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Prévia do material em texto

J O S É 
CORIOLANO 
 
 
 
3 
 
 
JOSÉ CORIOLANO 
 
Prosa Completa 
e 
Poesias inéditas 
 
 
 
 
 
 
 
Organização, comentários, revisão e notas de Saulo Barreto Lima 
 
 
 
 
 
 
 
4 
 
Copyright© CORIOLANO, José 
 
Preparo de Originais: Saulo Barreto 
Diagramação: Saulo Barreto 
Imagem da Capa: Sébastien Auguste Sisson 
Revisão: Saulo Barreto 
 
Impresso no Brasil, 2023 
1ª edição 
1ª impressão 
 
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) 
__________________________________________ 
 FERNANDES, Saulo Barreto Lima (Org.) 
JOSÉ CORIOLANO: Prosa Completa e Poesias inéditas 
– 1ª ed – São Paulo –SP, Brasil: Editora Uiclap 2021. 133, p.: il. 
ISBN: 978-65-00-66145-3 
CBL - Câmara Brasileira do Livro 
I. Literatura Brasileira │II. Prosa │III. Poeta │Título 
__________________________________________ 
 
 
 
 
 
Este livro foi revisado segundo o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa obrigatória a partir 
de 2016 conforme acordo assinado em 1990 entre membros da Comunidade de Países de Língua 
Portuguesa (CPLP). 
Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução parcial ou total, por qualquer meio. Lei 
Nº 9.610/1998 - Lei dos direitos autorais. 2021. Escrito no Brasil. 
 
 
5 
 
NOTA INTRODUTÓRIA 
 
Mais um passo dado, ainda que bastante curto, com vistas a resgatar a 
obra desse fundamental pensador esquecido para a Literatura Brasileira e 
Universal, como tantos outros e outras pelo mundo afora. Falamos aqui do 
poeta José Coriolano (1829 - 69). 
 Avançamos na certeza ainda que, falta muito trabalho no sentido de 
conscientizar de leitores, militantes e agentes legitimadores com vistas a criar 
um público receptor na intenção de sustentar a memória e o legado de vultos 
como ele, que estão a um passo do abismo do ostracismo irreversível. 
 Não só Homero, Hesíodo, Dante, Camões, Shakespeare, Cervantes, 
Machado de Assis merecem nossa atenção e admiração - que, diga-se de 
passagem, por méritos pessoais dos mesmos, estão muito bem cuidados e 
preservados pelo cânone do pensamento universal - mas sim inúmeros outros. 
Louvemos, pois, pelas vidas dos clássicos também! Ora, porque não! 
 Mas e quanto aos outros que escreveram tão bem quanto? Sou defensor 
de que – diferente da nossa linda sociedade - não se deve existir privilégios, 
hierarquia, regalias e escala de valoração no campo da literatura. Todos são 
importantes! Toda escrita é importante! Todos estão em pé de igualdade e 
merecem serem lidos, admirados e preservados de igual forma. Não é assim? 
 O resultado desse livro, podemos dizer que foi um típico “trabalho de 
formiguinha”, além de um exemplar ato utópico, num deserto de cegos onde 
pessoas como o referido são cada vez menos procuradas e admiradas. Quando 
tomei ciência da sua existência, tomando contato com a sua peculiar obra 
poética, me vi submerso diante de um mundo mágico, daqueles que 
vislumbramos quando lemos os versos pintados pelos mais nobres poetas que 
visitaram este mundo. 
 Então, diante, de seu abandono e da sua indiscutível qualidade, resolvi 
adotar o poeta. Estou fazendo às vezes dele aqui nesta era, embora tenha 
morrido há tempos. Diria que, Coriolano, portanto, está reencarnado, em 
partes, em mim. Sim, hoje Coriolano vive em mim. Aleluia! Sou hoje um 
embaixador seu aqui no planeta terra, do qual o mesmo teve a oportunidade de 
aterrissar, embora de maneira muita efêmera (40 anos somente) lhe dando voz, 
o que faz dele, por este e muitos outros motivos, também um “imortal”. 
 Depois de algumas tímidas empreitadas positivas no resgate de sua obra 
poética, faltava finalmente reparar um hiato, uma lacuna importantíssima qual 
seja: resgatar a sua curta, mas instigante prosa. Todos aqueles que estudam a 
sua biografia sabiam os títulos delas, mas não o conteúdo em seu integral teor. 
Como leio mais prosa que verso, fiz questão de buscar pistas e cavoucar todos 
recursos disponíveis ao meu alcance com vistas a resgatar esses escritos. 
 Uma ferramenta que facilitou muitíssimo esse resgate, foi a Hemeroteca 
 
 
6 
 
Digital da Biblioteca Nacional, disponível na internet, onde tal plataforma 
virtual - que congrega impressos antigos das mais diversas ordens – permitiu-
nos uma busca nominal nesse grande arquivo disponibilizado de forma gratuita 
ao domínio público. Essa foi a nossa maior aliada nesse resgate. Lá, estão 
congregados jornais, cartas, impressos, documentos e revistas antigas de que se 
tem notícia em todo Brasil. 
 Muitos desses textos, portanto, foram extraídos de impressos como os 
extintos: Ateneu Pernambucano, Ensaio Filosófico, Revista Acadêmica, Arena, Íris, 
etc. A busca nominal do assunto de interesse do pesquisador somado aos 
recursos de cópia dos textos, também, facilitaram muito; haja vista não se ter a 
necessidade de digitar tudo novamente em word, e sim somente realizar alguns 
breves ajustes de formatação consoantes as exigências editoriais dos impressos 
de hoje. 
 Neste livro, portanto, Excelentíssimos Leitores e Leitoras, estão presentes 
a habilidade do poeta José Coriolano na arte da prosa. Verás que o mesmo 
abordou um caleidoscópio de temas; algumas críticas, contos, impressões de 
assuntos de seu tempo, todos eles com fundamentações históricas, filosóficas e 
religiosas bastantes convincentes. 
 Há um destaque para o conto Um passeio às dez horas nas ruas do Recife, do 
qual poucos sabiam de sua existência. Sim, Coriolano fora exímio, também na 
prosa, que mereciam até tais escritos serem comentados e contextualizados com 
notas. Quem sabe num momento futuro, isso seja possível. Reitera-se, também, 
um destaque a crítica de seus escritos feitos por Franklin Távora, autor de O 
Cabeleira. 
 Utilizou-se o poeta claro de uma linguagem e termos não mais usados 
pela linguagem coloquial e erudita contemporânea. Mas, sua obra resistiu a 
tudo isso. Sinal de que ela é imortal e eterna, embora o Estado e seus alguns de 
seus súditos conspirem contra e as deixem submergirem pelo pó dos séculos. 
 Aqui se faz necessário, também, encetar uma observação. Muitos 
creditam a autoria de Coriolano a peça “Casamento e mortalha no céu se talha”. 
Mas, no decorrer de todo esse regate não foi possível visualizar nenhum 
trabalho com esse título de sua autoria. Inclusive, existe sim, o tal escrito; mas 
sendo creditado a outro escritor, não a Coriolano. 
 Nesse trabalho arqueológico, acabamos ainda, sendo contemplado com o 
resgate de 6 (seis) poesias inéditas de sua autoria, das quais se fazem presentes 
no referido livro. Estimam-se de que o poeta tenha produzido em torno de 250 
(duzentos e cinquenta) poesias. Destas, temos conhecimento efetivo da 
existência e compilação de menos da metade, 114 (cento e quatorze); restando, 
portanto, em torno de 136 (cento e trinta e seis) a serem resgatadas. 
 Esse número chega a assustar, pois se estiverem corretos, mais da metade 
sua obra ainda não foi conhecida, e muito provavelmente jamais será resgata. 
Realmente um prejuízo incomensurável para a Nação. Um crime contra a 
humanidade e de lesa pátria, sem nenhum exagero. 
 
 
7 
 
 Essa constatação é muito lamentável, de cortar o coração e de fazer até os 
mais brutos chorarem. Essas, que se têm conhecimento, são aquelas 
notadamente compiladas no seu livro póstumo Impressões e Gemidos (1870), 
aquelas outras do arquivo de Ivens Mourão (trineto do poeta residente em 
Fortaleza/CE) e estas 6 (seis) agora resgatadas. 
 Há, também, breves referências sobre sua vida parlamentar, como 
operador do direito, viagens, a sua família, cartas direcionadas à jornais ao qual 
colaborava, como o acadêmico talcomo O Ensaio Filosófico Pernambucano e a 
Revista Acadêmica da Escola de Recife, etc. Ainda a título de informação, como 
apêndice, foram colocadas informações diretas ou indiretamente relacionadas 
ao mesmo. 
 Eis adiante um clássico brasileiro que reúne todas as credenciais para 
entrar cânone língua portuguesa, e quiçá universal, porque não dizer. Um 
gênio, um homem que de tão valoroso se tornou um sentimento, uma escola - o 
Coriolanismo. 
 O utópico projeto de resgate segue: a crítica, a biografia, a tradução 
(primeiramente ao inglês e espanhol), áudio-livros ou livro falado para 
deficientes visuais, difusão de sua obra em países lusófonos, em países com 
estudos de literatura ou cultura brasileira, impressão de obras físicas, 
distribuição para bibliotecas públicas de todo o mundo. 
 Enfim, projetos e a boa intenção são muitos, mas insuficientes, é verdade, 
para serem realizadas nesse pouquíssimo tempo de vida que temos, sem falar 
da nossa enfadonha e infrutífera luta pela sobrevivência diária e o esforço vão 
com vistas ao cumprimento das nossas ilógicas obrigações sociais. Aí está, um 
aperitivo literário daquele que não chegou a ver sua obra publicada, mas que 
hoje, é considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa de todos os 
tempos. 
Boa Leitura a todos e todas!!! 
São Luís/MA, 27 de julho de 2016 
Saulo Barreto Lima 
 Um Coriolanista 
 
 
 
 
 
 
9 
 
ÍN D I C E 
 PROSA 
O papa é infalível na canonização dos Santos, 11 
O Suicídio, 21 
O homem é bom ou mau segundo a educação que recebe, 33 
A liberdade da Imprensa, 40 
Um passeio às dez horas nas ruas do Recife, 49 
A Marília Dirceu, 54 
O senhor Francisco Muniz Barreto - como poeta, 66 
A posteridade e Fr. José de S. Rita Durão, 73 
POESIAS INÉDITAS 
Amei-te, 85 / D.CLARA, 87 / Qual a causa do mal?, 89 / O conselho 
da virgem, 92 / O BRASIL, 95 / Solidão, 100 
APÊNDICES 
Artigo “Crônica Geral” do Jornal A Reforma, 103 
Consideração de O. G. Rego de Carvalho sobre a edição da obra Deus e a 
Natureza em José Coriolano, 104 
Agradecimentos do jornal O Ensaio Filosófico Pernambucano ao poeta J. 
Coriolano, 105 
Correspondência dirigida ao jornal O Liberal Pernambucano, 106 
Artigo “Gazetilha”, veiculado no Jornal A Constituição, 110 
“Um poeta do norte” de Franklin Távora, 113 
IMAGENS 
 
 
 
 
 
10 
 
 
 
 
PROSA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
11 
 
O papa é infalível na canonização dos 
Santos1 
 
Devoto e convencido da opinião daqueles que sustentam e abraçam 
de convicção a doutrina da infalibilidade do papa, quando decide ex 
cátedra2 sobre dogma, disciplina geral, matérias de fé, etc., não podemos 
deixar de ser coerente com os nossos princípios, reconhecendo e 
sustentando que o papa é igualmente infalível no ato da canonização dos 
santos. 
 De qualquer modo, porque se encare a questão da canonização, 
vemos que todas as razões que militam em favor da infalibilidade do papa 
sobre matérias de disciplina geral, de dogma ou de fé, militam do mesmo 
modo quanto a canonização. 
Se não se pode conceber que o cristianismo persista sem ministros 
como diz Mazzarelli3, porque estes é que tem ao seu cuidado a guarda do 
rebanho do pastor universal, que com ele forma um só rebanho e um só 
pastor (unum ovile et unus pastor4); se não se pode conceber que a vinha 
do Senhor seja devidamente cultivada sem a existência de vinheiros que 
dela curem; senão se pode conceber, em uma palavra, que a igreja 
militante progrida no caminho da vida eterna que ela aplaina5 mediante 
as lidas religiosas neste mundo, sem o invulnerável escudo da fé, que é a 
base da esperança, (fides sperandarum substantia rerum6), pois que sem 
ela trepidaria no seu afanoso7 lidar, não tendo uma coluna de fogo a 
separasse do ceticismo que da razão humana, nem um piloto que lhe 
guiasse a barca vacilante ao desejado porto, nem um farol que lhe tirasse 
todas as mostras de incerteza; como se poderá conceber, que o papa não 
seja infalível na canonização dos santos, quando sua falibilidade 
importaria a - idolatria, a descrença, o cisma, em muitos casos, - e até a 
impossibilidade do progresso do cristianismo? 
Raciocinemos. 
O homem, lendo a sentença que escreveu o próprio dedo de Deus: 
Memento homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris8; tendo a 
convicção, tanto mais quanto é de fé, que há de um dia voltar a matéria 
prima de sua formação, porque independente do mais, assim lhe o 
assegura a experiência e prática do mundo, e o livro irrefragável9 de sua 
consciência, viveria constantemente a lutar entre a fé e a incerteza, entre a 
esperança e o desespero, se um bálsamo consolador lhe não fornecesse a 
doce esperança de ver-se um dia curado das profundas feridas que lhe 
fizeram sangrar no peito a incerteza da bem aventurança eterna. 
O peregrino perdido, envolvido pela espessura das trevas, quase 
exausto de força por ter vencido um caminho por demais longo e penoso, 
sucumbiria ao cansaço, as fadigas do corpo e do espírito, se dê sobre o 
precipício que o ameaçava não lobrigasse10 o lume benfazejo que 
acenando-lhe uma guarida, lhe traria a refeição das forças e a atividade do 
espírito. 
 
 
12 
 
 Eis isto uma verdade. Pois bem: o membro da igreja militante é 
semelhante ao peregrino perdido, exausto de forças, rodeado de trevas e 
de precipícios, e o lume visto ao longe - e a esperança jamais enganadora 
da bem aventurança pela decisão infalível do sucessor de S. Pedro11; - é a 
certeza da glorificação dos Santos que cremos firmemente habitar o reino 
dos céus, onde um dia desejamos também naturalizar-nos. Porque, se é 
impossível conceber-se a existência da igreja militante sem homens, é, 
pela mesma razão, impossível conceber-se a existência da igreja 
triunfante sem santos. 
 Mas, dir-nos-ão: Não se nega a existência destes; nega-se, porém a 
inerrância,12 algumas vezes, da parte daquele que no-los revela como tais. 
Mas é aí onde está todo mal, o que vamos mostrar. 
 Quem é susceptível de errar uma vez, é suscetível de errar duas e 
muitas, muito principalmente sobre um objeto, como é a canonização dos 
santos, cujo conhecimento não depende de cálculos científicos, e que 
segue sempre os mesmos trâmites. 
 Ou o indivíduo merece ser canonizado ou não; se merece, que o 
seja: é mais um santo que o céu adquiriu, é mais um medianeiro,13 a quem 
nós, os pecadores, recorreremos para fazer chegar nossas humildes 
súplicas a soberana presença da majestade divina; se o não merece, como 
canonizar-se um indivíduo, cuja vida e milagres não são suficientes para 
soerguê-lo ao nível dos bem aventurados, daqueles que têm a glória 
inefável14 de ver a face da divina justiça? 
 A canonização sempre existiu, e isto em termos hábeis, porque ela 
foi tão necessária no tempo dos nossos primeiros pais, e da religião 
mosaica15, como é ao cristianismo. A diferença que se nota de uma a outra 
canonização, não é uma diferença essencial, é, porém uma diferença 
acidental que se recente apenas da época em que preponderou a religião 
natural, ou a religião de Moisés, assim como hoje prepondera a de J. 
Cristo.16 
 Existiu nos tempos primitivos uma canonização simbólica, assim 
como simbolicamente existiram os sacramentos do batismo, do 
matrimônio, etc. 
 Se compulsarmos os anais da Igreja, desde os seus mais remotos 
fundamentos, encontraremos a verdade de semelhantes asserções, uma 
vez que analisemos e confrontemos os fatos com aquele critério que não é 
para desprezar em matéria de tanto melindre17 e magnitude. 
 No liv. do Eclesiástico,18 cap. 54, vv. 1°, 7°, 16 e 20, lemos as 
seguintes passagens: “Louvemos aos varões gloriosos e aos nossos pais na 
sua geração.” 
 “Todos estes alcançaram glória nas gerações de sua nação, e ainda 
hoje são louvados pelo que fizeram em sua vida.”“Enoque19 agradou a Deus e foi trasladado ao Paraíso para exortar 
as nações à penitência.” 
 “O grande Abraão20 foi o pai da multidão das nações, e não se 
achava outro semelhante a ele em glória, e guardou a lei do Excelso e com 
ele se pôs em aliança.” 
 
 
13 
 
 E no cap. 55, do mesmo Ecc, vv. 1°, 3°, 4° e 28: “Moisés foi amado 
de Deus e dos homens: cuja memória está em bênção. 
 Glorificou-o diante dos reis e lhe prescreveu ordenações diante do 
seu povo, e lhe fez ver a sua santificou dentre toda carne.” 
“Finéias,21 filho de Eleazar,22 é o terceiro glória. Pela fé e mansidão 
o santificou dentre toda carne.” 
 Ora, as diferentes passagens da Escritura, que submetemos à 
apreciação dos leitores, por ventura não importam a mais irrecusável 
evidência quanto a santidade desses varões acrisolados23 na fé, na 
esperança, na caridade, em todas as virtudes? Não nos infundem a mais 
íntima convicção de que a canonização sempre existiu, e que deve merecer 
toda nossa fé, por isso que deve ser infalível aquele que se acha incumbido 
de no-la atesta?” Certamente que sim. 
 Portanto, se assim acontece, é nossa humilde opinião que nos 
favorece o princípio reconhecido por todos os teólogos de - que não há 
nada verdadeiramente de fé, senão o que por Deus nos foi revelado por 
intermédio dos apóstolos e profetas, ou o que evidentemente se deduz daí: 
Nihil est de fide nisi quod Deus per apostolos aut prophetas revelavit, 
aut quocl evidenter inde deduci.24 Dissemos que nos favorece o princípio 
reconhecido por todos os teólogos, porque as páginas sagradas foram 
escritas por inspiração divina, e são as páginas sagradas que nos 
certificam de que Enoque, Abraão, Moisés, Finéias e outros tantos 
escolhidos de Deus gozam da mansão dos justos. 
 Mas, vejamos o que se deve entender por canonização, quais os 
motivos que levam o Pontífice Romano a declarar que tal indivíduo deve 
ser considerado santo e merecer o culto de dulia,25 e, depois de apreciar-
nos esses motivos, se de feito o papa é infalível, quando assim resolve. 
 “Canonização, segundo Bergier,26 é o decreto, pelo qual o Pontífice 
Romano declara que tal homem praticou as virtudes cristãs em um grau 
heroico, e que Deus operou milagres por intercessão dele, quer durante 
sua vida, quer mesmo depois de sua morte. Para que o papa faça 
semelhante declaração.” 
 Para que o papa faça semelhante declaração, ou para que a 
canonização se torne efetiva, faz-se indispensável o conjunto de muitas 
circunstâncias que devem preceder o ato declaratório do Pontífice. O 
conjunto dessas circunstâncias, ou as provas que se requerem para 
semelhante fim, consistem em um processo longo e cauteloso, pelo qual a 
congregação dos Cardeais, segundo as ordens do papa, indaga todos os 
atos de vida do canonizando, precedendo sobre ela às mais minuciosas 
informações em suas diferentes fases, e isto pelo espaço de cem anos. Este 
período de tempo tão longo para as formalidades de um processo 
harmoniza perfeitamente com a natureza do objeto, sobre que a justiça 
eclesiástica procede suas escrupulosas indagações, por isso que ela tem 
por fim conhecer de um modo cabal se a memória pela veneração do 
morto foi constante, se a fama de suas virtudes continuará sempre no 
lugar em que ele viveu e nas partes por onde ele se assinalou pelo prodígio 
dos seus milagres. 
 
 
14 
 
 Ora, se procedendo-se desta maneira, chegar-se ao resultado de que 
o canonizando foi eminentemente virtuoso e fez milagres, durante sua 
vida (pois não basta que o canonizando fosse somente virtuoso, ou que 
houvesse somente feito milagres: é mister que os dois fatos mutuamente 
se hajam dado), se o seu corpo, além disso, for encontrado em perfeita 
sanidade, porque não há de o papa julgar esse homem santo, e porque não 
havemos de acreditar que o papa, quando assim julga, é infalível? 
 A morte por isso que é necessária, é uma lei irrevogável, á que está 
sujeita a humanidade em peso, e o aniquilamento do nosso corpo, de 
baixo da terra, servindo de pasto aos vermes, é também uma condição, 
que senão pode separar da nossa organização física. Todas as vezes pois 
que o corpo humano, fazendo uma exceção da regra geral, for encontrado 
em perfeito estado, incorrupto, nele devemos ver operado ou um 
fenômeno das leis físicas que o regulam, ou um milagre da Providência 
Divina. 
 Se a medicina, como sucede sempre, e é indispensável em tais 
investigações, abrindo as portas dos seus conhecimentos, não poder dar a 
razão de semelhante fenômeno, depois de um longo estudo, depois de 
haver percorrido toda escala da ciência médica, então é forçoso confessar 
que algum milagre se acha manifestado nesse corpo. E se as pesquisas 
feitas pela justiça eclesiástica se coadunarem com essa prova tão valiosa e 
acabada, isto é, se durante o espaço de cem anos não houver uma só prova 
que desdiga das virtudes e dos milagres do canonizando, reunido tudo isto 
á exuberantíssima prova da sanidade do cadáver, porque não há de ser 
este reputado santo, e porque não há de ser o papa infalível em sua 
respectiva decisão? 
 Se o papa pudesse errar na canonização dos santos, se os fiéis se 
pudessem compenetrar de que em semelhante matéria era vacilante e 
precário o juízo do vigário visível de Jesus Cristo, sucessor de S. Pedro, 
pedra fundamental da igreja do filho de Deus, que tem, além dos poderes 
ordinários, que foram conferidos ao colégio apostólico,27 os poderes 
extraordinários de ligar e desligar e de confirmar seus irmãos na fé, se isto 
se pudesse verificar, nós o repetimos, o papa concorreria muitas vezes 
para a idolatria, para a descrença, para o cisma, e até para o regresso do 
Cristianismo; porque os fiéis, certos de que o papa é falível decidindo 
sobre o objeto em questão, receariam venerar um simples morto; e dessa 
falta de fé seguir-se-ia o cisma na sociedade eclesiástica, e o cristianismo 
necessariamente teria de sofrer muito. 
 Alguns escritores seguem opinião contrária a que adotados, e dizem 
que na canonização dos santos podemos duvidar da infalibilidade da 
igreja, sem que por isso nos ser considerados passa falsos de fé - In 
canonicatione sanctorum fidem descrimine possumus.28 Mas desde que 
se convier que a canonização dos santos respeita aos costumes gerais e 
públicos, veremos que a única dedução, que se tem a tirar, é que a Igreja 
pode errar em matérias de costumes. Mas quem não vê o absurdo da 
conclusão? 
 Também muitos escritores ilustres, e cujo nome importa uma 
 
 
15 
 
autoridade, se tem votado contra a infalibilidade do papa nas matérias de 
dogma, de fé, de disciplina geral, mas é hoje uma verdade, que tem 
tomado vulto a ponto de tornar-se quase axiomática (e que mais para o 
futuro se tornará um dogma, como a imaculada Conceição da Virgem 
Santíssima,29 segundo se exprimiu um dos nossos mestres) que o papa é 
infalível, quando decide ex cátedra sobre dogma sobre matérias de fé e de 
disciplina geral. 
 A doutrina que seguimos é defendida por muitas ilustrações 
modernas, cujos nomes bastariam para responder as impugnações dos 
nossos adversários. Entre eles, citaremos o do senhor cardeal Gousset,30 
que sustenta a infalibilidade papal na canonização dos santos, porque 
considera-a tão intimamente ligada ao dogma, que dele não se poderia 
desprender sem eminente perigo. 
 E de fato há muita razão para assim pensar, porque basta 
lembrarmo-nos que são indispensáveis na canonização a virtude dos 
costumes e a verdade dos sinais, para concluirmos que o papa não pode 
errar, quando decide sobre semelhante assunto. 
 Os impugnadores da doutrina que abraçamos, fundam-se 
principalmente no fato de haverem os bispos nos tempos primitivos do 
cristianismo, e os concílios com o concurso do resto do povo e clero usado 
deste direito, isto é, canonizado; e tanto assim que depois de Alexandre 
III,31 para evitar-se a precipitação e abuso, é que o direito de canonizar foi 
exclusivamentereservado ao Pontífice Romano. Este argumento 
tem, ao menos aparentemente, muita força porém, se o analisarmos com 
o devido critério, chegaremos a uma conclusão que nos será toda 
favorável. 
 Primeiramente achamos sustentável que os bispos e os concílios 
com o concurso do resto do clero e do povo pudessem canonizar 
completamente, sem que daí se possa tirar uma só indução que negue ao 
papa a infalibilidade que ele deve ter, quando decide sobre um assunto 
tão transcendente e melindroso. Por que: quem nos diz que esses bispos e 
concílios não eram presididos pelo chefe universal da igreja? 
 Quando o Pontífice Romano tem de decidir sobre uma questão 
momentosa que afeta o dogma, a disciplina geral e a fé, ele reúne aqueles 
bispos que pode, espalhados pelo orbe católico, e depois de ouvir a todos, 
então pronuncia o seu juízo que, em tais casos, tem o cunho da 
infalibilidade. Assim, pois, quando os bispos decidiram primitivamente 
sobre a canonização dos Santos, é de supor que fossem presididos pelo 
Pontífice Romano. 
 Depois, suponhamos que os bispos decidiram outrora 
incompetentemente sobre canonização; concedamos que eles atribuíram 
a si um direito, de cujas regalias não deviam gozar, perguntamos: o que 
prova semelhante usurpação contra a infalibilidade Papa em matéria de 
canonização? Segundo o nosso humilde modo de pensar, nada 
absolutamente; porque, se os fiéis se tornaram idolatras (inocentemente) 
alguma vez como é de supor, visto não serem os bispos por si sós 
infalíveis, daqui o que se segue é - que assim aconteceu por não terem eles 
 
 
16 
 
esse dom que somente Jesus Cristo concedeu ao sucessor de S. Pedro, e a 
Igreja Universal. 
 Um último argumento muito forçoso, e que implica a crença de um 
dogma, nos leva a encarecer ainda a doutrina de que o Papa é infalível na 
canonização dos santos; esse argumento é o seguinte: 
 A igreja manda crer na comunicação dos Santos do mesmo modo 
ou na mesma ocasião em que nos manda crer em Deus Padre, todo 
poderoso, em Jesus Cristo, seu unigênito filho, concebido por obra do 
Espírito Santo, nascido da Virgem Santíssima, etc. 
 Ora se a igreja no Símbolo dos Apóstolos32 nos manda crer nesse 
dogma - a comunicação dos santos - nas palavras: credo... In 
communicalionem sanctorum;33 se este dogma, por conseguinte, deve ser 
abraçado por nossa fé do mesmo modo porque abraça tudo quanto se 
contém no Símbolo dos Apóstolos, como não sustentar-se que o Pontífice 
Romano é infalível quando pronuncia seu juízo sobre um ponto 
dogmático, sobre um ponto de fé? 
 Portanto, avista do que temos ponderado, seja-nos permitido 
concluir que - o Papa é infalível na canonização dos santos, por isso que 
também o é quando decide ex cátedra sobre matérias de dogma, de fé e de 
disciplina geral, com as quais está em imediato contato a canonização dos 
santos. 
 
 
J. CORIOLANO DE S. L. 
 
Publicado no Jornal Atheneu Pernambucano: Periódico Científico e 
Literário. “Avante e sempre!” Recife. - Tipografia Universal, Nº 18. - 
1857. 
 
 
1 Aqui o poeta emite sua opinião a respeito de um dos maiores debates travados no meio 
católico. Promulgado pelo Concílio Vaticano I no ano de 1870, o dispositivo prevê que o Sumo 
Pontífice é infalível, ou seja, possui ato personalíssimo, irrevogável e inquestionável quando da 
canonização de um Santo. Cf. LARAÑA, Ildefonso C. Doutrina Social da Igreja: abordagem 
histórica. Tradução de J. A. Ceschin. São Paulo: Edições Loyola, 1995, p. 47. Nesta esteira 
corrobora outro eminente teólogo: “O objeto secundário da infalibilidade pertence: (...) d) a 
canonização dos santos, isto é, o julgamento final de um membro da Igreja que foi recebido na bem-
aventurança eterna e deve ser objecto de veneração pública. O culto dado aos santos, como São Tomás nos 
ensina, é ‘uma certa confissão de fé que acreditam na glória dos santos’ (Quodl. 9,16).” Grifo Nosso. Cf. 
OTT, Ludwig. Manual de Teologia Dogmática, Editorial Herder, Barcelona 1966, pp. 450, 451. 
Mas há correntes contrárias, dentre elas a do Pe. Marcelo Tenório que defende: “Em suma, 
diante das canonizações deve-se dar uma assentimento religioso, como damos aos documentos que não 
possui o peso da infalibilidade, mas PODE-SE ADMITIR SIM A POSSIBILIDADE DO ERRO, visto 
que essa doutrina da ‘infalibilidade das canonizações’ ainda não foi DEFINIDA de modo ‘Ex 
Cathedra’.”Disponível.em:.http://www.padremarcelotenorio.com/2017/08/canonizacao-nao-e-
ato-infalivel/ Acesso em 27.05. 2019. (Nota do Organizador) 
2 Do latim Ex cathedra significa “a partir da cadeira”. No contexto católico, designa-se o termo 
como: “a partir da cadeira de São Pedro”. A palavra latina é usada para ilustrar uma das maiores 
 
 
17 
 
prerrogativas papais que diz respeito a sua infalibilidade (ponto central do texto), na qual o 
pontífice é guiado pelo Espírito Santo, que o preserva de todo o erro quando das suas decisões. 
(N. do Org.) 
3 Escritor católico - provavelmente italiano -, que se notabilizou por “calcular” a equivalência 
entre os pecados veniais diários por dias contados no Purgatório. (N. do Org.) 
4 Tradução: “único rebanho e o único pastor.” 
5 Nivela. 
6 “(...) fé é, pois, a realidade das coisas que esperamos.” Texto bíblico presente no Livro de Hebreus, 
Capítulo 11, Versículo 1. 
7 Trabalhoso. 
8“Lembra-te, homem, de que és pó e ao pó voltarás.” 
9 Irrefutável. 
10 Percebesse. 
11 SÃO PEDRO (Galileia, Séc. I a.C. - Roma, 67 d.C.) “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e 
sobre esta pedra edificarei a minha igreja.” (Mateus 16:18) Nesse versículo é fundamentado Pedro 
como 1° Papa da Igreja Católica. Antes chamado Simão, Jesus rebatizou-o como Pedro que 
significa “pedra”. Considerado um dos apóstolos de Cristo, Jesus logo o recrutou para ser seu 
discípulo. Em Lucas 5:1-11, narra o episódio mais marcante que decidiu sobremaneira a sua 
vida, onde Jesus disse: “Serás um pescador de almas.” O Padre Rohrbacher em sua vasta obra 
biográfica de santos em 22 volumes, traça um perfil: “Roma era a capital do mundo, 
particularmente do mundo ocidental. Pedro funda ali a Igreja romana e coloca o seu trono, a fim 
de pastorear os carneiros e ovelhas de Jesus Cristo, de tal modo que em todo o mundo haja 
apenas um rebanho e um pastor. Antioquia era a capital do Oriente. E Pedro levara para lá o 
seu trono. Alexandria era a capital do Egito e do Sul; para ela envia Pedro a Marcos, seu 
discípulo, a fim de fundar, em seu nome uma igreja. E as três igrejas serão chamadas patriarcais 
e apostólicas, em virtude da dignidade de Pedro. E tão constante isso, que no século-quinto, um 
imperador e um concílio ecumênico, o imperador Marciano e o concílio de Calcedônia, 
querendo proporcionar a dignidade de patriarca ao bispo da nova Roma ou de Constantinopla, 
pediram-na nos seguintes termos ao sucessor de São Pedro: ‘Dignai-vos esparzir sobre a igreja de 
Constantinopla um raio do vosso primado apostólico.’ O que patenteia que, no pensamento da Igreja, 
não é o patriarcado senão um escoamento parcial da primazia de São Pedro, cuja plenitude 
reside no trono de Roma.” ROHRBACHER, Padre. Vidas dos Santos. São Paulo: Editora das 
Américas, 1959, Vol. II, p. 7. (N. do Org.) 
12 Que não erra. 
13 Mensageiro. 
14 Indescritível. 
15 Religião Mosaica ou de Moisés, precursora do judaísmo, “(...) ela só atingirá sua maturação com 
o início da monarquia israelita e sua subsequente divisão em dois reinos: Judá e Israel. (...) No entanto, a 
visão histórica e bíblica mostram que esta religião mosaica não era única e exclusiva.” 
Disponível.em:https:// https://www.portalsaofrancisco.com.br/historia-geral/judaismo Acesso 
em 22.03.2020. O psicanalista Sigmund Freud em seu texto ‘Moisés e o monoteísmo’ inaugura 
uma nova interpretação sobre Moisés. “(...) cheguei à conclusão de meu estudo, que se dirigiu para o 
 
 
18 
 
objetivo único de introduzir a figura de Moisés egípcio no nexo da históriajudaica.” Cf. FREUD, 
Sigmund. Moisés e o monoteísmo. In S. Freud, Edição Standard Brasileira das Obras 
Psicológicas Completas de S. Freud (J. Salomão, trad., vol. 23, pp. 149-150). Rio de Janeiro: 
Imago, 1996, p. 64. Para o psicanalista havia espaço para existência de “dois Moisés”: na qual é 
considerado na sua formação “egípcia” o deus Aton, portanto a religião judaica teria influências 
egípcias. Punido por Deus em não mais entrar na Terra Prometida, Moisés morre no Monte 
Nebo, assassinado pelo seu próprio povo. Após sua morte foi recuperada sua mensagem por 
meio de uma “psicologia de massa” como forma identitária de um povo como sendo de Deus. 
(N. do Org.) 
16 Jesus Cristo, figura histórica mais festejada universalmente por todos os séculos, Único 
nascido pela ação do Espírito Santo, expressão máxima da perfeição, o próprio Deus em forma 
humana. Detentor de uma moral, bondade, amor e caridade perfeita em sua acepção mais exata 
e de como deveria ser a verdadeira ação e razão humana. Totalmente anulado para si e 
devotado ao próximo, por onde passou deixou um legado que jamais será superado até a 
consumação dos séculos. Sacrificou-se, em todos sentidos, pela humanidade. Apropriado pelas 
mais diversas religiões, tem toda sua vida narrada no Novo Testamento onde podemos 
testemunhar seu ministério de curas, entregas, ensinamentos, etc. Perseguido pelos romanos, foi 
humilhado publicamente, açoitado e por fim crucificado tendo colocado em cima uma placa, 
Iēsus Nazarēnus, Rēx Iūdaeōrum, que significa “Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus”. Com essa ação 
- mesmo inteiramente isento de qualquer culpa - cumpre Sua missão na terra levando todos os 
pecados da humanidade consigo, nos livrando de todo mal. (N. do Org.) 
17 Delicadeza no trato. 
18 Livro do Eclesiástico ou Eclesiastes, escrito pelo Rei Salomão já no final da sua vida, sua maior 
mensagem é conscientizar as gerações futuras que não vale a pena uma vida vivida longe de 
Deus. 
19 Enoque foi uma figura bíblica que se destacou por ter sido poupado por Deus quando do 
dilúvio que devastou a terra naquela época. 
20 Abraão, considerado por alguns cristãos como “pai da fé”, ficou conhecido por não 
desobedecer a Deus quando do sacrifício de seu filho Isaque. 
21 Finéias ficou conhecido por executar - num gesto extremo - um casal entre um israelita e uma 
moabita, relação inconcebível para Deus. 
22 Eleazar era sumo sacerdote e pai de Finéias. Um grande líder militar foi um dos principais 
combatentes contra os filisteus. 
23 Purificado. 
24 Tradução aproximada: “Tudo que Deus revelou aos apóstolos por meio dos profetas está comprovado 
através de evidências.” 
25 Culto de Dulia é um dos tipos de culto da Igreja Católica. Distingue-se da latria e da hiperdulia 
por: “(...) honrar e venerar, e é o culto prestado aos santos, pessoas que tiveram heroísmo e fé 
comprovados no exercício das virtudes cristãs, consideradas um verdadeiro exemplo a ser 
seguido. ‘Além disso, por exemplo, quando se faz uma bênção de uma água e a usa como devoção é um 
ato de culto de dulia, porque a água está mediando o culto a Deus’, explica o Pe. Arthur.” 
Disponível.em:https://www.paieterno.com.br/2019/10/16/voce-sabe-o-que-elatria-dulia-e-
hiperdulia/ Acesso em 26.12.2019. (N. do Org.) 
 
 
19 
 
26 Nicolás Silvestre Bergier (1718-90). Um dos mais proeminentes teólogos e apologeta francês, 
sendo ainda doutor em Teologia e padre. Costumava debater diversos assuntos com filósofos, 
inclusive travando debates com Jean-Jacques Rousseau. Convidado para configurar como 
revisor de uma certa Enciclopédia, achou melhor escrever seus artigos por conta própria. Daí 
nasceu sua principal obra: Dictionnaire de théologie. Escreveu ainda Examen du matérialisme 
(1771), Réponses aux Conseils raisonnables de Voltaire (1771), entre outras. (N. do Org.) 
27“Entende-se por Colégio Apostólico o grupo dos doze primeiros discípulos de Jesus convidados 
por Ele a auxiliarem o seu ministério terreno. O Salvador os separou e os nomeou. Os primeiros 
escolhidos não eram homens perfeitos, mas foram vocacionados a levar a mensagem do 
Evangelho a todo o mundo (Mt 28.19,20; Mc 16.15-20). De acordo com Stanley Horton, eles 
foram habilitados a exercer ‘o ministério quando do estabelecimento da Igreja’ (At 1.20,25,26). Em 
outras palavras, os doze apóstolos constituíram a base ministerial para o desenvolvimento e a 
expansão da Igreja no mundo. Mas antes, como nos mostra a Palavra de Deus, receberam o 
batismo com o Espírito Santo. (Lc 24.49; At 1.8; 2.1-
46).”Disponível.em:https://escoladominical.assembleia.org.br/licao-6-o-
ministeriodeapostolo/Acesso em 10.01.2020. (N. do Org.) 
28 Tradução aproximada: “Somente a santa fé canônica pode descriminar.” 
29 CONCEIÇÃO DA VIRGEM SANTÍSSIMA. “Imaculada Conceição refere-se a um dogma através do 
qual a Igreja declarou que a concepção da Virgem Maria foi sem a mancha (mácula em latim) do pecado 
original. Desde o primeiro instante de sua existência, a Virgem Maria foi preservada do pecado pela graça 
de Deus. Ela sempre foi cheia da graça divina. O dogma declara também que a vida da Virgem Maria 
transcorreu completamente livre de pecado. (...) Foi o papa Pio IX, o papa que proclamou o dogma da 
Imaculada Conceição, recorreu principalmente à afirmação de Gênesis (3, 15), onde Deus diz: Eu Porei 
inimizade entre ti e a mulher, entre sua descendência e a dela, assim, segundo esta profecia, seria 
necessário uma mulher sem pecado, para dar à luz o Cristo, que reconciliaria o homem com 
Deus.”Disponível.em:https://cruzterrasanta.com.br/historia-de-imaculada-
conceicao/9/102/Acesso em 17.01.2020. (N. do Org.) 
30 De nome completo Thomas-Marie-Joseph Gousset (1792 - 1866). Filho de Thomas Gousset e 
Marguerité Bournon, tornou-se um notável religioso, teólogo e professor francês. Tinha como 
lema: “O homem recolhe o que semeia.” Fez invejável carreira no Catolicismo angariando grande 
admiração entre seus pares por seu singular brilhantismo. Foi ordenado Sacerdote em 1817, 
Abade, Vigário, Bispo e por fim Arcebispo de Reims em 1840. Em rápida passagem pela 
política, tornou-se senador do império. Além de organizar e comentar outras obras, ele também 
escreveu vários livros, dentre eles: Teologia Dogmática e Moral, Teologia Dogmática ou exposição dos 
poderes e dos dogmas da religião católica, Observações sobre a liberdade de ensinamento, Teologia moral 
para uso dos padres e confessores (1851), Manual de Teologia Dogmática (1852), Exposição dos 
princípios do Direito Canônico (1859), O direito da Igreja de adquirir bens para a adoração e a soberania 
do papa (1862), etc. (N. do Org.) 
31PAPA ALEXANDRE III (1100 - 81) De nome civil Rolando Bandinelli, assumiu vários outros 
cargos antes de ser elevado ao posto de Sumo Pontífice. Foi Cardeal-Diácono de São Cosme e 
São Damião, depois Cardeal-Presbítero, Chanceler, etc. Cf. PACAUT, Marcel. Alexandre III: étude 
sur la conception du pouvoir pontifical dans sa pensée et dans son œuvre. Paris: Librairie Philosophique J. 
Vrin, 1956, cap. II. Dentre os fatos que marcaram seu pontificado podemos destacar as rusgas 
com o Imperador Frederico Barbarossa (1122-1190) na qual o mesmo preferiu escolher Vítor IV 
como papa o que muito desagradou Alexandre, que por sua vez, como retaliação excomunga 
ambos desencadeando graves consequências políticas da época, pois Barbarossa declarou 
guerra contra a Igreja e estados italianos contrários a sua decisão. Além disso, esteve à frente do 
3º Concílio de Latrão, que dentre muitas decisões, decreta que somente o colégio de cardeais 
 
 
20 
 
poderá eleger um papa. Para saber mais sobre sua vida recomenda-se o livro escrito pelo 
cardeal Boso. (N. do Org.) 
32SÍMBOLO DOS APÓSTOLOS. “Chama-se símbolo (sinal pelo qual se distingue alguém), 
porque na primitiva Igreja servia para distinguir os cristãos. Para poder assistir à Missa era 
preciso saber o símbolo,sob pena de exclusão. Era proibido comunicá-lo àqueles que não eram 
batizados; como é proibido em tempo de guerra comunicar a senha. Chama-se símbolo dos 
Apóstolos porque tem origem 
apostólica.”Disponível.em:http://catolicismo.com.br/materia/materia.cfm?IDmat=122&mes=nov
embro2001. Acesso em 17.01.2020. (N. do Org.) 
33 Tradução aproximada: “Creio... Na mensagem dos santos;” 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
21 
 
O SUICÍDIO1 
 
Parece temeridade que havendo tantas penas doutas e esclarecidas, 
desde Sócrates,2 por Platão,3 até o exímio moralista o Sr. Conselheiro 
Bastos,4 escrito sobre a grave questão do suicídio, hoje ocupe as colunas 
deste periódico - quem não tem os predicados de escritor, - quem é o 
primeiro a reconhecer o nada dos seus conhecimentos científicos. Mas 
como depois de uma confissão tão ingênua e verdadeira é mister que 
revelemos ao público o nosso intuito, vamos fazê-lo. 
 As graves questões, que se hão suscitado sobre o suicídio, nem 
sempre têm chegado ao domínio de todos (falíamos relativamente ao 
nosso país): elas se acham depositadas em livros preciosos, que nem 
todos podem ler. A isto acresce que o jornalismo, posto que tenha uma 
vida menos prolongada que os livros, a tem mais ativa; por isso mesmo 
que está mais ao alcance de todos, por isso mesmo que com todos mais 
franca e comodamente se comunica. E quando possa desaparecer em uns 
a impressão, que receberão de tal escrito, em outros essa impressão 
constitui-se uma verdadeira tradição, e se perpetua. 
 Eis a razão que nos abalançou a tomar sobre os ombros um peso 
por sem dúvida superior as nossas forças; mas, como o nosso fim 
principal é a moralidade, mostrando quanto é execrável e quanto merece 
ser extirpada essa terrível epidemia, mais contagiosa e devastadora do 
que aquela, com que há pouco lutamos a braços, sinto a consciência 
tranquila, e animado, prossigo no meu propósito. 
 
* 
 
Assinar as diferentes causas que tem levado a humanidade a 
cometer esse crime hediondo e mais que brutal, o suicídio, fora 
impossível; porque essas causas resultado da multiplicidade dos desvarios 
e das paixões que infectam e corrompem a pobre descendência de Adão.5 
 Porque amargas aflições, porque dissabores cruéis não passam a 
mente do filósofo cristão, do homem religioso, e crente, quando, 
compulsando as muitas e variadas páginas da história, sente de espaço em 
espaço ferir-lhe os olhos uma folha ensanguentada que poderá antes 
encerrar o belo epílogo de alguma vida ilustre, acrisolada6 pelo martírio e 
pelo sofrimento? Mas, ah! - essa folha ensanguentada é a triste narração 
do poeta desditoso,7 que ainda no alvorecer dos seus dias libou8 a última 
gota de veneno que continha a taça do desespero, para, destarte abreviar 
os sofrimento de sua alma, que, sem esse pernicioso antídoto, serão 
espaçados sob os horrores da miséria, - a falta de uma migalha de pão! 
Essa folha ensanguentada é a funesta história do herói nunca que, 
havendo trepidado no cumprimento e desempenho dos seus deveres 
como cidadão e patriota, um dia deixou; se sucumbir ao golpe do punhal 
suicida! - É a crônica fatal do guerreiro que, sabendo arrostar9 impávidas 
as hostes inimigas, não estremeceria ao estampido do canhão e beberia o 
fumo das bombardas10 mesmo modo que encarava as lanças, os dardos e 
 
 
22 
 
os chuços;11 porém que um dia foi o seu próprio algoz, o seu próprio 
assassino! - E a pasmosa12 e lamentável narrativa da mais célebre poetisa, 
que tem visto o mundo, - a mesma que media seus rigorosos talentos com 
os mais afamados poetas e filósofos do seu tempo, e que, despenhando-se 
do cimo do alcantilado13 rochedo, foi no medonho abismo dos mares 
demandar um lenitivo14 às desgraças de um amor que a torturava!(*) - É, 
em uma palavra, o filósofo, o escritor, o moralista, o rico e o pobre, o 
poderoso e o fraco, o sábio e o néscio que procuram em sua própria 
destruição um termo, que no cúmulo da loucura ou do desespero chamam 
- lenitivo ou remédio -, a vida acabrunhada que os prende ao mundo, 
aonde virão a luz da existência, onde saborearão os conselhos de um pai 
extremoso, as carícias de uma mãe desvelada, as lições de um mestre 
sábio e prudente, os carinhos de uma esposa terna, os afagos inocente da 
mimosa prole, as doçuras da fraternidade, os ofícios do amigo, etc.! 
 A razão mais robusta e prática, encarando o tremendo quadro do 
suicídio, recua espavorida,15 e, perdida num espesso nevoeiro de reflexões 
que se embatem simultaneamente, não descortina, não pode conceber 
como o homem, dotado de razão e liberdade, é capaz de descer a tamanha 
degradação, a ponto de privar-se de um bem tão precioso e caro, como é a 
vida, e da qual não é senão simples depositário! 
 Oh! Quanto o homem se vilipendia quando tenta contra o sagrado 
direito de sua existência! Quanto o homem se torna mil vezes inferior ao 
irracional, quando se despoja voluntariamente do sagrado penhor que a 
Divindade lhe confiou! 
 Quem uma vez já notou a fera voltar contra si às próprias garras? 
Quem uma vez já notou o réptil venenoso, mordendo se, derramar em si a 
peçonha que inocula nos outros animais? 
Nada disto tereis notado, ao passo que a cada canto da sociedade 
tereis visto o homem trucidando-se, afogado no seu próprio sangue, 
derramado por suas próprias mãos! 
 E admira que no século das luzes16 e do progresso, quando a ciência 
parece ter escancarado as portas dos conhecimentos, e as artes aberto o 
cofre dos seus tesouros, admira que hajam estoicos17 que ericem lanças 
para combater sob as bandeiras do suicídio! Admira que nos nossos 
tempos hajam cabeças inebriadas no capricho das excentricidades, que 
chamaremos malditas, a ponto de consagrarem argumentos sofísticos em 
prol desse crime sacrílego, desse cancro contagioso e maligno, que vai 
pouco a pouco tomando vulto e minando o edifício social! 
 O homem logo que chega a idade da discrição, a essa fase da vida, 
em que as ideias se desenvolvem e a consciência nos atesta a bondade ou 
maldade dos nossos atos, reconhece em si um dever santo e imperioso, 
que se lhe manifesta com um tríplice caráter. Filosofando sobre si mesmo, 
o homem sente-se, conhece-se um ente livre e racional. Colocado no 
mundo, rodeado de necessidades, exposto as vicissitudes terrenas, ele 
aspira dar expansão a sua liberdade, cultivar sua inteligência, e prover a 
todas as suas precisões. Enquanto o homem sente o aperto desses laços, o 
vínculo desses deveres, uma ideia se desprende de sua mente, e ele 
 
 
23 
 
medita... reflexiona sobre aqueles que, como ele, fazem parte da 
sociedade. Então conhece, a força do raciocínio, que sua liberdade só deve 
estender-se até aquele ponto, onde começa a liberdade do seu semelhante. 
Conhece que todos os outros homens são igualmente livres e racionais, e 
que, por conseguinte, tem os mesmos direitos e as mesmas obrigações que 
ele; as mesmas necessidades, as mesmas faculdades para provê-las, as 
mesmas volições,18 os mesmos sentimentos, apenas modificados por 
certos caracteres físicos e psicológicos, que são peculiares a cada natureza. 
Reconhece a necessidade absoluta de mutuamente se socorrerem, e se 
ajudarem no emprego dos meios precisos a consecução dos fins 
humanitários, indispensáveis ao gozo honesto desta vida, e que são uma 
transição para o gozo da vida eterna. Reconhece afinal que, tendo uma 
forma interessante e bela, uma sensibilidade, uma liberdade e uma razão 
não pode prescindir de render graças, de tributar homenagens, ou antes, 
adorações Aquele que o fez superior aos outros animais. 
 Sim, o homem tem deveres a cumprir para consigo, para com os 
outros homens e para com Deus, deveres importantíssimos que ele 
reconhece pelo palpitar do seu coração, pela voz infalível de sua 
consciência. Todas as vezes que ele infringe qualquer desses deveres, que 
Deus plantou em seu coração, a consciência imediatamente o repreende, e 
muito embora o homemtente reagir contra essa voz, embalde o faz, 
porque ela importa uma sentença que não é proferida por juiz terreno, - 
porque ela tem o cunho da evidência, da inerrância19 que caracterizarão 
Aquele que no-la revelou. 
 Assentado na cúpula do edifício moral, o homem bendiz o Supremo 
artífice que o fez tão nobre, tão perfeito, tão sobranceiro20 as outras 
espécies de criatura. 
 E como, em tais casos, poderá ele contrariar os altos desígnios da 
Providência Divina, querendo pôr dique a liberdade e sabedoria de Deus? 
Como poderá o homem apropriar-se de um direito, que a Majestade 
Divina somente para si reservou, qual é o de dispor das nossas vidas? 
Já vistes a filha querida e saudosa despojar-se do mimoso relicário 
que lhe deu sua carinhosa mãe, em sinal de lembrança, no momento em 
que, lançando-lhe a última benção, trocou a vida do mundo pela vida da 
eternidade? Já vistes o sol parar o seu curso (se assim nos podemos 
exprimir) contrariando as leis físicas que o regulam? 
Certamente que não. 
E senão desconheceis esta verdade; se estes fatos que apontamos 
nada são comparativamente ao dom mais precioso, ao direito que exerce a 
Divindade sobre nossa existência, como é que o homem, ingrato, 
desconhecido, violador do que há de mais sagrado, poderá arrogar a si o 
direito de privar-se da própria existência, de que não é senão um mero 
depositário? “Que se diria de um indivíduo, diz o sábio Sr. Conselheiro 
Bastos, que havendo de nós um depósito para o restituir quando se lhe 
exigisse, na nossa presença o chamasse seu e dele depusesse a seu 
arbítrio?” 
 Nós responderemos a pergunta do grande moralista: - esse 
 
 
24 
 
indivíduo seria um mau depositário que abusou da confiança que nele 
depositamos, um usurpador, um homem degenerado e sem consciência. 
No melindroso campo, onde se agitam as importantes questões do 
suicídio, aparecem filósofos, argumentadores, que nós chamaremos 
sofistas,21 para não dizermos mais, que se tem prevalecido dos 
sofrimentos de uns, da heroicidade de outros, dos talentos e filosofia 
deste, das virtudes e resignação daquele para justificarem o suicídio, ou 
antes para vês tirem de cores menos negras esses fatos horríveis 
desesperados que tem levado a frágil humanidade as bordas do tenebroso 
abismo que por tantas vezes há conseguido subvertê-la. Mas os 
argumentos que o estoicismo engendra para amparar esse crime 
abominável, desfazem-se ao menor lampejo da razão esclarecida. 
 O filho talentoso de Bristol, o desgraçado Chatterton,22 com sua 
mente embriagada de poesia, experimentou as adversidades da fortuna, 
faltou-lhe o próprio alimento (e ele era um gênio!) não pode resistir a 
sorte que tão atrozmente o perseguia e envenenou-se! O desventurado 
poeta não tinha, por ventura, uma mais velha de quem cuidasse, ajuda 
mesmo quando supusesse sua vida de nenhum interesse ao resto da 
humanidade? Mas, ah! Falso raciocínio!... 
 Quanto sua vida não era preciosa a sociedade! Quanto perdeu sua 
nação e quanto perdeu o jardim das ciências pelo corte prematuro da 
malfadada flor que desparzia, apenas desabrochada, tapo doces perfumes! 
 O célebre herói romano (falaríamos de Catão) é, por ventura, um 
dos exemplos mais poderosos, de que se servem aqueles que fazem a 
apologia do suicídio. 
Catão23 era um homem reto, uma alma, talvez, tão grandiosa como 
o espaço que ele abrangia com um olhar de romano; não quis ver 
desmoronar-se a república, por quem se havia sacrificado, e um sacrifício 
de nova ordem quis consagrar-lhe, cravando no próprio peito o punhal, 
para deste modo não sobreviver às ruínas da república! 
 Somos um dos muitos admiradores desse homem singular e 
extraordinário; fazemos uma ideia muito vantajosa de sua dedicação pela 
república, de seu interesse e amor pela salvação e liberdade de sua pátria; 
porém, é forçoso confessar, reconhecemos no suicida o homem fraco que 
se deixou vergar ao peso de um sentimento reprovado pela moral, pela 
religião; reconhecemos no suicídio, a que recorreu, uma ação ignóbil que 
anuviou os seus últimos momentos, que poderiam ser selados por feitos 
de uma magnitude e alcance tais, que tornassem sua memória estreme 
dessa nódoa indelével que sobre ela pesa. 
Quais os bens que obteve Catão para a república, suicidando-se? 
Quais as vantagens que resultarão a sua pátria desse desvario 
imperdoável, dessa alucinação indigna da alma de um romano e de um 
livre? E quanto não poderia ele fazer sobrevivendo a queda da república? 
Acaso tinha tão pouca confiança em si que, vendo-se isolado, julgasse 
para sempre perdida a causa santa que advogava? 
 É debalde que para afastar do suicídio todo o horror e negrume que 
o revestem, nos alegareis o valor desmedido, a resignação tantas vezes 
 
 
25 
 
provada do vencedor dos romanos na célebre batalha de Cannas;24 as 
qualidades de grande guerreiro, e, por conseguinte a coragem, o denodo, 
etc. do amante25 de Cleópatra;26 a justiça severa do condenador dos 
próprios filhos, do matador de César; a filosofia da cantora de Lesbos; a 
virtude e a timidez do amante de Carlota.27 É debalde... 
 Annibal,28 o famoso general cartaginês Antônio e Bruto, valentes 
capitães romanos, Sapho29 que resolvia com os filósofos contemporâneos 
os mais intrincados problemas de filosofia, e que como poetisa mereceu a 
honra de ser agregada ao coro das musas; Werther30 que se arrependia 
(arrependimento fatal!) de um beijo furtado a sua amante, a esposa do 
seu amigo, no auge da paixão que o extraviava das veredas do honesto, 
que o sufocava... perderão todo o valor e resignação, toda a coragem, toda 
a justiça, toda a filosofia, toda a virtude que os assinalavam, quando no 
suicídio procurarão um termo aos padecimentos morais que 
amesquinham-lhes a vida. 
 O que entendeis por valor e pela palavra resignação? Como definir a 
justiça? O que é a filosofia? O que é a virtude? 
São sobre maneiras óbvias as respostas correspondentes a cada 
uma das perguntas que deixamos estampadas. 
Pode chamar-se valoroso o indivíduo que recua ao feio aspecto de 
qualquer adversidade que o persegue e que está em seu brio combater? 
Tem a qualidade da resignação o indivíduo que se deixa arrastar e 
sucumbir à tenacidade das vicissitudes terrenas? 
É justiceiro aquele que é o primeiro a ser injusto consigo mesmo? 
É filósofo o homem que desconhece o fim para que a Divindade 
criou-o, obrando dentro de uma esfera da qual recua o próprio instinto 
brutal? 
Merece o epíteto de virtuoso quem sacrifica os santos preceitos da 
moral, e da religião, ao desregramento de suas paixões? 
 Admitimos que no suicida pudessem um dia brilhar todos esses 
atributos, todas essas virtudes, que engrandecem e elevam o homem; 
porém que esses atributos, que essas virtudes sejam motivos justificativos 
de um ato de loucura, de uma fraqueza mesquinha, de uma imoralidade, 
de um crime tão repugnante e estúpido, como é o suicídio, isto nunca! 
Desde o momento em que a ideia do suicídio se apossou de um 
indivíduo, ele trocou o valor pela fraqueza, a resignação pelo desespero, a 
coragem pela cobardia, a filosofia pelo estoicismo, a virtude pelo crime. 
 Sêneca,31 se opusesse uma resistência moral a ordem tirana de 
Nero,32 quando prescreveu-lhe que se matasse, teria mais um padrão de 
glória, mais um monumento de heroicidade e de virtude para oferecer à 
posteridade. 
 Judas,33 se houvesse arrependido, como S. Pedro que negou por 
três vezes o Divino Mestre, ou como o legislador dos hebreus que vacilou 
na fé, na ocasião de tocar o rochedo com a vara, não obstante já ter visto 
por uma vez operado aquele portentoso milagre, Judas não teria 
desesperado a ponto de enforcar-se para hoje contar dezenove séculos de 
penas eternas! 
 
 
26 
 
 Quantas observações judiciosas e irrespondíveis senão podem 
apresentar contra esse delírio humano que vai solapando a sociedade com 
tamanho furor? 
O homem, por ventura, só depende e vive do presente? Não 
enxergará ele um futuroque o acena envolto nos sucessos vindouros? E 
não imaginará um outro futuro, que nos não é dado descortinar, porém 
que nos envolve, porque no-lo atesta a consciência, o espaço que nos 
envolve, o ar que respiramos, a natureza que nos circunda? 
Quem haverá tão cético que tudo isto desconheça! 
 Os sofismas que a capacidade de alguns escritores tem engenhado a 
favor do suicídio são miseráveis! - nem sequer achamo-los revestidos 
desse burlesco e aparente enleio que ordinariamente caracteriza todo 
argumento capcioso. 
Ouçamos a Saint Preux:34 “Procurar o próprio bem e evitar o 
próprio mal, naquilo que não ofende a outrem, é um direito natural, 
quando nossa vida é um mal para nós e não um bem para os outros, em 
tais casos nos é permitido dispor dela.” 
A este raciocínio eivado do capricho e da malícia, talvez, de Saint 
Preux, responde vitoriosamente mylord Edouard.35 
De feito. Quando é que nossa vida é um mal para nós? Quando 
sofrermos por amor da virtude, por amor da humanidade? Certo que não. 
 A vida só pode ser um mal para nós, quando, cegos pelas paixões, 
que perdem a alma e corrompem o corpo, trilhamos um caminho avesso 
que nos pôde levar a perdição, quer com relação ao mundo social, quer 
com relação ao mundo moral. Mas esse mesmo mal está em nossas mãos 
sanar; e se o não queremos fazer, porque é tal a nossa miséria, a morte é 
que vem remediá-lo? Não, porque a morte, no estado de desespero, de 
alucinação, de pecado, é o mal mais grave e danoso que pode recear o 
homem: logo a vida, em termos hábeis, não é nunca um mal para nós, por 
isso que para sê-lo depende da vontade, do arbítrio do homem. Além 
disso, quem pode haver tão antissocial que, seguindo os impulsos de seu 
coração, morto pelo delírio vertiginoso das paixões, diga: “Eu não sirvo à 
pessoa alguma, sou um ente nulo e sem préstimo; - que importa, pois a 
minha vida à humanidade, que não se utiliza dela?” 
 Respondamos a estas palavras, que não vieram do coração, com 
mylord Edouard: “Tua morte não é prejudicial a ninguém!.. Tu falas dos 
deveres do magistrado e do pai de família, e, porque não sentes o vínculo 
desses deveres, te crês desembaraçado, exonerado de tudo! E a sociedade 
a que deves tua conservação, teus talentos, tuas luzes? A pátria á que 
pertences, os desgraçados que necessitam, de ti, a estes não deves nada?... 
As leis!, as leis!... o sábio porventura as despreza?” “Sócrates, inocente, 
para não desrespeitar as leis, não quis escapar-se da prisão, tu porém não 
hesitas em violá-las para te livrares injustamente da vida; e ainda 
perguntas que mal fiz eu?” Nada se pode argumentar a este trecho tão 
eloquente! Ele importa uma verdade, e é que o suicídio é um crime que 
fere de frente a lei natural, os princípios mais sãos e sagrados da 
sociedade e a própria lei divina positiva, que no 5º preceito do Decálogo 
 
 
27 
 
manda: Non occides: não matarás. 
 O serva te ipsum36 é uma lei natural que fala a todos os corações, e 
que os mesmos irracionais cumprem por instinto nunca tentando contra 
sua existência! E o homem - o faz, deixando a razão luminosa ofuscar-se 
pelo brutal instinto!!... A sociedade não pôde prescindir dos nossos 
auxílios, sejam eles quais forem, uma vez que militem no mundo do justo 
e do honesto. A sociedade é o complexo dos indivíduos, assim como o 
indivíduo é o reflexo da sociedade; é o corpo servido por diferentes 
órgãos, cujo exercício e préstimo são lhe todos mister. 
Pode, por ventura, passar o corpo sem a mão - porém, quantas 
vezes não lamentará sua falta, e quantos ofícios deixará de desempenhar 
sem semelhante órgão? 
Pode o corpo passar, aliás bem, sem esta ou aquela parte que nada 
concorre para o desenvolvimento dos meios necessários aos fins, que lhe 
correspondem, porém sempre o corpo será defeituoso. 
 Que vale ser-se Christina ou Heródias(**), isto é, ter-se um talento 
transcendente, ser-se um gênio nas ciências e nas artes, possuir-se um 
coração, onde cabe o amor com todos os seus transportes, brilhantismo e 
heroicidade, e ser-se um aleijão envolvido nas roupas que simbolizam 
candura, que representam ou fazem lembrar a visão angélica que se, 
imaginou nas azas inspiradas da poesia, e que nunca se tinha visto 
realizada? 
Os moralistas nos ensinam que há duas espécies de preceitos: 
negativos e afirmativos; estes podem ser infringidos alguma vez e em tais 
circunstâncias que da infração não resulte crime ou pecado grave; 
aqueles, os negativos, sempre que são violados importam um pecado. 
Assim, guardar os domingos e dias festivos é um preceito; porém há 
casos, em que podemos trabalhar, compelidos pela necessidade extrema 
ou por um ato de caridade que possa abafar aquela violação; mas este 
preceito é afirmativo. 
Não podemos, porém matar em caso nenhum (salvo em própria 
defesa, verificadas todas as condições prescritas pela lei natural e pela 
moral) sem que incorramos em um pecado que nos pode perder 
eternamente. 
 Eis, portanto, o suicida violando, e contra si, o 5º preceito intimado 
aos homens por Deus! - Eis o suicida contrariando os sábios decretos da 
Providência Divina! - Eis o suicida roubando a propriedade da Divindade, 
que apenas lhe concedeu para usufruir por alguns tempos, enquanto lhe 
aprouvesse! 
Alguns amigos do suicídio tem se servido do martírio desses 
homens extraordinários e santos que morrerão pela causa da verdadeira 
religião, e da morte produzida por males derivados da continência, para 
lhe darem um colorido a seu jeito; porém semelhante roupa assenta mal 
em tais personagens. Não devemos confundir o ato mais acrisolado de 
desapego das cousas mundanas, o sacrifício mais merecido de uma cousa 
que não é inteiramente nossa, a vida, pela sustentação da fé, da disciplina, 
 
 
28 
 
da religião daquele que nos criou, que nos proveu de tudo, com esse ato 
que aberra da natureza e deslustra a memória do homem. 
Não se queira chamar suicídio a morte feliz e resignada do 
celibatário que sucumbe porque não quer quebrantar o voto, que fez e 
tornar-se perjuro. 
Opróbrio, a desonra, a bofetada sacrílega no rosto do homem 
probo, nenhum ato descobrimos que possa autorizar o suicídio. 
Fizeram-te uma injúria, desfeitearam-te, cuspiram-te nessas faces, 
que nunca ti verão ocasião de corar por um motivo idêntico, e a sociedade 
comportamento, o teu e as leis não te vingarão? Pois bem: o teu desprezo 
ao crime, a tua virtude, a vindicta37 pública te põe ao abrigo das censuras; 
se é que te podem censurar. 
 E o que colherias, se te matasses a ti mesmo? A emenda para o teu 
agressor? A tua desforra?... A emenda é falível, a desforra miserável, 
indigna e criminosa. 
Vós, que pretendeis abafar a voz da consciência aos gritos 
descompassados do capricho, do egoísmo grosseiro e maligno, que vos faz 
devanear o enlouquecer,.. pensai, refleti... e haveis de convir em que o 
suicídio é um ato de desespero e loucura, quando não seja o requinte da 
maldade, e da maldade satânica! 
 
J. CORIOLANO DE S. L. 
 
(*) O Sr. Bouillet admite a existência de duas Saphos, a célebre poetisa e a amante de 
Phaon, sendo a última a que deu o famoso salto do Leucate; mas esse fato se acha 
agregado pela tradição e pelo que temos lido a cantora de Lesbos. Respeitamos a 
autoridade; porém escrevemos segundo as nossas convicções. (Nota do Autor) 
 
(**) Aludimos ao belo romance por Mr. Fonjant, cujo principal personagem é uma 
virgem, á que o autor dá estes dois nomes. (N do A) 
 
Publicado no Jornal Atheneu Pernambucano: Periódico Científico e Literário. “Avante 
e sempre!” Volume I, Ano de 1856. 
 
 
1 Neste escrito o poeta Coriolano demonstra - através desse espinhoso tema - fragmentos de seu 
instigante pensamento. Faz considerações e investigação filosóficas sem abrir mão de lançar 
diálogos com nomes da literatura e da filosofia clássica universal. (N. do Org.) 
2 Um dos filósofos gregos antigos mais festejados mesmo sem ter nenhuma obra escrita por ele 
próprio. Todos seus ensinamentos foram compiladospor seus discípulos. Autor da célebre 
máxima: “só sei que nada sei,” foi condenado a beber cicuta sob as acusações de “negação aos 
deuses gregos” e de “corromper” os jovens com suas ideias. (N. do Org.) 
3 Discípulo de Sócrates se prontificou pagar a fiança para salvar seu mestre, mas foi em vão. De 
família política, tornou-se criador do chamado “Mito da Caverna”, uma alegoria que instiga as 
pessoas a conhecer a vida como ela é não somente através de representações impostas por 
terceiros. É como se caverna fosse a ignorância ou o senso comum que o indivíduo se livraria 
através do conhecimento. No geral a visão platônica o suicídio era algo abominável, mas em 
 
 
29 
 
certos casos ele poderia ser considerado uma virtude como aqueles praticados em nome da 
honra ou para evitar um mal intolerável. (N. do Org.) 
4 De nome completo José Joaquim Rodrigues de Bastos (1777 -1862) Advogado e magistrado 
português aderiu à Martinhada [Para uns Revolução; para outros Golpe ocorrido em Portugal] 
de 11 de Novembro de 1820. Fora ainda deputado em 1821-22, sendo secretário das Cortes e 
membro da junta criada em 18 de Junho de 1823 para a reforma da lei fundamental. Intendente 
geral da polícia em 1827. Disponível.em:.http://www.politipedia.pt/bastos-jose-joaquim-
rodrigues-de-1777-1862/Acesso em 28.03.2020. Figura múltipla fora ainda escritor, político. 
Autor de A Virgem da Polônia, Meditações ou Discursos Religiosos, Coleção de Pensamentos, Máximas 
e Provérbios, Os Dois Artistas ou Albano e Virgínia, Médico do Deserto. Para maiores informações de 
seu legado intelectual e de sua vida ler o livro Vida e Obra do Conselheiro José Joaquim Rodrigues de 
Bastos escrito por Rui Moreira de Sá e Guerra. Também conhecido por “conselheiro” tinha uma 
visão peculiar sobre o suicídio. Num certo jornal brasileiro do século XIX arrematou “(...) não se 
diga: Eu já paguei minha vida à sociedade, nos trabalhos que empreendi e executei por ela; porque esta 
dívida é muito avultada, não pode ser paga senão pelo emprego de toda a nossa vida; e quem se priva de 
uma parte desta, deixa de pagar uma parte daquela.” APEB – Microfilmes. A Marmota Fluminense, 29 
de agosto de 1854. (N. do Org.) 
5 Refere-se, notadamente, a toda humanidade ao remeter a figura do “pai primordial” Adão, 
que na tradição cristã, juntamente com Eva deram início a humanidade. (N. do Org.) 
6 Purificada. 
7 Infeliz. 
8 Bebeu. 
9 Encarar. 
10 Arma militar, era uma espécie de canhão primitivo. 
11 Espécie de pique com pontas de ferro. 
12 Digno de pasmo, fantástico. 
13 Íngreme. 
14 Algo que suaviza. 
15 Amedrontada. 
16 Refere-se ao Século XVIII, época que deflagrou o fenômeno do Iluminismo, que foi um 
movimento surgido na burguesia europeia com vistas a romper com os principais ideais do 
período medieval. Em seu bojo defendia o cientificismo, racionalismo e antropocentrismo. Seus 
principais representantes foram Montesquieu, Adam Smith, Voltaire, Denis Diderot, Immanuel 
Kant e muitos outros. Essa corrente teria sido responsável pelas Revoluções Francesa, Industrial 
e Americana. (N. do Org.) 
17 Seguidores do Estoicismo, escola de filosofia helenística grega fundada por Zenão que tinha 
como caraterística principal desprezar as emoções e vícios em detrimento da virtude que é o 
único caminho para a felicidade. Sêneca um de seus maiores representantes, defendia que 
quando a vida não tinha mais sentido a auto eliminação era compreensível. O mesmo acabou 
“se suicidando” por ordem de Nero. (N. do Org.) 
 
 
30 
 
18 Decisões. 
19 Que não erra. 
20 Superior. 
21 Grupos de filósofos gregos antigos itinerantes que dominavam a arte da retórica. Eles 
cobraram por seus ensinamentos. Alguns de seus representantes foram Hípias, Górgias, 
Pródico, Protágoras, Trasímaco, Crátilo e Antifonte. Essa corrente recebeu muitas críticas de 
outros filósofos da época. (N. do Org.) 
22 Thomas Chatterton (Bristol/Inglaterra, 20.11.1752 - Londres/Inglaterra, 24.08.1770) Talento 
precoce ficou conhecido por escrever poesias com fortes influências românticas e medievais. De 
família pobre e criado pela mãe e irmã, desde pequeno marcou por sua personalidade 
melancólica sendo tomado por sucessivos “ataques de abstração”. Já em Londres morando só, 
dirige-se a um boticário onde adquire algumas substâncias, tomando-as. A maioria relata que 
em crise financeira e com bastante fome Chatterton teria se matado. Mas outra vertente defende 
que o poeta foi vítima de uma overdose acidental, haja vista que o mesmo só queria se tratar 
por conta de uma doença venérea. Enterrado em vala comum, alguns de seus admiradores 
entraram em campanha para construir um monumento em sua homenagem. Concluída a obra, 
ela foi erigida defronte a igreja Saint Mary Redcliffe, mas não passou muito tempo, pois foi 
retirado por religiosos locais. A cena da sua morte foi pintado em quadros e gravuras. Fontes: 
https://www.poetryfoundation.org/poets/thomaschatterton;.https://en.wikipedia.org/wiki/Tho
mas_Chatterton;.http://osuicidario.blogspot.com/2012/06/thomas-chatterton.html e outros (N. 
do Org.) 
23 Também chamado Marco Pórcio, Catão Uticense (ou de Útica) ou ainda Catão, o Moço não há 
de confundi-lo com seu bisavô Catão, o Velho. Grande opositor político de Júlio César ficou 
conhecido por seus pares de ser um exemplar de ética e conduta e homem público era adepto 
do Estoicismo, onde as virtudes são o único caminho para a felicidade. Após ter perdido a 
Batalha de Tapso para seu arqui-inimigo César, Catão decide se matar por exsanguinação, 
técnica que consiste em perder muito sangue por ferimentos autoprovocados. Foi biografado 
por Plutarco em sua Vidas Paralelas, na qual narra os seus últimos dias de vida. “(...) Catão 
empunhou a espada e a enterrou em seu peito. A inflamação da mão o impediu de desferir o golpe com a 
força necessária para que expirasse na hora - e, lutando contra a morte, ele caiu da cama (...) O médico 
chega e, ao atestar que as vísceras não estavam afetadas, tenta recolocá-las no lugar e suturar a ferida. 
Catão, no entanto, recuperava-se do desmaio: quando recobrou os sentidos, repeliu o médico, reabriu o 
corte e dilacerou com as mãos suas entranhas. E morreu. (Vida de Catão, o Jovem, LXVII-LXX)” 
Disponível.em:/https://devitastoica.com/2018/12/01/catao-de-uticadiante-da-morte/Acesso: 
05.04.2020. Sua morte é considerada honrosa pelos estudiosos haja vista que preferiria morrer a 
não ter de pedir clemência a César ou ainda correr o risco de ser exilado e preso como um troféu 
para seu inimigo. (N. do Org.) 
24 BATALHA DE CANAS - Célebre peleja travada entre Roma e Catargo no contexto da 2ª 
Guerra Púnica em 216 a.C.. Mesmo com inferioridade numérica os cartagineses liderados por 
Aníbal conseguiram impor derrota aos romanos tornando uma das batalhas mais sangrentas da 
história. Fonte: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/anibal-barca-roma-
de-joelhos.phtml (N. do Org.) 
25 Provavelmente refere-se a Caio Júlio César (100 - 44 a.C.) relevante imperador romano que 
acabou assassinado por uma facção de senadores liderados por Brutus. 
 
 
31 
 
26 Cleópatra nascida na macedônia, era filha de Ptolemeu XII, Rainha do Egito teve 
relacionamento com Júlio César tendo com este um filho Cesário. Teve também relacionamento 
com Marco Antônio sucessor de César. A dinâmica de sua morte possui várias versões. A mais 
conhecida é de ela teria se suicidado ao deixar ser picada por uma serpente venenosa. Outros 
acreditam que ela pode ter se matado com um grampo ou até mesmo ter ingerido um coquetel 
de substâncias mortais. “A morte de Cleópatra efetivamente encerrou a Última Guerra Civil da 
República Romana entre os triúnviros Augusto e Marco Antônio, em que Cleópatra se alinhou com 
Antônio, pai de três de seus filhos. Antônio e Cleópatra fugiram para o Egito após serem derrotados na 
Batalha de Áccio, em 31 a.C., na Grécia romana,após a qual Augusto invadiu o Egito e derrotou suas 
forças. Cometer suicídio lhe permitiu evitar a humilhação 
(...)”Disponível.em:.https://pt.wikipedia.org/wiki/Morte_de_Cle%C3%B3patraAcesso em 
09.04.2020. (N. do Org.) 
27 Provavelmente refere-se a Carlota Joaquina de Bourbon, esposa do rei D. João VI. Figura 
polêmica giram em torno de sua biografia diversas especulações, de conspiradora e de 
principalmente adúltera, mas nada com relação a esta última acusação pode ser comprovada 
definitivamente. Essa “má fama” pode ter sido construída porque ela se opunha politicamente a 
Inglaterra e a Portugal e era constantemente acusada de estar conjurando contra seu marido. 
Fonte: CASSOTTI, Marsilio. Carlota Joaquina. O Pecado Espanhol, Lisboa: A Esfera dos Livros, 
2009. (N. do Org.) 
28 Aníbal Barca (247 a.C.-183 a.C.). Um dos maiores líderes militares da História até a 
atualidade. Comandou diversas batalhas e foi um dos responsáveis por derrotar as tropas 
romanas, iniciando a decadência do império. Ficou conhecido na antiguidade pelo uso de 
elefantes nas batalhas. Foi derrotado por Cipião Africano na Batalha de Zama, “(...) Aníbal fugiu 
para a corte do Rei Prúsias I, da Bitínia. Lá, ainda perseguidos pelos romanos, decidiu tirar sua própria 
vida com um veneno que carregava dentro de um anel. Antes de se suicidar, teria dito: ‘Libertemos Roma 
dos terrores que lhes causa um velho’.” Disponível.em:.https://escolaeducacao.com.br/anibal-
barca/Acesso em 11.04.2020 e GLASMAN, Gabriel. Aníbal: o inimigo de Roma. São Paulo: Madras, 
2009. (N. do Org.) 
29 Importante poetisa grega da antiguidade produzia versos com forte influência erótica. Alguns 
historiadores defendem que a mesma teria se jogado de um penhasco por conta de um amor 
não correspondido. Fonte: FLORES, Guilherme Gontijo. Fragmentos completos - Safo. São Paulo, 
Editora 34, 2017. (N. do Org.) 
30 Refere-se à obra Os sofrimentos do jovem Werther (1774) escrito pelo autor alemão Johann 
Wolfgang von Goethe. Escrito em forma de cartas trata-se de um amor que não podia se 
consumar entre Werther e Charlotte por esta já está possuir relacionamento com outro. Um dos 
aspectos que mais chamam atenção quanto ao livro diz respeito a uma suposta “onda” de 
suicídio que a mesma teria causado. Isso porque o protagonista tira a própria vida no final da 
história. Percebeu-se que logo que o livro ganhou repercussão, leitores jovens que se suicidaram 
naquela época tiveram contato com a obra inclusive alguns trajando roupas similares da 
personagem descrita pelo autor. Até hoje essa tese é muito discutida no meio acadêmico tanto 
que o fenômeno recebeu um termo “Efeito Werther” ao se referir a suicídios em efeito “cascata.” 
Fontes: GOETHE, J. W., Os sofrimentos do jovem Werther. 2.ed. Tradução e notas de Erlon José 
Paschoal. São Paulo: Martins Fontes, 
2007https://www.ufrgs.br/psicopatologia/wiki/index.php?title=Os_sofrimentos_do_jovem_Wert
here https://periodicos.fclar.unesp.br/semaspas/article/view/7949. (N. do Org.) 
31 Vide nota 17. 
 
 
32 
 
32 Nero Cláudio César Augusto Germânico, seu nome completo é considerado um dos mais 
sanguinários imperadores romanos. Perseguido pelo Senado, tenta fuga e ordena seu secretário 
Epafrodito para que o apunhalasse caso fosse capturado e assim foi feito. Dentre as acusações 
que mais lhe pesam dizem respeito à prática do incesto, de matricídio e de ter ordenado 
incendiar Roma pondo a culpa nos cristãos. “(...), Nero forjou culpados e lhes infligiu as mais atrozes 
punições naqueles, detestados por suas abominações, a quem o vulgo apelidava de Chrestianos. (...) Os 
primeiros a serem presos eram aqueles que confessavam, então, através de suas informações, um grande 
número de pessoas foi acusado, não tanto de ter ateado fogo à Cidade, mas de ódio contra a raça humana. 
E, conforme eles pereciam, zombarias eram acrescidas, tanto que, cobertos com peles de animais selvagens, 
eles morriam devido às mutilações que os cães lhes infligiam, ou, fixados a cruzes, eram queimados, e no 
cair da noite eram usados para a iluminação noturna. Nero forneceu seus jardins para o espetáculo e 
ofereceu jogos circenses misturando-se com a plebe disfarçado de condutor de carro de guerra ou em sua 
própria biga.” TACITUS. Annals. Texto estabelecido, traduzido e comentado por A. J. Woodman. 
Indianapolis/Cambridge: Hackett Publishing Company, Inc., 2004, XV, 44. (N. do Org.) 
33 Judas Iscariotes foi a figura mais execrável de todos os tempos, era um dos discípulos de 
Cristo. Filho de Simão traiu Jesus entregando-o aos soldados romanos através de um sinal que 
seria um beijo no rosto de Cristo por 30 moedas de prata. Tomado de remorso se enforca em 
uma árvore não sem antes devolver o dinheiro aos sacerdotes no templo. (N. do Org.) 
34 Saint-Preux, personagem da obra Júlia ou A Nova Heloísa escrita pelo filósofo Jean-Jacques 
Rousseau. Livro também escrito em formato epistolar fala do romance entre Julia e seu tutor 
Saint-Preux, que não pode se consumar pelo fato dele ser pobre. Cf. ROUSSEAU, Jean-Jacques. 
Júlia ou a nova Heloísa. Campinas: Hucitec: Unicamp, 1994. (N. do Org.) 
35 Mylord Edouard personagem secundário da obra citada acima era um dos poucos a favor do 
relacionamento. É ele que demove dos pensamentos de Saint-Preux a ideia de se suicidar. (N. 
do Org.) 
36 Tradução livre: “Salva a ti mesmo.” 
37 Vingança. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
33 
 
O homem é bom ou mau segundo a educação 
que recebe1 
 
A leitura rápida e momentânea de um manuscrito, cujo autor, que 
sumamente prezamos, combate o princípio “o homem é bom ou mau 
segundo a educação que recebe”, suscitou-nos o desejo de produzir 
algumas ligeiras reflexões em favor do mesmo princípio. 
O público nos desculpará ainda esta vez pelo arrojo que tivemos em 
fazê-lo, visto ser o ponto delicado, e digno somente de ser tratado ou pelos 
mestres das ciências sociais, ou pelos talentos fecundos, embora novos, 
onde a prematuridade do desenvolvimento científico pôde ombrear com a 
veterania do estudo sério e refletido. 
 Em nossa humilde opinião, a sentença que vamos defender – “o 
homem é bom ou mau segundo a educação que recebe” - não é uma 
sentença tão especulativa que somente possa ser demonstrada 
teoricamente, - é também prática, de sorte que, enquanto o raciocínio 
abraça-a, levado pelos motivos mais sólidos e plausíveis, os fatos de todos 
os lados se apresentam para justificá-la. 
“O homem é bom ou mau segundo a educação que recebe”, 
princípio este tão verdadeiro, quanto excepcional pode ser qualquer fato 
isolado que contra ele se haja dado, e cuja inexequibilidade somente teria 
lugar, se as máximas da verdade pudessem imprimir em todos que as 
ouvem ou leem o caráter que lhes é próprio. Mas isso, absolutamente 
falando, é impossível no homem susceptível de paixão, de egoísmo, de 
erro, de fragilidade, etc. 
 Em teoria podemos considerar a educação de baixo de dois pontos 
de vista; ou cultivada em um círculo menos espaçoso, - a educação 
particular, ou cultivada em um círculo mais amplo, a educação pública. 
Cumpre, porém notar que não queremos confundir a educação com 
a criação -, porque, conquanto ambas tendam essencialmente ao mesmo 
fim, - a conservação física e a perfeição moral do homem, - contudo, esta, 
a criação, denota esses primeiros cuidados e desvelos dos pais relativos à 
conservação de um corpo ainda falta de vigor e de agilidade, e a 
inoculação pausada dos primeiros ensaios ou rudimentos da religião, que 
pouco a pouco vão dando passagem ao conhecimento das verdades 
morais; enquanto que aquela, a educação, recaindo sobre a moral e a 
instrução, supõe já outros princípios mais elevados e esclarecidos, outras 
ideias mais amplas e generalizadoras, e regras mais metódicas que sirvam 
de guia a razão nos escabrosos e multiplicados desvios a que muitas vezes 
o homem é arrojado durante o curto espaço de sua peregrinação nesta 
vida.A educação, quer doméstica ou particular, quer pública, foi, é e será 
sempre o principal - senão o único móvel das ações do homem, boas ou 
más, segundo também ela o foi. 
 Os sábios, qualquer que seja a profissão que abracem, a 
 
 
34 
 
reconhecem, porque a educação é mister em todos os ramos das ciências 
humanas. As leis que a protegem, e que sempre a protegeram em todos os 
tempos, em todos os lugares, em todas as ocasiões, impondo aos pais e 
aos diretores da infância a obrigação de levarem seus filhos, afilhados ou 
tutelados às escolas primárias para aí aprenderem a língua vernácula, as 
máximas e os preceitos necessários da religião e da moral, que os fazem 
conhecedores do que são, e do fim a que foram destinados pelo supremo 
Criador, é o mais poderoso argumento contra aqueles que somente veem 
na educação uma influência secundária acerca dos atos da vida humana. 
Se, pois, discorrendo teoricamente sobre a educação, vemos que ela 
é que põe a última de mão à obra começada pelos diretores da infância, - a 
criação pelo lado prático então mais se justifica o princípio, porque os 
fatos tanto tem de numerosos, quanto de patentes; tanto de verdadeiros, 
quanto de irrecusáveis em sua apreciação. 
Perguntai aos primeiros povoadores desta terra vasta e formosa a 
razão por que eram antropófagos (e que grão de perversidade não revela a 
antropofagia!). Perguntai-lhes a razão por que enterravam vivos os 
próprios pais, quando chegavam à idade decrépita. Mas não lanceis ao 
olvido2 a índole hospitaleira e benéfica, e ainda social, dos primitivos 
indígenas do Brasil, e eles vos responderiam: - Comíamos os nossos 
semelhantes, porque desde o berço nossos pais nos ensinavam pela teoria 
e pela experiência que assim devíamos fazer a respeito dos nossos 
inimigos. Enterrávamos vivos os nossos maiores, quando caducos, porque 
igualmente nos ensinavam pela persuasão e pelo exemplo que só por esse 
modo lhes pouparíamos os sofrimentos inerentes à caducidade. 
 E quem não vê nesses fatos o efeito da educação desses povos? 
Entretanto, os indígenas brasileiros eram por índole mansos, pacíficos, 
humanitários mesmo. Mas, a admitir a opinião dos nossos adversários - 
que a educação apenas influi de um modo secundário nos atos humanos; 
esses índios, esclarecidos pelo farol da razão, que alumia a consciência do 
homem ainda mais selvagem e grosseiro, deviam obrar segundo sua 
índole, em geral boa, segundo sua razão mais ou menos esclarecida. 
Porém é o contrário disso o que os fatos testificam. A educação é a vida 
dos povos, e a vida dos povos o espelho onde a educação se reflete. 
Descrevei-me circunstanciadamente a educação que teve tal povo, e 
eu vos direi, de um modo mais ou menos verdadeiro, se ele foi guerreiro, 
magnânimo, - se ele foi servil ou pequenino, industrioso ou indolente. 
Compulsai as variadas páginas da história, tanto antiga como moderna, e 
nela vereis a verdade que reveste nosso pensamento. 
Se naquela virdes o belicoso lacedemônio3 investindo o adversário 
coma espada curta, porque melhor veja a cara do inimigo, atribuí-o a 
educação: - se nesta virdes a França de Voltaire4 regurgitando no mais 
execrável sensualismo e na mais inconsequente heterodoxia, atribuí 
igualmente as palavras insinuantes e perigosas desse pernicioso inovador 
esses desregramentos da razão, atraída pelo europeu de suas refalsadas5 
doutrinas. 
 Agora lancemos as vistas para a vida doméstica, e analisemos 
 
 
35 
 
alguns dos fatos que aí se dão, começando por nossos filhos ou fâmulos,6 e 
acabando pelos próprios animais das selvas, ainda os mais 
indomesticáveis e ferinos. 
Por mais travessa e rixosa que seja uma criança, senão cansamos 
em dar-lhe bons conselhos e ensino, por meio de palavras afetuosas, de 
carícias, de mimos, e algumas vezes até por meio de castigos adaptados a 
fragilidade de seus anos, conseguimos quase sempre moderar-lhe a 
tendência rixosa. Esse os meios, do que lançamos mão, são habilmente 
empregados, conseguimos até extingui-la. 
Ao contrário do que fica exposto, por mais reconcentrada e humilde 
que seja uma criança, senão lhe repreendemos uma travessura ou rixa que 
possa ser cometido, sob o pretexto de que foi um leve erro desculpável, 
atenta sua curta idade, atento seu comportamento em geral bom; se duas, 
três, quatro vezes ou mais essa criança cai nos mesmos erros, sendo 
sempre desculpada, nunca repreendida ou castigada, por mais 
reconcentrada e humilde que seja, irá gradual e progressivamente, pelo 
apoio e amém que lhe dão seus pais ou diretores, tornando-se de humilde 
- soberbinha, de pacata - leviana; e não custará muito em serem as boas 
tendências naturais substituídas pelos prejuízos da criação, que é o 
primeiro degrau da educação. 
Não admira que a influência da educação determine de um modo 
tão poderoso as ações humanas, quando nos próprios irracionais 
(entenda-se-nos em termos hábeis) ela exerce um império, que se não 
poderá contestar senão pelo emprego de sofismas ou de subterfúgios. 
Entre nós, que animal poderá haver mais feroz e sanguinário do que 
o tigre, o qual, muitas vezes, estrangula a vítima sem devorá-la, somente 
para com a vista do sangue dela pascer7 a gravidade de suas entranhas? 
Que réptil mais traiçoeiro e inimigo do homem do que a cobra? - 
Entretanto tigre encarcerado afaga e lambe a mão daquele que na prisão 
tem o costume de trazer-lhe o alimento; e a cobra venenosa e traiçoeira 
acostuma-se também com o seu domesticador, enrrosca-se-lhe pelo 
braço, e raras vezes acontece picá-lo, e só o faz quando se julga por ele 
muito ofendida em consequência de maus tratos, pancadas, etc. Mas, 
mandai a outrem levar a comida ao tigre, mandai a outrem pegar na 
cobra: - aquele será dilacerado pelas garras da fera; e este será mordido 
pela cobra. E porque tudo isto assim acontece? A resposta parece-nos bem 
natural. 
 Contra os fatos reais não se pode vantajosamente argumentar em 
terreno tortuoso. 
 Vós apresentais-me, por exemplo, dois mancebos, educados do 
mesmo modo, com os mesmos recursos, com as mesmas vantagens: um 
respeitador das leis do dever, cordato, submisso outro desrespeitador 
dessas mesmas leis, altivo, desarrazoado. O que há; aí contra o princípio 
que sustentamos? 
Respondei: - se este não tivesse uma educação mais ou menos 
aperfeiçoada, que sem dúvida nenhuma enervou-lhe8 parte dessa 
tendência malévola que por natureza o arrastava para a perversidade, os 
 
 
36 
 
seus atos mãos praticados na razão de um ou dois não seriam praticados 
na razão de dez ou vinte? - A resposta pela afirmativa cremos que se 
deixará ouvir espontaneamente de todos aqueles que, tendo a mira nos 
fatos que se reproduzem acumuladamente, senão deixarem levar por uma 
síntese imperfeita e imparcial, talvez por não terem refletido seriamente 
no princípio que faz o objeto deste insignificante trabalho. 
 Vós que não admitia a autenticidade da máxima “o homem é bom 
ou mau segundo a educação que recebe”. Sobre que pedestal científico 
apoiais a vossa opinião? Quais os motivos que a roboram? Quais os fatos, 
os títulos que a justificam? Respondei-nos ao menos: por que razão o 
furto, o roubo, o assassinato, e em geral todos os crimes, são tão 
frequentes nas classes desprovidas de educação, quanto raríssimos 
naqueles que ocupam na sociedade uma posição eminente na hierarquia 
das ciências e das artes? Por que motivo tem a experiência mostrado que 
nos homens entregues a certas profissões há mais crueldade do que em 
outros que seguem profissões diferentes? 
Por exemplo: porque nos homens dados a profissão do talho, aliás, 
lícita, há mais propensão para a crueldade do que para as ações 
humanitárias enquanto que o lavrador é por natureza pacato, humano e 
caridoso? - Provavelmente recusareis a única resposta que se pode dar a 
tais perguntas, são obstante ser esta fácil; mas nós nos encarregamos de 
dá-la certas palavras; - tudo se decifra pela vida profissional do homem; - 
tudo sedecifra pela palavra “educação”. 
 A vista do que temos ponderado, seja-nos permitido dizer - que não 
acreditamos na virtude divinizada de uma Flor de Maria9 sob a tutela 
corrupta de uma perversa Coruja, nem tão pouco na de uma Suzana,10 a 
despeito das pérfidas e malévolas insinuações de Esmael Spencer.11 
São devaneios de romancistas, são meras entidades criadas pelos 
autores dos Mistérios de Paris12 e de Londres para nos escaldarem a 
imaginação, e assim atraírem leitores e compradores, como o ímã atrai o 
ferro. 
 Se, porém alguém quiser apertar conosco, admitiremos a 
possibilidade do fato, isto é, a virtude das Flores de Maria e das Suzanas, 
vivendo nomeio dos crimes e dos lupanares-, porém sempre a 
admitiremos como uma exceção, e nada mais. 
Para aqueles que impugnam o princípio em questão, é muito 
valioso o adágio latino “quod natura dat, memo negare potest”.13 Mas 
permita-se-nos uma breve digressão acerca deste adágio, do qual sempre 
fomos adversários, quando interpretado como alguns o entendem. 
Com efeito - é querer tirar a nobreza que deve caracterizar o homem 
inteligente, sensitivo e livre - é querer reduzi-lo a um mero autômato da 
natureza, em si tão grotesca como todos os seres que a povoam, 
desfavorecidos de razão, - é, enfim, querer pôr inteiramente de parte a 
força da vontade obrando de acordo com a moralidade do homem, ditada 
pela consciência, infalível nos seus juízos, o sustentar-se que - não 
podemos contrafazer a natureza! 
 
 
37 
 
Se admitíssemos semelhante princípio, forçoso ser-nos-ia admitir 
também a fatalidade de envolta com a recusa das faculdades mais nobres 
do homem; se admitíssemos a fatalidade, forçoso ser-nos-ia admitir 
também a imprevidência e a injustiça divina, e assim seríamos arrastados 
por uma cadeia sem fim de disparates, que nos levaria aos maiores 
absurdos que se podem imaginar! - Porque - quem diz que não podemos 
contrafazer a natureza, nega que a vontade, dirigida pela tocha da razão, 
possa reagir contra ela; - quem isto nega, afirma o contrassenso de que o 
homem é natureza sempre por bom ou mau, - e quem afirma semelhante 
contrassenso, cá a entender mui clara e logicamente que Deus é injusto, 
porque, tirando ao homem o dom mais precioso, - a liberdade, - destinou-
o desde o seu primeiro momento de vida a ser um ente feliz ou 
desgraçado. 
 Se, porém o adágio é tomado no sentido literal - que ninguém pode 
negar aquilo que a natureza dá, - isto é, que a natureza exerce tanta 
influência sobre o homem que se não pode contestar essa influência, neste 
caso o adágio é verdadeiro, e não somos seu adversário. 
Saindo deste círculo, em que voluntariamente nos envolvemos, e 
declinando da nossa humilde opinião a respeito do ponto principal que 
nos ocupa, apresentemos por último o juízo de uma autoridade que, 
acreditamos, fará calar a todos que não veem na educação senão uma 
influência indireta quanto aos atos humanos. 
Não é uma simples autoridade que vamos citar, não: é uma 
autoridade, a quem Deus concedeu especialmente o dom da sabedoria, da 
ciência infusa,14 e cujas ideias são imediata centelhas que a mente divina 
vibrou: - é Salomão. 
Ele diz: “É provérbio: O homem segundo o caminho que tomou 
sendo mancebo, dele se não apartará ainda quando for velho” 
(Proverbium est: Adolescens juxta viam suam, etiam cum senuerit, non 
recedet ab ea.) (*) 
E notai bem o que diz o Padre Pereira,15 em anota 212, 
relativamente a esta máxima: “Como nem no Hebreu, nem nos Setenta, 
nem no Caldeu se leem estas palavras: Hé provérbio; adverte Calmet,16 
que S. Jerônimo17 entendeu devê-las acrescentar aqui, para que os 
Leitores tomassem melhor o peso a esta máxima importantíssima da 
educação”. 
Não ser-nos-a dificultoso corroborar ainda nossa opinião com a de 
muitos autores esclarecidos que se tem votado pela questão vertente; 
porém, para que não percamos por prolixo, contentamo-nos com a única 
autoridade que ficou citada, e cujo pensamento, como se deduz da nota do 
Padre Pereira, encarecido por S. Jerônimo, importa também o 
pensamento precioso do Santo Doutor. 
Entretanto desejáramos que os nossos adversários nos dissessem 
qual a conclusão lógica que se pode tirar do provérbio de Salomão.18 
Desejáramos que eles nos respondessem se da máxima “o homem 
segundo o caminho que tomou sendo mancebo, dele se não apartará, 
ainda quando for velho” se pode chegar à outra consequência que não seja 
 
 
38 
 
esta: - “o homem é bom ou mau segundo a educação que recebe”; porque 
a educação influi diretamente nos atos humanos. 
Não podemos pensar todos da mesma maneira. “Tantos são os 
indivíduos, quantas as opiniões”. Resta-nos, porém o consolo de que, se 
laboramos em erro, estamos na melhor boa-fé; não se nos podendo 
denegar a escusa: porque, se o erro existe, é para nós invencível, segundo 
nos afirma a consciência. 
 
 
(*) Liv. dos Prov., cap. XXII, v. 6. 
 
J. CORIOLANO DE S. L. 
 
Publicado no Jornal O Ensaio Filosófico Pernambucano: Periódico Científico e 
Literário. “Avante e sempre!” Ano I., Setembro de 1857, Nº 2. 
 
 
 
1 Neste escrito o filósofo piauiense disserta sobre um dos maiores debates que tomaram de 
conta da dos séculos XVI e XVII na qual se arvoraram para o debate - dentre os mais conhecidos 
- Thomas Hobbes, Jean-Jacques Rousseau e John Locke, que divergiam e aquiesciam em vários 
aspectos quando tratavam do chamado “Estado de Natureza”. O poeta traz a discussão o 
componente essencial a seu ver para a discussão – a educação. Provocado por um texto escrito 
com mesmo nome de outro autor desconhecido, Coriolano se sente provocado pelo tema o que 
o motiva a escrever sempre trazendo à baila fundamentações religiosas e literárias para 
embasamento de seu pensamento. (N. do Org.) 
2 Esquecimento. 
3 Natural ou habitante da Lacedemônia, Lacônia ou Esparta: os lacedemônios eram severos nos 
seus hábitos. 
4 Era o pseudônimo do filósofo francês François-Marie Arouet, nascido no ano de 1694 e 
falecido no ano de 1778. Um dos principais iluministas foi um dos responsáveis pela edição de 
uma enciclopédia de 36 volumes. Polêmico, gostava de atacar a Igreja Católica e sua época 
chegando a ser preso por ofender alguns nobres. Autor prolífico tenha escrito mais de 70 obras 
dentre as quais se têm espalhadas sua ideia sobre educação. “Daí segue-se evidentemente 
precisarmos muito que nos ponham na cabeça boas ideias e bons princípios, desde que possamos usar a 
capacidade do entendimento”. VOLTAIRE. Dicionário filosófico. Tradução Bruno da Ponte et al.. 
São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Coleção “Os Pensadores”), p. 125. Verbete: Consciência. (N. do 
Org.) 
5 Falsas, hipócritas, fingidas. 
6 Quem presta serviços domésticos; criado. 
7 Alimentar. 
8 Enfraqueceu lhe. 
 
 
39 
 
9 Diz a tradição católica que Maria – pelo fato de ter nascido no inicio da primavera – acabou 
atraindo para si essa denominação, o que lhe rendeu o famosíssimo adágio: “Da cepa brotou a 
rama, da rama brotou a flor, da flor nasceu Maria, e de Maria o Salvador”. (N. do Org.) 
10 Trata-se de uma personagem do romance escrito em folhetim Mistérios de Londres (1844) 
escrito pelo francês Paul Feval. Com várias nuances o escrito permeia entre a baixa e a alta 
classe social londrina no século XIX. Apaixonada pelo aristocrata Brian de Lancaster, no 
decorrer da história descobre-se que ele é seu tio. (N. do Org.) 
11 Personagem também do romance anterior, suposto pai de Suzana ele é retratado como um 
judeu mau caráter. Também é revelado não ser ele pai da mesma. 
12 Livro escrito por Eugène Sue (1804 - 1857), foi o que inspirou a Feval escrever a sua. 
13 Tradução livre: “(...) o que é natural não importa desconhecer, pois, cedo ou tarde ele nos toma.” 
14 Diz-se das qualidades, virtudes ou capacidades adquiridas sem que houvesse qualquer 
esforço intencional, geralmente infundidas no ser humano pela graça de Deus. Fonte: 
https://www.aulete.com.br/infuso (N. do Org.)15 Provavelmente refere-se ao padre cânone português Antônio Pereira de Figueiredo (1725-
1797). Foi o grande responsável pela tradução da Bíblia da Vulgata Latina para a língua 
portuguesa. (N. do Org.) 
16 Religioso católico beneditino nascido na França no ano de 1672, autor de várias obras ficou 
bastante conhecido por escrever sobre assuntos sobrenaturais como os que constam no trabalho 
Dissertação sobre as aparições de anjos, demônios e espíritos, e sobre os desmortos e vampiros da Hungria, 
da Boêmia, da Morávia e da Silésia (1746). Por conta de seus importantes trabalhos ganhou a 
admiração de Voltaire que o visitava frequentemente em sua abadia. (N. do Org.) 
17 Um dos intelectuais mais completos católicos, autor de várias obras. Chegava a copiar a 
punho as obras que não podia ter. “Quem ignora as sagradas escrituras ignora a Cristo.” Passou os 
últimos dias de sua vida escrevendo e morando em uma gruta próxima da onde teria nascido 
Jesus. (N. do Org.) 
18 Terceiro rei de Israel era filho do rei Davi. Conhecido por sua riqueza, pela sua sabedoria e 
pelo templo que construiu. Um dos principais autores da Bíblia em 1 Reis 3:16-28 é descrito uma 
contenda entre duas mulheres com relação de quem seria a verdadeira mãe do bebê em 
questão. Salomão então determinou que partisse a criança ao meio dando uma banda do 
menino a cada uma delas. Ouvindo isso uma das mulheres se desesperou logo abrindo mão da 
posse do suposto filho. Diante disso, Salomão pode finalmente confirmar quem era a verdadeira 
mãe do garoto. (N. do Org.) 
 
 
 
 
 
 
 
 
40 
 
A liberdade da Imprensa1 
 
Antes de haver João Gutenberg,2 em 1436, em Estrasburgo, 
inventado a arte tipográfica, as ciências, as artes e quanto então podia ser 
suscetível das investigações humanas existia em um estado obscuro, 
verdadeiramente anômalo, porque, estando tudo sujeito ao símbolo, ao 
hieroglífico,3 a sepultura grosseira desses tempos, os conhecimentos 
humanos giravam em uma esfera muito acanhada, não podendo ser 
divulgados nem chegar a todos. Mas, depois que a imprensa abriu os 
braços as habilidades, aos talentos, a humanidade, enfim, as coisas 
mudarão inteiramente de face. 
Pouco a pouco as linguagens mudas foram sendo sufocadas e 
substituídas pela linguagem da ação; pouco a pouco o engenho do homem 
mostrou que o lapso dos tempos era insuficiente para apagar as obras 
gigantescas de sua criação. 
Como é fácil de ver, a imprensa progrediu de um modo 
maravilhoso: ela tinha em seu favor a novidade, que é um móvel de 
atração e de curiosidade; ela tinha em seu favor a utilidade, a qual foi e é 
de um alcance tão real e genérico, que não pôde ser convenientemente 
negada pelo mais pirrônico4 utopista porque as verdades são de uma 
natureza tal que as objeções, as dúvidas, os sofismas com que por ventura 
quiseram-nas escurecer, mais concorrem para demonstrá-las, mais 
exaltam-nas pela discussão, pela refutação daqueles que as defendem. 
 Com a marcha progressiva dos séculos, a imprensa se revelou à 
humanidade, não somente como um elemento de simples utilidade, 
porém como uma necessidade vital para os povos. 
 E certamente. - Sem o tradutor fiel dos nossos pensamentos e 
palavras, sem esse meio, porque transmitimos nossas ideias às gerações, 
que ainda se envolvem na possibilidade do ser, dificílimo, quando não 
impossível, ser-nos-ia chegar a todos os nossos fins humanitários - ao 
desiderato,5 a que aspira a sociedade, qual é - a nossa mútua felicidade 
temporal, o gozo e a garantia de todos os nossos direitos. - Ser-nos-ia, 
sim, quase impossível, porque a palavra de per si, os símbolos, os 
hieroglíficos e a sepultura eram insuficientes. 
O tempo, com sua mão destruidora, o sopro das estações, com o seu 
hálito corrosivo, facilmente extinguirão a linguagem escrita dos tempos 
primitivos, se o filho imortal de Mayença,6 por um destino talvez 
Providencial, não houvesse laureado sua fronte com amais perfumosa 
coroa, descobrindo a verdadeira maneira, porque podemos acompanhar 
os évos7 em sua marcha rápida, marcha que aniquilando o homem no que 
este tem de puramente material, respeita os seus altos feitos, filhos da 
razão e da heroicidade, porque esses, por meio da imprensa, são 
arquivados no livro magno que chamamos - templo da memória! 
Isto posto, digamos duas palavras sobre esta vasta questão, a - 
liberdade da imprensa, - não para elucidá-la, porque os mais abalizados 
professores da jurisprudência a tem tratado de um modo cabal; porém 
para que uma vez também torrifiquemos8 a filha predileta de J. 
 
 
41 
 
Gutenberg, que, dando-lhe a luz, estreitou em um só amplexo9 a 
posteridade inteira, que para ele se sorriu através do véu que do presente 
a separa. 
- 
O nosso sábio legislador constituinte no § 4. do art.179 consagrou o 
princípio da liberdade da imprensa nas seguintes palavras: “Todos podem 
comunicar os seus pensamentos por palavras, e escritos, e publicá-los pela 
imprensa, sem dependência de censura; com tanto que hajam de 
responder pelos abusos, que cometerem no exercido deste direito, nos 
casos, e pela forma, que a lei determinar.” 
 Provar que todo o homem tem o direito natural de manifestar os 
seus pensamentos por sons articulados, chamados palavras, é provar uma 
verdade, que nunca foi contestada; porque se o homem é social, e deve 
conseguintemente viver e comunicar com os outros seres da sua espécie, a 
transmissão do pensamento por palavras é um dos direitos primigênios10 
constitutivos da personalidade humana, cujo exercício não deve ser 
obstado, enquanto justo, como é intuitivo. 
Conceber uma sociedade, aonde o pensamento na fosse enunciado 
por palavras, seria conceber um corpo dotado do princípio da vitalidade, 
porém em um estado de verdadeira apatia, de verdadeira inação, e a ideia 
de um corpo tal importa necessariamente a ideia do seu não 
desenvolvimento, e pelo menos do seu estado estacionário. 
Mas, se a transmissão do pensamento por sons articulados é um 
direito natural, como ninguém desconhece, e tem por fim a 
perfectibilidade humana, a imprensa que é um meio dessa transmissão, e 
faz chegar-se mais prontamente ao fim, é também um direito natural, 
porque - quem quer o fim, deve também querer os meios lícitos. 
Não obstante ser isto uma verdade de primeira intuição, não faltou 
quem apresentasse a seguinte objeção, nos termos mais capciosos: “Os 
direitos naturais nos vieram de Deus, sem que da nossa parte houvesse 
esforço algum para a sua obtenção. Cada faculdade nossa a Divindade 
proveu de um órgão que lhe correspondes o homem quer falar, andar ou 
satisfazer a qualquer necessidade natural, - falia, anda, satisfaça-la. Mas a 
liberdade da imprensa não nos veio de Deus, porque ela deriva de uma 
invenção do homem.” 
Esta objeção quase que não devia merecer as honras de uma 
refutação pela sua fraqueza e incoerência. Para respondê-la, bastaria 
dizermos que são ideias mui distintas a de liberdade da imprensa, e a de 
imprensa simplesmente: a primeira é relativa a um direito sagrado que 
nasceu com o homem; a segunda refere-se a um meio que com quanto 
não nascesse com o homem, ele pode empregar, porque facilita o exercício 
daquele direito. Assim, se a imprensa não nasceu com o homem, logo que 
foi inventada, identificou-se com ele, um meio do exercício de sua 
liberdade, indispensável para o seguimento de um fim justo. 
Respondamos mais cabalmente a esta objeção. 
 
 
42 
 
Há direitos naturais que para serem exercidos dependem de 
condições, de meios que estão fora do agente livre: tal é, entre outros, o 
direito que temos de procurar nossa subsistência, nossos cômodos, etc. 
Para chegarmos ao complemento de qualquer desses direitos, isto é, 
para chegarmos ao fim, que nos ele autoriza, temos de lançar mão de 
meios externos, e a esses meios temos direito, e um direito tão natural 
como é que temos ao fim, a que nos propomos. Ora esses meios podem 
ser pouco enérgicos, menos perfeitos do que era para desejar,ou porque 
não podemos lançar mão dos outros, ou porque ignoramos a existência de 
melhores; mas logo que, o estudo, o engenho, a experiência do homem 
descobrem um meio mais enérgico, mais perfeito para a obtenção daquele 
mesmo fim que anteriormente era obtido por um meio menos perfeito, 
não se pode negar ao homem, que tem o direito irrefragável11 a sua 
perfeição, o direito de assenhorear-se desse meio mais perfeito. 
Apliquemos esses princípios à manifestação dos nossos pensamentos, e 
veremos que é absurdo contestar ao homem o direito de fazê-la por 
caracteres impressos, chamados - letras. 
Muito se há questionado se a liberdade da imprensa deve ser 
absolutamente plena, se restringida; alguns até tem admitido uma espécie 
de corretivo ao escritor, que apelidam - censura prévia. 
 É nossa humilde opinião que a liberdade da imprensa não pôde e 
nem deve ser absolutamente plena; não pode, porque o homem não é 
onipotente em nenhuma das suas faculdades; não deve, porque o homem 
tem de atender a muitas considerações, que não cumpre desprezar, e 
porque a justiça assim o recomenda. 
Tanto nos achamos compenetrados desta verdade que o 
pensamento, quanto a nós, ainda mesmo debaixo de sua fôrma 
psicológica, não o reputamos - absoluto, e disto daremos o porquê. 
Quando, concentrados em nós mesmo, deixamos o pensamento 
mergulhar-se no pélago12 insondável das fantasias, ou, tentando 
perscrutar os arcanos da Divindade, vemo-lo (por assim dizer) estacar e 
retroceder dos pórticos do Infinito, por ventura o nosso pensamento tem 
o cunho da realidade? Certo que não; porque não se pode classificar de 
real o pensamento que viaja cego e extraviado por um país que lhe é 
inteiramente desconhecido. O homem só é homem quando conhece a 
extensão e o limite de todas as suas faculdades, quando não é um ente 
apaixonado, cheio de ilusões, e puro fabricador de castelos no ar. Não 
queremos ser excêntrico, quando assim nos pronunciamos. Marrast13 nos 
autoriza a pensar desta maneira quando diz: “que toda a faculdade 
humana é limitada em sua natureza; que toda a liberdade encontra um 
limite necessário em uma liberdade vizinha.” Onde, pois a absoluta 
plenitude do pensamento humano? 
O homem no exercício de qualquer dos seus direitos, segundo 
pensamos, não pode usar de uma liberdade absolutamente plena, porque 
todos os direitos humanos são restringidos, tendo uma esfera assinalada 
dentro da qual o agente livre deve obrar. A plena e absoluta liberdade só 
existe em Deus, que é ilimitado e absoluto em todos os seus divinos 
 
 
43 
 
atributos. 
 Mas, se reconhecemos que todo o direito humano tem um limite, 
também reconhecemos que a liberdade humana não deve ser encurtada 
em quanto não for na esfera da liberdade alheia por obstáculos ao seu 
livre desenvolvimento. É por isso que rejeitados a censura prévia, 
doutrina abraçada pelo Sr. Ficquelmon14 e outros publicistas. 
O Sr. Ficquelmon pode-nos objetar pouco mais ou menos deste 
modo: “A liberdade da imprensa é um direito natural como outro 
qualquer. Não há direito algum natural que seja absoluto; todos são mais 
ou menos limitados. E se a sociedade tem o poder de limitar o exercício de 
todos os direitos, porque não há de tê-lo acerca do da liberdade da 
imprensa? Porque não há de obviar os abusos que possa resultar do 
exercício desse direito? Porque não há de estabelecer uma polícia 
preventiva, uma censura prévia, que tenha por fim cortar e prevenir tais 
abusos?” 
Mas, perguntaremos: como estabelecer-se essa polícia preventiva, 
essa censura prévia? 
Hoc opus...15 
Não há quem negue que os direitos do homem são limitados pelos 
princípios de justo e do honesto; porém há muito quem negue a utilidade 
da censura prévia, porque ela é tanto mais esquisita e lesiva dos direitos 
do cidadão, quanto em nenhum outro direito natural os seus sectários 
afundam. 
A censura prévia importa a existência de um censor, de um homem 
eminentemente ilustrado e quase que dotado do dom da inerrância para 
analisar miúda e imparcialmente o escrito que tem de aparecer no 
domínio do público. Porém, qual o censor (falamos em teoria) que exerça 
as mesmas atribuições a respeito de outro qualquer direito natural que 
não seja o da liberdade da imprensa? Por ventura o legislador quando 
proibiu o furto, o roubo, o assassinato estabeleceu, ou alguém já 
recomendou que um censor fosse indagar do ladrão, do roubador, do 
assassino - quando, aonde e de que modo ia perpetrar o crime? - Quem o 
afirmará, a menos que não afirme também que semelhante censor deverá 
ser um adivinho, um conhecedor dos segredos que se acham depositados 
no coração humano? A comparação que estabelecemos, não é um 
paradoxo, ela nos parece coerente e verdadeira. A censura prévia importa 
o resultado de todos os atentados que atacam a liberdade da imprensa. 
Esse resultado, segundo o Sr. Benjamin Constant,16 consiste “na 
exasperação dos escritores, cujo sentimento de independência é 
inseparável do talento; nas alusões, a que eles têm de recorrer tanto mais 
amargas, por isso mesmo que são indiretas; nas produções clandestinas, 
que necessariamente hão de circular, e por esse fato mais perigosas; no 
desejo excessivo do público pelas anedotas, e pelos princípios sediciosos; 
no caráter sempre interessante da coragem dado a calúnia em uma 
palavra, numa importância viciosa aquelas mesmas obras que são 
proibidas.” Os mesmo escritos ainda diz com toda a propriedade: 
 “Tem-se confundido sempre os escrito imorais com a liberdade da 
 
 
44 
 
imprensa, e é a escravização da imprensa que há produzido os escritos 
imorais e que lhe tem assegurado o seu reino.” 
 “A censura prévia, dizem os partidários desta doutrina, é o mais 
poderoso baluarte que se pode levantar contra os delitos da imprensa;” e, 
estribados no princípio de direito - melius est occurrere in tempore, 
quam post exilum vindicare,17 - supõe haver justificado sua opinião, 
assentando-a em um terreno inexpugnável. 
Enganam-se: 
“É melhor prevenir o crime, do depois de que puni-lo perpetrado” 
não há dúvida nenhuma. Porém como se entende prevenir o crime? Com 
a criação de censores que, sob o pretexto de utilizar a sociedade, não farão 
senão levá-la ao sorvedouro dos abismos?... Certamente que não; porém 
com a promulgação de leis sábias, prudentes e enérgicas que inflijam 
penas a tais e tais crimes provenientes de tais e tais abusos; isto, sim, é 
prevenir o crime, porque o cidadão que conhece a sabedoria do legislador 
e a retidão do tribunal que o tem de julgar, evitará cair nos abusos para 
que não venha a sofrer por causa deles: qui amat periculum, in ill 
peribit;18 é um princípio que reconhecemos, porque frequentemente se vê 
realizado. 
O meu distinto patrício o Sr. Moraes Sarmento,19 apostilando o § 4° 
do art. 179 do nosso Pacto fundamental, e referindo-se ao princípio de 
direito supracitado, se expressa de um modo mui conveniente e justo. Diz 
ele: “todas as leis preventivas trazem com sigo o cunho da injustiça, por 
isso mesmo que tendem a esbulhar20 o homem de um direito com o frívolo 
pretexto de que ele poderá abusar. Se atendermos que a privação de um 
direito é uma pena e que esta pena para ser justa deve ser a consequência 
de um delito, facilmente conheceremos a sem razão de se privar a uma 
pessoa de um direito, sem que esta tenha primeiramente cometido um 
delito.” 
Os propagadores da censura prévia sustentam na ainda com este 
argumento: “Os males que resultam do abuso da liberdade da imprensa 
são superiores aos que procedem do abuso de qualquer outro direito. 
Assim o indivíduo que é infamado ou ferido em sua honra e reputação, 
sofre tantos agravos, tantas ofensas e injurias quantos são os exemplares 
do escrito que contra ele foi publicado; porque, embora a autoridade 
competente, por sentença, mande cassar o escrito, não é possível que 
todos os exemplares sejam destruídos: alguns escapam a ação da justiça, e 
ainda que sejam totalmente aniquilados, as ideias que correrãopor tantas 
partes, permanecem em todos que as receberão, e o indivíduo ofendido, 
senão a respeito de uns, a respeito de outros é reputado tal qual o seu 
detrator o descreveu.” 
Não desconhecemos o peso deste argumento: porém para 
contrabalançá-lo-á esta a opinião pública, que é o juiz mais reto que existe 
entre os homens; e é também a opinião pública que com sua razão 
esclarecida levantará a voz da justiça para defender o inocente - ignorante 
que não sabe medir suas rústicas armas com a perícia astuciosa do seu 
agressor. 
 
 
45 
 
 As vantagens que resultam da liberdade da imprensa são de um 
valor incalculável para o indivíduo que a cultiva, para os particulares, para 
o Estado e para a Religião. O indivíduo, cultivando a imprensa, se habilita 
para um dia servir devidamente a sua pátria. Em quanto vai encontrando 
esses tropeços que ordinariamente se nos atulham na arena espinhosa das 
letras, em quanto a experiência lhe vai fornecendo cabedais científicos, 
aproveita pouco a pouco os benefícios, que lhe proporciona a imprensa, e 
chega a final o poder de ocupar algum espaço no grande mapa que traça o 
nome e os feitos dos homens célebres. 
E nem se diga que o escrito novel, porque sustentou e propagou 
uma doutrina errônea, concorreu diretamente para o dano da sociedade. 
Não: primeiramente porque aí estão as capacidades, os talentos que 
escudados na lógica e nos são princípios da verdadeira filosofia, 
esclarecerão a questão, sabendo descriminar o verdadeiro do falso; e em 
segundo lugar porque da publicação mesmo das ideias errôneas resultam 
muitas vezes imensos bens a sociedade, que partilhando, em parte, dos 
mesmos preconceitos, acha nas discussões da imprensa o mais pronto 
corretivo ou emenda para eles. Mas, se o erro posterga os princípios 
recomendados pela morai ou abala os fundamentos da religião de Jesus 
Cristo, então não é debalde21 a doutrina que o nosso legislador 
Constituinte consagrou no final do § 4° do art. 179, “e seja o escritor, 
perante a lei, responsável pelo abuso que cometeu no exercício da 
liberdade da imprensa.” 
Os particulares, testemunhando de parte com a boa fé que deve 
caracterizá-los, as questões que se discutem pela imprensa, vão colhendo 
muitos frutos que a seu tempo tem de saborear. Não há homem que não 
tenha seu quinhão mais ou menos avultado de filosofia natural, de 
critério; e com essa filosofia natural, com esse critério os particulares 
distinguem o bom do mau, o ilícito do direito, o justo do injusto, etc. e ei-
los, já por si, já pela ética do escritor, instruindo-se em uma escola, de 
cujas lições não pode prescindir nem o filho da miséria, nem o favorito da 
fortuna, nem o ignorante nem o sábio. 
O Estado, este deve ser o primeiro a proteger a imprensa, porque a 
imprensa é que lhe sugere as necessidades das diferentes localidades e as 
medidas mais prontas para provê-las. A imprensa é que lhe denuncia os 
juízes venais e corruptores os ministros corruptos e dilapidadores, e as 
facções sediciosas que tentam minar os alicerces que amparam o edifício 
social, sofre o qual ele se acha assentado. 
As leis feitas imediatamente pelos homens nem sempre são as 
colunas mais fortes o edifício social! 
 O Estado proteja a imprensa, não lhe cessei os voos, porque todas 
as vezes que o festado se revoltar contra a liberdade da imprensa, se 
revoltará contra um direito sagrado, contra a espontânea voz da razão; e, 
pensando esmagar o povo, terá o colo por ele esmagado; porque, como 
muito bem diz Lamennais:22 - “quem mais padece, não são os oprimidos, 
mas os opressores.” 
 
 
46 
 
A Religião em sua essência, como filha de Deus, ou como o próprio 
Deus, não necessita dos favores do homem; porém como uma virtude, 
como um sentimento que nos foi revelado pela Divindade, e sem o qual 
não podemos passar, a Religião exige da imprensa aquele apoio que a 
ponha ao abrigo dos seus gratuitos impugnadores, os quais infelizmente 
tanto têm de poucos em número, quanto de perigosos em suas doutrinas. 
A Providência Divina é certo que dotou a todos os homens de uma 
consciência que lhes marca a diferença que há entre o bem e o mal; mas 
também não é menos certo que há indivíduos que pela infelicidade de sua 
condição, se deixam embair de preconceitos grosseiros e selváticos,23 que 
de algum modo enervam-lhes as fibras do coração e amortecem-lhes a voz 
da consciência. Esses não procuram Religião; porém a imprensa, 
operando neles uma espécie de reação, por meio das verdades religiosas, 
que divulga, torna-os conhecedores dos seus crimes, dos seus desvarios e 
erros: e ei-los, outra vez, cônscios dos seus deveres, no grêmio da 
sociedade, como verdadeiros cidadãos, e submissos a voz consoladora da 
Religião. 
Em conclusão, e a vista do pouco que temos dito, já se pode avaliar 
qual seja nossa humilde opinião acerca da liberdade da imprensa: 
queremos que esta tenha limites, do modo porque já nos explicamos, 
porém desconhecemos a necessidade da censura prévia, porque 
enxergamos nela um atentado contra o livre exercício de um direito 
natural que não deve encontrar obstáculos em sua marcha. 
 
J. CORIOLANO DE S. L 
 
Publicado no Jornal O Atheneu Pernambucano: Periódico Científico e 
Literário. “Avante e sempre!” Volume I. N.º 2. – Mês de Agosto. 1856. 
 
 
 
1 Neste artigo Coriolano fala da revolução que da imprensa, seu papel, a importância de 
Gutenberg da liberdade de impressa e suas implicações na vida prática. Também escrevia para 
jornais. 
2 Nascido na Alemanha no século XIV foi o responsável pela invenção da prensa maquina 
tipográfica capaz de reproduzir escritos impressos em grandes quantidades. Como não 
conseguiu grandes lucros com a invenção chegou a ser processado por seu investidor chamado 
João Fust. Considerado universalmente como o pai da imprensa, foi o responsável também pela 
primeira impressão da Bíblia, que ficou conhecida depois como a Bíblia de Gutenberg. Fonte: 
https://escola.britannica.com.br/artigo/Johannes-Gutenberg/481435 Acesso: 10/05/2020. (N. do 
Org.) 
3 Também chamados Hieróglifo: “é um extinto modelo de escrita pictográfica, utilizado 
principalmente pela antiga sociedade egípcia e por alguns grupos indígenas americanos, como 
os maias e os astecas.” https://www.significados.com.br/hieroglifo/ Acesso: 11.05.2020. (N. do 
Org.) 
4 Cético. A palavra é derivada do Pirronismo, doutrina criada pelo filósofo grego Pirro de Élida, 
criador do Ceticismo. 
 
 
47 
 
5 Desejo. 
6 Provavelmente uma colônia ou cidade alemã. 
7 Derivado da palavra em latim aevum, tem significado poético para eternidade. 
8 Sentido figurado para tornar tórrido, queimado. Sujeitar a fogo vivo. 
9 Abraço. 
10 Primogênitos, primeiros, primícias. 
11 Irrefutável. 
12 Mar, oceano. 
13 Provavelmente refere-se ao jornalista e político francês Armand Marrast (1801-52). Foi um 
líder revolucionário atuando na famosa Campanha dos Banquetes e sendo um importante nome 
na redação da Constituição de 1848. (N. do Org.) 
14 Conde Charles-Louis de Ficquelmont (1777-1857), diplomata, ministro e militar lutou contra o 
exército napoleônico e foi autor de vários livros que versavam sobre questões políticas. (N. do 
Org.) 
15 Referência ao termo: “Hoc opus, hic labor est.” Que significa: “Aí é que está a dificuldade.” 
“Princípio de um verso de Virgílio, em que a sibila de Cumas explica a Eneias a dificuldade que há em 
voltar dos Infernos; a frase tornou-se proverbial e cita-se para indicar o ponto difícil de qualquer questão.” 
Disponível em: "hoc opus, hic labor est", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em 
linha], 2008-2020, https://dicionario.priberam.org/hoc%20opus,%20hic%20labor%20est 
[consultado em 09-05-2020]. (N. do Org.) 
16 De nome completo Benjamin Constant Botelho de Magalhães (1836 - 91) foi um proeminente 
personagem histórico brasileiro. Militar, matemático, positivista e republicano, na Guerra do 
Paraguai planejou rotas para o avanço do exército deCaxias. Um dos fundadores da Sociedade 
Brasileira Positivista foi também diretor do Imperial Instituto dos Meninos Cegos criado por D. 
Pedro II. Hoje a instituição leva seu nome. Cf. MENDES, Raimundo Teixeira. Esboço de uma 
apreciação sintética da vida e da obra do fundador da República Brasileira. Rio de Janeiro: Apostolado 
Positivista do Brasil, vol. 1, 1892. (N. do Org.) 
17 Tradução aproximada: “Melhor prevenir enquanto é tempo, do que ter de remediar posteriormente.” 
Texto presente no Código de Justiniano. 
18 “Quem ama o perigo nele perecerá.” Versículo de Eclesiástico 3,27. 
19 Casimiro José de Morais Sarmento (1813-60) político nascido na primeira capital piauiense 
Oeiras, atuou em vários estados nordestinos. Formado na Escola de Direito de Recife, no Rio 
Grande do Norte era contra o sepultamento de pessoas dentro das igrejas. Na província do 
Ceará foi responsável pela implantação do primeiro serviço de iluminação pública de Fortaleza, 
com óleo de peixe. No fim da vida ainda exerceu as atividades de jornalista, advogado e 
professor. (N. do Org.) 
20 Desapossar. 
21 Em vão. 
 
 
48 
 
22 Félicité Lamennais (1782 - 1854), “(..) padre francês e escritor filosófico e político que tentou 
combinar liberalismo político com Catolicismo romano após a Revolução Francesa . Escritor 
brilhante, ele era uma figura influente, mas controversa, na história da igreja na França.” 
Disponível em: https://www.britannica.com/biography/Felicite-Lamennais Acesso: 15.05.2020. 
(N. do Org.) 
23 Selvagem. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
49 
 
UM PASSEIO ÀS DEZ HORAS NAS RUAS DO 
RECIFE1 
 
I 
 
Os homens, não obstante terem nascido com as mesmas faculdades, 
e serem igual em quanto se acham envolvidos nas fachas do berço, 
todavia, pelo desenvolvimento de sua razão assumem caracteres distintos 
daqueles que se manifestam em outros homens, e certas tendências que 
os impelem a rejeitar gozos e prazeres que outros procuram, e a procurar 
gozos e prazeres que outros rejeitam. 
Esta espécie de excentricidade que se verifica na natureza dos seres 
animados, está de perfeito acordo com a harmonia do universo 
puramente material; harmonia que resulta, não de uma simetria sempre 
constante, ou de um pé de igualdade, em que se acham sempre dispostos 
os demais seres que o povoam; porém da mesma diferença, isto é, do 
contraste entre as coisas, - do pequeno e do grande, do arbusto e da 
árvore, do vale e da colina, do regato2 e do oceano, etc. 
Ora, uma vez provado que as tendências humanas divergem, assim 
como são diferentes e contrastantes os diversos seres que formam a 
harmonia do mundo material, não é de admirar que, em quanto uns 
passeiam no belo Recife, sob o império do belo luar, arrebatados pelo 
poderoso influxo de um dos seus lânguidos3 raios, e sobem as regiões 
desconhecidas, e sonham acordados as mais deliciosas fantasias, que lhes 
acalentam a imaginação arrojada, haja alguém que prefira a tudo isto dar 
um passeio pelas ruas da cidade, quando as trevas apenas são mal 
dissipadas pela frouxa luz dos lampiões; quando os horizontes 
enegrecidos de pejadas4 nuvens, fuzilando a esmo, ameaçam no trovão 
longínquo os que não têm guarida, aumentando os sofrimentos do 
mendigo, que vê na próxima borrasca5 novos incentivos a seus males. 
Não são preliminares de um romance o que acabamos de dizer: - 
são apenas os fracos alicerces sobre que quisermos fundamentar a nossa 
asserção quanto à diferença dos gozos e dos prazeres neste mundo, para 
depois continuarmos o nosso humilde escrito, que não nasce de uma 
simples conjectura, ou não se firma sobre uma mera hipótese; porém 
nasce de uma verdade testemunhada, ou se firma sobre um fato todo real. 
 
II 
 
Em uma dessas noites tempestuosas e sombrias que fazem muitas 
vezes apertar o coração mais intrépido e varonil; em uma dessas noites, 
em que os elementos como que reciprocamente se ameaçam, pela 
escuridão medonha, pelo fuzilar dos relâmpagos nos diferentes pontos do 
céu, pelo estalar do trovão, que assemelha ao longe um parece dividir a 
terra do livramento, um mancebo, levado por ideias, que somente. Deus 
pode conhecer, e que ele talvez mesmo ignorasse, rebuçado6 em um 
 
 
50 
 
capote, e fumando um charuto percorria as ruas do Recife, quebrando, 
sem rumo certo, muitos becos. 
 Ao passar por junto de uma igreja, ouviu um gemido dolorosíssimo 
que, incutindo-lhe no coração um terror misturado de compaixão, eriçou-
lhe os cabelos, e por breves instantes tornou-o mudo como o espectro, e 
imóvel como a estátua. 
 O passeador notívago, com quanto não fosse homem 
experimentado nas grandes crises, com tudo, coordenou suas ideias, 
serenou-se quanto pode, e marchou mais curiosidade o demoveu, dando-
lhe novas for tranquilo do que permitia aquela singular conjuntura, para o 
lugar, donde os gemidos saiam com mais frequência. 
 Horrível espetáculo, indigno de aparecer em um país católico, como 
o nosso, em uma cidade comerciante, rica, ativa e policiada, como é o 
Recife!... 
 Sobre o átrio da igreja, perto da porta principal, jazia estirada e 
quase nua, tendo apenas alguns pedaços imundos de trapos, miséria que 
lhe ocultavam alguma parte do corpo, uma miserável mendiga, cuja idade 
parecia ser de 40 a 50 anos. 
 Já então começavam a cair alguns grossos pingos d’água de uma 
nuvem negrejante e ameaçadora que estava iminente à cidade. 
O mancebo, em extremo comovido, sendo já perto de meia noite, e 
não podendo em nada ser útil a pobre velha moribunda, perguntou-lhe o 
que sofria. 
A desgraçada nada atendia, e redobrava seus gemidos, estorcendo-
se7 pelas lajes do adro até o vestíbulo do templo, no meio das mais 
tormentosas angústias. 
Não precisava ser um bom físico para conhecer que os dias da 
infeliz estavam contados, e que o relógio de sua vida ia brevemente dar a 
última pancada, pondo assim um termo aos seus padecimentos. 
Houve, entretanto, uma momentânea reação nas faculdades da 
desgraçada; por que estas palavras lhe saíram do íntimo do peito com um 
acento tal que excitaria a compaixão no coração ainda mais 
empedernido8: “Mataram-me o marido, recrutaram-me o filho, 
roubaram-me a minha querida filha; não é muito que eu morra de fome e 
de frio sobre as pedras desta igreja, sem achar entre tantos sobrados e 
palácios, atulhados de homens e de mulheres, e cheios de imensas 
riquezas, uma alma caridosa que me faça repetir o nome de Jesus e meta-
me uma vela na mão!...” 
 A estas últimas palavras fuzilava um relâmpago e estourava um 
trovão; e a moribunda prosseguiu: “Obrigada, meu Deus! - não preciso 
mais da luz de uma vela, vós mandastes-me a luz de uma vela, vós 
mandaste-me a luz de um relâmpago, e o trovão que ouço, me ensina a 
repetir o vosso santos nome.” 
Foram estas as últimas palavras da moribunda, que expirou entre 
os mais agonizantes martírios. 
III 
 
 
 
51 
 
Depois desta cena, o mancebo, lutando com uma imensidade de 
ideias que quase espontaneamente lhe acudiam a mente, ainda desta vez 
ficou petrificado; mas a curiosidade o demoveu, dando-lhe novas forças; 
e, chegando-se bem para perto do cadáver, e ativando com algumas 
fumaçadas o lume do seu charuto, reconheceu naquele miserável 
invólucro todos os sinais de uma mulher que fora interessante nos seus 
melhores dias, e cuja cor e cabelos, não obstante o verniz dos anos, ou 
antes dos sofrimentos e da morte, indicam ser ela, talvez, mais do que 
uma mulher nascida na miséria ou no leito da prostituição. 
E nem alguém se admire de um semelhante resultado, obtido de um 
exame instantâneo, apenas ajudado pela luz de um charuto. O coração do 
homem é às vezes presságio e adivinho, e a luz, para ser diferençada das 
trevas, basta fosforizar9 em um pirilampo. 
Este fato que acabamos de descrever, e que não chega ao 
conhecimento do público revestido de todas as suas cores horrorosas, 
porque ele pertence ao gênero daquelesque somente os olhos e o coração 
poderiam pintá-los, se tivessem o dom da palavra, dá motivo a mui 
judiciosas observações e talvez que até mesmo a censuras bem merecidas. 
 O estrangeiro que passar por nossas pontes, pelos adros das nossas 
igrejas e pelos vestíbulos dos nossos estabelecimentos públicos, e vir essa 
multidão de mendigos, de leprosos, de cegos e aleijados entoando a 
música das lamúrias expostos aos rigores mais intensos do sol e da chuva, 
sem o pão quotidiano, porque esse depende da caridade dos que 
transitam, falhando muitas vezes ou quase sempre, por isso que nem 
todos possuem essa tão sublime virtude, e porque outros querendo 
exercê-la, não o podem por falta de meios, o que dirá, falíamos 
geralmente, do nosso governo, da nossa cidade, do nosso progresso, da 
nossa filantropia? 
No Brasil, onde os meios do progresso superabundam pela 
fertilidade do solo, pela riqueza das minas, pelo vigor juvenil que lhe 
circula em cada uma de suas veias; no Brasil, onde os dinheiros chegam 
para tudo, e com muita sobra, é de admirar que se vejam cenas como 
essas que se presenciam nas pontes, nos adros das igrejas, e finalmente 
por toda parte do Recife; enquanto que este, molemente deitado em seu 
leito de relvas, formado pelas frescas margens do Capibaribe, dorme o 
sono da indolência, e, quando muito, olha para todas essas misérias como 
a fortuna para a desgraça, ou como o potentado do torreão que; se 
casualmente fita os olhos para o triste albergue do pobre, afasta logo a 
vista com asco e com desprezo. 
IV 
 
Talvez que alguém, ao ler essas breves reflexões que fizemos em 
geral, sobre a incúria10 que descobrimos relativamente ao grande número 
de infelizes que sucumbem todos os dias sob os horrores mais feios da 
miséria e da fome, se lembre de dizer-nos - que no Recife há 
estabelecimentos de caridade, e que qualquer medida, que viesse sanar os 
males que enxergamos, traria o inconveniente de fazer avultar o número 
 
 
52 
 
dos mendigos, e de gastarem-se os dinheiros dos cofres, muitas vezes, 
com esses vadios que, mais próprios da punição policial, do que da 
caridade dos fiéis, entregam-se á modorra11 da preguiça, sem irem 
procurar nas nossas matas fertilíssimas o fruto que os devia alimentar, e 
nas substanciosas raízes das nossas fecundas serras e abundantes campos 
o pão que lhes devia matar a fome. 
 Os estabelecimentos de caridade existentes no Recife ou não são 
suficientes abranger e socorrer para o grande número de infelizes que 
morrem todos os dias à míngua sobre as pontes e pelas ruas, ou não se 
acham montados, por circunstâncias que estão fora do nosso alcance, 
como fora para desejar. 
Quanto, porém ao perigo de prestar-se muitas vezes asilo aos vadios 
em lugar dos necessitados, a polícia não é tão falta de inteligência e 
perspicácia que não saiba discriminar a verdadeira miséria da hipocrisia, 
a vadiação da impossibilidade quase absoluta de agenciar o pão 
quotidiano. 
 Talvez que até mesmo, se tivéssemos bastante conhecimento do que 
se passa nos países mais civilizados do mundo, quanto ao ponto que nos 
ocupa, pudéssemos confessar que o mesmo que por aqui estranhamos, se 
dá nesses lugares. Mas isto ainda não fora bastante para pensarmos 
diversamente, tanto mais quanto descobrimos em o nosso país dados 
suficientes para minorar a sorte desses infelizes que levam uma vida mais 
tormentosa e grotesca do que os próprios animais dos campos. 
Não temos por fim, com estas observações, estigmatizar o nosso 
governo, nem tão pouco desconhecer o desvelo paternal e solícito com que 
ele cura de todas as nossas necessidades; porém, tendo somente em mira 
revelar aos nossos leitores o resultado de um passeio à meia noite, e 
quando o tempo se mostrava tão carrancudo e inóspito, fomos 
naturalmente levados ao campo das reflexões, que na mente do filósofo ou 
do homem bem intencionado e filantrópico são sugeridas por fatos da 
ordem disse que deixamos estampado. 
Paramos aqui, e pedimos aos amadores dos passeios noturnos, em 
tempo desfavorável, que, senão de um modo absoluto, ao menos algumas 
vezes deem preferência aos passeios ao luar, porque aparecendo ali cenas 
como a que descrevemos, haverá sempre um misto de horror e de poesia, 
e não esse horror prosaico que se apoderou do passeador às dez horas. 
 
J. CORIOLANO DE S. L. 
 
Publicado no Jornal O Atheneu Pernambucano: Periódico Científico e Literário. 
“Avante e sempre!” Volume II. N.° 2. – Mês de Junho. 1857. 
 
1 Neste escrito Coriolano fala de certo jovem que andando por uma noite chuvosa se depara 
com uma senhora moribunda e abandonada à porta de uma igreja em Recife cidade que ele 
conhecia bem, pois lá fez sua faculdade. Posteriormente ele trata de várias questões deixando 
sua crítica social de como um país abastado de riquezas naturais pode deixar à míngua alguns 
 
 
53 
 
de seus cidadãos, sem se eximir de escarnecer a hipocrisia social, religiosa, falta de compaixão 
para com o próximo. (N. do Org.) 
2 Córrego. 
3 Fracos. 
4 Carregadas. 
5 Tempestade de pouca duração. 
6 Encoberto. 
7 Torcendo-se com força. 
8 Insensível. 
9 Acender. 
10 Negligência. 
11 Doença. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
54 
 
A Marília Dirceu1 
 
A questão, de que nos vamos ocupar, não é literária ou científica; 
porém nem por isso deixa de ser importante. Ao menos assim pensamos, 
e conosco pensará quem refletir sobre ela com verdadeiro critério. 
É simplesmente uma luva levantada pelo mais fraco campeão, 
porque alguém, atirando lhe a face, articulou palavras afrontosas contra 
sua dama; - é simplesmente um brasileiro que, vai defender uma 
brasileira, contra quem se faltou com uma linguagem mais chistosa2 do 
que séria e crítica, e uma brasileira que se não pode desprender dos anais 
da nossa história pela sua formosura, pela sua celebridade, pelos seus 
amores, em uma palavra, que a fizeram conhecida, respeitada e estimada 
em toda parte, por onde repercutíramos sentidos e melodiosos sons da 
apaixonada Marília de Dirceu. 
Lendo as “Memórias de Literatura Contemporânea” do Sr. Lopes de 
Mendonça,3 deparamos a pág. 372 até a pág. 377 com uma nota que tem 
por título - Morte de Marília de Dirceu -, onde o ilustre escritor profere 
palavras bem amargas contra o sexo feminil, criticando do modo mais 
áspero e desabrido essa inocente virgem brasileira, a quem, evocando do 
santuário do túmulo, apresenta com sua pena profana um terreno 
desvantajoso e ridículo, e aquém mimoseia4 com a singular apoteose, 
segundo se deduz de suas expressões, de modelo, protótipo, ou como 
quiserem chamar, das mulheres ingratas, infiéis, que não sabem 
corresponder aos extremos do poeta, que adora-as, que dá-lhes uma vida 
perdurável, tão longa como a duração dos tempos, na celebridade dos 
seus versos, e que, por último, se finda por amor delas. 
Convém que analisemos a crítica, o reparo, o chiste ou o que quer 
que seja do Sr. L. de Mendonça com relação a célebre Marília de Dirceu; - 
célebre por ter sido o alvo, a que convergiu à vocação amorosa mais pura; 
- por ter sido o ímã fascinador que atraiu os cuidados, os desvelos, toda 
dedicação do melodioso poeta, para cuja celebridade literária também 
concorreu do modo mais poderoso, como objeto de suas únicas 
inspirações. Analisemos, sim, essa crítica, reparo ou chiste, que ofende 
tão de perto a respeitável e saudosa memória da bela Mineira, e que, por 
sem dúvida, revela em seu autor, a quem, aliás, tanto respeitamos pelos 
seus conhecimentos científicos, um momento de infeliz humor. 
Começa o Sr. L. de Mendonça:- 
 “Morreu a Marília de Dirceu, cujo nome profano era Maria 
Joaquina Dorotéia Seixas Brandão,5 com 84 anos de idade!” 
 “Pois que, disse eu lendo a notícia num jornal, esta mulher fora 
amada por um melodioso poeta, esse poeta dera-lhe um nome popular, 
glória, celebridade, admiração, e ela deixa-se viver até a patriarcal idade 
de 84 anos? Nem a dor,nem as mágoas, nem a recordação de tudo quanto 
seu amante sofrera, nem a sua morte, nem a sua loucura lhe diminuíram 
alguns dias de vida!...” 
 
 
55 
 
“Quem é que concebe a Beatriz6 do Dante,7 velha, rabugenta, cornos 
olhos amortecidos, com a voz fanhosa, encostada a um bordão, curvada, 
trêmula, caquética?...” 
Qualquer pessoa que não se sentir dominada dos sentimentos do 
Sr. L. de Mendonça, sentimentos gratuitos, sem nenhum peso de critério, 
sem nenhum vislumbre de seriedade, há de “necessariamente” dizer 
conosco que nada tem de admirável, nada tem de miraculoso essa 
existência de 84 anos, que viveu Marília de Dirceu. 
Não achará prodigioso e nem excedente do possível que uma 
mulher extremosamente amada, e que soube sempre corresponder a esse 
amor, pudesse viver tanto tempo, a menos que não quisesse cair na 
fraqueza imperdoável de cometer um suicídio, como parece deduzir se das 
palavras do Sr. L. de Mendonça - ela deixa-se viver até a patriarcal idade 
de 84 anos. - 
Que cópia daria de si a amante de Tomás Antônio Gonzaga, a bela e 
encantadora Marília, de um coração tão cândido, tão angélico, se deixasse 
vencer e arrastar pela mais fatal alucinação, consentindo 
“voluntariamente” em sua própria destruição? Por ventura ficaria sempre 
ligado a sua memória o atributo de “heroína” que o poeta lhe granjeou em 
suas dulçorosas8 canções? 
Ninguém responderá que sim. 
 E não fora melhor, como efetivamente aconteceu, que, triste, 
inconsolável, isolada em um retiro, consagrasse sua vida patriarcal a 
lembrança de seu querido noivo, banhando com a torrente de suas 
lágrimas, símbolo da mais acrisolada9 saudade, aquelas páginas douradas, 
onde se dilatava a alma do poeta aos eflúvios10 da mais santa paixão, e que 
ela relia, cada vez com mais explosão de ternura e de amor, cada vez com 
mais interesse, - com esse interesse que tem os amantes infelizes?... 
 Ninguém responderá que - não. 
Acha o ilustre crítico impossível de conceber-se a Beatriz do Dante - 
velha, rabugenta, com os olhos amortecidos, etc.? - Pois crê impossível de 
conceber-se uma coisa bem trivial na série dos humanos! Nada mais 
possível! - nada mais consentâneo11 com as leis da natureza que nos 
regem! 
E perguntaremos: - O fato de amar e ser amado é condição sine qua 
non,12 é motivo suficiente para que um amante não possa sobreviver a 
outro, e até por longos anos? - O sentimento proveniente do amor, a 
paixão mesma, é de um caráter tão destrutor que infalível e 
irresistivelmente leve à sepultura - logo - o amante que sobreviveu a 
outro? 
E ainda que a lembrança do objeto amado, do penhor idolatrado, 
essa lembrança pungente e dolorosa, influa poderosamente para o 
enfraquecimento, ou mesmo para a extinção da vida, é regra geral que 
todas as naturezas tenham uma mesma têmpera,13 uma mesma 
constituição orgânica frágil, quebradiça aos revezes da sorte, a ponto de 
não poderem reagir contra esse sentimento, contra essa lembrança 
pungente e dolorosa? 
 
 
56 
 
Cremos que a admissão de uma tal teoria é inexequível e absurda, 
essa teoria fora irrealizável, - peca por exagerada; é, em fim, mais 
caprichosa e gratuita, do que real. 
Continua o Sr. L. de Mendonça em suas imprecações14 contra a 
pobre Marília: - “Que é feito então dessa Marília encantada, cujo rosto se 
avermelhava pudicamente aos protestos apaixonados do seu amante, 
cujas mãos delicadas iam colher rosas e jasmins para lhe coroar afronte, 
cuja voz doce e suave acordava os echos15 da campina, e fazia estremecer 
de júbilo os pássaros, que pousavam nos ramos da floresta?” 
“Que é feito dela, pois não sabe? 
 - Seus cabelos encaneceram,16 suas faces crestaram17 ao sopro das 
estações, seus olhos perderam o brilho da mocidade, sua voz declinou do 
tom argentino e melodioso que somente se faz ouvir na florescência dos 
anos - ela morreu! 
E porque tudo isto? - Porque sobre ela caiu o lapso dos tempos, 
porque a humanidade não se pôde furtar aos estragos inevitáveis dos seus 
poderosos e necessários influxos, porque, como muito bem dizia o seu 
mavioso18 cantor é amante: - 
 
“Minha bela Marília, tudo passa: 
A sorte d'este mundo é mal segura: 
 Se vem depois dos males a ventura, 
Vem depois dos prazeres a desgraça.” 
 
“Ontem jovem e cândida, hoje velha e triste! Que é feito dessa face 
tão fina e transparente?” 
Por mais de uma vez temos observado que o Sr. L. de Mendonça é 
sobremodo excepcional considerando os amantes; a ponto de, por uma 
lógica irresistível, chegarmos à conclusão de que o nobre crítico só 
encontra amor e poesia em - uns cabelos luzidos,19 em uns olhos 
brilhantes, em uma tez rosada e fresca, em uma fala dulçorosa, em tudo 
somente, que é realçado pela juventude. 
Doutro lado, ficamos como que suspensos... não obstante a força de 
semelhante dedução; porque por mais de uma vez temos voado ao mais 
puro e belo idealismo nas palavras poéticas e arrebatadoras do Sr. L. de 
Mendonça. 
Por mais de uma vez a fluência magnética de sua bem torneada 
fraseologia nos tem embevecido e acalentado a mente. E se é isto também 
pura verdade, como é que o ilustre crítico quer fazer consistir a poesia 
somente em uns cabelos que doudejam20 ao sopro dos ventos, em um 
rosto que se avermelha pudicamente aos protestos apaixonados do 
amante, em um todo unicamente, em que transparece o verniz da 
mocidade? 
- É que o Sr. L. de Mendonça não falou de harmonia com os seus 
legítimos pensamentos; - é que o autor das “Memórias de Literatura 
Contemporânea” quis por alguns momentos divertir-se com a memória da 
 
 
57 
 
bela Mineira, a quem devera votar todo aquele acatamento e respeito, de 
que são credores os que dormem na paz dos túmulos. 
Sabemos que o Sr. L. de Mendonça conhece toda a extensão e limite 
da verdadeira poesia; que não ignora que a verdadeira poesia, a sublime 
poesia, que nos arrebata nas asas da inspiração, que nos faz sonhar como 
os anjos, não é tão material a ponto de somente manifestar-se no que é 
puramente exterior. 
A poesia não está somente na beleza que a mocidade doura, - ela 
despreza muitas vezes as simples aparências; esses europeus que 
fascinam os olhos da matéria, e vai estabelecer seu trono no mais 
recôndito dos corações sensíveis, e abrir suas graciosas flores nos voos 
espaçosos de uma imaginação pura. Aí ela se acrisola pelos sentimentos 
mais puros, pelo amor ingênuo e singelo, - sem preterições grosseiras 
materiais: esta é que é a verdadeira poesia. Que lhe importam as cãs,21 as 
rugas do rosto, os olhos embaciados,22 a falia trêmula, o passo moroso, se 
o coração permanece cândido, e o amor sempre extremoso? 
Quem poderá acreditar que Tomás Antônio Gonzaga,23 se a fortuna 
lhe houvesse sorrido, assim como golpeou-o, vendo coroados todos os 
seus desejos, rodeado da inocente e mimosa prole, frutos delicados dos 
seus castos amores, voltaria ao estado grotesco de insensibilidade e de 
anti-poesia somente porque chegara a uma patriarcalidade, ou porque na 
querida metade notara a mudança física que o tempo produz? 
Pois uma alma tão grandiosa, como a sua, um coração tão 
apaixonado, como o seu, arrefeceriam no amor somente porque nele ou 
nela o tempo operara seis inevitáveis efeitos? É incrível. 
 As almas puras, como a sua, os corações amantes, como o seu, que 
prazeres não sentiriam ao verem realizados os elevados voos de sua 
imaginação poética nos seguintes versos: 
 
“Irás a divertir-te na floresta, 
Sustentada, Marília, no meu braço 
Ali descansarei; aquente sesta, 
Dormindo um leve sono em teu regaço.” 
............................................................... 
 
“Depois que nos ferir a mão da morte, 
Ou seja neste monte, ou n'outra serra, 
Nossos corpos terão, terão a sorte 
De consumir os dois a mesma terra.” 
 
“Na campa rodeada de ciprestes 
Lerão estas palavras os pastores: 
Quem quiser ser feliz nos seus amores, 
Siga os exemplos que nos deram estes.” 
 
 
 
58 
 
E quando, depois de descrever a mudança que delefizera a fortuna, 
se manifesta aos olhos da posteridade tão cristãmente resignado, quem 
não vê aí a poesia, filha do céu? 
 
“Se não tivermos lãs e peles finas, 
Podem mui bem cobrir as carnes nossas 
Às peles dos cordeiros mal curtidas, 
E os panos feitos com as lãs mais grossas. 
............................................................... 
Contentes vivermos d'esta sorte, 
Até que chegue a um dos dois a morte.” 
 
Mas, se a poesia é inseparável da mocidade, como o bom Dirceu 
viveria sempre contente com sua cara Marília? Segundo o Sr. L. de 
Mendonça, esse contentamento desapareceria com a velhice, se é que fala 
sério. 
“Esse homem, esse poeta, essa alma terna, esse coração 
apaixonado... viveu 15 anos em Moçambique, longe dela, longe da noiva, a 
que votara lodosos suspiros da sua lira, todas as lágrimas, todas as 
amarguras do seu infortúnio, e ela continuou a viver descuidosa, 
indiferente! e não se lembrou de o ir consolar, de ir viver, de ir morrer 
com ele! Ó mulheres! mulheres!” 
Aqui de duas uma: ou o Sr. L. de Mendonça deixou a pena correr 
para ostentar a deliciosa fluidez de sua imaginação, ou ignora 
solenemente os nossos hábitos. No 1º caso, mal dizemos a deliciosa 
fluidez de sua imaginação que fulminou tantas imprecações contra a 
inocente Marília; no 2º criminamo-lo por haver antecipado seu juízo 
sobre um fato, de que não tem conhecimento, e que não devia decidir 
peremptoriamente. 
Entre nós as nossas donzelas, seja qual for a sua idade, se 
consideram sempre sob o pátrio poder, e por esse fato inibidas de 
empreenderem uma viagem para lugar distante do seu natalício, no 
próprio país, quanto mais para um país estrangeiro. Pode ser isto um 
prejuízo, pode; porém ninguém contestará que a amante de Dirceu, por 
mais pura e extremosa que fosse sua dedicação ao seu amado, não podia 
ir consolá-lo, ir vê-lo, ir morrer com ele. 
 “Finalmente, em 1809, o poeta expira longo do Brasil, e descansa 
numa terra estranha. Quereis saber? a Marília tem então ocasião de viver 
muito, de viver o mais que lhe é possível; só 44 anos depois da data fatal, 
é que se lembra de que este mundo consente com dificuldade que se 
reproduzam os milagres da Bíblia. E se Deus lhe concedesse o mesmo 
privilégio de Sara, se houvesse unir Abraão condescendente que quisesse 
um Isaque legítimo, teríamos uma nova Marília talvez, para que a raça 
das Marílias senão perdesse.” 
Analisando este trecho do insigne24 crítico, chegamos a uma 
consequência disparatada, e é que a morte dos amantes torna elástica a 
 
 
59 
 
existência das amadas; - porque a Marília teve ocasião de viver, de viver 
muito, de viver o mais que lhe foi possível - com a morte de Dirceu! 
Porém não, isto são graças do Sr. L. de Mendonça. Ou queria que 
ela desse fim a sua vida pelo suicídio? Pois acha semelhante ação erótica e 
poética? Não o julgamos tão inglês como isso. - São graças de crítico. 
Mas, como acha que se Deus lhe concedesse o mesmo privilégio de 
Sara,25 se houvesse um Abraão26 condescendente que quisesse um Isaac27 
legítimo, teríamos uma nova Marília talvez, para que a raça das Marílias 
se não perdesse, digne-se o ilustre crítico atender-nos, se é que a nossa 
fraca voz se pôde fazer ouvir por um dos mais conspícuos ornamentos da 
ciência moderna de Portugal. 
D. Maria Joaquina Dorotéia Seixas Brandão não merecia ser 
tratada, como de feito o foi, pelo autor das “Memórias de um Doido” e 
“Recordações da Itália”: l.° porque, pertencendo a uma rica e prestimosa 
família da província de Minas Gerais, tem uma grande parentela que não 
pode ler com bons olhos a nota do Sr. L. de Mendonça; 2° porque Deus já 
foi servido, há muito pouco tempo, de chamá-la à mansão dos justos, 
onde a coroa de virgindade que lhe circula a fronte, reverdecerá28 
perfumosa, como soem reverdecer as coroas de todas que morrem 
virgens, 3° porque, além de aparentada, além de jazer no santuário dos 
mortos, ela é uma preciosidade real da nossa história, um diamante 
riquíssimo que brilha encantador, a despeito do seu trânsito para a 
morada dos anjos. 
Uma ingênua observação. 
 Se um brasileiro, se um indivíduo qualquer ousasse ridicularizar a 
memória da Natércia29 portuguesa, da amante do inimitável Camões,30 
qual não seria o despeito do Sr. L. de Mendonça? Quantas páginas não 
aumentaria o ilustre escritor as que já tem, defendendo essa beldade? O 
miserável que se atrevesse a tanto, seria anatematizado31 por suas 
expressões. Pois bem: a Natércia de Camões não pode ser equiparada a 
Marília de Dirceu. Não nos anatematize, porque vamos provar a asserção. 
 Quem é Natércia de Camões? 
 - Segundo um dos maiores vultos poéticos de Portugal, segundo um 
dos seus melhores críticos, o Sr. Costa e Silva, a Natércia de Camões é 
uma beldade fantasiada, que nunca existiu, senão como uma idealidade 
que o poeta criou para dourar os sonhos de sua imaginação e inspirá-lo. 
E quem é a Marília de Dirceu? 
 - É uma virgem dos nossos dias, - de ontem - que vimos, que 
conhecemos: - foi a amante de T. A. Gonzaga, que por ela se inspirou que 
por ela sofreu, que por ela imortalizou o seu nome de envolta com o dela; 
- a mesma que, tendo votado toda a sua vida ao mavioso cantor, pôde 
sobrevivê-lo, porém fora do bulício32 do mundo, em um retiro, onde 
chorava noite e dia a perda do único esposo que seu coração apetecia. 
Há, pois, paralelo razoável entre essas duas entidades? Quem o 
afirmará?! Duvida-se da existência da primeira, que talvez seja uma 
ficção, uma palavra somente. A segunda, porém é tão real como são as 
 
 
60 
 
flores das nossas campinas, os frutos das nossas florestas, os cantos das 
nossas aves, o amor e patriotismo dos nossos corações. 
Há, pois, muita diferença! 
 Ocupemo-nos ainda, e em última análise, com alguns trechos da 
nota do Sr. L. de Mendonça. 
 Ele diz: “E esta mulher teve coragem para viver 84 anos! Viveu com 
aqueles sentidos adeuses... Não ouviu no silêncio da noite, quando o vento 
triste do inverno açoita as ramadas do arvoredo, a voz dolorosa do pobre 
louco, repetindo-lhe: Marília! Marília!” 
“Fiava, talvez tomasse tabaco, enfeitava-se pela manhã, fazia o rol, 
ia a cozinha, havia de ter um gato, etc., etc.” 
 “Esta mulher é um tipo que retrata a mulher neste século...” 
 “Não compreenderia esta mulher que nós não viemos unicamente 
ao mundo para viver, mas para cumprir uma missão digna de nós, digna 
da humanidade?” 
“Viveu, preferiu viver!” 
De boa vontade nos impomos a suave obrigação de responder a 
todos esses trechos da nota do Sr. L. de Mendonça. 
Quando a Marília de Dirceu ouvia no seu retiro o sussurrar das 
folhas, o seu ondeamento motivado pelas auras, ela certamente ouvia, por 
uma associação de ideias que lhe era sobre modo cara, embora 
mensageira de um sentimento mais ou menos doloroso, o seu mavioso 
cantor faltando à linguagem do poeta, ouvia-o repetindo o seu nome, 
chamando-a com a expressão da ternura: - Marília! Marília! 
E, provavelmente, não se ocupando na roça e nem de tomar tabaco, 
ela chorava esse pranto que sabem chorar as meigas e sensíveis filhas da 
Santa Cruz. Pode ser também que se enfeitasse alguma vez por uma 
necessidade, por um capricho que é muito das virgens que amam e estão 
ausentes, e mesmo que são infelizes. Não podia ela por um momento de 
vaidade, que se não poderá chamar criminoso, cobrir-se com suas sedas, 
ataviar-se33 com suas preciosidades, para dizer a si mesma: - Marília, o 
bom Dirceu não emprega em vão os seus cuidados; - és uma virgem muito 
bela, és uma mineira do Brasil! - 
E certamente D. Maria Dorotéia era muito bela! - era o mais fino, o 
mais transparente, o diamante de mais vulto, de mais preço e beleza que 
produziu aquela rica província, tão fértil em gênios e raridades! 
Dissemos, acima, que provavelmente não fiava; mas daqui não se 
queira concluir que seja para nós um desdouro34 o trabalho da roça. Em 
vez de ser uma nódoa infamante, um ofício ignóbil e desprezível, ao 
contrário,ele foi vida de muitas tribos que por ele puderam constituir-se 
em nação e é muito mais honroso uma virgem que pura se dê ao inocente 
trabalho da roça, do que preferir a ele a vida da inércia e da indolência, 
tão prejudicial ao corpo e ao espírito. 
A roça tem sido o sustentáculo das tribos sem civilização dela tem 
lançado mão - para tornar menos árdua sua vida errante, menos 
espinhosos os trâmites que conduziram-nas a obtenção dos meios 
 
 
61 
 
necessários para o conseguimento dos seus fins da roça se tem servido 
todos os povos até nós, como de um dos seus primeiros elementos de vida. 
É bem sabida por todos a legenda da roça, por Pitre Ckevalier.35 
 “Os primitivos romanos, diz este autor, faziam folia o símbolo da 
virtude doméstica. Todos os elogios estavam contidos neste retrato de 
Lucrécia:36 
 “Domi mansit, lanam fecit.”37 
 
Foi ainda em consequência de uma roca que a rainha Bertha,38 
esposa de Pepino,39 o curto, rei de França, pôde escapar as malévolas 
tramas de sua criada Alista, a qual subiu ao trono no lugar de sua ama; 
porém não tardou muito que a mentira fosse vulgarizada e permanecesse 
envolvida nos seus desprezíveis andrajos, enquanto que a verdade 
inocente e radiosa resplandeceu por toda a parte. E como triunfou a 
verdade de um modo tão esplêndido? - Todos sabem: - Alista não soube 
armar a roca que Branca Flor, mãe de Bertha, havia dado a esta no 
momento em que se separaram; Branca Flor sustentou que sua filha e a 
rainha seria aquela que conhecesse o segredo da roca, e foi Bertha quem 
soube esse segredo e quem armou a roca, que lhe restituiu o trono! 
Independente de fatos históricos que nos ocorreriam sem 
dificuldade ao bico da pena, a roca tudo prova em favor do trabalho, e 
nunca será manejada como uma arma ridícula, porque aquilo que é de sua 
natureza sério e proveitoso, não deve ter uma aplicação heterogênea, não 
deve servir de exprobração40 à civilização nascente de país algum. 
Passemos ao mais. 
 Vivendo na solidão, como nos informam: alimentando-se dos 
versos de seu amado e das saudades que lhe inspiravam, a Marília 
poderia, também achar consolo em ver-se rodeada de alguns animais 
domésticos, que às vezes nos são mais fiéis e úteis que os próprios 
homens! Porém não foi, por certo, esta a intenção do Sr. L. de Mendonça: 
- sua intenção foi eivada do ridículo, e como tal merece ser repelida com 
as armas que a civilidade depositou em nossas mãos. 
“Esta Marília é o tipo que retrata a mulher neste século.” 
Admitimos o princípio, porém há de permitir o ilustre crítico que 
dele tiremos a única e verdadeira ilusão. Sim, Ela é o tipo que retrata a 
mulher neste século, porque sendo ele o século do progresso, das 
maravilhas da invenção, fora uma aberração inqualificável da natureza, 
uma exceção inconcebível e toda paradoxal, se nele a mulher não 
houvesse tocado um ponto bastante culminante das perfeições feminis, na 
razão direta em que os homens o têm no que lhes diz respeito mais 
particularmente. É o tipo que retrata a mulher neste século, porque elas, 
compreendendo a sublime missão á que destinou-as seu supremo 
Criador, sabem ser boas filhas, ótima esposas, mais desveladíssimas, e, 
para cúmulo de seu elogio, - sabem sacrificar o que se chama bem desta 
vida pelas insônias, pelas vigílias junto ao leito dos desvalidos, onde 
velam como anjos baixados das regiões celestes!(*) 
 “Pois bem, serei eu que o diga ao futuro: esta Marília é uma velha 
 
 
62 
 
tem 84 anos tem os cabelos brancos e a cara idiota, já não tem dentes, 
nem lume nos olhos; faz meia á noite, e reza, e resmunga, e ralha, e 
atormenta-se a si e aos outros, Olhai-a bem! não é uma musa, é uma 
megera; não passeia nos jardins floridos, de Apolo,41 pertence antes aos 
sombrios domínios de Proserpina...” 42 
Como se abusa tanto da imprensa!... 
 É singular que o homem de gênio e os assisados tenham momentos 
túrgidos, assim como os tolos e os doidos tem seus intervalos lúcidos! 
Se quiséssemos, à maneira do autor das “Memórias de literatura 
contemporânea” abusar do dever de escritor sincero, teríamos o 
vastíssimo campo das represálias, e então as armas favoritas que foram 
empregadas contra a inocente mineira, seriam também manejadas, 
conforme pudéssemos, e a despeito da nossa inexperiência em lutas de 
semelhante ordem, contra o Sr. Lopes de Mendonça. 
Mas... fique o nobre crítico com o seu modo de escrever contra as 
virgens brasileiras, contra as donzelas pudibundas43 que jazem na paz do 
Senhor, contra as musas sagradas dos poetas, - contra a falecida D. Maria. 
Joaquina Dorothea Seixas Brandão, que nós “os brasileiros” temos um 
coração muito grande para perdoá-lo. 
Agora duas palavras, em conclusão, aos nossos leitores e 
comprovincianos de um modo muito particular. 
Não é preciso ser profeta para ler, às vezes, o que se passa no 
misterioso recinto do futuro. Tendo por guia a experiência, c por bússola 
que dirige a barca em mares de semelhante ordem, a história dos povos, 
capacitamo-nos de uma verdade, e é que “para o diante os amores de D. 
Maria Joaquina Dorothea Seixas Brandão, conhecida pelo nome poético 
de Marília de Dirceu, hão de ser ventilados e tratados com essa força, afã e 
ansiedade que em casos idênticos se tem observado em todas as épocas.” 
Então este nosso pequeno escrito para o qual muitos 
contemporâneos lançarão um olhar de indiferença, será tido em algum 
preço. 
Ao menos, fica-nos a glória de havermos - sido o primeiro que 
engendrou algumas frases, que importam - um solene protesto contra a 
maneira pouco cavalheirosa, e até indigna, por que foi tratada uma 
brasileira que, sobre ser distinta, é um objeto sagrado como o são todos 
aqueles que concorrem para fim tão nobre e elevado, qual e a celebridade 
de um poeta, a coroa imarcescível44 dos seus louros, dos seus trunfos, 
tecida pelo anjo que partilha dessa mesma celebridade, e sem o qual não 
existiria ela. 
 
(*) Alusão às irmãs de caridade. 
J. CORIOLANO DE S. L 
 
Publicado no Jornal O Atheneu Pernambucano: Periódico Científico e Literário. 
“Avante e sempre!” Volume I. N.° 3. – Mês de Setembro. 1856. 
 
1 Não bastasse ser filósofo, jornalista, político, cronista, jurista e, sobretudo poeta, Coriolano 
agora se arrisca no campo da crítica. Aqui ele se propõe a fazer uma “crítica da crítica” se é que 
 
 
63 
 
assim podemos dizer. É uma espécie de defesa de Maria Dorotéia Joaquina (1763-1853) a figura 
real que inspirou uma das obras mais importantes da literatura brasileira, escrita pelo 
português Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), mas com importante passagem pelo Brasil, 
participando inclusive da chamada Inconfidência Mineira. Essa característica literária marca os 
outros dois escritos em prosa do poeta a seguir. (N. do Org.) 
2 Descontraída. 
3 De nome completo Antônio Pedro Lopes de Mendonça (1827-65) “foi um romancista, 
jornalista, folhetinista e dramaturgo português, que também se destacou como ativista social, 
defendendo um socialismo utópico e romântico como forma de melhorar as condições de vida 
do proletariado. Escritor eclético e de causas, foi, sobretudo como crítico literário que ficou na 
história da literatura portuguesa. (...) No ano de 1859 publicou uma reedição, muito revista e 
aumentada, da coletânea de crítica literária que publicara uma década antes. Esta refundição, 
que intitulou Memórias da Literatura Contemporânea, coloca a obra de Lopes de Mendonça entre a 
melhor crítica literária lusófona.” Fonte: 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Pedro_Lopes_de_Mendon%C3%A7a (N. do 
Org.) 
4 Uso irônico da palavra “elogia”. 
5 Maria Dorotéia Joaquina de Seixas (1767-1853) brasileira nascida em Vila Rica/MG, era filha 
Baltazar do Capitão do Regimento de Cavalaria João Mayrink e da senhora Maria Doroteia 
Joaquina de Seixas. Ainda muito jovem teve um relacionamento com Tomás Antônio Gonzaga, 
a quem muitos creditam ser a inspiração para composição da obra MaríliaDirceu. Também 
envolvida na Inconfidência não pode casar porque Tomás havia acabado de ser preso. Fonte: 
http://www.descubraminas.com.br/Turismo/DestinoAtrativoPagina.aspx?cod_destino=2&cod_
atrativo=474&cod_pgi=1070 (N. do Org.) 
6 Beatriz Portinari (1266-90) supostamente filha de um banqueiro, Dante Alighieri teria 
conhecido a mesma ainda criança passando a nutrir um típico amor platônico por ela. 
Impactado por esse sentimento começou a escrever Vida Nova, até a morte de Beatriz que 
refletiu diametralmente no escrito. Beatriz também é uma das personagens de sua mais 
importante obra A Divina Comédia. Fonte: 
https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/historia-a-vida-infernal-de-dante-
alighieri.phtml (N. do Org.) 
7 “Dante Alighieri (1265-1321) foi escritor e poeta italiano. ‘A Divina Comédia’ tornou-se um 
monumento para a literatura e para o mundo. Foi escrita em três partes, Inferno, Purgatório e 
Paraíso, numa viagem além-túmulo, onde Dante é o personagem principal. (...) A vida em 
Florença era insegura, os nobres e o povo viviam em conflito. Em 1294, com a eleição do papa 
Bonifácio VIII, a situação se agravou. O desejo do papa era restaurar o domínio da igreja, na 
Toscana. O poeta Dante jamais se isolou das lutas que agitavam a cidade. Em 1302 Florença 
estava ameaçada de ser invadida por Carlos de Valois, aliado do papa. Dante segue para Roma 
numa comissão formada por três membros.” 
https://ecclesiae.com.br/index.php?route=product/author&author_id=104 (N. do Org.) 
8 Doces. 
9 Purificada. 
10 Exalações, perfumes. 
11 Apropriado. 
 
 
64 
 
12 Sem a qual não... 
13 Índole. 
14 Críticas negativas. 
15 Nome grego para ecos. 
16 Envelheceram. 
17 Queimar suavemente. 
18 Harmonioso. 
19 Brilhante, vistoso. 
20 Disparatam. 
21 Cabelos grisalhos. 
22 Embaçados, foscos. 
23 “Tomás Antônio Gonzaga, poeta, advogado, juiz, nasceu na cidade do Porto, em Portugal, a 
11 de agosto de 1744 e faleceu na Ilha de Moçambique, onde cumpria pena de degredo, em 
fevereiro de 1807. (...) Nessa ocasião estava o poeta noivo de Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, 
jovem pertencente a uma das principais famílias da capital mineira, e a quem dedicava poesias 
do mais requintado sabor clássico, que iriam fazer parte do livro intitulado Marília de Dirceu, 
cuja primeira parte foi publicada em Lisboa, pela Impressão Régia, no ano de 1792.” 
http://www.academia.org.br/academicos/tomas-antonio-gonzaga/biografia (N. do Org.) 
24 Ilustre. 
25 Esposa de Abraão concebeu o filho Isaac mesmo sendo muito idosa por ordem expressa de 
Deus através de um emissário angelical. 
26 Abraão, considerado o pai da fé, foi ordenado pelo mesmo Deus para sacrificar seu único 
filho em obediência a Ele. 
27 Obedecendo a Deus Isaac foi levando ao monte pelo pai e quando estava a ponto de ser 
sacrificado um anjo ordenou para que Abraão não concluísse o sacrifício, pois o mesmo já havia 
provado que era obediente ao Senhor em quaisquer circunstâncias. (N. do Org.) 
28 Rejuvenescerá. 
29 Seria o anagrama de Catarina, musa presente na obra de Camões como um amor platônico. 
De nome verdadeiro Catarina de Ataíde portuguesa e dama de corte era muito bela e mulher 
pela qual o poeta português teria se apaixonado e dedicado muitos versos. (N. do Org.) 
30 “Luís Vaz de Camões (1524? - 1580) é autor dos Lusíadas, o poema épico sobre as descobertas 
portuguesas. A importância da sua obra só foi reconhecida após a sua morte. Teve uma vida 
repleta de dificuldades. Não existem muitos dados biográficos sobre a vida Luís de Camões, 
mas a informações que vieram a público quase três décadas depois da sua morte dão como 
provável o seu nascimento em Lisboa em 1524 ou 1525. Membro de uma aristocracia pouco 
endinheirada, supõe-se que tenha estudado em Coimbra. Como modo de vida, procura a sorte 
das armas e suspeita-se que tenha estado em Ceuta onde, num confronto militar com mouros, 
perdeu um olho. Em Lisboa é conhecido pela sua vida pouco comedida e chega a ser preso 
 
 
65 
 
devido a um assalto em que participa. Perdoado por D. João III parte para o Oriente, onde vai 
ficar por quase duas décadas. Participa em ações militares enquanto escreve os Lusíadas, que 
salva quando é vítima de um naufrágio, provavelmente na costa do atual Vietnam. É descoberto 
por amigos a viver como um indigente em Moçambique. Estes pagam-lhe as dívidas e a viagem 
de regresso a Lisboa onde publica, em 1572, a obra que o tornaria imortal, sendo considerado o 
maior poeta em língua portuguesa de todos os tempos.” Fonte: https://ensina.rtp.pt/artigo/luis-
vaz-de-camoes/ Acesso: 19/05/2020. (N. do Org.) 
31 Repreendido. 
32 Confusão. 
33 Enfeitar-se. 
34 Aviltamento. 
35 De nome completo Pierre Michel François Chevalier (1812-63) era jornalista, novelista e 
historiador francês. Chegou a conhecer Júlio Verne, mas depois romperam a amizade. Dentre 
outras escreveu: Grã-Bretanha antiga e moderna, A pessoa que eu amo, De porta em porta e vários 
outros. (N. do Org.) 
36 Figura que incorporava o ideal romano de mulher. De vida trágica foi estuprada por um filho 
de um rei romano. Depois do ato revela ao pai e esposo clamando por vingança logo depois se 
matando. Esse fato gerou implicações políticas, pois foi dado fim a monarquia e início da 
república em Roma. O teatrólogo inglês Shakespeare construiu uma peça inspirado na sua 
história. (N. do Org.) 
37 Tradução aproximada: “Fica em casa, tece a lã.” Era considerada uma virtude – sobretudo as 
mulheres – se dedicar a tarefas domésticas. 
38 Berta de Laon se notabilizou por dar a luz a Carlos Magno, grande Imperador do Sacro 
Império Romano-Germânico. 
39 Pepino, o Breve (c.714-768) também pai de Carlos Magno teria “fundando assim a dinastia 
carolíngia. Uniu a Gália e libertou a Itália dos Lombardos, cedendo as terras conquistadas à Igreja. Antes 
de morrer repartiu o reino entre os seus filhos Carlos Magno e Carlomano.” Disponível em: 
https://www.infopedia.pt/$pepino-o-breve Acesso: 19/05/2020. (N. do Org.) 
40 Reprovação. 
41 “Na mitologia grega, Apolo é o deus do Sol e filho de Zeus, deus dos deuses. Dessa maneira, 
também é deus da claridade e do calor. Além disso, é o único dos deuses que se repete nas 
mitologias grega e romana. Apolo também é considerado o mais poderoso e mais belo do 
Olimpo. Por sua aparência, portanto, também foi considerado deus da beleza. Essa função lhe 
rendeu o reconhecimento como patrono das artes e, assim, deus do canto.” Disponível em: 
https://segredosdomundo.r7.com/apolo/19/05/2020. (N. do Org.) 
42 Filha de Zeus com Ceres, foi raptada por Plutão para o mundo inferior (inferno) para tomá-la 
como sua esposa. Sua mãe, deusa da agricultura, furiosa arrasou com as plantações da terra 
causando fome. Seu pai interferindo na contenda, determinou que ela passasse metade do ano 
com o esposo e a outra metade com a mãe. Daí teria surgido o verão e o inverno. (N. do Org.) 
43 Virtuosas, respeitadas. 
44 Inacabável, incorruptível. 
 
 
66 
 
O SENHOR FRANCISCO MUNIZ BARRETO 
- COMO POETA1 
 
 
Desde o momento em que os gênios, os talentos, as capacidades, as 
mediocridades mesmo, tendo percorrido o estádio das leituras, e 
penetrando os umbrais2 do edifício literário, se mostram ao público em 
suas obras, as opiniões dividem-se a seu respeito, e o novo atleta do 
mundo científico adquire admiradores e antagonistas. 
Se lançarmos uma breve vista retrospectiva sobre esses homens 
extraordinários que tem aparecido de século em século como por um 
empenho e capricho da natureza; se lermos o volumoso de suas obras, e 
os contemporâneos que sobre elas tem emitido seu juízo, veremos quase 
sempre que entre centenares de belezas que as decoram, ou entre 
centenares de ideias boas e utilitárias que aproveitam à humanidade, se 
faz cavalo de batalha (permita-se-nos o modo de assim faltar) de alguns 
pequenos defeitos que, em lugar de concorrerempara o descrédito da 
obra, pelo contrário, até fazem-na realçar mais. Não asselamos3 um 
paradoxo. 
 Uma flor menos procurada, porém que não deixa de ser bela e ter 
encantos, não servirá em um jardim primorosamente cultivado de 
despertar no poeta, na virgem e no homem pensador o doce, o suavíssimo 
sentimento da compaixão? 
O céu sempre azul, assim como o oceano sempre imenso e 
caudaloso não nos ofereceriam essa variedade de cores e de poesia que 
nos oferecem, se a branca nuvem não toldasse o primeiro e as fúlgidas 
estrelas o não recamassem,4 e se os olhos, fatigados de admirar o 
segundo, não fossem resfolgar5 na contemplação do sereno regato que lhe 
vem pagar tributo. 
Quem haverá que, lendo essa grande biblioteca de romances, devida 
à pena felicíssima de Mr. Alexandre Dumas,6 seja capaz de depreciá-lo, de 
negar-lhe um talento fecundo e criador, de chamá-lo mesmo poeta, 
segundo se ele revela por suas concepções românticas? Quem 
desconhecerá que ele, achando acanhada a esfera da poesia propriamente 
dita, posto que aí houvessem obtido renome os Béranger,7 os Lamartines,8 
os Garrett,9 etc., e não querendo prender-se aos preceitos do ritmo, às leis 
da metrificação, escolhera um outro gênero de poesia, - o romance, - onde 
seus voos ocupam maior espaços e onde suas vistas abrangem maiores 
mundos? 
E, não obstante, “Mr. A. Dumas, no juízo de Mr. Eugênio de 
Mirecourt,10 - é um romancista violador da musa, sem invenção, 
assinador das obras alheias, e cujo único talento consiste na maneira 
porque ele coordena as coisas achadas por seus colaboradores; é enfim 
um assassino da literatura” (!) 
 
 
67 
 
Porém, qual o Homero11 que não tenha o seu Zoilo12? Qual o 
Camões que não tenha o seu José Agostinho de Macedo13? O próprio 
Messias teve os seus algozes, e terá ainda o seu anticristo! 
É isto uma verdade que a história nos atesta em cada uma das suas 
páginas, e que não precisa de demonstração, porque os fatos ressaltam 
aos olhos. 
Talvez (quem sabe?...) que tudo isto aconteça para a humanidade 
nunca se esquecer da fragilidade que é anexa à sua organização, e curvar-
se, em iodos os casos, ao supremo arbitro dos destinos humanos. 
Não haveria desprendido de sua mente inspirada uma sentença 
profética o Virgílio português,14 quando disse: 
 “Quem viu sempre um estado deleitoso?” 
“Ou quem viu em fortuna haver firmeza?” 
 Certamente que sim. 
Levantados ao pináculo da glória, aplaudidos pelos sábios, porque 
os compreendem, e pelos néscios, porque os adivinham, os gênios seriam 
talvez mais orgulhosos do que o deveriam ser, se julgariam mais credores 
de elogios do que mereceram. 
Mas, fique esta questão de parte, e, ligando a frágil cadeia do nosso 
assunto, digamos outra vez - que os gênios, os talentos, por isso mesmo 
que são tais, encontram a cada passo juízos que os desapreciam, e que vão 
descobrir trevas onde a luz disperse os seus mais claros raios, e defeitos 
onde a natureza afanou-se em se mostrar mestra. 
Não admira, pois que o literato que ensaia o seu passeio no recinto 
da publicidade, encontre desafetos, competidores pouco ou nada 
generosos, - uns gratuitos, outros mais ou menos merecidos. 
Isto se tem verificado acerca do distinto baiano - literato e poeta - 
Sr. Muniz Barreto. Não temos a pretensão de crítico, porque, 
ingenuamente fatiando, isto fora fatuidade em nós; principalmente para 
emitir um juízo crítico e decisivo a respeito dos exercícios poéticos do Sr. 
Muniz Barreto, seja reputação se acha firmada sobre bases mui sólidas, 
bases que senão deixarão abalar ao sopro, não de frágeis euros, porém 
nem mesmo de qualquer furacão ou redemoinho mal formado. 
Mas, quem nos pode negar o direito de, no turíbulo15 da cândida 
amizade, dessa amizade que sempre se vou ao mérito e ao talento, 
oferecermos uma baga de incenso ao - Bocage16 - brasileiro, ao repentista 
- gênio, ao filho talentoso da Bahia; ao inspirado favorito das senhoras 
baianas, ao amigo e sócio dos poetas contemporâneos de subida nota, de 
reconhecido nome ao Sr. Muniz Barreto? 
O incenso que costuma fumegar no turíbulo que manejamos, nunca 
envolveu o altar; - como envolverá o da adulação. 
 Não lemos a preterição de crítico, é forçoso ainda repeti-lo, e 
daremos o porquê. 
Achamos dificílima a missão do crítico, e por isso nunca nos 
atiraremos a essa importantíssima tarefa. 
O crítico, ao nosso ver, deve trazer em uma das mãos o báculo17 da 
polidez, da urbanidade, da mediania recomendada pelos sãos preceitos 
 
 
68 
 
das etiquetas sociais, para que possa com ele remover qualquer ideia que 
lhe escape do bico da pena, sugerida por um impulso momentâneo de 
irreflexão; enquanto que na outra cumpre solevar a balança da justiça, 
cujo lei nunca deverá inclinar-se para o lado odioso, mas antes para a 
benignidade, para a contemporização. 
 Um autor qualquer que pela vez primeira aparece nos vastos salões 
do público, é de supor que venha revestido daquele sério e dignidade que 
caracterizam o homem científico, ou ao menos aquele que tem 
perscrutado os escaninhos da ciência, e encanecido18 nas oficinas de arte. 
Sua obra não é de supor que esteja eivada do ridículo seja o seu fim: obras 
poderão existir, e de fato existem nesse poderão existir, porém essas, 
raras vezes criticadas, por isso que são aplaudidas, tem uma estante 
especial que as acomoda. 
 Isto posto: se um indivíduo surgindo do horizonte das letras, ainda 
novel, ainda calouro, for aceito por aqueles que o deviam proteger, sob as 
mais estrondosas demonstrações de zombaria, sem meio termo, sem 
critério; - se sua obra tender a um fim razoável e lícito, embora 
mesquinha em sua concepção, acanhada em seu desenvolvimento, pobre 
em sua execução, o crítico por ventura tem o direito de criticá-lo com a 
linguagem do célebre Zoilo, de satirizá-lo? 
Não, quanto a nós. 
 O crítico deve também, tanto quanto estiver ao seu alcance, sondar 
e fazer por conhecer a mente e a intenção do autor, cujas qualidades, 
sobretudo, não devem escapar à sua mais escrupulosa análise. 
O autor é digno de todo respeito, sempre soube prezar sua 
personalidade, não teve em vista oferecer à apreciação do público em suas 
obras um montão de disparates, de cousas sem nexo, sem proveito, pois 
bem: o crítico, o homem literato, profundo nas ciências, conhecedor 
analítico, filósofo, filólogo etc, etc, dispondo de cabedais tão profícuos, 
como esses, não deve descer a uma linguagem petulante ou sarcástica, por 
que, descarte, em lugar de corrigir os erros ou as lacunas do infeliz que 
não soube compreender a missão de autor, não fará senão para ele - a 
irrisão19 dos tolos, o escárnio dos levianos, a odiosidade dos malévolos. 
 E, em tais casos, - quem se tornaria mais digno de crítica e de 
censura o autor infeliz, porém bem intencionado, respeitável, honesto, 
amigo do progresso e das letras, ou o criticador hostil e malédico que 
abusa do sagrado tribunal, sob cujo teto sua inteligência lhe destinou um 
lugar eminente que só compete as capacidades? 
 A resposta parece-nos, óbvia os leitores que a deem conforme lhes 
ditar a consciência. 
Esta espécie de preâmbulo que temos feito, não é fora de propósito; 
porque, cabendo-nos hoje o prazer de nos revelarmos ao público como um 
dos muitos admiradores do Sr. Muniz Barreto, e havendo-se pronunciado 
um voto, posto que não geral, contra o seu mérito de poeta, por alguns 
contemporâneos que o tem censurado severamente e até negado-lhe 
aquilo mesmo que em consciência se lhe não pode negar - o laurel de 
poeta que assenta belamente em sua fronte inspirada, - queremos 
 
 
69 
 
patentear ao público que não somos sectário que lhe enxergaremos essa 
qualidade - a de poeta - que reverbera principalmente em algumas das 
suas produções. 
“Quando os fatos faliam, cessam os argumentos.” 
A verdade, independente de manifestação, por si mesma, se ostenta 
radiosa. 
Alguém já disse, talvez com muita propriedade, que - a verdade é o 
que é- E se a verdade - é o que é - para que tentar inutilmente escondê-la? 
Com mais facilidade o impertinente inseto conseguiria romper uma 
vidraça e obter passagem, do que um impostor encampar a verdade de 
modo que nunca mais se pudesse ver o esplendor do seu brilho. 
Assim, pois apreciemos, não como crítico, porém como admirador 
sincero e insuspeito, logo a primeira produção poética do Sr. Muniz 
Barreto, produção onde brilham os encantos, a magia, os perfumes 
embriagantes da verdadeira poesia. 
Seja o seu natalício, sob o título - A mulher - Ei-lo: 
 
“A mulher!... A mulher!... este só nome 
Te responde o que é Deus, e o que lhe deves, 
Tu mísero mortal, que embevecido 
Amas a obra e o seu autor desdenhas! 
 Ingrato! que do fruto do deserto 
Nutres a vida, e a árvore golpeas, 
D'onde colhendo o vais, com ímpio ferro! 
Que maléfico atiras 
Pedras ao rio que te mata a sede 
Co'a lympha doce e pura! 
Mas que! Tu amas? Não; - quem ama e sente 
Na mulher, sobre tudo, um Deus adora.” 
 
Se o mundo inteiro una você nos viesse contestar o merecimento 
deste belo tecido de palavras, que engendrou a delicada pena do ilustre 
baiano, e cujo nome próprio é “poesia”, nós teríamos a devida coragem 
para responder-lhe: não estamos por vossa opinião, somos a exceção da 
regra geral; porque: quem através do belo colorido que adorna este breve 
quadro, que se acha à mostra, não enxerga as viçosas flores da poesia, 
certamente se tem deixado entorpecer na gélida aridez do prosaísmo. 
A fraseologia do poeta é simples, porém repassada desse filtro 
fragrancioso que dimana20 de sua alma crente, de sua alma que vê e adora 
na mulher a maravilha do Eterno, o portentoso de suas mãos, que pôs um 
dique, talvez, ao próprio engenho da Divindade! 
Esta só poesia do Sr. Muniz Barreto, segundo o nosso humilde 
pensar e gosto, encerra tanta inspiração os seus versos correm tão 
líquidos e tão aromatizados do perfume delicioso que respiram as 
produções daqueles que escrevem sem preconceitos, sem uma 
premeditação adrede estudada, sem uma naturalidade fingida, que se lhe 
não pode negar, só por ela, - por esta sua poesia; - agrinalda de poeta. 
 
 
70 
 
Continuaremos. 
 
J. CORIOLANO DE S. L. 
 
Publicado no Jornal O Atheneu Pernambucano: Periódico Científico e Literário. 
“Avante e sempre!” Volume II. N.° 3. – Mês de julho. 1857. 
 
 
 
1 Neste escrito incompleto José Coriolano faz uma “crítica” ou seria defesa da pessoa e da obra 
do poeta baiano Francisco Muniz Barreto (1804-68) provavelmente de alguma análise mais 
desfavorável que o mesmo tenha sofrido. Eram seus pais o tenente-coronel Luiz Antônio Moniz 
Barreto da Silveira e Dona Maria Francisca de Albuquerque Moniz. Formou-se na Universidade 
de Coimbra e chegou a se voluntariar na Guerra do Paraguai. Aclamado pela crítica de sua 
época era considerado por uns como o Bocage brasileiro. Considerado também um dos maiores 
repentistas do Brasil - na concepção de Sacramento Blake - foi autor de Clássicos e românticos 
(1855), A estátua e os mortos (1862), Álbum da rapaziada (1864), O americano pirata (1864) e muitos 
outros. Era pai de Rozendo Moniz Barreto, médico e também poeta. Presume-se que Coriolano 
tenha dado continuidade ao escrito em duas ou mais partes que não foram encontradas até o 
presente momento. (N. do Org.) 
2 Portões. 
3 Confirmamos. 
4 Enfeitassem. 
5 Descansar. 
6 “Alexandre Dumas (1802-70) Foi um romancista francês autor de clássicos da literatura de 
aventura como Os três mosqueteiros e O conde de Monte Cristo cujas edições da Zahar venceram o 
Prêmio Jabuti de tradução. Além dos títulos acima, a Zahar publicou várias outras obras de 
Dumas, como Robin Hood; Grande dicionário de culinária; e Napoleão: uma biografia literária.” 
Disponível em: https://zahar.com.br/autor/alexandre-dumas Acesso:19/05/2020 (N. do Org.) 
7 Provavelmente refere-se ao poeta francês Pierre Jean de Béranger (1780 - 1857). Sua obra 
marcou por fortes influências sociais e políticas de sua época. Passou pela Revolução Francesa, 
exaltava Napoleão e ridiculariza a monarquia e o clero. Dentre alguns de seus poemas mais 
famosos podemos citar: O Deus dos pobres, O rei de Yvetot (1813), A avó, O velho sargento, A 
coroação de Carlos, o simples e muitos outros. (N. do Org.) 
8 Provavelmente refere-se ao também poeta e político Alphonse M. L. de Prat de Lamartine 
(1790 - 1869). No Brasil influenciou poetas como Castro Alves e Álvares de Azevedo. 
Vegetariano por influência da mãe, não logrou muito sucesso profissional apesar de ter sido 
ministro do Exterior. Por outro lado fora um exímio escritor com várias obras dentre as quais se 
destacam: Primeiras Meditações Poéticas (1820), Novas Meditações Poéticas (1823), Harmonias 
Poéticas e Religiosas (1830), Jocelyn (1836), A Queda de um Anjo (1838). Regina (Novela), Graziela 
(Novela), etc. (N. do Org.) 
9“Almeida Garrett (1799-1855) foi jornalista, legislador, poeta e escritor. Foi percursor do 
Romantismo em Portugal. Envolve-se na guerras liberais ao lado de D. Pedro, razão porque se 
viu obrigado a procurar o exílio por duas vezes. Nasceu no Porto em 4 de Fevereiro de 1799 
 
 
71 
 
com o nome João Baptista da Silva Leitão. Estudou Direito em Coimbra, onde adoptou o nome 
Almeida Garrett, destacando-se como orador notável, batendo-se por causas. Como autor tem 
uma vasta bibliografia onde se destacam ‘Frei Luís de Sousa’ e ‘Viagens na minha Terra’, mas 
Garrett foi também ministro e par do reino, desenvolvendo uma carreira política após as 
guerras liberais, chegando a receber o título nobiliárquico de Visconde. Enquanto membro do 
Governo é responsável pela criação do Teatro Nacional D. Maria II e do Conservatório de Arte 
Dramática. Os períodos de exílio levaram-no a contactar com outros autores de origem britânica 
e francesa que tiveram forte influência na sua obra. É recordado aqui por Natália Correia.” 
Disponível em: https://ensina.rtp.pt/artigo/minibiografia-de-almeida-garrett/Acesso 19/05/2020. 
(N. do Org.) 
10 De nome real Charles Jean-Baptiste Jacquot (1812-80) escritor e jornalista francês, acusou A. 
Dumas de racismo e de não ter escrito sua obra. Por conta disso Dumas o interpelou 
judicialmente o que lhe rendeu 6 meses de prisão. Presume-se que ele tenha escrito mais de 80 
romances e contos e 140 biografias, entre as quais se destacam o seu Os Contemporâneos, obra 
publicada em 100 volumes tratando dos mais diversos temas possíveis como política, literatura 
e artes. (N. do Org.) 
11 “Os gregos acreditavam que a Ilíada e a Odisseia haviam sido escritas por um único poeta, a 
quem chamavam de HOMERO. Nada se sabe a respeito de sua vida. Embora sete cidades 
gregas reivindiquem a honra de ser sua terra natal, segundo a tradição antiga ele era oriundo da 
região da Jônia, no Egeu oriental. Tampouco há registros de sua data de nascimento, ainda que 
a maioria dos estudiosos modernos situe a criação da Ilíada e da Odisseia em fins do século VIII 
a.C. ou início do século VII a.C.” Disponível em: 
https://www.companhiadasletras.com.br/autor.php?codigo=03010 Acesso: 19/05/2020. (N. do 
Org.) 
12 Zoilo (400 a.C. - 320 a.C.) foi um filósofo cínico e crítico literário de Anfípolis na Macedônia 
Oriental, então conhecida como Trácia. Ficou conhecido como o “chicoteador de Homero”; por 
suas duras críticas desferidas ao mesmo. Ele teria escrito a obra Contra Homero tese que logo foi 
rebatida por Aristóteles em seu livro Problemas de Homero. (N. do Org.) 
1José Agostinho de Macedo (1761 - 1831) foi um padre, poeta, escritor prolífico e crítico 
português, chegou a recriminar a Ordem dos Jesuítas e a Maçonaria. Foi o maior crítico de 
Camões em sua época o que lhe rendou o escrito Censura das Lusíadas. Ainda para confrontar a 
obra ele mesmo escreveu a sua épica O Oriente (1814) que para ele dentre as duas era “a menos 
defeituosa possível.” (N. do Org.) 
14 Refere-se a Luís de Camões. 
15 Incensório. 
16 “Manuel MariaBarbosa du Bocage (1765-1805) nasceu em Setúbal, filho de um advogado e de 
uma senhora francesa. Vai para a Academia Real da Marinha aos 14 anos e embarca em serviço 
para a Índia em 1786. Vive dois anos em Goa, regressando a Lisboa com 25 anos de idade. Aí 
dedica-se a uma vida desregrada entre os botequins e as tertúlias literárias. Pertenceu à Nova 
Arcádia onde era conhecido pelo pseudónimo de Elmano Sadino. As suas relações com a 
Arcádia não foram pacíficas, tendo, ao afastar-se, lançando ataques contundentes nos seus 
versos. O seu pendor satírico levou-o à prisão do Limoeiro, conseguindo a transferência para o 
mosteiro de São Bento onde vem a falecer pobre e doente. As suas obras tiveram várias edições 
ainda em vida do poeta: Rimas, tomo I (1791), Rimas, tomo II (1799) e Rimas, tomo III (1804). Em 
1811 foram publicadas as Obras Completas no Rio de Janeiro. Ficaram famosos os seus Sonetos, 
 
 
72 
 
os seus Epigramas e os seus Apólogos.” Disponível em: 
http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/bocage.htm Acesso: 19.08.2020 (N. do Org.) 
17 Cajado. 
18 Envelhecido. 
19 Galhofa. 
20 Flui, nasce. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
73 
 
A posteridade e Fr. José de S. Rita Durão1 
 
 
À posteridade, geralmente fatiando, e um juiz que quase sempre 
não erra em suas decisões. Ela de ordinário vinga na memória que 
persiste e acompanha os tempos à odienta e caprichosa 
contemporaneidade. 
 Milton2 vendeu o seu “Paraíso Perdido” por 125 francos, (entre nós 
40:000 réis), a um editor inglês, que com ele veio a ganhar para cima de 
400:000! (128:000:000 réis.) Camões recebeu de el-rei D. Sebastião3 a 
generosa tença de 15:000 réis, cujo favor lhe foi repetido apenas por três 
anos, em remuneração dos seus imortais “Lusíadas” e dos bons serviços 
prestados a el-rei nas índias Orientais, e dos muitos que prometia ainda 
prestar! Camões teve, por conseguinte, mais 5:000 que Milton. Reduzido 
a maior miséria, esmolou um pedaço de pão para não morrer à fome, e 
acabou por sucumbir na enxerga de um hospital! 
Era destarte que a contemporaneidade desses dois grandes cultos 
do século XVII pagava duas obras que para os tempos porvindouros 
deveriam representar - aquela um momento de literatura tão sublime que 
nele teria a nação inglesa a sua maior glória, a sua maior coroa literária; - 
este um monumento igualmente imorredouro que, atestando os feitos 
gloriosos do Gama,4 do Albuquerque terribil5 e do Castro forte6, na 
expressão do épico, levasse-os a mais remota posteridade de envolta com 
o talento fecundíssimo do inspirado das Tágides.7 Entretanto, os dias 
acumulam-se, os anos se sucede me os séculos avultam. O secretário 
latino de Cromwell8 é por muitos considerado como o primeiro épico do 
mundo, preferível até a Homero! O seu poema traduzido em todas as 
línguas cultas do orbe, elogiado pelos mais abalizados sabedores, ainda 
hoje é uma fonte perene de lucro para os livreiros, e será sempre. E Milton 
vendera o seu Paraíso Perdido por 125 francos! 
Os Lusíadas, que tem igualmente sido traduzidos em todos os 
idiomas, onde se tem ideia do que é grande, sublime e maravilhoso, foi, há 
sido e será, em quanto houver gosto pelas letras, um manancial também 
inexaurível de lucro para os livreiros. Eis como a posteridade costuma 
julgar. Porém triste consolo é este para o homem que cultiva as letras, 
para o homem que é poeta! A decisão da posteridade teria algum correio, 
algum barco a vapor, algum wagon,9 algum telégrafo elétrico que, 
perpassando o espaço e os diferentes céus dos astrônomos, batesse às 
portas da eternidade para dizer ao grande escritor, ao sublime orador, ao 
consumado jurisconsulto, ao divino poeta: “teu nome corre de boca em 
boca como uma das maiores ou como a maior maravilha de tua idade, 
teus escritos, teus discursos, tuas leis, teus poemas repousam tanto na 
suntuosa estante do cortesão como na pobre banca do rústico, são lidos 
por todas as inteligências, são admirados por todas as capacidades!” Era 
bem bom que os gênios lá no outro mundo tivessem esse consolo. Quanto 
se não admiraria Camões de ver o seu poema vertido doze vezes no 
francês, seis no latim, cinco em cada um dos idiomas italiano, alemão e 
 
 
74 
 
inglês, quatro no castelhano, duas no sueco, e uma vez em cada uma das 
línguas dinamarquesa, russa e hebraica! Que fonte inesgotável de 
interesse! - diria consigo o cantor do descobrimento das índias Orientais. 
Como pelas faces lhe rolaria uma lágrima de eterna gratidão ao ver o seu 
monumento erguido das ruínas, como por um encanto, devido às 
exprobrações e às incansáveis diligências de dois poetas igualmente 
grandes como ele! 
 Dissemos em princípio que a posteridade quase sempre não erra em 
suas decisões, e tivemos razão para nos exprimirmos assim 
hipoteticamente. 
A posteridade, às vezes, como que se deixa possuir de uma ideia a 
tal ponto que o objeto dessa ideia não tem para ela senão uma face não 
tem senão um perfil: - é uma espécie de elaboração interior que não 
admite forma, que não admite mudança. 
 É assim que a posteridade esquece, muitas vezes, as devassidões e 
os crimes de César e quando Napoleão,10 somente para olhá-los pelo 
prisma sedutor de suas façanhas, de suas bravuras bélicas, de suas 
heroicidades. - E assim que ela parece esquecer-se de que José Agostinho 
de Macedo fora um talento superior, um escritor meritório, um poeta 
muitíssimas vezes sublime, para somente olhá-lo como um homem 
odiento, invejoso, satírico, mordaz e egoísta. Pode ser que estejamos 
enganado: - será a posteridade sempre justa e infalível quando julga -, 
mas também ninguém nos poderá contestar que a posteridade é humana, 
como representante das inúmeras e diversas opiniões, de que é órgão, e, 
neste caso, qual será a conclusão?... 
Ora, tudo quanto até aqui nos aprouve de dizer, teve por esta 
pergunta: a posteridade, que começa a correr para o autor desde o 
momento em que ele deixa de existir, terá sido, até o instante em que 
escrevemos estas linhas, plenamente justa para com o épico brasileiro Fr. 
José de S. Rita Durão? 
A resposta é dificílima de dar-se. Talvez alguém in continenti11 
respondesse afirmativamente, atendendo que “Bocage, ainda pouco antes 
de falecer, segundo nos assegura o Sr. Dr. Francisco Freire de Carvalho,12 
por intermédio do Sr. Yarnhagen,13 contava o Caramuru como um dos 
livros mais queridos de sua minguada livraria;” que o insigne autor dos 
“Ciúmes do Bardo”14 classifica sua imaginação de viva, seu estilo de fácil e 
ao mesmo tempo nobre, e a sua versificação de comumente boa e às vezes 
muito boa que o distinto rival de Camões, Garrett, também lhe reconhece 
muito mérito nestas palavras: “O autor (referindo-se a Durão) atinou com 
muitos dos tons que deviam naturalmente combinar-se para formar a 
harmonia do seu canto.” E mais abaixo: “de o poeta se contentou com a 
natureza e com a simples expressão da verdade, há oitavas belíssimas, 
ainda sublimes.” 
Pode ser, dizíamos nós, que alguém in continenti decidisse pela 
afirmativa à vista de tão exuberantes e autênticos louvores, e à vista de 
algumas versões que na Europa teve o Caramuru: entretanto, nós, em o 
nosso humilde modo de pensar, nem respondemos afirmativamente nem 
 
 
75 
 
negativamente: desejáramos, porém, que a esta hora a posteridade se 
houvesse pronunciado de um modo mais decisivo acerca do poema de S. 
Rita Durão. Mas isso talvez importasse uma antecipação de fato. 
Esperemos. 
II 
 
Agora algumas palavras em favor do distinto poeta mineiro. O 
mérito do poema Caramuru torna-se mais saliente e adquire maior 
verossimilhança quando desapaixonadamente e com os olhos da 
verdadeira crítica, confrontando seu autor com os poetas seus 
contemporâneos, e com os hábitos e costumes destes, vemos-lhe uma 
certa superioridade, superioridade que chamaremos relativa. 
Fr. José de S. Rita Durão, coetâneo de Manoel Maria Barboza Du 
Bocage e de Francisco Manoel, oprimeiro tipo real do gênio, o segundo 
imagem verdadeira do talento, avantajou-se muito a esses dois autores, 
que tanto honram a literatura portuguesa, e aos quais muito ela deve, mui 
principalmente ao Padre Francisco Manoel,15 inimigo por essência de 
galicismo e francesas, e restauradora língua portuguesa. Leiam-se as 
poesias de Bocage, leiam-se as poesias de Filinto; em quaisquer delas se 
hão de encontrar, repetidas umas sobre outras, imensas comparações 
mitológicas. Será bem raro o soneto, a ode, a elegia, a epístola, a 
anacreôntica de Bocage ou de Filinto que não lenha uma invocação, uma 
queixa, um incenso, um perfume a Jove, a Vênus, a Cupido, a Mercúrio, e 
finalmente a essa enfiada de divindades pagãs e burlescas que formavam 
a beleza, senão o mérito real, da poesia desses tempos de além. Era uma 
forte mania! Cremos que se algum reator atrevido tivesse o poder de 
então dizer aos poetas da mitologia: proscrevei as vossas divindades pagãs 
e mesquinhas, e poetizai substituindo as pelos arquétipos da natureza - 
mãe, cremos que Bocage deixaria de ser repentista, que Filinto deixaria de 
ser puritano do pátrio idioma, e assim por diante. 
Verdade é (permita-nos o leitor a digressão que será breve) que se 
hoje não existe a mitologia, nem por isso deixa de haver na poesia alguma 
cousa que com ela exerce um certo ponto de contato; que de alguma sorte 
parece substituí-la. O que são os lobisomens, as mulas sem cabeça, as 
caiporas, as mais de água e outras muitas ficções que se encontram por 
aí? - São outros tantos mitos que entram como mistifório16 na linguagem 
métrica que quase nada exprimem, porém que estão identificados com os 
preconceitos do povo. Quando a poesia for puramente real, se terá - 
descoberto o motu continuo,17 - achado a pedra filosofal - demonstrado a 
quadratura do círculo, porque então já o cosmopolitismo dominará o 
mundo. Paliando desta maneira, releva dizer que não tomamos este 
vocábulo, cosmopolitismo, como sinônimo de catolicismo; não; neste 
acreditamos-, este, sim, dominará o globo, penetrará nas mais estreitas 
gargantas do mundo, e levará sua luz benéfica, necessária e divina às mais 
remotas regiões, aos mais esquisitos e, quiçá, ainda ignorados climas. 
Voltemos ao nosso propósito. 
 Mas, a que veem estas reflexões? Fizemos antes (as que da 
 
 
76 
 
digressão) perguntará algum dos que tiverem o incômodo de ler essas 
linhas. 
Responderemos: estas reflexões têm por fim mostrar a 
superioridade de Durão relativamente aos seus contemporâneos ou a 
muitos deles. Lede o seu imortal poema, que contem 10 cantos, 834 
oitavas e 6872 versos heroicos ou hendecassílabos, e dizei-nos se 
encontrastes nele essa idolatria grega que chegou até os nossos dias; 
dizei-nos se Fr. José de S. Rita Durão compara suas beldades com a Vênus 
lasciva, comas graças nuas e provocadoras se o seu tipo de amor, - o seu 
tirano dos corações, - é esse menino nédio18 e rechonchudo, cego, nu, com 
azas nos ombros como pato, e com as aljavas que lhe pendem das costas 
pejadas de agudas seitas, de certeiros farpões que se arremessam e ferem 
a torto e a direito. A vossa resposta seria que o poeta quando tem de 
referir-se a essas divindades, é sempre escarnecendo-as, é sempre 
votando-as ao desprezo e ao ridículo que merecem. Vede como ele trata o 
poderoso rei do tridente: 
 
“Danova Lusitânia o vasto espaço 
Ia povoar Diogo, a quem bisonho 
Chama o Brasil, temendo o forte braço, 
Horrível filho do trovão medonho: 
Quando do abismo por cortar-lhe o passo, 
Essa fúria saiu, como suponho, 
A quem do inferno o paganismo aluno,(1) 
Dando o império das águas, fez Netuno. 
 
Tratando da antropofagia entre os índios, compara-a com os 
sacrifícios do paganismo desenvolto dos tempos de Roma e Cartago, nos 
seguintes versos: 
 
“Roma e Cartago o sabe no noturno 
 Horrível sacrifício de Saturno. (2)” 
 
Depois, tratando do espanto e estranheza em que ficaram os índios 
com a presença de Diogo, e da origem do nome Caramuru que, como 
todos sabem, entre eles significava “filho do trovão” ou antes “dragão do 
mar,” diz: 
 
“Desde esse dia é lama que por nome 
De grão Caramuru foi celebrado 
O forte Diogo; e que escutado dome 
Este apelido o bárbaro espantado: 
Indicava o Brasil no sobrenome 
Que era um dragão dos mares vomitado: 
Nem de outra arte entre nós a antiga idade 
Tem Jove, Apolo e Marte por deidade. (3)” 
 
 
 
77 
 
Note-se, porém, que quando Durão assim descrevia a credulidade 
dos índios de envolta com a censura que fazia à antiga idade, - essa antiga 
idade ainda lhe dava a gostar em cada poesia, em cada estrofe, em cada 
verso o perfume dessas flores peregrinas, ou antes parasitas, da mitologia 
grega Vede ainda como se ele exprime contra essa crença selvagem: 
 
“É fácil propensão na brutal gente, 
Quando em vida ferina admira uma arte, 
Chamar um fabro o deus da forja ingente, 
Dar ao guerreiro a fama de um deus Marte: 
Ou talvez por sulfúreo fogo ardente, 
Tanto Jove se ouviu por toda parte: 
Hercules e Theseus, Jasões no Ponto(4) 
Seriam cousas tais com as que eu conto.” 
 
Está, pois, evidentemente provado, (se nos não cega o amor próprio 
ou a admiração pelo nosso poeta), que Durão já se revolucionava contra a 
mitologia, contra a antiga escola, quando Garção,19 Antônio Diniz,20 
Quita,21 Bocage, Filinto Elísio e outros muitos poetas, tanto portugueses 
como de outras nações, não davam um passo sem essa gentileza dos 
nossos heróis gregos e romanos. E nessa reação, nessa espécie de 
Duriense22 cruzada anti-mitológica não haveria alguma cousa que desse 
ao nosso épico uma superioridade relativa aos seus coetâneos? - Parece 
que sim. 
III 
 
Não foi somente por essa tendência bem característica do nosso 
insigne épico contra as divindades do paganismo que ele se tornou credor 
dessa superioridade relativa que nele enxergamos-, não: o distinto cantor 
de Diogo23 e da interessante Paraguaçu24 (a quem descreve tão bela, tão 
simples tão sensível, tão caroável aos preceitos do seu modesto e pudico 
amante) sobressai ainda a muitos dos seus coetâneos quanto à 
regularidade de suas estrofes, (5) não introduzindo nelas, senão 
geralmente palavras graves, que são por certo as que mate se casam com 
os assuntos grandiosos, com as epopeias. É admirável que um poema de 
834 estâncias não tenha uma só que seja aguda! É admirável que todo ele 
seja grave! 
O sábio e respeitável senhor Castilho, em seu precioso opúsculo - 
Tratado de metrificação portuguesa - obra que tanto tem de pequena 
quanto de profusa em conhecimentos elevados e incansáveis vigílias, nos 
diz que a Tomás Antônio Gonzaga, na sua “Marília de Dirceu”, à imitação 
do popularíssimo poeta italiano - Metastasio25 - devem os portugueses a 
introdução da regularidade das estrofes. Entretanto, sem que tenhamos 
em vistas negar a autenticidade da asserção, julgamos conveniente dever 
ponderar que Durão é anterior ao melodioso cantor da bela mineira, e 
essa perfeição poética, ou bom costume, como apropriadamente chama 
aquele autor, já anteriormente deviam admirar no imortal Caramuru. 
 
 
78 
 
Eis-aqui, pois, o outro lado pelo qual há também alguma cousa que 
revela no poeta brasileiro alguma superioridade em relação aos seus 
coevos ou aos que viveram em o seu mesmo século. 
Será ainda o amor próprio ou a admiração que nos cega? O estado 
da consciência é tal que seriamente o ignoramos. 
Senão pelas razões que apontamos, ao menos por outras talvez que 
de maior peso e critério, de maior gravidade e ponderação, disse o senhor 
Varnhagen: “Em nossa opinião o acolhimento público, a popularidade 
ainda não fez justiça ao mento do Caramuru.” 
Haveriam motivos que levassem com justiça o ilustre historiador a 
pronunciar-se de semelhante modo? 
Talvez que sim. 
O Sr. Dr. J. Alencar,26 em sua última nota á pagina 81 da carta 
sétima, em que crítica a “Confederação dos Tamoios”, poema do Sr. Dr. 
Magalhães,27 diz aí uma pura verdade: (se, porém, na aplicação que faz de 
semelhante verdade,é igualmente verdadeiro, isto ignoramos). 
Ordinariamente, diz o severo crítico, quando um poeta escreve um livro 
sobre um assunto ainda não conhecido, cria alguma cousa nova e original, 
que se admira, e se repete com uma certa simpatia é um quer que seja que 
toca ao coração ou ao gosto do leitor. 
“Às vezes é um tipo, um caráter, uma descrição ou mesmo uma 
imagem; outras é apenas um verso, um pensamento, uma frase e até uma 
palavra.” 
E de feito. Quem, lendo mesmo de passagem no Caramuru, canto 
4°, estância 56, a terrível briga dos dois índios inimigos, Jacaré e 
Jararaca, deixará de gravar na memória por toda vida aquela expressiva 
parelha que encerra em si uma das mais formosas, enargueias28 que 
temos lido, em que pinta o poeta os dois contendores estreitamente 
agarrados, enquanto os que testemunham a encarniçada luta não 
respiram de admiração, de espanto? Quem se esquecerá, repetimos nós, 
dos seguintes versos, lendo-os uma vez dominado com a vista? 
 
“Olham lutando os dons no fero abraço 
Pé com pé, mão com mão, braço com braço.” 
 
Quem, no canto 6.°, estância 38, quando a sensível e amorosa 
Moema,29 que nada em seguimento da não que conduz seu amante, o 
virtuoso Diogo, depois de compará-lo ao tire e achá-lo mais inaccessível 
ao amor do que a própria fera, depois de vociferar contra ele e conjurar os 
elementos para que consumam aquele infame; como que se arrepende do 
que dissera, ou reconhece a inutilidade de suas vociferações, de seus 
ultrajes, de suas queixas, - quem, repelimos nós, deixará de reter na 
memória para sempre esta outra importantíssima parelha, em que ela diz: 
 
“Mas pagar tanto amor com tédio e asco. 
Ah que o corisco és tu... raio... penhasco?” 
 
 
 
79 
 
Quem, finalmente, esquecerá, tendo uma vez lido o Caramuru, 
canto 10, estância 10, a muito linda, muito feliz e muito poética 
comparação do épico, alusiva à Virgem Santíssima e ao Divino Verbo? 
 
“Mas se não se de digna o verbo Santo 
Por nosso amor, de símbolo rasteiro, 
Dentro parece do Virgíneo manto 
Pascendo em brancos lírios um cordeiro.” 
 
Protestamos seriamente ao leitor que todas estas interessantes 
passagens que ficam citadas, bem como algumas outras que omitimos por 
brevidade, aprendemo-las de cor na primeira leitura que fizemos do 
Caramuru. 
 Isto posto, não devemos terminar este artigo sem dizermos algumas 
palavras quanto á nacionalidade do poema Caramuru -, serão duas 
palavras em sentido geral. 
Se um poema verdadeiramente nacional e aquele em que as 
comparações, as imagens, os episódios, todo seu enredo em fim se 
harmoniza com os hábitos e costumes do país em que foi escrito, não há 
dúvida que o Caramuru é um poema todo nacional, porque o poeta não foi 
procurar para a descrição de suas cenas figuras e tipos estrangeiros. Nele 
não há olaias30 frondosas nem velhos carvalhos; nele não há Tejos nem 
Mondegos: há, porém, cenas brasileiras, cenas verdadeiramente filhas do 
país onde ele foi meditado e desenvolvido. Poderemos provar o que fica 
dito com muitas passagens do Caramuru; porém tememos abusar da 
paciência dos leitores, e contentamo-nos em pedir aqueles que não veem 
no Caramuru um poema puramente nacional, o pequeno trabalho, que 
será ainda mais suavizado com a beleza e brandura do verso, de lerem-no 
com atenção, com discernimento. 
 Se é incontestável que; José Basílio da Gama,31 no seu “Uraguai”, 
encetou delicadamente a poesia americana, não é menos verdadeiro que 
Fr. José de S. Rita Durão continuou-a no seu muito brasileiro poema 
“Caramuru.” 
Temos, se bem que mal, desenvolvido a nossa epígrafe; com tudo, 
não podemos concluir este mal alinhavado escrito, sem que para aqui 
copiemos as duas primeiras oitavas do nosso rico poeta. 
Ha alguém por esses sertões, onde o Ateneu pode mui bem ter 
ingresso, que ignora as belezas do ótimo poema Caramuru em duas 
belíssimas e até arrebatadoras oitavas (tanta sublimidade em tanta 
concisão) faz ele a exposição do assunto e a invocação. Sejam elas a chave 
de ouro que venha fechar o nosso humilde trabalho. 
 
 Exposição do assunto: 
 
“De um varão em mil casos agitados, 
Que as praias discorrendo do ocidente, 
Descobriu o Recôncavo afamado 
 
 
80 
 
Da capital brasílica potente: 
Do “filho do trovão” denominado, 
Que o peito domar soube à fera gente, 
O valor cantarei na adversa sorte-, 
Pois só conheço herói quem n'ela é forte.” 
 
 Invocação: 
 
“Santo esplendor que do Grão Padre manas 
Ao seio intacto de uma Virgem bela; 
Se da enchente de luzes soberanas 
Tudo dispensas pela Mãe Donzela; 
Rompendo as sombras de ilusões humanas, 
Tu do grão caso a pura luz revelia; 
Faze que em ti comece e em ti conclua 
Esta grande obra que por fim é tua.” 
 
 
 Recife -1858. 
 
J. CORIOLANO DE S. L. 
 
(1) Caramuru - cant. 4. - est. 9. 
(2) Caramuru - cant. 4. - est. 48. 
(3) Caramuru - cant. 4. - est. 46. 
(4) Caramuru - cant. 2. - est. 48. 
(5) Refirimo-nos, não ao número dos versos que compõem cada estrofe, porém 
às palavras finais - graves, agudas ou esdrúxulas - de cada verso. 
 
 
Publicado no Jornal O Atheneu Pernambucano: Periódico Científico e Literário. 
“Avante e sempre!” Volume III. N.° 1. – Mês de junho. 1858. 
 
 
 
1 Neste ensaio Coriolano descreve uma crítica elogiosa ao autor português o Frei José de Santa 
Rita Durão (1722-84) e sua mais importante obra Caramuru. Agostiniano de formação o religioso 
doutorou-se em Filosofia e Teologia pela Universidade de Coimbra. Perseguido em Portugal 
foge para Roma onde se torna bibliotecário; na queda de Pombal retorna para a sua terra. A 
obra citada trata de um belo poema épico indigenista, cavoucados de lembranças suas da 
infância enquanto esteve no Brasil estudando no Colégio dos Jesuítas. (N. do Org.) 
2“John Milton (Cheapside, Londres, 9 de dezembro de 1608 - Bunhill, Londres, 8 de novembro 
de 1674) foi um poeta, polemista, intelectual e funcionário público inglês da Comunidade da 
Inglaterra sob Oliver Cromwell, servindo como ministro de línguas estrangeiras. Ele escreveu 
em um momento de fluxo religioso e agitação política, e é mais conhecido por seu poema épico 
Paraíso Perdido (1667), escrito em verso branco.” Disponível em: 
https://ecclesiae.com.br/index.php?route=product/author&author_id=303 Acesso: 20/05/2020 
(N. do Org.) 
 
 
81 
 
3 “D. Sebastião (1554 - 78) transformou-se num mito após o seu desaparecimento na batalha de 
Alcácer Quibir, no norte de África. A sua morte abriu as portas à crise dinástica que vai colocar 
os reis de Espanha no trono português. D. Sebastião era neto de D. João III e o seu nascimento 
foi muito festejado por se temer um problema de sucessão na coroa portuguesa. Religioso e 
militar zeloso, empenhou-se na preparação de um exército para combater os Mouros e em 
ganhar prestígio militar. Morreu no Norte de África, na batalha de Alcácer Quibir, sem deixar 
descendência, abrindo caminho para a entrega da coroa portuguesa aos Filipes de Espanha. À 
sua volta nasceu o mito do “Sebastianismo”, a esperança de que regressaria um dia, numa 
manhã de nevoeiro, para salvar o país de todos os seus problemas.” Disponível em: 
https://ensina.rtp.pt/artigo/d-sebastiao-1554-1578/ Acesso: 20/05/2020. No Maranhão, o rei de 
Portugal D. Sebastião teria passado por lá e se perdido confundindo uma de suas ilhas com o 
Deserto do Saara no Marrocos, construindo para si um castelo na localidade. Reza a mitologia 
maranhense ainda que Dom Sebastião se transforme em um touro negro encantado, com uma 
estrela na testa. Caso alguém o matasse ele retornaria ao seu reino. (N. do Org.) 
4 Vasco da Gama (1469-1524) foi um navegador e explorador português, nomeado, pelo Rei 
Dom Manuel I, para comandar expedições principalmente para as Índias. Pelo seu sucesso nos 
mares ganhou do reino de Portugal o pomposo título de “Almirante dos Mares da Arábia, 
Pérsia, Índia e de todo o Oriente”.Sua viagem teria inspirado Camões para composição de sua 
mais importante obra. Ambos encontram-se enterrados no Mosteiro dos Jerônimos, com urnas 
funerárias praticamente idênticas. (N. do Org.) 
5 Afonso de Albuquerque (1452-1515), outro importante navegador português tinha várias 
denominações: Leão dos Mares, César do Oriente e o Terribil (terrível) como citou o poeta 
brasileiro. Visando proteger-se dos otomanos, árabes e hindus monopolizou as passagens 
navais para o Índico. Depois de Alexandre, o Grande foi o segundo fundar uma cidade na Ásia. 
Também citado por Camões em sua obra. (N. do Org.) 
6 João de Castro (1500-48) fora cartógrafo e o 4º vice-rei do Estado Português da Índia. Cientista, 
ao levar consigo agulhas magnéticas a bordo nas suas navegações, conseguiu refutar a teoria de 
que a variação da declinação magnética não se dava por conta da localização dos meridianos 
geográficos como se acreditava, tornando-se a partir daí um grande nome nos estudos das 
navegações. Também foi citado em Os Lusíadas. (N. do Org.) 
7 São as ninfas mitológicas do rio Tejo, entidades pelas quais Camões suplica para escrever seus 
versos. 
8 Provavelmente refere-se a Thomas Cromwell (1485-1540), estadista inglês que serviu como 
primeiro-ministro de Henrique VIII. Foi decapitado sob a acusação dos crimes de traição e 
heresia. (N. do Org.) 
9 Vagão em inglês. 
10 “Napoleão Bonaparte (1769-1821) foi imperador da França entre 1804 e 1814 com o título de 
Napoleão I. Líder político, ditador e comandante do Exército Francês, conquistou uma grande 
extensão territorial para a França. (...)Napoleão marcou presença na Revolução Francesa, 
inicialmente contra ela. Fiel à monarquia à disciplina militar, condenou a insurgência popular. 
Aos poucos, os soldados de seu destacamento começaram a juntar-se aos patriotas na defesa 
dos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Napoleão mudou de lado e entrou para o 
partido dos jacobinos. Napoleão foi preso e enviado para a ilha de Santa Helena, uma colônia 
inglesa localizada no sul do Atlântico. (...) faleceu na ilha de Santa Helena, no dia 5 de maio de 
1821, depois de 6 anos de exílio.” Disponível em: 
https://www.ebiografia.com/napoleao_bonaparte/ Acesso 20.05.2020. (N. do Org.) 
 
 
82 
 
11 Imediatamente. 
12 Provavelmente refere-se ao estudioso de língua portuguesa sobre crítica, teoria ou história 
literária. Dentre suas obras constam Lições elementares de eloquência nacional, Florilégio brasileiro da 
infância e outras. (N. do Org.) 
13 Provavelmente refere-se a Francisco Adolfo de Varnhagen (1816-78) diplomata e historiador 
autor de Épicos brasileiros (1845), História geral do Brasil (1854), História da Independência do Brasil 
(1916) e outras. (N. do Org.) 
14 Livro de poemas narrativos do ano de 1836, que incluíram o nome do escritor lisbonense 
Antônio Feliciano de Castilho (1800-75) como um dos principais expoentes do Romantismo. (N. 
do Org.) 
15 De nome completo Francisco Manuel do Nascimento (1734 - 1819), adotava o pseudônimo 
Filinto Elísio, teve sua obra poética toda reunida além de traduzir As fábulas de La Fontaine. (N. 
do Org.) 
16 Mistura. 
17 Movimento perpétuo. 
18 Lustroso, brilhante. 
19 “Pedro Antônio Correia Garção (1724-1772) nasceu em Lisboa. Frequentou o curso de Direito 
da Universidade de Coimbra, mas teve de abandonar os estudos, tornando-se oficial de 
secretaria e redator da Gazeta de Lisboa. É considerado um dos mais importantes poetas 
neoclássicos da literatura portuguesa. Pertenceu à Arcádia Lusitana, utilizando o pseudônimo 
de Corydon Erimantheo. As suas poesias foram publicadas em 1778 num só volume intitulado 
Obras Poéticas. Escreveu duas comédias: Teatro Novo e Assembleia ou Partida.” Disponível em: 
http://www.jayrus.art.br/Apostilas/LiteraturaPortuguesa/Arcadismo/Cor reia_Garcao.htm 
Acesso: 20.05.2020. (N. do Org.) 
20 “Antônio Dinis da Cruz e Silva (1731-1799) formou-se em Direito. Depois de exercer funções 
de magistratura em Castelo de Vide e Elvas, foi nomeado desembargador da Relação do Rio de 
Janeiro, aí permanecendo entre 1776 e 1789. Voltou ao Brasil em 1890para julgar os implicados 
na revolução de Tiradentes, na qual estava implicado o poeta Tomás Gonzaga. Foi um dos 
fundadores da Arcádia Lusitana em 1756, adoptando o pseudónimo de Elpino Nonacriense.” 
Disponível em: https://www.portaldaliteratura.com/autores.php?autor=152 Acesso: 20.05.2020. 
(N. do Org.) 
21 “Domingos dos Reis Quita (Lisboa, 1726-1770). As suas obras compreendem éclogas, odes, 
sonetos, outras poesias miúdas, o drama pastoral Licore; e quatro tragédias, uma das quais, 
Castro, foi aproveitada por João Batista Gomes para a sua Nova Castro. Quita foi membro da 
Arcádia Ulisiponense, sob o nome de Alcino Micênio. Tinha a profissão de cabeleireiro e 
morreu paupérrimo.” Disponível em: http://www.consciencia.org/domingos-dos-reis-quita 
Acesso: 20.05.2020. (N. do Org.) 
22 Refere-se a pessoas ou coisas provenientes da província do Douro em Portugal. 
23 Diogo Álvares Correia (1475-1557) foi um náufrago português que foi recebido por índios 
tupinambás sendo-lhe dado em casamento Paraguaçu, uma índia da tribo. 
 
 
83 
 
24 Catarina Álvares Paraguaçu (1503-83). Casada com Diogo foi batizada como Catarina e 
chegou a ir pra Europa. Considerados a “primeira família católica do Brasil”, o casal teve 4 
filhas. 
25 Pietro Metastasio (1698-1782) foi um poeta e importante libretista italiano. Sua obra completa 
foi publicada em Paris em 12 volumes. 
26 “José de Alencar (José Martiniano de Alencar), advogado, jornalista, político, orador, 
romancista e teatrólogo, nasceu em Messejana (atual bairro de Fortaleza), CE, em 1º de maio de 
1829, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 12 de dezembro de 1877. É o patrono da cadeira n. 23, 
por escolha de Machado de Assis. (...) A sua notoriedade começou com as Cartas sobre A 
Confederação dos Tamoios, publicadas em 1856, com o pseudônimo de Ig, no Diário do Rio de 
Janeiro, nas quais critica veementemente o poema épico de Domingos Gonçalves de Magalhães, 
favorito do Imperador e considerado então o chefe da literatura brasileira. (...) Sua obra é da 
mais alta significação nas letras brasileiras, não só pela seriedade, ciência e consciência técnica e 
artesanal com que a escreveu, mas também pelas sugestões e soluções que ofereceu, facilitando 
a tarefa da nacionalização da literatura no Brasil e da consolidação do romance brasileiro, do 
qual foi o verdadeiro criador. Sendo a primeira figura das nossas letras, foi chamado ‘o 
patriarca da literatura brasileira’. Sua imensa obra causa admiração não só pela qualidade, 
como pelo volume, se considerarmos o pouco tempo que José de Alencar pôde dedicar-lhe 
numa vida curta. Faleceu no Rio de Janeiro, de tuberculose, aos 48 anos de idade. Disponível 
em: http://www.academia.org.br/academicos/jose-de-alencar/biografia Acesso: 21.05.2020 (N. 
do Org.) 
27 “Gonçalves de Magalhães, ou Domingos José Gonçalves de Magalhães, Visconde de Araguaia 
(1811-1882) foi filósofo, médico, historiador, poeta, dramaturgo, político e diplomata. Introdutor 
do Romantismo e também do teatro 
noBrasil.”Disponível.em:http://www.portugues.seed.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.ph
p?conteudo=623 Acesso: 21.05.2020 Teve sua principal obra atacada por Alencar, mas por outro 
lado foi defendido pelo próprio Imperador D. Pedro II, patrocinador da obra. (N. do Org.) 
28 Na literatura é um processo retórico, que praticamente se refere a uma ficção (pessoas, lugares 
e fatos), mas com caráter de realidade. 
29 Irmã da índia Paraguassú. 
30 Espécie de árvore comum em Lisboa. 
31 “José Basílio da Gama (1741 - 1795) Poeta brasileiro, nasceu em Minas Gerais e faleceu em 
Lisboa. Estudou em Portugal e viveu algum tempo em Roma, ingressando na Arcádia Romana 
com o nome de Termindo Sipílio. De volta a Lisboa foi condenado, por suspeita de jesuitismo, 
ao degredo em Angola.Salvou-o um epitalâmio que dedicou à filha do marquês de Pombal, 
que o indultou, libertou e protegeu. (...) Sua obra mais importante é o poema épico Uruguaio, 
que narra as lutas dos Setes Povos das Missões do Uruguai contra o exército luso-espanhol que 
vinha executar os dispositivos do Tratado de Madrid (1750), o qual transferia aos portugueses 
essas missões e aos espanhóis a Colônia do Sacramento.” Disponível em: 
http://urs.bira.nom.br/autor/brasil/basilio_da_gama.htm Acesso: 21/05/2020. (N. do Org.) 
 
 
84 
 
 
 
 
POESIAS 
INÉDITAS 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
85 
 
Amei-te 
 
 
Amei-te, não te o nego; no meu peito 
Um altar te erigi de puro afeto, 
Embora me oferecesses desumana 
Em taça de cristal licor infecto. 
 
Percorre muito embora a negra escala 
Das injurias cruéis, que me hás vibrado; 
Sempre me lembrarei dos magros dias, 
Que ditoso frui junto a teu lado. 
 
Menti-te; que em meu peito um anjo mora, 
Um santo, um terno amor que me dá vida? 
Que importa? - Foi um bálsamo celeste, 
Com que cicatrizei funda ferida. 
 
Não devo me queixar, nem tu te deves 
Da sorte, que rompeu nossas cadeias: 
Foi vontade do céu-; nem gemo e choro 
Pra quê no meu amor penado creias. 
 
Reflete um só momento, alonga a vista, 
Mede toda a extensão desse passado, 
Onde tudo era gozo, onde um teu riso 
Me atraía a teus pés, d'amor curvado. 
 
Hás de d'ele um pungir achar de dores, 
Uma suspeita van, pranto e delírio; 
Mas não confunde o amor que brota da alma 
Com a dor, com o pranto do cruel martírio... 
 
Ambos amamos; e dizê-lo podem 
A selva que nos viu sorrir outrora, 
O sol extremo, perfumando o ocaso, 
A. cândida rolinha gemedora. 
 
Que pôde contra nós a vil calúnia? 
 
 
86 
 
Teu ódio contra mim duro e tirano? 
A calúnia caio, infame e negra, 
Teu ódio perdoei, teu trato insano. 
 
Cobre-me de impropérios, manda ao vento 
Palavras de desprezo em teus queixumes, 
Elias me arrancarão lagrimas tristes, 
Mas n'elas gostarei doces perfumes. 
 
Deixa o tempo passar, - vir novo tempo, 
Deixa o tronco morrer, - vir tronco novo, 
Deixa findar as gerações presentes, 
E suceder-lhes do porvir - o povo. 
 
O tempo em seu passar dirá aos tempos, 
O tronco no brotar, na voz as gentes: 
Que amor o deles! - mas que pecos frutos - 
Ódio, suspiros, lágrimas frequentes! 
 
Embora! - nosso amor será eterno 
No eco desta voz querida; “eu te amo!” 
Das aves repetida, das florinhas, 
Da lua e brisa, que conversa ao ramo. 
 
Recife - 1856. 
 
J. Coriolano de S. L. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
87 
 
D. Clara. 
 
Lendo, há coisa de uns três anos, a famosa batalha dada em Porto-calvo, 
em 1637, contra os Holandeses, comandados pelo príncipe João Maurício de 
Nassau, onde tanto sobressaíram, por atos de bravura, denodo e verdadeiro 
patriotismo. - Henrique Dias, D. Antônio Filipe Camarão e a nossa 
incomparável heroína - D. Clara, mulher deste herói, fiz as quatro estâncias que 
vão ser publicadas; estâncias sem nenhum mento poético, porém importantes - 
somente pelo fato de serem dedicadas a uma filha do Brasil, cuja heroicidade 
faz lembrar a ficção das Amazonas, e cuja memória será sempre grata aos 
corações brasileiros. 
 A sua memória, pois, tributo este mesquinho monumento de 
fraternidade, admiração e respeito. Foi nesta mesma batalha que fugiu 
vergonhosamente o conde Bagnuolo, depois príncipe na Itália por mercê de 
Filipe IV. 
 
D. CLARA 
 
(Mulher de D. Antônio Filipe Camarão.) 
 Ia a seu lado a combater briosa, 
Nem teme a multidão que o campo inunda. 
Durão - Caramuru cant. 4.° est. 46. 
 
Quem é aquela que encurvando o arco 
Atira a flecha contra o holandês? 
Que obriga ao batavo covarde e fraco 
Voltar as costas pra não vir-talvez? 
Quem é aquela que no horror da luta 
Ostenta um porte-marcil, gentil? 
Que em prol da Pátria valorosa luta? 
- É Dona Clara, filha do Brasil! 
 
Nem se atordoa do zunir das balas! 
Nem do ribombo do feroz canhão! 
Tem para os seus animadoras falas! 
Ferve-lhe ao peito liberal vulcão! 
Não se aquebranta no lidar da guerra! 
Grande heroína! que mulher gentil! 
 
 
88 
 
Pois quem no peito tal denodo encerra 
- É Dona Clara, filha do Brasil! 
Do esposo intrépido peleja ao lado, 
Do nobre e invicto herói Dom Camarão! 
Não erra tiro! - lá rojou banhado 
Em sangue o batavo no pó do chão! 
Aprende, Holanda, da Brasiléia e a gente 
Heroicos feitos de um valor gentil, 
Oh que heroína! que mulher ingente! 
- É Dona Clara, filha do Brasil!” 
 
No entanto zunem pelo ar as balas, 
Que veem humildes a seus pés morrer! 
Ella tem sempre animadoras falas, 
Que á gloria excitam, sem jamais torcer! 
Vissem-na junto do guerreiro esposo 
Com aquele garbo e marcial perfil, 
E não dissessem: “Coração brioso! 
- É Dona Clara, filha do Brasil!” 
 
Olinda - janeiro - 1856. 
 
J. Coriolano de S. L. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
89 
 
Qual a causa do mal? 
 
 I 
Ou o mal procede ou nasce 
De uma causa natural, 
Ou é por Deus enviado 
Para castigo ao mortal. 
 
Eis as faces por que vamos 
Encarar esta questão, 
Guiados pelos princípios 
Que nos dita a sã razão. 
 
Se o mal só tem sua origem 
N'uma causa natural, 
Não tem o homem motivos 
Para queixar-se do mal. 
 
É mister sua existência 
Com a do bem a contrastar; 
Só assim a natureza 
Pôde bem se harmonizar. 
 
Sem a simétrica ordem 
Do regozijo e da dor 
Da alegria e da tristeza, 
Da antipatia e do amor; 
 
Sem que exista a alternativa 
Do bem seguido do mal, 
Do pequeno animalejo 
Em frente ao grande animal; 
 
Sem que exista a alternativa 
De um ano de inverno ruim 
Seguido de um ano fértil. 
Ou este de um seco enfim; 
 
O prazer sempre perene, 
 
 
90 
 
O bem sem nunca mudar 
Seriam tão corriqueiros 
A não poder-se aturar. 
 
Certos de haver sempre inverno, 
De tudo baratear, 
Muita gente preguiçosa 
Deixava de trabalhar. 
 
Além de legar aos filhos 
A preguiça, a inação, 
Trocaria o vandalismo 
Pela sorte do ladrão. 
 
É, pois mister que em seus gozos 
O bem depare com o mal, 
E que o mal nos seus rigores 
Encontre o bem afinal. 
 
Que vez a pálida lua 
Nos é mais grata que o sol! 
Que vez ao canoro cisne 
Prefere-se o rouxinol! 
 
Eis pois: - se da natureza 
É que se origina o mal, 
E se este se faz preciso, 
De que queixar-se o mortal? 
 
Seria melhor que o mundo 
Caísse por uma vez 
Sem esta grande harmonia 
Com que o criador o fez? 
 II 
Debaixo deste outro ponto 
Considere-se a questão: 
Se Deus aos homens envia 
Os males por punição. 
 
 
 
91 
 
Não existia o que existe: 
Deus foi quem tudo criou, 
Deu-nos a vida tirando-a 
Nenhum direito lesou. 
 
O mundo é propriedade, 
Do onipotente fator, 
Pode, se acaso anda errado, 
Castiga-o com rigor. 
 
A escolha do castigo 
Depende de suas mãos; 
Humildes nos sujeitemos 
Gomo seus filhos - cristãos. 
 
Quem mais sofreu neste mundo 
Tormento e dores que Jó, 
Sobre o monturo assentado, 
Coberto de úlceras - só? 
 
E blasfemou algum dia? 
Quando deixou de ter fé? 
Os bens que a sorte roubou-lhes 
Não viu outra vez de pé? 
 
Este mundo é um mistério!... 
Deus - assim foi que o formou; 
Louvemos a mão do Eterno; 
Nas maravilhas que obrou. 
 
Quem descortina segredos 
Que cobre divino véu? 
 - Ninguém. A Deus exaltemos 
Na terra como no céu. 
 
Recife (pelo cólera) 1856. 
J. CORIOLANO DE S. L. 
 
Publicado no Jornal O Ensaio Filosófico Pernambucano: Periódico Científicoe 
Literário. “Avante e sempre!” Ano II., Agosto de 1859, Nº 5. 
 
 
92 
 
O conselho da virgem. 
Les vierges sont des fleurs mystérieuse 
qu’on trouve dans les lieux solitaires. 
 - Chateaubhiand - 
 
 
Um dia, - quase inerte - junto d'ela, 
Perguntou-me o que eu tinha, suspirando; 
E eu lhe disse: - Padeço, virgem bela, 
Os rigores do fado mais infando... 
 
Ai! padeces! não vês que eu também sinto 
Os males que tu sentes, muito amado? 
Ai! não vês deste peito no recinto 
Meu triste coração dilacerado?... 
 
Conheço, bela, os dotes do teu peito, 
Que aos anjos te nivelam! - mas a sorte 
Cruel, impiedosa, neste leito 
Me tem dado a sofrer mais de uma morte. 
 
Vejo meus dias que um a um se escoam, 
Vejo fugir-me a dita que eu sonhara. 
Ouço as vozes do sino que já soam 
Por um triste - por mim que se finara. 
 
E perder dos teus mimos esse agrado, 
Não ver mais teu sorriso, nem um pranto 
Vertido, como agora, deslizado 
Por tuas frescas faces, meu encanto! 
 
Não poder junto a ti, ó muito amada, 
Sentir esse ambiente que respiras, 
Nem tua nívea mão - acetinada, 
Nem suspirar contigo, se suspiras... 
 
Nem beijar-te os cabelos refulgentes, 
Nem com eles brincar a sós contido, 
Nem ver nestes teus olhos - inocentes 
 
 
93 
 
Dois anjinhos chorar, sorrir comigo... 
 
Não ouvir-te dos lábios maviosa, 
Mitigando os rigores do passado, 
A doce melodia e deleitosa 
Da voz que eu ouço sempre extasiado... 
 
E ainda que meus dias desgraçados 
Perdurem n'este leito de amargura. 
Que valem tristes membros intricados? 
Sem ti, bela, o que valho? Oh desventura! 
 
Ai! isto não será pior que a morte? 
Para que vi a luz? O mãe querida, 
Porque não me abafaste?... Desta sorte 
Não sofrera mil mortes minha vida. 
 
Amado! não delires... este mundo 
Nem é sempre tenaz nos seus rigores: 
Quantas vezes, depois de um mal 
Nos profundo, não semeia a senda de mil flores? 
 
Olha; um dia eu notei: minha roseira 
Crestava ao estivo sol; chorei sobre ela 
Mas, erguida do leito á luz primeira, 
Visitando-a, encontrei-a linda e bela. 
 
E quando o sol em prumo dardejava 
Sobre a terra seus raios queimadores. 
De novo visitei-a, e como estava 
Tão viçosa, embalando as meigas flores! 
 
Pois assim ha de ser... Não te amofines 
Com os revezes da sorte. Em breve o dia 
Raiará de ventura, nem me ensines 
Pesares, quando eu sonho com alegria. 
Depois da cerração, que tolda os ares, 
Por fim desponta prazenteira aurora, 
Depois de turvos, procelosos mares, 
 
 
94 
 
A barca chega ao porto e a salvo ancora. 
 
Mas, se a sorte cruel, despiedosa 
Prostrar-te para sempre n'este leito, 
Crê na mina alma, que será piedosa; 
Crê no meu terno, compassivo peito. 
 
Ah! já vejo teu rosto serenado, 
Já um riso me cedes d’esperança, 
Assim é que eu te quero, ó muito amado, 
Em; mim, nos céus, em Deus tem confiança. 
 
 
Príncipe Imperial (no Piauí) 1853. 
 
J. CORIOLANO DE S. L. 
 
Publicado no Jornal O Ensaio Filosófico Pernambucano: Periódico Científico e 
Literário. “Avante e sempre!” Ano II., Setembro de 1859, Nº 4. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
95 
 
 O BRASIL 
 
Para servir-vos, braço ás armas feito, 
 Para cantar-vos, mente ás musas dada 
 (Camões.) 
 
 Nada por mim, por minha pátria tudo; 
Fados brilhantes ao Brasil concede. 
(Sr. Dr. Magalhães) 
 
 
N'esta terra dos “Andradas” 
Tudo é belo e primoroso, 
Tudo é grande e precioso, 
Tudo é nela especial! 
Eu creio que foram fadas 
Quem descobrira tal terra! 
A tradição, talvez, erra 
Quando diz que foi “Cabral.” 
 
Fosse embora o lusitano 
Que esta terra do cruzeiro, 
Onde mora o brasileiro, 
Descobrira, - fosse enfim: 
Guiou-o um ser sobre-humano 
Pra descoberta tamanha, 
Fez a mais alta façanha, 
A mais alta, quanto a mim. 
 
Pois o Brasil tem lindezas 
Que não tem as outras terras 
Meu Brasil, em ti encerras 
Os tesouros minerais. 
Dos três reinos as riquezas 
Se contêm no teu recinto. 
Me arguam, se acaso minto, 
Se as frases não são reais, 
Eu sinto a mente inspirada 
Quando em teus destinos penso. 
“Teu porvir será imenso” 
 
 
96 
 
Qual na mente me reluz. 
Pátria minha abençoada 
Pelo Deus da cristandade, 
“Terás sempre a liberdade 
Por divisa - olhando a Cruz.” 
 
Quis a França, quis a Holanda 
Ter esta terra ditosa, 
Onde a Cruz esperançosa 
Os seus braços nos abriu; 
Mas essa cobiça infanda 
Pela pátria do cruzeiro 
Sufocou-a o brasileiro 
Com a flecha que então brandiu! 
 
Colônia este povo bravo 
De Portugal belicoso, 
Sentiu o jugo odioso 
Do governo português. 
Quis este fazê-lo escravo, 
Mas troou do sul ao norte 
“D'independência ou de morte” 
O grito por uma vez. 
 
E essa terra belicosa, 
Que nutriu “Camões e Gama 
Que no valor e na fama 
Quase não teve rival, 
Curvou a fronte orgulhosa 
Ao ressemeado gigante, 
E o Brasil venceu — pujante 
O reino de Portugal! 
 
Aqui viu sorrir-lhe a aurora 
Da vital primeira fama 
“José Basílio da Gama” 
E o “Santa Rita Durão:” 
Ambos a tuba canora 
Nos seus versos embocando, 
 
 
97 
 
Foram seus nomes legando 
Do porvir a geração. 
 
E a nossa bela heroína 
Pelo Durão decantada, 
Que foi esposa adorada 
Do grande “Caramuru-,” 
Essa Dona “Catharina,” 
Que antes do sacro batismo 
Era por patriotismo 
Chamada “Paraguaçu:” 
 
Também nasceu sob a copa 
D'estes bosques que topetam 
Com as nuvens, - que lancetam 
O ar com seus Coruchéus: 
N'esta terra onde se topa 
Quanto é grande e majestoso! 
Onde o mar estrepitoso 
Seus hinos modulam aos céus! 
 
E a pátria de “Henrique Dias,” 
Este solo abençoado, 
Que teve o “Nunes Machado” 
As “Claras” e os “Camarões,” 
É o tipo das harmonias, 
O país mais deleitoso! 
Além de ousado e brioso, 
É todo d'inspirações! 
 
Nosso sol é mais brilhante, 
Nossa lua mais saudosa, 
Nossa aurora mais mimosa, 
Mais corada, mais gentil; 
Nosso céu mais cintilante, 
Mais juncado de luzeiros. 
O Brasil dos brasileiros 
É muito belo Brasil! 
 
 
 
98 
 
Nosso solo é mais fecundo, 
Nossas correntes mais puras, 
Nossas vastas espessuras 
Contém doces frutos mil. 
Tudo nosso é belo e mundo! 
Nossas flores mais cheirosas, 
Nossas damas mais formosas, 
Tudo é mais cá no Brasil! 
 
Sim, as belas brasileiras 
São mais lindas e engraçadas, 
Carinhosas e prendadas 
Que as belas do outro país. 
São donosas, são fagueiras, 
Sejam louras ou morenas, 
Lírios, rosas, açucenas 
Mostram nas faces gentis. 
 
Do Brasil gosta o estrangeiro 
Por seu solo fecundado, 
Por seu clima temperado, 
Seus encantos, seu primor. 
No Brasil hospitaleiro 
Tem a brisa mais frescura, 
Tem o favo mais doçura, 
Tem os homens mais amor. 
 
O Brasil, oh! quanto é belo! 
Se ao mês estivo, calmoso 
Já sucede o mês chuvoso, 
Cada várzea é um jardim! 
E não custa para sê-lo: 
De um dia pra outro dia 
Já chupa a abelha a ambrosia 
Da flor neve-carmesim!* 
 
Nossos leves passarinhos 
Com seus suaves gorjeios 
Nos causam gratos enleios, 
 
 
99 
 
Nos geram grato cismar... 
Nos cumes ou nos raminhos 
Trinam mais que estranhas aves, 
São seus cantos mais suaves, 
Enlevam mais no cantar. 
 
E eu gosto de minha terra, 
Que é de primores vestida, 
De sua tarde sentida 
Qual donzela a suspirar. 
Tudo que é bom ela encerra: 
Donaire, graças, encantos, 
Ás vezes - saudade, prantos 
Suspiros de muito amar. 
 
Vale muito uma saudade, 
Um suspiro, um terno pranto; 
Às vezes exprimem tanto...Quantas vezes: - doce amor! 
E eu gosto de uma saudade, 
Gosto das lágrimas puras, 
Que exprimem nossas venturas 
Entre suspiros e dor! 
 
 
Viajando do Piauí para o Ceará -1854. 
 
 
J. CORIOLANO DE S. L. 
 
 
*Nas várzeas do Piauí e do Ceará há uma raiz bulbosa, vulgarmente chamada cebola 
brava, que depois de dois dias de chuva, germina e ostenta-se com um talo mui delgado 
e flexível, cousa de um palmo, coroado com uma florzinha muito bela; e aparece em 
tanta quantidade, que dá a uma várzea, toda inchada pelos vegetais que estão surgindo 
á face da terra, e já sombreada pela verdura, uma perspectiva sobre modo agradável. 
Muito admiro a presteza com que nasce, cresce e floresce a cebola brava! 
 
 
 
 
100 
 
 SOLIDÃO 
 
Eu amo a solidão! - aqui meu peito 
Eu sinto dilatar-se, e ter mais vida; 
Aborreço os salões, onde se mente, 
Onde a voz, que se falia, é voz fingida. 
 
Que valem meigos risos sedutores? 
Que valem frases, que não vem do peito? 
Eu amo a solidão! - dos seus eflúvios 
Eu sinto dentro d'alma o puro efeito. 
 
Zombe embora de mim a turba insana, 
Que vive nos prazeres engolfada, 
Eu olho-a sobranceiro, como o cedro 
Olha a frágil vergôntea soçobrada. 
 
Amável solidão, quanto eu te amo! 
Amor, pureza, encantos, tu resumes; 
Só tu me dás alívio ás minhas mágoas, 
Em ti vivo de amor e de perfumes. 
 
Nas graças naturais, que te circundam, 
A ideia do infinito em ti contemplo; 
E' teu solo um altar da Divindade, 
Teu céu azul, diáfano é o templo. 
 
As aves, que modulam seus gorjeios, 
São anjinhos na terra, que desencantam, 
As flores, que perfumam teu espaço, 
São incensos a Deus, que se alevantam. 
 
Quando o mundo real meus olhos viram, 
E o vagido primeiro dei a terra, 
A sorte impiedosa disse: “Vai-te! 
Sê poeta, padece, chora e erra.” 
 
E eu tenho padecido e hei chorado, 
E minha vida há sido sempre errante; 
 
 
101 
 
Sou como a folha, que o tufão arrasta, 
Sou como o echo de choroso amante. 
 
Cumprirei minha sina como as aves, 
Que solitárias vivem pelas selvas, 
Como a flor inocente, peregrina, 
Que nasce, cresce e murcha junto ás relvas. 
 
Cachoeirinha (Icó) 1856. 
 
J. CORIOLANO DE S. L. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
102 
 
 
 
 
APÊNDICE 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
103 
 
Artigo “Crônica Geral” do Jornal A Reforma: Órgão Democrático Rio 
de Janeiro, Sábado 1º de abril de 1871, Nº 73, Ano III 
 
 Crônica Geral 
 
Na capital da província do Maranhão foi publicado um volume de 
poesias do falecido Dr. José Coriolano de Souza Lima. 
 Intitula-se o livro Impressões e Gemidos a encerra muitas páginas 
de valor artístico. O Dr. Coriolano era um poeta do merecimento e 
versificava com elegância. 
 Foi revisor da obra o falecido latinista Sotero dos Reis, juiz 
insuspeito o que sobre ela assim se exprimo em uma carta dirigida 
ao editor da obra. 
 São estas as palavras do sábio maranhense, e com elas 
rematamos esta notícia: 
 “Corrigi a folha sexta pelo autógrafo do autor, o qual V. S. 
devia ter-me mandado desde princípio, e como qual cotejei a prova 
três vezes; por isso deve ser emendada na imprensa tal qual. O 
mesmo farei com as outras folhas que se reimprimirem. 
 A ortografia do autor é mui simples, apropriada e poética. Até 
hoje só me têm vindo cópias, pelas quais apenas podia fazer dela uma 
aproximada e imperfeita ideia, quando a nossa ortografia não está 
ajuda sujeita a regras invariáveis, como sabe. 
 De posso d'este precioso autógrafo, pois o poeta é um verdadeiro 
poeta e de mui sabido mérito, asseguro lhe que as folhas reimpressas 
hão de sair a contento do quem manda fazer a reimpressão.” 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
104 
 
Consideração de O. G. Rego de Carvalho sobre a edição da 
obra Deus e a Natureza em José Coriolano* 
 
A seção se chamava “De critério” 
“Por se tratar de assunto piauiense, melhor que eu dirigisse a carta 
a um dos jornais de Teresina, não fosse o comprometimento deles a favor 
ou contra o Governo do Estado. Daí por que tomo a liberdade de escrever 
ao JB, até porque o faço na defesa de princípios consagrados na legislação 
brasileira. 
 A recente lei dos direitos do autor, na definição dos direitos morais, 
obriga o editor a fazer constar da obra o nome, pseudônimo ou sinal 
convencional do autor, e o título do trabalho sem qualquer alteração. 
 Pois o Governo do Piauí, no intuito de divulgar livros de 
autores falecidos (O que é louvável), confiou a tarefa ao presidente da 
Academia Piauiense de Letras, prof. A. Tito Filho, e este, sem atentar para 
aqueles princípios, vem publicando as obras, na editora do Governo, com 
alteração do título e até do autor. 
 Pasmem os leitores do augusto JB. Cito apenas um caso: J. 
Coriolano (assim era como assinava, em vida, José Coriolano de Sousa 
Lima) deixou pronto, para edição póstuma, feita em 1870, um livro de 
versos – Impressões e Gemidos – ora reeditado numa coleção de 
monografias (!), com o seguinte título constante de capa, frontispício e de 
284 páginas: Deus e a Natureza em José Coriolano, autor A. Tito Filho. 
De autoria deste, contém o livro uma página dizendo que não foi a 
intenção dele alterar – e alterou – o nome da obra, uma dedicatória 
impressa e um glossário. 
 J. Coriolano, o autor falecido, ficou em segundo plano, pois o autor 
do glossário aparece em todas as páginas como autor do livro. E assim é 
com vários trabalhos de autores piauienses, reeditados sob os auspícios 
do Governo do Estado. 
O. G. Rego de Carvalho – Teresina” 
 
*Publicado em primeira página do jornal do Brasil do Rio de Janeiro na edição de 28 e 
março de 1974, que tinha como diretora presidente a Condessa Pereira Carneiro. 
 
 
105 
 
Agradecimentos do jornal O Ensaio Filosófico Pernambucano 
ao poeta J. Coriolano 
 
“Agradecemos cordialmente ao Sr. José Coriolano de Souza Lima 
o nobre apoio, que sempre se dignou prestar ao Ensaio Filosófico. 
Ainda desta vez o distinto acadêmico, apesar de seu estado 
valetudinário acordo com a bondade, que nunca o desampara ao 
nosso reclamo, dando-nos uma de suas mimosas e sentimentais 
produções poéticas, a qual se encontra neste periódico. 
Quem sabe quais os sofrimentos físicos por que tem passado e está 
passando o Sr. José Coriolano, não pode deixar de possuir-se de 
admiração pelo seu heroico sacrifício ás letras. 
Em verdade é pena, que a uma inteligência tão robusta falte um corpo 
são. Com a abertura da Faculdade principiaram os trabalhos do 
Ensaio Filosóficos.” - Publicado no Jornal O Ensaio Filosófico Pernambucano: 
Periódico Científico e Literário. “Avante e sempre!” Ano II., Julho de 1859, Nº 4. 
 
SOCIEDADE ACADÊMICA ATHENEU PERNAMBUCANO. 
 
Presidente Honorário - O Ilmo. Sr. Dr. Joaquim Vilela de Castro Tavares. 
Presidente Efetivo - O Sr. Fernando Alves de Carvalho. 
Vice-Presidente -O Sr. Henrique Pereira de Lucena. 
 
 
Comissões especiais: 
 
Direito, Ciências Sociais, Filosofia, História/Geografia, Literatura e 
Poesia. Os Srs. - José Coriolano Souza Lima, Antônio Baptista Gitirana 
Costa e José Manoel de Freitas. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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Correspondência dirigida ao jornal O Liberal Pernambucano e 
publicada na edição do Ano III, Quarta feira, 5 de Julho de 1854. 
 
 
Srs, Redatores, 
 
Não tendo o Diário de Pernambuco querido aceitar a 
correspondência infra, porque nela falo com a franqueza de que sou 
capaz, contra o mau hábito do seu correspondente de somente narrar 
fatos que dizem respeito aos seus inimigos e desafetos, e nunca dar 
penada gente sua, recorro por isso, Srs. Redatores a sua patriótica folha, e 
espero ser acolhido; devendo a dita correspondência ser publicada do 
mesmo modo porque foi oferecidaao Diário, Pelo que, Srs. Redatores, 
lhes ficará eternamente agradecido 
 Seu atencioso leitor e afetuoso criado. 
 
Olinda, 1 de julho de 1854. 
José Coriolano de Souza lima. 
 
 
 
Se, guiado pelos princípios de honra de e equidade, é pelo amor que 
consagro ao pequeno torrão em que soltei o meu primeiro vagido, não julgasse de 
meu mais rigoroso e sagrado dever aparece diante do ilustrado público 
Pernambucano com a advertência ou reflexão que vou fazer, e que premente 
exporei, nunca, por certo, Srs. Redatores, meu nome se inscreveria em uma das 
colunas de seu mui conceituado jornal porque, além de ser totalmente 
desconhecido desta província, acresce que me faltam habilitações de escrever 
para o público duas linhas que mereçam, pelo lado científico, ser lidas; mas, 
como disto não se trata, e nem eu temo censuras, porque a minha questão não é 
de ciência; e somente tenho de fazer conforme permite minha fraca inteligência, 
um breve juízo ou reparo, atento-me a pedir a benévola atenção do público. 
 O correspondente do Piauí, existente na Teresina, tem-se-me em suas 
correspondências, insertas nesta folha, revelado não como devera ser - sincero e 
justiceiro; - porém desleal, injusto e malédico - no último ponto; servindo-se de 
suas ditas correspondências como do mais pronto canal, em que derrama toda sua 
bílis e rancor contra seus inimigos; já querendo (de balde) ofuscar perante as 
vistas do público o mérito - em todo o Brasil reconhecido - do meu nobre, 
talentoso e honrado patrício o Sr. Dr. Casimiro José de Moraes Sarmento ;já 
indispondo o público contra o Rvm. Dr. Luiz Lopes Teixeira, a quem pretende 
ridicularizar, chamando o padre veneno; já envolvendo no pernicioso véu do 
esquecimento os inumeráveis e execrandos feitos dos moquecas seus amigos; e já 
 
 
107 
 
finalmente fazendo a todo o momento reviver essa ideia terrível, e em parte 
mentirosa, de malvadeza, que se há disseminado contra os Melos do Príncipe 
Imperial, pelos seus mais encarniçados inimigos. 
Eu ignoro, Srs. Redatores, quem seja esse correspondente; mas, em todo o 
caso, não tenho o mais pequeno vislumbre de receio em afirmar - que ele é algum 
dos mais emperrados saquaremas do Piauí, antagonista decidido do benemérito 
Sr. Dr. Moraes Sarmento inimigo contumaz e odiento dos meus desgraçados 
parentes Melos, protetor acérrimo e gostoso dos excomungados moquecas - 
assassinos monstruosos dos meus infelizes primos e amigos padre Ignácio 
Ribeiro e Mello e Sebastião Ribeiro e Mello, e de outras muitas desgraçadas 
vítimas que furão imoladas no altar da perversidade ao sangrento deus de seus 
cultos, a esse deus que lhes torna as ressequidas entranhas insaciáveis do sangue 
de seus semelhantes: e a final - algum dos mais gratuitos inimigos do Dr. Luiz 
Lopes. 
 E no Príncipe Imperial, onde infelizmente moram os réprobos, os 
excomungados vitandos - assassinos do padre Ignácio, onde tem o padre Luiz 
Lopes com uma resignação Evangélica; arrostado os mais eminentes perigos 
onde se lhe tem feito várias emboscadas, de que ele e outros inocentes têm 
escapado, com o fim de dar-se-lhe o mesmo destino que a seu tio padre Ignácio; 
onde já o esperarão para o mesmo fim em uma missa, que pretendia celebrar de 
madrugada, e de que milagrosamente escapou, sendo avisado (note-se bem) por 
um moqueca ou entidade sua, que ainda se lembrava que existia inferno; onde - 
até o tem querido envenenar no ato da Consumação do Santo Sacrifício! (donde 
provavelmente procede o nome de padre veneno com que o correspondente 
mimosea-o.) e onde finalmente os famigerados - moquecas, Paivas Bezerras, 
Melos Falcões e emas (refiro-me ao excomungado, sacrílego e simoníaco padre 
Antônio Ricardo d'Albuquerque Cavalcante, célebre por todos estes atributos que 
lhe dou e a que tem direito incontestável ) apresentam matéria para folhas e 
folhas; tanto por serem muito mais malvados que alguns dos Melos, como 
porque, estando agora dando as cartas no P. Imperial, mercês a política, tem 
praticado atos criminosos de toda a natureza, não obstante já pesar-lhes sobre as 
frontes, enegrecidas pelo selo de suas torpes façanhas, uma excomunhão vitanda 
e a mais indelével nodoa proveniente de muitos homicídios, dos quais ainda se 
não quiseram purgar, nem destes nos tribunais é nem daquela ás portas do 
Templo do Senhor! 
 Ora, se os moquecas e sua súcia estão frequentemente a praticar no P. 
Imperial e em outros pontos da província e do império crimes que repugnam a 
referir-se; se Joaquim Moreira, um dos apunhala dores do padre Ignácio, dos 
comedores de seu sangue com doce! (parece incrível! - horrorosa!) é, por miséria, 
deputado á provincial Piauiense, e o que se acha preso na cidade de Sobral por 
esforços do incansável Dr. Luiz Lopes que, como procurador da miserável viúva, 
cujo pobre marido foi espingardeado por esse antropófago, conseguiu metê-lo na 
cadeia; se mil outros fatos que constantemente se sucedem e reproduzem no P. 
Imperial mereciam ser comemorados pelo seu correspondente, Srs Redatores, 
porque, pois, ele, quando trata daquele ponto, olvida-os e somente não despesa 
de abocanhar a reputação do Dr. Luiz Lopes sacerdote comedido, e de fazer 
 
 
108 
 
frequentemente menção de 3 pobres Melos que, tendo apenas usado do que 
entendiam ser direito de represália, - por isso se acham há quase 4 anos sofrendo 
todas as consequências de uma prisão imunda, segregados da sociedade, onde 
influíam, ao passo que os matadores de seus sobrinhos, tios, irmãos e pai 
transitam impunes por todo o município e até pela capital! - não obstante 
acharem-se marcados pelo ferrete dos mais degradantes delidos, sem 
encontrarem (tal é a sua estrela!) um caridoso correspondente que lhes conte em 
boa prosa os memoráveis leitos, assim como eu - em parte e mui 
superficialmente - o estou agora fazendo em termos próprios de quem nunca 
lidou com o respeitável público e com os tipos? 
 - Não posso compreender! 
Não me recordo, Srs. Redatores, já ter lido uma narração qualquer de seu 
correspondente em que se mencionassem leitos mãos de gente sua; se li - seria 
porque mente não me lembro; mas digo-lhes com a sinceridade, de que sou 
capaz, que só no P. Imperial ele achava muita coisa dos moquecas; porém é que 
ele gosta dos moquecas... alguém dirá: - É porque nada tem a relatar por nada 
obrarem eles digno de censura. 
- Não, que depois que aqui cheguei, tenho sabido por meus amigos e 
pessoas desinteressadas muita novidade que devera antes ser arquivada - que o 
título de padre veneno ao Dr. Luiz Lopes. Senhores Redatores – Qual será o 
homem que -; impassível - não pune pelos seus semelhantes, maxime-se, sendo 
vilipendiados, lhes assiste razão? 
Qual será o homem que não escreva algumas palavras em prol da 
inocência a despeito de ver sempre ela triunfar cedo ou tarde? 
Eu, pois, nada mais faço, do que pugnar pelos meus semelhantes 
detraídos, e conseguintemente pela inocência, com quanto saiba que seu triunfo - 
só por si - é infalível. 
A final, Srs. Redatores, devo concluir a minha mal traçada 
correspondência, ou como quiserem chamar; mas é-me necessário ainda dizer - 
que meu intento é tão somente mostrar ao público que o correspondente do Piauí 
não é justo em suas exposições, com as quais pretende, por sem dúvida, prestar 
relevantes serviços ao partido de que é membro: que quanto diz relativamente ao 
P. Imperial é em parte inexato, principalmente se atender que ele fala como cego 
partidário e quiçá um dos chefes do seu partido ali: que acerca do Dr. Moraes 
Sarmento quanto diz reverte na mais solta e imprudente temeridade, porque estou 
inteiramente convencido que não poderá nunca competir com ele em coisa 
alguma, sendo talvez levado a semelhante arrojo contra tão distinto brasileiro 
pela inveja que certamente o rala, pois o Dr. Moraes Sarmento não é somente 
conhecido no pequeno Piauí - o conhecimentoque dele se tem se estende a mais 
alguma cousa. e por fim, que reconheço alguma razão no Sr. correspondente 
quando trata do Dr. Luiz Lopes, porque esse sacerdote tem d'algum modo, é 
verdade que poucas vezes, tal é o cinismo da época, sabido malograr muitos dos 
tenebrosos planos de seus inimigos ; e mesmo porque diz mui ingenuamente - 
que daria a própria vida para arredar de poucos membros de sua família alguma 
mácula que adquirirão, mão grado seu, além de solenemente assegurar aos 
malvados que não teme ter a sorte do tio ; e de ser incansável em propagar pela 
 
 
109 
 
imprensa a maldade e barbaria de seus inimigos com todas as suas horrorosas 
cores. 
 Dignem-se Srs, Redatores, dar publicidade a estas linhas, com o que muito 
me obrigarão. Elias não são mensageiras de termos ridículos, e nem eu digo 
injurias contra o correspondente de Ss. Ss.: chamo-o injusto e malédico porque 
merece: aos matadores do padre Ignácio dou os epítetos que lhes cabem de 
monstruosos, réprobos e excomungados: ao padre ema chamo excomungado, 
sacrílego e simoníaco, porque milhões de vezes o merece esse verdadeiro 
discípulo de Simão Mago, esse homem tão perverso como a perversidade! O Sr. 
Bispo do Maranhão mandou declarar excomungados a todos os assassinos que 
compuseram a escolta que roubou a vida e dinheiro do infeliz padre Ignácio; não 
sabendo porém eu a razão ou por que milagre a excomunhão foi manda, da tirar a 
vapor, como alguém mui apropriadamente disse, não segundo o rito admitido, 
porém mediante o Sacramento da penitencia e nada mais! !! 
E assim mesmo poucos se têm aproveitado dessa mais que benigna 
caridade do meu Prelado, o qual, não prevenindo a respeito, concorreu para que o 
muito virtuoso vigário do p. Imperial Antônio 
Cavalcante de Macedo e Albuquerque se tenha visto em estreitíssimas 
colisões sem poder expelir da casa do Senhor, em quase todos os domingos e dias 
festivos, esses excomungados, que não cessão de polui-o com suas presenças; 
E tudo isto se preveniu perante o Exm. Sr. bispo!.... 
Permita-se-me perguntar a quem entender da matéria: pode-se consentir 
que os assassinos de um sacerdote, excomungados ipso facto, comuniquem com 
os fiéis, ouçam missa e assistam ás mais cerimônias religiosas? - Decida o 
público. 
Senhores Redatores, peço-lhes me desculpem por me haver de alguma 
maneira desviado do meu propósito. 
Sou com a possível consideração e respeito - de Vs. Ss. atento leitor e 
servo reverente. 
 
José Coriolano de Sousa Lima. 
 
Olinda, 28 de junho de 1854 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
110 
 
Gazetilha 
 
Jornal A Constituição: Órgão do Partido Conservador. Belém do Cará. Sábado, 31 de 
agosto de 1878, Ano V, N. 195. 
 
A família Mourão - colega da Boa Nova, publicou hoje o seguinte 
artigo: 
Insultos. - O Conselheiro Tito Franco trocou as luvas de pelica, que 
trouxe da corto, pelo guante de ferro. O alvo predileto de suas verrinas é 
o redator principal da Boa Nova. 
Eis as injúrias escritas no Liberal de ontem: 
 ...“Gangrenado é o sangue Mourão, assassina é a família Mourão.” 
 Injúrias desta ordem não podem ter resposta condigna na 
imprensa, outro devia ser! O meio de desafrontar-nos de tão pungentes 
insultos... 
Mas a educação religiosa, que recebemos, aconselha-nos o perdão 
de tais doestos; e só os reproduzimos para mostrai, ao público o grão de 
alucinação, a que tocou o Liberal do Pará. 
Não podemos nem devemos retaliar. A família do Sr. Tito Franco e 
de seus companheiros de relação nos mereceu sempre muita 
consideração, pois não tem ela culpa dos desvarios de um ou outro de 
seus membros. 
Em nosso periódico nunca consentiremos e as famílias ele nossos 
adversários sejam atadas ao poste da difamação; como acaba de fazer a 
gente ao Liberal do Pará com a família Mourão. 
A ação feia fica com quem a pratica. 
 A família Mourão não é, nem foi assassina. Se alguns membros 
desta família tão numerosa no Ceará e Piauí cometeram atos de violência, 
quando nos nossos sertões não se atribuía a justiça, sendo muitas vezes 
necessário aos ofendidos. O recurso aos meios extraordinários por falta 
absoluta dos legais, isto não admira e facilmente se compreende. 
 O que é, porém reprovado é que atualmente com o nosso estado 
social mais adiantado, se mande friamente em dar; cidadãos pacíficos 
pelo interior da província, com o único fim de deter-se um assento na 
câmara temporária. 
 Que homens sem letras, no momento da paixão, e quando a força 
das armas decidia as questões de honra, tenham concorrido para o 
derramamento de sangue, ainda uma vez não admira. Mas o que espanta 
é ver bacharéis formados, no estado atual de nossos costumes, 
 
 
111 
 
capitanearem grupos de desordeiros e mandarem executar dentro dos 
próprios templos planos sanguinários. 
A família Mourão não é assassina; é infâmia qualificá-la assim. Se o 
redator principal da Boa Nova merece vossas injúrias, não vos doa a mão, 
cumpri vosso fadário; mas insultar-lhe a família para tomar uma 
vingança mesquinha é procedimento sem nome que nada poderá 
justificar. 
Demais, o vosso insulto pesa sobre os que hoje dormem no pó dos 
sepulcros. Desenterrar os mortos é imitar a ferocidade da hiena. 
 Esta família, a quem insultais conta em Ceará, Piauí e Maranhão 
muitos membros que militam nas fileiras do partido liberal, e estes ficarão 
sabendo o que é o partido liberal do Pará. 
Em Pastos-Bons (província do Maranhão) os cunhados e um irmão 
do redator principal da Boa Nova são liberais, e pertencem ao sangue 
gangrenado, a família assassina. - O Dr. José Coriolano de Souza Lima, 
que foi um dos liberais proeminentes de Piauí, pertencia ao sangue 
gangrenado a família assassina. 
O Dr. Manuel Ildefonso de Souza Lima, que foi redator principal da 
Imprensa (órgão liberal da Teresina), hoje juiz de direito de Saboeiro, 
pertence ao sangue gangrenado e a família assassina. 
Os Feitosas do Inhamus (província do Ceará) são todos liberais e 
estão intimamente ligados ao sangue gangrenado e a família assassina. 
 A família Castello Branco do Piauí, toda liberal, embora em grão 
mais distante, possui também o sangue gangrenado da família assassina. 
 A família Souza Lima de Príncipe Imperial (província do Piauí) 
possui em grão muito próximo o sangue gangrenado da família assassina. 
O Dr. Joaquim Felício do Almeida e Castro, atual candidato á 
deputação geral pelo partido liberal do Ceará, é da família Feitosa, tem, 
por conseguinte em suas veias sangue gangrenado e pertence à família 
assassina. 
O finado Dr. Nascimento Feitosa, foi festejado chefe do pari ido 
liberal em Pernambuco, tinha também sangue gangrenado e pertencia à 
família assassina. 
O insulto grosseiro do Liberal não atinge somente o redator 
principal da Boa Nova, mas a muitos dos que trabalharam e ainda 
trabalham pela vitória da causa liberal. Basta. A imprensa liberal de 
Maranhão, Piauí e Ceará, certo não fará coro com o Liberal do Para, e 
reprovará o infame baldão atirado injustamente a uma família numerosa 
e respeitável. 
 
 
112 
 
Falais em retaliar. É isto um miserável pretexto. Acusações feitas 
em geral ao governo não atingem aos indivíduos e ás pessoa? Em nossos 
artigos não individuamos a ninguém. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
113 
 
Um poeta do norte* 
 
Poucos dos nossos escritores revelam tão entranhável sentimento 
ao norte, como o poeta, piauiense Dr. José Coriolano de Souza Lima, 
infelizmente falecido em 25 de agosto de 1809. São do norte o são caráter, 
costumes, crenças; tem a expressão, antes direi a alma, daquela região, 
nas ideias, os assuntos, a vida que ele canta nos seus versos. O inverno ou 
a seca, o gado, os campos de criação merecem-lhe fieis descrições. Pode 
dizer-se que no seu livro está perfeitamente desenhado o Piauí, não digo 
tudo, está fotografada toda a zona sertaneja onde dominaa nossa 
indústria pastoril. 
 Os costumes sertanejos ainda não tiveram ali tão dedicado 
desenhista. O poeta sente satisfação em descrever aqueles espetáculos, 
em entrar na fisiologia daqueles dramas. 
Desde a faculdade do direito do Recife, em que se graduava de 
bacharel a 6 de Dezembro do 1859, não manifestou ele outra paixão nas 
letras. Nos primeiros jornais acadêmicos do seu tempo, Ateneu 
Pernambucano, Arena, Clarim Literário, Ensaio Filosófico, Revista Acadêmica, 
seu nome aparece assinando escritos em que é exaltada a vida piauiense. 
O hábil e ilustrado comprovinciano que lhe prefaciou o livro 
póstumo - Impressões e Gemidos, o Dr. D. Caldas, escreve: 
“Nesse ano (1859) formaram-se na faculdade de direito do Recife 
três moços poetas, que muito se haviam distinguido entre os Seus 
colegas: José Coriolano de Souza Lima, natural do Piauí; Pedro de 
Calazans, filho de Sergipe; e Franklin A. de M. Doria, que viu a luz na 
primogênita de Cabral.” 
O ilustrado biógrafo exprime uma verdade. Quem escreve as 
presentes linhas, matriculando-se então no curso de direito, ainda pode 
alcançar na academia os echos da nomeada dos três talentosos trovistas. 
 Mas como é passageira e como são frágeis e curtos os louros 
provincianos! José Coriolano foi posteriormente juiz municipal, juiz de 
direito, membro da assembleia legislativa de sua província, sempre 
estimado pelos piauienses, como fora na faculdade pelos condiscípulos e 
até pelos lentes; Falecendo pobre, destino entre nós reservado ao homem 
de letras e ao magistrado, toda a imprensa da província referiu-se ao seu 
passamento nos mais honrosos termos. Dois amigos muito distintos, o já 
mencionado Dr. Caldas e o Dr. M. J. de Freitas, ex-deputado geral, ex-
presidente de província, e atualmente juiz de direito no Recife, ao qual 
 
 
114 
 
foram recentemente concedidas as honras de desembargador, resolveram, 
em homenagem póstuma ao seu comprovinciano e amigo, contribuir para 
dilatar a sua honrosa nomeada, este fazendo as despesas da impressão 
das poesias de José Coriolano, aquele prefaciando o livro - resolução que 
se não deixou esperar. 
 Apareceu livro em 1870, A impressão é nítida, direi até 
irrepreensível, o que deixará de parecer exageração, desde que se saiba 
que foi o livro impresso no Maranhão, sob as vistas de Belarmino de 
Matos, este benemérito artista, cujo nome a classe tipográfica deverá ter 
no livro de ouro em que registra as suas glorias. 
O livro tem 302 páginas em 4ª grande. Traz um ótimo retrato do 
autor, litografado na imperial litografia de S. A. Sisson. Compõe-se de 
uma introdução, sessenta poesias líricas. O poemeto sertanejo em três 
cantos - O touro fusco, e notas. Essa introdução é um miúdo e belo estudo 
sobre a vida do poeta; as poesias e o poemeto oferecem originalidade e 
encanto que cativara. Não falta nem aquelas nem a este, o colorido que o 
sentimento da verdade grava nas produções naturais. 
 Pois bem. Perguntai aos literatos desta capital se conhecem esse 
livro, e talvez um ou outro, quando muito, por exceção, possa dar notícia 
dele. Na corte não se pensa no movimento literário das províncias. A 
nossa corte erudita pôde dividir-se em duas: uma é Lisboa, a outra, que 
constitua a quase totalidade, ó Paris. Data de pouco tempo a nossa 
atenção pura a Alemanha e a Inglaterra. As literaturas da América do 
Norte e da América latina do Pacifico e Rio da Prata são desconhecidas 
entre nós. O movimento literário do México e Buenos Ayres ninguém o 
sabe aqui. Ou livros portugueses ou livros franceses - eis os polos em que 
gira o nosso gosto literário. 
O número dos que preferem os livros portugueses aos franceses, 
está hoje muito reduzido. 
Dentre os nossos literatos, apontam-se os que têm nas livrarias 
incomoda permanente de qualquer novo livro que saia á lume em 
Portugal. Desde que se reconheceu: primeiro, que não é racional nem 
possível manter no Brasil a inculcada pureza da língua, que no próprio 
Portugal já se não observa; segundo, que Portugal não é um país que 
ensina, mas pura e simplesmente um país que aprende, como nós 
aprendemos, da França, Inglaterra e Alemanha; os livros portugueses 
tiveram a sua baixa e continuam a baixar, não digo entre os leitores (entre 
estes o velho reino tem, ao menos, em cada filho ausente no Brasil um 
 
 
115 
 
leitor), digo entre os literatos, ou os poucos a quem verdadeiramente cabe 
este nome. 
Assim divididos os homens de letras, cujas vistas vão fixar-se em 
centros estrangeiros, não é para admirar que se mostrem hóspedes no 
tocante as letras nas províncias, lei fatal do que não podia eximir-se o 
valioso livro de José Coriolano. 
Cumpre, porém, observar que o livro foi mandado para esta corte. 
Em 1873 vi um exemplar na vidraça de uma das nossas livrarias. Mas 
passou despercebido. Morreu como tantos outros, sem leitores, sem 
crítica. 
Não devia ser este o seu fim, porque é um dos livros maia 
brasileiros que temos, e, de obras póstumas, ordinariamente frias, não 
conheço nenhuma que, cora a correção e pureza, mostre mais vivacidade, 
e tenha mais vibração. 
O poeta é triste, sentimental, saudoso. Doentio e achacado desde os 
primeiros tempos, a vida manifestou-se-lhe mais pelo lado dos 
padecimento do que pelo dos gozos, que a tornam querida dos seus 
favorecidos. 
A lágrima em Coriolano ora a expressão da realidade, não a de 
romantismo mórbido e piegas por escola. 
Não é menos certo que é a romântica escola em que se filia o 
escritor. Não havia então outra no Brasil. Magalhães, Porto-Alegre, 
Gonçalves Dias, ganharam nomeada duradoura com o romantismo. 
Ha, porém, uma corda que o poeta vibra de preferência, e com 
grande mestria - a da descrição. - Neste ponto realista por intuição. 
Não raro, no meio de um verso harmonioso e suave, foge-lhe, pelo 
sentimento de grafar a verdade, uma palavra, uma frase malsoante, 
prosaica. 
Assim, descrevendo o Crateús, conhecida ribeira do Piauí, lugar do 
seu nascimento, para a qual se sentia atraído por afeto filial que chegava 
ao extremo, escapa-lhe da pena este verso: 
 
“E adeus, terra, onde a alvorada 
Primeira p’ra mim raiou! 
Onde a primeira morada 
Meu pai querido assentou! 
Onde o galo, à madrugada, 
Cantando, me despertou! 
Onde, à primeira alvorada, 
 
 
116 
 
Ouvi-lhe o có-rócô-cô!” 
 
São modelos de descrição as poesias O Catingueiro, Primeiras águas, 
O velho caçador de onça, Canção do serrano. 
A flor do bule bule produções sumamente delicada e original: 
 
“Os cabelos de Maria 
À mais leve exalação 
Se embalançam, 
Brincam, dançam. 
Buliçosos eles são, 
Como a flor do bule-bule, 
Aos beijos da viração. 
 
Quem a visse descansando 
Sua face sobre a mão 
Docemente 
Negligente, 
Dissera-a etérea visão, 
Ou a flor do bule-bule, 
Se não sopra a viração” 
 
Às vezes é de sobriedade inexcedível sem deixar do ser completo. 
Eis como na Primeiras águas descreve a seca e o inverno: 
 
“Foge, pavoroso espectro 
Maça magra e poeirenta, 
Deixa vir o guapo jovem 
Que a tudo, meigo, aviventa.” 
 
Nas cidades o inverno é tedioso. 
Nos sertões é a bela estação, o tempo da alegria e fartura. O poeta 
chama-lhe meigo, porque contrasta com o verão, época da escassez: o 
verão ali é áspero; e, quando se converte em seca, é a penúria e chega a 
ser a calamidade, morte. 
 
“Em teu ossudo regaço 
De medonha catadura, 
Só chilra o grilo, a cigarra, 
 
 
117 
 
Só há poeira e secura.” 
 
São perfeitamente bem cabidos na pena de um poeta piauiense 
estes versos ar inverno: 
 
“O velho tronco lascado, 
Que tinha a seiva perdido, 
Sente as fibras se lhe incharem, 
E brota reverdecido. 
.......................................... 
 
E troveja pra o nascente, 
E o tempo todo empardece, 
E a terra inchada verdeja, 
E o velho tronco enverdece.” 
 
Estudando a personalidade literária de Lamartine, escreve Sainte-
Beuve estaspalavras: 
“O que domina, quer na vida, quer nos quadros de Lamartine, é o 
aspecto verdejante, a brisa vegetal.” 
G. Sanil, duas horas antes de morrer, vendo junto a si as Sras. Lina 
Sand é Solange, um sobrinho e o Dr. Fabre, abriu os olhos, e, com voz 
fraca, mas distinta, disse: “Verdura... deixem verdura!” Penetrando o 
sentido destas palavras, escrevo o Rappel: 
 “Recordaram-se de que ela não havia gostado de terem posto no 
túmulo de seus netos cruz e pedra, e compreenderam que aquela que 
tanto amara e tão bem traduzira a natureza, pedia que deixassem, por 
único monumento, crescer a vegetação em seu túmulo.” 
Repetindo a mesma ideia nos verbos enverdecer, verdejar, 
reverdecer, dever-se-á supor que o poeta piauiense obedece da 
preferência a uma lei do seu gosto, como evidentemente obedecem os 
dois eminentes escritores franceses? 
Não. O verde de Sand e Lamartine, conquanto reflexo da natureza, 
tem o quer que seja de subjetivo, o exprime em parte um fenômeno 
fisiológico do poeta que se inspira no aspecto do meio ambiente, ou este 
poeta esteja na manhã da vida como estava Lamartine, quando Sainte-
Beuve lhe aplicou as palavras apontadas, esteja no seu ocidente como 
estava o grande romancista no momento a que se refere o Rappel. 
 
 
118 
 
O verde de José Coriolano é uma pintura real; é um fenômeno 
objetivo. Verde é o nome que se dá ao inverno; era toda a zona do sertão 
do Norte. Não tem então a natureza ali senão uma cor - a cor verde. Os 
vastos campos de criação, cobertos de mimoso, gramínea vulgar, não tem 
outra tinta. Daí vem chamar-se Verde ao inverno, época do leite, da 
coalhada, dos queijos frescos em abundância. “Vai entrar o verde, 
estamos no verde, está acabado verde” são expressões triviais no sertão. 
Na Canção do serrano, a qual mais conviria talvez chamar-se Canção 
do plantador, quer no fundo, quer no fundo, as ideias do poeta 
manifestam-se com uma realidade palpitante. 
 
“Eia, meus filhos, partamos, 
Vamos à serra plantar, 
Vamos as perdas passadas 
Este ano recuperar: 
Milho, arroz, feijão, farinha, 
Teremos tudo a fartar. 
 
Esta noite ouvi a porta 
Muitas vezes estalar; 
Esta noite a rã esteve 
Constantemente a raspar... 
São sinais de bom inverno: 
Vamos, rapazes, plantar 
 
Também reparei que à noite 
Esteve a relampejar 
Para as partes do nascente, 
Toda noite num cortar! 
É sinal de bom inverno: 
Vamos, rapazes, plantar. 
 
É belo à tona da terra 
Ver-se o legume brotar; 
É belo vê-lo ir crescendo, 
Crescendo até se fechar; 
É belo em manhã serena 
Na roça se passear. 
 
 
 
119 
 
E quando o milho começa 
No roçado a pendoar, 
E depois de pendoado, 
Principia a bonecrar, 
E as vberdes, lindas bonecas 
Começam d’encabelar...” 
 
Vê-se que não está aqui o poeta erudito, sim o poeta popular, 
senhor dos costumes, gostos e vocabulário da multidão, para quem 
exclusivamente parece escrever. 
No gênero descritivo, na cor que é o lado excelente do livro, 
nenhuma das produções de J. Coriolano excede o poemeto O Touro fusco, 
profundamente sertanejo, concebido com muita originalidade, revelado 
com singeleza graça. 
É certo que algumas repetições o prosaísmo se lhe notam, algumas 
ideias lugares diminuem a simplicidade, que ó o tom gorai do poemeto; 
mas, notado, representa uma fel cópia do sertão e como inda o temos. 
 Está dividido em três cantos, cada um dos quais se compõe de 17 
versos hendecassílabo. O assunto é simplíssimo. Canta-se um touro que 
venceu todos os que com ele entraram em briga, o qual veio a morrer 
traiçoeiramente, dando filho um fazendeiro um tiro, por vingar-se da 
morte de um novilho seu, que touro fusco atravessara com as pontas. 
Mas, à sombra deste assunto de tão pequeno tomo, o poeta tem ocasião 
de assinalar, com vivo colorido, a vida Sertaneja, os costumas do criador. 
Vocabulário, preconceitos, episódios, tudo é sumamente brasileiro, e 
particularmente nortista. 
 Sofrendo a influência do meio, o sertanejo é dado a proezas dos 
touros. Sabe-se que muitos bois andam celebrados em lendas e canções 
populares. Boi Esfúcio, o Rabicho da Geralda, e tantos outros, gozam 
destas honras. De que se ha do ocupar o espírito do vaqueiro, do criador, 
que nascem, vivem e morrera lidando com e gado, sua fortuna, sua 
herança, seu futuro, dote que lhes trouxe a mulher, dote que reserva as 
suas filhas. 
 
No belo Crateús, sertão formoso, 
Obra sublime do Supremo Artista, 
Num terreno coberto de mimoso, 
Está sita a Fazenda Boa Vista”; 
Do Príncipe Imperial, bravo e rixoso, 
 
 
120 
 
Vila do Piauí, seis léguas dista; 
Ai, num massapé torrado e brusco, 
Nasceu o valoroso “touro-fusco”. 
 
Em certo ano do século dezenove, 
Além de peste e fome assoladora, 
No pobre Crateús nem se quer chove, 
A seca é por demais abrasadora. 
Um aqui jaz faminto – nem se move! 
Outro ali, ante a Imagem da Senhora, 
Pede, em pranto banhado, ao bento Filho 
Chuva, arroz e feijão, farinha e milho. 
 
Foi neste ano de peste e de carência 
Que o fusco neste mundo foi botado; 
Mas da seca terrível a inclemência 
A mãe-vaca matou-lhe: ei-lo enjeitado! 
Porem dele tratou com diligência 
O bom do criador, com tal cuidado 
Que, embora magro e feio e cabeludo, 
Foi crescendo o bezerro barrigudo. 
 
Pouco a pouco foi ele endireitando, 
Já suas finas pontas amolava 
Na dura ribanceira, onde passando, 
Uma e outra a seu turno ele enfiava. 
Já quando algum garrote ouvia urrando, 
Cavando com a mão também urrava; 
Te que, alfim, de peloso e barrigudo, 
Tornou-se um touro belo e cachaçudo. 
 
Na poesia Consulta e resposta, o poeta aparece sob outra faca, que 
não é menos distinta - aparece como advogado, num traço, ou para 
melhor dizer num relevo encantador. Peço desculpa ao leitor de dar por 
inteiro a espontânea produção. 
 
Bom dia, senhor Doutor! 
Bom dia, senhor Soares! 
D’onde vem? “ – Dos pátrios lares, 
 
 
121 
 
Desse sertão sedutor: 
Eu venho do Piauí. 
Trousse cento e tantos queijos 
Saborosos como os beijos 
Das mulatas do Poti; 
Porém, por desgraça minha, 
Fui ter a certa covinha... 
Que não direi ser de Caco, 
Pois Caco já não existe 
Onde infelizmente assiste, 
E onde tudo abarca e vende, 
Sem dar o menor cavaco, 
Um certo atravessador. 
Por fim de contas, entende 
Que, por ser grande senhor, 
Deve ao credor, bom ou mau, 
Responder sempre: babau! 
 
Vendi-lhe, senhor Doutor, 
Os queijos por atacado, 
Só por trezentos mil reis; 
Venceu-se o prazo marcado, 
Fui cobrar do comprador, 
Insultou-me, - nem dez reis! 
Agora, o que hei de fazer 
Para os cobres receber? 
 
O letrado empavonou-se 
Na cadeira de balanço, 
Tossiu, cuspiu, asseou-se, 
Depois de breve descanso, 
Riscou estalante fósforo, 
Acendeu louro charuto, 
E respondeu sem mais prólogo, 
Em som grave e estilo arguto: 
 
(Soares reprime o fôlego 
e prega e concentra a vista 
na boca flórida, antíloqua 
 
 
122 
 
do grande e Sábio jurista: 
vai ouvir na voz harmônica 
a resposta salomônica.) 
 
 
“Senhor soares, o caso 
Não me parece tão leve, 
Pois não o li no Parnaso, 
Nem no afamado Vanguerve: 
Porém, deixando de parte, 
Mais perluxas citações, 
Dir-lhe-ei com engenho e arte, 
Sem Pandectas sem Lobões, 
Que presto e presto demande 
O tal brejeiro e malsim, 
À casa citá-lo mande 
Por esperto beleguim, 
E citar com hora certa; 
Pois, se ele vir não o encontra: 
Mergulhará como a lontra 
Do caçador descoberta.” 
 
Mas onde, senhor Doutor, 
Mergulhará, pois é fama 
Não há lá rio ou açude? 
 “Aí em qualquer palude, 
Ou nessa fétida lama 
Do brejo do tal senhor.” 
 
Bom dia, senhor Doutor! 
“Bom dia senhor Soares! 
Como vai co’o devedor?” 
Em róseos, serenos mares! 
 
Todos dizem com razão, 
Com sentimento ou vergonha 
Não há mais na carantonha 
De tão velhaco truão. 
 
 
 
123 
 
Inda usou de escapatório, 
Inda tentou mergulhar, 
Ou quem sabe? – mergulhou...Mas o sujeito é finório: 
Julgou prudente pagar 
Os queijos que me comprou. 
 
Certificou o meirinho 
Que ele se havia ocultado 
Para não vir a audiência; 
Mas, sabendo de caminho 
Que já tinha advogado, 
Concordou co’a consciência. 
 
“Agora, já que sou velho, 
Quero lhe dar um conselho: 
Quem usa vender fiado, 
Logrado bem pode ser; 
Mas se fugir do tratante, 
Avante, pode vender. 
 
Tem o tratante na cara, 
Cousa rara! Certo quê, 
Ferrete que o experiente 
Logo sente, logo vê.” 
 
Sim, Doutor, para o futuro 
Protesto andar mais seguro. 
Quanto lhe devo, doutor? 
 
“Eu não recebo dinheiro 
por consulta de credor 
feita contra caloteiro, 
ou contra mau pagador.” 
 
Muito obrigado, Doutor 
 
Na fiel pintura dos costumes do norte, José Coriolano excede G. 
Dias, musa elegante, generalizadora, erudita, e só encontra rival em 
 
 
124 
 
Juvenal Galeno, sumamente popular, quer na poesia, quer nos ensaios do 
drama o de romance, gêneros em que devera ter hoje nome tão extenso 
como o que ganhou na poesia, se as condições do meio onde existe, não 
fossem tão contrárias ao mais vasto desenvolvimento mental e literário. 
 
 
Franklin Távora** 
 
*Pertence a série de biografias que estão sendo publicadas na Nueva 
Revista de Buenos Aires, Argentina, tomos V a VIII, 1882 -1883. 
 
**JOÃO FRANKLIN DA SILVEIRA TÁVORA (Baturité/CE, 13.01.1842 - 
Rio de Janeiro/RJ, 18.08.1888) Escritor de grande vulto era jornalista, político, 
advogado, romancista e teatrólogo. Foi autor de O Cabeleira (1876). Suas obras 
são classificadas em 2 Escolas Literárias: Romantismo e Realismo. Escreveu 
ainda vários outros livros: Trindade maldita (contos, 1861); Os índios do Jaguaribe 
(romance, 1862); A casa de palha (romance, 1866); Um casamento no arrabalde 
(romance, 1869); Um mistério de família (drama, 1862); Três lágrimas (drama, 1870) 
e outros. (N. do Org.) 
 
Publicado no Jornal Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 13 de junho de 
1883, nº 164, Ano IX. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
125 
 
IMAGENS 
 
 
 
 
 
 
Imagem de divulgação de sua obra Impressões e Gemidos em 
jornais do Rio de Janeiro. 
 
 
 
 
 
Sua assinatura. 
 
 
 
 
 
126 
 
 
 
 
 
Coriolano imortalizado em litografia confeccionada por S. A. 
Sisson (Sébastien Auguste Sisson) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
127 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
José Coriolano jovem. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
128 
 
 
 
José Coriolano e sua sobrinha-esposa Maria Cisalpina, com quem 
teve 5 filhos. 
 
 
129 
 
 
Texto de autoria de Coriolano: “O homem é bom ou mau segundo a 
educação que recebe” publicado em primeira capa da Revista Ensaio 
filosófico Pernambucano onde foram veiculadas muito de suas prosas. 
 
 
 
 
 
 
 
130 
 
 
 
 Manuscrito original do poema ‘Crateús’ em posse na Academia de Letras 
de Crateús. 
 
 
 
 
 
 
 
 
131 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Urna funerária da Igreja Matriz de Crateús/CE onde se acham os 
restos mortais de José Coriolano e de sua esposa Maria Cisalpina. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Este livro foi composto em High Tower Text, 13 
pela Editora Uiclap impresso em papel 
Avena off-white, 80g/m²², em abril de 2023.

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