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EDUCAÇÃO 
EM SAÚDE
Camila Pinno
Conceitos de saúde
e de doença como 
reflexão para as práticas 
de educação em saúde
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
  Analisar os conceitos de saúde e de doença atuais.
  Comparar os conceitos atuais de saúde e de doença com conceitos 
antigos.
  Reconhecer a influência dos conceitos de saúde e doença para a 
reflexão de práticas de educação em saúde.
Introdução
Neste capítulo, você analisará os conceitos de saúde e de doença atuais, 
comparando-os com conceitos antigos, bem como reconhecerá a in-
fluência dos conceitos de saúde e doença para as práticas de educação 
em saúde.
Conceitos contemporâneos de saúde e doença 
Inicia-se este capítulo com a seguinte questão: será possível criar um conceito 
de saúde e de doença? Esses dois termos são, no mínimo, algo extremamente 
subjetivo e pessoal, diferenciam-se de sujeito para sujeito, pois cada pessoa pode 
ter uma concepção de saúde e de doença diferente, a partir de suas experiências 
e vivências de vida. Nesse sentido, os profi ssionais de saúde precisam estar 
abertos tanto aos conceitos científi cos de saúde e doença, organizados por 
especialistas e instituições de saúde, quanto pela percepção das pessoas leigas. 
Silva, Schraiber e Mota (2019) argumentam que é possível o desenvolvi-
mento de um conceito de saúde. No entanto, este necessita ser desenvolvido 
a partir das condições reais da existência humana, em uma sociedade capita-
lista, compreendendo as relações existentes nos casos particulares, entre suas 
particularidades e o social. No entanto, Costa e Bernardes (2012) argumentam 
que a saúde pode ser nomeada, mas não conceituada, uma vez que Saúde seria 
considerada nome próprio, da ordem do “é” e não do “que é”, o que faria a 
produção de saúde se tornar produção de subjetividades, produção de vida. 
Outros autores (DALMOLIN et al., 2011; BORUTOVICH; MEDNICK, 
2002) corroboram com essa afirmação, enfatizando que a saúde, diferentemente 
do que muitos pensam, não pode ser alcançada como um fenômeno abstrato, 
ou algo concreto atingível. Descrevem que um conceito universal de saúde é 
irrealizável, visto que a saúde, em seu significado, está diretamente ligada a 
diferentes objetivos que governam seu uso.
A saúde foi determinada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), 
em 1946, por meio da Carta de Declaração de Princípios, em que se definiu 
que “saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não 
apenas a ausência de distúrbios ou doenças”. Esse significado prevalece até 
os dias atuais, no entanto, recebeu, desde a sua publicação, diversas refle-
xões e críticas de muitos estudiosos da saúde, profissionais e pesquisadores; 
esses sujeitos denominam essa definição como sendo utópica. E, de fato, é 
impossível um ser humano estar em completo bem-estar físico, mental e 
social. Corroborando com essa afirmação, Segre e Ferraz (1997) realizam os 
seguintes questionamentos sobre esse conceito: o que é “perfeito bem-estar?” 
É, por acaso, possível caracterizar-se a “perfeição”? Também afirmam que, 
para a época, essa definição é até avançada, mas que, hoje em dia, ela é irreal, 
ultrapassada e unilateral.
Com base nesse conceito da OMS, Ferrara et al. (1976) definem que saúde 
é um processo no qual se envolve o universo social, mental e físico do ser 
humano sem regatear um só esforço para modificar, transformar e recriar 
aquilo que deve ser mudado. Atribuem uma dimensão dinâmica, valorizando 
o ser humano a partir das transformações em saúde, em uma visão coletiva e 
humana, colocando o cidadão como protagonista da sua própria vida (BRÊTAS; 
GAMBA, 2006, p. 33). “A saúde não é um bem definitivo. Ela é conquista 
diária, muitas vezes obtida por meio de mudanças de valores, de hábitos, de 
costumes individuais e coletivos [...]”. É importante ressaltar que: 
Conceitos de saúde e de doença como reflexão para as práticas de educação em saúde2
Existe uma relação de reciprocidade entre a saúde e a doença, entre a nor-
malidade e a patologia, na qual os mesmos fatores que permitem ao homem 
viver (alimento, ar, clima, habitação, trabalho, técnica, relações familiares 
e sociais, etc.) podem causar doença se agem com determinada intensidade, 
se pesam em excesso ou falta, se agem sem controle. Essa forma é demarca-
da pela forma de vida dos seres humanos, pelos determinantes biológicos, 
psicológicos e sociais. Tal constatação nos remete à reflexão de o processo 
saúde-doença-adoecimento ocorrer de maneira desigual entre os indivíduos, 
as classes e os povos, recebendo influência direta do local que os seres ocupa, 
na sociedade (BRÊTAS; GAMBA, 2006, p. 34).
A partir dessa aproximação entre saúde, doença e adoecimento, Evans 
e Stoddart (1994) afirmam que doença é algo relacionado com o mal, com 
o sofrimento, mas não lhe corresponde integralmente. Descrevem que, por 
exemplo, quadros clínicos semelhantes, ou seja, diagnóstico e tratamento 
iguais, parâmetros biológicos e sanguíneos, podem afetar as pessoas de formas 
distintas, resultando em diferentes manifestações de sintomas e desconforto, 
com comprometimento diferenciado de suas habilidades de atuar em sociedade. 
A partir do ponto de vista do desempenho social e bem-estar, a percepção 
sobre a saúde individual é que conta. É importante destacar que a doença 
não pode ser entendida somente por meio das medições fisiopatológicas, 
pois quem estabelece o estado da doença é um corpo subjetivo, por meio de 
sentimentos, dor, valores.
Comparação dos conceitos atuais de saúde e de 
doença com conceitos antigos
Para se compreender o porquê de saúde e doença serem conceituadas de tal 
forma nos dias atuais, necessita-se entender o histórico de saúde e doença, 
ou seja, como eram entendidas por povos e populações mais antigos. Na 
Antiguidade, acreditava-se que a doença era um castigo dos deuses, e a saúde 
era considerada uma dádiva. Com o passar dos séculos e o advento das re-
ligiões monoteístas, o castigo da doença e a dádiva da saúde passaram a ser 
de responsabilidade de um único deus. Todavia, 400 anos A.C., Hipócrates 
desenvolve o tratado “Os Ares e os Lugares”, no qual relaciona a água, os 
locais de moradia e os ventos com a saúde e a doença. Séculos mais tarde, as 
populações começam a viver em comunidade, e a teoria dos miasmas toma 
lugar. Essa teoria defendia que as doenças eram transmitidas por “gases” de 
dejetos e animais em decomposição, e tal teoria vigora até o século XIX. 
3Conceitos de saúde e de doença como reflexão para as práticas de educação em saúde
No entanto, no fim do século XVIII, predominavam na Europa paradigmas 
que explicavam o adoecimento humano, vinculados à concepção dinâmica, 
socioambiental, tendo se esboçado as primeiras ênfases na determinação social 
do processo saúde–doença (VIANNA, 2015). “Com o advento da Bacterio-
logia, a concepção ontológica firmou-se vitoriosa e suas conquistas levaram 
ao abandono dos critérios sociais na formulação e no enfrentamento dos 
problemas de saúde das populações [...]” (VIANNA, 2015, p. 79). A partir 
desse contexto, alguns autores destacam que duas concepções têm marcado 
o percurso da medicina. A concepção ontológica:
[...] dirige os seus esforços na classificação dos processos de doença, na elabo-
ração de um diagnóstico exato, procurando identificar os órgãos corporais que 
estão perturbados e que provocam os sintomas. É uma concepção redutora que 
explica os processos de doença na base de órgãos específicos perturbados. As-
sume que a doença é uma coisa em si própria, sem relação com a personalidade, 
a constituição física ou o modo de vida do paciente (VIANNA, 2015, p. 79).
Já a concepção fisiológica:
[...] iniciada por Hipócrates, explica as origens das doenças a partir de um 
desequilíbrio entre as forças da natureza que estão dentro e fora da pessoa. 
[...] centra-se no paciente como um todo, e no seu ambiente, evitando ligar 
a doença a perturbações de órgãoscorporais particulares. [...] defende que 
as doenças são “entidades” exteriores ao organismo, que o invadem para se 
localizarem em várias das suas partes (VIANNA, 2015, p. 79).
A partir dessas concepções de doença, percebe-se que, em diferentes 
épocas, a humanidade acreditava em conceituações completamente dife-
rentes. Em alguns momentos, a doença era por forças divinas, e, em outros, 
por “perturbações” externas ao corpo do paciente. No final do século XIX, 
houve uma predominância da teoria microbiana, a qual afirma que diversas 
doenças podem ser causadas por microrganismos. Primeiramente, essa teoria 
apresentou algumas controvérsias, mas, atualmente, é pauta de disciplinas, 
como microbiologia e microbiologia clínica, dos cursos da área da saúde.
Na atualidade, há o predomínio da multicausalidade, a qual tem ênfase 
nos condicionantes individuais, isto é, no próprio indivíduo. Como alternativa 
para a sua superação, propõe-se a articulação das dimensões individual e 
coletiva do processo saúde–doença, acabando, desse modo, com o foco único 
no indivíduo. Assim, surge o movimento da medicina preventiva, organizada 
no livro Preventive Medicine for the Doctor in His Communit, em 1958, por 
Leavell e Clark. Essa publicação aborda a tríade ecológica, que define o modelo 
Conceitos de saúde e de doença como reflexão para as práticas de educação em saúde4
de causalidade das doenças a partir das relações entre agente, hospedeiro e 
meio-ambiente. Nesse sentido, atualmente, o conceito de história natural da 
doença é caracterizado como sendo:
[...] todas as interrelações do agente, do hospedeiro e do meio ambiente que afetam 
o processo global e seu desenvolvimento, desde as primeiras forças que criam o 
estímulo patológico no meio ambiente ou em qualquer outro lugar (pré-patogênese), 
passando pela resposta do homem ao estímulo, até as alterações que levam a um 
defeito, invalidez, recuperação ou morte (patogênese) (VIANNA, 2015, p. 80).
No Brasil, em 1986, ocorreu a VIII Conferência Nacional de Saúde, que 
adotou o seguinte conceito de saúde: saúde é resultante das condições de ali-
mentação, habitação, educação, renda, meio ambiente, trabalho, emprego, lazer, 
liberdade, acesso e posse da terra e acesso a serviços de saúde (BRASIL, 1986). 
Percebe-se que diversos são os conceitos de saúde e doença criados durante 
o passar dos séculos, mas destaca-se que, por mais que se pense a saúde na
dimensão da sociedade coletiva, é o ser humano que possui saúde e que pode
desenvolver alguma doença; então, pode-se afirmar que experiências indivi-
duais e subjetivas, conhecidas de maneira intuitiva, dificilmente podem ser
quantificáveis ou descritas (BRÊTAS; GAMBA, 2006).
Viu-se que, antigamente, saúde e doença por vezes eram consideradas 
dádiva e castigo de Deus, ou algo sobrenatural, mas Brêtas e Gamba (2006) 
apresentam algumas falas de pacientes para se refletir sobre a concepção das 
pessoas sobre saúde e doença: 
 “foi Deus quem quis”;
 “é força de mau-olhado”;
 “os micróbios entraram na pele”;
 “também, o desemprego, a fome, tudo isso ajuda”;
 “foi erro do médico”;
 “o problema é a sujeira”;
 “dormindo no chão, com esse frio, é pneumonia na certa”.
Ou seja, ainda hoje, por mais que existam diversos estudos, pesquisas, 
comprovações científicas do que causa “doenças”, a população acredita no 
que parece ser mais coerente com suas crenças de vida. Brêtas e Gamba 
(2006) também apresentam exemplos de conselhos que a população sugere 
para recuperar a saúde:
5Conceitos de saúde e de doença como reflexão para as práticas de educação em saúde
  “benzer é muito bom”;
  “lave a ferida com chá de barba de timão”;
  “o melhor é benzetar”;
  “sem rezar o mal não vai embora”;
  “é preciso tomar remédio de médico, senão não sara”;
  “precisa deixar a casa bem limpa”.
Por meio dessas frases, percebe-se que o conceito de saúde e doença referido 
pela população pode não ser científico, visto que relatam o cientificismo, a 
biologia ou a microbiologia. No entanto, é importante ressaltar que há uma 
riqueza incomparável nessas afirmações, pois as concepções de adoecimento, 
saúde e doença das pessoas têm ligação com suas raízes, com suas experiên-
cias de vida, de consumo de serviços, de inserção ou exclusão no mercado de 
trabalho; do papel social como usuários ou excluídos dos serviços de saúde. 
Assim, não considerar tais concepções populares significa não contemplar o 
sujeito em seu todo, sua realidade, seu contexto de vida, suas crenças, caindo-
-se em uma prática em saúde centrada somente na doença, no biologicismo, 
médico-centrada. Assim, dentro desse enfoque, apresenta-se a questão feita por 
Segre e Ferraz (1997, documento on-line): “[...] não se poderá dizer que saúde 
é um estado de razoável harmonia entre o sujeito e a sua própria realidade?”.
Influência dos conceitos de saúde e doença
nas práticas de educação em saúde
A partir dos conceitos apresentados de saúde e doença, tanto na antiguidade 
quanto na atualidade, pensemos nas práticas de educação em saúde. Inicial-
mente, com a intenção de compreender como ocorre a aplicação das defi nições 
de saúde, defi nidas pela OMS e por Ferrara et al. (1976), demonstra-se o modelo 
exemplifi cado por Brêtas e Gamba (2006, p. 31):
Um adulto diabético será considerado doente se analisarmos a situação sob o 
prisma da OMS – pois, no mínimo, tem um problema de ordem biológica (mau 
funcionamento do pâncreas) comprometendo seu completo bem-estar. Se, no 
entanto, adotarmos o conceito de Ferrara, diremos que, dependendo da forma 
como lida com a doença, tal adulto será ou não considerado doente. Na maior 
parte das vezes, há um ser humano portador de doença, e não uma pessoa 
doente. É importante notar que esses conceitos trazem ideologias implícitas, 
que definirão as ações de saúde desenvolvidas pelas equipes nos serviços de 
saúde. Se compreendermos a saúde como processo, o ser humano passa a ter 
papel decisivo em sua conquista; e a autonomia [...].
Conceitos de saúde e de doença como reflexão para as práticas de educação em saúde6
A partir desse exemplo, percebe-se que o entendimento de saúde e doença 
por parte dos profissionais da saúde é fundamental, tendo em vista que estes 
influenciaram na organização e na efetivação das práticas de educação em 
saúde à população. A educação em saúde, como prática social centrada na 
problematização do cotidiano, surge como estratégia para promover a pre-
venção de doenças e a promoção da saúde, tendo em vista a valorização da 
experiência dos indivíduos e grupos. “É a soma de todas as experiências que 
modificam ou exercem influência nas atitudes ou condutas de um indivíduo 
em relação à saúde [...]” (CÂMARA et al., 2012, p. 41). 
Para orientar sobre o processo saúde–doença e nortear sobre práticas de 
cuidados à saúde, os profissionais necessitam ouvir a população, entender suas 
concepções de saúde, de doença, de vida, compreender que a educação em 
saúde deve ser capaz de abordar aspectos socioculturais de uma população 
e integrá-los aos conhecimentos técnico-científicos da dimensão biológica 
(CÂMARA et al., 2012, p. 41).
Dessa maneira podemos deduzir que o ser humano precisa conhecer-se, ne-
cessita saber avaliar as transformações sofridas por seu corpo e identificar os 
sinais expressos por ele. [...] Considerando essa dimensão de nas práticas de 
saúde, os profissionais de saúde precisam estar preparados para atender as pe-
culiaridades individuais, mesmo em situações que demandam ações coletivas.
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7Conceitos de saúde e de doença como reflexão para as práticas de educação em saúde
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Conceitos de saúde e de doença como reflexão para as práticas de educação em saúde8

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