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ELETRÔNICA DE POTÊNCIA Julia Beust da Silva O transistor de unijunção programável Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Diferenciar o transistor de unijunção do transistor de unijunção programável. � Definir a estrutura interna de um transistor de unijunção programável. � Descrever as aplicações de um transistor de unijunção programável. Introdução Neste capítulo, você vai estudar o transistor de unijunção programável. O termo transistor vem da expressão em inglês transfer resistor, que se traduz para resistor de transferência. O transistor consiste em um com- ponente eletrônico de três terminais que apresenta resistência variável entre dois terminais, e o controle determinado pelo terceiro terminal. Dentre os tipos de transistores, podem-se destacar: Transistor Bipolar (NPN ou PNP), Transistores de unijunção e unijunção programável (TUJ e TUP) e Transistores de efeito de campo e efeito de campo com metal oxido semicondutor (FET e MOSFET). Os transistores de unijunção (TUJ) e transistor de unijunção progra- mável (TUP) são de grande utilidade e apresentam um comportamento diferente dos transistores comuns, sendo aplicados em circuitos geradores de pulsos em circuitos de baixas e muito baixas frequências, como pisca- -piscas, sirenes, instrumentos musicais e osciladores. Os TUJs e PUTs foram populares anteriormente para montagem de circuitos temporizadores, osciladores e outros. Atualmente, são substi- tuídos por amps op e CIs temporizadores (como o 555), junto com os microprocessadores em suas aplicações. Diferenças entre o transistor de unijunção e o transistor de unijunção programável O TUJ, também chamado de transistor de dupla base, é um dispositivo de três terminais. Sua construção consiste em uma placa de silício tipo N, leve- mente dopada, com dois contatos de base B1 e B2 um em cada extremidade da placa. A junção PN do dispositivo é formada entre a extremidade da haste de alumínio fundido do emissor E e a placa de silício tipo N. A origem do termo unijunção, que dá nome ao TUJ, é justamente essa única junção PN que existe no transistor. A Figura 1 mostra a estrutura e o símbolo do TUJ. Figura 1. Estrutura e símbolo do TUJ. Fonte: Adaptada de Schuler (2013, p. 148). Base 2 Base 2 Emissor Emissor Base 1 Base 1 Zona P (a) Estrutura e símbolo do TUJ O transistor de unijunção programável2 O funcionamento do TUJ pode ser entendido mais facilmente através de seu circuito equivalente, mostrado na Figura 2. No circuito, a resistência medida entre as bases B1 e B2 do material semicondutor tipo N é representada pela soma dos dois resistores (rB1 e rB2) ligados em série, e o diodo conectado entre eles reproduz a junção PN do emissor. Figura 2. Circuito equivalente do TUJ. E rB2 rB1 B2 B1 X Se medirmos a resistência entre as bases B1 e B2, os valores tipicamente encontrados variam entre 4 kΩ e 12 kΩ. A medida de resistência entre as bases RBB = rB1 + rB2 pode ser feita em qualquer sentido, ou seja, tanto faz se a ponta positiva do multímetro está na base B1 ou B2, uma vez que não existe junção entre os pontos e o caminho é uma resistência pura. Por outro lado, o mesmo comportamento não é observado quando se mede a resistência entre o emissor e qualquer uma das bases. Para esse caso, se a ponta de prova positiva do multímetro for ligada ao emissor (E) e a ponta negativa, a uma das bases, teremos uma leitura de baixa resistência no sentido de condução do diodo. Caso a ponta de prova negativa seja ligada em E, a resistência medida será muito alta, como a de um diodo polarizado inversamente. 3O transistor de unijunção programável O TUJ funciona como uma chave que dispara quando a tensão aplicada no emissor atinge um certo valor fixo VP, determinado pela alimentação e pela razão η intrínseca do componente, e o diodo passa a conduzir. Quando TUJ está região de corte, o diodo não conduz e a região de semicondutor N, entre B1 e B2, se comporta como um resistor de resistência RBB. O mais popular entre todos os TUJ é, sem dúvida, o 2N2646. Descubra como construir um Oscilador de Áudio eletrônico utilizando esse componente. https://goo.gl/zvmEvo Embora haja uma semelhança no nome e em sua aplicação, o TUP apre- senta estrutura interna e modo de operação totalmente diferentes daquelas do TUJ. A escolha dos nomes semelhantes foi induzida pelo fato de ambos os componentes possuírem características I-V e aplicações semelhantes. Quando comparado ao TUJ, o TUP é mais rápido e sensível, apresentando desempenho superior na aplicação de temporizadores de período longo. O termo programável é utilizado porque é possível realizar o controle da tensão de disparo do transistor através de um divisor de tensão. Observe que a tensão de disparo do TUJ é uma característica intrínseca, de valor fixo, e que depende do dispositivo, enquanto a tensão de gatilho do TUP pode ser definida ou programada através da escolha de um divisor de tensão resistivo adequado. O transistor de unijunção programável4 Apesar de apresentarem um encapsulamento igual ao dos demais transistores, as características elétricas dos TUJs e dos TUPs são completamente distintas das dos transistores mais conhecidos, como os MOSFETs e os transistores bipolares, aplicados em amplificação de sinais. Figura 3. Encapsulamentos típicos de transistores. Fonte: 3drenderings/Shutterstock.com. O TUP é, como o próprio nome nos diz, um dispositivo com as mesmas características de um TUJ, mas com a possibilidade de controle de sua tensão de disparo. Identificando a estrutura interna de um TUP O TUP é um parente próximo da família dos tiristores. Da mesma maneira que um tiristor, a construção interna do TUP é composta por quatro camadas. Além disso, o TUP possui três terminais, denominados ânodo (A), cátodo (K) e gate (G), assim como os terminais do tiristor. 5O transistor de unijunção programável Se realizarmos a comparação da estrutura interna do TUJ apresentada na Figura 1 com a estrutura do TUP mostrada na Figura 4, podemos identificar que a construção interna dos dispositivos é claramente diferente. Figura 4. (a) Estrutura; e (b) Símbolo do TUP. Fonte: Adaptada de Malvino e Bates (2007, p. 559). A A G G p p n n K K (a) (b) Na Figura 4 podemos observar as quatro camadas PNPN do TUP. A camada P superior da estrutura é chamada ânodo (A). Pode-se ver que o terminal de gatilho G é conectado diretamente à camada tipo N diretamente abaixo do ânodo A. A junção central PN tem a função de controlar os estados de liga e desliga do dispositivo. A última camada, tipo N, é o terminal cátodo K, tipicamente aterrado ou conectado a um ponto com tensão inferior à tensão de disparo. Enquanto o TUJ ganha esse nome por apresentar uma única junção PN, o TUP é um dispositivo de quatro camadas que recebe seu nome por exibir comportamento similar ao TUJ. Tal como a análise do seu circuito equivalente e o símbolo para o dispositivo sugerem, o TUP é essencialmente um tiristor SCR com mecanismo de controle. O transistor de unijunção programável6 Figura 5. Circuito equivalente do TUP. A GT1 T2 K Relembrando o circuito equivalente do TUJ e analisando a Figura 5, é possível perceber que as resistências responsáveis pela definição da tensão de disparo não são uma característica construtiva do TUP. A tensão de disparo para o TUP pode ser determinada através de uma fórmula, imposta pelo fabricante. ON Semiconductor® é atualmente a única fabricante do TUP. O modelo mais conhecido é o 2N6027, disponível na embalagem plástica TO-92. Figura 6. Encapsulamento TUP. Fonte: 3drenderings/Shutterstock.com. 7O transistor de unijunção programável Analisando as aplicações de um transistor de unijunção programável Os circuitos desenvolvidos com TUP podem ter diversas aplicações, entre elas: � oscilador dente de serra não linear; � oscilador dente de serra linear com rampa de subida ou descida; � osciladorde onda quadrada simétrico; � pisca-pisca LED; � detector de passagem zero. O arranjo básico de polarização de um TUP é apresentado na Figura 7. A tensão VG, a resistência RBB e a razão intrínseca η, podem ser controladas através de RB1 e RB2. Figura 7. Arranjo básico de polarização para o TUP. Fonte: Adaptada de Boylestad e Nashelsky (2013, p. 734). VG VAK IA VBB RB2 RB1 K G A Quando o transistor está bloqueado, a corrente IG é igual a zero, e a tensão VG é definida pelo divisor de tensão. VG = VBB = ηVBB RB1 RB1 + RB2 O transistor de unijunção programável8 No momento em que o potencial de disparo VP, representado por VAK na Figura 7, é atingido, o dispositivo passa a conduzir. Uma vez que a queda de tensão direta através de um diodo de silício tem seu valor bem conhecido (0,7 V), podemos definir o potencial de disparo como: VP = VG + 0,7V Oscilador de relaxação Uma aplicação bastante comum dos TUPs é o oscilador de relaxação, como o mostrado no circuito da Figura 8(a). No momento em que a fonte VBB é conec- tada, a tensão VC do capacitor é zero, e o TUP permanece em seu estado de bloqueio, ou seja, desligado. Como não existe corrente de ânodo, o capacitor C começa a ser carregado no mesmo sentido da fonte. A curva de carregamento é apresentada na Figura 8(b). Figura 8. (a) Circuito oscilador de relaxação usando TUP; (b) Curva de carga para o capacitor C do circuito. Fonte: Adaptada de Boylestad e Nashelsky (2013, p. 735). VBB VBB VP T RB1 RB2 RK IA A G C K R ‘vA = vcapacitor 0 5 τ t Para que o TUP passe a conduzir, a tensão de disparo VP deve ser atingida. O valor da tensão Vp é determinado pela tensão de gatilho fornecida pela fonte de alimentação através do divisor de tensão resistivo formado por R1 e R2. 9O transistor de unijunção programável O tempo necessário para que a tensão de disparo VP seja alcançada pode ser calculado pela equação T ≅ RC loge VBB VBB – VP Quando a tensão VC no capacitor é igual a VP, o transistor dispara e uma corrente Ia = IP passa a circular através do TUP. As formas de ondas vA, vG e vK do oscilador são mostradas na Figura 9. Figura 9. Formas de onda para o oscilador de relaxação usando um transistor TUP, igual ao da Figura 3. Fonte: Adaptada de Boylestad e Nashelsky (2013, p. 736). vA VP vK vG vG – ηVBB VK – VA – VV T 0 0 0 t t t Observe que T determina a tensão máxima que VA pode atingir. Quando o TUP passa a conduzir, o capacitor descarrega através de RK, reproduzindo a queda de tensão observada na curva vK. A tensão vG decai rapidamente de VG para um valor próximo de 0 V. No momento em que o capacitor está descarre- gado, o PUT é bloqueado, então o ciclo de carregamento do capacitor se repete. O transistor de unijunção programável10 BOYLESTAD, R. L.; NASHELSKY, L. Dispositivos eletrônicos e teoria de circuitos. 11. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2013. MALVINO, A.; BATES, D. J. Eletrônica. 7. ed. Porto Alegre: AMGH, 2007. v. 1. ON SEMICONDUCTOR. 2N6027, 2N6028. 2000. Disponível em: <https://www.digchip. com/datasheets/parts/datasheet/343/2N6027RL1-pdf.php>. Acesso em: 24 jul. 2018. SCHULER, C. Eletrônica I. 7. ed. Porto Alegre: AMGH, 2013. (Série Tekne). Leituras recomendadas ALBUQUERQUE, R. O. Utilizando eletrônica com AO, SCR, TRIAC, UJT, PUT, CI 555, LDR, LED, FET e IGBT. 2. ed. São Paulo: Erica, 2013. KAISER, W. Laboratório de eletrônica de potência USP: conversor CC/CC. 2017. Dis- ponível em: <https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/2594057/mod_resource/ content/6/PEA2502_Lab._Eletr%C3%B4nica_Pot%C3%AAncia-EXPERI%C3%8ANCIA- 7-Vers%C3%A3o_03-2017.pdf>. Acesso em: 24 jul. 2018. 11O transistor de unijunção programável