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CENTRO UNIVERSITÁRIO MAURÍCIO DE NASSAU MEDICINA VETERINÁRIA PATOLOGIA ESPECIAL DOS ANIMAIS DOMÉSTICOS Professora: AMANDA DE DEUS FERREIRA ALVES AULA PATOLOGIAS DO SISTEMA RESPIRATÓRIO CAVIDADE NASAL E SEIOS PARANASAIS Fenda palatina (palatosquise) A fenda palatina, também chamada de palatosquise, é caracterizada por fenda no palato que faz com que haja uma comunicação entre as cavidades nasal e oral. É uma alteração mais frequente em bovinos e suínos, particularmente em rebanhos endogâmicos (com alto grau de consanguinidade). Apesar de serem alterações compatíveis com a vida, em geral os animais com essa condição morrem precocemente devido à aspiração de leite e consequente pneumonia. Palatosquise pode ou não estar associada à ocorrência de lábio leporino (queilosquise). Hemorragias Alterações circulatórias são comuns devido à irrigação intensa da mucosa nasal. O ingurgitamento deve- se ao relaxamento das artérias e à contração da túnica média das veias (muito espessa nessa região). Em animais saudáveis, é possível observar graus variáveis de hiperemia dos cornetos nasais, caracterizada por coloração avermelhada na mucosa nasal, particularmente nos cornetos. Isso se deve à função do órgão de aquecimento e umidificação do ar inspirado, o que requer abundante suprimento sanguíneo. Portanto, a hiperemia da mucosa nasal não deve ser considerada patológica, a menos que esteja associada ao acúmulo de exsudato, a erosões ou a ulcerações da mucosa. Hiperemia ativa também é observada nos estágios iniciais da inflamação (rinite) aguda. Epistaxe é a denominação utilizada para designar os casos em que ocorre hemorragia nasal. A despeito da definição de hemorragia nasal, a origem do sangue não necessariamente é a cavidade nasal; por exemplo, a hemorragia pela narina pode ter origem na nasofaringe ou no sistema respiratório inferior. Nos casos em que a hemorragia é proveniente da própria cavidade nasal, a condição é designada como rinorragia. A hemorragia nasal originada no trato respiratório inferior, como nos casos de hemorragia pulmonar ou brônquica intensa, é chamada de hemoptise. Epistaxe pode ter várias causas, como: trauma; exercício intenso em equídeos; inflamação; neoplasias; diáteses hemorrágicas; micose da bolsa gutural; e trombose da veia cava caudal em bovinos. Epistaxe secundária a traumas pode ocorrer em qualquer espécie, sendo mais frequente em cães e em equinos; nesta última espécie ocorre principalmente devido ao traumatismo da mucosa nasal causado pela introdução de sonda nasogástrica. Epistaxe devida a exercício físico intenso ocorre nos equídeos, e, nesses casos, o sangue é originário dos pulmões. Esse processo é conhecido como hemorragia pulmonar induzida por exercício. Aproximadamente 75% dos cavalos têm hemorragia detectável por endoscopia após exercício intenso, como em uma prova de corrida, mas somente 1 a 10% destes apresentam sangramento nasal. A hemorragia nasal pode ser ocasionada por processos inflamatórios agudos ou crônicos nos quais ocorre ulceração da mucosa. Neoplasias associadas à ruptura de vasos também são causas importantes de epistaxe. Rinite Por definição, rinite se refere ao processo inflamatório da mucosa nasal. Em condições normais, a mucosa nasal é abundantemente colonizada por bactérias e fungos saprófitas e até mesmo por microrganismos com potencial patogênico. Essa situação é contrabalançada pelos fatores de proteção da mucosa nasal, que incluem secreção de muco, batimentos ciliares e imunoglobulinas. Contudo, em condições de desequilíbrio dos mecanismos de defesa, há favorecimento da colonização e do desenvolvimento de organismos patogênicos, resultando em inflamação. Frequentemente, a causa primária de rinite é viral, seguida de infecção secundária, bacteriana ou micótica. Além das causas específicas mencionadas anteriormente, existem fatores predisponentes à rinite, entre os quais se destacam: gases nocivos, como amônia e H2S (gás sulfídrico), que abundam em ambientes com superlotação de animais, ventilação pobre e drenagem inadequada de dejetos; alta concentração de poeira; e baixa umidade do ar, que induz à diminuição da secreção e desidratação do muco e, consequentemente, à eliminação mais lenta das partículas depositadas sobre a camada de muco. As rinites podem ser classificadas quanto ao curso em agudas, crônicas ou crônicoativas. O processo inflamatório agudo é caracterizado por exsudação, ao passo que o processo crônico é caracterizado por alterações proliferativas. As situações em que o processo é classificado como crônico-ativo correspondem aos casos em que a rinite crônica também apresenta características de um processo agudo, havendo associação entre alterações proliferativas e exsudativas. Os processos crônicos podem resultar na formação de pólipos nasais que são inicialmente sésseis, podendo tornar-se pedunculados. Um exemplo dessa condição é o pólipo nasal hemorrágico da região etmoidal do equino ou hematoma etmoidal progressivo dos equinos. Quanto ao exsudato, as rinites podem ser classificadas em: serosa; catarral; catarralpurulenta; purulenta; hemorrágica; fibrinosa; fibrinonecrótica; e granulomatosa. As consequências de rinite geralmente são discretas, mas pode ocorrer broncopneumonia devida à aspiração de exsudato, tromboflebite intracranial, abscesso e meningite, porque as veias da cabeça não têm válvulas, podendo ocorrer refluxo, além de sinusite, que é a sequela mais comum. Sinusite Sinusite é o termo utilizado para designar a inflamação dos seios paranasais. Na maior parte dos casos, a sinusite é uma consequência de rinite e não é detectada clinicamente, com exceção dos casos em que ocorre deformidade da face ou formação de fístulas por intermédio de ossos do crânio e pele. Entre as causas de sinusite, destacam-se: • rinite (causa mais frequente) • larvas de Oestrus ovis em ovinos; periodontite • descorna e fraturas dos ossos do crânio com exposição dos seios Nos casos de rinite catarral ou purulenta, frequentemente ocorre intumescimento da mucosa nasal com consequente oclusão do orifício de drenagem dos seios paranasais. Nesses casos, as secreções e os exsudatos presentes nos seios acumulam-se, resultando em sinusite. As larvas de O. ovis, em alguns casos, penetram nos seios paranasais dos ovinos, ocasionando sinusite. Cabras também podem ser afetadas por O. ovis quando criadas com ovinos parasitados. Nos casos de periodontite, dependendo da intensidade do processo inflamatório do periodonto, pode ocorrer extensão do processo inflamatório para os seios paranasais. Essa condição ocorre principalmente nos equinos, em particular nos animais com mais de 4 anos de idade. Casos graves de sinusite secundária à periodontite podem resultar em deformação facial. Finalmente, nos casos de descorna cirúrgica e fraturas de ossos do crânio, há exposição da cavidade dos seios, o que favorece a instalação de infecção e, consequentemente, sinusite. FARINGE E BOLSAS GUTURAIS Faringite geralmente está associada à inflamação dos tratos respiratório ou digestório superiores ou de ambos. Processos inflamatórios que envolvem as bolsas guturais nos equídeos, em geral, estão associados à inflamação do trato respiratório superior, mas também podem se desenvolver como um processo isolado. A seguir, são descritas as principais condições inflamatórias desses órgãos. Os equídeos podem desenvolver inflamação supurada com empiema das bolsas guturais, que é a alteração mais comumente observada nas bolsas guturais. Essa alteração está associada a infecções do trato respiratório superior, principalmente por Streptococcus equi (agente causador do garrotilho) ou outros agentes. Caracteriza-se por acúmulo de exsudato purulento de difícil drenagem na bolsa gutural. Como consequência, em algunscasos podem ocorrer otites da orelha média por extensão e lesões em nervos cranianos, devido à proximidade dessas estruturas. O VII, IX, X, XI e XII são os pares de nervos cranianos mais frequentemente afetados. Além disso, também pode haver comprometimento do tronco simpático cranial, ossos adjacentes e articulação atlantoccipital. LARINGE E TRAQUEIA Paralisia da laringe ou hemiplegia laríngea A hemiplegia laríngea é a causa mais comum de ruído respiratório anormal em equinos, o que caracteriza a condição comumente designada como “cavalo roncador”, que, além de ruído respiratório anormal, resulta em intolerância ao exercício. Na maioria dos casos, a lesão ocorre do lado esquerdo, mas, raramente, pode ser bilateral ou afetar o lado direito. A causa do processo é a degeneração idiopática do nervo laríngeo recorrente esquerdo, que ocasiona atrofia do músculo cricoaritenoide e outros relacionados, cuja principal função é dilatar a laringe. A predileção pelo lado esquerdo provavelmente se deve ao fato de que os axônios do nervo do lado esquerdo são mais longos do que os do lado direito, o que faz com que o nervo do lado esquerdo seja mais suscetível a lesões axônicas causadas, por exemplo, por trauma ou neurite consequente à extensão de processos inflamatórios da bolsa gutural. Como consequência, ocorre atrofia dos músculos inervados pelo nervo laríngeo recorrente, particularmente o músculo cricoaritenoide, o que faz com que a cartilagem aritenoide esquerda seja projetada para dentro do lúmen da laringe. A consequência desse processo é a interferência do fluxo de ar, principalmente na inspiração durante exercício, o que resulta em ruídos anormais. Colapso traqueal O colapso traqueal é caracterizado pelo achatamento dorsoventral da traqueia devido a uma alteração de seus semianéis cartilaginosos, que formam arcos muito abertos, e ao relaxamento da musculatura lisa que os sustenta. Como consequência, há diminuição do diâmetro do lúmen traqueal, podendo ocorrer dificuldade respiratória e maior suscetibilidade a colapsos respiratórios, devido à protrusão da musculatura lisa para o lúmen traqueal durante exercício ou estresse intenso. Essa condição ocorre com maior frequência em cães de raças miniaturas, resultando em dispneia ocasional e intolerância ao exercício. A etiopatogenia do processo não é conhecida. BRÔNQUIOS E BRONQUÍOLOS Os brônquios e bronquíolos são responsáveis pela condução de ar entre a porção superior e a inferior do sistema respiratório. Portanto, os brônquios tendem a ser envolvidos, por extensão, nas doenças graves do sistema respiratório superior ou, mais comumente, nas doenças pulmonares que envolvem particularmente os bronquíolos. Corpos estranhos podem ser introduzidos nos brônquios e bronquíolos por aspiração. Aspiração de corpos estranhos ocorre em todas as espécies domésticas. Vários tipos de corpos estranhos podem atingir os brônquios e bronquíolos, por exemplo: material sólido, como pedaços de madeira, espigas de trigo, espinhos, fragmentos de capim etc.; poeiras, que causam metaplasia das células caliciformes; e aspiração de sangue, que pode ser consequência de hemorragias das vias respiratórias superiores (aspiração para os brônquios e alvéolos) ou pode ocorrer quando o animal é abatido por degola. Nesse caso, grandes extensões da árvore brônquica apresentam-se repletas de sangue coagulado. Aspiração de corpos estranhos desencadeia processo inflamatório nos brônquios e bronquíolos; portanto, aspiração ante mortem de corpos estranhos geralmente está associada a alterações circulatórias na mucosa brônquica, como hiperemia e, em alguns casos, edema. Essas alterações ante mortem possibilitam a diferenciação do achado de corpos estranhos que podem se localizar nas vias respiratórias após a morte, particularmente conteúdo gástrico, devido à movimentação do cadáver. Nos casos de deposição post mortem, não há nenhuma alteração das mucosas traqueal e brônquica. Bronquite Por definição, bronquite se refere à inflamação dos grandes brônquios. Contudo, a distinção clara entre um processo inflamatório puramente brônquico e uma broncopneumonia é difícil de ser feita na maioria dos casos, tanto macro quanto microscopicamente. As causas de bronquite incluem agentes virais, bacterianos, micóticos e parasitários, além de gases tóxicos, corpos estranhos (detalhados a seguir) e alergênios. A classificação quanto ao curso e ao tipo de exsudato (classificação morfológica) é idêntica à dos outros segmentos do trato respiratório, discutidos anteriormente, ou seja, as bronquites podem ser do tipo catarral, mucopurulento, purulento, fibrinopurulento ou fibrinoso. O curso da bronquite depende da natureza e persistência do agente causador, e pode ocorrer resolução completa, com re-epitelização e ausência de fibrose. Portanto, na maioria dos casos, as consequências de bronquite são discretas, mas o processo pode, eventualmente, evoluir para broncopneumonia, broncoestenose ou bronquiectasia. Bronquite crônica é mais comum em cães devido à infecção por Bordetella bronchiseptica. A bronquite crônica, na maioria dos casos, é de fato caracterizada por um processo do tipo crônicoativo. Macroscopicamente, o principal achado é o excesso de muco ou exsudato mucopurulento preenchendo a árvore brônquica. A mucosa brônquica está espessa, podendo apresentar edema e hiperemia. Ocasionalmente, em casos crônicos, podem ser observadas projeções polipoides para dentro do lúmen brônquico. Dificilmente tem-se a oportunidade de observar as lesões características dessa doença por ocasião da necropsia, uma vez que a taxa de letalidade é extremamente baixa. Pode haver ausência completa de lesões macroscópicas ou pode haver até uma traqueobronquite mucopurulenta. Bronquiolite Geralmente, bronquiolite ocorre como extensão de outros processos, em particular de broncopneumonias. Na espécie equina, ocorre a condição chamada de complexo bronquiolite-enfisema crônico, também conhecida como asma equina ou doença pulmonar obstrutiva crônica. Essa condição afeta principalmente animais mantidos em ambientes empoeirados, e, por isso, alguns a classificam como uma doença ocupacional do equino. O risco de desenvolvimento da doença aumenta com a idade, sendo mais comum em animais com mais de 5 anos de idade. Nesses casos, aparentemente como resultado da inalação constante de partículas de poeira, ocorre o desenvolvimento de bronquite crônica, que provoca obstrução parcial e intermitente das vias respiratórias, particularmente dos bronquíolos. Em geral, há infiltração peribrônquica ou peribronquiolar de linfócitos, com acúmulo intraluminal de neutrófilos e, ocasionalmente, infiltração de eosinófilos, associada à hipersecreção de muco. Além disso, ocorre hipertrofia da musculatura lisa brônquica e hipercontração desta, o que é resultado de estímulo direto por mediadores da inflamação ou, indiretamente, por estímulo do sistema nervoso autônomo. A etiopatogênese dessa condição envolve um processo de hipersensibilidade, desencadeado por antígenos inalados, particularmente fungos termofílicos e actinomicetos que crescem em feno mofado, poeira e endotoxinas bacterianas. Essa condição resulta em hipoxia e, consequentemente, menor tolerância do animal ao exercício ou trabalho. O esforço respiratório excessivo crônico, devido à obstrução parcial e intermitente das vias respiratórias, resulta em enfisema alveolar e leva à hipertrofia dos músculos oblíquos abdominais, que pode ser observada externamente. O gato também apresenta um processo semelhante à asma (bronquite alérgica) do ser humano. Clinicamente, essa condição afeta principalmente animais adultos e se caracteriza primariamente por tosse e dispneia. Aparentemente, a patogênese desse processo no gato envolve o mecanismo de hipersensibilidade do tipo I, desencadeadopela aspiração de alergênicos, que resulta em inflamação de brônquios e bronquíolos, associada à infiltração de eosinófilos. O processo inflamatório dos bronquíolos frequentemente evolui para a condição conhecida como bronquiolite crônica obliterante, que é uma resposta inflamatória inespecífica dos bronquíolos e alvéolos adjacentes a vários agentes lesivos. Essa condição tem várias causas, que estão detalhadas a seguir no item broncopneumonia, incluindo: infecções virais (p. ex., vírus da influenza) ; gases tóxicos, como NH3, H2S e oxigênio puro (concentração de 100%) ; vermes pulmonares; e pneumotoxinas. Para que haja o desenvolvimento de bronquiolite crônica obliterante, é necessário que ocorram os seguintes eventos: necrose do epitélio na junção bronquíolo-alvéolo e acúmulo de exsudato rico em fibrina no lúmen bronquiolar, o que estimula a infiltração e a maturação de fibroblastos e de seus precursores. A lesão típica, observada microscopicamente, é caracterizada por formação polipoide de tecido conjuntivo fibroso, em variados estágios de organização, obliterando parcial ou totalmente o lúmen bronquiolar de forma permanente e irreversível. As consequências da bronquiolite são mais graves do que aquelas secundárias à inflamação dos grandes brônquios. Frequentemente, ocorre extensão para o parênquima pulmonar, podendo evoluir para broncopneumonia, atelectasia ou enfisema. Sequelas de bronquite e bronquiolite crônicas incluem alterações no diâmetro luminal dos brônquios e bronquíolos, como a broncoestenose, que corresponde à diminuição do lúmen brônquico, e a bronquiectasia, que é a dilatação brônquica. PULMÕES O exame macroscópico dos pulmões deve ser feito cuidadosamente, e, na interpretação, deve-se levar em conta sua coloração, consistência, volume e superfície de corte. A coloração normal é rósea, desde que não haja alterações post mortem. Logo após a abertura da caixa torácica, a pressão atmosférica interna se iguala à externa, levando ao colabamento dos pulmões. O não colabamento já indica possibilidade de lesões. A palpação indica a consistência dos pulmões e também possibilita localizar abscessos, neoplasias, granulomas, cistos ou outras lesões palpáveis. O exame dos linfonodos regionais, apicais e mediastínicos tem importância capital no diagnóstico de tuberculose em bovinos. É um exame obrigatório nas linhas de inspeção de bovinos em abatedouros. Deve-se fatiá-los totalmente para expor ao máximo seu interior, onde as lesões são encontradas. Alterações circulatórias Edema pulmonar Em condições normais, o líquido que extravasa dos capilares alveolares não alcança a luz alveolar, porque as junções do epitélio alveolar são mais oclusivas do que as junções do endotélio vascular. O excesso de líquido é drenado por via linfática, o que é favorecido pela baixa pressão no conjuntivo frouxo subpleural. Contudo, se a quantidade de líquido no interstício ultrapassa a capacidade de drenagem linfática, ocorre extravasamento para o interior do alvéolo. Edema pulmonar é caracterizado pelo acúmulo de líquido nos alvéolos pulmonares, proveniente dos vasos sanguíneos. É uma complicação comum em muitas doenças pulmonares. O fluido de edema que se acumula no alvéolo se mistura ao surfactante alveolar, e, em consequência dos movimentos respiratórios, ocorre formação de espuma, o que compromete ainda mais as trocas gasosas nos alvéolos, por impedir a entrada do ar inspirado no interior dos alvéolos. As causas de edema pulmonar são as mesmas causas gerais de edema, ou seja: aumento da pressão hidrostática, aumento da permeabilidade vascular, diminuição da pressão oncótica e obstrução da drenagem linfática. Cada uma dessas causas está detalhada a seguir. Atelectasia Por definição, atelectasia é a expansão incompleta do pulmão, que pode ser localizada ou generalizada, e resulta no colapso de alvéolos previamente preenchidos por ar. Portanto, morfologicamente, a atelectasia é caracterizada pela condição na qual os alvéolos pulmonares encontram-se sem ar e sem nenhum outro conteúdo em seu interior. Enfisema Ao contrário do que ocorre na espécie humana, na qual o enfisema pulmonar é uma alteração que frequentemente resulta em alterações clínicas importantes, na maioria das espécies domésticas o enfisema pulmonar não carece de importância clínica, com exceção dos equinos. Por definição, enfisema pulmonar significa distensão excessiva e anormal dos alvéolos associada à destruição de paredes alveolares, o que caracteriza excesso de ar nos pulmões, ou seja, condição contrária à atelectasia. Nas espécies domésticas, o enfisema pulmonar pode ser de dois tipos: alveolar e intersticial. Broncopneumonia A característica mais importante para classificar um processo pneumônico como broncopneumonia é o local de origem do processo inflamatório, o qual, nesse caso, é a junção bronquíoloalvéolo. Nas broncopneumonias, os agentes causadores chegam ao pulmão por via aerógena ou broncogênica. Existem várias razões para a maior suscetibilidade dessa área. Uma dessas razões é ser esse o principal local em que ocorre deposição de pequenas partículas, com diâmetro entre 0,5 e 0,2 μm. O motivo para maior deposição nessa área é a diminuição abrupta da velocidade do fluxo de ar no momento em que o ar entra nos alvéolos, o que possibilita a sedimentação das partículas na junção bronquíoloalvéolo. Outra razão é o fato de a junção bronquíoloalvéolo não ter a proteção do lençol mucociliar, como os brônquios e bronquíolos, e também não ter um sistema de fagocitose por macrófagos semelhante ao que ocorre nos alvéolos. A localização das lesões nos casos de broncopneumonias é cranioventral, característica importante para o reconhecimento macroscópico dessa condição. A predileção pelas porções cranioventrais se deve aos seguintes fatores: menor extensão das vias respiratórias que suprem essa região, o que proporciona menor eficiência na filtragem do ar inspirado pelo lençol mucociliar; maior turbilhonamento do ar nessa área, o que pode causar maior desgaste do epitélio; e a ação da gravidade, que dificulta a eliminação das partículas infecciosas e de exsudato dessas porções do pulmão. Entre os fatores predisponentes à broncopneumonia, um dos mais importantes é o agrupamento de animais. Além de aglomeração de animais, qualquer fator que comprometa os mecanismos de defesa do pulmão, principalmente a diminuição da eficiência do lençol mucociliar e dos macrófagos alveolares, predispõe à broncopneumonia. De maneira geral, as características macroscópicas da broncopneumonia são áreas de consolidação ou hepatização (a consistência da área lesionada fica semelhante à do fígado) cranioventrais, de coloração vermelho-escura ou acinzentada, localizada nas porções cranioventrais, sempre seguindo a orientação lobular. Podem ocorrer coalescência e comprometimento de todo o lobo. Ao corte, observa-se superfície úmida, quando o processo é supurado (exsudato mucopurulento ou purulento nas vias respiratórias), ou superfície ressecada, quando o exsudato é do tipo fibrinoso. A broncopneumonia apresenta evolução cronológica das lesões com características morfológicas distintas. Inicialmente, ocorre a fase de congestão, que é seguida da hepatização vermelha; posteriormente, a hepatização cinzenta e, finalmente, a fase de resolução. Nos casos em que a fase de resolução não evolui de forma satisfatória, podem ocorrer complicações, como: atelectasia; fibrose do parênquima pulmonar (proliferação de tecido conjuntivo fibroso); bronquiectasia, que é mais comum nos bovinos; necrose com formação de abscessos, cujas causas mais comuns incluem Trueperella (Arcanobacterium) pyogenes nos ovinos, suínos e bovinos, Bordetella bronchiseptica nos cães e Streptococcus sp. nos equinos – eventualmente, os abscessospulmonares podem provocar erosão vascular e hemorragia fatal ou podem se romper para dentro da cavidade pleural, causando pleurite e piotórax; pleurite com formação de aderências; e morte por hipoxia associada à toxemia. Pneumonias Por definição, pneumonia é o termo utilizado para designar uma inflamação que envolve o pulmão. Existem outros termos aplicáveis aos processos inflamatórios do pulmão, como pneumonite, que se refere a um processo crônico, proliferativo, localizado no interstício (septos alveolares, conjuntivo peribrônquico e peribronquiolar). O termo pneumonite é empregado como sinônimo de pneumonia instersticial. Alveolite é um termo utilizado durante a fase exsudativa da pneumonia intersticial, ou pneumonite. Tendo em vista que o emprego de todos esses termos para designar inflamação pulmonar pode ser extremamente confuso, será utilizado exclusivamente o termo pneumonia para designar todos os diferentes tipos de respostas inflamatórias que ocorrem nos pulmões. As pneumonias podem ser classificadas quanto ao curso em superaguda, aguda, subaguda e crônica. Quanto ao tipo de exsudato produzido, as pneumonias podem ser classificadas em catarral, fibrinosa, purulenta, hemorrágica, necrótica e granulomatosa, sendo a combinação entre esses tipos bastante comum; por exemplo, catarropurulenta, fibrinonecrótica ou fibrinohemorrágica. Outra forma extremamente importante de classificação dos processos pneumônicos se refere ao local de início do processo. Essa classificação é a base dos padrões anatômicos de pneumonia; segundo ela, os processos pneumônicos podem ser divididos em: broncopneumonia, que se inicia na junção bronquíolo-alvéolo; pneumonia lobar, que também tem início na junção bronquíolo-alvéolo, porém apresenta evolução rápida; e pneumonia intersticial (pneumonite), que se inicia no interstício. PLEURA E CAVIDADE TORÁCICA Pneumotórax Pneumotórax é a condição na qual há acúmulo de ar dentro da cavidade torácica, o que resulta em perda de pressão negativa intratorácica e, consequentemente, comprometimento da expansão e atelectasia pulmonar. Pode ser uni ou bilateral, já que a cavidade pleural do lado esquerdo é completamente separada do lado direito pelo mediastino. As causas de pneumotórax podem ser agrupadas em traumática e espontânea. O pneumotórax de origem traumática está associado à perfuração da parede torácica, que geralmente é acidental, mas que também pode ser iatrogênica nos casos de coleta transtorácica de biopsia pulmonar. Os casos de pneumotórax espontâneo são raros e são consequências de lesões pulmonares que resultam em ruptura da pleura visceral e passagem de ar do parênquima pulmonar para a cavidade pleural. A condição que leva à maioria dos casos de pneumotórax espontâneo é a ruptura de bolhas enfisematosas. Como consequência de pneumotórax, pode ocorrer atelectasia adquirida por compressão. Caso o processo seja contido e a quantidade de ar acumulada na cavidade torácica seja pequena, este pode ser totalmente absorvido sem comprometimento marcante da função respiratória. Contudo, se a condição for bilateral e se a quantidade de ar na cavidade torácica for grande e acumular-se em curto período de tempo, o animal pode morrer por insuficiência respiratória decorrente da incapacidade de expansão pulmonar durante a inspiração. Hérnia diafragmática Hérnia diafragmática é a condição na qual há deslocamento de vísceras abdominais para dentro da cavidade torácica em decorrência de ruptura ou solução de continuidade do diafragma. Essa condição pode ser congênita ou adquirida. Na maioria dos casos, o processo é adquirido e de origem traumática. Macroscopicamente, há comunicação entre as cavidades abdominal e torácica por meio de abertura no diafragma. Observam-se órgãos abdominais, principalmente segmentos do intestino, do estômago e do fígado, dentro da cavidade torácica. Essas lesões estão associadas a graus variados de atelectasia pulmonar. Embora a hérnia diafragmática frequentemente provoque a morte do animal em curto período de tempo, a evolução do processo e o estabelecimento do quadro de insuficiência respiratória podem progredir lentamente, ocasionando a morte do animal até mesmo semanas após o trauma e ruptura do diafragma. Hidrotórax Hidrotórax nada mais é do que a manifestação de edema na cavidade torácica. Caracteriza-se pelo acúmulo de líquido no tórax. Nesse caso, o líquido é um transudato, ou seja, transparente, amarelo-claro, inodoro, não coagula quando em contato com o ar, contém poucas células e tem densidade menor que a de um exsudato. As causas de hidrotórax são também as causas gerais de edema, que incluem: diminuição da pressão oncótica do sangue; aumento da pressão hidrostática; aumento da permeabilidade vascular; e obstrução da drenagem linfática, que é rara, mas pode estar associada a neoplasias envolvendo os linfonodos e vasos linfáticos. As causas específicas mais frequentemente associadas a hidrotórax são: insuficiência cardíaca congestiva, hipoproteinemia, anemia, neoplasia na superfície pleural e pancreatite. Como consequência de hidrotórax ocorre atelectasia compressiva, cuja intensidade e extensão são proporcionais ao volume de líquido acumulado na cavidade torácica. Hemotórax Hemotórax é caracterizado pela presença de sangue na cavidade torácica. As causas mais comuns desse processo são: traumatismos, erosão de vasos por neoplasias malignas ou por processo inflamatório, defeitos de coagulação e ruptura de aneurisma. O hemotórax pode ter consequências pulmonares e sistêmicas. Ocorre atelectasia compressiva, que é proporcional ao volume de sangue acumulado na cavidade torácica. Do ponto de vista sistêmico, caso o volume de sangue seja grande, pode ocorrer hipovolemia e, consequentemente, morte por choque hipovolêmico. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA Santos, R.L & Guedes, R.M.C. Sistema Respiratório. In: Santos, R.L & Alessi, A.C. Patologia Veterinária, 2. ed. Rio de Janeiro: Roca, 2016.