Prévia do material em texto
Aula 03 Natália Gindri Fiorenza Maria Paula de Souza Sampaio Citopatologia Diretor Executivo DAVID LIRA STEPHEN BARROS Diretora Editorial ANDRÉA CÉSAR PEDROSA Projeto Gráfico MANUELA CÉSAR ARRUDA Autor EDUARDO NASCIMENTO DE ARRUDA Desenvolvedor CAIO BENTO GOMES DOS SANTOS NATÁLIA FIORENZA Olá. Meu nome é Natália Fiorenza. Sou formada em Ciências Biológicas, com mestrado e doutorado na área de Ciências da Saúde. Passei por diferentes laboratórios de pesquisa, publicando trabalhos científicos e participando de muitos Congressos e Cursos em diferentes área de saúde e educação. Fui professora universitária e tutora durante 4 anos do curso de medicina, onde me conectei com minha paixão pela docência e por metodologias ativas de ensino. Sou ávida por aprender e ensinar e por trocar conhecimentos quer na área científico-acadêmica, quer na área de desenvolvimento humano e autoconhecimento. Recebi com muita alegria o convite da Editora Telesapiens para integrar seu elenco de autores independentes, pois tenho como propósito transmitir aquilo que sei e auxiliar outras pessoas no início de sua jornada profissional. Estarei com você nessa caminhada de muito estudo e trabalho. Conte comigo! As Autoras MARIA PAULA DE SOUZA SAMPAIO Meu nome é Maria Paula, sou graduada em Biomedicina, habilitada em Citopatologia. Além da prática com a minha habilitação, pude realizar um curso avançado em Citopatologia Cérvico-Vaginal. Atualmente, sou voluntária de um projeto de pesquisa na Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) sobre Patologia Mamária Comparada, onde fiz iniciação científica por um ano. Em minha jornada de aprendizado contínuo pude participar ativamente de congressos e projetos de estudo, e sempre tive uma paixão por ensinar. Junto com Natália, pretendo transmitir todo o ensinamento que obtive até aqui, buscando sempre aprender mais. Estamos juntos nesse aprendizado! INTRODUÇÃO: para o início do desenvolvimen- to de uma nova competência; DEFINIÇÃO: houver necessidade de se apresentar um novo conceito; NOTA: quando forem necessários obser- vações ou comple- mentações para o seu conhecimento; IMPORTANTE: as observações escritas tiveram que ser prioriza- das para você; EXPLICANDO MELHOR: algo precisa ser melhor explicado ou detalhado; VOCÊ SABIA? curiosidades e inda- gações lúdicas sobre o tema em estudo, se forem necessárias; SAIBA MAIS: textos, referências bibliográficas e links para aprofun- damento do seu conhecimento; REFLITA: se houver a neces- sidade de chamar a atenção sobre algo a ser refletido ou discutido sobre; ACESSE: se for preciso aces- sar um ou mais sites para fazer download, assistir vídeos, ler textos, ouvir podcast; RESUMINDO: quando for preciso se fazer um resumo acumulativo das últimas abordagens; ATIVIDADES: quando alguma ativi- dade de autoapren- dizagem for aplicada; TESTANDO: quando o desen- volvimento de uma competência for concluído e questões forem explicadas; Iconográficos Olá. Meu nome é Manuela César de Arruda. Sou a responsável pelo pro- jeto gráfico de seu material. Esses ícones irão aparecer em sua trilha de aprendizagem toda vez que: SUMÁRIO Abordando aspectos da citopatologia mamária 10 Exame citológico da mama 10 Células presentes na mama 12 Características de células benignas 15 Características de células malignas 16 Características citomorfológicas das principais lesões da mama 17 Cisto 17 Lesões inflamatórias 17 Tumores fibroepiteliais 18 Lesão papilar 19 Características citomorfológicas dos carcinomas da mama 19 Carcinoma ductal 20 Carcinoma lobular 20 Carcinoma mucinoso 21 Carcinoma medular 21 Carcinoma apócrino 22 Citopatologia das cavidades serosas 23 Células mesoteliais 25 Mesoteliomas benignos 26 Mesoteliomas malignos 27 Lesões escamosas intraepiteliais e lesões glandulares intraepiteliais 29 ASC-US 30 ASC-H 31 ASC associada à atrofia 33 Lesões intraepiteliais escamosas do colo uterino (LSIL/HSIL) 33 LSIL 34 HSIL 35 Atipias em células glandulares 36 AGC-SOE 36 AGC-NEO 37 Carcinomas e adenocarcinomas in situ e invasor 38 Carcinoma escamoso invasor 40 Carcinoma escamoso queratinizante 40 Carcinoma escamoso não queratinizante de grandes células 40 Carcinoma escamoso não queratinizante de pequenas células 41 Adenocarcinoma in situ (AIS) 42 Adenocarcinoma invasivo 44 Anormalidades glandulares endometriais 46 Adenocarcinoma endometrial 47 Psicofarmacologia Clínica 7 UNIDADE 03 Citopatologia8 Você sabia que o câncer de mama é o segundo tipo de câncer de maior incidência entre as mulheres brasileiras e que o câncer de colo do útero tem, em média, 530 mil novos casos por ano no mundo? A grande incidência destes tipos de cânceres é um problema de saúde pública e os governos investem em inúmeras campanhas e estratégias de prevenção a eles. Além disso, inúmeros fatores levam à liberação de resultados falso negativos de exames citopatológicos, tais como erros de coleta e variabilidade na interpretação citomorfológica. É fundamental que o profissional da área desenvolva rotinas criteriosas e meticulosas, além de obter o conhecimento necessário para o reconhecimento das características que definem cada tipo de tumor e que os diferencie do tecido saudável. Ao longo desta unidade letiva você irá estudar todos os aspectos importantes que irão te auxiliar no desenvolvimento dessa habilidade. Esperemos junto com você! INTRODUÇÃO Citopatologia 9 Olá. Seja muito bem-vindo à Unidade 3. Nosso objetivo é auxiliar você no desenvolvimento das seguintes competências profissionais até o término desta etapa de estudos: 1. Abordar aspectos gerais e anatômicos da mama, organização celular e técnicas laboratoriais de diagnóstico. 2. Conhecer a função da citopatologia das cavidades serosas e os processos patológicos que podem ocorrer. 3. Estudar sobre as lesões favorecendo malignidade em epitélios escamoso e glandular do trato genital feminino, entender os critérios morfológicos utilizados para caracterizar cada lesão. 4. Entender critérios de malignidade da ectocérvice, diferenciando carcinomas in situ e invasor, e da endocérvice, diferenciando adenocarci- nomas in situ e invasor. Então? Preparado para uma viagem sem volta rumo ao conheci- mento? Ao trabalho! OBJETIVOS Citopatologia10 Abordando aspectos da citopatologia mamária INTRODUÇÃO: Ao término deste capítulo você terá adquirido conhecimento à respeito dos aspectos gerais e anatômicos da mama, sua organização celular e quais as técnicas laboratoriais utilizadas para o diagnóstico de patologias associadas à esse órgão. A neoplasia de mama é o segundo tipo de câncer mais frequente entre as mulheres no Brasil, sendo responsável por uma taxa de mortalidade acentuada devido, entre outros fatores, ao diagnóstico tardio. Neste sentido, conhecer os procedimentos de coleta, a citologia mamária e as características de tumores benignos e malignos é imprescindível para o profissional citopatologista e para que tenhamos melhores resultados diagnósticos com relação à essa patologia tão agressiva. Está preparado para mergulhar nesse universo? Então, vamos lá! Exame citológico da mama O estudo de alterações mamárias através da citologia é muito útil para selecionar casos em que há suspeita de malignidade. A técnica mais comum para realização do exame é a punção aspirativa por agulha fina (PAAF), como foi citado anteriormente. Porém, também é realizada a coleta direta do material de descargas papilares. Essa coleta é bastante simples, basta passar uma lâmina de vidro sobre a papila, coletando o derrame/descarga, que será espalhado pela lâmina, com a ajuda de uma espátula. A descarga ou derrame papilar é resultado da saída de secreção através da papila mamária, que acontece fora do ciclo grávido-puerperal. Pode ter causa mamária ou causas externas, e possui grande importância clínica quando não existe nenhuma massa palpável, nemanormalidades na mamografia ou em pacientes com secreção sanguinolenta, visto que detectar precocemente o câncer de mama é crucial para a diminuição da taxa de mortalidade e para o sucesso do tratamento em fases iniciais. Citopatologia 11 Na citologia de mulheres com câncer de mama é encontrada uma alta celularidade, atipias nucleares intensas, aumento da relação núcleo-citoplasma, perda de coesão entre as células e necrose. Figura 1: Coleta através de PAAF em mama. A citologia possui uma grande aceitação devido à facilidade de execução, baixo custo, morbidade mínima e pouca probabilidade de complicação. O material é fixado logo após a punção, para evitar alterações das características celulares. A fixação é realizada em álcool 95% e, em seguida, é centrifugado e corado pelo método de Papanicolaou. Os resultados citopatológicos obtidos através de PAAF da mama ou por descarga papilar são descritos de acordo com a probabilidade de malignidade, até o diagnóstico específico. Tabela 1 – Categorias diagnósticas na PAAF da mama. Negativo para malignidade Atípicos Suspeitos Positivo para malignidade Inadequado ou insatisfatório A categoria atípicos é utilizada quando há pouca probabilidade de malignidade, em geral, a biópsia já está indicada. A categoria suspeitos é utilizada quando os achados são provavelmente malignos. A biópsia então é imposta. A categoria “Atópicos” é utilizada em casos em que as células atípicas são poucas e mal preservadas, a amostra é hemorrágica ou inflamatória impedindo o diagnóstico definitivo de maligno, ou ainda quando os achados sugerem um câncer de atipias mínimas (carcinoma lobular, tubular ou papilar). Citopatologia12 A categoria positivo para malignidade é utilizada em casos com características inequívocas de malignidade. No diagnóstico citológico da mama deve-se levar em consideração 3 aspectos: a celularidade, o arranjo celular e o background (fundo do esfregaço). A amostra obtida através de PAAF é considerada satisfatória quando possui 5-6 agrupamentos de células bem preservadas. Em casos de fibroadenoma, alterações fibrocísticas, gravidez e lactação, necrose gordurosa, carcinomas e alterações secundárias à radiação a celularidade é baixa. Os arranjos celulares podem ser planos, frouxos, coesos, tridimensionais, ramificados, papilares ou constituídos predominantemente por células isoladas. Podemos encontrar no background células inflamatórias, detritos amorfos, mucina e sangue, sendo que o esse último pode ser um indicativo de papiloma, carcinoma papilar ou outros carcinomas. O resultado citopatológico deve ser sempre correlacionado com os achados clínicos e radiológicos. A descarga papilar é considerada anormal quando é espontânea e não está relacionada à gravidez ou lactação. Ela pode ser originada de lesões como papiloma e carcinoma ou adenoma hipofisário (alteração hormonal). Os achados benignos de secreções mamilares são: pouca celularidade, presença de células ductais, espumosas, inflamatórias e hemácias. Células ductais pleomórficas, núcleos desnudos, nucléolos e restos necróticos são características malignas da secreção papilar. Figura 2 – Células espumosas (seta preta) e hemácias (seta verde) em descarga papilar. Células presentes na mama Antes de mais nada, precisamos conhecer a citologia mamária. A mama é composta por lóbulos de grandes ductos e possui dois tipos de células: epiteliais e mioepiteliais. As células epiteliais têm função Citopatologia 13 de secreção e absorção, e as mioepiteliais têm função de contração, transportando o leite através do sistema ductal. Dentre essas células, podemos destacar as ductais, mioepiteliais, espumosas e apócrinas. As células ductais benignas são células pequenas e muito coesas, em arranjos bidimensionais planos, podendo haver sobreposição, com núcleo redondo ou oval. A membrana nuclear é delicada, com cromatina fina às vezes hipercromática e possui nucléolo único e discreto. O citoplasma é cianofílico ou basofílico, bastante variável, mas normalmente é escasso e delicado, dando aspecto de “favo de mel”. Estruturas microacinares podem aparecer em pequenas quantidades, em condições benignas como adenose esclerosante e fibroadenoma. Microácinos podem favorecer malignidade quando aparecem em grandes quantidades e bem formados. As células devem ser investigadas quando ao tamanho do seus núcleos: está aumentado 3-4 vezes, quando a membrana torna-se irregular e o nucléolo torna-se proeminente, e quando vacúolos secretores de mucina estão presentes no esfregaço. Figura 3 – Células ductais normais com núcleos ovais e intensa coesão entre as células. A presença de células mioepiteliais no esfregaço é um bom indicador de benignidade, demonstrando integridade tecidual. Essas células possuem tamanho semelhante ao de uma hemácia e podem ser vistas entre os grupos de células ductais ou espalhadas no fundo do esfregaço. Quando não estão juntas com as células ductais elas estão isoladas, com núcleos alongados e citoplasma escasso (núcleos desnudos bipolares). Quando estão presentes nos folhetos de células ductais elas são encontradas na forma de pequenos núcleos fusiformes e hipercromáticos com citoplasma escasso. Citopatologia14 Figura 4 – Células mioepiteliais soltas ao fundo do esfregaço com fibroadenoma. As células apócrinas são células metaplásicas do epitélio lobular, semelhantes às células glandulares do tecido conjuntivo. São encontradas em cistos, fibroadenomas e doença fibrocística e sua presença está associada à benignidade. São células pleomórficas, tendo como principal característica a presença de citoplasma abundante e granular, podendo ser denso algumas vezes, com coloração rosácea ou vermelha. O núcleo é volumoso, podendo variar em sua forma e nucléolos são comuns. Em alguns processos inflamatórios, as células apócrinas podem ser confundidas com células malignas. Figura 5 – Células apócrinas apresentando grânulos rosáceos no citoplasma e macronúcleolos. As células espumosas ou esponjosas possuem como caracte- rísticas vacuolização em citoplasma abundante e núcleos irregulares e reativos, sendo encontradas isoladas ou em grupos. Sua origem ainda é incerta, podendo ser originadas de macrófagos ou histiócitos, ou originadas das células ductais. Possuem papel importante na defesa e remoção de produtos teciduais degradados. Quando essas células se apresentam gigantes e multinucleadas podem estar associadas a cistos e lesões benignas, assim como ao câncer. Citopatologia 15 Figura 6 – Células espumosas apresentando intensa vacuolização citoplasmática. O tecido fibroadiposo possui grandes fragmentos de tecido estromal com pequenos núcleos vistos entre a grande quantidade de fibras dispersas que se coram pela hematoxilina e eosina. Figura 7 – Fragmento de estroma com várias células fusiformes. Características de células benignas Para o diagnóstico de benignidade a presença de células ductais coesas e mioepiteliais, junto com pouca celularidade (fora das exceções) é fundamental. As células são coesas, uniformes, não estão isoladas e algumas podem exibir sobreposição. O núcleo possui tamanho variável, entretanto, não deve ser maior que 2 vezes o tamanho de uma hemácia. O contorno do núcleo deve ser regular e suave, o citoplasma pode ser escasso ou abundante. Alguns vacúolos de gordura intracitoplasmática são comuns em casos como na lactação. Uma lesão benigna possuem vários tipos de células, como ductais, mioepitilais, apócrinas e histiócitos. Citopatologia16 Figura 8 – Células ductais coesas (à esquerda) e tecido estromal (à direita), com seta apontando para núcleo desnudo bipolar, característica de benignidade. Características de células malignas O padrão citológico maligno é composto por celularidade abundante, células epiteliais isoladas e agrupamentos com perda de coesão. As células apresentamanisonucleose, com núcleos hipercromáticos e aumentados de volume e bordas irregulares, com nucléolos proeminentes. No background observa-se necrose, presença de muco e debris celulares. As células mioepiteliais estão ausentes em casos malignos. Figura 9 – Carcinoma ductal de mama com seta indicando núcleo volumoso e hipercromático. Tabela 2 – Características que diferem a lesão de benigna para maligna. Características Benignas Malignas Celularidade Baixa Elevada Coesão Possui Perda de coesão Núcleo Tamanho de hemácia 2 vezes maior Uniformidade Monomórfica Pleomórfica Núcleolo Pequeno ou invisível Anormal Borda nuclear Regular Irregular Cromatina Vesicular Anormal Citopatologia 17 Mitose Raras, mas normais Anormais Necrose Ausente Pode estar presente Células mioepiteliais e apócrinas Muitas Raras Macrófagos esponjosos Comuns Podem estar presentes Inclusão intranuclear Rara Pode estar presente Muito cuidado ao diagnosticar malignidade na presença de alguns padrões de benignidade, como aspirado com pouca celularidade, ausência de células isoladas, presença de células mioepiteliais e atipia ausente ou escassa. Características citomorfológicas das principais lesões da mama Cisto Os cistos mamários possuem celularidade escassa à moderada, com fundo liso a granular. Há presença de células espumosas e apócrinas e pequenos grupos de células ductais benignas. Figura 10 – Cisto apócrino. Lesões inflamatórias Podem ser mastites, que se caracterizam por exsudato inflamatório com polimorfonucleares e histiócitos abundantes, células ductais reativas e fundo com debris celulares; ou abscessos subareolares, que possuem células epiteliais normais, presença de escamas córneas e inflamação crônica e aguda com células grandes multinucleadas. Citopatologia18 Figura 11 – Mastite com exsudato inflamatório e célula gigante multinucleada (seta). Figura 12 – Abscesso subareolar com escamas córneas (seta). Tumores fibroepiteliais O fibroadenoma possui células ductais coesas, uniformes, com núcleos pequenos, celularidade alta a moderada e presença de células mioepiteliais. O tumor Phyllodes é semelhante ao fibroadenoma, possui alta celularidade, com o mesmo padrão celular que ele, porém com maior presença de componentes estromais. Possui a presença de células fusiformes e células ductais atípicas. Figura 13 – Fibroadenoma com componentes epiteliais e mioepiteliais. Citopatologia 19 Figura 14 – Fragmento estromal (centro) com fragmento do epitélio intacto (canto). Presença grande de tecido fibroso que diferencia o tumor filoide do fibroadenoma. Lesão papilar O papiloma é uma neoplasia benigna da mama que possui celularidade de moderada à alta, agrupamentos tridimensionais de papilas com lençóis de células mioepiteliais, presença de células atípicas nos arranjos papilares e células espumosas e leucócitos. A diferenciação entre o papiloma benigno e maligno é muito complexa, sendo que o melhor diagnóstico a ser dado é lesão papilar. Esse resultado pode ou não ser acompanhado de “favorecendo benignidade ou malignidade”. Figura 15 - Células ductais agrupadas tridimensionalmente em uma papila, com certa atipia nuclear. Características citomorfológicas dos carcinomas da mama Existem 5 tipos mais comuns entre carcinomas da mama, que são: carcinoma ductal, lobular, medular, colóide (mucinoso) e apócrino. Existem diversas características citológicas que definem o melhor Citopatologia20 diagnóstico de malignidade, sempre tendo como base os critérios de benignidade que caracterizam o subtipo específico da neoplasia, como visto na Tabela 2. Carcinoma ductal As principais características do carcinoma ductal são hipercelu- laridade, células com núcleo excêntrico, hipercromático e irregular, nucléolo proeminente, presença de agrupamentos com falta de coesão e células atípicas isoladas. Pode se subdividir em carcinoma ductal in situ e invasor, que se distinguem pelo fato do primeiro estar restrito aos ductos, sem invadir o estroma, e o último romper a membrana basal e invadir o tecido conjuntivo adjascente. A ausência de células mioepiteliais é importante no auxílio da confirmação citológica do carcinoma ductal, porém essa ausência em algumas outras alterações (tumor filódes e papilomas) pode dificultar o diagnóstico. Figura 16 – Hipercelularidade de células ductais e grupo de célula com aumento nuclear, hipercromasia e nucléolos proeminentes, caracterizando o carcinoma ductal. Carcinoma lobular O aspirado citológico desse carcinoma pode revelar escassez celular causada por fibrose tecidual, monomorfismo celular, pequenos grupos de células malignas pequenas e isoladas, presença de vacúolo com muco e núcleos com cromatina fina com discreta irregularidade na membrana. Citopatologia 21 Figura 17 – Carcinoma lobular com células epiteliais monomórficas agrupadas em “fila indiana” e presença de muco. Há um desafio na citologia para distinguir o carcinoma lobular do ductal em casos que o carcinoma ductal possui escassez celular ou quando ambos os tumores estão instalados juntos (carcinoma em tumor misto). Carcinoma mucinoso As características citológicas se assemelham ao fibroadenoma e seu diagnóstico deve ser sempre confirmado pelo exames histopatológico e imunohistoquímica. Possui agrupamentos tridimensionais de células ductais coesas, fundo verde-púrpura corado pelo Papanicolaou, ausência de alterações nucleares e presença de vacúolos citoplasmáticos. Figura 18 – Células ductais e grande massa de muco, definindo carcinoma mucinoso. Carcinoma medular Geralmente o esfregaço desse carcinoma apresenta-se com pouca celularidade, células isoladas com citoplasma abundante, núcleos vesiculares com macronucléolos proeminentes e presença de mitose e leucócitos. Citopatologia22 Figura 19 – Linfócitos invadindo a mama, caracterizando o carcinoma medular. Carcinoma apócrino Esse carcinoma é composto por células apócrinas, com alta celula- ridade, formando grandes grupos ou isoladas. Seus núcleos são discarióticos, possuem nucléolos proeminentes e pode haver fundo necrótico. Figura 20 – Intensa variação dos núcleos das células apócrinas presentes nesse agrupamento. SAIBA MAIS: Quer se aprofundar neste tema? Recomendamos o acesso à seguinte fonte de consulta e aprofundamento: Artigo “Análise de exames citopatológico de mama e mamográficos no diagnóstico das doenças da mama, Santo Ângelo (RS), Brasil” (Weber e col., 2013), acessível pelo link: http://bit.ly/2TuBjNT E então, o que achou deste capítulo? Teve dificuldade em algum dos tópicos abordados aqui? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo, vamos resumir tudo o que vimos. Citopatologia 23 Você aprendeu que o estudo citológico das alterações mamárias é muito útil para avaliar a suspeita de malignidade e que a amostra deve ser coletada por PAAF (método mais usado) ou pela coleta direta do material de derrame/descarga papilar. Após a análise, as amostras são classificadas de acordo com a malignidade e, em alguns casos se faz necessária a biópsia tecidual para confirmação. Dentre as células presentes na mama, estão as ductais, as mioepiteliais, espumosas e apócrinas. Tumores benigno apresentam células ductais e mioepiteliais, podendo haver apócrinas e histiócitos; baixa celularidade, células coesas e uniformes, com bordas definidas, com nucléolo pequeno ou invisível. Já os tumores malignos não apresentam células mioepiteliais; há perda da coesão e alta celularidade, núcleos hipercromáticos e maiores e nucléolo proeminente. Você também descobriu que as principais lesões mamárias são os cistos, as lesões inflamatórias – mastite e absessos subareolares -, tumores fibroepiteliais e lesões papilares. Quanto aos tipos de carcinomas, eles podem ser ductal (hipercelularidade de células ductais), lobular (baixa celularidade e fibrose tecidual), mucinoso(grande massa tridimensional de células ductais), medular (baixa celularidade e presença de leucócitos) e apócrino (alta celularidade de células apócrinas). Citopatologia das cavidades serosas INTRODUÇÃO: Ao término deste capítulo você será capaz de conhecer as características das cavidades serosas, as técnicas amostrais utilizadas nessa região e os processos patológicos relacionados a essa. A citologia é o método de escolha para detecção da malignidade serosa visto que, em comparação à biópsia, o fluido fornece uma amostra mais representativa e podem ser avaliadas múltiplas amostras no mesmo exame. Sendo assim, torna-se crucial a compreensão das características citológicas dos líquidos cavitários, assim como a diferenciação entre tumores benignos e malignos das cavidades serosas, por parte do profissional citopatologista. Então, vamos agora expor esse tema, trazendo as informações mais relevantes sobre ele. Está preparado? Citopatologia24 Dentro do corpo humano existem cavidades que são compostas por uma fina membrana (membrana serosa). A camada dessa membrana que fica em contato com os órgãos internos é chamada de membrana visceral ou pleura. A membrana visceral estende-se até o exterior da cavidade onde é formada a pleura parietal. As membranas parietais e viscerais formam uma cavidade que não está em contato com o exterior, sendo as maiores cavidades corpóreas do organismo as cavidades peritoneal, pericárdica e as duas cavidades pleurais. Essas quatro cavidades do corpo possuem uma origem embrionária em comum, que é a origem mesodérmica. No interior destas cavidades, existem fluidos biológicos, sendo que os fluidos encontrados nas cavidades serosas são chamados de líquidos cavitários ou serosos, que vão variar de acordo com suas propriedades, tipos de células e aparência. Esses líquidos existem, em pequena quantidade, para lubrificar as superfícies que se movem umas sobre as outras, como o resultado dos movimentos de respiração, batimentos cardíacos e o peristaltismo intestinal. Quando há uma maior quantidade de líquido acumulada, por algum processo patológico, temos um derrame ou efusão. Esses derrames podem ser do tipo transudativos ou exsudativos. Transudato é formado a partir de um desequilíbrio das pressões hidrostática e oncótica, enquanto o exsudato surge do acúmulo de líquido de restos celulares e células inflamatórias, decorrente de processos inflamatórios ou neoplásicos. Sem haver nenhuma patologia, normalmente, as pleuras parietais e viscerais do mesotélio são separadas por uma fina camada de líquido seroso, sendo que a produção deste fluído é regulada pelas células mesoteliais. Este fluido é claro e aquoso, semelhante ao soro. A pleura normal possui uma camada única de células mesoteliais com uma pseudomembrana que repousa em tecido conjuntivo. A colheita das amostras é realizada pela aspiração das cavidades através da punção com agulha, sendo o líquido coletado transportado em tubo com anticoagulante. O processamento e centrifugação do material são realizados e o esfregaço é corado pela técnica de Papanicolaou. A citologia é um método mais sensível que a biópsia cega para detecção da malignidade serosa e isto se deve porque o fluido fornece uma amostra mais representativa, e quando múltiplas amostras são examinadas a taxa de detecção aumenta. Citopatologia 25 A primeira referência de células cancerosas em um fluido corporal foi em 1867,quando Lucke e Kiebs observaram linfócitos e células redondas, maiores, claras e com núcleos grandes em líquido ascítico. Figura 21 – Colheita do líquido cavitário através de punção. Os líquidos cavitários podem oferecer uma quantidade de material enorme para o preparo, podendo ser produzidas até oito lâminas, e contêm uma alta celularidade. As células não neoplásicas comumente encontradas são células mesoteliais, que estão presentes no revestimento seroso, junto com hemácias, leucócitos e macrófagos. A proporção dos diferentes tipos de células varia de acordo com a causa e o tipo de efusão e também com a presença ou não de inflamação. Células raramente encontradas nos líquidos cavitários são megacariócitos, hepatócitos e células derivadas do aparelho digestivo ou respiratório. Células mesoteliais As células mesoteliais são as mais importantes encontradas em amostras de cavidades serosas. São células epiteliais derivadas do mesoderma, apresentam-se achatadas e unidas por desmossomos, possuem núcleo central, redondo ou oval, com cromatina levemente granular, variando em seu tamanho. Podem apresentar nucléolos em casos de reatividade. Apresentam microvilosidades largas que auxiliam no diagnóstico citológico, permitindo fazer a distinção de tumores metastáticos. São vistas como arranjos planos e coesos, apresentando citoplasma e bordas celulares definidos com “janelas” entre elas. Além desses arranjos, grupos tridimensionais com contornos em rosetas podem ser vistos. As doenças mais comuns do mesotélio são infecções e neoplasias. Citopatologia26 Figura 22 – Células mesoteliais agrupadas, com núcleos centrais e redondos. Os processos patológicos presentes no derrame levam a várias mudanças reativas nas células mesoteliais. Os processos reativos (hiperplásicos) podem provocar a proliferação das células mesoteliais, aumentando o número de mitoses e do tamanho nuclear, podendo haver também aumento da relação núcleo-citoplasma e presença de nucléolos proeminentes, que podem ser confundidos com um processo neoplásico. Algumas células inflamatórias, como neutrófilos, eosinófilos e linfócitos, estão associadas à benignidade. Mesoteliomas benignos São mais comuns no peritônio e há muita celularidade no esfregaço, tendo arranjos de células mesoteliais reativas. O tumor cresce como um processo papilar recoberto por uma ou mais camadas de células mesoteliais. Os mesoteliomas fibrosos benignos possuem um predomínio de fibroblastos com relação às células mesoteliais. A celularidade é variável, o esfregaço pode aparecer hemorrágico devido às lesões serem muito vascularizadas. As células são fusiformes, semelhantes a fibroblastos, mitoses não são comuns e há fragmentos de estroma. Em alguns casos a celularidade pode aumentar, com células moderadamente pleomórficas de cromatina grosseira. Figura 23 – Células mesoepiteliais reativas. Citopatologia 27 Tabela 1 – Diferenças entre reatividade e mesotelioma. Reatividade Mesotelioma Disposição celular Grupos escassos e pequenos Grupos abundantes e grandes Núcleo Anisonucleose moderada Grande e irregular Membrana Nuclear fina Nuclear grossa Nucléolos Basófilos Eosinófilos e grandes Mitoses Moderadas Abundantes e atípicas Mesoteliomas malignos A pleura é o local onde os mesoteliomas malignos ocorrem com maior frequência, porém também podem ocorrer no pericárdio e peritônio. O esfregaço geralmente apresenta alta celularidade, podendo ter alterações somente epiteliais, em células epiteliais e fusiformes (bifásicas) ou anaplásicas. As alterações bifásicas são bem características porém nem sempre estão presentes, o que pode auxiliar no diagnóstico é a alta celularidade e presença de papilas abundantes. O tipo mais comum do mesotelioma maligno é o carcinomatoso, que possui aspectos celulares mínimos ou de difícil diagnóstico de malignidade. As células estão agrupadas tridimensionalmente ou de forma plana, podem ser papilares ou do tipo túbulo acinares, e também isoladas e pouco coesas. O citoplasma é abundante com bordos bem definidos, podendo haver vacuolização originada de degeneração ou conter mucina mesenquimal metacromática (ácido hialurônico). A presença de células epitelioides vacuolizadas é sugestiva de adenocarcinoma. Figura 24 – Esfregaço de derrame pleural contendo mesotelioma maligno. Citopatologia28 Quando uma segunda população de células, totalmente diferente das células mesoteliais, é encontrada,a malignidade metastática deve ser considerada. Tabela 2 – Diferenças entre mesotelioma e tumor metastático. Mesotelioma Metástase Disposição celular Uniformidade entre as células, grupos grandes de borda liso Mais de uma população celular, grandes grupos de bordas onduladas Citoplasma Densidade desigual generalizada com vacúolos pequenos e difusos Borda celular marcada com vacúolos grandes e centrais Núcleo Central Periférico O diagnóstico diferencial entre adenocarcinoma e mesotelioma possui uma grande dificuldade na citologia dos líquidos, e o uso da microscopia eletrônica e da imunohistoquímica pode ser muito útil neste sentido. E então? Esse capítulo foi fácil, não foi? Mas para garantir que não existam dúvidas sobre o tema, vamos ao nosso resumo. Você estudou aqui que as cavidades serosas são preenchidas por um fluido biológico – líquido cavitário ou seroso – que, dentre outras coisas, é composto de restos celulares e células que formam a pleura – células mesoteliais. O derrame ou efusão pleural – aumento no volume do líquido – pode ser transdudativo (baixa celularidade) ou exsudativo (alta celularidade e presença de células inflamatórias). Com relação aos processos hiperplásicos de células mesoepiteliais, esses são chamados de mesoteliomas e podem ser benignos ou malignos. O mesotelioma benigno é mais comum no peritônio e é apresenta alta celularidade, com células reativas, formando papilas discretas. As células são fusiformes, com núcleos basófilos e há fragmentos estromais. Já com relação ao mesotelioma maligno, eles são mais comuns na pleura, apresentam células epiteliais, epiteliais e fusiformes ou anaplásicas. Há papilas abundantes, o citoplasma é abundante, podendo haver vacuolização com presença de ácido hialurônico. Quando uma segunda população de células diferentes é encontrada, malignidade metastática deve ser considerada. Citopatologia 29 Lesões escamosas intraepiteliais e lesões glandulares intraepiteliais INTRODUÇÃO: Ao término deste capítulo você terá estudado sobre as lesões que favorecem a malignidade em epitélios escamoso e glandular do trato genital feminino e compreendido os critérios morfológicos utilizados para caracterizar cada lesão utilizando o Sistema Bethesda para tal. Como já foi mencionado, o câncer de colo do útero é a segunda neoplasia mais incidente entre as mulheres brasileiras. Essa patologia se desenvolve à partir de lesões precursoras com potencialidade para progressão se não detectadas e tratadas precocemente. O exame citológico do colo do útero representa a estratégia clínica mais segura e eficaz na detecção precoce e, assim, prevenção da doença. Portanto, ao citopatologista cabe reconhecer essas lesões e classifica- las corretamente. É para isso que estudaremos esse capítulo! Está preparado para embarcar nessa nova jornada? Antes de falarmos sobre as lesões do epitélio do trato genital feminino, devemos entender sobre casos em que existem células anormais (atípicas), porém sem critérios suficientes para diagnóstico de lesão intraepitelial. O Sistema Bethesda, em 1991, introduziu a categoria Atipias de células escamosas de significado indeterminado (ASCUS) que se subdividia em 2 grupos: que favorecia processo reativo ou que favorecia processo pré-neoplásico. Essa classificação reduziu as taxas de resultados falso-negativos e falso-positivos nos diagnósticos. Em 2001, houve uma atualização dessa nomenclatura pelo Sistema Bethesda, introduzindo a classificação ASC – Atipias de células escamosas, subdividida em ASC-US, para atipias de células escamosas de significado indeterminado, e ASC-H, para atipias de células escamosas não excluindo lesão de alto grau. Citopatologia30 ASC-US Existem critérios citomorfológicos utilizados para caracterizar essa atipia que são utilizados quando há alterações sugestivas de lesão intraepitelial escamosa de baixo grau, porém não há critérios qualitati- vamente e/ou quantitativamente suficientes para diagnosticar uma lesão. Dentre os critérios estão: núcleos de células escamosas maduras com tamanho aumentado de 2,5 - 3 vezes (comparados aos núcleos de células intermediárias normais), pouco hipercromáticos, com cromatina distribuída irregularmente, relação núcleo-citoplasma aumentada, paraqueratose atípica e ausência de alterações causadas pelo vírus HPV. Em alguns casos, células escamosas podem ser visualizadas com atipias maiores que em ASC-US, associadas à degeneração causada pelo dessecação da amostra, “esmagamento” das células durante a confecção do esfregaço ou falhas no processamento e coloração das amostras. Deve-se incluir esses casos em ASC-US. Figura 25 – Célula escamosa intermediária com aumento discreto do tamanho do núcleo, com leve hipercromasia e irregularidade da borda (seta). Algumas condições podem ser bastante similares ao ASC-US, podendo ter alterações reativas/degenerativas, em que há retração nuclear, hipercromasia ou hipocromasia nuclear e alterações citoplasmáticas. SAIBA MAIS: Quer saber mais sobre a nomenclatura brasileira dos tipos de lesões? Recomendamos o acesso à seguinte fonte de consulta e aprofundamento: Apresentação “Nomenclatura brasileira”, acessível pelo link: http://bit.ly/32JvpwB Citopatologia 31 Também são acompanhadas de deficiência de ácido fólico/vitamina B12, causando citomegalia, discreto aumento do tamanho do núcleo ou lesão intraepitelial escamosa de baixo grau (LSIL), que se caracteriza por células escamosas maduras com núcleos aumentados mais que três vezes, com irregularidades das bordas nucleares e hipercromasia mais intensa, o que será abordado profundamente mais adiante. ASC-H As atipias de células escamosas, não sendo possível excluir lesão intraepitelial escamosa de alto grau, eram conhecidas como metaplasia escamosa imatura atípica. São caracterizadas por células com tamanho de uma célula metaplásica, com núcleos de 1,5 a 2 vezes maior e consequente aumento da relação núcleo-citoplasma. As células podem estar isoladas ou em grupos e apresentar leves hipercromasia e irregularidade nuclear. Nessa categoria devem ser abordadas duas condições pouco conhecidas, especialmente na citopatologia: a metaplasia papilar imatura e a metaplasia imatura atípica. As duas são diagnosticadas apenas pelo exame histopatológico e a citologia tem papel limitado na sua caracterização. Algumas condições podem similar ASC-H. As células de reserva e metaplásicas imaturas possuem citoplasma escasso e uma relação nucleocitoplasmática aumentada, tornando a diferenciação difícil. Porém, nessas células a cromatina é bem distribuída e não há irregularidades das bordas nucleares, ajudando a diferenciar. Em lesões intraepiteliais escamosas de alto grau (HSIL), as células de origem Citopatologia32 metaplásica possuem núcleos mais hipercromáticos, irregularidades das bordas nucleares e cromatina granular, características que serão abordadas mais adiante. Figura 26 – Células metaplásicas reativas que podem similar ASC-H. Existem algumas condições que se encaixam na categoria de ASC, porém são difíceis de enquadrar em ASC-US ou ASC-H, como no reparo atípico e nas células paraqueratóticas atípicas. As células de reparo atípico podem ser metaplásicas escamosas ou glandulares e possuem alterações como aumento no tamanho do núcleo, cromatina grosseiramente irregular e granular, múltiplos nucléolos e sobreposição celular. São alterações mais intensas do que em células em processo de reparação padrão. As células paraqueratóticas atípicas são células escamosas queratinizadas pequenas, com citoplasma denso, geralmente orangeofílico, pleomórficas, com aumento ou hipercromasia nuclear, que também não se enquadram em ASC. Figura 27 - Células de reparação atípicas com dissociação celular, célula binucleada, com nucléolos múltiplos atípicos (seta). O Sistema Bethesda classifica esse casocomo ASC-H. Citopatologia 33 ASC associada à atrofia Células com núcleo aumentado no mínimo 2 vezes, hipercromático, com irregularidades do contorno ou na distribuição da cromatina, pleomorfismo em células na forma de raquete ou fusiformes. Devido ao fato dessa condição ser diagnosticada como ASC-US pela maioria dos citopatologistas, apesar de as células com alterações nucleares serem imaturas (atrofia) e não serem classificadas em ASC-H, essas alterações devem se categorizar em “Atipia de células escamosas associada à atrofia - ASC”, não incluindo-a na categoria ASC-US ou ASC-H. Em caso de dúvida, recomenda-se realizar o teste estrogênico de proliferação celular. Figura 28 - Atipia de células escamosas associada à atrofia, com células imaturas de núcleos hipercromáticos e discreta irregularidade nuclear (seta). Lesões intraepiteliais escamosas do colo uterino (LSIL/HSIL) O Sistema Bethesda baseia-se em uma classificação que divide as lesões intraepiteliais em alto e baixo grau. Essas lesões eram denominadas NIC I (baixo grau) e NIC II/III (alto grau), baseadas em seus aspectos citomorfológicos. Posteriormente, essas lesões precursoras do carcinoma escamoso foram divididas em lesão intraepitelial escamosa de baixo grau (LSIL), correspondendo ao NIC I/ displasia leve, e lesão intraepitelial escamosa de alto grau (HSIL) correspondendo ao NIC II/ NIC III, displasia moderada ou displasia severa. Citopatologia34 Tabela 1 - Nomenclatura das lesões pré-cancerosas e carcinoma escamoso invasivo do colo uterino, segundo os diferentes sistemas de classificação citológica. OMS Classificação de Richart Bethesda Displasia leve NIC I LSIL Displasia moderada NIC II HSIL Displasia acentuada/ carcinoma in situ NIC III HSIL - - HSIL com suspeitas de invasão Carcinoma invasivo Carcinoma invasivo Carcinoma invasivo Para a classificar as lesões nos esfregaços, deve-se levar em consideração a intensidade das alterações nucleares e a maturidade do citoplasma, avaliando a relação núcleo-citoplasma (quanto maior essa relação, maior a displasia). Nucléolos e mitoses são raramente observadas nas lesões e restritas às células do carcinoma in situ. A classificação das lesões se dá pelo tipo mais anormal de células encontradas, mesmo que não seja predominante. LSIL A maioria dos carcinomas escamosos do colo uterino é originado no epitélio metaplásico na zona de transformação, que é mais suscetível à ação do vírus HPV (papiloma vírus humano). Os tipos HPV são classificados como de baixo e alto risco, sendo os de alto risco (dos tipos 16, 18, 31 e 45) responsáveis pelos carcinomas e os de baixo risco (dos tipos 6 e 11) responsáveis pelas lesões de baixo grau. As características citológicas na infecção por HPV são cavidades perinucleares em células escamosas superficiais e intermediárias com aumento e hipercromasia do núcleo (coilocitose), presença de disqueratócitos (células escamosas pequenas, hipercromáticas) e macrócitos (células muito grandes, contendo às vezes neutrófilos ou outras células escamosas). Em lesões de baixo grau podemos observar as características citadas acima e também células maduras com núcleo aumentado mais de 3 vezes, hipercromático e com bordas irregulares, relação núcleo-citoplasma leve, presença de binucleação ou multinucleação. Citopatologia 35 Figura 29 – LSIL apresentando 2 coilócitos (seta) e células com núcleos aumentados e binucleados, com paraqueratose. Algumas condições podem simular coilocitose, como halos perinu- cleares de inflamação, células com depósito de glicogênio (naviculares) e células metaplásicas imaturas. As alterações reativas podem simular lesões de baixo grau, apresentando alterações nucleares, degeneração, pseudoeosinofilia, halos e vacuolização citoplasmática. HSIL Nos esfregaços, as lesões intraepiteliais escamosas de alto grau são representadas por grande número de células primitivas, imaturas, com menor quantidade de citoplasma e aumento da relação núcleo- citoplasma. O núcleo pode adquirir um padrão grosseiramente granular, de acordo com a severidade da lesão. As bordas nucleares são mais frequentemente irregulares. São células metaplásicas imaturas, redondas ou ovais, apresentando-se isoladas ou em agrupamentos. Figura 30 – Células parabasais com núcleo aumentado, bordas irregulares, com anisocariose e anisocitose. Existem algumas condições que podem simular uma lesão de alto grau, resumidas na Tabela 2. Citopatologia36 Tabela 2 - Tipos de células e condições simuladoras de HSIL. Tipos de células Características De reserva Bordas nucleares lisas e normocromasia Metaplásicas Bordas nucleares lisas e normocromasia Linfócitos Macrófagos de corpos tingíveis Do segmento uterino inferior Bordas nucleares lisas e capilares Atrofia Bordas nucleares lisas, cromatina “borrada” Histiócitos Citoplasma espumoso, núcleos reniformes ASC-H Anormalidades nucleares mais discretas, especialmente menor irregularidade das bordas nucleares e cromatina mais delicada Atipias em células glandulares As anormalidades das células glandulares endocervicais são, de acordo com o Sistema Bethesda, divididas em atipias de células glandulares (AGC) e adenocarcinoma endocervical. As células glandulares endocervicais atípicas sem outra especificação, de significado indeterminado provavelmente não neoplásicas, são classifi- cadas em AGC-SOE. As células glandulares endocervicais atípicas provavelmente neoplásicas, de significado indeterminado possivelmente neoplásicas, são classificadas em AGC-NEO. As células glandulares atípicas serão classificadas com relação a sua origem: endocervical, endometrial ou indeterminada, se não for possível determinar a sua origem. As anormalidades nas amostras citológicas podem representar no exame histopatológico desde lesões benignas a lesões significativas com condições pré-malignas e malignas, as glandulares podem ser não somente endocervicais, mas também endometriais e extrauterinas. A atipia diagnosticada no exame citológico está mais associada às lesões intraepiteliais escamosas que ao adenocarcinoma endocervical. Em pacientes mais jovens há maior frequência de lesões intraepi-teliais escamosas, enquanto nas idosas há mais lesões glandulares endometriais. AGC-SOE As características das células atípicas sem outra especificação são agrupamentos e sobreposição nuclear, relação núcleo-citoplasma aumentada, porém com citoplasma abundante, com bordas distintas, aumento nuclear de 3 a 5 vezes a área dos núcleos das células endocervicais normais, leve hipercromasia nuclear, raras mitoses. Citopatologia 37 Figura 31 – AGC com células glandulares atípicas aglomeradas, com núcleos volumosos e cromatina regular, alguns nucléolos são visíveis. AGC-NEO As células atípicas provavelmente neoplásicas apresentam-se em placas ou “tiras” com sobreposição. Algumas rosetas ou aspecto de “plumagem” podem ser observadas. Os núcleos possuem tamanho aumentado, com leve a moderada hipercromasia, aumento da relação núcleo-citoplasma, citoplasma em menor quantidade e bordas mal definidas. Mitoses são comuns. O risco de doença pré-maligna ou maligna nesse grupo corresponde a 96%. Figura 32 – AGC-NEO com células endocervicais atípicas com núcleos aumentados e alongados. Pseudoestratificação nuclear de leve a moderada. E então? Este capítulo foi intenso, não foi? Conseguiu entender sobre as classificações e caracterizações de cada tipo de lesão?Para facilitar, vamos ao nosso resumo. Você deve ter aprendido que, pelo sistema Bethesda, as atipias de células escamosas são subdividida em ASC-US, para atipias de células escamosas de significado indeterminado – lesão de baixo grau -, e ASC-H, para atipias de células Citopatologia38 escamosas não excluindo lesão de alto grau. As características de ASC- US incluem células madura aumentadas de 2,5 a 3 vezes, levemente hipercromáticas, cromatina irregulare paraqueratose atípica. Já na ASC-H tem-se células metaplásicas imaturas, com núcleo irregular aumentado de 1,5 a 2 vezes, células isoladas ou em grupos, levemente hipercromáticas. Aprendeu também que algumas atipias devem ser classificadas como atipias de células escamosas associada à atrofia, pelo fato de se tratarem de células imaturas, porém com características de ASC-US. As lesões intraepiteliais escamosas do colo do útero podem ser de baixo grau – LSIL – ou de alto grau – HSIL, classificadas pelo sistema Bethesda. Na LSIL há cavidade perinucleares, células aumentadas, coilocitose, macrócitos e disqueratócitos, enquanto na HSIL as células são metaplásicas imaturas, soladas ou em grupo. Você viu que as atipias em células glandulares são classificadas em AGC-SOE, quando tratam- se de células atípicas sem outra especificação e AGC-NEO, no caso das provavelmente neoplásicas, sendo também classificadas quanto à sua origem em: endocervical, endometrial ou indetermnada. Carcinomas e adenocarcinomas in situ e invasor INTRODUÇÃO: Ao término deste capítulo você terá compreendido os critérios de malignidade da ectocérvice, diferenciando carcinomas in situ e invasor, e da endocérvice, diferenciando adenocarcinomas in situ e invasor. O principal fator de risco para o desenvolvimento de um carcinoma invasor é a infecção persistente por Papilomavírus humano – HPV. Apesar do desenvolvimento e distribuição de vacinas contra o HPV, pelo sistema único de saúde, ele ainda é um problema de saúde pública, acometendo mais da metade dos jovens brasileiros. Considerando-se sua alta prevalência e relação direta com o desenvolvimento desse tipo de câncer, é crucial para o citopatologista reconhecer e diferenciar os tipos e subtipos de carcinomas que acometem o colo uterino, para que se tenha melhores prognósticos. Assim, este capítulo torna-se muito importante em sua formação. Está preparado para mais uma jornada? Vamos lá! Citopatologia 39 As lesões no epitélio escamoso queratinizante são difíceis de graduar, como foi visto no tópico anterior, e difíceis de diferenciar do carcinoma escamoso invasor. A imaturidade celular não é uma característica dessas lesões, portanto, não pode ser utilizada como parâmetro na classificação. As células anormais geralmente apresentam citoplasma abundante e podem exibir alteração discreta da relação núcleo-citoplasma. A gravidade da lesão é dada pelo pleomorfismo das células queratinizadas e pela variação do tamanho do núcleo. Quando a diferenciação do carcinoma invasor é difícil, a lesão pode ser qualificada como lesão intraepitelial escamosa de alto grau com características suspeitas de invasão. Em alguns casos de lesão de alto grau, os esfregaços podem ter células com nucléolo ou com cromatina irregular, sem evidência de necrose. Enquanto em outras situações, há necrose focal questionável, com hemácias lisadas, mas sem restos de células epiteliais, e ausência de pleomorfismo nuclear. O diagnóstico de lesão de alto grau com características suspeitas de invasão, não podendo excluir microinvasão é recomendado. Figura 33 – Lesão de alto grau com suspeita de invasão, grupo de células queratinizadas e pleomórficas, núcleos hipercromáticos. O carcinoma microinvasivo é a fase inicial de infiltração do estroma pelas células neoplásicas após o rompimento da membrana basal. Não é possível identificar nos esfregaços citológicos que o carcinoma é microinvasivo, necessitando da confirmação histológica, onde observa-se as células invadindo o estroma. Citopatologia40 Carcinoma escamoso invasor O principal fator de risco para o desenvolvimento do carcinoma escamoso invasor é a infecção persistente pelo papiloma vírus humano (HPV) associada a outros fatores. As lesões precursoras discutidas anteriormente poderão originar essa neoplasia, uma lesão de baixo grau pode evoluir para uma lesão de alto grau e, caso as células neoplásicas invadam a membrana basal, além de 3 mm de profundidade, atingindo o estroma adjacente, origina o carcinoma invasor. As evoluções nem sempre acontecem dessa forma, podendo originar de lesões de alto grau primordialmente. O carcinoma escamoso invasor pode ser classificado em 3 tipos, pela Organização Mundial da Saúde, de acordo com o grau de diferenciação celular. Carcinoma escamoso queratinizante Nesse tipo de neoplasia existem características como hiperque- ratose e paraqueratose atípicas, células pleomórficas com núcleos frequentemente aumentados, com cromatina condensada, e raros nucléolos e mitoses. Figura 34 - Células pleomórficas, queratinizadas, os núcleos variam de forma e exibem cromatina condensada. Carcinoma escamoso não queratinizante de grandes células As células desse tipo de carcinoma possuem um citoplasma homogêneo, em quantidade moderada, variando o tamanho e a forma. Os núcleos são aumentados, possuem cromatina irregular, nucléolos e mitoses são comuns, há diátese tumoral. As células são grandes, arredondadas e poligonais e são encontradas na JEC. Citopatologia 41 Figura 35 – Agrupamento frouxo, desorganizado de células grandes com citoplasma abundante, com núcleos volumosos. Carcinoma escamoso não queratinizante de pequenas células É o tipo de pior prognóstico, localizado na endocérvice, possui células pequenas com aumento da relação núcleo-citoplasma, com cromatina granular e micronucleolos. Há a presença de diátese tumoral. Figura 36 - Esfregaço hemorrágico, contendo células pequenas, indiferenciadas, ao lado de células escamosas parabasais. A diferenciação do carcinoma in situ do invasor se dá, principalmente, pela quantidade de citoplasma, que é mais abundante em células neoplásicas do que em lesões de alto grau, a diátese tumoral presente na invasão, não sendo uma característica das lesões, e o pleomorfismo das células que não é tão evidenciado em lesões precursoras. Citopatologia42 Tabela 1 - Características citológicas diferenciais no carcinoma in situ e carcinoma escamoso invasivo. Anormalidades Carcinoma in situ Carcinoma invasor Citoplasma Mais escasso Mais abundante Núcleo Aumentado Mais aumentado Cromatina Regular Irregular Nucléolo Ausente Frequente Diátese Ausente Presente Figura 37 – Características citológicas diferenciais do carcinoma in situ e invasor, evidenciando padrões de cromatina diferentes nos quadrantes e pleomorfismo celular, que estão presentes em carcinomas invasivos. Algumas condições podem simular o carcinoma escamoso invasivo, como lesões escamosas, principalmente as queratinizantes, processo de reparação, atrofia, alterações citopáticas causadas pelo herpes vírus, radiação ou adenocarcinoma endocervical/endometrial. Figura 38 – Processo de reparação celular, com anisocariose e nucléolos proeminentes. A cromatina distribuída uniformemente e as bordas lisas dão o diagnóstico de reparação. Adenocarcinoma in situ (AIS) Para a caracterização do adenocarcinoma in situ, deve-se levar em consideração as seguintes características: preservação da arquitetura glandular normal, o envolvimento de parte ou de todo o epitélio revestindo as glândulas ou a superfície, núcleo aumentado, cromatina Citopatologia 43 grosseira, nucléolo pequeno único ou múltiplo, aumento da atividade mitótica e a variação da estratificação dos núcleos. No esfregaço, visualiza-se um fundo limpo com celularidade moderada a abundante, células anormais em formato colunar, com perda do padrão “favo de mel”, sobreposição nuclear. Presença de rosetas (arranjos glandulares em conjuntos circulares de células com núcleos periféricos e citoplasma voltado em direção ao centro) e plumagem. Núcleos alongados, com tamanho aumentado e hipercromáticos, aumento da relação núcleo- citoplasma, nucléolo pequeno e presença de mitoses e apoptose (núcleos condensados e citoplasma denso e eosinofílico). Para o diagnóstico citológico das lesões glandulares endocervicais, a análisedas anormalidades arquiteturais dos agrupamentos epiteliais é tão importante quanto o estudo das características citomorfológicas. No AIS há um aumento na quantidade de células em agrupamentos epiteliais, com citoplasma mal definido e núcleos hipercromáticos. Há intensa sobreposição nuclear, com perda da polaridade nuclear. Figura 39 – AIS com células colunares atípicas, com núcleos alongados, volumosos e hipercromáticos. Aspecto em plumagem e paliçada. Tabela 2: Diferença entre o AIS e lesão intraepitelial escamosa de alto grau. AIS HSIL Conjuntos sinciciais, conjuntos glandulares “Tiras” com pseudoestratificação Agrupamentos sinciciais com células empilhadas no centro “plumagem” dos núcleos na periferia dos agrupamentos Aplanamento das células periféricas Núcleos alongados Núcleos arredondados - Células isoladas anormais com citoplasma denso ou queratinizado Nucléolo (macronucléolo) presente Nucléolo (micronucléolo) presente quando há extensão glandular Citopatologia44 Adenocarcinoma invasivo As características do adenocarcinoma invasivo são mais intensas que no AIS, apesar das alterações arquitetônicas serem idênticas, envolvendo um maior número de células anormais, com configuração colunar, presença de sincícios e papilas, diátese tumoral, células pleomórficas isoladas, há perda de coesão celular, os núcleos das células são maiores, com bordas irregulares, e presença de nucléolos proeminentes. Mitoses são bastante frequentes. Figura 40 – Adenocarcinoma invasor comprovado pela histologia, com agrupamento de células colunares atípicas, em paliçada, sugerindo AIS. Não é fácil distinguir AIS do adenocarcinoma invasivo. Na dúvida, a possibilidade de invasão pode ser sugerida. É necessário o exame histopatológico para a diferenciação definitiva entre as duas condições. Entretanto, são estabelecidos como os critérios mais úteis associados ao adenocarcinoma invasivo: pleomorfismo nuclear, cromatina irregu-larmente distribuída e a presença mais frequente de nucléolos proeminentes. Diátese tumoral indica invasão. O diagnóstico diferencial de alterações reativas, que estão associadas a processos inflamatórios e radioterapia, demonstra células endocervicais com núcleos volumosos, de tamanho variável, com frequentes nucléolos proeminentes. O citoplasma dessas células geralmente é abundante, sem alteração da relação núcleo-citoplasma. Células isoladas multinucleadas são comuns. Na radioterapia as células se apresentam em grande tamanho com núcleos volumosos e a cromatina se apresenta “borrada”. Citopatologia 45 Figura 41 – Células endocervicais reativas agrupadas, com núcleos volumosos e nucléolos proeminentes. A metaplasia tubária é a principal causa de diagnósticos falso- positivos de adenocarcinoma. É muito frequente na porção mais superior do canal endocervical. A metaplasia tubária é definida pela presença dos 3 tipos de células comuns no revestimento das trompas: ciliadas, com núcleos grandes e ovais, hipercromáticos, citoplasma eosinofilico e cílios abundantes, não ciliadas, com citoplasma denso, sem vacúolos de mucina, e células intercalares, que são prováveis variantes das células não ciliadas com citoplasma delicado, núcleos alongados e citoplasma escasso. Nessa condição pode ocorrer estratificação dos núcleos, hipercromasia e nucléolos, simulando assim AIS. Identificar os cílios presentes nas células é o mais importante no diagnóstico diferencial com AIS. O uso da escova na colheita facilita a coleta da amostra da região mais alta do canal endocervical, facilitando a descamação das células colunares ciliadas. A diferenciação com AIS é possível visto que, nesta condição, o quadro é mais exuberante, enquanto na metaplasia tubária as alterações são mais focais. Figura 42 – Células endocervicais contendo cílios preservados, eosinofílicos, facilitando o diagnóstico de metaplasia tubária. Citopatologia46 A descamação de vários agrupamentos de células glandulares, às vezes assumindo arquitetura papilar, são características de pólipos endocervicais ou endometriais. As células podem apresentar núcleos volumosos e nucléolos proeminentes, a relação núcleo-citoplasma não é aumentada, não há irregularidades das bordas nucleares e a cromatina é bem distribuída, o que caracteriza essas alterações benignas. Figura 43 – Células endocervicais distribuídas em arranjos papilares (setas). Esse padrão de descamação é semelhante à arquitetura das células vista no AIS. A maior dificuldade diagnóstica é a diferenciação entre adenocarcinoma endocervical e endometrial, e isso ocorre devido às variações das duas condições, com a descamação de células com características morfológicas que se sobrepõem. Tabela 3 – Diferenças entre o adenocarcinoma endocervical e endometrial. Adenocarcinoma endocervical Adenocarcinoma endometrial Muitas células colunares Células menores, redondas, isoladas Núcleos maiores Tamanho nuclear pouco aumentado Nucleolos proeminentes Raros nucléolos O diagnóstico citológico de adenocarcinoma, sugerindo a origem do tumor apenas, é recomendado em casos que não reproduzem o quadro clássico. O exame histopatológico é utilizado para fazer a diferenciação. Anormalidades glandulares endometriais As atipias em células glandulares endometriais são de diagnóstico mais difícil que das atipias de células endocervicais, não sendo possível aplicar as classificações SOE e NEO. Muitas vezes não há critérios citológicos definitivos de malignidade, considerando as Citopatologia 47 células endometriais, então, utiliza-se a nomenclatura preconizada pelo Sistema Bethesda 2001 de células glandulares endometriais atípicas de significado indeterminado, sem outra especificação. Como a distinção de células endometriais provavelmente neoplásicas é extremamente difícil e irreproduzível, essa classificação não se aplica. São caracterizadas por pequenos agrupamentos de células, com núcleos levemente alterados e hipercromáticos, citoplasma escasso, com pouca vacuolização, e bordas mal definidas. Figura 44 – Células endometriais atípicas, exibindo vacúolos citoplasmáticos (seta), núcleos excêntricos, discretamente aumentados, com cromatina levemente irregular e alguns nucléolos pequenos. Condições como irritação pelo uso prolongado do DIU, pólipos endometriais e endometrites podem ser incluídas na categoria de células glandulares endometriais atípicas. Entretanto, lesões do endométrio serão representadas nesse grupo, como as hiperplasias endometriais atípicas e adenocarcinomas bem diferenciados. Adenocarcinoma endometrial O principal subtipo histológico de adenocarcinoma endometrial é o endometrioide, outros subtipos menos comuns são o adenocarcinoma papilar seroso e o de células claras (pior prognóstico). O teste de Papanicolaou não é o método ideal de investigação das doenças endometriais, entretanto, é comum a detecção citológica de adenocarcinomas endometriais (principalmente de alto grau). As características presentes no esfregaço do adenocarcinoma endometrial estão relacionadas ao seu tipo histológico e grau de diferenciação. As anormalidades celulares são mais acentuadas quando são menos diferenciadas, ou seja, de alto grau. Citopatologia48 As células neoplásicas do adenocarcinoma endometrial encontram-se isoladas ou em pequenos agrupamentos, com tamanho variado, arredondadas, há presença de diátese tumoral (menos comum no endometrioide), citoplasma cianofílico, escasso ou abundante, com vacuolização, aumento nuclear com cromatina irregular, presença frequente de nucléolo e histiócitos. Figura 45 – Adenocarcinoma endometrial em esfregaço cervical. Algumas condições podem simular o adenocarcinoma endo- metrial, como o adenocarcinoma endocervical, efeito do DIU, pólipos endometriais, endometrites e hiperplasias endometriais. Metástases para o colo uterino ou vagina são, na maioria das vezes, derivadasde adenocarcinomas. As células malignas de outras origens atingem o colo e a vagina através da disseminação pelas trompas de Falópio ou pela invasão direta do colo ou da vagina. Na citologia é extremamente difícil ou impossível determinar se um adenocarcinoma é de origem primária ou metastática. Alguns estudos alertam para o encontro de células malignas em um “fundo” limpo, indicando a possibilidade de um tumor metastático. Na prática, o dado mais importante para a identificação de neoplasia maligna metastática em esfregaços é a história clínica da paciente, com referência à neoplasia prévia. Como foi o estudo deste capítulo? Conseguiu compreender as características de cada tipo de carcinoma? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu este tema, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que a depender das características da lesão maligna, os carcinomas e adenocarcinomas são classificados em diferentes tipos. O carcinoma escamoso invasor queratinizantes Citopatologia 49 tem como características hiper e paraqueratose atípicas, células pleomórficas com núcleos aumentados, com cromatina condensada; já o não queratinizante de grandes células possuem células grandes e poligonais, cromatina irregular e nucléolos e mitose frequentes. No caso do não queratinizante de pequenas células, há células pequenas, com cromatina granular e micronucléolos. Também aprendeu que o carcinoma in situ apresenta algumas características distintas do invasor. No caso do adenocarcinoma, você viu que no in situ há preservação da arquitetura glandular; as células são abundantes e colunares, com núcleos longos, volumosos e hipercromáticos, enquanto no invasivo apresenta sincícios e papilas, com células pleomórficas isoladas, devido a perda da coesão. Algumas condições, como a metaplasia tubária levam ao diagnóstico falso-positivo para adenocarcinoma. Já com relação ao adenocarcinoma endometrial as células encontram-se isoladas ou em pequenos grupos, o citoplasma é cianófilo e vacuolizado, a cromatina é irregular e há nucléolos e histiócitos. Citopatologia50 BIBLIOGRAFIA André Luiz de Souza Barros, D. N. (2012). Caderno de referência 1: Citopatologia Ginecológica. Rio de Janeiro: CEPESC. Andressa de Azambuja Pias Weber, E. D. (2012). Análise de exames citopatológico de mama e mamográficos no diagnóstico das doenças da mama, Santo Ângelo (RS), Brasil. Revista Brasileira de Mastologia, 22(4):124-130. Barros, D. P. (2011). ASPECTOS CITOLÓGICOS DAS PRINCIPAIS ALTERAÇÕES DA MAMA. Recife: Ed. do Autor. Cechella, M. (30 de julho de 2019). Citopatologia da Mama. Fonte: Slideshare: http://bit.ly/38iLnyZ Cechella, M. (30 de julho de 2019). Dificuldades diagnósticas em citologia mamária. Fonte: Slideshare: http://bit.ly/3cskyvp Citologia Oncótica – Preparo de Esfregaços e Líquidos Cavitários. (30 de julho de 2019). Fonte: sbhistotecnologia: http://bit.ly/2TzbM66 FILHO, G. C. (2011). TUMORES METASTÁTICOS NOS LÍQUIDOS CAVITÁRIOS. Recife. INCA. (30 de julho de 2019). Programa do INCA - parte VI ( câncer de mama ). Fonte: Página do INCA: http://bit.ly/32KTWkM L. Frappart, B. F. (31 de julho de 2019). Citopatologia do colo utero - atlas digital. Fonte: Screening group: http://bit.ly/2PGAErP Lima, D. N. (2012). Atlas de Citologia ginecológica. Rio de Janeiro: CEPESC. Pinto, F. R., & Brasília., L. M. (2012). Citopatologia não ginecológica. Caderno de referência 2 - Ministério da Saúde, Rio de Janeiro: CEPESC. SILVA, R. B. (2017). O DIAGNÓSTICO DO MESOTELIOMA MALIGNO. Recife.