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1 Dermatologia: Piodermites e Dermatoses Bacterianas Piodermites São processos infecciosos bacterianos que acometem a pele – tanto a epiderme, quanto derme e/ou hipoderme (subcutâneo) –, podendo ou não haver formação de pus associado. Acometem cerca de 7% da população: locais de aglomerados populacionais, como hospitais e creches favorecem a transmissão da doença. No verão, devido ao calor e umidade, a incidência dessas infecções aumenta. Cada faixa etária possui uma piodermite mais prevalente: ● Recém-nascidos e crianças: impetigo ● Adulto: furúnculo ● Idoso: carbúnculo (antraz) Flora bacteriana da pele (microbiota da pele) Cada indivíduo apresenta uma concentração e variação de bactérias diferentes na pele, que se desenvolvem ao longo da nossa vida: a exposição à flora bacteriana de parentes próximos nos primeiros anos de vida, ambientes onde temos contatos e nosso sistema imunológico influenciam na formação da microbiota de cada um. Existem dois tipos principais de bactérias que constituem a flora bacteriana da nossa pele: ● Residentes ○ Colonizam nossa pele e vivem como comensais, alimentando-se de detritos de nossa pele – em condições normais não causam patologias, mas podem em condições de queda de imunidade ○ Staphylococcus epidermidis é uma das principais encontradas na pele ○ Corynebacterium alteram a coloração do suor ○ Brevibacterium conferem odor característico do suor ● Transitórias ○ Colonizam a pele eventualmente, em pequeno número, e são sempre patogênicas. Sua remoção é mais fácil que as residentes Alguns fatores podem estar atrelados ao surgimento das piodermites, como: ● Remoção das bactérias residentes devido ao uso indevido de antibióticos, perdendo a proteção contra outros microrganismos ● Perda da barreira química dos ácidos graxos, produzidos pelas bactérias ● Perda da barreira mecânica celular devido a renovação constante da pele, assim como lesões, que permitem infecções secundárias ● Alcalinização do pH da pele (o valor normal é de 5 a 5,5) ● Imunossupressão ● Patogenia e grau de virulência do microrganismo 2 Agentes etiológicos Os principais agentes etiológicos são Staphylococcus aureus e o Streptococcus pyogenes. Os Staphylococcus fazem parte da flora transitória de ⅓ da população, especialmente no vestíbulo nasal e região perineal. O mais patogênico dos Streptococcus é o pyogenes beta hemolítico do grupo A, transmitido a partir do contato direto. 10% da população apresenta essa bactéria como portadores sãos, principalmente na orofaringe. Podem ser nefritogênicos – capacidade de causar nefrite. Principais doenças 1. Pele (Staphylococcus aureus e Streptococcus pyogenes) ● Erisipela e celulite ● Impetigo ● Ectima ● Eritrasma (Corynebacterium minutissimum) 2. Anexos (Staphylococcus aureus) ● Foliculites ● Furúnculos ● Abscesso ● Carbúnculo ● Hordéolo 3. Generalizada (Staphylococcus aureus): Síndrome da Pele Escaldada Doenças da pele: Erisipela e Celulite Erisipela: apresentam-se como placas eritemato-edematosas bem delimitadas, normalmente localizadas no terço distal da perna – recebendo o nome de lesão em bota. Apresenta sinais flogísticos como rubor e calor. Trata-se de uma infecção bacteriana da derme podendo acometer a circulação linfática – quando isso acontece, pode gerar linfedema, que é irreversível. Frequentemente localiza-se nos MMII e face. Quando esse processo inflamatório se estende para o tecido subcutâneo, recebe o nome de celulite infecciosa. O principal agente etiológico é o Streptococcus pyogenes beta hemolítico do grupo A – normalmente está associado a uma porta de entrada que permite a infecção secundária, como uma fissuras, cortes, intertrigos, micoses cutâneas, onicomicoses e pé diabético – devemos sempre tratar essas causas base. 3 É importante tratar a causa da erisipela para evitar a celulite de repetição, que evolui mais facilmente para a circulação linfática e, eventualmente, linfedema crônico e elefantíase. As celulites infecciosas não se apresentam tão bem delimitadas quanto a erisipela. Nota: se for para acontecer uma evolução, é sempre de erisipela para celulite. Quando há presença de bolhas na região da erisipela/celulite (erisipela bolhosa), muito provavelmente há uma coinfecção por Staphylococcus – isso também acontece nas outras piodermites: se há bolhas, há Staphylococcus. Nota: as bolhas podem ter conteúdo seroso, hemorrágico e/ou purulento. Quando a erisipela começa a curar, a pele que estirou regride de tamanho (o aumento foi causado pelo edema), formando descamações. Também pode haver evolução como hipercromia pós inflamatória. Principais fatores de risco: obesidade, história de erisipela/celulite de repetição, insuficiência vascular periférica, safenectomia e diabetes mellitus (pé diabético). Principais soluções de continuidade: intertrigo interdigital, dermatofitoses e úlceras de MMII. Haemophilus influenzae tipo B pode provocar a erisipela facial em menores de 2 anos – uma condição importante, pois essa bactéria pode levar a meningite bacteriana; o tratamento deve ser específico para essa bactéria. Quadro clínico Súbito, acompanhado de calafrios e mal-estar; eventualmente pode apresentar febre baixa. É comum o paciente dormir “normal” e acordar com a perna típica do quadro de erisipela: quente, dolorosa, edemaciada e com bordas nítidas – lesão “em bota”. Podem existir vesículas, bolhas, e pequenas áreas hemorrágicas. Celulites: muito comum de aparecerem nos MMSS dos adultos usuários de drogas devido ao uso de drogas endovenosas, gerando porta de entrada para bactérias – pode evoluir para sepse. Não são tão bem delimitadas quanto a erisipela. Diagnóstico Clínico. A maior parte dos exames não ajuda com o diagnóstico dessas condições. ASLO pode identificar infecções somente pelo Streptococcus beta hemolítico do Grupo A. Diagnósticos diferenciais: fasciíte necrotizante, angioedema, Síndrome de Sweet, eritema infeccioso e erisipelóide. Na face: dermatite de contato, reações sensibilizantes, dermatomiosite e o LES. 4 Tratamento para Erisipela e Celulite Com o tratamento a evolução é favorável em 80% dos casos, com resolução completa em 2 semanas. As recidivas representam 25% dos casos – ocorrem devido ao não tratamento adequado da causa base e/ou terapêutica inadequada. Não se deve tratar só os sintomas, mas também a causa base. Penicilina G Benzatina 600.000UI a 1.200.000UI intramuscular de 12/12 horas (realizar apenas um dia). Tratamento ambulatorial (via oral): amoxacilina com clavulanato 500mg 8/8 horas por 14 dias. Doenças da pele: Impetigo Trata-se da piodermite mais comum, produzida pelos Staphylococcus (apresentam bolhas resistentes) e Streptococcus. No impetigo estreptocócico a bolha quase nunca é detectada, pois involui rapidamente – o que ocorre frequentemente é a superposição das duas infecções (forma mista). Descrição típica: mácula ou placas eritematosas com vesíco-pápulas ou bolhas; também apresentam crostas melicéricas, são muito características dessa condição. A localização mais comum é na face, pois são as áreas colonizadas (vestíbulo nasal). Pode evoluir como conjuntivite e infecções da orofaringe. Diagnóstico: clínico. Tratamento: assepsia com remoção das crostas, compressas com antissépticos ou água boricada 10% e antibiótico tópico (mupirocina ou ácido fusídico) e eliminação dos focos. Em casos extensos, antibioticoterapia sistêmica. Impetigo bolhoso: pode acometer a região perineal. Doenças da pele: Ectima Piodermite estreptocócica mais profunda que o impetigo; é mais comum em crianças. Normalmente começa como uma pústula, que evolui como úlceras recobertas por crostas – ao involuir deixa crostas. Acomete normalmente as pernas, mas pode acontecer em qualquer região que a pessoa coça, afinal é auto contagiante. Pode ser única (se for diagnosticada em fases iniciais) ou várias lesões, normalmente próximas – mais comum. 5 Tratamento: limpeza com água e sabão, compressas com água boricada ou permanganato, seguida de antibióticotópico ou sistêmico. Doenças da pele: Eritrasma Diagnóstico diferencial de micoses superficiais. É causada pelo Corynebacterium minutissimum, portanto apresenta alterações de coloração: são manchas acastanhadas ou marrons, crônicas, descamativas, bordas bem delimitadas. Inicialmente apresentam-se com coloração avermelhada e normalmente acontecem em zonas intertriginosas, região inguinal e axilar, assim como as micoses superficiais (Tinea cruris). Diagnóstico: clínico, luz de Wood (as regiões ficam avermelhadas) e microscopia corada por Gram. Tratamento: ácido salicílico 2-4%, clindamicina 2%, eritromicina 2% e imidazólicos (isoconazol e itraconazol tratam tanto micoses quanto eritrasma); por vezes é necessário usar antibióticos orais. Doenças dos anexos: Foliculite, Furúnculo e Carbúnculo Tratam-se de reações inflamatórias da pele que se desenvolvem ao redor dos folículos pilosos, apresentando vários graus de profundidade e severidade – não necessariamente evoluem de um para o outro, mas normalmente é o que acontece. O agente mais comum é o Staphylococcus aureus. A foliculite se inicia como uma inflamação superficial que atinge um único folículo piloso. Pode aparecer como uma pápula eritematosa ou como uma pústula folicular – apresenta secreção purulenta devido a infecção bacteriana, mas ainda assim recebe o nome de pústula folicular. Com o avanço dessa inflamação e infecção, o processo inflamatório aumenta e como defesa do sistema imune, cria-se um cisto em volta do processo inflamatório, chamado de furúnculo. O processo inflamatório e formação de pus continua acontecendo no interior do cisto, e eventualmente sofre maturação: na parte superficial da pele observa-se o ponto de flutuação (ponto de drenagem) – quando se observa esse achado, sabe-se que a lesão está maturada. Sempre deve ser feita a drenagem quando possível, pois caso não feito, pode supurar para outra região, espalhando a infecção. 6 Quando a lesão se torna mais profunda e com aumento de volume palpável passa a ser chamado de abscesso. Quando há o acometimento de múltiplos folículos pilosos, chamamos de carbúnculo, mais comum nos idosos – drenam sozinhos, necessitando do uso de antibióticos orais. Foliculite Furúnculo Abscesso (aumento volumétrico) Carbúnculo 7 Diagnóstico: clínico Tratamento: higiene, antibióticos tópicos, orais e drenagem de abscessos Doenças dos anexos: Hordéolo (popularmente terçol) Apresenta-se na forma externa e interna. O hordéolo externo é uma infecção estafilocócica profunda de um folículo palpebral e glândulas ciliares de Zeis e Moll – pústulas foliculares do lado externo palpebral. Inicia-se como uma mancha vermelha, edema e dor, evoluindo como pústula folicular. O tratamento é a remoção dos cílios afetados e uso de antibióticos sistêmicos. O hordéolo interno é um abscesso estafilocócico das glândulas de Meibomius – pápulo-pústulas ou nódulos eritematosos na face interna da pálpebra. O tratamento consiste na eversão da pálpebra, anestesia, incisão e drenagem do abscesso. Doenças dos anexos: Calázio Forma crônica do hordéolo – geralmente do interno. Quando não há mais infecção naquele local, transforma-se em uma reação granulomatosa crônica não-infecciosa. Na palpação, mostra-se firme e necessita de incisão e curetagem do conteúdo como tratamento. 8 Doenças Generalizadas da Pele: Síndrome da pele escaldada estafilocócica (Doença de Ritter) Não é causada exatamente pela bactéria, mas por exotoxinas liberadas pela bactéria: trata-se de uma exotoxina esfoliativa A e B do Staphylococcus aureus do fago-grupo 2 dos tipos 71 e 55. É uma doença bastante rara, tendo em vista sua especificidade. É mais comum em recém-nascidos e crianças pequenas; em adultos é raro e geralmente leva ao óbito. Clínica: em geral o foco infeccioso é extracutâneo, aparecendo alguns dias após início de faringites, conjuntivites, otites ou outras infecções estafilocócicas. O indivíduo pode apresentar febre, irritabilidade, hiperestesia cutânea, eritema difuso e sensível. Costuma se iniciar em áreas de dobra, evoluindo para o corpo todo e formando bolhas flácidas e superficiais, acometendo somente a camada granulosa onde existem os desmossomos (que são clivados). A evolução final do quadro é com grandes áreas erosivas e não comete mucosas. Essa condição apresenta Sinal de Nikolsky positivo – ao colocar o hálux em cima da pele acometida, fazer uma tração leve: a pele inteira da região será descolada. Nota: não dói. Diagnóstico: clínico. Diagnóstico diferencial: necrólise epidérmica tóxica (NET) → acomete mucosas; a descamação é mais profunda e necrótica. Tratamento: deve ser feito em internação, uma vez que há grande risco de infecções secundárias; a desidratação é comum, assim como distúrbios hidrolíticos. Derivados da penicilina ou cefalosporinas por 2 semanas. No caso de sepse, usar oxacilina EV. Nota: o tratamento é para eliminar o foco bacteriano da doença prévia (normalmente focos extracutâneos como faringites e conjuntivites). Prognóstico: em criança é excelente. No adulto, maior frequência de óbito (>50%).