breve menção aos principais grupos de animais envolvidos na transmissão de zoonoses aos seres humanos. 1.1 Animais domésticos e sinantrópicos É sabido que a convivência com animais de companhia, como cães, gatos, entre outros, traz inúmeros benefícios aos seres humanos. Entretanto, essa maior proximidade traz consigo uma grande quantidade de patógenos para o ambiente doméstico, que, se não controlados, podem causar infecções bastante graves. Inclusive, os responsáveis pela maioria das zoonoses são os animais de companhia já que estão em contato próximo com os seres humanos, principalmente nos grandes centros urbanos. Outro grupo de animais com importância zoonótica são os animais criados para o consumo humano, como aves, bovinos, suínos e peixes. Conforme a população humana aumenta e exige mais alimentos, principalmente de origem animal, incrementa-se também a indústria agropecuária. Porém, em muitos casos, a expansão desordenada dos sistemas de produção animal, além de causar impactos ambientais negativos, expõe a população humana a uma ampla gama de zoonoses (Zanella, 2016). Os animais sinantrópicos são, também importantes agentes transmissores de zoonoses. Animais sinantrópicos são as espécies que buscam alimento e abrigo junto às populações humanas, tais como insetos (dípteros, pulgas, baratas, formigas, vespas etc.), aracnídeos (ácaros, aranhas e escorpiões), aves (pombos domésticos e pardais) e mamíferos (morcegos e roedores) (Neves, 2016). Inúmeras infecções zoonóticas são atribuídas a esses animais. 4 1.2 Animais silvestres e exóticos Estima-se que 75% das zoonoses emergentes sejam transmitidas por animais silvestres e exóticos. Os animais silvestres estão cada vez em maior contato com os seres humanos, principalmente devido à ação predatória destes sobre os ecossistemas naturais. É atribuída a morcegos e civetas a transmissão ao ser humano da síndrome respiratória aguda (Severe Acute Respiratory Syndrome - SARS), causado por um coronavírus, que resultou em uma epidemia em 2003. Um surto de varíola dos macacos nos Estados Unidos foi associado aos cães da pradaria nesse mesmo ano. Em 2009, também nos Estados Unidos, um surto de salmonelose, uma infecção bacteriana, foi associado à exposição a répteis e anfíbios (Estevam; Job, 2016). A pandemia da Covid-19, causada pelo novo coronavírus (Sars-CoV2), também tem sido atribuída a animais silvestres, provavelmente morcegos, reservatórios reconhecidos de coronavírus. Por sua vez, os animais exóticos, sejam ele domesticados ou não, também são potenciais agentes causadores das zoonoses devido à sua proximidade crescente com o ser humano. Nos últimos anos, tem aumentado muito o hábito das pessoas de manter animais de estimação diferentes dos habituais. Estima-se que 40.000 primatas, 4 milhões de pássaros, 640 mil répteis e 350 milhões de peixes tropicais ornamentais são comercializados por ano, sendo a esses animais atribuídas a transmissão de raiva, tuberculose, brucelose, psitacose (Chlamydia psittaci), entre outras (Zanella, 2016). TEMA 2 – HISTÓRICO Vamos, nesta seção, compreender como tem evoluído o conhecimento a respeito das zoonoses ao longo do tempo. Apesar de o termo zoonose só ter sido cunhado no século XIX, pelo médico alemão Rudolf Virchow, as infecções de outras espécies de animais que podem ser transmitidas ao ser humano ocorrem desde o período pré-histórico da humanidade. Há indícios de que a domesticação de cachorros ocorreu há cerca de 15 mil anos; já transição de uma sociedade de caçadores-coletores para uma sociedade agrícola ocorreu em torno de 9 mil anos a.C (Harari, 2018). A partir da Revolução Agrícola, os seres humanos passaram a viver em assentamentos 5 permanentes, o que favorecia tanto o maior contato com animais quanto a transmissão de infecções entre as pessoas. No Egito Antigo já se realizava a medicina comparada. O papiro de Kahun (3000-2000 a.C.) é o mais antigo documento sobre medicina animal. Nesse achado arqueológico de aproximadamente 4.000 a.C., encontram-se relatos de procedimentos de diagnóstico, sintomas e tratamento de doenças de diversas espécies animais, como a tripanossomíase africana (Steverding, 2008). Na Grécia Antiga, Hipócrates (460-370 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.) já relacionavam a ocorrência de doenças transmitidas por animais. A sociedade feudal, em vigor entre os séculos V e XV, reunia condições favoráveis à transmissão de infecções, principalmente devido ao descarte inadequado de alimentos e resíduos, favorecendo a proliferação de animais sinantrópicos. Os roedores da família Muridae são originários da Ásia, mas com o advento das Navegações, se disseminaram por todo o mundo. Esses fatores conseguem justificar a pandemia de peste bubônica, causada pela bactéria Yersinia pestis, presente em pulgas de roedores, responsável pela morte de cerca de 50 milhões nos continentes africano, asiático e europeu, no século XV (Neves, 2016). No século XIX, Edward Jenner introduziu a prática da imunização ativa para a prevenção da varíola, após 20 anos de estudos e experimentos com a varíola bovina, dando origem ao termo vacina (derivados do termo latino vacca). Classificadacomo uma das doenças mais devastadoras da história da humanidade, a varíola foi considerada erradicada pela OMS, em 1980, após realização de um programa de vacinação em massa de ordem mundial (Aps et al., 2018). Após a Segunda Guerra Mundial, com a criação da Organização das Nações Unidas (ONU) e da OMS, foi proposta a inclusão de um componente de saúde pública veterinária, responsável pela coordenação de ações destinadas à prevenção e controle de zoonoses. Desde então, vários esforços têm sido dedicados a esse assunto, principalmente no que tange às infecções emergentes e reemergentes, como veremos nas seções seguintes. TEMA 3 – CONCEITOS A seguir, encontram-se definidos alguns dos conceitos-chave para a nossa disciplina. 6 O primeiro deles é o conceito de agentes zoonóticos, ou seja, parasitos causadores de zoonoses, que podem ser representados por um príon, vírus, bactéria, fungo, protozoário, helminto ou artrópode. A próxima definição importante é a de parasito. O significado biológico do termo parasito é ser vivo, ou vírus, de menor porte, que vive associado a outro ser vivo de maior porte, retirando matéria para sua nutrição e causando-lhe danos variáveis a pequenos distúrbios, ou doenças graves que levam à morte (Soares, 1993). Os parasitos podem ser classificados de diversas formas, por exemplo, de acordo com o número de células: podendo ser acelulares (vírus), unicelulares (bactérias, protozoários, alguns fungos) e multicelulares (helmintos e artrópodes, por exemplo). Além disso, os parasitos podem ser classificados como endoparasitos, quando vivem dentro do corpo do hospedeiro; ectoparasitos, quando vivem externamente ao corpo do hospedeiro; e hiperparasitos, quando o parasito habita outro parasito (ex.: o protozoário Entamoeba histoytica pode ser parasitado por fungos ou bactérias) Hospedeiros, por sua vez, são os organismos que abrigam o parasito, ou seja, são seu habitat. Os hospedeiros podem ser de três tipos: hospedeiro intermediário, definitivo ou paratênico. O hospedeiro intermediário é aquele que apresenta o parasito em sua fase imatura (larval, por exemplo) ou quando o parasito se reproduz assexuadamente. O hospedeiro definitivo é aquele que apresenta o parasito em sua fase adulta ou quando ele se reproduz de forma sexuada. Já o hospedeiro paratênico, ou de transporte, atua como refúgio temporário ao parasito, até que ele atinja seu hospedeiro definitivo. O ciclo de vida do parasito independe da presença do hospedeiro paratênico (Costa; Higa, 2018). Outro conceito fundamental para o estudo das zoonoses é o conceito de reservatório, que é qualquer local ou ser vivo onde vive e se multiplica determinado parasito. A partir do reservatório, o agente etiológico consegue atingir seus hospedeiros. Contudo, o reservatório pode ou não apresentar sintomas relativos à presença do agente etiológico. Há três tipos de reservatórios: reservatório humano (agentes causadores do sarampo, caxumba e muitas infecções sexualmente transmissíveis, ISTs), reservatório animal (são as zoonoses, propriamente ditas, quando atingem os 7 humanos de forma acidental) e reservatório ambiental (quando água, solo e plantas atuam como reservatórios de agentes infecciosos). As zoonoses podem ser transmitidas das seguintes formas, segundo Acha e Szyfres (2001): • Direta: quando ocorre contato com fluidos corporais (saliva, sangue, urina, fezes) contaminados com agente viral, bacteriano, fúngico etc., ou através arranhaduras, mordeduras e ferimentos; • Indireta: quando ocorre por meio de vetores, contato indireto com secreções, consumo de alimento contaminado. As zoonoses podem ser classificadas de acordo com seu sentido de transmissão (Neves, 2016): • Anfixenose, quando a infecção circula entre humanos e animais de forma indiferente. Ex. Trypanosoma cruzi circula entre humanos e animais silvestres); • Antropozoonose, quando a infecção é primariamente de outros animais e passa a ser transmitida a humanos. Ex.: brucelose, que é uma doença de bovinos e pode ser transmitida aos humanos de forma acidental; • Zooantroponose, quando o ser humano é reservatório da doença, mas ela pode ser transmitida a outros animais. Ex.: esquistossomose no Brasil, cujo hospedeiro definitivo é o ser humano, mas pode infectar roedores, bovinos e outros primatas. As zoonoses, ainda, podem ser classificadas conforme o ciclo do agente etiológico (Rouquayrol; Gurgel, 2018). As zoonoses diretas possuem apenas uma forma evolutiva ao longo de todo o ciclo de vida do parasito, mesmo ao passar de um hospedeiro a outro. Ex.: raiva e brucelose As ciclozoonoses são aquelas que necessitam passar por pelo menos dois hospedeiros vertebrados (ciclo heteroxênico), ao longo do seu ciclo de vida. ex. hidatidose e complexo teníase-cisticercose. As parazoonoses não dependem do seu humano para ter seu ciclo completo. O ser humano é apenas um hospedeiro acidental. Ex.: equinococose- hidatidose. Porém, no caso das euzoonoses, o ser humano tem papel fundamental no ciclo biológico do parasito. Ex.: complexo teníase-cisticercose. 8 Nas metazoonoses, o parasito tem parte do seu ciclo biológico dependente de um hospedeiro invertebrado. É o caso, por exemplo, da febre maculosa, Chagas e leishmaniose. Por fim, as saprozoonoses dependem de transformações que ocorrem externamente a um hospedeiro (solo, matéria orgânica, plantas). É o caso da toxoplasmose e da toxocaríase, por exemplo. TEMA 4 – ZOONOSES EMERGENTES Entre 1918 e 1919, houve uma pandemia da gripe espanhola, responsável pelo adoecimento de um quarto da população mundial, dos quais 10% vieram a óbito. Em 2009, a OMS emitiu seu primeiro alerta global de pandemia para a gripe suína. Em 2020, teve início a pandemia da Covid-19, que assolou a humanidade. Ao que tudo indica, cada vez mais estaremos sujeitos a infecções emergentes. Mas, afinal, o que são infecções emergentes? Infecções emergentes são aquelas que surgiram recentemente em uma população ou que sofrem ameaça de expansão em um futuro próximo. (Rouquayrol; Gurgel, 2018). Ou seja, são novas infecções, que surgem de tempos em tempos e que ameaçam a saúde pública, demandando esforços para seu controle. Estima-se que os custos associados ao tratamento e à perda de produção associados às infecções emergentes chegam atualmente a 1 trilhão de dólares por ano, no mundo inteiro (Brooks; Boeger, 2019), um valor que certamente aumentará no futuro próximo. São vários os fatores que favorecem o surgimento de zoonoses emergentes, dentre os quais podemos citar o comércio internacional, demografia, o comportamento humano, a suscetibilidade humana a infecções, a desigualdade social, situações de conflitos, o uso incorreto de medicamentos, as alterações ambientais, a adaptabilidade e a alteração genômica dos agentes patogênicos, além da maior possibilidade de diagnóstico (Morens; Folkers; Fauci, 2004). O processo de degradação ambiental sempre esteve intimamente relacionado ao processo de surgimento de novas infecções. Então, dentre os fatores citados acima, talvez o mais preocupante e, quem sabe, irreversível, sejam as alterações ambientais antrópicas. 9 Em agosto de 2021, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (Intergovernmental Panel on Climate Change – IPCC), em seu 6º Relatório de Avaliação, emitiu um alerta grave sobre as mudanças climáticas. Nesse relatório, dentre outras considerações, o IPCC estima que a temperatura média global ultrapasse a meta de 1,5 ºC, nas próximas décadas, muito provavelmente como consequência direta das emissões antrópicas dos gases de efeito estufa (IPCC, 2021). São inestimáveis as consequências desse aquecimento, mas, certamente, a crise de doenças emergentes continuará enquanto ocorrerem mudanças climáticas globais (Brooks; Boeger,2019). Vamos agora compreender melhor o processo pelo qual um parasito pode mudar de hospedeiro. A princípio, pensava-se que os patógenos se tornavam tão fortemente adaptados a um único hospedeiro que seria extremamente improvável que os patógenos mudassem de hospedeiro. Entretanto, o que se tem visto é justamente o contrário: o surgimento cada vez mais frequente de novas infecções. Patógenos conhecidos começaram a infectar novos hospedeiros, em novas localidades, ou mesmo em localidades onde já tinham sido previamente erradicados (veremos com mais detalhes as infecções reemergentes na próxima seção). Além disso, patógenos desconhecidos têm infectado humanos, plantas e animais dos quais dependemos socioeconomicamente. Quais motivos levariam, então, patógenos ecologicamente especializados a se tornarem generalistas a ponto de expandir sua gama de hospedeiros e distribuição geográfica? Os filósofos do século XIX acreditavam que os organismos eram perfeitamente adequados aos seus ambientes. Porém, Darwin, em sua Teoria da Seleção Natural, reconheceu que a evolução dos organismos nada mais era que uma questão de capacidade (adaptação ecológica que garante sua sobrevivência e persistência em determinado ambiente) e oportunidade (variação das condições ambientais). Ou seja, embora os organismos sejam adaptados aos seus ambientes, mudanças ambientais criam novas oportunidades para que explorem outros nichos, levando a eventos de expansão biótica. Portanto, as espécies podem oscilar entre generalistas e especialistas a depender das condições ambientais, independente do seu grau de especialização (Brooks; Boeger, 2019). 10 A diversificação evolutiva dos patógenos inicia com uma maior oferta de hospedeiros, por exemplo, quando o ser humano invade uma área natural, passa a conviver com novos patógenos. Como o ambiente do patógeno se modificou, ele passa a ter uma maior liberdade para se tornar generalista, preparando o palco para o surgimento de novas linhagens, que poderão, nesse exemplo, ser capazes de infectar o ser humano. Existem quatro possibilidades para que um patógeno aumente sua gama de hospedeiros (Brooks; Boeger, 2019): 1. Alterando a estrutura trófica, anteriormente inacessível, com os hospedeiros tornando-se acessíveis ao patógeno; 2. Trazendo novos hospedeiros suscetíveis, que nunca encontraram o patógeno para o ecossistema; 3. Expandindo o patógeno para novas localizações geográficas, onde vivem hospedeiros potenciais, mas anteriormente não expostos; 4. Havendo a expansão da própria capacidade do patógeno em parasitar novos hospedeiros, devido ao acúmulo de novidades evolutivas ao longo do tempo. Resumindo, perturbações ambientais levam a expansões bióticas com base nas capacidades inerentes aos seres vivos (adaptação ecológica); isso leva à generalização (adaptação ecológica em um ambiente variável). Essas propriedades conseguem explicar o surgimento de infecções emergentes, bem como são capazes de predizer que, enquanto houver alterações ambientais significativas, os seres humanos estarão sujeitos ao aparecimento dessas infecções, ou zoonoses, emergentes. A Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (US Agency for International Development – USAID), em seu relatório de 2009, indicou que mais de 75% das doenças humanas emergentes do último século são zoonoses (United States Agency for International Development, 2009). Ainda, nesse mesmo relatório, a Amazônia encontra-se em uma situação preocupante, como hot spot para o surgimento de novas infecções, graças à sua imensa diversidade de vírus e microrganismos (Zanella, 2016). 11 TEMA 5 – ZOONOSES REEMERGENTES As infecções reemergentes são aquelas que estavam sob relativo controle, mas que se tornaram resistentes a medicamentos, ou estão se expandindo rapidamente, aumentando o número de casos ou se alastrando para uma região geográfica mais ampla (Rouquayrol; Gurgel, 2018). Se nas infecções emergentes, o aumento da população humana e mudanças ambientais são os principais fatores para o estabelecimento de novas relações entre parasitos e hospedeiros, para as infecções reemergentes a aquisição de novos fatores de virulência é fundamental. Como novos fatores de virulência, podemos citar o aumento no potencial de invasão do parasito em seu hospedeiro, a difusão espacial (transporte de pessoas ou animais doentes), a produção de toxinas pelos parasitos, a resistência desses parasitos a medicamentos (Zanella, 2016), sem mencionar a popularização dos movimentos antivacinação, que têm favorecido a reemergência de infecções anteriormente controladas. Dentre os fatores de virulência mencionados, gostaria de destacar a facilidade pela qual a difusão de patógenos pode ocorrer nos tempos atuais. Os meios de transporte rodoviário, ferroviário, marítimo e aeroviário favorecem a disseminação de patógenos, seja por condução de seres humanos infectados, seja pela condução de vertebrados e invertebrados de uma região a outra. No final de 2019, um novo coronavírus (Sars-CoV2) passou a infectar seres humanos, causando, inicialmente, um surto na cidade chinesa de Wuhan. Em pouco tempo, difundiu-se rapidamente para o restante do mundo através do transporte de pessoas infectadas. Em questão de poucos meses essa infecção adquiriu status de pandemia, levando à morte milhões de pessoas ao redor do mundo. A resistência microbiana e parasitária a medicamentos é motivo de preocupação mundial. Devido a erros de prescrição causados pela incerteza diagnóstica e desconhecimento farmacológico, bem como abuso desses medicamentos, são selecionadas cepas resistentes de bactérias, fungos e outros parasitos. Em 1947, menos de 20 anos após a descoberta da penicilina, ocorreu o primeiro aparecimento documentado de resistência microbiana à penicilina, sendo que o biólogo britânico J.B.S. Haldane escreveu sobre a necessidade de 12 estudar a resistência a patógenos como um problema evolutivo (Haldane, 1949). Em 1961, a OMS reconheceu a resistência de cepas de Plasmodium, à cloroquina, um medicamento antimalárico (Sá, 2011). Esse problema é tão sério que os custos com hospitalizações decorrentes da resistência bacteriana a antibióticos chegaram a 1,3 bilhões de dólares no Estados Unidos (Wannmacher, 2004), o que tende a aumentar, tendo em vista o crescimento alarmante da resistência de patógenos aos medicamentos. Apesar da notória relevância na erradicação ou controle de diversas doenças infectocontagiosas, movimentos antivacinação são cada vez mais frequentes e persuasivos. Esses movimentos utilizam estratégias como distorção e divulgação de informações falsas que questionam a eficácia e segurança de diversas vacinas. Esse movimento de antivacinação, apesar de ainda ser minoritário, contribui com a queda na cobertura vacinal, podendo reduzir a imunização a níveis em que o fenômeno da imunidade coletiva já não exista. Tanto que A OMS declarou que a relutância ou recusa em vacinar é uma das dez maiores ameaças para a saúde global. O ressurgimento do sarampo nos Estados Unidos tem sido atribuído a ação dos movimentos antivacinação nesse país e em outros países do mundo, como o Brasil. Como o sarampo é uma infecção altamente transmissível, por isso é necessária uma ampla cobertura vacinal da população, de modo a interromper a cadeia de transmissão viral (Aps, 2018). Para termos uma noção da gravidade dessa questão, no último século, emergiram ou reemergiram pelo menos 14 doenças infecciosas ou parasitárias (Imagem 1), pelos motivos já mencionados. Além do sarampo, ebola, dengue, chikungunya, zika, febre amarela, SARS, varíola, HIV/ AIDS, gripes e parasitoses (Zanella, 2016), passaram, ou voltaram a adquirir importância epidemiológica, como veremos ao longo da nossa disciplina.13 Figura 1 – Exemplos globais de doenças emergentes (azul) e reemergentes Crédito: João Miguel Moreira. NA PRÁTICA Como proposta prática desta nossa aula, sugiro duas atividades. Saiba mais 1. Primeiramente, gostaria que você assistisse ao seguinte vídeo: O QUE DESMATAMENTO tem a ver com novas pandemias? Pesquisa Fapesp, 17 ago. 2020. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=nodoQt9DsHI>. Acesso em: 1 fev. 2022. 2. Em seguida, acesse o simulador virtual Covid Sim: COVID SIM. Virus vs. vaccine – A science-based simulation. Covid Sim, S.d. Disponível em: <https://askabiologist.asu.edu/covid-sim/index.html>. Acesso em: 1 fev. 2022. Neste site, será possível simular o surto de Covid-19 em uma cidade, sob diferentes condições, verificando as variáveis que interferem no surto dessa infecção, como percentual da população vacinada, eficácia da vacina, uso de máscaras e/ou distanciamento social dos habitantes 14 FINALIZANDO Nesta aula, vimos que a definição do termo zoonose, segundo a OMS, é a de uma infecção naturalmente transmissível entre animais e seres humanos adquirida pelo contato direto com animais, ou pela ingestão de alimentos contaminados. Ou seja, zoonose é uma infecção decorrente do contato do ser humano com outra espécie de animal, seja doméstica, sinantrópica, exótica ou silvestre. Após conhecermos um pouco sobre o histórico do desenvolvimento do conhecimento a respeito das zoonoses, vimos as definições de alguns conceitos fundamentais para a nossa disciplina. Por fim, vimos que as ações antrópicas são as principais responsáveis para a emergência e reemergência de infecções. Apesar de serem consideradas um dos principais problemas do século XXI, as zoonoses precisam ser alvo de políticas públicas, principalmente devido à facilidade de disseminação de doenças. Isso foi verificado no início da pandemia da Covid-19. Posteriormente, veremos as principais zoonoses virais, priônicas e bacterianas de relevância epidemiológica. 15 REFERÊNCIAS ACHA, P. N.; SZYFRES, B. Zoonosis y enfermedades transmisibles comunes al hombre y a los animales. 3. ed. Washington: OPAS, 2001. APS, L. R. M. M. et al. 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