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FUNDAMENTOS ÉTICOS E MORAIS E AS QUESTÕESCULTURAIS E SOCIAIS
Laura Beatriz Pires
MINHAS METAS
· Compreender os fundamentos da ética.
· Entender as questões culturais que envolvem a moral e ética.
· Compreender os problemas morais éticos.
· Visualizar como a ética está inserida nos direitos humanos.
· Entender a íntima relação entre a ética e a modernidade.
INICIE SUA JORNADA
Por mais que usamos como sinônimos, a ética e moral são dois conceitos que mesmo relacionados possuem significados ligeiramente diferentes. A moral refere-se aos costumes, normas e valores através da cultura, grupo ou sociedade específica. Assim, o termo se refere a um conjunto de regras que determinam o que uma comunidade considera certo ou errado. É o que conhecemos como tradições, crenças religiosas, educação e influências culturais. Por exemplo, uma comunidade pode considerar a justiça e a honestidade como valores morais essenciais.
Figura 1 – Começo A ética, por outro lado, é uma área mais ampla de estudo que visa compreender e justificar os princípios morais. Ela envolve pensar criticamente sobre o que é moralmente correto ou errado, analisando os efeitos das ações, os princípios morais fundamentais e as obrigações e deveres associados. A ética envolve a criação de teorias e sistemas éticos que justifiquem a conduta humana.
No geral, a ética e a moral são áreas de estudo importantes para entendermos como as sociedades estabelecem padrões de comportamento e como as pessoas tomam decisões morais em diferentes contextos. Elas nos ajudam a refletir sobre nossas ações, suas implicações e os princípios éticos pelos quais desejamos viver. Nesse sentido, vamos nos aprofundar nesses princípios tão moldantes de nossa sociedade para compreender melhor como estes se apresentam.
DESENVOLVA SEU POTENCIAL
1 ÉTICA E SEUS FUNDAMENTOS
A ética pode ser vista como uma reflexão sobre os valores construídos culturalmente na moralidade, que é a vivência cotidiana baseada nos princípios presentes nas normas e regras sociais. As atitudes humanas são moldadas por normas interiorizadas, variáveis de uma sociedade para outra.
Ao refletir sobre as condutas morais, ocorre uma passagem do plano da prática moral para o da teoria moral, ou seja, da moral vivida para a moral reflexiva. O ato humano implica ter princípios que dão significado à ação, tornando-a moral e estabelecendo normas para regular o comportamento humano. A ética é a ciência do comportamento moral dos homens em sociedade, enquanto a moral é a prática desse comportamento e a ética é sua reflexão teórica.
Figura 2 – Justiça 
Os termos “ética” e “moral” são frequentemente utilizados nas diversas relações cotidianas para indicar o que é adequado ou inadequado fazer, assim como o posicionamento a ser adotado diante de diferentes situações. Aranha e Martins (1993) explicam que a palavra “ética”, originada do grego “ethos”, refere-se a costumes, e “moral”, do latim “morale” ou “moralis”, também significa costumes. Ambas se referem ao conjunto de práticas tradicionais de uma sociedade, consideradas como valores e obrigações na conduta dos indivíduos que compõem esse grupo social.
A distinção entre ética e moral é abordada por Comparato (2006), proporcionando uma compreensão dos princípios e implicações no comportamento humano. O autor explora as origens do pensamento ético e da postura moral, destacando pensadores da antiguidade e da Idade Média, como Aristóteles e Cícero.
Aristóteles, em sua obra “Retórica”, distingue as leis específicas de cada povo das leis que regem toda a humanidade, apontando prenúncios da diferenciação entre moral (particular) e ética (universal). Para ele, as leis não-escritas, a ideia do meio-termo e a noção de equidade devem ser aplicadas para alcançar uma justiça além das leis escritas.
Comparato (2006) discute as ideias de Cícero, percebendo que ele delineia a ética com caráter universal. Cícero, em “O Sumo Bem e o Sumo Mal”, ressalta a importância da equidade para questões que envolvam julgamentos e posicionamentos, conciliando interesses pessoais com os interesses universais.
Essas ideias universalistas sobre a ética enfrentaram desafios na fundação da Cristandade Ocidental, que considerava estrangeiros aqueles que não compartilhavam da fé cristã. No mundo moderno, especialmente após o Iluminismo Francês, os conflitos entre nacionalismo e universalismo se tornaram mais evidentes, com os interesses das classes burguesas superando os ideais de coletividade.
A relação entre ética e valores demanda apreensão sentimental e ação racional dos seres humanos para se envolverem com a ética. Princípios gerais e abstratos são estabelecidos, e as regras concretas são interpretações desses princípios. Essas interpretações variam ao longo do tempo e da cultura, o que destaca a urgente distinção entre ética e moral.
Embora os termos sejam ocasionalmente usados como sinônimos, Vázquez (1999) ressalta que a ética é uma ciência dedicada a estudar e investigar a moralidade. A moral é um conjunto de normas e regras adquiridas por hábito, ou seja, refere-se ao comportamento adquirido pelo homem que se cristalizou a partir de costumes e convenções sociais ao longo da história das sociedades. Portanto, a moral está fortemente influenciada pela cultura, história e natureza humana.
De acordo com Crisóstomo, Varani e Pereira (2018), a ética é vista como uma ciência que regula o comportamento humano e é responsável por levar as pessoas a fazer escolhas e criar caminhos para o bem comum, o equilíbrio comum de uma comunidade. Essa construção de valores de origem ocidental versa sobre como agir e tomar decisões em sociedade para evitar conflitos morais e preservar a ordem social e o comportamento humano digno.
Os diferentes sistemas ou doutrinas morais oferecem uma orientação imediata e concreta para a vida moral das pessoas. As teorias éticas não pretendem responder à pergunta “o que devemos fazer?” ou “de que modo deveria organizar-se a sociedade”, mas refletem sobre “por que existe moral?” “Quais motivos justificam o uso de determinada concepção moral para orientar a vida?”. As teorias éticas querem dar conta do fenômeno moral. Existem diferentes leituras do fenômeno moral
(CORTINA; MARTÍNEZ, 2005, p. 7).
A ética surgiu quando os humanos começaram a viver em sociedade. Isso significa que suas atitudes e comportamentos (modus operandi) refletem ações baseadas na ética do coletivo. Comparando o homem moderno com o pré-histórico, vemos uma evolução de milhares de anos, começando em uma época em que a sobrevivência da espécie era o mais importante. Nossos ancestrais pré-históricos usavam métodos como a fabricação de ferramentas, o domínio do fogo e os ritos mágicos para se proteger da natureza temível.
Figura 3 - Livro e a sabedoria 
Não havia regras para viver em uma comunidade nessa época, pois o comportamento ético correto era manter a vida coletiva. Conforme problemas surgiam, ações eram construídas e praticadas. A busca por uma ética social nunca parou. O pensamento filosófico sobre a ciência da moral e comportamento ético sempre existiu em todas as sociedades e culturas. Os valores morais foram estruturados a partir de bases e princípios inerentes à sua personalidade por meio de um ethos próprio.
Figura 4 – Relacionamentos humanos e a Justiça 
No estado, os grupos sociais ou religiosos sempre buscavam legitimar um melhor convívio entre os indivíduos por meio de condutas éticas derivadas da moral da sociedade vigente. Todas as áreas do pensamento clássico começam com a civilização grega: filosofia, matemática, política, drama, arte e poética. O teatro surge como palco de interrogações, onde os pensadores começam suas teorizações sobre a vida e suas escolhas de felicidade, além de refletir sobre o cotidiano e amar a sabedoria.
1.1 SÓCRATES, PLATÃO E ARISTÓTELES: A ÉTICA DA ERA DO SER
Muitos autores consideram Sócrates o precursor da reflexão crítica e sistemática sobre a ação humana e suas atitudes perante a si e aos outros. Embora ele não tenha escrito um único livro, seusescritos foram permeados por perguntas sobre o que é a virtude (areté), que ele define como a ação justa e merecida. Era o filósofo grego que acreditava no conhecimento e viu a virtude como o caminho para a felicidade do espírito. Ele acreditava que as virtudes poderiam ser transmitidas, enquanto os vícios eram vistos como formas de ignorância, pois “a excelência humana se revela pela atitude de busca da verdade”. O diálogo e a introspecção, ou conhecimento, seriam as bases para a busca da verdade, e quem fizesse algo ruim seria considerado ignorante. O objetivo da vida do homem seria buscar a perfeição do bem.
Sócrates acreditava que os humanos já estavam completos e que a única coisa que precisava ser feita era permitir que florescerem.
Já Platão, discípulo de Sócrates, reelabora as teorias do mestre usando o método da dialética, que é baseado na conversa e na busca da verdade, com uma perspectiva política sobre o que considera felicidade e a harmonia da sociedade. Estabeleceu na Academia, um local para estudar matemática, filosofia, botânica, medicina e filosofia, e também aceitou mulheres, algo raro na época.
O pensador escreve “A República” para expressar suas crenças. Ele acredita que o estado perfeito consiste em três funções: os governantes administram, controlam e organizam a cidade; os militares protegem e protegem a cidade; e por último, os responsáveis pela produção e desenvolvimento econômico são os camponeses e artesãos. Ao classificar cada um dos responsáveis por cada etapa da pólis (cidade grega), cada um teria uma ou mais virtudes associadas ao trabalho.
Por exemplo, as virtudes dos governantes seriam prudência e sabedoria, enquanto as virtudes dos guardiões seria coragem ou fortaleza, e as virtudes dos produtores seria moderação ou temperança. Por meio da justiça, os responsáveis tinham que medir sua capacidade de raciocinar com decisão e coragem, mesmo quando os instintos e a razão estavam em conflito.
A ideia de Platão de que o homem bom é um cidadão, ou seja, que a moralidade está ligada à coletividade e que a ética está ligada à organização política.
Aristóteles foi um discípulo de Platão, mas abandonou seus ensinamentos e criou seu próprio sistema, rejeitando o dualismo mais racional e a teoria das ideias de Platão. Ele apreciava a ciência natural e o saber empírico e acreditava que praticar a virtude seria uma maneira de atingir a felicidade porque representava a conexão entre a verdade e a razão. Foi o primeiro filósofo a escrever tratados centrados principalmente na ética. Isso foi visto em seu livro “A ética a Nicômaco”, uma carta ao seu filho em que ele questiona o sentido do viver, afirmando que a felicidade é a realização de si mesmo.
Assim, Aristóteles entendeu a felicidade como um bem perfeito, que sempre depende da compreensão do conhecimento, pois acreditava que a ética não poderia ser separada da sociedade e da política. Como resultado, as paixões seriam dominadas em detrimento dessa relação amável e satisfatória com o mundo natural. O filósofo acreditava que a virtude deveria ser desenvolvida e cultivada. Como resultado, ele tinha a liberdade de optar por agir de maneira virtuosa. Para a sociedade toda, o hábito de fazer escolhas razoáveis pelo bem traria a independência de atitudes positivas.
Na retórica aristotélica, os três modos de persuasão são conhecidos como ethos, logos e pathos. Cada um desses modos desempenha um papel importante na construção de um discurso persuasivo. Vamos explorar cada um deles:
ETHOSLOGOSPATHOS
Pathos é o apelo às emoções do público. Aristóteles reconhecia que as emoções desempenham um papel significativo na tomada de decisões e na formação de crenças. Ao utilizar o pathos, o orador busca despertar emoções específicas, como empatia, compaixão, alegria ou raiva, a fim de influenciar a audiência. Isso pode ser alcançado por meio do uso de histórias emocionantes, metáforas poderosas, linguagem evocativa, imagens vívidas e recursos retóricos que tocam o coração do público.
Em resumo, a retórica aristotélica visa equilibrar a persuasão baseada na credibilidade do orador (ethos), nos argumentos lógicos (logos) e nas emoções despertadas no público (pathos). Esses três modos de persuasão são considerados pilares fundamentais da retórica persuasiva e são amplamente aplicados em discursos, debates, publicidade e outras formas de comunicação persuasiva até os dias de hoje.
1.2 ATENAS, ÉTICA E O PERÍODO HELENISTA
A abundância econômica, o regime político e a evolução da sociedade ao longo dos séculos de grande império conferiram ao homem grego uma forte inclinação pela liberdade. Ao indagar sobre o conceito de felicidade, a resposta frequentemente encontrada era a busca pela liberdade. A noção de autarcia, que representava a capacidade de bastar-se a si mesmo, sem depender dos outros, caracterizava o cidadão grego, que desfrutava de liberdades de escolha nos âmbitos político e religioso, bem como da possibilidade de deslocar-se por todo o mundo conhecido, tornando-se um cosmopolita.
Com o desenvolvimento desse contexto, surgiu o conceito de helenismo, termo pelo qual os próprios gregos se autodenominavam. A cultura grega disseminou-se pelo mundo ocidental, tornando-se um modelo para os romanos e outros povos.
Assim, a ideia de liberdade permeou a cultura e a mentalidade grega, refletindo-se na autarcia do cidadão, que tinha autonomia política e religiosa, e na expansão do helenismo, que difundiu os valores e conhecimentos gregos por todo o mundo ocidental, influenciando outras civilizações.
Figura 5 – Atenas 
Dessa forma, a concepção de liberdade foi um elemento-chave na formação da identidade grega e deixou um legado cultural que se estendeu para além das fronteiras geográficas, influenciando a história da humanidade.
No entanto, com as guerras entre Atenas e Esparta, o império grego foi enfraquecendo, enquanto a Macedônia ganhava força. A cultura clássica grega passou por consideráveis modificações a partir do século IV a.C. até o século V d.C., e, em consequência, o povo grego precisou se reinventar.
Aponta Marcondes (2001) que esse período histórico, conhecido como helenismo, testemunhou a emergência de quatro visões distintas sobre a forma de viver no mundo grego: o cinismo, o ceticismo, o hedonismo e o estoicismo. Cada uma dessas correntes filosóficas trouxe contribuições importantes e representou diferentes perspectivas de busca pela felicidade e sentido da vida.
Figura 6 – Grécia 
O cinismo abraçava a ideia de viver em conformidade com a natureza, desapegado de bens materiais e convenções sociais, buscando uma vida mais autêntica e honesta. Assim, o cinismo, liderado pelo filósofo Diógenes, sustenta que a natureza oferece tudo o que é realmente necessário para a felicidade humana. Os cínicos defendiam a abolição de normas sociais, como a liberdade sexual, e acreditavam que instituições como o Estado, leis, dinheiro, propriedade e o casamento eram obstáculos para alcançar a verdadeira felicidade.
O ceticismo, por sua vez, questionava a possibilidade de alcançar a verdade absoluta e defendia a suspensão do juízo, buscando a tranquilidade interior através da suspensão do dogmatismo. O ceticismo, conforme descrito por Marcondes (2001, p.108), é uma doutrina que busca a tranquilidade da alma, tendo como principal tese a ideia de que para alcançar essa serenidade é necessário controlar o desejo de ter certezas absolutas. Nessa perspectiva, acredita-se que o ser humano não possui a capacidade de alcançar certezas inabaláveis.
Para alcançar a imperturbabilidade (ataraxia) e, consequentemente, a felicidade (eudaimonia), os céticos defendiam três princípios fundamentais:
APRAXIA (INAÇÃO)APHASIA (AUSÊNCIA DE DISCURSO) APATHIA (INSENSIBILIDADE FRENTE AO PRAZER E À DOR)
A ideia de que, ao suspendermos nossos julgamentos e ações, evitamos entrar em conflito com as situações e, assim, alcançamos um estado de paz interior.
Dessa forma, a busca pelo meio termo, pela suspensão de juízos e ações, bem como a moderação emocional, era considerada caminhospara alcançar a tranquilidade da alma e, consequentemente, a verdadeira felicidade.
O epicurismo foi uma escola filosófica fundada em Atenas por Epicuro, no ano 306 a.C. Essa corrente valorizava a inteligência prática e não via conflito entre razão e paixão. O epicurismo defendia que o prazer (hedoné) era um bem natural, porém deveria ser buscado com moderação e austeridade.
A ética epicurista se baseava na ideia de que o prazer deveria ser alcançado por meio da ação virtuosa. Essa perspectiva filosófica pode ser classificada como hedonista, pois entendia a moral como a busca da felicidade, compreendida como a satisfação de desejos e necessidades de caráter sensível.
Para Epicuro, a sabedoria consistia em calcular corretamente quais atividades proporcionaram maior prazer e menor sofrimento. Essa avaliação envolvia a consideração da intensidade e da duração dos prazeres buscados. Assim, o sábio era aquele que tinha a capacidade de discernir, com entendimento reflexivo, as escolhas que conduziriam à felicidade.
Portanto, as duas condições para ser sábio e alcançar a felicidade, segundo o epicurismo, eram o prazer, buscado de forma equilibrada e moderada, e a capacidade de reflexão para avaliar quais prazeres realmente trariam o bem-estar duradouro.
Ressalta Cortina e Martinez (2005) que o epicurismo possuiu uma abordagem filosófica abrangente, que também contemplava questões sobre a natureza do universo e a concepção do prazer como a ausência de sofrimento. Essa corrente filosófica teve influência significativa na história do pensamento ocidental, e suas ideias continuam a ser objeto de estudo e reflexão até os dias atuais.
Com essas melhorias, a redação apresenta uma exposição mais clara e completa sobre os princípios e a importância do epicurismo como uma corrente filosófica.
O estoicismo é considerado a mais universalista das escolas helenísticas, diferenciando-se dos epicuristas ao não concordar com a ideia de que não se deve sentir dor. Os estoicos compreendem que há situações inevitáveis e fora do controle humano, nas quais sentir dor é natural, pois está sujeito a uma ordem universal previdente, transcendendo a vontade individual.
Essa filosofia está embasada em duas hipóteses fundamentais: primeiro, a crença de que tudo no universo possui razão, e segundo que nada no universo é desprovido de matéria. Os estoicos viam o universo como um grande organismo, dotado de uma alma racional, uma razão cósmica que orienta o comportamento humano. Esse conceito está alinhado com o Determinismo, que postula que todos os acontecimentos são guiados por um plano e uma razão superior.
Esses estudos não se restringem apenas ao campo filosófico, mas também influenciaram as ciências, pois os estoicos acreditavam que a matéria viva era comandada por algo além de seu conjunto de células.
A ética estoica valoriza a sabedoria daquele que possui liberdade interior e tranquilidade em sociedade. Acreditam que existe uma razão universal que governa todos os acontecimentos e, portanto, o sábio deve se manter imperturbável diante das adversidades. Para eles, “[...] o bem supremo é viver de acordo com a natureza, sem se deixar levar por paixões ou afetos” (LAISSONE; AUGUSTO; MATIMBIRI, 2017, p. 15).
Figura 7 - Dúvidas e pensamentos 
Essa visão estoica, ao destacar a importância do controle interno, da serenidade e da harmonia com a ordem universal, exerceu significativa influência não apenas no âmbito filosófico, mas também na compreensão das ciências e na busca pela sabedoria e tranquilidade na vida cotidiana.
Em tal cenário, podemos destacar também outras concepções filosóficas sobre a ética como:
UTILITARISMODEONTOLOGISMOÉTICA DAS VIRTUDES
O utilitarismo é uma teoria ética que enfatiza a busca pela felicidade e o bem-estar geral. De acordo com essa abordagem, uma ação é considerada moralmente correta se produzir a maior quantidade de felicidade para o maior número de pessoas possível. O utilitarismo valoriza as consequências das ações e busca maximizar o prazer e minimizar o sofrimento. Portanto, o foco principal é o resultado e o impacto das ações na sociedade como um todo.
Cada uma dessas teorias éticas oferece perspectivas diferentes sobre como tomar decisões morais e avaliar ações. Elas variam em termos de ênfase nas consequências, deveres morais e virtudes pessoais. É importante lembrar que não há uma única teoria ética “certa” e que diferentes pessoas e culturas podem adotar abordagens éticas diferentes, dependendo dos valores e das crenças individuais.
2 ÉTICA E A DIGNIDADE HUMANA
Os direitos humanos são um conjunto de princípios e normas que buscam garantir dignidade, igualdade e liberdade a todas as pessoas, simplesmente por serem seres humanos. Esses direitos são universais, ou seja, aplicam-se a todos, independentemente de sua raça, cor, sexo, religião, origem, idade, condição social ou qualquer outra característica.
Figura 8 – Das pessoas 
Englobando, assim, as condições e possibilidades de vida necessárias para a sobrevivência humana na sociedade. Ninguém pode ser excluído do respeito a esses direitos, pois a exclusão social significaria negar a sua essência como ser humano.
A dignidade é inerente ao ser humano, e seus direitos são inalienáveis, fundamentando a liberdade, justiça e paz. Isso significa que os governos devem garantir o cumprimento desses direitos por meio de leis, sendo sua responsabilidade proteger a dignidade do povo. O governo deve ser consciente de suas responsabilidades para com os cidadãos, pois é sustentado por eles economicamente, politicamente e socialmente. O Estado de Direito deve proteger os direitos humanos para garantir que ninguém seja coagido em suas ações e que seus direitos sejam assegurados legalmente.
Dallari (2004) enfatiza que o crescimento econômico e o progresso material de uma sociedade possuem aspectos tanto negativos quanto positivos, sendo determinados pelas oportunidades oferecidas às pessoas. Essa questão política é essencial para a preservação da dignidade humana.
A promulgação da Declaração Universal dos Direitos Humanos em 1948 não apenas consagrou um conjunto de direitos fundamentais, mas também fortaleceu um sentimento de solidariedade entre as pessoas, estabelecendo assim a base para o conceito de direitos humanos. Essa base é fundamental para a construção de uma sociedade justa e igualitária, onde todos os indivíduos tenham suas necessidades essenciais respeitadas e possam viver com dignidade.
A cidadania tem suas raízes no latim e remete a ser um habitante da cidade (civitas). Na Roma antiga, essa palavra representava a posição política de uma pessoa e seus direitos em relação ao Estado Romano. Atualmente, a cidadania abrange um conjunto de direitos que possibilitam às pessoas participar ativamente da vida e do governo de sua comunidade. A falta de cidadania leva à marginalização ou exclusão social, deixando as pessoas numa posição de desvantagem dentro do grupo social.
ZOOM NO CONHECIMENTO
É importante ressaltar que a cidadania é um conceito dinâmico e evolutivo, que reflete a forma como os indivíduos se relacionam com a sociedade e exercem seus direitos e responsabilidades como cidadãos. Além disso, é fundamental promover a conscientização sobre a importância da cidadania ativa e participativa para o fortalecimento da democracia e a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.
As várias perspectivas sobre Direitos Humanos e Cidadania oferecem oportunidade de refletir sobre suas influências na vida humana em sociedade. A ideia de que esses direitos são moldados na interação entre razão e emoção, em um mundo diverso de relações, nos auxilia a compreender nossa identidade como seres humanos nesse contexto e como podemos viver de maneira mais plena. Valorizar as diferentes formas de linguagem e a diversidade cultural, a capacidade de dialogar e a consciência de nossos próprios sentimentos e emoções são aspectos essenciais para construir uma sociedade edificante e reflexiva, baseada em relações humanas, cidadãs e culturais. Ao incorporar essesprincípios, promovemos um ambiente de respeito mútuo, cooperação e compreensão, contribuindo para uma sociedade mais inclusiva e harmoniosa.
Os direitos que temos não são meramente concedidos, mas sim conquistados. A cidadania não se limita apenas aos ensinamentos dos livros, mas é adquirida por meio de experiências na vida social e pública. Ela é praticada em nosso convívio diário, nas relações que construímos com as outras pessoas, com o bem-estar coletivo e com o meio ambiente, abarcando questões fundamentais, como solidariedade, democracia, ética e valores humanos. Essa compreensão e vivência dos direitos e da cidadania são essenciais para promover uma sociedade mais justa e igualitária, onde a dignidade e os direitos de todos sejam respeitados e protegidos.
Comparato (2006) nos lembra que a aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos em 1948 foi um avanço significativo, baseado no tripé da Revolução - liberdade, igualdade e fraternidade. Esta declaração representou um marco importante, uma vez que todas as declarações anteriores se restringiam ao âmbito nacional.
Nesse sentido, o sistema capitalista, fundamentado nos interesses da classe burguesa, é analisado como gerador de consequências negativas, pois muitas vezes prioriza os interesses individuais em detrimento das normas éticas universalistas e altruístas que deveriam ser seguidas.
Em relação às normas éticas, Comparato (2006) nos alerta que elas só terão efetiva força quando estiverem presentes e ativas na consciência dos seres humanos e se alinharem aos interesses coletivos, e não apenas a interesses individuais, já que “nenhum grupo ou classe social pode ser feliz à custa da sociedade maior na qual se insere” (COMPARATO, 2006, p. 499).
A conexão entre ética e valores requer que os seres humanos compreendam sentimentos e ajam de forma racional para que estejam comprometidos com a ética. Nesse contexto, é fundamental estabelecer princípios e regras. Os princípios são normas gerais e abstratas, enquanto as regras são a aplicação prática dos princípios interpretados. É importante notar que as interpretações podem variar ao longo do tempo e entre diferentes culturas. Assim, fica clara a distinção crucial entre ética e moral.
Figura 9 – Nós existimos 
A ética pode ser vista como uma reflexão sobre os valores construídos culturalmente na moralidade, ou seja, na cultura. Dessa forma, os princípios que guiam o comportamento moral das pessoas na sociedade estabelecem as regras para a convivência humana. Portanto, a moral é a prática diária baseada nos princípios incorporados nas normas e regras sociais.
3 ÉTICA E CULTURA
É fundamental compreender como ocorrem as elaborações de valores no meio cultural e como os princípios são adquiridos na cultura. Em outras palavras, é importante entender o que acontece com os indivíduos no ambiente social e como a sociedade molda as pessoas nesse processo de internalização de valores.
Costa (1994) desenvolveu uma teoria cultural do Brasil, na qual destaca quatro características que integram o perfil da cultura brasileira: o cinismo, a delinquência, a violência e o narcisismo. O autor afirma que essas características têm mascarado a imagem do país. Segundo ele, no cotidiano brasileiro, encontramos pessoas de todas as índoles sociais: cínicos, delinquentes, homens violentos e lamentáveis narcisistas, todos se passando como pessoas corretas. Esses “heróis” dos tempos obscuros estão presentes por toda parte, e em certa medida, também fazem parte de nós mesmos.
Costa (1994) aborda os fundamentos teóricos de sua visão sobre a ética e apresenta, de forma sistemática, sua justificação para a questão ética. Ele discute argumentos técnicos e questões consideradas importantes para nossa vida moral, usando uma linguagem cotidiana destinada a um público geral, não apenas especialistas. Falar sobre ética não é algo simples e requer argumentos e compreensão.
O autor destaca que, ao discutirmos ética com ideias claras e distintas, chegamos a uma distinção entre o certo e o errado, o bem e o mal, a dor e a felicidade, o sofrimento e a alegria, a esperança e a descrença, a efemeridade e a permanência. Nesse sentido, ele afirma que ser humano significa ser passível de acertos e enganos, e é através dessas experiências que damos sentido e valor às palavras, como decisão e responsabilidade. Um mundo de certezas, segundo Costa, seria um mundo moralmente estático.
Assim, o mundo invisível que cerca o mundo real é o local onde os valores são construídos. Valores são produtos culturais, emergentes do cotidiano e das experiências das pessoas, influenciados pela ideologia vigente. Portanto, esses valores estão imersos no contexto social e, consequentemente, cultural no qual estamos inseridos, e aprendemos a internalizá-los por meio dessa convivência.
Costa (1994) explica que existe um mundo invisível onde os valores são gradualmente formados e internalizados na consciência humana, fazendo parte de suas ações cotidianas. Mesmo que muitas vezes não tenham plena consciência disso, as pessoas agem impregnadas por um conjunto de valores que definem e governam seu comportamento, tanto individual quanto coletivo.
A cultura desempenha um papel fundamental no estabelecimento desses valores. Em todas as esferas sociais e culturais em que o ser humano está inserido, como na família, escola e vivência cotidiana, os valores estão presentes. À medida que o homem se relaciona mais, ele incorpora e estabelece sua maneira de ver, julgar e agir socialmente baseado nos valores que adquiriu. Nesse sentido, a cultura desempenha um papel significativo na formação dos valores humanos.
Assim, as diferentes culturas moldam as formas de viver das pessoas e, em cada uma delas, os seres humanos buscam respostas para reflexões, medos e questões existenciais pessoais e coletivas, atribuindo eticidade a esses fenômenos. Com o enfoque no antropocentrismo, o indivíduo em sociedade torna-se o cerne da discussão. Aristóteles, um importante pensador da ética, sustentava que a ética se traduzia no conhecimento da essência humana e se fundamentava na prática da excelência moral, buscando a felicidade, o que impulsionava o indivíduo a ter comportamentos adequados nas relações com os outros.
Portanto, é essencial considerar a cultura ao refletir sobre a ética, pois se a ética é a reflexão e a moral é a prática, então os valores morais são forjados na cultura e nela que os princípios, normas e regras de comportamento humano são criados. Dessa forma, a ética se torna o espelho que reflete os valores e as manifestações culturais que orientam a conduta do ser humano na sociedade.
4 ÉTICA E A MODERNIDADE
Em uma análise crítica da modernidade no âmbito ético, Dupas (2001) argumenta que o avanço da ciência e da tecnologia, apesar de trazer um progresso material sem precedentes, também gerou um preocupante vazio ético. Esse vazio representa um risco não apenas para o planeta, mas para toda a humanidade, bem como para outras formas de vida presentes na Terra.
Segundo o autor, esse vazio ético surge da falta de princípios e valores em relação ao respeito pela existência do outro e pelas diversas formas de vida no planeta. A situação se agrava ao ser submetida à lógica do poder econômico, em que o capitalismo, através do processo de globalização, apropria-se do destino da tecnologia, direcionando-a predominantemente para a criação de valor econômico.
Essa perspectiva destaca a necessidade urgente de reavaliar o papel da ética na era da modernidade e da tecnologia, de forma a equilibrar o progresso material com a responsabilidade ética e o respeito ao meio ambiente e a todas as formas de vida que habitam o nosso planeta.
Neste contexto, ocorre um processo que prioriza o valor econômico em detrimento de outros aspectos, e essa dinâmica está diretamente relacionada ao fenômeno da globalização. Os países ricos, com sua hegemonia tecnológica, acabam subjugando os países mais pobres, resultando em desigualdade social e miséria. A tecnologia, quando se submete aos interessesdo capital e da acumulação de riqueza, acaba eliminando empregos em vez de criá-los. Além disso, ela é apresentada como portadora de princípios éticos, o que é resultado da predominante tecnofilia.
APROFUNDANDO
Como define Dal Bello e Dalberio, o termo “Tecnofilia” é um neologismo criado a partir da junção do radical grego “ -filia” (que significa amizade, proximidade) com a palavra “tecnologia”. Ele se refere a um comportamento de adesão, muitas vezes acrítica, em relação às novidades tecnológicas.
Essa visão destaca um afastamento da filosofia em favor da supremacia da técnica, onde o pensamento filosófico é subjugado pelo pensamento tecnicista e instrumental. Consequentemente, as tecnologias são encaradas como entidades complexas, não apenas como meros instrumentos. Isso leva as sociedades a aceitarem as tecnologias como detentoras de poder próprio, condicionando a humanidade a se acostumar com imagens de poder e destruição. Esse cenário acentua a extinção das boas intenções e das preocupações éticas, resultando na renúncia da liberdade de decisão.
Figura 10 – Com sabedoria atingimos o mundo.
Portanto, é fundamental questionar esse quadro e promover um diálogo mais amplo sobre os impactos éticos da tecnologia na sociedade, buscando uma abordagem que valorize o equilíbrio entre o avanço tecnológico e os princípios éticos que promovam a dignidade humana e o bem-estar coletivo.
No cenário de desolação ética e moral, Dupas (2001) destaca que a habilidade de dominar o conhecimento e o poder aparentemente ilimitado levam à ilusão de controle total, criando uma visão de um mundo onde é possível manipular, transformar e determinar a forma de pensar, representar, construir e agir.
Apesar das previsões negativas sobre o mundo moderno, ainda há uma frágil esperança de resgate dos valores éticos e morais. Isso aconteceria ao reconhecer que o poder monopolizado perde credibilidade ao se distanciar constantemente da ação prática. A ciência monopolista é constantemente questionada porque interesses técnicos obscurecem outras motivações, dificultando a legitimação do conhecimento. A sociedade, ao libertar-se das amarras de valores tradicionais, cresce em sua demanda por ética e princípios morais.
No contexto apresentado, a ética não deve ser encarada apenas como um conjunto de padrões de conduta. Viver em sociedade é desafiador, e os princípios morais são fundamentais em todas as esferas. As publicações científicas na área da Educação podem ter impactos tanto culturais, ao ampliar o conhecimento, quanto econômicos, ao resultar em avanços tecnológicos.
EM FOCO
Aqui, apresentamos os conceitos, a história e os fundamentos da ética. Que tal aprofundar um pouco mais no modo como esse conceito. Ficou curioso? Assista ao vídeo da unidade.
NOVOS DESAFIOS
Aqui, estamos nos aproximando do fim do Tema de Aprendizagem. Nesta unidade estudamos, que a ética não deve ser encarada apenas como um conjunto fixo de padrões de conduta, mas sim como uma discussão, interpretação e reflexão sobre as ações humanas. A convivência social é complexa e exige a observância de princípios morais.
Ao considerarmos a ética como uma reflexão sobre o comportamento humano em sociedade, podemos compreender melhor a convivência humana e os padrões de conduta que dela emergem. Isso nos possibilita também examinar os princípios que orientam os valores culturalmente estabelecidos.
Nesse sentido, é crucial resgatar a dignidade humana por meio de reflexões éticas, de modo que as regras, leis e normas sociais enfatizem o bem-estar humano e estejam a serviço do bem comum. Valores essenciais como paz, harmonia, felicidade, bem-estar, direito à vida digna, emprego decente, educação e moradia devem ser amplamente promovidos e protegidos legalmente.
O ser humano deve ser considerado em todas as suas dimensões, não sendo reduzido a um mero instrumento da cultura, a serviço de interesses que não valorizam sua humanidade. Essa perspectiva humana é mais importante do que quaisquer outros aspectos culturais, sociais, políticos, religiosos ou ideológicos. Portanto, a ética desempenha um papel fundamental nessa tarefa de resgatar o aspecto humano presente em cada indivíduo.
ÉTICA PROFISSIONALE SOCIEDADE
Laura Beatriz Pires
Juliana Laurentino Burger
MINHAS METAS
· Compreender como se desenvolve uma abordagem ética.
· Entender os pilares éticos que envolvem a elaboração de um código de ética.
· Compreender os deveres éticos profissionais.
· Compreender a importância do controle emocional para uma ação ética.
· Entender a importância da ética profissional nas empresas.
INICIE SUA JORNADA
O código de ética tem por base trazer o conjunto de princípios e diretrizes que orientam o comportamento e a conduta de indivíduos em determinada área de atuação. Seja no âmbito profissional, empresarial, acadêmico ou em qualquer outra esfera da sociedade, a existência de um código de ética é fundamental para estabelecer padrões de comportamento e promover relações baseadas em valores éticos sólidos.
PLAY NO CONHECIMENTO
Que tal conferir agora o episódio “Ética no trabalho: Qual a importância da ética nas organizações?” que explica a importância da ética profissional?
A promoção da confiança e da transparência é um dos principais aspectos da importância de um código de ética. O código de ética cria um ambiente onde os participantes podem confiar nas intenções e ações uns dos outros, definindo padrões claros de conduta. Isso é fundamental para estabelecer conexões positivas e duradouras, seja no trabalho, nos negócios ou nas interações sociais.
Um código de ética também ajuda as pessoas a tomar escolhas moralmente corretas. O código de ética fornece uma base sólida para a tomada de decisões, especialmente em situações complexas ou dilemas éticos, estabelecendo valores e princípios que devem ser seguidos. Ao promover a honestidade e a integridade, ele ajuda a prevenir comportamentos inadequados ou antiéticos.
Um código de ética ajuda a construir uma imagem positiva e respeitável, o que é um fator importante. Uma empresa, profissão ou comunidade que adota um código de ética abrangente demonstra um forte compromisso com a integridade e a responsabilidade. Essa postura moral fortalece a credibilidade e a reputação perante o público e os clientes.
Além disso, um código de ética ajuda a autorregular as atividades em uma área específica. O código promove a padronização e a qualidade dos serviços ou produtos oferecidos, criando um ambiente de competição justo e equilibrado, estabelecendo diretrizes claras e exigências éticas.
Figura 1 - Igualdade
Um código de ética é essencial para estabelecer padrões de conduta, criar relações de confiança, ajudar a fazer escolhas éticas, melhorar a imagem e a reputação e promover a autorregulação. Ao aderir e respeitar um código de ética, pessoas e grupos ajudam a construir uma sociedade mais moral, justa e responsável.]
Nessa linha, vamos compreender os aspectos históricos e conceituais que envolvem a criação de Códigos de ética Profissional.
DESENVOLVA SEU POTENCIAL
1 NOÇÕES INICIAIS SOBRE ÉTICA PROFISSIONAL
Segundo Chardin (1970), é importante reconhecer que os seres humanos passaram por um processo de “hominização”, ou seja, uma transformação do homem animal em um ser humano dotado de conhecimento evolutivo. Essa evolução é fundamental para compreender a importância da ética profissional no ambiente de trabalho.
Nesse sentido, a ética profissional e nos negócios é muito importante tanto para as pessoas que exercem uma profissão como para as empresas e organizações em geral. A ética profissional abrange as atividades das pessoas em suas profissões e também de associações profissionais e sindicatos. Já a ética nos negócios está relacionada ao comportamento ético das empresas e faz parte da cultura organizacional.
Figura 2 - Ética nas Empresas
No passado, a ética nos negócios era focada principalmente nas ações corretas dos profissionais dentro das organizações. Depois, os trabalhadores buscaram mais reconhecimento e até mesmoparticipação nos conselhos de direção das empresas. Com o tempo, a ética nos negócios passou a ser ensinada em cursos de administração e sua importância foi ampliada, considerando dimensões que antes não eram tão exploradas.
Com a expansão das empresas multinacionais para outros países, surgiram conflitos de ética devido às diferentes culturas, o que levou as organizações a estabelecer códigos de ética corporativos para orientar suas práticas. Além disso, o surgimento de novas profissões também exigiu o desenvolvimento de códigos de ética específicos. Essa evolução acadêmica foi intensificada a partir dos anos 1980.
Podemos definir a ética como a parte da filosofia que trata da moralidade das ações humanas, ou seja, o que é considerado certo ou errado. A ética se baseia na própria realidade humana, onde a razão reconhece a existência de princípios morais universais corretos. A ética profissional e nos negócios são fundamentadas nesses princípios morais universais, que são imutáveis e fazem parte da natureza humana.
Enquanto o comportamento das empresas é influenciado por fatores externos, sociais, impessoais e legais, o comportamento profissional surge da convicção interior das pessoas, baseada em princípios e valores. Ambas as éticas são importantes para orientar a conduta das pessoas e das organizações, buscando ações éticas que contribuam para a construção de uma sociedade melhor e mais justa.
Figura 3 - Legalidade
Assim, o profissionalismo é essencial no exercício de uma profissão, pois representa a habilidade, a competência e a preparação necessárias para realizar tarefas que requerem conhecimento técnico e científico. Ser um profissional ético é garantir que o trabalho seja bem feito, tanto do ponto de vista moral quanto profissional.
Quando um profissional atua de forma ética, baseando-se em um bom conhecimento técnico-científico e no reconhecimento social, contribui para um bom desempenho da economia. O profissionalismo como uma virtude é extremamente importante tanto para as empresas quanto para a sociedade como um todo. O mercado valoriza a competência profissional, ou seja, um trabalho dedicado, muitas vezes exigente, que busca fazer as coisas da melhor forma possível, tanto tecnicamente quanto cientificamente. Portanto, a cultura de um mercado livre só pode alcançar resultados positivos se houver um compromisso sério com o profissionalismo.
A ética, quando associada à excelência, desenvolve virtudes, que são qualidades que capacitam as pessoas a agir corretamente e com liberdade. São os valores transformados em ações. Mesmo que Aristóteles não estivesse se referindo especificamente às empresas, ele identificou várias virtudes importantes a serem vividas nessas instituições, tais como prudência, justiça, moderação, generosidade, ambição, sabedoria e amizade.
Assim, ser um profissional ético e trabalhar com profissionalismo não apenas beneficia a sociedade, mas também fortalece as empresas e contribui para o sucesso do mercado. É importante que os profissionais cultivem essas virtudes e coloquem-nas em prática em seu trabalho diário, buscando sempre agir de forma ética e realizar suas tarefas com excelência.
A maioria das profissões requer muito esforço, tempo de preparo técnico e humano, experiência e comprovação de eficiência antes que as normas para a constituição e o registro oficial de uma profissão sejam estabelecidas. Somente após isso, são avaliados os critérios para a concessão de um registro profissional e os padrões que os profissionais devem seguir para atuar corretamente, tanto em termos práticos quanto éticos.
As associações profissionais e os sindicatos têm a responsabilidade de zelar pelo profissionalismo de seus membros, pelo autogoverno das profissões e pela sua responsabilidade ética ou moral. A análise do papel dos profissionais nas organizações levou à criação de códigos de ética profissional. Nem todas as ocupações, no entanto, têm o prestígio, o respeito e o status social de autonomia como engenheiros, farmacêuticos, advogados e médicos. Cada vez mais, os membros de uma nova profissão estabelecem seus próprios padrões, regulam a entrada na profissão, disciplinam seus próprios membros e estabelecem um código profissional de conduta.
Um dos objetivos de um código de ética profissional é conscientizar os profissionais sobre os padrões de conduta pessoal e interpessoal que cada funcionário da organização deve seguir. As profissões que já se autorregulamentaram continuamente procuram precauções e respostas para as exigências antiéticas do mercado, cujo objetivo é sempre obter maiores margens de lucro.
Para proteger seus membros, algumas associações profissionais estão até estudando a possibilidade de estabelecer um contrato social que o profissional pode estabelecer com a empresa em que trabalha ou com a qual planeja fazer negócios. Esse contrato visa tornar público o alto nível de confiança e reputação do profissional, reforçando sua competência e qualidade no trabalho.
O cumprimento fiel dos deveres e obrigações de um profissional leva ao desenvolvimento de muitas virtudes, ou seja, à repetição de ações moralmente boas que o tornam útil para a sociedade em geral e para a organização em particular. As virtudes do funcionário levam a um trabalho competente, cumprimento do horário, evitar desperdícios de tempo, relatar imperfeições e cuidar da formação profissional.
O funcionário tem direito ao respeito por sua dignidade no ambiente de trabalho, compensação por acidentes, segurança social, aposentadoria, tempo para descanso e atender às suas necessidades religiosas, familiares e educacionais. Seu salário pode variar conforme a qualidade profissional, preparação prévia, riscos e dificuldades inerentes ao trabalho.
Os profissionais devem estar motivados a cooperar entre si e com a organização para a qual trabalham, a fim de alcançar objetivos específicos. As organizações mais estruturadas possuem hierarquia, regras, procedimentos e costumes. Muitas delas estabelecem códigos ou documentos que orientam o comportamento das pessoas que trabalham nelas. Portanto, uma das principais responsabilidades dos executivos modernos.
Muitas vezes, as pessoas se veem em conflito entre seus próprios valores morais e suas obrigações para com as organizações em que trabalham. Da mesma forma, os valores e atitudes das empresas podem ser diferentes dos valores da sociedade em que estão inseridas. Por exemplo, podem surgir questões de integridade quando há um conflito entre consumidores que desejam produtos seguros e de qualidade e fabricantes que buscam lucros adequados.
APROFUNDANDO
Quando os códigos de ética profissional não são suficientes para orientar os funcionários e a empresa não possui regras claras, a solução para reduzir conflitos acaba sendo recorrer às leis ou normas jurídicas. No entanto, a maioria dos problemas éticos parece surgir da gestão de recursos humanos e administração de pessoal, como avaliação de desempenho, contratação, demissão, rebaixamento, benefícios e relacionamentos no trabalho.
Devido à sua natureza social, as pessoas influenciam umas às outras por meio de suas ações. Na empresa, o esforço para alcançar as metas demonstra consideração pelos líderes e pelos colegas de trabalho. Fica claro, então, que a virtude exige uma atitude de buscar o bem, não apenas para si mesmo, mas também para os outros, e não apenas porque isso seja economicamente vantajoso.
O fator humano, cujo valor é essencial para o processo produtivo e por ser o destinatário desse processo, tem o direito de ser priorizado em relação aos recursos materiais e tecnológicos.
2 CONTROLE EMOCIONAL E A ÉTICA PROFISSIONAL
Atualmente, os estudos sobre as emoções e a ética estão se aproximando cada vez mais. O antigo enfoque filosófico, que se baseava principalmente em aspectos objetivos na análise do comportamento humano, está começando a se confrontar com algo impregnado de subjetividade, proveniente do campo das emoções e apoiado por uma “ciência do eu”.
Como dimensiona Antônio Lopes de Sá (2019) essa“ciência do eu” está surgindo com força e direcionando a atenção para uma perspectiva sobre a Inteligência Emocional, considerada como uma ponte entre o instinto e a razão.
Figura 4 – Etapas da ética
Nessa linha, as emoções são sentimentos que surgem a partir de nosso corpo e mente e podem nos impulsionar a agir. Quando percebemos algo através dos nossos sentidos, essa informação é processada em uma parte do nosso cérebro chamada “amígdala cortical”. A amígdala é como uma espécie de depósito de memórias emocionais específicas. É nessa região autônoma do cérebro que sentimentos como carinho e paixão são ativados.
Se não conseguirmos direcionar ou controlar o que acontece nessa parte do cérebro, corremos o risco de nos envolver em vícios e cometer erros, comprometendo nossa conduta e, consequentemente, também nossa ética, embora a ética em si seja uma questão mais racional.
ZOOM NO CONHECIMENTO
Existem muitas emoções e cada uma delas afeta as pessoas de maneiras diferentes. Elas podem ter influências positivas ou negativas na qualidade da nossa ética, como se fossem invasores do nosso processo de consciência. É importante reconhecer que a análise das emoções não pode ser ignorada nos estudos éticos, embora as emoções não sejam o foco principal da ética.
No campo científico, é comum buscar conhecimentos de outras áreas e considerar fenômenos relacionados. Como as emoções são o que nos impactam primeiro e o cérebro as recebe antes que a razão entre em ação, elas têm a capacidade de influenciar e até anular a nossa capacidade de pensar racionalmente. Por isso, os estudos éticos devem acompanhar os avanços na chamada “ciência do eu”, que se dedica à Inteligência Emocional. Assim, a razão e sentimento são coisas independentes, mas é importante que estejam em harmonia para uma conduta eficaz.
A perturbação causada pelas emoções é como uma substância tóxica e pode gerar três grandes problemas que atrapalham a formação e evolução de uma consciência ética: raiva, ansiedade e depressão.
As emoções têm um poder significativo, por isso é necessário aprender a controlá-las para desenvolvermos nossa própria vontade ética. É importante lembrar que a vontade ética opera em uma área diferente do cérebro. Quando não conseguimos dominar nossas emoções, isso perturba a ação do nosso “eu” e inevitavelmente influencia a formação de uma consciência ética.
Uma habilidade importante que devemos desenvolver é a inteligência emocional, que nos permite controlar nossas emoções e guiá-las conforme os princípios éticos. Podemos entender a inteligência emocional como o uso da razão para dominar nossas emoções, de forma competente, de modo a agirmos conforme a nossa vontade ética.
Lições antigas, como as ensinadas por Buda, já nos alertavam sobre a necessidade de suprimir emoções intensas, como o desejo, e substituí-las por uma consciência inteligente que guie os nossos sentidos.
Essa sugestão do grande filósofo oriental, que trazia consigo princípios éticos, hoje é reconhecida cientificamente como algo necessário. É importante que cada pessoa se prepare emocionalmente e acione sua inteligência emocional, para que possamos ter uma conduta de excelência ética.
Essa perspectiva filosófica, trazida por Buda, agora se desenvolve na chamada “ciência do eu”, que estuda justamente a conduta humana e está diretamente relacionada ao campo ético. Surge então um campo de conhecimento dedicado ao que chamamos de “ciência do eu”, cujo objetivo é oferecer ferramentas para o controle das emoções, evitando que elas ultrapassem os limites do razoável e acabam impedindo ou distorcendo uma conduta virtuosa e serena, ou seja, uma conduta com qualidade ética.
2.1 SOCIEDADE E EMOÇÃO
É preocupante observar que o mundo atual está repleto de egoísmo, violência, ganância e busca desenfreada por bens materiais. Esses comportamentos prejudicam as relações éticas e, na maioria, surgem de uma predominância das emoções sobre a razão.
Há dois mil anos, Cícero (1969) defendeu em sua obra sobre a amizade a ideia de que um verdadeiro amigo é aquele que consegue se identificar com a outra pessoa, enxergando nela uma extensão de si. Essa visão precursora do modernismo nas ciências da mente destaca a importância de uma conduta que valoriza a empatia e a conexão interpessoal.
Quando várias pessoas ou indivíduos poderosos agem de forma inadequada, isso pode gerar consequências negativas para a sociedade como um todo. Existem diversos fatores que podem levar uma sociedade a desequilíbrios emocionais. Os vícios, quando são frequentes e expressivos, podem se tornar verdadeiras deformações sociais, levando a atitudes desumanas, como a disseminação do ódio racial, religioso ou político, resultando em terrorismo, conflitos, revoluções armadas, guerras e outros problemas.
Quando um grupo dominante não controla suas emoções, isso causa males que atingem pessoas inocentes e envergonham a humanidade. Ao longo da história, vemos exemplos de desastres sociais causados pela incompetência e pela ausência de inteligência emocional por parte dos líderes, demonstrando uma profunda falta de humanidade. O Holocausto na Alemanha e os bombardeios atômicos realizados pelos Estados Unidos em cidades japonesas são apenas dois exemplos dessas tragédias.
Nada justifica a exploração, a escravidão, a especulação e qualquer forma de prejudicar um ser humano em benefício de outro. Todas essas ações são prejudiciais à sociedade e vão contra os princípios éticos. A mente, as emoções e o corpo estão interligados, e quando esses aspectos estão em harmonia, podem promover uma conduta humana de qualidade ética.
Os sentimentos emocionais têm influência sobre as pessoas, mas se forem guiados pela inteligência, pela razão e pelo autocontrole, podem levar a um comportamento ético exemplar. Coordenar as emoções com a razão, por meio da inteligência emocional, beneficia a nossa conduta e, consequentemente, a ética.
Uma educação baseada nos princípios éticos oferece às pessoas um maior conhecimento e uma visão mais ampla dos problemas, o que tende a resultar em uma conduta de melhor qualidade. A inteligência emocional é um recurso importante para controlar as reações impulsivas.
Cada pessoa lida com as emoções de maneira diferente, já que cada cérebro é único. No entanto, não devemos desistir de buscar formas de utilizar melhor a inteligência emocional e nem deixar de considerar a ética, apenas porque há uma diferença conceitual entre comportamento e conduta.
Figura 5 – Cada pessoa tem a sua história
O caráter objetivo da ética, em contraste com o caráter subjetivo das emoções, não impede a análise e a correlação entre esses fenômenos, visando a uma conduta de qualidade.
Vale ressaltar que a falta de motivação também pode afetar negativamente o controle emocional e comprometer as interações humanas. A maneira como a informação é transmitida, seja pela imprensa ou por outros meios, pode influenciar as emoções das pessoas. Uma mídia que foca apenas em notícias agressivas pode motivar a violência, enquanto uma abordagem que promova o bem tende a motivar a virtude.
É importante destacar que governos e grupos econômicos utilizam a manipulação da informação como uma forma de abuso de poder, despertando emoções, acelerando o consumo e manipulando as pessoas diante da mentira. Por outro lado, em países mais desenvolvidos, busca-se motivar cada vez mais a população a acreditar em seu potencial e no poder de suas nações.
Figura 6 – Aprendendo
A motivação tem influência sobre as emoções e, consequentemente, sobre a ética. Não é racional ignorar a relação entre o estudo da ética e o estudo da inteligência emocional, mesmo que alguns pensadores e estudiosos acreditem que emoção e ética sejam assuntos totalmente distintos.
Na mesma linha, estudar um assunto correlato não significa distorcer o conhecimento original. Entre os estímulos mentais, as emoções desempenham um papel importante como porta de entrada para um complexo conjunto de reações. Embora nem sempre seja aconselhável para a conduta, é importante analisar as emoçõesde forma correta.
Parece que, em geral, tendemos a resolver primeiro os nossos próprios problemas, depois os problemas dos outros e, por último, os problemas da sociedade em geral.
No entanto, no exercício da nossa profissão, é importante dar mais importância às questões sociais. Trabalhamos para servir aos outros e, através disso, atendemos às nossas próprias necessidades.
É fundamental entender que, no trabalho, não estamos isolados, pois para prestar um serviço é necessário que alguém solicite esse serviço. Agir de forma egoísta em nossa profissão resultará em uma carreira curta. A educação baseada em princípios morais, como a ética, requer uma visão ampla: considerar tanto o nosso grupo social mais próximo, como também a sociedade em geral, incluindo a nação e o Estado.
Quanto mais as classes se enfraquecem e a sociedade se torna vulnerável, mais tirano o Estado pode se tornar, e mais fraca a nação fica em relação a outras. O trabalho é um dever social, não apenas pelos efeitos materiais que produz, mas também pela sua utilidade para o coletivo, exigindo que deixemos de lado o egoísmo e busquemos a felicidade geral.
Nesse sentido, os profissionais que se destacam e ocupam posições de liderança têm a responsabilidade de promover a prática da virtude e a qualidade do trabalho. Essa conduta deve partir não apenas dos profissionais mais renomados, mas também daqueles que não alcançaram grande destaque. As instituições profissionais devem facilitar essa tarefa, transmitindo confiança e admiração pelas atuações.
É essencial que os profissionais estimulem e respeitem uns aos outros, além de conduzirem suas entidades para coordenar e liderar essas campanhas. Sabemos que essa consciência holística não é fácil de ser alcançada, principalmente devido às decepções causadas por um Estado corrupto e perdulário. No entanto, se cada um fizer sua parte para melhorar a consciência coletiva de sua categoria e da nação, estará contribuindo para dias melhores.
Não devemos confundir Estado com sociedade nem poder público com interesse dos cidadãos, pois essas posições podem entrar em conflito com a moral. Nosso esforço deve ser no sentido de respeitar nossos semelhantes como objetivo de vida. Se pararmos para pensar em quantas pessoas trabalharam para que pudéssemos tomar uma simples xícara de café, perceberemos o quanto somos beneficiados por esse processo social e o quanto somos moralmente obrigados a ele. Se a classe política está corrompida, isso não deve ser motivo para que os profissionais também se corrompam.
Ao longo da história, os profissionais foram e continuam sendo responsáveis por reformas sociais e revoluções políticas autênticas. Isso nos mostra que há uma responsabilidade não apenas social, mas também histórica em relação à atuação dos profissionais.
APROFUNDANDO
A ética estuda os atos programados no cérebro, mas não deve ignorar os fatores que podem influenciar essa programação.
Portanto, a falta de controle emocional e a falta de motivação podem afetar a qualidade ética. É fundamental buscar uma abordagem que una o conhecimento científico com a compreensão da inteligência emocional, a fim de promover uma conduta ética de excelência.
3 ÉTICA E PROFISSÃO
A profissão, como uma atividade específica realizada para beneficiar outras pessoas, está inserida na sociedade e exige uma conduta ética adequada. Existem diferentes aspectos do comportamento profissional em relação ao conhecimento, aos clientes, aos colegas, à classe, à sociedade, à pátria e à humanidade como um todo.
APROFUNDANDO
A ética profissional é relativa e deve ser analisada considerando a necessidade de uma conduta que tenha efeitos amplos e globais, mesmo em culturas diferentes. A profissão envolve uma relação entre necessidade e utilidade, exigindo uma conduta específica para o sucesso de todas as partes envolvidas.
Quando uma pessoa exerce sua profissão, ela se beneficia, assim como a pessoa que recebe os serviços também se beneficia. No entanto, nem tudo que é útil para duas partes é útil para terceiros ou para a sociedade como um todo.
Figura 7 – Sociedade
Por exemplo, um empresário precisa de um contador para orientá-lo sobre seus negócios, e o contador precisa do trabalho oferecido pelo empresário. Essa relação direta entre prestador de serviço e beneficiário é uma troca útil. O contador tem a oportunidade de mostrar suas habilidades e construir uma reputação profissional.
No entanto, para construir uma reputação sólida, não basta apenas ter competência técnica e científica. Uma conduta ética também é essencial. Se houver apenas competência técnica, sem uma conduta virtuosa, o conceito profissional pode ser abalado, especialmente em profissões que envolvem maiores riscos. Por exemplo, um advogado que defende o réu e também atua em favor do autor está violando um princípio ético e prejudicando sua reputação como profissional.
As práticas corruptas comprometem a conduta e estabelecem um comportamento vicioso. A profissão pode elevar-se por meio de ações corretas e competentes, mas também pode ser desacreditada devido a condutas inadequadas que violam princípios éticos.
É importante destacar que a utilidade de uma profissão não é necessariamente acompanhada pela ética. Por exemplo, o advogado mencionado anteriormente prestou um serviço útil para o cliente, mas sua conduta foi condenável eticamente.
É preciso reconhecer que o trabalho individual de um profissional não afeta apenas seu grupo profissional, mas também influencia e recebe influências do meio onde é praticado. Quando um profissional compreende o valor social de sua ação e age em prol do bem comum, suas realizações podem ter um impacto significativo.
Figura 8 – Com sabedoria atingimos o mundo
Quando o Estado, como uma organização criada pela sociedade, promove a ideia do coletivo e administrações públicas são transparentes e justas, a consciência social é exercida com maior influência. No entanto, um exercício ineficaz da autoridade e um poder corrupto podem abalar a vontade de cooperação com o Estado, levando a atitudes negativas para com a nação e a sociedade.
Portanto, é essencial que as profissões estejam a serviço do bem social, tanto em relação às necessidades individuais quanto ao bem coletivo. Quando os profissionais agem em favor da cooperação social, isoladamente e por meio de suas entidades representativas, alcança-se o estágio ideal desejado.
No entanto, para que isso aconteça, é necessário que exista uma atmosfera moral competente, o que nem sempre é observado em nossa época. Muitas vezes, vemos instituições em decadência, ineficácia e corrupção, gerando um sentimento de amargura e clamor por uma mudança radical.
A política e a ética não acompanharam as mudanças do mundo, e o poder se concentrou nas mãos de grupos pequenos que tomam decisões baseadas em seus próprios interesses, enquanto o povo tem pouca influência nas decisões que afetam suas vidas. Essa falta de participação direta do povo nas decisões políticas cria um clima de insatisfação, que pode se manifestar em terrorismo, conflitos e outras formas de descontentamento.
Figura 9 – Luta por direitos
É importante que as profissões estejam voltadas para o bem social, tanto para as necessidades individuais quanto para o bem coletivo. Quando os profissionais agem de forma responsável e cooperativa, buscando o benefício de todos indiscriminadamente, é possível alcançar um estágio ideal. É fundamental existir uma consciência do valor social da profissão e um comprometimento com uma conduta ética.
Para construir uma sociedade mais justa e ética, é necessário que profissionais, instituições e governos estejam alinhados em prol do bem comum, superando a ineficácia e a corrupção. A ética profissional não deve ser negligenciada, pois é um componente essencial para uma sociedade saudável e equilibrada.
3.1 DEVERES PROFISSIONAIS
Todos os conhecimentos necessários para desempenhar uma profissão de forma eficaz são deveres éticos. Quando exercemos uma profissão, temos a responsabilidade de prestar um serviço útil aosoutros e isso implica em cumprir uma série de obrigações em relação ao nosso trabalho.
Esses deveres regem nossas ações em relação aos clientes, colegas, sociedade, estado e, especialmente, em relação a nós mesmos, incluindo nossa saúde mental e espiritual. Existem diferentes valores e importâncias atribuídos a cada profissão. Podemos falar sobre uma ética profissional de forma ampla, mas também podemos considerar uma Ética Profissional aplicada a cada área específica, como contabilidade, direito, medicina, etc.
Quando escolhemos uma profissão, devemos consultar nossa consciência para saber se é realmente o que desejamos fazer e se temos aptidão para isso. Nem sempre a escolha profissional coincide com nossa vocação, mas uma vez feita a escolha, assumimos um compromisso com o trabalho que nos propomos a realizar. Esse compromisso está relacionado à produção de um trabalho de qualidade, que requer esforço e busca pelo melhor resultado.
O dever profissional nasce da escolha e do conhecimento da profissão, bem como da execução adequada das tarefas, pautadas por valores e princípios éticos. Não basta apenas escolher uma profissão, como administrador, advogado, médico, professor, etc. É preciso ter uma ligação emocional e prazerosa com a tarefa, fazendo com que ela seja realizada com amor e desejo de fazer o melhor trabalho possível.
A escolha da profissão deve estar alinhada com nossas vocações e com o amor pelo que fazemos. Quando existe essa conexão, é menos provável que ocorram transgressões éticas, pois estaríamos indo contra nossa própria vontade e essência.
Exercer uma profissão requer adquirir um conhecimento completo, dominar as tarefas e saber executá-las corretamente. Além disso, é necessário se atualizar constantemente e buscar aperfeiçoamento cultural.
É condenável aceitar um trabalho para o qual não temos capacidade, pois isso pode causar danos. Aceitar um serviço sem ter a competência necessária ou sem se dedicar o suficiente é uma infração ética, pois pode resultar em prejuízo para outras pessoas.
Buscar a perfeição na execução de uma tarefa é um dever do profissional, que depende do conhecimento e da aplicação completa desse conhecimento. Um trabalho mal feito pode causar sérios problemas. Mesmo quando sabemos como fazer, se não executarmos de acordo com nosso conhecimento, estaremos agindo de forma negligente e infringindo princípios éticos.
Desconhecer como realizar uma tarefa ou saber apenas parte do que é exigido para ser eficaz é uma conduta que vai contra os princípios éticos. Por exemplo, um advogado que não se especializou em direito tributário pode cometer erros ao elaborar um contrato para uma empresa, prejudicando-a perante o fisco. Um médico especializado em ortopedia que trata um paciente com rinite alérgica também pode cometer erros graves.
Figura 10 - Ética médica
Conhecer o que fazemos não se resume apenas a acumular teorias e experiências. É necessário ter um domínio completo sobre a tarefa que desempenhamos. O dever de conhecer envolve estar apto em termos de ciência, tecnologia, arte ou qualquer área específica em que atuamos. Precisamos dominar tudo o que está envolvido no desempenho eficaz da nossa tarefa.
Ter conhecimento significa saber como executar uma tarefa e também ter pleno domínio sobre o que deve ser feito. É um dever ético-profissional dominar o conhecimento, pois isso é essencial para a qualidade e eficácia do trabalho que realizamos.
Se não aplicarmos plenamente nosso conhecimento ou não tivermos um domínio completo da tarefa, estaremos agindo de forma contrária aos princípios éticos. Não podemos separar a utilidade da profissão da sua eficácia. Se o conhecimento não supre a necessidade do cliente ou não é totalmente aplicado na execução da tarefa, não podemos falar em eficácia, a menos que ocorram circunstâncias excepcionais.
No entanto, circunstâncias pontuais podem afetar a qualidade de uma tarefa. Mas quando a ineficácia é intencional ou resultado de negligência, isso é considerado um erro, tanto perante a lei como perante os princípios éticos. Nada, por menor que seja, justifica um trabalho ineficaz, intencional ou negligente. A qualidade da execução é fundamental e devemos nos esforçar para alcançá-la.
Os deveres profissionais são fundamentais para guiar nossa conduta no exercício de uma profissão. Eles envolvem a busca pelo conhecimento, o domínio das tarefas, a atualização constante e a prática de uma conduta ética. Quando escolhemos uma profissão alinhada com nossa vocação e realizamos nosso trabalho com amor e dedicação, somos mais propensos a agir de forma ética e a alcançar resultados de qualidade.
EM FOCO
Nesta unidade, nos aprofundamos nos fundamentos sobre a ética profissional e a sociedade. Que tal assistir ao vídeo e revisar todos os conceitos aprendidos? Vamos lá!
NOVOS DESAFIOS
Aqui, estamos nos aproximando do fim do Tema de Aprendizagem. Nesta unidade estudamos, que a ética profissional desempenha um papel crucial para o funcionamento adequado e eficiente de qualquer ambiente de trabalho. Ela envolve um conjunto de princípios e valores morais que orientam o comportamento dos profissionais em suas atividades laborais, promovendo a integridade, a responsabilidade e o respeito nas relações profissionais.
Assim, evidenciamos a importância da ética profissional em diversos aspectos. Primeiramente, ela contribui para a construção de uma reputação sólida e confiável para os profissionais e suas organizações. A conduta ética cria um ambiente de confiança tanto internamente, entre colegas e colaboradores, quanto externamente, com clientes, fornecedores e a sociedade em geral. Isso fortalece a imagem e a credibilidade da empresa, gerando benefícios como a fidelização de clientes, parcerias duradouras e uma vantagem competitiva no mercado.
Além disso, a ética profissional guia as decisões e ações dos indivíduos no ambiente de trabalho. Ela oferece uma estrutura moral que ajuda os profissionais a enfrentarem dilemas éticos e a tomar decisões baseadas em princípios sólidos. A ética profissional promove a transparência, a honestidade e a imparcialidade, evitando práticas antiéticas, como corrupção, discriminação, assédio e outras condutas prejudiciais.
Também é importante salientar o papel da ética profissional na construção de um ambiente de trabalho saudável e colaborativo. Ela promove o respeito mútuo, a valorização da diversidade, a igualdade de oportunidades e a promoção de relações justas entre os profissionais. Isso cria um clima organizacional positivo, estimula a motivação e a satisfação dos colaboradores, e favorece o trabalho em equipe e a produtividade.
Além disso, ela está diretamente ligada à responsabilidade social das empresas e profissionais. Ela orienta a maneira como as organizações interagem com a comunidade, o meio ambiente e a sociedade em geral. Profissionais éticos consideram não apenas o lucro e os interesses próprios, mas também o impacto de suas ações no bem-estar coletivo e no desenvolvimento sustentável.
Em resumo, a ética profissional é essencial para a construção de uma cultura organizacional saudável, o estabelecimento de relações de confiança e o sucesso sustentável das empresas. Ela não apenas norteia as ações individuais, mas também cria um ambiente de trabalho respeitoso, colaborativo e moralmente responsável. Investir na promoção da ética profissional é investir em um futuro mais ético, justo e próspero para as organizações e a sociedade como um todo.
ESPONSABILIDADE SOCIAL E A IMPORTÂNCIA DE UMAATUAÇÃO GESTACIONAL
Laura Beatriz Pires
Juliana Laurentino Burger
MINHAS METAS
· Promover a conscientização sobre questões sociais que envolvem a responsabilidade social.
· Fomentar a reflexão crítica sobre os problemas sociais e a refletirem sobre as implicações éticas e morais dessas questões.
· Explorar estratégias de sustentabilidade.
· Aprender sobre práticas sustentáveis e a compreensão dos impactos ambientais das atividades humanas e a busca por soluções sustentáveis ​​para desafiossociais.
· Compreender a importância da ação e o ativismo.
INICIE SUA JORNADA
A Responsabilidade Social (RS) desempenha um papel fundamental no contexto das mudanças e transformações globais que estão ocorrendo em nosso mundo atual. Essas mudanças afetam não apenas as empresas, mas também a sociedade como um todo, nos aspectos sociocultural, econômico e ambiental.
As empresas são atores-chave nesse cenário em constante evolução. Elas não são apenas responsáveis por suas próprias ações e resultados, mas também têm a responsabilidade de lidar com as consequências mais amplas de suas operações. Elas estão profundamente inseridas na sociedade, estabelecendo interações com instituições, cidadãos e representantes em diferentes níveis.
Figura 1 - Responsabilidade social muda o mundo
A RS envolve um compromisso contínuo com a ética, a transparência e o respeito pelos direitos humanos. As empresas são desafiadas a reconhecer e responder às necessidades e expectativas da sociedade em que estão inseridas. Elas devem considerar o impacto de suas atividades nos aspectos sociais, culturais, econômicos e ambientais, buscando contribuir para o desenvolvimento sustentável e para o bem-estar da comunidade em geral.
Ao adotar a RS, as empresas buscam ir além do simples cumprimento das obrigações legais. Elas se esforçam para serem agentes de mudança positiva, promovendo iniciativas que tenham impacto social, como programas de responsabilidade ambiental, projetos de inclusão social, ações de apoio à educação e saúde, entre outros.
Essa abordagem consciente e proativa traz benefícios tanto para as empresas quanto para a sociedade. As empresas que adotam a RS constroem uma reputação sólida e confiável, conquistam a confiança dos consumidores e investidores, além de atrair e reter talentos engajados. Elas contribuem para a criação de comunidades mais justas e sustentáveis, estimulando o desenvolvimento econômico e social.
No entanto, é importante ressaltar que a RS não é um objetivo estático a ser alcançado, mas um processo contínuo de aprendizado e melhoria. As empresas devem estar sempre atentas às mudanças nas necessidades e expectativas da sociedade, adaptando suas práticas e buscando soluções inovadoras para os desafios sociais e ambientais. Nesse sentido, vamos nesta unidade analisar os instrumentos, os indicadores e a implantação da RS.
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1 RESPONSABILIDADE SOCIAL E A TECNOLOGIA
A RS é um conceito que se conecta diretamente com as mudanças e transformações que ocorrem na sociedade contemporânea, como mencionado no texto. O conceito de cidadania corporativa reconhece que as empresas desempenham um papel crucial na formação da sociedade, tornando-se agentes e sujeitos decisivos nesse processo.
Eventos negativos envolvendo as organizações, como escândalos financeiros, acidentes ambientais, corrupção de funcionários públicos, apoio a ditadores, exploração do trabalho humano e ações que alimentam conflitos armados, provocam um despertar de consciência nos líderes empresariais. Esses episódios de irresponsabilidade têm levado cada vez mais líderes a repensar suas práticas e adotar uma cultura empresarial responsável.
Figura 2 - Tecnologia e inovação
Os avanços tecnológicos, a intensificação da globalização e as reformulações no papel do Estado têm contribuído para a ampliação da consciência social nas empresas. A rápida aceleração do processo de inovação tecnológica permite que as organizações estejam mais conectadas e conscientes das questões sociais e ambientais que afetam suas operações. A globalização, por sua vez, aumentou a interdependência entre as empresas e as comunidades ao redor do mundo, tornando-as mais conscientes de seu impacto global.
Os processos de reformulação do papel do Estado também desempenham um papel importante no fortalecimento da RS. À medida que o Estado busca um equilíbrio entre regulamentação e liberdade econômica, as empresas são incentivadas a assumir um papel mais ativo na solução dos desafios sociais e ambientais. Isso impulsiona o desenvolvimento de políticas e práticas corporativas mais responsáveis.
A RS torna-se, assim, uma resposta à história de irresponsabilidade dos setores produtivos. À medida que a consciência sobre o impacto das ações empresariais aumenta, os líderes empresariais reconhecem a necessidade de adotar uma postura responsável e sustentável em relação à sociedade e ao meio ambiente.
Figura 3 - Meio Ambiente
Nesse contexto, a RS não é apenas uma obrigação ética, mas também uma estratégia inteligente para as empresas. Ela fortalece a reputação da organização, promove a confiança dos consumidores e investidores, atrai talentos engajados e contribui para um ambiente de negócios mais sustentável.
Assim, podemos entender que a RS é uma resposta direta às mudanças e tendências que afetam as sociedades e as instituições empresariais. Ela surge como uma maneira de redefinir o papel das empresas na sociedade, promovendo uma cultura empresarial responsável que busca ativamente abordar os desafios sociais, ambientais e éticos. Ao fazê-lo, as empresas podem desempenhar um papel significativo na construção de uma sociedade mais justa, equitativa e sustentável.
A aceleração do avanço tecnológico, especialmente no campo da informática e das comunicações, tem um impacto direto em todos os setores produtivos. Estamos testemunhando uma revolução no conhecimento, tanto em termos de conteúdo quanto na velocidade com que é gerado, resultando em mudanças rápidas como nunca antes vistas.
Por outro lado, a globalização está alterando a dinâmica tradicional dos estados nacionais. Existe um processo acelerado de disseminação global de novas tendências e processos, sem o controle estatal.
O papel do Estado, por sua vez, está passando por uma reformulação. Gradualmente, ele está perdendo sua função tradicional de executor e intervencionista, assumindo uma função mais reguladora e transferindo responsabilidades e funções para o mercado e a sociedade em geral. As organizações da sociedade civil estão assumindo maiores responsabilidades, e valores como solidariedade estão se disseminando, impulsionando ações sociais voltadas para melhorar a qualidade de vida de grupos que antes dependiam exclusivamente do Estado.
Essas transformações na inovação tecnológica, na globalização e no papel do Estado estão interconectadas e desencadeiam mudanças significativas na forma como as sociedades operam. A velocidade das mudanças exige que as empresas, organizações e indivíduos se adaptem e respondam de maneira ágil e flexível.
É importante reconhecer essas mudanças e se adaptar a elas, tanto no âmbito empresarial quanto no social. A compreensão dessas tendências e sua incorporação em práticas e estratégias é essencial para garantir a relevância e a sustentabilidade a longo prazo das organizações.
Em tal eixo, a aceleração da inovação tecnológica, a globalização e a reformulação do papel do Estado estão moldando a dinâmica atual da sociedade. Essas transformações exigem que as organizações sejam mais ágeis e adaptáveis, e também promovem um maior envolvimento das organizações da sociedade civil na busca de soluções para melhorar a qualidade de vida. Compreender e abraçar essas mudanças é fundamental para enfrentar os desafios e aproveitar as oportunidades do mundo em constante evolução.
Nesse contexto geral, o conceito de empresa está passando por uma transformação significativa. Estamos deixando para trás a visão anterior, que enfatizava o lucro de curto prazo como principal objetivo, juntamente com uma estrutura hierárquica em que a produtividade dependia principalmente de melhorias técnicas nos equipamentos e otimização de procedimentos específicos para obter maior eficiência na repetição de tarefas.
Em seu lugar, surge uma nova concepção de empresa que se caracteriza pela consciência de que deve promover mudanças em sua lógica de funcionamento, considerando vários aspectos, principalmente no âmbito econômico, onde devem continuar operando e gerando benefícios; no âmbito trabalhista,buscando melhorar a produtividade dos funcionários; e na comunidade, onde devem atuar em harmonia com o ambiente em que estão inseridas.
Quando as empresas atuam, elas geram uma variedade de impactos. Identificar esses efeitos, tanto negativos quanto positivos, é essencial para compreender o significado de suas ações. No século XXI, o impacto das empresas na sociedade tem aumentado, pois elas se multiplicaram consideravelmente para atender às demandas de uma população global que já ultrapassa sete bilhões de habitantes. Esses impactos são diversos e abrangem várias áreas.
Figura 4 - Meio ambiente e proteção
Há impactos econômicos, uma vez que a vida e o futuro das pessoas dependem em grande parte das decisões de investimento, localização, realocação e deslocamento das empresas em diferentes localidades e países. Também há impactos ambientais, pois os processos de produção e os produtos gerados afetam o ambiente natural. Por outro lado, a demanda global por produtos está em constante crescimento, contribuindo para a gradual exaustão dos recursos naturais. Além disso, as sociedades estão cada vez mais sensibilizadas para questões ambientais, levando a um aumento das exigências ecológicas em relação aos processos de produção e aos produtos gerados pelas empresas.
Os impactos sociais são significativos, especialmente os relacionados às grandes corporações, devido às mudanças que impõem às sociedades onde estão localizadas. Essas mudanças alteram as relações sociais, facilitam a ascensão social para alguns e, ao mesmo tempo, dificultam para outros, aumentam a exploração do trabalho humano e contribuem para a modificação do espaço onde se estabelecem. Além disso, provocam a transformação de valores, hábitos e costumes estabelecidos.
Os impactos causados pelas empresas ocorrem em um contexto em que o Estado e os sindicatos, que antes se opunham ao poder do mercado e dos empresários ao longo do século XX, estão perdendo sua capacidade de intervir devido à globalização econômica e à facilidade das empresas em se deslocarem para qualquer lugar do mundo quando desejam manter seus lucros. Isso significa que as empresas têm um poder considerável ao escolher onde operar.
Essa mudança de contexto ideológico acelerou-se após a queda do Muro de Berlim em 1989 e o colapso do Estado Soviético em 1991. As empresas deixaram de ser vistas como defensoras de uma classe específica, como era comum no século XX, e passaram a ser percebidas como agentes sociais inseridos na sociedade. Isso lhes deu uma nova forma de legitimidade aos olhos dos cidadãos. Por sua vez, isso aumentou o compromisso das empresas com os impactos sociais de suas atividades.
Essa mudança também levou a uma maior interação e participação da sociedade nas empresas. Agora, reconhecemos que há diversas partes interessadas nos processos internos das empresas, como administrações locais, grupos ambientalistas e comunidades locais. Manter segredos internos tornou-se mais difícil devido às tecnologias disponíveis para as comunidades envolvidas. O isolamento não é mais uma opção viável para as empresas, já que é impossível se isolar completamente.
Por outro lado, essa maior interação das empresas com a sociedade aumentou sua vulnerabilidade. No entanto, elas também ganharam poder em relação a outros atores sociais. Existem inúmeras empresas entre as maiores economias do mundo que operam em centenas de países.
Todas essas mudanças estão impactando cada vez mais a ideia de RS das empresas. Não é que os líderes empresariais estejam se convertendo repentinamente para uma postura mais ética nos negócios, baseada apenas em boa vontade ou em propostas utópicas. Na realidade, o que está acontecendo é que, pela primeira vez na história, a sustentabilidade está se tornando um fator cada vez mais competitivo.
Nos últimos anos, muitas empresas perceberam que suas estratégias de competitividade em um ambiente global não podem se basear na degradação ambiental, no desrespeito às cláusulas sociais ou na resistência ao cumprimento de normas internacionais de direitos humanos. Pelo contrário, atender às demandas da sociedade é o que impulsiona a competitividade, pois incorpora padrões de excelência que são cada vez mais considerados pelos consumidores. Isso fortalece a reputação corporativa da empresa, um ativo intangível que não pode ser facilmente replicado pelos concorrentes.
Figura 5 - Globalização
A RS evoluiu e se tornou um movimento estrutural de transformação das empresas. É um movimento cultural que está apenas começando e que implica em novas formas de ser e agir. Isso é resultado das demandas da sociedade e também implica em uma nova relação com os poderes públicos. Portanto, a RS tem essa força derivada das novas exigências sociais, que também são políticas, uma vez que os poderes públicos estão aumentando a pressão para as empresas assumirem maiores responsabilidades públicas.
Assim, a RS surgiu nos anos 1960 devido ao descontentamento social, concentração de poder no setor privado, envolvimento de empresas, principalmente norte-americanas, na produção militar e no desenvolvimento de armas de todos os tipos, e ao enfraquecimento progressivo dos governos nacionais. Em outras palavras, a RS surgiu como uma resposta à predominância de uma lógica empresarial que não considerava os problemas sociais. Nesse período, surgiram várias denominações que procuravam caracterizar uma empresa que desejava estabelecer uma relação diferente com a sociedade, tornando-se uma espécie de cidadã corporativa, na qual a organização tinha direitos e obrigações como qualquer cidadão, se tornando um novo ator social.
A RS foi influenciada pela globalização econômica e pelos inúmeros casos de má gestão empresarial que ocorreram no final do século XX, o que levou a um maior envolvimento das empresas em questões sociais e ambientais. Essa mudança nas empresas ocorreu principalmente devido a:
INÚMEROS ACIDENTESSUCESSÃO DE ESCÂNDALOS FINANCEIROS E CASOS DE CORRUPÇÃOABUSO DO USO DE MARKETING ANTIÉTICOMAIOR EXIGÊNCIA DOS CONSUMIDORESIMPORTÂNCIA DA BOA REPUTAÇÃO PARA SUSTENTAR MARCAS, PRODUTOS E EMPRESAS
Estes acidentes eram causados pela negligência das empresas no manejo de produtos e resíduos perigosos, resultando em perdas de vidas;
No entanto, o maior desafio da RS é como diferentes atores a interpretam. Nesse sentido, a divulgação da ISO 26000, uma norma de RS, no final de 2010, assumiu uma importância crucial. Essa norma é considerada a terceira geração de normas ISO, sendo as anteriores a ISO 9000 (qualidade) e a ISO 14000 (ambiental). Juntas, elas formam o conceito de sustentabilidade empresarial, que define uma empresa socialmente responsável, identificada pelos parâmetros de desenvolvimento sustentável.
O que é a ISO 26000? A ISO 26000 é uma norma internacional que oferece diretrizes sobre RS. Ela foi lançada em Genebra, Suíça, e no Brasil foi lançada a versão em português, a ABNT NBR ISO 26000. Essa norma define a RS como o desejo e o propósito das organizações em incorporarem considerações socioambientais em suas decisões e se responsabilizar pelos impactos dessas decisões e atividades na sociedade e no meio ambiente. Isso envolve um comportamento ético e transparente que contribua para o desenvolvimento sustentável, esteja conforme as leis aplicáveis e seja consistente com normas internacionais de conduta. Além disso, a RS deve estar integrada em toda a organização, ser praticada em suas relações e considerar os interesses das partes interessadas.
A norma oferece orientações para todos os tipos de organizações, independentemente do tamanho ou localização, sobre diversos aspectos relacionados a RS. Isso inclui conceitos, termos e definições relacionados a RS, histórico, tendências e características da RS, princípios e práticas relacionados a RS, temas centrais e questões pertinentes a RS, integração, implementação e promoção de comportamento socialmente responsável em toda a organização. Também a identificação e engajamento das partes interessadas, e comunicação de compromissos, desempenhoe outras informações relacionadas a RS.
É importante ressaltar que a ISO 26000 é uma norma de diretrizes voluntárias e não tem como objetivo ser usada para certificação. Qualquer alegação de certificação pela ABNT NBR ISO 26000 é falsa e não está conforme o propósito da norma.
O desenvolvimento da RS pode ser dividido em dois grandes períodos. O primeiro ocorreu do século XIX até meados do século XX, quando diversos empresários demonstraram preocupação social ao criar benefícios para os trabalhadores, construir vilas operárias e adotar outras atitudes que se diferenciavam da maioria dos empresários da época. O segundo período começou na segunda metade do século passado, quando o debate sobre a RS se tornou mais acadêmico, buscando identificar uma nova forma de fazer negócios que incorporasse objetivos econômicos, lucro e interesses mais amplos relacionados ao rumo da sociedade como um todo.
No início do século XXI, a preocupação com a RS das empresas aumentou devido ao processo de globalização, que facilitou a comunicação em escala global. Isso tornou os eventos locais de repercussão global, e os problemas causados pelas empresas se tornaram significativos em várias áreas, como ambiental, social, trabalhista e política. Isso levou à necessidade de criar uma norma social abrangente, que estabelecesse os parâmetros para caracterizar o que é uma empresa socialmente responsável do ponto de vista estratégico.
Podemos resumir a evolução do conceito de RS em três momentos desde a segunda metade do século XX: (a) uma responsabilidade exclusivamente econômica atribuída às empresas; (b) ações filantrópicas empresariais buscando auxiliar na solução de problemas de grupos desfavorecidos; (c) a responsabilidade social integrada à estratégia empresarial, que envolve a convergência de objetivos econômicos e objetivos relacionados ao desenvolvimento sustentável.
Figura 6 - Desenvolvimento sustentável e responsabilidade 
O conceito de RS avançou ao longo da segunda metade do século XX e chegou ao século XXI com uma concepção integradora que envolve toda a organização. Essa mudança é uma resposta às consequências negativas da globalização, à incapacidade e dificuldade dos governos em lidar com as necessidades sociais e ambientais, e à pressão de uma sociedade civil cada vez mais exigente.
A abordagem atual da RS destaca que as empresas devem prestar contas a todas as partes interessadas envolvidas em suas atividades e assumir um compromisso com elas, considerando os recursos limitados do planeta. Além de criar valor por meio da produção de bens e serviços e gerar empregos, o novo modelo sugere que as empresas devem criar valor para as pessoas, atendendo às suas necessidades dentro e fora da organização, e também para o meio ambiente.
O conceito de RS deve ser integrado ao planejamento empresarial e gerenciado da mesma forma que outras áreas de negócio. Trata-se, na verdade, de uma liderança social, que vai além da liderança empresarial tradicional. Isso significa que a empresa não busca apenas um equilíbrio entre oferta e demanda, mas também procura encontrar um equilíbrio entre as expectativas de seus stakeholders e o que ela é capaz de oferecer a eles.
Podemos entender, portanto, que a RS refere-se à maneira como uma organização é governada, gerenciada de forma ética e sustentável, e aos compromissos voluntários que ela assume para lidar com os impactos sociais, ambientais e econômicos que causa na sociedade. No caso das empresas, a RS visa conciliar o objetivo financeiro de maximizar o lucro para os proprietários ou acionistas com os objetivos de todas as partes interessadas envolvidas, ou seja, aqueles que têm algum vínculo com a empresa. Além disso, busca comprometer-se a gerar benefícios para a sociedade como um todo.
A RS é uma forma de gestão empresarial que implica colaboração com a sociedade, incorporando suas preocupações como parte da estratégia de negócios e assumindo o compromisso de total transparência em suas ações. Embora seja um compromisso voluntário, a RS envolve o cumprimento da legislação em todos os níveis (municipal, estadual, nacional e internacional), bem como qualquer outra ação voluntária empreendida pela empresa para melhorar a qualidade de vida de seus funcionários, das comunidades em que atua e da sociedade como um todo, ou seja, dos diferentes grupos de interesse com os quais se relaciona.
 Figura 7 - Gestão e planejamento
Não existe uma única maneira de praticar a RS. Cada empresa adotará uma abordagem de acordo com várias variáveis, como o setor em que atua, seu tamanho, sua localização, etc. Na prática da RS, é necessário haver uma profunda integração do sistema de gestão da empresa, com fluxo de comunicação facilitador que permita ouvir a opinião de todos os envolvidos que possam ser afetados por suas atividades.
Atualmente, a RS está crescendo rapidamente e está cada vez mais sendo considerada como uma estratégia empresarial que envolve todos os membros da organização. No entanto, muitas empresas ainda se concentram apenas nos aspectos mais visíveis das ações sociais, negligenciando os aspectos mais abrangentes relacionados a essas atuações.
Um aspecto importante a ser considerado é a voluntariedade do processo e desenvolvimento da RS, que deve ser assumida livremente pelos líderes empresariais, embora em muitos casos a tomada de decisão tenha sido motivada por pressões externas. Considerando a universalidade do conteúdo da RS, uma vez que nenhuma empresa funciona sem impactar a sociedade, pode parecer contraditório que ela seja considerada e aplicada de maneira voluntária, pois afeta a todos indiscriminadamente.
Como um tema em crescimento e cada vez mais discutido, a RS oferece a oportunidade de criação de diferentes modelos quando adotada pelas empresas. Na essência, a maioria desses modelos é bastante semelhante, diferenciando-se principalmente no foco, como alguns priorizando os stakeholders (partes interessadas), outros focando no ambiente interno, entre outros. Essa diversidade é útil, pois fortalece a abrangência e a multidimensionalidade da RS.
2 QUESTÕES BÁSICAS DA RESPONSABILIDADE SOCIAL
A RS possui vários aspectos fundamentais para compreendê-la. Neste capítulo, destacamos alguns desses aspectos com o objetivo de explicar melhor alguns conceitos, incluindo a perspectiva da sustentabilidade. Também discutimos princípios básicos e características essenciais que, embora tenham sido mencionados anteriormente, são reunidos aqui para facilitar a memorização.
Figura 8 - Corporativismo
Em seguida, abordamos o conceito de cidadania corporativa, que muitas vezes é considerado sinônimo de RS. Embora reconheçamos essa possibilidade, a ideia apresentada aqui é que a cidadania corporativa é um elemento importante no conteúdo da RS.
Finalmente, encerramos o capítulo com uma análise e discussão sobre a legitimidade da empresa perante os diferentes indivíduos e grupos interessados. Essa legitimidade é uma permissão informal concedida pela sociedade, conhecida como “licença social”, que permite que a empresa opere de forma adequada.
2.1 RESPONSABILIDADE SOCIAL E O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
O desenvolvimento sustentável está diretamente relacionado a RS. Ele é um objetivo macroeconômico que envolve esforços responsáveis de todos os agentes econômicos, incluindo aspectos econômicos, sociais e políticos. O conceito de desenvolvimento sustentável surgiu a partir do relatório “Nosso futuro comum”, publicado em 1987 pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, que destacou a importância de atender às necessidades presentes sem comprometer as gerações futuras.
O desenvolvimento sustentável visa estabelecer uma relação harmoniosa entre o ser humano e a natureza, atendendo às necessidades e aspirações humanas. Ele reconhece a incompatibilidade entre a pobreza e o desenvolvimento sustentável, e defende que a política ambiental deve fazer parte integrante do processo de desenvolvimento. Os principais objetivos das políticas ambientais e de desenvolvimento são retomar o crescimento,alterar a qualidade do desenvolvimento, atender às necessidades essenciais da população, manter um nível populacional sustentável, conservar e melhorar os recursos, reorientar a tecnologia e incluir o meio ambiente na tomada de decisões.
O conceito de desenvolvimento sustentável pode ser interpretado de diferentes maneiras, mas é fundamental equilibrar três eixos principais: crescimento econômico, preservação ambiental e equidade social. A Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada em 1992 no Rio de Janeiro, foi um marco importante para estabelecer metas de desenvolvimento sustentável em âmbito global. A Agenda 21, um dos documentos resultantes desta conferência, estabelece parâmetros para alcançar o desenvolvimento sustentável nos aspectos econômicos, sociais e ambientais.
No âmbito empresarial, o desenvolvimento sustentável também desempenha um papel crucial. Empresas são reconhecidas como atores fundamentais para o desenvolvimento econômico e social, e sua atuação responsável e eficiente é essencial. O Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável participou ativamente da conferência de 1992 e elaborou um documento chamado “Mudando o rumo”, que destaca a importância das empresas assumirem maior RS, econômica e ambiental, exigindo mudanças profundas e uma nova ética nos negócios.
Figura 9 - Meio ambiente e desenvolvimento
Em resumo, o desenvolvimento sustentável visa alcançar um equilíbrio entre os aspectos econômicos, sociais e ambientais, atendendo às necessidades presentes sem comprometer as gerações futuras. Ele envolve ações responsáveis por parte de todos os agentes econômicos, incluindo empresas, visando à harmonia entre o desenvolvimento humano e a preservação do meio ambiente.
2.2 CARACTERÍSTICAS ESSENCIAIS DA RS
De acordo com os pesquisadores Crane, Matten e Spence, existem seis características essenciais da RS. Essas características são comumente encontradas em várias definições do conceito de RS:
1. VOLUNTARIEDADE2. GERENCIAMENTO E INTERNALIZAÇÃO DE EXTERNALIDADES3. ORIENTAÇÃO VOLTADA PARA MÚLTIPLOS STAKEHOLDERS4. ALINHAMENTO ENTRE RESPONSABILIDADES SOCIAIS E ECONÔMICAS5. PRÁTICAS E VALORES6. IR ALÉM DA FILANTROPIA
A RS refere-se a atividades que vão além do cumprimento da lei. As empresas devem decidir voluntariamente adotar práticas socialmente responsáveis, enxergando os benefícios competitivos que isso pode trazer.
A RS envolve práticas voluntárias, consideração de múltiplos stakeholders, alinhamento entre responsabilidades sociais e econômicas, adoção de práticas baseadas em valores, gestão de externalidades e vai além da filantropia, abrangendo as operações essenciais da empresa.
De mesma linha, além das características essenciais da RS, existem outras características distintivas que são aplicáveis a qualquer tipo de organização:
ADAPTABILIDADETRANSPARÊNCIACRIAÇÃO DE VALORTRANSVERSALIDADE E INTEGRAÇÃOÂMBITO INTERNO E EXTERNOENVOLVIMENTO DOS TRABALHADORES
As políticas de RS devem se adaptar ao contexto e à realidade da região onde a empresa opera. Isso significa considerar as particularidades do ambiente de atuação, a natureza do negócio e a área geográfica na qual a empresa está presente.
Assim, a RS deve ser adaptável, transparente e criar valor para todos os stakeholders. Ela deve ser integrada em todos os aspectos da empresa, considerando os interesses internos e externos, e envolver o desenvolvimento e bem-estar dos trabalhadores.
3 AS VANTAGENS DA ADOÇÃO DA RESPONSABILIDADE SOCIAL
Como ressalta Reinaldo Dias (2012) a RS é essencialmente baseada em valores que definem o que é bom, justo, saudável e sustentável. Transparência é um dos princípios fundamentais da RS. Os valores são o alicerce do conceito de RS, e espera-se que as empresas ajam eticamente quando se trata de RS.
Nesse sentido, podemos considerar a RS como um compromisso moral, um acordo mútuo de expectativas entre as empresas e a sociedade. Para que esse compromisso moral seja efetivado, é crucial que a cultura organizacional reflita claramente os valores compartilhados por todos os membros da organização.
Uma das principais preocupações dos empresários ao implementar a RS em suas empresas é garantir que isso seja economicamente viável, já que envolve custos. Portanto, é importante destacar as vantagens para a própria empresa ao adotar a RS, como melhoria na competitividade e posicionamento em relação aos concorrentes.
Veremos aqui alguns tópicos que podem ser ampliados conforme o tipo e porte da empresa, bem como considerando sua atividade principal e setor econômico em que está inserida.
Atualmente, as empresas enfrentam crescentes pressões para melhorar seu desempenho social e ambiental. Essas pressões vêm do mercado internacional, consumidores mais conscientes, sociedade civil, mídia e governos que estabelecem normas mais rigorosas. A não conformidade pode resultar em multas, perda de reputação e boicotes comerciais.
A transparência e prestação de contas tornaram-se práticas essenciais, pois as empresas que não comunicam seu desempenho social e ambiental podem ser vistas como não confiáveis. No entanto, algumas empresas exageram ou distorcem suas informações, levando à desconfiança do público. Antes de estabelecer qualquer tipo de relacionamento com uma empresa, as pessoas costumam acessar informações sobre ela, e quando as expectativas não são atendidas, a reputação da empresa é prejudicada.
A RS deve ser uma preocupação de toda a organização e não apenas de alguns funcionários. Essa falta de conhecimento e comprometimento tem sido observada em encontros entre empresas e estudantes universitários.
4 A RESPONSABILIDADE SOCIAL E QUESTÕES ÉTICAS E CULTURAIS
A RS é baseada em valores e envolve a conduta ética das empresas. Ela pode ser entendida como um contrato moral entre as empresas e a sociedade, no qual se espera que a empresa aja de forma responsável. A cultura organizacional desempenha um papel fundamental na expressão desses valores compartilhados.
Nos últimos anos, a ética empresarial tem se tornado mais importante devido à má imagem que o setor privado adquiriu devido a escândalos. A ética empresarial visa legitimar as empresas e obter aceitação social. As crenças, convicções e hábitos éticos estão se tornando indispensáveis para o bom funcionamento das empresas.
A cultura organizacional é responsável por incorporar a RS como um valor agregado à identidade da empresa. Os valores culturais e a ética empresarial são essenciais para ações socialmente responsáveis. A mudança cultural é necessária para as empresas serem proativas em relação às demandas sociais e para que suas ações sejam consideradas positivas pelos stakeholders. A adoção da filosofia da RS na cultura organizacional contribui para uma economia ajustada à ética social e busca uma sociedade mais justa e viável.
No passado, as ações sociais das empresas eram consideradas filantrópicas e parte da RS. No entanto, atualmente, a RS vai além da filantropia e visa contribuir permanentemente para o desenvolvimento sustentável. Existe uma cultura empresarial que associa a filantropia a RS, mas é importante diferenciar as ações sociais pontuais da verdadeira gestão responsável. As ações de RS corporativa são estratégias planejadas que atendem às expectativas sociais em relação à empresa, indo além das obrigações legais. Essas ações são orientadas para o bem-estar da sociedade e envolvem um comprometimento duradouro.
A RS não é apenas altruísmo ou filantropia, mas sim uma abordagem integrada que busca o envolvimento da empresa em questões sociais, econômicas e ambientais. As ações sociais eventuais não são suficientes para alcançar os benefícios da RS. A mudança cultural é necessária para a empresa adotar uma visão mais ampla de RS e incorporar a RS em sua gestão estratégica. A RS vai além das ações filantrópicas e visa contribuir de forma consistente para o desenvolvimento sustentável.
As ações sociais consideradas filantrópicas podem estar presentes nos relatórios de RS das empresas, mas é importantediferenciá-las da gestão estratégica da RS. A filantropia envolve a destinação esporádica de recursos para grupos menos favorecidos, com o objetivo de melhorar a imagem da empresa. No entanto, a RS é mais abrangente e proativa, sendo uma parte estrutural da empresa, incorporada à sua cultura organizacional.
Figura 10 - Pensar no próximo
Enquanto a filantropia não prejudica a reputação corporativa, também não traz benefícios significativos. Por outro lado, a RS, ao incluir o compromisso contínuo da empresa em agir de forma responsável com todos os seus stakeholders, contribui para o aumento da reputação corporativa a longo prazo.
É fundamental que as empresas adotem as três dimensões das políticas organizacionais da RS, em vez de focar apenas em ações sociais pontuais. Dessa forma, uma empresa pode ser considerada socialmente responsável mesmo sem realizar ações sociais específicas. A autenticidade e o cumprimento das responsabilidades reais são essenciais nas empresas atualmente.
NOVOS DESAFIOS
Estamos nos aproximando do fim do Tema de Aprendizagem. Vimos nesta unidade que a RS é de extremamente importante no reconhecimento das empresas em seu papel fundamental na sociedade, levando ao fundamentalidade de suas ações e impacto direto nas pessoas e no meio ambiente. Ao adotar práticas socialmente responsáveis, as empresas contribuem para o desenvolvimento sustentável, promovem o bem-estar das comunidades em que atuam e fortalecem sua reputação.
Além disso, a RS está intrinsecamente ligada à ética, pois envolve o comportamento ético das organizações em suas relações com os diversos stakeholders, como clientes, funcionários, fornecedores e a sociedade em geral. A ética é o guia que orienta as decisões e ações das empresas, garantindo que elas atuem de maneira justa, transparente e alinhada com os valores e normas morais da sociedade. A integração da RS e da ética cria um ambiente de confiança e sustentabilidade, beneficiando tanto as empresas quanto a sociedade como um todo.

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