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J O S É CORIOLANO 3 JOSÉ CORIOLANO Prosa Completa e Poesias inéditas Organização, comentários, revisão e notas de Saulo Barreto Lima 4 Copyright© CORIOLANO, José Preparo de Originais: Saulo Barreto Diagramação: Saulo Barreto Imagem da Capa: Sébastien Auguste Sisson Revisão: Saulo Barreto Impresso no Brasil, 2023 1ª edição 1ª impressão Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) __________________________________________ FERNANDES, Saulo Barreto Lima (Org.) JOSÉ CORIOLANO: Prosa Completa e Poesias inéditas – 1ª ed – São Paulo –SP, Brasil: Editora Uiclap 2021. 133, p.: il. ISBN: 978-65-00-66145-3 CBL - Câmara Brasileira do Livro I. Literatura Brasileira │II. Prosa │III. Poeta │Título __________________________________________ Este livro foi revisado segundo o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa obrigatória a partir de 2016 conforme acordo assinado em 1990 entre membros da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP). Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução parcial ou total, por qualquer meio. Lei Nº 9.610/1998 - Lei dos direitos autorais. 2021. Escrito no Brasil. 5 NOTA INTRODUTÓRIA Mais um passo dado, ainda que bastante curto, com vistas a resgatar a obra desse fundamental pensador esquecido para a Literatura Brasileira e Universal, como tantos outros e outras pelo mundo afora. Falamos aqui do poeta José Coriolano (1829 - 69). Avançamos na certeza ainda que, falta muito trabalho no sentido de conscientizar de leitores, militantes e agentes legitimadores com vistas a criar um público receptor na intenção de sustentar a memória e o legado de vultos como ele, que estão a um passo do abismo do ostracismo irreversível. Não só Homero, Hesíodo, Dante, Camões, Shakespeare, Cervantes, Machado de Assis merecem nossa atenção e admiração - que, diga-se de passagem, por méritos pessoais dos mesmos, estão muito bem cuidados e preservados pelo cânone do pensamento universal - mas sim inúmeros outros. Louvemos, pois, pelas vidas dos clássicos também! Ora, porque não! Mas e quanto aos outros que escreveram tão bem quanto? Sou defensor de que – diferente da nossa linda sociedade - não se deve existir privilégios, hierarquia, regalias e escala de valoração no campo da literatura. Todos são importantes! Toda escrita é importante! Todos estão em pé de igualdade e merecem serem lidos, admirados e preservados de igual forma. Não é assim? O resultado desse livro, podemos dizer que foi um típico “trabalho de formiguinha”, além de um exemplar ato utópico, num deserto de cegos onde pessoas como o referido são cada vez menos procuradas e admiradas. Quando tomei ciência da sua existência, tomando contato com a sua peculiar obra poética, me vi submerso diante de um mundo mágico, daqueles que vislumbramos quando lemos os versos pintados pelos mais nobres poetas que visitaram este mundo. Então, diante, de seu abandono e da sua indiscutível qualidade, resolvi adotar o poeta. Estou fazendo às vezes dele aqui nesta era, embora tenha morrido há tempos. Diria que, Coriolano, portanto, está reencarnado, em partes, em mim. Sim, hoje Coriolano vive em mim. Aleluia! Sou hoje um embaixador seu aqui no planeta terra, do qual o mesmo teve a oportunidade de aterrissar, embora de maneira muita efêmera (40 anos somente) lhe dando voz, o que faz dele, por este e muitos outros motivos, também um “imortal”. Depois de algumas tímidas empreitadas positivas no resgate de sua obra poética, faltava finalmente reparar um hiato, uma lacuna importantíssima qual seja: resgatar a sua curta, mas instigante prosa. Todos aqueles que estudam a sua biografia sabiam os títulos delas, mas não o conteúdo em seu integral teor. Como leio mais prosa que verso, fiz questão de buscar pistas e cavoucar todos recursos disponíveis ao meu alcance com vistas a resgatar esses escritos. Uma ferramenta que facilitou muitíssimo esse resgate, foi a Hemeroteca 6 Digital da Biblioteca Nacional, disponível na internet, onde tal plataforma virtual - que congrega impressos antigos das mais diversas ordens – permitiu- nos uma busca nominal nesse grande arquivo disponibilizado de forma gratuita ao domínio público. Essa foi a nossa maior aliada nesse resgate. Lá, estão congregados jornais, cartas, impressos, documentos e revistas antigas de que se tem notícia em todo Brasil. Muitos desses textos, portanto, foram extraídos de impressos como os extintos: Ateneu Pernambucano, Ensaio Filosófico, Revista Acadêmica, Arena, Íris, etc. A busca nominal do assunto de interesse do pesquisador somado aos recursos de cópia dos textos, também, facilitaram muito; haja vista não se ter a necessidade de digitar tudo novamente em word, e sim somente realizar alguns breves ajustes de formatação consoantes as exigências editoriais dos impressos de hoje. Neste livro, portanto, Excelentíssimos Leitores e Leitoras, estão presentes a habilidade do poeta José Coriolano na arte da prosa. Verás que o mesmo abordou um caleidoscópio de temas; algumas críticas, contos, impressões de assuntos de seu tempo, todos eles com fundamentações históricas, filosóficas e religiosas bastantes convincentes. Há um destaque para o conto Um passeio às dez horas nas ruas do Recife, do qual poucos sabiam de sua existência. Sim, Coriolano fora exímio, também na prosa, que mereciam até tais escritos serem comentados e contextualizados com notas. Quem sabe num momento futuro, isso seja possível. Reitera-se, também, um destaque a crítica de seus escritos feitos por Franklin Távora, autor de O Cabeleira. Utilizou-se o poeta claro de uma linguagem e termos não mais usados pela linguagem coloquial e erudita contemporânea. Mas, sua obra resistiu a tudo isso. Sinal de que ela é imortal e eterna, embora o Estado e seus alguns de seus súditos conspirem contra e as deixem submergirem pelo pó dos séculos. Aqui se faz necessário, também, encetar uma observação. Muitos creditam a autoria de Coriolano a peça “Casamento e mortalha no céu se talha”. Mas, no decorrer de todo esse regate não foi possível visualizar nenhum trabalho com esse título de sua autoria. Inclusive, existe sim, o tal escrito; mas sendo creditado a outro escritor, não a Coriolano. Nesse trabalho arqueológico, acabamos ainda, sendo contemplado com o resgate de 6 (seis) poesias inéditas de sua autoria, das quais se fazem presentes no referido livro. Estimam-se de que o poeta tenha produzido em torno de 250 (duzentos e cinquenta) poesias. Destas, temos conhecimento efetivo da existência e compilação de menos da metade, 114 (cento e quatorze); restando, portanto, em torno de 136 (cento e trinta e seis) a serem resgatadas. Esse número chega a assustar, pois se estiverem corretos, mais da metade sua obra ainda não foi conhecida, e muito provavelmente jamais será resgata. Realmente um prejuízo incomensurável para a Nação. Um crime contra a humanidade e de lesa pátria, sem nenhum exagero. 7 Essa constatação é muito lamentável, de cortar o coração e de fazer até os mais brutos chorarem. Essas, que se têm conhecimento, são aquelas notadamente compiladas no seu livro póstumo Impressões e Gemidos (1870), aquelas outras do arquivo de Ivens Mourão (trineto do poeta residente em Fortaleza/CE) e estas 6 (seis) agora resgatadas. Há, também, breves referências sobre sua vida parlamentar, como operador do direito, viagens, a sua família, cartas direcionadas à jornais ao qual colaborava, como o acadêmico talcomo O Ensaio Filosófico Pernambucano e a Revista Acadêmica da Escola de Recife, etc. Ainda a título de informação, como apêndice, foram colocadas informações diretas ou indiretamente relacionadas ao mesmo. Eis adiante um clássico brasileiro que reúne todas as credenciais para entrar cânone língua portuguesa, e quiçá universal, porque não dizer. Um gênio, um homem que de tão valoroso se tornou um sentimento, uma escola - o Coriolanismo. O utópico projeto de resgate segue: a crítica, a biografia, a tradução (primeiramente ao inglês e espanhol), áudio-livros ou livro falado para deficientes visuais, difusão de sua obra em países lusófonos, em países com estudos de literatura ou cultura brasileira, impressão de obras físicas, distribuição para bibliotecas públicas de todo o mundo. Enfim, projetos e a boa intenção são muitos, mas insuficientes, é verdade, para serem realizadas nesse pouquíssimo tempo de vida que temos, sem falar da nossa enfadonha e infrutífera luta pela sobrevivência diária e o esforço vão com vistas ao cumprimento das nossas ilógicas obrigações sociais. Aí está, um aperitivo literário daquele que não chegou a ver sua obra publicada, mas que hoje, é considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa de todos os tempos. Boa Leitura a todos e todas!!! São Luís/MA, 27 de julho de 2016 Saulo Barreto Lima Um Coriolanista 9 ÍN D I C E PROSA O papa é infalível na canonização dos Santos, 11 O Suicídio, 21 O homem é bom ou mau segundo a educação que recebe, 33 A liberdade da Imprensa, 40 Um passeio às dez horas nas ruas do Recife, 49 A Marília Dirceu, 54 O senhor Francisco Muniz Barreto - como poeta, 66 A posteridade e Fr. José de S. Rita Durão, 73 POESIAS INÉDITAS Amei-te, 85 / D.CLARA, 87 / Qual a causa do mal?, 89 / O conselho da virgem, 92 / O BRASIL, 95 / Solidão, 100 APÊNDICES Artigo “Crônica Geral” do Jornal A Reforma, 103 Consideração de O. G. Rego de Carvalho sobre a edição da obra Deus e a Natureza em José Coriolano, 104 Agradecimentos do jornal O Ensaio Filosófico Pernambucano ao poeta J. Coriolano, 105 Correspondência dirigida ao jornal O Liberal Pernambucano, 106 Artigo “Gazetilha”, veiculado no Jornal A Constituição, 110 “Um poeta do norte” de Franklin Távora, 113 IMAGENS 10 PROSA 11 O papa é infalível na canonização dos Santos1 Devoto e convencido da opinião daqueles que sustentam e abraçam de convicção a doutrina da infalibilidade do papa, quando decide ex cátedra2 sobre dogma, disciplina geral, matérias de fé, etc., não podemos deixar de ser coerente com os nossos princípios, reconhecendo e sustentando que o papa é igualmente infalível no ato da canonização dos santos. De qualquer modo, porque se encare a questão da canonização, vemos que todas as razões que militam em favor da infalibilidade do papa sobre matérias de disciplina geral, de dogma ou de fé, militam do mesmo modo quanto a canonização. Se não se pode conceber que o cristianismo persista sem ministros como diz Mazzarelli3, porque estes é que tem ao seu cuidado a guarda do rebanho do pastor universal, que com ele forma um só rebanho e um só pastor (unum ovile et unus pastor4); se não se pode conceber que a vinha do Senhor seja devidamente cultivada sem a existência de vinheiros que dela curem; senão se pode conceber, em uma palavra, que a igreja militante progrida no caminho da vida eterna que ela aplaina5 mediante as lidas religiosas neste mundo, sem o invulnerável escudo da fé, que é a base da esperança, (fides sperandarum substantia rerum6), pois que sem ela trepidaria no seu afanoso7 lidar, não tendo uma coluna de fogo a separasse do ceticismo que da razão humana, nem um piloto que lhe guiasse a barca vacilante ao desejado porto, nem um farol que lhe tirasse todas as mostras de incerteza; como se poderá conceber, que o papa não seja infalível na canonização dos santos, quando sua falibilidade importaria a - idolatria, a descrença, o cisma, em muitos casos, - e até a impossibilidade do progresso do cristianismo? Raciocinemos. O homem, lendo a sentença que escreveu o próprio dedo de Deus: Memento homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris8; tendo a convicção, tanto mais quanto é de fé, que há de um dia voltar a matéria prima de sua formação, porque independente do mais, assim lhe o assegura a experiência e prática do mundo, e o livro irrefragável9 de sua consciência, viveria constantemente a lutar entre a fé e a incerteza, entre a esperança e o desespero, se um bálsamo consolador lhe não fornecesse a doce esperança de ver-se um dia curado das profundas feridas que lhe fizeram sangrar no peito a incerteza da bem aventurança eterna. O peregrino perdido, envolvido pela espessura das trevas, quase exausto de força por ter vencido um caminho por demais longo e penoso, sucumbiria ao cansaço, as fadigas do corpo e do espírito, se dê sobre o precipício que o ameaçava não lobrigasse10 o lume benfazejo que acenando-lhe uma guarida, lhe traria a refeição das forças e a atividade do espírito. 12 Eis isto uma verdade. Pois bem: o membro da igreja militante é semelhante ao peregrino perdido, exausto de forças, rodeado de trevas e de precipícios, e o lume visto ao longe - e a esperança jamais enganadora da bem aventurança pela decisão infalível do sucessor de S. Pedro11; - é a certeza da glorificação dos Santos que cremos firmemente habitar o reino dos céus, onde um dia desejamos também naturalizar-nos. Porque, se é impossível conceber-se a existência da igreja militante sem homens, é, pela mesma razão, impossível conceber-se a existência da igreja triunfante sem santos. Mas, dir-nos-ão: Não se nega a existência destes; nega-se, porém a inerrância,12 algumas vezes, da parte daquele que no-los revela como tais. Mas é aí onde está todo mal, o que vamos mostrar. Quem é susceptível de errar uma vez, é suscetível de errar duas e muitas, muito principalmente sobre um objeto, como é a canonização dos santos, cujo conhecimento não depende de cálculos científicos, e que segue sempre os mesmos trâmites. Ou o indivíduo merece ser canonizado ou não; se merece, que o seja: é mais um santo que o céu adquiriu, é mais um medianeiro,13 a quem nós, os pecadores, recorreremos para fazer chegar nossas humildes súplicas a soberana presença da majestade divina; se o não merece, como canonizar-se um indivíduo, cuja vida e milagres não são suficientes para soerguê-lo ao nível dos bem aventurados, daqueles que têm a glória inefável14 de ver a face da divina justiça? A canonização sempre existiu, e isto em termos hábeis, porque ela foi tão necessária no tempo dos nossos primeiros pais, e da religião mosaica15, como é ao cristianismo. A diferença que se nota de uma a outra canonização, não é uma diferença essencial, é, porém uma diferença acidental que se recente apenas da época em que preponderou a religião natural, ou a religião de Moisés, assim como hoje prepondera a de J. Cristo.16 Existiu nos tempos primitivos uma canonização simbólica, assim como simbolicamente existiram os sacramentos do batismo, do matrimônio, etc. Se compulsarmos os anais da Igreja, desde os seus mais remotos fundamentos, encontraremos a verdade de semelhantes asserções, uma vez que analisemos e confrontemos os fatos com aquele critério que não é para desprezar em matéria de tanto melindre17 e magnitude. No liv. do Eclesiástico,18 cap. 54, vv. 1°, 7°, 16 e 20, lemos as seguintes passagens: “Louvemos aos varões gloriosos e aos nossos pais na sua geração.” “Todos estes alcançaram glória nas gerações de sua nação, e ainda hoje são louvados pelo que fizeram em sua vida.”“Enoque19 agradou a Deus e foi trasladado ao Paraíso para exortar as nações à penitência.” “O grande Abraão20 foi o pai da multidão das nações, e não se achava outro semelhante a ele em glória, e guardou a lei do Excelso e com ele se pôs em aliança.” 13 E no cap. 55, do mesmo Ecc, vv. 1°, 3°, 4° e 28: “Moisés foi amado de Deus e dos homens: cuja memória está em bênção. Glorificou-o diante dos reis e lhe prescreveu ordenações diante do seu povo, e lhe fez ver a sua santificou dentre toda carne.” “Finéias,21 filho de Eleazar,22 é o terceiro glória. Pela fé e mansidão o santificou dentre toda carne.” Ora, as diferentes passagens da Escritura, que submetemos à apreciação dos leitores, por ventura não importam a mais irrecusável evidência quanto a santidade desses varões acrisolados23 na fé, na esperança, na caridade, em todas as virtudes? Não nos infundem a mais íntima convicção de que a canonização sempre existiu, e que deve merecer toda nossa fé, por isso que deve ser infalível aquele que se acha incumbido de no-la atesta?” Certamente que sim. Portanto, se assim acontece, é nossa humilde opinião que nos favorece o princípio reconhecido por todos os teólogos de - que não há nada verdadeiramente de fé, senão o que por Deus nos foi revelado por intermédio dos apóstolos e profetas, ou o que evidentemente se deduz daí: Nihil est de fide nisi quod Deus per apostolos aut prophetas revelavit, aut quocl evidenter inde deduci.24 Dissemos que nos favorece o princípio reconhecido por todos os teólogos, porque as páginas sagradas foram escritas por inspiração divina, e são as páginas sagradas que nos certificam de que Enoque, Abraão, Moisés, Finéias e outros tantos escolhidos de Deus gozam da mansão dos justos. Mas, vejamos o que se deve entender por canonização, quais os motivos que levam o Pontífice Romano a declarar que tal indivíduo deve ser considerado santo e merecer o culto de dulia,25 e, depois de apreciar- nos esses motivos, se de feito o papa é infalível, quando assim resolve. “Canonização, segundo Bergier,26 é o decreto, pelo qual o Pontífice Romano declara que tal homem praticou as virtudes cristãs em um grau heroico, e que Deus operou milagres por intercessão dele, quer durante sua vida, quer mesmo depois de sua morte. Para que o papa faça semelhante declaração.” Para que o papa faça semelhante declaração, ou para que a canonização se torne efetiva, faz-se indispensável o conjunto de muitas circunstâncias que devem preceder o ato declaratório do Pontífice. O conjunto dessas circunstâncias, ou as provas que se requerem para semelhante fim, consistem em um processo longo e cauteloso, pelo qual a congregação dos Cardeais, segundo as ordens do papa, indaga todos os atos de vida do canonizando, precedendo sobre ela às mais minuciosas informações em suas diferentes fases, e isto pelo espaço de cem anos. Este período de tempo tão longo para as formalidades de um processo harmoniza perfeitamente com a natureza do objeto, sobre que a justiça eclesiástica procede suas escrupulosas indagações, por isso que ela tem por fim conhecer de um modo cabal se a memória pela veneração do morto foi constante, se a fama de suas virtudes continuará sempre no lugar em que ele viveu e nas partes por onde ele se assinalou pelo prodígio dos seus milagres. 14 Ora, se procedendo-se desta maneira, chegar-se ao resultado de que o canonizando foi eminentemente virtuoso e fez milagres, durante sua vida (pois não basta que o canonizando fosse somente virtuoso, ou que houvesse somente feito milagres: é mister que os dois fatos mutuamente se hajam dado), se o seu corpo, além disso, for encontrado em perfeita sanidade, porque não há de o papa julgar esse homem santo, e porque não havemos de acreditar que o papa, quando assim julga, é infalível? A morte por isso que é necessária, é uma lei irrevogável, á que está sujeita a humanidade em peso, e o aniquilamento do nosso corpo, de baixo da terra, servindo de pasto aos vermes, é também uma condição, que senão pode separar da nossa organização física. Todas as vezes pois que o corpo humano, fazendo uma exceção da regra geral, for encontrado em perfeito estado, incorrupto, nele devemos ver operado ou um fenômeno das leis físicas que o regulam, ou um milagre da Providência Divina. Se a medicina, como sucede sempre, e é indispensável em tais investigações, abrindo as portas dos seus conhecimentos, não poder dar a razão de semelhante fenômeno, depois de um longo estudo, depois de haver percorrido toda escala da ciência médica, então é forçoso confessar que algum milagre se acha manifestado nesse corpo. E se as pesquisas feitas pela justiça eclesiástica se coadunarem com essa prova tão valiosa e acabada, isto é, se durante o espaço de cem anos não houver uma só prova que desdiga das virtudes e dos milagres do canonizando, reunido tudo isto á exuberantíssima prova da sanidade do cadáver, porque não há de ser este reputado santo, e porque não há de ser o papa infalível em sua respectiva decisão? Se o papa pudesse errar na canonização dos santos, se os fiéis se pudessem compenetrar de que em semelhante matéria era vacilante e precário o juízo do vigário visível de Jesus Cristo, sucessor de S. Pedro, pedra fundamental da igreja do filho de Deus, que tem, além dos poderes ordinários, que foram conferidos ao colégio apostólico,27 os poderes extraordinários de ligar e desligar e de confirmar seus irmãos na fé, se isto se pudesse verificar, nós o repetimos, o papa concorreria muitas vezes para a idolatria, para a descrença, para o cisma, e até para o regresso do Cristianismo; porque os fiéis, certos de que o papa é falível decidindo sobre o objeto em questão, receariam venerar um simples morto; e dessa falta de fé seguir-se-ia o cisma na sociedade eclesiástica, e o cristianismo necessariamente teria de sofrer muito. Alguns escritores seguem opinião contrária a que adotados, e dizem que na canonização dos santos podemos duvidar da infalibilidade da igreja, sem que por isso nos ser considerados passa falsos de fé - In canonicatione sanctorum fidem descrimine possumus.28 Mas desde que se convier que a canonização dos santos respeita aos costumes gerais e públicos, veremos que a única dedução, que se tem a tirar, é que a Igreja pode errar em matérias de costumes. Mas quem não vê o absurdo da conclusão? Também muitos escritores ilustres, e cujo nome importa uma 15 autoridade, se tem votado contra a infalibilidade do papa nas matérias de dogma, de fé, de disciplina geral, mas é hoje uma verdade, que tem tomado vulto a ponto de tornar-se quase axiomática (e que mais para o futuro se tornará um dogma, como a imaculada Conceição da Virgem Santíssima,29 segundo se exprimiu um dos nossos mestres) que o papa é infalível, quando decide ex cátedra sobre dogma sobre matérias de fé e de disciplina geral. A doutrina que seguimos é defendida por muitas ilustrações modernas, cujos nomes bastariam para responder as impugnações dos nossos adversários. Entre eles, citaremos o do senhor cardeal Gousset,30 que sustenta a infalibilidade papal na canonização dos santos, porque considera-a tão intimamente ligada ao dogma, que dele não se poderia desprender sem eminente perigo. E de fato há muita razão para assim pensar, porque basta lembrarmo-nos que são indispensáveis na canonização a virtude dos costumes e a verdade dos sinais, para concluirmos que o papa não pode errar, quando decide sobre semelhante assunto. Os impugnadores da doutrina que abraçamos, fundam-se principalmente no fato de haverem os bispos nos tempos primitivos do cristianismo, e os concílios com o concurso do resto do povo e clero usado deste direito, isto é, canonizado; e tanto assim que depois de Alexandre III,31 para evitar-se a precipitação e abuso, é que o direito de canonizar foi exclusivamentereservado ao Pontífice Romano. Este argumento tem, ao menos aparentemente, muita força porém, se o analisarmos com o devido critério, chegaremos a uma conclusão que nos será toda favorável. Primeiramente achamos sustentável que os bispos e os concílios com o concurso do resto do clero e do povo pudessem canonizar completamente, sem que daí se possa tirar uma só indução que negue ao papa a infalibilidade que ele deve ter, quando decide sobre um assunto tão transcendente e melindroso. Por que: quem nos diz que esses bispos e concílios não eram presididos pelo chefe universal da igreja? Quando o Pontífice Romano tem de decidir sobre uma questão momentosa que afeta o dogma, a disciplina geral e a fé, ele reúne aqueles bispos que pode, espalhados pelo orbe católico, e depois de ouvir a todos, então pronuncia o seu juízo que, em tais casos, tem o cunho da infalibilidade. Assim, pois, quando os bispos decidiram primitivamente sobre a canonização dos Santos, é de supor que fossem presididos pelo Pontífice Romano. Depois, suponhamos que os bispos decidiram outrora incompetentemente sobre canonização; concedamos que eles atribuíram a si um direito, de cujas regalias não deviam gozar, perguntamos: o que prova semelhante usurpação contra a infalibilidade Papa em matéria de canonização? Segundo o nosso humilde modo de pensar, nada absolutamente; porque, se os fiéis se tornaram idolatras (inocentemente) alguma vez como é de supor, visto não serem os bispos por si sós infalíveis, daqui o que se segue é - que assim aconteceu por não terem eles 16 esse dom que somente Jesus Cristo concedeu ao sucessor de S. Pedro, e a Igreja Universal. Um último argumento muito forçoso, e que implica a crença de um dogma, nos leva a encarecer ainda a doutrina de que o Papa é infalível na canonização dos santos; esse argumento é o seguinte: A igreja manda crer na comunicação dos Santos do mesmo modo ou na mesma ocasião em que nos manda crer em Deus Padre, todo poderoso, em Jesus Cristo, seu unigênito filho, concebido por obra do Espírito Santo, nascido da Virgem Santíssima, etc. Ora se a igreja no Símbolo dos Apóstolos32 nos manda crer nesse dogma - a comunicação dos santos - nas palavras: credo... In communicalionem sanctorum;33 se este dogma, por conseguinte, deve ser abraçado por nossa fé do mesmo modo porque abraça tudo quanto se contém no Símbolo dos Apóstolos, como não sustentar-se que o Pontífice Romano é infalível quando pronuncia seu juízo sobre um ponto dogmático, sobre um ponto de fé? Portanto, avista do que temos ponderado, seja-nos permitido concluir que - o Papa é infalível na canonização dos santos, por isso que também o é quando decide ex cátedra sobre matérias de dogma, de fé e de disciplina geral, com as quais está em imediato contato a canonização dos santos. J. CORIOLANO DE S. L. Publicado no Jornal Atheneu Pernambucano: Periódico Científico e Literário. “Avante e sempre!” Recife. - Tipografia Universal, Nº 18. - 1857. 1 Aqui o poeta emite sua opinião a respeito de um dos maiores debates travados no meio católico. Promulgado pelo Concílio Vaticano I no ano de 1870, o dispositivo prevê que o Sumo Pontífice é infalível, ou seja, possui ato personalíssimo, irrevogável e inquestionável quando da canonização de um Santo. Cf. LARAÑA, Ildefonso C. Doutrina Social da Igreja: abordagem histórica. Tradução de J. A. Ceschin. São Paulo: Edições Loyola, 1995, p. 47. Nesta esteira corrobora outro eminente teólogo: “O objeto secundário da infalibilidade pertence: (...) d) a canonização dos santos, isto é, o julgamento final de um membro da Igreja que foi recebido na bem- aventurança eterna e deve ser objecto de veneração pública. O culto dado aos santos, como São Tomás nos ensina, é ‘uma certa confissão de fé que acreditam na glória dos santos’ (Quodl. 9,16).” Grifo Nosso. Cf. OTT, Ludwig. Manual de Teologia Dogmática, Editorial Herder, Barcelona 1966, pp. 450, 451. Mas há correntes contrárias, dentre elas a do Pe. Marcelo Tenório que defende: “Em suma, diante das canonizações deve-se dar uma assentimento religioso, como damos aos documentos que não possui o peso da infalibilidade, mas PODE-SE ADMITIR SIM A POSSIBILIDADE DO ERRO, visto que essa doutrina da ‘infalibilidade das canonizações’ ainda não foi DEFINIDA de modo ‘Ex Cathedra’.”Disponível.em:.http://www.padremarcelotenorio.com/2017/08/canonizacao-nao-e- ato-infalivel/ Acesso em 27.05. 2019. (Nota do Organizador) 2 Do latim Ex cathedra significa “a partir da cadeira”. No contexto católico, designa-se o termo como: “a partir da cadeira de São Pedro”. A palavra latina é usada para ilustrar uma das maiores 17 prerrogativas papais que diz respeito a sua infalibilidade (ponto central do texto), na qual o pontífice é guiado pelo Espírito Santo, que o preserva de todo o erro quando das suas decisões. (N. do Org.) 3 Escritor católico - provavelmente italiano -, que se notabilizou por “calcular” a equivalência entre os pecados veniais diários por dias contados no Purgatório. (N. do Org.) 4 Tradução: “único rebanho e o único pastor.” 5 Nivela. 6 “(...) fé é, pois, a realidade das coisas que esperamos.” Texto bíblico presente no Livro de Hebreus, Capítulo 11, Versículo 1. 7 Trabalhoso. 8“Lembra-te, homem, de que és pó e ao pó voltarás.” 9 Irrefutável. 10 Percebesse. 11 SÃO PEDRO (Galileia, Séc. I a.C. - Roma, 67 d.C.) “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja.” (Mateus 16:18) Nesse versículo é fundamentado Pedro como 1° Papa da Igreja Católica. Antes chamado Simão, Jesus rebatizou-o como Pedro que significa “pedra”. Considerado um dos apóstolos de Cristo, Jesus logo o recrutou para ser seu discípulo. Em Lucas 5:1-11, narra o episódio mais marcante que decidiu sobremaneira a sua vida, onde Jesus disse: “Serás um pescador de almas.” O Padre Rohrbacher em sua vasta obra biográfica de santos em 22 volumes, traça um perfil: “Roma era a capital do mundo, particularmente do mundo ocidental. Pedro funda ali a Igreja romana e coloca o seu trono, a fim de pastorear os carneiros e ovelhas de Jesus Cristo, de tal modo que em todo o mundo haja apenas um rebanho e um pastor. Antioquia era a capital do Oriente. E Pedro levara para lá o seu trono. Alexandria era a capital do Egito e do Sul; para ela envia Pedro a Marcos, seu discípulo, a fim de fundar, em seu nome uma igreja. E as três igrejas serão chamadas patriarcais e apostólicas, em virtude da dignidade de Pedro. E tão constante isso, que no século-quinto, um imperador e um concílio ecumênico, o imperador Marciano e o concílio de Calcedônia, querendo proporcionar a dignidade de patriarca ao bispo da nova Roma ou de Constantinopla, pediram-na nos seguintes termos ao sucessor de São Pedro: ‘Dignai-vos esparzir sobre a igreja de Constantinopla um raio do vosso primado apostólico.’ O que patenteia que, no pensamento da Igreja, não é o patriarcado senão um escoamento parcial da primazia de São Pedro, cuja plenitude reside no trono de Roma.” ROHRBACHER, Padre. Vidas dos Santos. São Paulo: Editora das Américas, 1959, Vol. II, p. 7. (N. do Org.) 12 Que não erra. 13 Mensageiro. 14 Indescritível. 15 Religião Mosaica ou de Moisés, precursora do judaísmo, “(...) ela só atingirá sua maturação com o início da monarquia israelita e sua subsequente divisão em dois reinos: Judá e Israel. (...) No entanto, a visão histórica e bíblica mostram que esta religião mosaica não era única e exclusiva.” Disponível.em:https:// https://www.portalsaofrancisco.com.br/historia-geral/judaismo Acesso em 22.03.2020. O psicanalista Sigmund Freud em seu texto ‘Moisés e o monoteísmo’ inaugura uma nova interpretação sobre Moisés. “(...) cheguei à conclusão de meu estudo, que se dirigiu para o 18 objetivo único de introduzir a figura de Moisés egípcio no nexo da históriajudaica.” Cf. FREUD, Sigmund. Moisés e o monoteísmo. In S. Freud, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de S. Freud (J. Salomão, trad., vol. 23, pp. 149-150). Rio de Janeiro: Imago, 1996, p. 64. Para o psicanalista havia espaço para existência de “dois Moisés”: na qual é considerado na sua formação “egípcia” o deus Aton, portanto a religião judaica teria influências egípcias. Punido por Deus em não mais entrar na Terra Prometida, Moisés morre no Monte Nebo, assassinado pelo seu próprio povo. Após sua morte foi recuperada sua mensagem por meio de uma “psicologia de massa” como forma identitária de um povo como sendo de Deus. (N. do Org.) 16 Jesus Cristo, figura histórica mais festejada universalmente por todos os séculos, Único nascido pela ação do Espírito Santo, expressão máxima da perfeição, o próprio Deus em forma humana. Detentor de uma moral, bondade, amor e caridade perfeita em sua acepção mais exata e de como deveria ser a verdadeira ação e razão humana. Totalmente anulado para si e devotado ao próximo, por onde passou deixou um legado que jamais será superado até a consumação dos séculos. Sacrificou-se, em todos sentidos, pela humanidade. Apropriado pelas mais diversas religiões, tem toda sua vida narrada no Novo Testamento onde podemos testemunhar seu ministério de curas, entregas, ensinamentos, etc. Perseguido pelos romanos, foi humilhado publicamente, açoitado e por fim crucificado tendo colocado em cima uma placa, Iēsus Nazarēnus, Rēx Iūdaeōrum, que significa “Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus”. Com essa ação - mesmo inteiramente isento de qualquer culpa - cumpre Sua missão na terra levando todos os pecados da humanidade consigo, nos livrando de todo mal. (N. do Org.) 17 Delicadeza no trato. 18 Livro do Eclesiástico ou Eclesiastes, escrito pelo Rei Salomão já no final da sua vida, sua maior mensagem é conscientizar as gerações futuras que não vale a pena uma vida vivida longe de Deus. 19 Enoque foi uma figura bíblica que se destacou por ter sido poupado por Deus quando do dilúvio que devastou a terra naquela época. 20 Abraão, considerado por alguns cristãos como “pai da fé”, ficou conhecido por não desobedecer a Deus quando do sacrifício de seu filho Isaque. 21 Finéias ficou conhecido por executar - num gesto extremo - um casal entre um israelita e uma moabita, relação inconcebível para Deus. 22 Eleazar era sumo sacerdote e pai de Finéias. Um grande líder militar foi um dos principais combatentes contra os filisteus. 23 Purificado. 24 Tradução aproximada: “Tudo que Deus revelou aos apóstolos por meio dos profetas está comprovado através de evidências.” 25 Culto de Dulia é um dos tipos de culto da Igreja Católica. Distingue-se da latria e da hiperdulia por: “(...) honrar e venerar, e é o culto prestado aos santos, pessoas que tiveram heroísmo e fé comprovados no exercício das virtudes cristãs, consideradas um verdadeiro exemplo a ser seguido. ‘Além disso, por exemplo, quando se faz uma bênção de uma água e a usa como devoção é um ato de culto de dulia, porque a água está mediando o culto a Deus’, explica o Pe. Arthur.” Disponível.em:https://www.paieterno.com.br/2019/10/16/voce-sabe-o-que-elatria-dulia-e- hiperdulia/ Acesso em 26.12.2019. (N. do Org.) 19 26 Nicolás Silvestre Bergier (1718-90). Um dos mais proeminentes teólogos e apologeta francês, sendo ainda doutor em Teologia e padre. Costumava debater diversos assuntos com filósofos, inclusive travando debates com Jean-Jacques Rousseau. Convidado para configurar como revisor de uma certa Enciclopédia, achou melhor escrever seus artigos por conta própria. Daí nasceu sua principal obra: Dictionnaire de théologie. Escreveu ainda Examen du matérialisme (1771), Réponses aux Conseils raisonnables de Voltaire (1771), entre outras. (N. do Org.) 27“Entende-se por Colégio Apostólico o grupo dos doze primeiros discípulos de Jesus convidados por Ele a auxiliarem o seu ministério terreno. O Salvador os separou e os nomeou. Os primeiros escolhidos não eram homens perfeitos, mas foram vocacionados a levar a mensagem do Evangelho a todo o mundo (Mt 28.19,20; Mc 16.15-20). De acordo com Stanley Horton, eles foram habilitados a exercer ‘o ministério quando do estabelecimento da Igreja’ (At 1.20,25,26). Em outras palavras, os doze apóstolos constituíram a base ministerial para o desenvolvimento e a expansão da Igreja no mundo. Mas antes, como nos mostra a Palavra de Deus, receberam o batismo com o Espírito Santo. (Lc 24.49; At 1.8; 2.1- 46).”Disponível.em:https://escoladominical.assembleia.org.br/licao-6-o- ministeriodeapostolo/Acesso em 10.01.2020. (N. do Org.) 28 Tradução aproximada: “Somente a santa fé canônica pode descriminar.” 29 CONCEIÇÃO DA VIRGEM SANTÍSSIMA. “Imaculada Conceição refere-se a um dogma através do qual a Igreja declarou que a concepção da Virgem Maria foi sem a mancha (mácula em latim) do pecado original. Desde o primeiro instante de sua existência, a Virgem Maria foi preservada do pecado pela graça de Deus. Ela sempre foi cheia da graça divina. O dogma declara também que a vida da Virgem Maria transcorreu completamente livre de pecado. (...) Foi o papa Pio IX, o papa que proclamou o dogma da Imaculada Conceição, recorreu principalmente à afirmação de Gênesis (3, 15), onde Deus diz: Eu Porei inimizade entre ti e a mulher, entre sua descendência e a dela, assim, segundo esta profecia, seria necessário uma mulher sem pecado, para dar à luz o Cristo, que reconciliaria o homem com Deus.”Disponível.em:https://cruzterrasanta.com.br/historia-de-imaculada- conceicao/9/102/Acesso em 17.01.2020. (N. do Org.) 30 De nome completo Thomas-Marie-Joseph Gousset (1792 - 1866). Filho de Thomas Gousset e Marguerité Bournon, tornou-se um notável religioso, teólogo e professor francês. Tinha como lema: “O homem recolhe o que semeia.” Fez invejável carreira no Catolicismo angariando grande admiração entre seus pares por seu singular brilhantismo. Foi ordenado Sacerdote em 1817, Abade, Vigário, Bispo e por fim Arcebispo de Reims em 1840. Em rápida passagem pela política, tornou-se senador do império. Além de organizar e comentar outras obras, ele também escreveu vários livros, dentre eles: Teologia Dogmática e Moral, Teologia Dogmática ou exposição dos poderes e dos dogmas da religião católica, Observações sobre a liberdade de ensinamento, Teologia moral para uso dos padres e confessores (1851), Manual de Teologia Dogmática (1852), Exposição dos princípios do Direito Canônico (1859), O direito da Igreja de adquirir bens para a adoração e a soberania do papa (1862), etc. (N. do Org.) 31PAPA ALEXANDRE III (1100 - 81) De nome civil Rolando Bandinelli, assumiu vários outros cargos antes de ser elevado ao posto de Sumo Pontífice. Foi Cardeal-Diácono de São Cosme e São Damião, depois Cardeal-Presbítero, Chanceler, etc. Cf. PACAUT, Marcel. Alexandre III: étude sur la conception du pouvoir pontifical dans sa pensée et dans son œuvre. Paris: Librairie Philosophique J. Vrin, 1956, cap. II. Dentre os fatos que marcaram seu pontificado podemos destacar as rusgas com o Imperador Frederico Barbarossa (1122-1190) na qual o mesmo preferiu escolher Vítor IV como papa o que muito desagradou Alexandre, que por sua vez, como retaliação excomunga ambos desencadeando graves consequências políticas da época, pois Barbarossa declarou guerra contra a Igreja e estados italianos contrários a sua decisão. Além disso, esteve à frente do 3º Concílio de Latrão, que dentre muitas decisões, decreta que somente o colégio de cardeais 20 poderá eleger um papa. Para saber mais sobre sua vida recomenda-se o livro escrito pelo cardeal Boso. (N. do Org.) 32SÍMBOLO DOS APÓSTOLOS. “Chama-se símbolo (sinal pelo qual se distingue alguém), porque na primitiva Igreja servia para distinguir os cristãos. Para poder assistir à Missa era preciso saber o símbolo,sob pena de exclusão. Era proibido comunicá-lo àqueles que não eram batizados; como é proibido em tempo de guerra comunicar a senha. Chama-se símbolo dos Apóstolos porque tem origem apostólica.”Disponível.em:http://catolicismo.com.br/materia/materia.cfm?IDmat=122&mes=nov embro2001. Acesso em 17.01.2020. (N. do Org.) 33 Tradução aproximada: “Creio... Na mensagem dos santos;” 21 O SUICÍDIO1 Parece temeridade que havendo tantas penas doutas e esclarecidas, desde Sócrates,2 por Platão,3 até o exímio moralista o Sr. Conselheiro Bastos,4 escrito sobre a grave questão do suicídio, hoje ocupe as colunas deste periódico - quem não tem os predicados de escritor, - quem é o primeiro a reconhecer o nada dos seus conhecimentos científicos. Mas como depois de uma confissão tão ingênua e verdadeira é mister que revelemos ao público o nosso intuito, vamos fazê-lo. As graves questões, que se hão suscitado sobre o suicídio, nem sempre têm chegado ao domínio de todos (falíamos relativamente ao nosso país): elas se acham depositadas em livros preciosos, que nem todos podem ler. A isto acresce que o jornalismo, posto que tenha uma vida menos prolongada que os livros, a tem mais ativa; por isso mesmo que está mais ao alcance de todos, por isso mesmo que com todos mais franca e comodamente se comunica. E quando possa desaparecer em uns a impressão, que receberão de tal escrito, em outros essa impressão constitui-se uma verdadeira tradição, e se perpetua. Eis a razão que nos abalançou a tomar sobre os ombros um peso por sem dúvida superior as nossas forças; mas, como o nosso fim principal é a moralidade, mostrando quanto é execrável e quanto merece ser extirpada essa terrível epidemia, mais contagiosa e devastadora do que aquela, com que há pouco lutamos a braços, sinto a consciência tranquila, e animado, prossigo no meu propósito. * Assinar as diferentes causas que tem levado a humanidade a cometer esse crime hediondo e mais que brutal, o suicídio, fora impossível; porque essas causas resultado da multiplicidade dos desvarios e das paixões que infectam e corrompem a pobre descendência de Adão.5 Porque amargas aflições, porque dissabores cruéis não passam a mente do filósofo cristão, do homem religioso, e crente, quando, compulsando as muitas e variadas páginas da história, sente de espaço em espaço ferir-lhe os olhos uma folha ensanguentada que poderá antes encerrar o belo epílogo de alguma vida ilustre, acrisolada6 pelo martírio e pelo sofrimento? Mas, ah! - essa folha ensanguentada é a triste narração do poeta desditoso,7 que ainda no alvorecer dos seus dias libou8 a última gota de veneno que continha a taça do desespero, para, destarte abreviar os sofrimento de sua alma, que, sem esse pernicioso antídoto, serão espaçados sob os horrores da miséria, - a falta de uma migalha de pão! Essa folha ensanguentada é a funesta história do herói nunca que, havendo trepidado no cumprimento e desempenho dos seus deveres como cidadão e patriota, um dia deixou; se sucumbir ao golpe do punhal suicida! - É a crônica fatal do guerreiro que, sabendo arrostar9 impávidas as hostes inimigas, não estremeceria ao estampido do canhão e beberia o fumo das bombardas10 mesmo modo que encarava as lanças, os dardos e 22 os chuços;11 porém que um dia foi o seu próprio algoz, o seu próprio assassino! - E a pasmosa12 e lamentável narrativa da mais célebre poetisa, que tem visto o mundo, - a mesma que media seus rigorosos talentos com os mais afamados poetas e filósofos do seu tempo, e que, despenhando-se do cimo do alcantilado13 rochedo, foi no medonho abismo dos mares demandar um lenitivo14 às desgraças de um amor que a torturava!(*) - É, em uma palavra, o filósofo, o escritor, o moralista, o rico e o pobre, o poderoso e o fraco, o sábio e o néscio que procuram em sua própria destruição um termo, que no cúmulo da loucura ou do desespero chamam - lenitivo ou remédio -, a vida acabrunhada que os prende ao mundo, aonde virão a luz da existência, onde saborearão os conselhos de um pai extremoso, as carícias de uma mãe desvelada, as lições de um mestre sábio e prudente, os carinhos de uma esposa terna, os afagos inocente da mimosa prole, as doçuras da fraternidade, os ofícios do amigo, etc.! A razão mais robusta e prática, encarando o tremendo quadro do suicídio, recua espavorida,15 e, perdida num espesso nevoeiro de reflexões que se embatem simultaneamente, não descortina, não pode conceber como o homem, dotado de razão e liberdade, é capaz de descer a tamanha degradação, a ponto de privar-se de um bem tão precioso e caro, como é a vida, e da qual não é senão simples depositário! Oh! Quanto o homem se vilipendia quando tenta contra o sagrado direito de sua existência! Quanto o homem se torna mil vezes inferior ao irracional, quando se despoja voluntariamente do sagrado penhor que a Divindade lhe confiou! Quem uma vez já notou a fera voltar contra si às próprias garras? Quem uma vez já notou o réptil venenoso, mordendo se, derramar em si a peçonha que inocula nos outros animais? Nada disto tereis notado, ao passo que a cada canto da sociedade tereis visto o homem trucidando-se, afogado no seu próprio sangue, derramado por suas próprias mãos! E admira que no século das luzes16 e do progresso, quando a ciência parece ter escancarado as portas dos conhecimentos, e as artes aberto o cofre dos seus tesouros, admira que hajam estoicos17 que ericem lanças para combater sob as bandeiras do suicídio! Admira que nos nossos tempos hajam cabeças inebriadas no capricho das excentricidades, que chamaremos malditas, a ponto de consagrarem argumentos sofísticos em prol desse crime sacrílego, desse cancro contagioso e maligno, que vai pouco a pouco tomando vulto e minando o edifício social! O homem logo que chega a idade da discrição, a essa fase da vida, em que as ideias se desenvolvem e a consciência nos atesta a bondade ou maldade dos nossos atos, reconhece em si um dever santo e imperioso, que se lhe manifesta com um tríplice caráter. Filosofando sobre si mesmo, o homem sente-se, conhece-se um ente livre e racional. Colocado no mundo, rodeado de necessidades, exposto as vicissitudes terrenas, ele aspira dar expansão a sua liberdade, cultivar sua inteligência, e prover a todas as suas precisões. Enquanto o homem sente o aperto desses laços, o vínculo desses deveres, uma ideia se desprende de sua mente, e ele 23 medita... reflexiona sobre aqueles que, como ele, fazem parte da sociedade. Então conhece, a força do raciocínio, que sua liberdade só deve estender-se até aquele ponto, onde começa a liberdade do seu semelhante. Conhece que todos os outros homens são igualmente livres e racionais, e que, por conseguinte, tem os mesmos direitos e as mesmas obrigações que ele; as mesmas necessidades, as mesmas faculdades para provê-las, as mesmas volições,18 os mesmos sentimentos, apenas modificados por certos caracteres físicos e psicológicos, que são peculiares a cada natureza. Reconhece a necessidade absoluta de mutuamente se socorrerem, e se ajudarem no emprego dos meios precisos a consecução dos fins humanitários, indispensáveis ao gozo honesto desta vida, e que são uma transição para o gozo da vida eterna. Reconhece afinal que, tendo uma forma interessante e bela, uma sensibilidade, uma liberdade e uma razão não pode prescindir de render graças, de tributar homenagens, ou antes, adorações Aquele que o fez superior aos outros animais. Sim, o homem tem deveres a cumprir para consigo, para com os outros homens e para com Deus, deveres importantíssimos que ele reconhece pelo palpitar do seu coração, pela voz infalível de sua consciência. Todas as vezes que ele infringe qualquer desses deveres, que Deus plantou em seu coração, a consciência imediatamente o repreende, e muito embora o homemtente reagir contra essa voz, embalde o faz, porque ela importa uma sentença que não é proferida por juiz terreno, - porque ela tem o cunho da evidência, da inerrância19 que caracterizarão Aquele que no-la revelou. Assentado na cúpula do edifício moral, o homem bendiz o Supremo artífice que o fez tão nobre, tão perfeito, tão sobranceiro20 as outras espécies de criatura. E como, em tais casos, poderá ele contrariar os altos desígnios da Providência Divina, querendo pôr dique a liberdade e sabedoria de Deus? Como poderá o homem apropriar-se de um direito, que a Majestade Divina somente para si reservou, qual é o de dispor das nossas vidas? Já vistes a filha querida e saudosa despojar-se do mimoso relicário que lhe deu sua carinhosa mãe, em sinal de lembrança, no momento em que, lançando-lhe a última benção, trocou a vida do mundo pela vida da eternidade? Já vistes o sol parar o seu curso (se assim nos podemos exprimir) contrariando as leis físicas que o regulam? Certamente que não. E senão desconheceis esta verdade; se estes fatos que apontamos nada são comparativamente ao dom mais precioso, ao direito que exerce a Divindade sobre nossa existência, como é que o homem, ingrato, desconhecido, violador do que há de mais sagrado, poderá arrogar a si o direito de privar-se da própria existência, de que não é senão um mero depositário? “Que se diria de um indivíduo, diz o sábio Sr. Conselheiro Bastos, que havendo de nós um depósito para o restituir quando se lhe exigisse, na nossa presença o chamasse seu e dele depusesse a seu arbítrio?” Nós responderemos a pergunta do grande moralista: - esse 24 indivíduo seria um mau depositário que abusou da confiança que nele depositamos, um usurpador, um homem degenerado e sem consciência. No melindroso campo, onde se agitam as importantes questões do suicídio, aparecem filósofos, argumentadores, que nós chamaremos sofistas,21 para não dizermos mais, que se tem prevalecido dos sofrimentos de uns, da heroicidade de outros, dos talentos e filosofia deste, das virtudes e resignação daquele para justificarem o suicídio, ou antes para vês tirem de cores menos negras esses fatos horríveis desesperados que tem levado a frágil humanidade as bordas do tenebroso abismo que por tantas vezes há conseguido subvertê-la. Mas os argumentos que o estoicismo engendra para amparar esse crime abominável, desfazem-se ao menor lampejo da razão esclarecida. O filho talentoso de Bristol, o desgraçado Chatterton,22 com sua mente embriagada de poesia, experimentou as adversidades da fortuna, faltou-lhe o próprio alimento (e ele era um gênio!) não pode resistir a sorte que tão atrozmente o perseguia e envenenou-se! O desventurado poeta não tinha, por ventura, uma mais velha de quem cuidasse, ajuda mesmo quando supusesse sua vida de nenhum interesse ao resto da humanidade? Mas, ah! Falso raciocínio!... Quanto sua vida não era preciosa a sociedade! Quanto perdeu sua nação e quanto perdeu o jardim das ciências pelo corte prematuro da malfadada flor que desparzia, apenas desabrochada, tapo doces perfumes! O célebre herói romano (falaríamos de Catão) é, por ventura, um dos exemplos mais poderosos, de que se servem aqueles que fazem a apologia do suicídio. Catão23 era um homem reto, uma alma, talvez, tão grandiosa como o espaço que ele abrangia com um olhar de romano; não quis ver desmoronar-se a república, por quem se havia sacrificado, e um sacrifício de nova ordem quis consagrar-lhe, cravando no próprio peito o punhal, para deste modo não sobreviver às ruínas da república! Somos um dos muitos admiradores desse homem singular e extraordinário; fazemos uma ideia muito vantajosa de sua dedicação pela república, de seu interesse e amor pela salvação e liberdade de sua pátria; porém, é forçoso confessar, reconhecemos no suicida o homem fraco que se deixou vergar ao peso de um sentimento reprovado pela moral, pela religião; reconhecemos no suicídio, a que recorreu, uma ação ignóbil que anuviou os seus últimos momentos, que poderiam ser selados por feitos de uma magnitude e alcance tais, que tornassem sua memória estreme dessa nódoa indelével que sobre ela pesa. Quais os bens que obteve Catão para a república, suicidando-se? Quais as vantagens que resultarão a sua pátria desse desvario imperdoável, dessa alucinação indigna da alma de um romano e de um livre? E quanto não poderia ele fazer sobrevivendo a queda da república? Acaso tinha tão pouca confiança em si que, vendo-se isolado, julgasse para sempre perdida a causa santa que advogava? É debalde que para afastar do suicídio todo o horror e negrume que o revestem, nos alegareis o valor desmedido, a resignação tantas vezes 25 provada do vencedor dos romanos na célebre batalha de Cannas;24 as qualidades de grande guerreiro, e, por conseguinte a coragem, o denodo, etc. do amante25 de Cleópatra;26 a justiça severa do condenador dos próprios filhos, do matador de César; a filosofia da cantora de Lesbos; a virtude e a timidez do amante de Carlota.27 É debalde... Annibal,28 o famoso general cartaginês Antônio e Bruto, valentes capitães romanos, Sapho29 que resolvia com os filósofos contemporâneos os mais intrincados problemas de filosofia, e que como poetisa mereceu a honra de ser agregada ao coro das musas; Werther30 que se arrependia (arrependimento fatal!) de um beijo furtado a sua amante, a esposa do seu amigo, no auge da paixão que o extraviava das veredas do honesto, que o sufocava... perderão todo o valor e resignação, toda a coragem, toda a justiça, toda a filosofia, toda a virtude que os assinalavam, quando no suicídio procurarão um termo aos padecimentos morais que amesquinham-lhes a vida. O que entendeis por valor e pela palavra resignação? Como definir a justiça? O que é a filosofia? O que é a virtude? São sobre maneiras óbvias as respostas correspondentes a cada uma das perguntas que deixamos estampadas. Pode chamar-se valoroso o indivíduo que recua ao feio aspecto de qualquer adversidade que o persegue e que está em seu brio combater? Tem a qualidade da resignação o indivíduo que se deixa arrastar e sucumbir à tenacidade das vicissitudes terrenas? É justiceiro aquele que é o primeiro a ser injusto consigo mesmo? É filósofo o homem que desconhece o fim para que a Divindade criou-o, obrando dentro de uma esfera da qual recua o próprio instinto brutal? Merece o epíteto de virtuoso quem sacrifica os santos preceitos da moral, e da religião, ao desregramento de suas paixões? Admitimos que no suicida pudessem um dia brilhar todos esses atributos, todas essas virtudes, que engrandecem e elevam o homem; porém que esses atributos, que essas virtudes sejam motivos justificativos de um ato de loucura, de uma fraqueza mesquinha, de uma imoralidade, de um crime tão repugnante e estúpido, como é o suicídio, isto nunca! Desde o momento em que a ideia do suicídio se apossou de um indivíduo, ele trocou o valor pela fraqueza, a resignação pelo desespero, a coragem pela cobardia, a filosofia pelo estoicismo, a virtude pelo crime. Sêneca,31 se opusesse uma resistência moral a ordem tirana de Nero,32 quando prescreveu-lhe que se matasse, teria mais um padrão de glória, mais um monumento de heroicidade e de virtude para oferecer à posteridade. Judas,33 se houvesse arrependido, como S. Pedro que negou por três vezes o Divino Mestre, ou como o legislador dos hebreus que vacilou na fé, na ocasião de tocar o rochedo com a vara, não obstante já ter visto por uma vez operado aquele portentoso milagre, Judas não teria desesperado a ponto de enforcar-se para hoje contar dezenove séculos de penas eternas! 26 Quantas observações judiciosas e irrespondíveis senão podem apresentar contra esse delírio humano que vai solapando a sociedade com tamanho furor? O homem, por ventura, só depende e vive do presente? Não enxergará ele um futuroque o acena envolto nos sucessos vindouros? E não imaginará um outro futuro, que nos não é dado descortinar, porém que nos envolve, porque no-lo atesta a consciência, o espaço que nos envolve, o ar que respiramos, a natureza que nos circunda? Quem haverá tão cético que tudo isto desconheça! Os sofismas que a capacidade de alguns escritores tem engenhado a favor do suicídio são miseráveis! - nem sequer achamo-los revestidos desse burlesco e aparente enleio que ordinariamente caracteriza todo argumento capcioso. Ouçamos a Saint Preux:34 “Procurar o próprio bem e evitar o próprio mal, naquilo que não ofende a outrem, é um direito natural, quando nossa vida é um mal para nós e não um bem para os outros, em tais casos nos é permitido dispor dela.” A este raciocínio eivado do capricho e da malícia, talvez, de Saint Preux, responde vitoriosamente mylord Edouard.35 De feito. Quando é que nossa vida é um mal para nós? Quando sofrermos por amor da virtude, por amor da humanidade? Certo que não. A vida só pode ser um mal para nós, quando, cegos pelas paixões, que perdem a alma e corrompem o corpo, trilhamos um caminho avesso que nos pôde levar a perdição, quer com relação ao mundo social, quer com relação ao mundo moral. Mas esse mesmo mal está em nossas mãos sanar; e se o não queremos fazer, porque é tal a nossa miséria, a morte é que vem remediá-lo? Não, porque a morte, no estado de desespero, de alucinação, de pecado, é o mal mais grave e danoso que pode recear o homem: logo a vida, em termos hábeis, não é nunca um mal para nós, por isso que para sê-lo depende da vontade, do arbítrio do homem. Além disso, quem pode haver tão antissocial que, seguindo os impulsos de seu coração, morto pelo delírio vertiginoso das paixões, diga: “Eu não sirvo à pessoa alguma, sou um ente nulo e sem préstimo; - que importa, pois a minha vida à humanidade, que não se utiliza dela?” Respondamos a estas palavras, que não vieram do coração, com mylord Edouard: “Tua morte não é prejudicial a ninguém!.. Tu falas dos deveres do magistrado e do pai de família, e, porque não sentes o vínculo desses deveres, te crês desembaraçado, exonerado de tudo! E a sociedade a que deves tua conservação, teus talentos, tuas luzes? A pátria á que pertences, os desgraçados que necessitam, de ti, a estes não deves nada?... As leis!, as leis!... o sábio porventura as despreza?” “Sócrates, inocente, para não desrespeitar as leis, não quis escapar-se da prisão, tu porém não hesitas em violá-las para te livrares injustamente da vida; e ainda perguntas que mal fiz eu?” Nada se pode argumentar a este trecho tão eloquente! Ele importa uma verdade, e é que o suicídio é um crime que fere de frente a lei natural, os princípios mais sãos e sagrados da sociedade e a própria lei divina positiva, que no 5º preceito do Decálogo 27 manda: Non occides: não matarás. O serva te ipsum36 é uma lei natural que fala a todos os corações, e que os mesmos irracionais cumprem por instinto nunca tentando contra sua existência! E o homem - o faz, deixando a razão luminosa ofuscar-se pelo brutal instinto!!... A sociedade não pôde prescindir dos nossos auxílios, sejam eles quais forem, uma vez que militem no mundo do justo e do honesto. A sociedade é o complexo dos indivíduos, assim como o indivíduo é o reflexo da sociedade; é o corpo servido por diferentes órgãos, cujo exercício e préstimo são lhe todos mister. Pode, por ventura, passar o corpo sem a mão - porém, quantas vezes não lamentará sua falta, e quantos ofícios deixará de desempenhar sem semelhante órgão? Pode o corpo passar, aliás bem, sem esta ou aquela parte que nada concorre para o desenvolvimento dos meios necessários aos fins, que lhe correspondem, porém sempre o corpo será defeituoso. Que vale ser-se Christina ou Heródias(**), isto é, ter-se um talento transcendente, ser-se um gênio nas ciências e nas artes, possuir-se um coração, onde cabe o amor com todos os seus transportes, brilhantismo e heroicidade, e ser-se um aleijão envolvido nas roupas que simbolizam candura, que representam ou fazem lembrar a visão angélica que se, imaginou nas azas inspiradas da poesia, e que nunca se tinha visto realizada? Os moralistas nos ensinam que há duas espécies de preceitos: negativos e afirmativos; estes podem ser infringidos alguma vez e em tais circunstâncias que da infração não resulte crime ou pecado grave; aqueles, os negativos, sempre que são violados importam um pecado. Assim, guardar os domingos e dias festivos é um preceito; porém há casos, em que podemos trabalhar, compelidos pela necessidade extrema ou por um ato de caridade que possa abafar aquela violação; mas este preceito é afirmativo. Não podemos, porém matar em caso nenhum (salvo em própria defesa, verificadas todas as condições prescritas pela lei natural e pela moral) sem que incorramos em um pecado que nos pode perder eternamente. Eis, portanto, o suicida violando, e contra si, o 5º preceito intimado aos homens por Deus! - Eis o suicida contrariando os sábios decretos da Providência Divina! - Eis o suicida roubando a propriedade da Divindade, que apenas lhe concedeu para usufruir por alguns tempos, enquanto lhe aprouvesse! Alguns amigos do suicídio tem se servido do martírio desses homens extraordinários e santos que morrerão pela causa da verdadeira religião, e da morte produzida por males derivados da continência, para lhe darem um colorido a seu jeito; porém semelhante roupa assenta mal em tais personagens. Não devemos confundir o ato mais acrisolado de desapego das cousas mundanas, o sacrifício mais merecido de uma cousa que não é inteiramente nossa, a vida, pela sustentação da fé, da disciplina, 28 da religião daquele que nos criou, que nos proveu de tudo, com esse ato que aberra da natureza e deslustra a memória do homem. Não se queira chamar suicídio a morte feliz e resignada do celibatário que sucumbe porque não quer quebrantar o voto, que fez e tornar-se perjuro. Opróbrio, a desonra, a bofetada sacrílega no rosto do homem probo, nenhum ato descobrimos que possa autorizar o suicídio. Fizeram-te uma injúria, desfeitearam-te, cuspiram-te nessas faces, que nunca ti verão ocasião de corar por um motivo idêntico, e a sociedade comportamento, o teu e as leis não te vingarão? Pois bem: o teu desprezo ao crime, a tua virtude, a vindicta37 pública te põe ao abrigo das censuras; se é que te podem censurar. E o que colherias, se te matasses a ti mesmo? A emenda para o teu agressor? A tua desforra?... A emenda é falível, a desforra miserável, indigna e criminosa. Vós, que pretendeis abafar a voz da consciência aos gritos descompassados do capricho, do egoísmo grosseiro e maligno, que vos faz devanear o enlouquecer,.. pensai, refleti... e haveis de convir em que o suicídio é um ato de desespero e loucura, quando não seja o requinte da maldade, e da maldade satânica! J. CORIOLANO DE S. L. (*) O Sr. Bouillet admite a existência de duas Saphos, a célebre poetisa e a amante de Phaon, sendo a última a que deu o famoso salto do Leucate; mas esse fato se acha agregado pela tradição e pelo que temos lido a cantora de Lesbos. Respeitamos a autoridade; porém escrevemos segundo as nossas convicções. (Nota do Autor) (**) Aludimos ao belo romance por Mr. Fonjant, cujo principal personagem é uma virgem, á que o autor dá estes dois nomes. (N do A) Publicado no Jornal Atheneu Pernambucano: Periódico Científico e Literário. “Avante e sempre!” Volume I, Ano de 1856. 1 Neste escrito o poeta Coriolano demonstra - através desse espinhoso tema - fragmentos de seu instigante pensamento. Faz considerações e investigação filosóficas sem abrir mão de lançar diálogos com nomes da literatura e da filosofia clássica universal. (N. do Org.) 2 Um dos filósofos gregos antigos mais festejados mesmo sem ter nenhuma obra escrita por ele próprio. Todos seus ensinamentos foram compiladospor seus discípulos. Autor da célebre máxima: “só sei que nada sei,” foi condenado a beber cicuta sob as acusações de “negação aos deuses gregos” e de “corromper” os jovens com suas ideias. (N. do Org.) 3 Discípulo de Sócrates se prontificou pagar a fiança para salvar seu mestre, mas foi em vão. De família política, tornou-se criador do chamado “Mito da Caverna”, uma alegoria que instiga as pessoas a conhecer a vida como ela é não somente através de representações impostas por terceiros. É como se caverna fosse a ignorância ou o senso comum que o indivíduo se livraria através do conhecimento. No geral a visão platônica o suicídio era algo abominável, mas em 29 certos casos ele poderia ser considerado uma virtude como aqueles praticados em nome da honra ou para evitar um mal intolerável. (N. do Org.) 4 De nome completo José Joaquim Rodrigues de Bastos (1777 -1862) Advogado e magistrado português aderiu à Martinhada [Para uns Revolução; para outros Golpe ocorrido em Portugal] de 11 de Novembro de 1820. Fora ainda deputado em 1821-22, sendo secretário das Cortes e membro da junta criada em 18 de Junho de 1823 para a reforma da lei fundamental. Intendente geral da polícia em 1827. Disponível.em:.http://www.politipedia.pt/bastos-jose-joaquim- rodrigues-de-1777-1862/Acesso em 28.03.2020. Figura múltipla fora ainda escritor, político. Autor de A Virgem da Polônia, Meditações ou Discursos Religiosos, Coleção de Pensamentos, Máximas e Provérbios, Os Dois Artistas ou Albano e Virgínia, Médico do Deserto. Para maiores informações de seu legado intelectual e de sua vida ler o livro Vida e Obra do Conselheiro José Joaquim Rodrigues de Bastos escrito por Rui Moreira de Sá e Guerra. Também conhecido por “conselheiro” tinha uma visão peculiar sobre o suicídio. Num certo jornal brasileiro do século XIX arrematou “(...) não se diga: Eu já paguei minha vida à sociedade, nos trabalhos que empreendi e executei por ela; porque esta dívida é muito avultada, não pode ser paga senão pelo emprego de toda a nossa vida; e quem se priva de uma parte desta, deixa de pagar uma parte daquela.” APEB – Microfilmes. A Marmota Fluminense, 29 de agosto de 1854. (N. do Org.) 5 Refere-se, notadamente, a toda humanidade ao remeter a figura do “pai primordial” Adão, que na tradição cristã, juntamente com Eva deram início a humanidade. (N. do Org.) 6 Purificada. 7 Infeliz. 8 Bebeu. 9 Encarar. 10 Arma militar, era uma espécie de canhão primitivo. 11 Espécie de pique com pontas de ferro. 12 Digno de pasmo, fantástico. 13 Íngreme. 14 Algo que suaviza. 15 Amedrontada. 16 Refere-se ao Século XVIII, época que deflagrou o fenômeno do Iluminismo, que foi um movimento surgido na burguesia europeia com vistas a romper com os principais ideais do período medieval. Em seu bojo defendia o cientificismo, racionalismo e antropocentrismo. Seus principais representantes foram Montesquieu, Adam Smith, Voltaire, Denis Diderot, Immanuel Kant e muitos outros. Essa corrente teria sido responsável pelas Revoluções Francesa, Industrial e Americana. (N. do Org.) 17 Seguidores do Estoicismo, escola de filosofia helenística grega fundada por Zenão que tinha como caraterística principal desprezar as emoções e vícios em detrimento da virtude que é o único caminho para a felicidade. Sêneca um de seus maiores representantes, defendia que quando a vida não tinha mais sentido a auto eliminação era compreensível. O mesmo acabou “se suicidando” por ordem de Nero. (N. do Org.) 30 18 Decisões. 19 Que não erra. 20 Superior. 21 Grupos de filósofos gregos antigos itinerantes que dominavam a arte da retórica. Eles cobraram por seus ensinamentos. Alguns de seus representantes foram Hípias, Górgias, Pródico, Protágoras, Trasímaco, Crátilo e Antifonte. Essa corrente recebeu muitas críticas de outros filósofos da época. (N. do Org.) 22 Thomas Chatterton (Bristol/Inglaterra, 20.11.1752 - Londres/Inglaterra, 24.08.1770) Talento precoce ficou conhecido por escrever poesias com fortes influências românticas e medievais. De família pobre e criado pela mãe e irmã, desde pequeno marcou por sua personalidade melancólica sendo tomado por sucessivos “ataques de abstração”. Já em Londres morando só, dirige-se a um boticário onde adquire algumas substâncias, tomando-as. A maioria relata que em crise financeira e com bastante fome Chatterton teria se matado. Mas outra vertente defende que o poeta foi vítima de uma overdose acidental, haja vista que o mesmo só queria se tratar por conta de uma doença venérea. Enterrado em vala comum, alguns de seus admiradores entraram em campanha para construir um monumento em sua homenagem. Concluída a obra, ela foi erigida defronte a igreja Saint Mary Redcliffe, mas não passou muito tempo, pois foi retirado por religiosos locais. A cena da sua morte foi pintado em quadros e gravuras. Fontes: https://www.poetryfoundation.org/poets/thomaschatterton;.https://en.wikipedia.org/wiki/Tho mas_Chatterton;.http://osuicidario.blogspot.com/2012/06/thomas-chatterton.html e outros (N. do Org.) 23 Também chamado Marco Pórcio, Catão Uticense (ou de Útica) ou ainda Catão, o Moço não há de confundi-lo com seu bisavô Catão, o Velho. Grande opositor político de Júlio César ficou conhecido por seus pares de ser um exemplar de ética e conduta e homem público era adepto do Estoicismo, onde as virtudes são o único caminho para a felicidade. Após ter perdido a Batalha de Tapso para seu arqui-inimigo César, Catão decide se matar por exsanguinação, técnica que consiste em perder muito sangue por ferimentos autoprovocados. Foi biografado por Plutarco em sua Vidas Paralelas, na qual narra os seus últimos dias de vida. “(...) Catão empunhou a espada e a enterrou em seu peito. A inflamação da mão o impediu de desferir o golpe com a força necessária para que expirasse na hora - e, lutando contra a morte, ele caiu da cama (...) O médico chega e, ao atestar que as vísceras não estavam afetadas, tenta recolocá-las no lugar e suturar a ferida. Catão, no entanto, recuperava-se do desmaio: quando recobrou os sentidos, repeliu o médico, reabriu o corte e dilacerou com as mãos suas entranhas. E morreu. (Vida de Catão, o Jovem, LXVII-LXX)” Disponível.em:/https://devitastoica.com/2018/12/01/catao-de-uticadiante-da-morte/Acesso: 05.04.2020. Sua morte é considerada honrosa pelos estudiosos haja vista que preferiria morrer a não ter de pedir clemência a César ou ainda correr o risco de ser exilado e preso como um troféu para seu inimigo. (N. do Org.) 24 BATALHA DE CANAS - Célebre peleja travada entre Roma e Catargo no contexto da 2ª Guerra Púnica em 216 a.C.. Mesmo com inferioridade numérica os cartagineses liderados por Aníbal conseguiram impor derrota aos romanos tornando uma das batalhas mais sangrentas da história. Fonte: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/anibal-barca-roma- de-joelhos.phtml (N. do Org.) 25 Provavelmente refere-se a Caio Júlio César (100 - 44 a.C.) relevante imperador romano que acabou assassinado por uma facção de senadores liderados por Brutus. 31 26 Cleópatra nascida na macedônia, era filha de Ptolemeu XII, Rainha do Egito teve relacionamento com Júlio César tendo com este um filho Cesário. Teve também relacionamento com Marco Antônio sucessor de César. A dinâmica de sua morte possui várias versões. A mais conhecida é de ela teria se suicidado ao deixar ser picada por uma serpente venenosa. Outros acreditam que ela pode ter se matado com um grampo ou até mesmo ter ingerido um coquetel de substâncias mortais. “A morte de Cleópatra efetivamente encerrou a Última Guerra Civil da República Romana entre os triúnviros Augusto e Marco Antônio, em que Cleópatra se alinhou com Antônio, pai de três de seus filhos. Antônio e Cleópatra fugiram para o Egito após serem derrotados na Batalha de Áccio, em 31 a.C., na Grécia romana,após a qual Augusto invadiu o Egito e derrotou suas forças. Cometer suicídio lhe permitiu evitar a humilhação (...)”Disponível.em:.https://pt.wikipedia.org/wiki/Morte_de_Cle%C3%B3patraAcesso em 09.04.2020. (N. do Org.) 27 Provavelmente refere-se a Carlota Joaquina de Bourbon, esposa do rei D. João VI. Figura polêmica giram em torno de sua biografia diversas especulações, de conspiradora e de principalmente adúltera, mas nada com relação a esta última acusação pode ser comprovada definitivamente. Essa “má fama” pode ter sido construída porque ela se opunha politicamente a Inglaterra e a Portugal e era constantemente acusada de estar conjurando contra seu marido. Fonte: CASSOTTI, Marsilio. Carlota Joaquina. O Pecado Espanhol, Lisboa: A Esfera dos Livros, 2009. (N. do Org.) 28 Aníbal Barca (247 a.C.-183 a.C.). Um dos maiores líderes militares da História até a atualidade. Comandou diversas batalhas e foi um dos responsáveis por derrotar as tropas romanas, iniciando a decadência do império. Ficou conhecido na antiguidade pelo uso de elefantes nas batalhas. Foi derrotado por Cipião Africano na Batalha de Zama, “(...) Aníbal fugiu para a corte do Rei Prúsias I, da Bitínia. Lá, ainda perseguidos pelos romanos, decidiu tirar sua própria vida com um veneno que carregava dentro de um anel. Antes de se suicidar, teria dito: ‘Libertemos Roma dos terrores que lhes causa um velho’.” Disponível.em:.https://escolaeducacao.com.br/anibal- barca/Acesso em 11.04.2020 e GLASMAN, Gabriel. Aníbal: o inimigo de Roma. São Paulo: Madras, 2009. (N. do Org.) 29 Importante poetisa grega da antiguidade produzia versos com forte influência erótica. Alguns historiadores defendem que a mesma teria se jogado de um penhasco por conta de um amor não correspondido. Fonte: FLORES, Guilherme Gontijo. Fragmentos completos - Safo. São Paulo, Editora 34, 2017. (N. do Org.) 30 Refere-se à obra Os sofrimentos do jovem Werther (1774) escrito pelo autor alemão Johann Wolfgang von Goethe. Escrito em forma de cartas trata-se de um amor que não podia se consumar entre Werther e Charlotte por esta já está possuir relacionamento com outro. Um dos aspectos que mais chamam atenção quanto ao livro diz respeito a uma suposta “onda” de suicídio que a mesma teria causado. Isso porque o protagonista tira a própria vida no final da história. Percebeu-se que logo que o livro ganhou repercussão, leitores jovens que se suicidaram naquela época tiveram contato com a obra inclusive alguns trajando roupas similares da personagem descrita pelo autor. Até hoje essa tese é muito discutida no meio acadêmico tanto que o fenômeno recebeu um termo “Efeito Werther” ao se referir a suicídios em efeito “cascata.” Fontes: GOETHE, J. W., Os sofrimentos do jovem Werther. 2.ed. Tradução e notas de Erlon José Paschoal. São Paulo: Martins Fontes, 2007https://www.ufrgs.br/psicopatologia/wiki/index.php?title=Os_sofrimentos_do_jovem_Wert here https://periodicos.fclar.unesp.br/semaspas/article/view/7949. (N. do Org.) 31 Vide nota 17. 32 32 Nero Cláudio César Augusto Germânico, seu nome completo é considerado um dos mais sanguinários imperadores romanos. Perseguido pelo Senado, tenta fuga e ordena seu secretário Epafrodito para que o apunhalasse caso fosse capturado e assim foi feito. Dentre as acusações que mais lhe pesam dizem respeito à prática do incesto, de matricídio e de ter ordenado incendiar Roma pondo a culpa nos cristãos. “(...), Nero forjou culpados e lhes infligiu as mais atrozes punições naqueles, detestados por suas abominações, a quem o vulgo apelidava de Chrestianos. (...) Os primeiros a serem presos eram aqueles que confessavam, então, através de suas informações, um grande número de pessoas foi acusado, não tanto de ter ateado fogo à Cidade, mas de ódio contra a raça humana. E, conforme eles pereciam, zombarias eram acrescidas, tanto que, cobertos com peles de animais selvagens, eles morriam devido às mutilações que os cães lhes infligiam, ou, fixados a cruzes, eram queimados, e no cair da noite eram usados para a iluminação noturna. Nero forneceu seus jardins para o espetáculo e ofereceu jogos circenses misturando-se com a plebe disfarçado de condutor de carro de guerra ou em sua própria biga.” TACITUS. Annals. Texto estabelecido, traduzido e comentado por A. J. Woodman. Indianapolis/Cambridge: Hackett Publishing Company, Inc., 2004, XV, 44. (N. do Org.) 33 Judas Iscariotes foi a figura mais execrável de todos os tempos, era um dos discípulos de Cristo. Filho de Simão traiu Jesus entregando-o aos soldados romanos através de um sinal que seria um beijo no rosto de Cristo por 30 moedas de prata. Tomado de remorso se enforca em uma árvore não sem antes devolver o dinheiro aos sacerdotes no templo. (N. do Org.) 34 Saint-Preux, personagem da obra Júlia ou A Nova Heloísa escrita pelo filósofo Jean-Jacques Rousseau. Livro também escrito em formato epistolar fala do romance entre Julia e seu tutor Saint-Preux, que não pode se consumar pelo fato dele ser pobre. Cf. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Júlia ou a nova Heloísa. Campinas: Hucitec: Unicamp, 1994. (N. do Org.) 35 Mylord Edouard personagem secundário da obra citada acima era um dos poucos a favor do relacionamento. É ele que demove dos pensamentos de Saint-Preux a ideia de se suicidar. (N. do Org.) 36 Tradução livre: “Salva a ti mesmo.” 37 Vingança. 33 O homem é bom ou mau segundo a educação que recebe1 A leitura rápida e momentânea de um manuscrito, cujo autor, que sumamente prezamos, combate o princípio “o homem é bom ou mau segundo a educação que recebe”, suscitou-nos o desejo de produzir algumas ligeiras reflexões em favor do mesmo princípio. O público nos desculpará ainda esta vez pelo arrojo que tivemos em fazê-lo, visto ser o ponto delicado, e digno somente de ser tratado ou pelos mestres das ciências sociais, ou pelos talentos fecundos, embora novos, onde a prematuridade do desenvolvimento científico pôde ombrear com a veterania do estudo sério e refletido. Em nossa humilde opinião, a sentença que vamos defender – “o homem é bom ou mau segundo a educação que recebe” - não é uma sentença tão especulativa que somente possa ser demonstrada teoricamente, - é também prática, de sorte que, enquanto o raciocínio abraça-a, levado pelos motivos mais sólidos e plausíveis, os fatos de todos os lados se apresentam para justificá-la. “O homem é bom ou mau segundo a educação que recebe”, princípio este tão verdadeiro, quanto excepcional pode ser qualquer fato isolado que contra ele se haja dado, e cuja inexequibilidade somente teria lugar, se as máximas da verdade pudessem imprimir em todos que as ouvem ou leem o caráter que lhes é próprio. Mas isso, absolutamente falando, é impossível no homem susceptível de paixão, de egoísmo, de erro, de fragilidade, etc. Em teoria podemos considerar a educação de baixo de dois pontos de vista; ou cultivada em um círculo menos espaçoso, - a educação particular, ou cultivada em um círculo mais amplo, a educação pública. Cumpre, porém notar que não queremos confundir a educação com a criação -, porque, conquanto ambas tendam essencialmente ao mesmo fim, - a conservação física e a perfeição moral do homem, - contudo, esta, a criação, denota esses primeiros cuidados e desvelos dos pais relativos à conservação de um corpo ainda falta de vigor e de agilidade, e a inoculação pausada dos primeiros ensaios ou rudimentos da religião, que pouco a pouco vão dando passagem ao conhecimento das verdades morais; enquanto que aquela, a educação, recaindo sobre a moral e a instrução, supõe já outros princípios mais elevados e esclarecidos, outras ideias mais amplas e generalizadoras, e regras mais metódicas que sirvam de guia a razão nos escabrosos e multiplicados desvios a que muitas vezes o homem é arrojado durante o curto espaço de sua peregrinação nesta vida.A educação, quer doméstica ou particular, quer pública, foi, é e será sempre o principal - senão o único móvel das ações do homem, boas ou más, segundo também ela o foi. Os sábios, qualquer que seja a profissão que abracem, a 34 reconhecem, porque a educação é mister em todos os ramos das ciências humanas. As leis que a protegem, e que sempre a protegeram em todos os tempos, em todos os lugares, em todas as ocasiões, impondo aos pais e aos diretores da infância a obrigação de levarem seus filhos, afilhados ou tutelados às escolas primárias para aí aprenderem a língua vernácula, as máximas e os preceitos necessários da religião e da moral, que os fazem conhecedores do que são, e do fim a que foram destinados pelo supremo Criador, é o mais poderoso argumento contra aqueles que somente veem na educação uma influência secundária acerca dos atos da vida humana. Se, pois, discorrendo teoricamente sobre a educação, vemos que ela é que põe a última de mão à obra começada pelos diretores da infância, - a criação pelo lado prático então mais se justifica o princípio, porque os fatos tanto tem de numerosos, quanto de patentes; tanto de verdadeiros, quanto de irrecusáveis em sua apreciação. Perguntai aos primeiros povoadores desta terra vasta e formosa a razão por que eram antropófagos (e que grão de perversidade não revela a antropofagia!). Perguntai-lhes a razão por que enterravam vivos os próprios pais, quando chegavam à idade decrépita. Mas não lanceis ao olvido2 a índole hospitaleira e benéfica, e ainda social, dos primitivos indígenas do Brasil, e eles vos responderiam: - Comíamos os nossos semelhantes, porque desde o berço nossos pais nos ensinavam pela teoria e pela experiência que assim devíamos fazer a respeito dos nossos inimigos. Enterrávamos vivos os nossos maiores, quando caducos, porque igualmente nos ensinavam pela persuasão e pelo exemplo que só por esse modo lhes pouparíamos os sofrimentos inerentes à caducidade. E quem não vê nesses fatos o efeito da educação desses povos? Entretanto, os indígenas brasileiros eram por índole mansos, pacíficos, humanitários mesmo. Mas, a admitir a opinião dos nossos adversários - que a educação apenas influi de um modo secundário nos atos humanos; esses índios, esclarecidos pelo farol da razão, que alumia a consciência do homem ainda mais selvagem e grosseiro, deviam obrar segundo sua índole, em geral boa, segundo sua razão mais ou menos esclarecida. Porém é o contrário disso o que os fatos testificam. A educação é a vida dos povos, e a vida dos povos o espelho onde a educação se reflete. Descrevei-me circunstanciadamente a educação que teve tal povo, e eu vos direi, de um modo mais ou menos verdadeiro, se ele foi guerreiro, magnânimo, - se ele foi servil ou pequenino, industrioso ou indolente. Compulsai as variadas páginas da história, tanto antiga como moderna, e nela vereis a verdade que reveste nosso pensamento. Se naquela virdes o belicoso lacedemônio3 investindo o adversário coma espada curta, porque melhor veja a cara do inimigo, atribuí-o a educação: - se nesta virdes a França de Voltaire4 regurgitando no mais execrável sensualismo e na mais inconsequente heterodoxia, atribuí igualmente as palavras insinuantes e perigosas desse pernicioso inovador esses desregramentos da razão, atraída pelo europeu de suas refalsadas5 doutrinas. Agora lancemos as vistas para a vida doméstica, e analisemos 35 alguns dos fatos que aí se dão, começando por nossos filhos ou fâmulos,6 e acabando pelos próprios animais das selvas, ainda os mais indomesticáveis e ferinos. Por mais travessa e rixosa que seja uma criança, senão cansamos em dar-lhe bons conselhos e ensino, por meio de palavras afetuosas, de carícias, de mimos, e algumas vezes até por meio de castigos adaptados a fragilidade de seus anos, conseguimos quase sempre moderar-lhe a tendência rixosa. Esse os meios, do que lançamos mão, são habilmente empregados, conseguimos até extingui-la. Ao contrário do que fica exposto, por mais reconcentrada e humilde que seja uma criança, senão lhe repreendemos uma travessura ou rixa que possa ser cometido, sob o pretexto de que foi um leve erro desculpável, atenta sua curta idade, atento seu comportamento em geral bom; se duas, três, quatro vezes ou mais essa criança cai nos mesmos erros, sendo sempre desculpada, nunca repreendida ou castigada, por mais reconcentrada e humilde que seja, irá gradual e progressivamente, pelo apoio e amém que lhe dão seus pais ou diretores, tornando-se de humilde - soberbinha, de pacata - leviana; e não custará muito em serem as boas tendências naturais substituídas pelos prejuízos da criação, que é o primeiro degrau da educação. Não admira que a influência da educação determine de um modo tão poderoso as ações humanas, quando nos próprios irracionais (entenda-se-nos em termos hábeis) ela exerce um império, que se não poderá contestar senão pelo emprego de sofismas ou de subterfúgios. Entre nós, que animal poderá haver mais feroz e sanguinário do que o tigre, o qual, muitas vezes, estrangula a vítima sem devorá-la, somente para com a vista do sangue dela pascer7 a gravidade de suas entranhas? Que réptil mais traiçoeiro e inimigo do homem do que a cobra? - Entretanto tigre encarcerado afaga e lambe a mão daquele que na prisão tem o costume de trazer-lhe o alimento; e a cobra venenosa e traiçoeira acostuma-se também com o seu domesticador, enrrosca-se-lhe pelo braço, e raras vezes acontece picá-lo, e só o faz quando se julga por ele muito ofendida em consequência de maus tratos, pancadas, etc. Mas, mandai a outrem levar a comida ao tigre, mandai a outrem pegar na cobra: - aquele será dilacerado pelas garras da fera; e este será mordido pela cobra. E porque tudo isto assim acontece? A resposta parece-nos bem natural. Contra os fatos reais não se pode vantajosamente argumentar em terreno tortuoso. Vós apresentais-me, por exemplo, dois mancebos, educados do mesmo modo, com os mesmos recursos, com as mesmas vantagens: um respeitador das leis do dever, cordato, submisso outro desrespeitador dessas mesmas leis, altivo, desarrazoado. O que há; aí contra o princípio que sustentamos? Respondei: - se este não tivesse uma educação mais ou menos aperfeiçoada, que sem dúvida nenhuma enervou-lhe8 parte dessa tendência malévola que por natureza o arrastava para a perversidade, os 36 seus atos mãos praticados na razão de um ou dois não seriam praticados na razão de dez ou vinte? - A resposta pela afirmativa cremos que se deixará ouvir espontaneamente de todos aqueles que, tendo a mira nos fatos que se reproduzem acumuladamente, senão deixarem levar por uma síntese imperfeita e imparcial, talvez por não terem refletido seriamente no princípio que faz o objeto deste insignificante trabalho. Vós que não admitia a autenticidade da máxima “o homem é bom ou mau segundo a educação que recebe”. Sobre que pedestal científico apoiais a vossa opinião? Quais os motivos que a roboram? Quais os fatos, os títulos que a justificam? Respondei-nos ao menos: por que razão o furto, o roubo, o assassinato, e em geral todos os crimes, são tão frequentes nas classes desprovidas de educação, quanto raríssimos naqueles que ocupam na sociedade uma posição eminente na hierarquia das ciências e das artes? Por que motivo tem a experiência mostrado que nos homens entregues a certas profissões há mais crueldade do que em outros que seguem profissões diferentes? Por exemplo: porque nos homens dados a profissão do talho, aliás, lícita, há mais propensão para a crueldade do que para as ações humanitárias enquanto que o lavrador é por natureza pacato, humano e caridoso? - Provavelmente recusareis a única resposta que se pode dar a tais perguntas, são obstante ser esta fácil; mas nós nos encarregamos de dá-la certas palavras; - tudo se decifra pela vida profissional do homem; - tudo sedecifra pela palavra “educação”. A vista do que temos ponderado, seja-nos permitido dizer - que não acreditamos na virtude divinizada de uma Flor de Maria9 sob a tutela corrupta de uma perversa Coruja, nem tão pouco na de uma Suzana,10 a despeito das pérfidas e malévolas insinuações de Esmael Spencer.11 São devaneios de romancistas, são meras entidades criadas pelos autores dos Mistérios de Paris12 e de Londres para nos escaldarem a imaginação, e assim atraírem leitores e compradores, como o ímã atrai o ferro. Se, porém alguém quiser apertar conosco, admitiremos a possibilidade do fato, isto é, a virtude das Flores de Maria e das Suzanas, vivendo nomeio dos crimes e dos lupanares-, porém sempre a admitiremos como uma exceção, e nada mais. Para aqueles que impugnam o princípio em questão, é muito valioso o adágio latino “quod natura dat, memo negare potest”.13 Mas permita-se-nos uma breve digressão acerca deste adágio, do qual sempre fomos adversários, quando interpretado como alguns o entendem. Com efeito - é querer tirar a nobreza que deve caracterizar o homem inteligente, sensitivo e livre - é querer reduzi-lo a um mero autômato da natureza, em si tão grotesca como todos os seres que a povoam, desfavorecidos de razão, - é, enfim, querer pôr inteiramente de parte a força da vontade obrando de acordo com a moralidade do homem, ditada pela consciência, infalível nos seus juízos, o sustentar-se que - não podemos contrafazer a natureza! 37 Se admitíssemos semelhante princípio, forçoso ser-nos-ia admitir também a fatalidade de envolta com a recusa das faculdades mais nobres do homem; se admitíssemos a fatalidade, forçoso ser-nos-ia admitir também a imprevidência e a injustiça divina, e assim seríamos arrastados por uma cadeia sem fim de disparates, que nos levaria aos maiores absurdos que se podem imaginar! - Porque - quem diz que não podemos contrafazer a natureza, nega que a vontade, dirigida pela tocha da razão, possa reagir contra ela; - quem isto nega, afirma o contrassenso de que o homem é natureza sempre por bom ou mau, - e quem afirma semelhante contrassenso, cá a entender mui clara e logicamente que Deus é injusto, porque, tirando ao homem o dom mais precioso, - a liberdade, - destinou- o desde o seu primeiro momento de vida a ser um ente feliz ou desgraçado. Se, porém o adágio é tomado no sentido literal - que ninguém pode negar aquilo que a natureza dá, - isto é, que a natureza exerce tanta influência sobre o homem que se não pode contestar essa influência, neste caso o adágio é verdadeiro, e não somos seu adversário. Saindo deste círculo, em que voluntariamente nos envolvemos, e declinando da nossa humilde opinião a respeito do ponto principal que nos ocupa, apresentemos por último o juízo de uma autoridade que, acreditamos, fará calar a todos que não veem na educação senão uma influência indireta quanto aos atos humanos. Não é uma simples autoridade que vamos citar, não: é uma autoridade, a quem Deus concedeu especialmente o dom da sabedoria, da ciência infusa,14 e cujas ideias são imediata centelhas que a mente divina vibrou: - é Salomão. Ele diz: “É provérbio: O homem segundo o caminho que tomou sendo mancebo, dele se não apartará ainda quando for velho” (Proverbium est: Adolescens juxta viam suam, etiam cum senuerit, non recedet ab ea.) (*) E notai bem o que diz o Padre Pereira,15 em anota 212, relativamente a esta máxima: “Como nem no Hebreu, nem nos Setenta, nem no Caldeu se leem estas palavras: Hé provérbio; adverte Calmet,16 que S. Jerônimo17 entendeu devê-las acrescentar aqui, para que os Leitores tomassem melhor o peso a esta máxima importantíssima da educação”. Não ser-nos-a dificultoso corroborar ainda nossa opinião com a de muitos autores esclarecidos que se tem votado pela questão vertente; porém, para que não percamos por prolixo, contentamo-nos com a única autoridade que ficou citada, e cujo pensamento, como se deduz da nota do Padre Pereira, encarecido por S. Jerônimo, importa também o pensamento precioso do Santo Doutor. Entretanto desejáramos que os nossos adversários nos dissessem qual a conclusão lógica que se pode tirar do provérbio de Salomão.18 Desejáramos que eles nos respondessem se da máxima “o homem segundo o caminho que tomou sendo mancebo, dele se não apartará, ainda quando for velho” se pode chegar à outra consequência que não seja 38 esta: - “o homem é bom ou mau segundo a educação que recebe”; porque a educação influi diretamente nos atos humanos. Não podemos pensar todos da mesma maneira. “Tantos são os indivíduos, quantas as opiniões”. Resta-nos, porém o consolo de que, se laboramos em erro, estamos na melhor boa-fé; não se nos podendo denegar a escusa: porque, se o erro existe, é para nós invencível, segundo nos afirma a consciência. (*) Liv. dos Prov., cap. XXII, v. 6. J. CORIOLANO DE S. L. Publicado no Jornal O Ensaio Filosófico Pernambucano: Periódico Científico e Literário. “Avante e sempre!” Ano I., Setembro de 1857, Nº 2. 1 Neste escrito o filósofo piauiense disserta sobre um dos maiores debates que tomaram de conta da dos séculos XVI e XVII na qual se arvoraram para o debate - dentre os mais conhecidos - Thomas Hobbes, Jean-Jacques Rousseau e John Locke, que divergiam e aquiesciam em vários aspectos quando tratavam do chamado “Estado de Natureza”. O poeta traz a discussão o componente essencial a seu ver para a discussão – a educação. Provocado por um texto escrito com mesmo nome de outro autor desconhecido, Coriolano se sente provocado pelo tema o que o motiva a escrever sempre trazendo à baila fundamentações religiosas e literárias para embasamento de seu pensamento. (N. do Org.) 2 Esquecimento. 3 Natural ou habitante da Lacedemônia, Lacônia ou Esparta: os lacedemônios eram severos nos seus hábitos. 4 Era o pseudônimo do filósofo francês François-Marie Arouet, nascido no ano de 1694 e falecido no ano de 1778. Um dos principais iluministas foi um dos responsáveis pela edição de uma enciclopédia de 36 volumes. Polêmico, gostava de atacar a Igreja Católica e sua época chegando a ser preso por ofender alguns nobres. Autor prolífico tenha escrito mais de 70 obras dentre as quais se têm espalhadas sua ideia sobre educação. “Daí segue-se evidentemente precisarmos muito que nos ponham na cabeça boas ideias e bons princípios, desde que possamos usar a capacidade do entendimento”. VOLTAIRE. Dicionário filosófico. Tradução Bruno da Ponte et al.. São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Coleção “Os Pensadores”), p. 125. Verbete: Consciência. (N. do Org.) 5 Falsas, hipócritas, fingidas. 6 Quem presta serviços domésticos; criado. 7 Alimentar. 8 Enfraqueceu lhe. 39 9 Diz a tradição católica que Maria – pelo fato de ter nascido no inicio da primavera – acabou atraindo para si essa denominação, o que lhe rendeu o famosíssimo adágio: “Da cepa brotou a rama, da rama brotou a flor, da flor nasceu Maria, e de Maria o Salvador”. (N. do Org.) 10 Trata-se de uma personagem do romance escrito em folhetim Mistérios de Londres (1844) escrito pelo francês Paul Feval. Com várias nuances o escrito permeia entre a baixa e a alta classe social londrina no século XIX. Apaixonada pelo aristocrata Brian de Lancaster, no decorrer da história descobre-se que ele é seu tio. (N. do Org.) 11 Personagem também do romance anterior, suposto pai de Suzana ele é retratado como um judeu mau caráter. Também é revelado não ser ele pai da mesma. 12 Livro escrito por Eugène Sue (1804 - 1857), foi o que inspirou a Feval escrever a sua. 13 Tradução livre: “(...) o que é natural não importa desconhecer, pois, cedo ou tarde ele nos toma.” 14 Diz-se das qualidades, virtudes ou capacidades adquiridas sem que houvesse qualquer esforço intencional, geralmente infundidas no ser humano pela graça de Deus. Fonte: https://www.aulete.com.br/infuso (N. do Org.)15 Provavelmente refere-se ao padre cânone português Antônio Pereira de Figueiredo (1725- 1797). Foi o grande responsável pela tradução da Bíblia da Vulgata Latina para a língua portuguesa. (N. do Org.) 16 Religioso católico beneditino nascido na França no ano de 1672, autor de várias obras ficou bastante conhecido por escrever sobre assuntos sobrenaturais como os que constam no trabalho Dissertação sobre as aparições de anjos, demônios e espíritos, e sobre os desmortos e vampiros da Hungria, da Boêmia, da Morávia e da Silésia (1746). Por conta de seus importantes trabalhos ganhou a admiração de Voltaire que o visitava frequentemente em sua abadia. (N. do Org.) 17 Um dos intelectuais mais completos católicos, autor de várias obras. Chegava a copiar a punho as obras que não podia ter. “Quem ignora as sagradas escrituras ignora a Cristo.” Passou os últimos dias de sua vida escrevendo e morando em uma gruta próxima da onde teria nascido Jesus. (N. do Org.) 18 Terceiro rei de Israel era filho do rei Davi. Conhecido por sua riqueza, pela sua sabedoria e pelo templo que construiu. Um dos principais autores da Bíblia em 1 Reis 3:16-28 é descrito uma contenda entre duas mulheres com relação de quem seria a verdadeira mãe do bebê em questão. Salomão então determinou que partisse a criança ao meio dando uma banda do menino a cada uma delas. Ouvindo isso uma das mulheres se desesperou logo abrindo mão da posse do suposto filho. Diante disso, Salomão pode finalmente confirmar quem era a verdadeira mãe do garoto. (N. do Org.) 40 A liberdade da Imprensa1 Antes de haver João Gutenberg,2 em 1436, em Estrasburgo, inventado a arte tipográfica, as ciências, as artes e quanto então podia ser suscetível das investigações humanas existia em um estado obscuro, verdadeiramente anômalo, porque, estando tudo sujeito ao símbolo, ao hieroglífico,3 a sepultura grosseira desses tempos, os conhecimentos humanos giravam em uma esfera muito acanhada, não podendo ser divulgados nem chegar a todos. Mas, depois que a imprensa abriu os braços as habilidades, aos talentos, a humanidade, enfim, as coisas mudarão inteiramente de face. Pouco a pouco as linguagens mudas foram sendo sufocadas e substituídas pela linguagem da ação; pouco a pouco o engenho do homem mostrou que o lapso dos tempos era insuficiente para apagar as obras gigantescas de sua criação. Como é fácil de ver, a imprensa progrediu de um modo maravilhoso: ela tinha em seu favor a novidade, que é um móvel de atração e de curiosidade; ela tinha em seu favor a utilidade, a qual foi e é de um alcance tão real e genérico, que não pôde ser convenientemente negada pelo mais pirrônico4 utopista porque as verdades são de uma natureza tal que as objeções, as dúvidas, os sofismas com que por ventura quiseram-nas escurecer, mais concorrem para demonstrá-las, mais exaltam-nas pela discussão, pela refutação daqueles que as defendem. Com a marcha progressiva dos séculos, a imprensa se revelou à humanidade, não somente como um elemento de simples utilidade, porém como uma necessidade vital para os povos. E certamente. - Sem o tradutor fiel dos nossos pensamentos e palavras, sem esse meio, porque transmitimos nossas ideias às gerações, que ainda se envolvem na possibilidade do ser, dificílimo, quando não impossível, ser-nos-ia chegar a todos os nossos fins humanitários - ao desiderato,5 a que aspira a sociedade, qual é - a nossa mútua felicidade temporal, o gozo e a garantia de todos os nossos direitos. - Ser-nos-ia, sim, quase impossível, porque a palavra de per si, os símbolos, os hieroglíficos e a sepultura eram insuficientes. O tempo, com sua mão destruidora, o sopro das estações, com o seu hálito corrosivo, facilmente extinguirão a linguagem escrita dos tempos primitivos, se o filho imortal de Mayença,6 por um destino talvez Providencial, não houvesse laureado sua fronte com amais perfumosa coroa, descobrindo a verdadeira maneira, porque podemos acompanhar os évos7 em sua marcha rápida, marcha que aniquilando o homem no que este tem de puramente material, respeita os seus altos feitos, filhos da razão e da heroicidade, porque esses, por meio da imprensa, são arquivados no livro magno que chamamos - templo da memória! Isto posto, digamos duas palavras sobre esta vasta questão, a - liberdade da imprensa, - não para elucidá-la, porque os mais abalizados professores da jurisprudência a tem tratado de um modo cabal; porém para que uma vez também torrifiquemos8 a filha predileta de J. 41 Gutenberg, que, dando-lhe a luz, estreitou em um só amplexo9 a posteridade inteira, que para ele se sorriu através do véu que do presente a separa. - O nosso sábio legislador constituinte no § 4. do art.179 consagrou o princípio da liberdade da imprensa nas seguintes palavras: “Todos podem comunicar os seus pensamentos por palavras, e escritos, e publicá-los pela imprensa, sem dependência de censura; com tanto que hajam de responder pelos abusos, que cometerem no exercido deste direito, nos casos, e pela forma, que a lei determinar.” Provar que todo o homem tem o direito natural de manifestar os seus pensamentos por sons articulados, chamados palavras, é provar uma verdade, que nunca foi contestada; porque se o homem é social, e deve conseguintemente viver e comunicar com os outros seres da sua espécie, a transmissão do pensamento por palavras é um dos direitos primigênios10 constitutivos da personalidade humana, cujo exercício não deve ser obstado, enquanto justo, como é intuitivo. Conceber uma sociedade, aonde o pensamento na fosse enunciado por palavras, seria conceber um corpo dotado do princípio da vitalidade, porém em um estado de verdadeira apatia, de verdadeira inação, e a ideia de um corpo tal importa necessariamente a ideia do seu não desenvolvimento, e pelo menos do seu estado estacionário. Mas, se a transmissão do pensamento por sons articulados é um direito natural, como ninguém desconhece, e tem por fim a perfectibilidade humana, a imprensa que é um meio dessa transmissão, e faz chegar-se mais prontamente ao fim, é também um direito natural, porque - quem quer o fim, deve também querer os meios lícitos. Não obstante ser isto uma verdade de primeira intuição, não faltou quem apresentasse a seguinte objeção, nos termos mais capciosos: “Os direitos naturais nos vieram de Deus, sem que da nossa parte houvesse esforço algum para a sua obtenção. Cada faculdade nossa a Divindade proveu de um órgão que lhe correspondes o homem quer falar, andar ou satisfazer a qualquer necessidade natural, - falia, anda, satisfaça-la. Mas a liberdade da imprensa não nos veio de Deus, porque ela deriva de uma invenção do homem.” Esta objeção quase que não devia merecer as honras de uma refutação pela sua fraqueza e incoerência. Para respondê-la, bastaria dizermos que são ideias mui distintas a de liberdade da imprensa, e a de imprensa simplesmente: a primeira é relativa a um direito sagrado que nasceu com o homem; a segunda refere-se a um meio que com quanto não nascesse com o homem, ele pode empregar, porque facilita o exercício daquele direito. Assim, se a imprensa não nasceu com o homem, logo que foi inventada, identificou-se com ele, um meio do exercício de sua liberdade, indispensável para o seguimento de um fim justo. Respondamos mais cabalmente a esta objeção. 42 Há direitos naturais que para serem exercidos dependem de condições, de meios que estão fora do agente livre: tal é, entre outros, o direito que temos de procurar nossa subsistência, nossos cômodos, etc. Para chegarmos ao complemento de qualquer desses direitos, isto é, para chegarmos ao fim, que nos ele autoriza, temos de lançar mão de meios externos, e a esses meios temos direito, e um direito tão natural como é que temos ao fim, a que nos propomos. Ora esses meios podem ser pouco enérgicos, menos perfeitos do que era para desejar,ou porque não podemos lançar mão dos outros, ou porque ignoramos a existência de melhores; mas logo que, o estudo, o engenho, a experiência do homem descobrem um meio mais enérgico, mais perfeito para a obtenção daquele mesmo fim que anteriormente era obtido por um meio menos perfeito, não se pode negar ao homem, que tem o direito irrefragável11 a sua perfeição, o direito de assenhorear-se desse meio mais perfeito. Apliquemos esses princípios à manifestação dos nossos pensamentos, e veremos que é absurdo contestar ao homem o direito de fazê-la por caracteres impressos, chamados - letras. Muito se há questionado se a liberdade da imprensa deve ser absolutamente plena, se restringida; alguns até tem admitido uma espécie de corretivo ao escritor, que apelidam - censura prévia. É nossa humilde opinião que a liberdade da imprensa não pôde e nem deve ser absolutamente plena; não pode, porque o homem não é onipotente em nenhuma das suas faculdades; não deve, porque o homem tem de atender a muitas considerações, que não cumpre desprezar, e porque a justiça assim o recomenda. Tanto nos achamos compenetrados desta verdade que o pensamento, quanto a nós, ainda mesmo debaixo de sua fôrma psicológica, não o reputamos - absoluto, e disto daremos o porquê. Quando, concentrados em nós mesmo, deixamos o pensamento mergulhar-se no pélago12 insondável das fantasias, ou, tentando perscrutar os arcanos da Divindade, vemo-lo (por assim dizer) estacar e retroceder dos pórticos do Infinito, por ventura o nosso pensamento tem o cunho da realidade? Certo que não; porque não se pode classificar de real o pensamento que viaja cego e extraviado por um país que lhe é inteiramente desconhecido. O homem só é homem quando conhece a extensão e o limite de todas as suas faculdades, quando não é um ente apaixonado, cheio de ilusões, e puro fabricador de castelos no ar. Não queremos ser excêntrico, quando assim nos pronunciamos. Marrast13 nos autoriza a pensar desta maneira quando diz: “que toda a faculdade humana é limitada em sua natureza; que toda a liberdade encontra um limite necessário em uma liberdade vizinha.” Onde, pois a absoluta plenitude do pensamento humano? O homem no exercício de qualquer dos seus direitos, segundo pensamos, não pode usar de uma liberdade absolutamente plena, porque todos os direitos humanos são restringidos, tendo uma esfera assinalada dentro da qual o agente livre deve obrar. A plena e absoluta liberdade só existe em Deus, que é ilimitado e absoluto em todos os seus divinos 43 atributos. Mas, se reconhecemos que todo o direito humano tem um limite, também reconhecemos que a liberdade humana não deve ser encurtada em quanto não for na esfera da liberdade alheia por obstáculos ao seu livre desenvolvimento. É por isso que rejeitados a censura prévia, doutrina abraçada pelo Sr. Ficquelmon14 e outros publicistas. O Sr. Ficquelmon pode-nos objetar pouco mais ou menos deste modo: “A liberdade da imprensa é um direito natural como outro qualquer. Não há direito algum natural que seja absoluto; todos são mais ou menos limitados. E se a sociedade tem o poder de limitar o exercício de todos os direitos, porque não há de tê-lo acerca do da liberdade da imprensa? Porque não há de obviar os abusos que possa resultar do exercício desse direito? Porque não há de estabelecer uma polícia preventiva, uma censura prévia, que tenha por fim cortar e prevenir tais abusos?” Mas, perguntaremos: como estabelecer-se essa polícia preventiva, essa censura prévia? Hoc opus...15 Não há quem negue que os direitos do homem são limitados pelos princípios de justo e do honesto; porém há muito quem negue a utilidade da censura prévia, porque ela é tanto mais esquisita e lesiva dos direitos do cidadão, quanto em nenhum outro direito natural os seus sectários afundam. A censura prévia importa a existência de um censor, de um homem eminentemente ilustrado e quase que dotado do dom da inerrância para analisar miúda e imparcialmente o escrito que tem de aparecer no domínio do público. Porém, qual o censor (falamos em teoria) que exerça as mesmas atribuições a respeito de outro qualquer direito natural que não seja o da liberdade da imprensa? Por ventura o legislador quando proibiu o furto, o roubo, o assassinato estabeleceu, ou alguém já recomendou que um censor fosse indagar do ladrão, do roubador, do assassino - quando, aonde e de que modo ia perpetrar o crime? - Quem o afirmará, a menos que não afirme também que semelhante censor deverá ser um adivinho, um conhecedor dos segredos que se acham depositados no coração humano? A comparação que estabelecemos, não é um paradoxo, ela nos parece coerente e verdadeira. A censura prévia importa o resultado de todos os atentados que atacam a liberdade da imprensa. Esse resultado, segundo o Sr. Benjamin Constant,16 consiste “na exasperação dos escritores, cujo sentimento de independência é inseparável do talento; nas alusões, a que eles têm de recorrer tanto mais amargas, por isso mesmo que são indiretas; nas produções clandestinas, que necessariamente hão de circular, e por esse fato mais perigosas; no desejo excessivo do público pelas anedotas, e pelos princípios sediciosos; no caráter sempre interessante da coragem dado a calúnia em uma palavra, numa importância viciosa aquelas mesmas obras que são proibidas.” Os mesmo escritos ainda diz com toda a propriedade: “Tem-se confundido sempre os escrito imorais com a liberdade da 44 imprensa, e é a escravização da imprensa que há produzido os escritos imorais e que lhe tem assegurado o seu reino.” “A censura prévia, dizem os partidários desta doutrina, é o mais poderoso baluarte que se pode levantar contra os delitos da imprensa;” e, estribados no princípio de direito - melius est occurrere in tempore, quam post exilum vindicare,17 - supõe haver justificado sua opinião, assentando-a em um terreno inexpugnável. Enganam-se: “É melhor prevenir o crime, do depois de que puni-lo perpetrado” não há dúvida nenhuma. Porém como se entende prevenir o crime? Com a criação de censores que, sob o pretexto de utilizar a sociedade, não farão senão levá-la ao sorvedouro dos abismos?... Certamente que não; porém com a promulgação de leis sábias, prudentes e enérgicas que inflijam penas a tais e tais crimes provenientes de tais e tais abusos; isto, sim, é prevenir o crime, porque o cidadão que conhece a sabedoria do legislador e a retidão do tribunal que o tem de julgar, evitará cair nos abusos para que não venha a sofrer por causa deles: qui amat periculum, in ill peribit;18 é um princípio que reconhecemos, porque frequentemente se vê realizado. O meu distinto patrício o Sr. Moraes Sarmento,19 apostilando o § 4° do art. 179 do nosso Pacto fundamental, e referindo-se ao princípio de direito supracitado, se expressa de um modo mui conveniente e justo. Diz ele: “todas as leis preventivas trazem com sigo o cunho da injustiça, por isso mesmo que tendem a esbulhar20 o homem de um direito com o frívolo pretexto de que ele poderá abusar. Se atendermos que a privação de um direito é uma pena e que esta pena para ser justa deve ser a consequência de um delito, facilmente conheceremos a sem razão de se privar a uma pessoa de um direito, sem que esta tenha primeiramente cometido um delito.” Os propagadores da censura prévia sustentam na ainda com este argumento: “Os males que resultam do abuso da liberdade da imprensa são superiores aos que procedem do abuso de qualquer outro direito. Assim o indivíduo que é infamado ou ferido em sua honra e reputação, sofre tantos agravos, tantas ofensas e injurias quantos são os exemplares do escrito que contra ele foi publicado; porque, embora a autoridade competente, por sentença, mande cassar o escrito, não é possível que todos os exemplares sejam destruídos: alguns escapam a ação da justiça, e ainda que sejam totalmente aniquilados, as ideias que correrãopor tantas partes, permanecem em todos que as receberão, e o indivíduo ofendido, senão a respeito de uns, a respeito de outros é reputado tal qual o seu detrator o descreveu.” Não desconhecemos o peso deste argumento: porém para contrabalançá-lo-á esta a opinião pública, que é o juiz mais reto que existe entre os homens; e é também a opinião pública que com sua razão esclarecida levantará a voz da justiça para defender o inocente - ignorante que não sabe medir suas rústicas armas com a perícia astuciosa do seu agressor. 45 As vantagens que resultam da liberdade da imprensa são de um valor incalculável para o indivíduo que a cultiva, para os particulares, para o Estado e para a Religião. O indivíduo, cultivando a imprensa, se habilita para um dia servir devidamente a sua pátria. Em quanto vai encontrando esses tropeços que ordinariamente se nos atulham na arena espinhosa das letras, em quanto a experiência lhe vai fornecendo cabedais científicos, aproveita pouco a pouco os benefícios, que lhe proporciona a imprensa, e chega a final o poder de ocupar algum espaço no grande mapa que traça o nome e os feitos dos homens célebres. E nem se diga que o escrito novel, porque sustentou e propagou uma doutrina errônea, concorreu diretamente para o dano da sociedade. Não: primeiramente porque aí estão as capacidades, os talentos que escudados na lógica e nos são princípios da verdadeira filosofia, esclarecerão a questão, sabendo descriminar o verdadeiro do falso; e em segundo lugar porque da publicação mesmo das ideias errôneas resultam muitas vezes imensos bens a sociedade, que partilhando, em parte, dos mesmos preconceitos, acha nas discussões da imprensa o mais pronto corretivo ou emenda para eles. Mas, se o erro posterga os princípios recomendados pela morai ou abala os fundamentos da religião de Jesus Cristo, então não é debalde21 a doutrina que o nosso legislador Constituinte consagrou no final do § 4° do art. 179, “e seja o escritor, perante a lei, responsável pelo abuso que cometeu no exercício da liberdade da imprensa.” Os particulares, testemunhando de parte com a boa fé que deve caracterizá-los, as questões que se discutem pela imprensa, vão colhendo muitos frutos que a seu tempo tem de saborear. Não há homem que não tenha seu quinhão mais ou menos avultado de filosofia natural, de critério; e com essa filosofia natural, com esse critério os particulares distinguem o bom do mau, o ilícito do direito, o justo do injusto, etc. e ei- los, já por si, já pela ética do escritor, instruindo-se em uma escola, de cujas lições não pode prescindir nem o filho da miséria, nem o favorito da fortuna, nem o ignorante nem o sábio. O Estado, este deve ser o primeiro a proteger a imprensa, porque a imprensa é que lhe sugere as necessidades das diferentes localidades e as medidas mais prontas para provê-las. A imprensa é que lhe denuncia os juízes venais e corruptores os ministros corruptos e dilapidadores, e as facções sediciosas que tentam minar os alicerces que amparam o edifício social, sofre o qual ele se acha assentado. As leis feitas imediatamente pelos homens nem sempre são as colunas mais fortes o edifício social! O Estado proteja a imprensa, não lhe cessei os voos, porque todas as vezes que o festado se revoltar contra a liberdade da imprensa, se revoltará contra um direito sagrado, contra a espontânea voz da razão; e, pensando esmagar o povo, terá o colo por ele esmagado; porque, como muito bem diz Lamennais:22 - “quem mais padece, não são os oprimidos, mas os opressores.” 46 A Religião em sua essência, como filha de Deus, ou como o próprio Deus, não necessita dos favores do homem; porém como uma virtude, como um sentimento que nos foi revelado pela Divindade, e sem o qual não podemos passar, a Religião exige da imprensa aquele apoio que a ponha ao abrigo dos seus gratuitos impugnadores, os quais infelizmente tanto têm de poucos em número, quanto de perigosos em suas doutrinas. A Providência Divina é certo que dotou a todos os homens de uma consciência que lhes marca a diferença que há entre o bem e o mal; mas também não é menos certo que há indivíduos que pela infelicidade de sua condição, se deixam embair de preconceitos grosseiros e selváticos,23 que de algum modo enervam-lhes as fibras do coração e amortecem-lhes a voz da consciência. Esses não procuram Religião; porém a imprensa, operando neles uma espécie de reação, por meio das verdades religiosas, que divulga, torna-os conhecedores dos seus crimes, dos seus desvarios e erros: e ei-los, outra vez, cônscios dos seus deveres, no grêmio da sociedade, como verdadeiros cidadãos, e submissos a voz consoladora da Religião. Em conclusão, e a vista do pouco que temos dito, já se pode avaliar qual seja nossa humilde opinião acerca da liberdade da imprensa: queremos que esta tenha limites, do modo porque já nos explicamos, porém desconhecemos a necessidade da censura prévia, porque enxergamos nela um atentado contra o livre exercício de um direito natural que não deve encontrar obstáculos em sua marcha. J. CORIOLANO DE S. L Publicado no Jornal O Atheneu Pernambucano: Periódico Científico e Literário. “Avante e sempre!” Volume I. N.º 2. – Mês de Agosto. 1856. 1 Neste artigo Coriolano fala da revolução que da imprensa, seu papel, a importância de Gutenberg da liberdade de impressa e suas implicações na vida prática. Também escrevia para jornais. 2 Nascido na Alemanha no século XIV foi o responsável pela invenção da prensa maquina tipográfica capaz de reproduzir escritos impressos em grandes quantidades. Como não conseguiu grandes lucros com a invenção chegou a ser processado por seu investidor chamado João Fust. Considerado universalmente como o pai da imprensa, foi o responsável também pela primeira impressão da Bíblia, que ficou conhecida depois como a Bíblia de Gutenberg. Fonte: https://escola.britannica.com.br/artigo/Johannes-Gutenberg/481435 Acesso: 10/05/2020. (N. do Org.) 3 Também chamados Hieróglifo: “é um extinto modelo de escrita pictográfica, utilizado principalmente pela antiga sociedade egípcia e por alguns grupos indígenas americanos, como os maias e os astecas.” https://www.significados.com.br/hieroglifo/ Acesso: 11.05.2020. (N. do Org.) 4 Cético. A palavra é derivada do Pirronismo, doutrina criada pelo filósofo grego Pirro de Élida, criador do Ceticismo. 47 5 Desejo. 6 Provavelmente uma colônia ou cidade alemã. 7 Derivado da palavra em latim aevum, tem significado poético para eternidade. 8 Sentido figurado para tornar tórrido, queimado. Sujeitar a fogo vivo. 9 Abraço. 10 Primogênitos, primeiros, primícias. 11 Irrefutável. 12 Mar, oceano. 13 Provavelmente refere-se ao jornalista e político francês Armand Marrast (1801-52). Foi um líder revolucionário atuando na famosa Campanha dos Banquetes e sendo um importante nome na redação da Constituição de 1848. (N. do Org.) 14 Conde Charles-Louis de Ficquelmont (1777-1857), diplomata, ministro e militar lutou contra o exército napoleônico e foi autor de vários livros que versavam sobre questões políticas. (N. do Org.) 15 Referência ao termo: “Hoc opus, hic labor est.” Que significa: “Aí é que está a dificuldade.” “Princípio de um verso de Virgílio, em que a sibila de Cumas explica a Eneias a dificuldade que há em voltar dos Infernos; a frase tornou-se proverbial e cita-se para indicar o ponto difícil de qualquer questão.” Disponível em: "hoc opus, hic labor est", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2020, https://dicionario.priberam.org/hoc%20opus,%20hic%20labor%20est [consultado em 09-05-2020]. (N. do Org.) 16 De nome completo Benjamin Constant Botelho de Magalhães (1836 - 91) foi um proeminente personagem histórico brasileiro. Militar, matemático, positivista e republicano, na Guerra do Paraguai planejou rotas para o avanço do exército deCaxias. Um dos fundadores da Sociedade Brasileira Positivista foi também diretor do Imperial Instituto dos Meninos Cegos criado por D. Pedro II. Hoje a instituição leva seu nome. Cf. MENDES, Raimundo Teixeira. Esboço de uma apreciação sintética da vida e da obra do fundador da República Brasileira. Rio de Janeiro: Apostolado Positivista do Brasil, vol. 1, 1892. (N. do Org.) 17 Tradução aproximada: “Melhor prevenir enquanto é tempo, do que ter de remediar posteriormente.” Texto presente no Código de Justiniano. 18 “Quem ama o perigo nele perecerá.” Versículo de Eclesiástico 3,27. 19 Casimiro José de Morais Sarmento (1813-60) político nascido na primeira capital piauiense Oeiras, atuou em vários estados nordestinos. Formado na Escola de Direito de Recife, no Rio Grande do Norte era contra o sepultamento de pessoas dentro das igrejas. Na província do Ceará foi responsável pela implantação do primeiro serviço de iluminação pública de Fortaleza, com óleo de peixe. No fim da vida ainda exerceu as atividades de jornalista, advogado e professor. (N. do Org.) 20 Desapossar. 21 Em vão. 48 22 Félicité Lamennais (1782 - 1854), “(..) padre francês e escritor filosófico e político que tentou combinar liberalismo político com Catolicismo romano após a Revolução Francesa . Escritor brilhante, ele era uma figura influente, mas controversa, na história da igreja na França.” Disponível em: https://www.britannica.com/biography/Felicite-Lamennais Acesso: 15.05.2020. (N. do Org.) 23 Selvagem. 49 UM PASSEIO ÀS DEZ HORAS NAS RUAS DO RECIFE1 I Os homens, não obstante terem nascido com as mesmas faculdades, e serem igual em quanto se acham envolvidos nas fachas do berço, todavia, pelo desenvolvimento de sua razão assumem caracteres distintos daqueles que se manifestam em outros homens, e certas tendências que os impelem a rejeitar gozos e prazeres que outros procuram, e a procurar gozos e prazeres que outros rejeitam. Esta espécie de excentricidade que se verifica na natureza dos seres animados, está de perfeito acordo com a harmonia do universo puramente material; harmonia que resulta, não de uma simetria sempre constante, ou de um pé de igualdade, em que se acham sempre dispostos os demais seres que o povoam; porém da mesma diferença, isto é, do contraste entre as coisas, - do pequeno e do grande, do arbusto e da árvore, do vale e da colina, do regato2 e do oceano, etc. Ora, uma vez provado que as tendências humanas divergem, assim como são diferentes e contrastantes os diversos seres que formam a harmonia do mundo material, não é de admirar que, em quanto uns passeiam no belo Recife, sob o império do belo luar, arrebatados pelo poderoso influxo de um dos seus lânguidos3 raios, e sobem as regiões desconhecidas, e sonham acordados as mais deliciosas fantasias, que lhes acalentam a imaginação arrojada, haja alguém que prefira a tudo isto dar um passeio pelas ruas da cidade, quando as trevas apenas são mal dissipadas pela frouxa luz dos lampiões; quando os horizontes enegrecidos de pejadas4 nuvens, fuzilando a esmo, ameaçam no trovão longínquo os que não têm guarida, aumentando os sofrimentos do mendigo, que vê na próxima borrasca5 novos incentivos a seus males. Não são preliminares de um romance o que acabamos de dizer: - são apenas os fracos alicerces sobre que quisermos fundamentar a nossa asserção quanto à diferença dos gozos e dos prazeres neste mundo, para depois continuarmos o nosso humilde escrito, que não nasce de uma simples conjectura, ou não se firma sobre uma mera hipótese; porém nasce de uma verdade testemunhada, ou se firma sobre um fato todo real. II Em uma dessas noites tempestuosas e sombrias que fazem muitas vezes apertar o coração mais intrépido e varonil; em uma dessas noites, em que os elementos como que reciprocamente se ameaçam, pela escuridão medonha, pelo fuzilar dos relâmpagos nos diferentes pontos do céu, pelo estalar do trovão, que assemelha ao longe um parece dividir a terra do livramento, um mancebo, levado por ideias, que somente. Deus pode conhecer, e que ele talvez mesmo ignorasse, rebuçado6 em um 50 capote, e fumando um charuto percorria as ruas do Recife, quebrando, sem rumo certo, muitos becos. Ao passar por junto de uma igreja, ouviu um gemido dolorosíssimo que, incutindo-lhe no coração um terror misturado de compaixão, eriçou- lhe os cabelos, e por breves instantes tornou-o mudo como o espectro, e imóvel como a estátua. O passeador notívago, com quanto não fosse homem experimentado nas grandes crises, com tudo, coordenou suas ideias, serenou-se quanto pode, e marchou mais curiosidade o demoveu, dando- lhe novas for tranquilo do que permitia aquela singular conjuntura, para o lugar, donde os gemidos saiam com mais frequência. Horrível espetáculo, indigno de aparecer em um país católico, como o nosso, em uma cidade comerciante, rica, ativa e policiada, como é o Recife!... Sobre o átrio da igreja, perto da porta principal, jazia estirada e quase nua, tendo apenas alguns pedaços imundos de trapos, miséria que lhe ocultavam alguma parte do corpo, uma miserável mendiga, cuja idade parecia ser de 40 a 50 anos. Já então começavam a cair alguns grossos pingos d’água de uma nuvem negrejante e ameaçadora que estava iminente à cidade. O mancebo, em extremo comovido, sendo já perto de meia noite, e não podendo em nada ser útil a pobre velha moribunda, perguntou-lhe o que sofria. A desgraçada nada atendia, e redobrava seus gemidos, estorcendo- se7 pelas lajes do adro até o vestíbulo do templo, no meio das mais tormentosas angústias. Não precisava ser um bom físico para conhecer que os dias da infeliz estavam contados, e que o relógio de sua vida ia brevemente dar a última pancada, pondo assim um termo aos seus padecimentos. Houve, entretanto, uma momentânea reação nas faculdades da desgraçada; por que estas palavras lhe saíram do íntimo do peito com um acento tal que excitaria a compaixão no coração ainda mais empedernido8: “Mataram-me o marido, recrutaram-me o filho, roubaram-me a minha querida filha; não é muito que eu morra de fome e de frio sobre as pedras desta igreja, sem achar entre tantos sobrados e palácios, atulhados de homens e de mulheres, e cheios de imensas riquezas, uma alma caridosa que me faça repetir o nome de Jesus e meta- me uma vela na mão!...” A estas últimas palavras fuzilava um relâmpago e estourava um trovão; e a moribunda prosseguiu: “Obrigada, meu Deus! - não preciso mais da luz de uma vela, vós mandastes-me a luz de uma vela, vós mandaste-me a luz de um relâmpago, e o trovão que ouço, me ensina a repetir o vosso santos nome.” Foram estas as últimas palavras da moribunda, que expirou entre os mais agonizantes martírios. III 51 Depois desta cena, o mancebo, lutando com uma imensidade de ideias que quase espontaneamente lhe acudiam a mente, ainda desta vez ficou petrificado; mas a curiosidade o demoveu, dando-lhe novas forças; e, chegando-se bem para perto do cadáver, e ativando com algumas fumaçadas o lume do seu charuto, reconheceu naquele miserável invólucro todos os sinais de uma mulher que fora interessante nos seus melhores dias, e cuja cor e cabelos, não obstante o verniz dos anos, ou antes dos sofrimentos e da morte, indicam ser ela, talvez, mais do que uma mulher nascida na miséria ou no leito da prostituição. E nem alguém se admire de um semelhante resultado, obtido de um exame instantâneo, apenas ajudado pela luz de um charuto. O coração do homem é às vezes presságio e adivinho, e a luz, para ser diferençada das trevas, basta fosforizar9 em um pirilampo. Este fato que acabamos de descrever, e que não chega ao conhecimento do público revestido de todas as suas cores horrorosas, porque ele pertence ao gênero daquelesque somente os olhos e o coração poderiam pintá-los, se tivessem o dom da palavra, dá motivo a mui judiciosas observações e talvez que até mesmo a censuras bem merecidas. O estrangeiro que passar por nossas pontes, pelos adros das nossas igrejas e pelos vestíbulos dos nossos estabelecimentos públicos, e vir essa multidão de mendigos, de leprosos, de cegos e aleijados entoando a música das lamúrias expostos aos rigores mais intensos do sol e da chuva, sem o pão quotidiano, porque esse depende da caridade dos que transitam, falhando muitas vezes ou quase sempre, por isso que nem todos possuem essa tão sublime virtude, e porque outros querendo exercê-la, não o podem por falta de meios, o que dirá, falíamos geralmente, do nosso governo, da nossa cidade, do nosso progresso, da nossa filantropia? No Brasil, onde os meios do progresso superabundam pela fertilidade do solo, pela riqueza das minas, pelo vigor juvenil que lhe circula em cada uma de suas veias; no Brasil, onde os dinheiros chegam para tudo, e com muita sobra, é de admirar que se vejam cenas como essas que se presenciam nas pontes, nos adros das igrejas, e finalmente por toda parte do Recife; enquanto que este, molemente deitado em seu leito de relvas, formado pelas frescas margens do Capibaribe, dorme o sono da indolência, e, quando muito, olha para todas essas misérias como a fortuna para a desgraça, ou como o potentado do torreão que; se casualmente fita os olhos para o triste albergue do pobre, afasta logo a vista com asco e com desprezo. IV Talvez que alguém, ao ler essas breves reflexões que fizemos em geral, sobre a incúria10 que descobrimos relativamente ao grande número de infelizes que sucumbem todos os dias sob os horrores mais feios da miséria e da fome, se lembre de dizer-nos - que no Recife há estabelecimentos de caridade, e que qualquer medida, que viesse sanar os males que enxergamos, traria o inconveniente de fazer avultar o número 52 dos mendigos, e de gastarem-se os dinheiros dos cofres, muitas vezes, com esses vadios que, mais próprios da punição policial, do que da caridade dos fiéis, entregam-se á modorra11 da preguiça, sem irem procurar nas nossas matas fertilíssimas o fruto que os devia alimentar, e nas substanciosas raízes das nossas fecundas serras e abundantes campos o pão que lhes devia matar a fome. Os estabelecimentos de caridade existentes no Recife ou não são suficientes abranger e socorrer para o grande número de infelizes que morrem todos os dias à míngua sobre as pontes e pelas ruas, ou não se acham montados, por circunstâncias que estão fora do nosso alcance, como fora para desejar. Quanto, porém ao perigo de prestar-se muitas vezes asilo aos vadios em lugar dos necessitados, a polícia não é tão falta de inteligência e perspicácia que não saiba discriminar a verdadeira miséria da hipocrisia, a vadiação da impossibilidade quase absoluta de agenciar o pão quotidiano. Talvez que até mesmo, se tivéssemos bastante conhecimento do que se passa nos países mais civilizados do mundo, quanto ao ponto que nos ocupa, pudéssemos confessar que o mesmo que por aqui estranhamos, se dá nesses lugares. Mas isto ainda não fora bastante para pensarmos diversamente, tanto mais quanto descobrimos em o nosso país dados suficientes para minorar a sorte desses infelizes que levam uma vida mais tormentosa e grotesca do que os próprios animais dos campos. Não temos por fim, com estas observações, estigmatizar o nosso governo, nem tão pouco desconhecer o desvelo paternal e solícito com que ele cura de todas as nossas necessidades; porém, tendo somente em mira revelar aos nossos leitores o resultado de um passeio à meia noite, e quando o tempo se mostrava tão carrancudo e inóspito, fomos naturalmente levados ao campo das reflexões, que na mente do filósofo ou do homem bem intencionado e filantrópico são sugeridas por fatos da ordem disse que deixamos estampado. Paramos aqui, e pedimos aos amadores dos passeios noturnos, em tempo desfavorável, que, senão de um modo absoluto, ao menos algumas vezes deem preferência aos passeios ao luar, porque aparecendo ali cenas como a que descrevemos, haverá sempre um misto de horror e de poesia, e não esse horror prosaico que se apoderou do passeador às dez horas. J. CORIOLANO DE S. L. Publicado no Jornal O Atheneu Pernambucano: Periódico Científico e Literário. “Avante e sempre!” Volume II. N.° 2. – Mês de Junho. 1857. 1 Neste escrito Coriolano fala de certo jovem que andando por uma noite chuvosa se depara com uma senhora moribunda e abandonada à porta de uma igreja em Recife cidade que ele conhecia bem, pois lá fez sua faculdade. Posteriormente ele trata de várias questões deixando sua crítica social de como um país abastado de riquezas naturais pode deixar à míngua alguns 53 de seus cidadãos, sem se eximir de escarnecer a hipocrisia social, religiosa, falta de compaixão para com o próximo. (N. do Org.) 2 Córrego. 3 Fracos. 4 Carregadas. 5 Tempestade de pouca duração. 6 Encoberto. 7 Torcendo-se com força. 8 Insensível. 9 Acender. 10 Negligência. 11 Doença. 54 A Marília Dirceu1 A questão, de que nos vamos ocupar, não é literária ou científica; porém nem por isso deixa de ser importante. Ao menos assim pensamos, e conosco pensará quem refletir sobre ela com verdadeiro critério. É simplesmente uma luva levantada pelo mais fraco campeão, porque alguém, atirando lhe a face, articulou palavras afrontosas contra sua dama; - é simplesmente um brasileiro que, vai defender uma brasileira, contra quem se faltou com uma linguagem mais chistosa2 do que séria e crítica, e uma brasileira que se não pode desprender dos anais da nossa história pela sua formosura, pela sua celebridade, pelos seus amores, em uma palavra, que a fizeram conhecida, respeitada e estimada em toda parte, por onde repercutíramos sentidos e melodiosos sons da apaixonada Marília de Dirceu. Lendo as “Memórias de Literatura Contemporânea” do Sr. Lopes de Mendonça,3 deparamos a pág. 372 até a pág. 377 com uma nota que tem por título - Morte de Marília de Dirceu -, onde o ilustre escritor profere palavras bem amargas contra o sexo feminil, criticando do modo mais áspero e desabrido essa inocente virgem brasileira, a quem, evocando do santuário do túmulo, apresenta com sua pena profana um terreno desvantajoso e ridículo, e aquém mimoseia4 com a singular apoteose, segundo se deduz de suas expressões, de modelo, protótipo, ou como quiserem chamar, das mulheres ingratas, infiéis, que não sabem corresponder aos extremos do poeta, que adora-as, que dá-lhes uma vida perdurável, tão longa como a duração dos tempos, na celebridade dos seus versos, e que, por último, se finda por amor delas. Convém que analisemos a crítica, o reparo, o chiste ou o que quer que seja do Sr. L. de Mendonça com relação a célebre Marília de Dirceu; - célebre por ter sido o alvo, a que convergiu à vocação amorosa mais pura; - por ter sido o ímã fascinador que atraiu os cuidados, os desvelos, toda dedicação do melodioso poeta, para cuja celebridade literária também concorreu do modo mais poderoso, como objeto de suas únicas inspirações. Analisemos, sim, essa crítica, reparo ou chiste, que ofende tão de perto a respeitável e saudosa memória da bela Mineira, e que, por sem dúvida, revela em seu autor, a quem, aliás, tanto respeitamos pelos seus conhecimentos científicos, um momento de infeliz humor. Começa o Sr. L. de Mendonça:- “Morreu a Marília de Dirceu, cujo nome profano era Maria Joaquina Dorotéia Seixas Brandão,5 com 84 anos de idade!” “Pois que, disse eu lendo a notícia num jornal, esta mulher fora amada por um melodioso poeta, esse poeta dera-lhe um nome popular, glória, celebridade, admiração, e ela deixa-se viver até a patriarcal idade de 84 anos? Nem a dor,nem as mágoas, nem a recordação de tudo quanto seu amante sofrera, nem a sua morte, nem a sua loucura lhe diminuíram alguns dias de vida!...” 55 “Quem é que concebe a Beatriz6 do Dante,7 velha, rabugenta, cornos olhos amortecidos, com a voz fanhosa, encostada a um bordão, curvada, trêmula, caquética?...” Qualquer pessoa que não se sentir dominada dos sentimentos do Sr. L. de Mendonça, sentimentos gratuitos, sem nenhum peso de critério, sem nenhum vislumbre de seriedade, há de “necessariamente” dizer conosco que nada tem de admirável, nada tem de miraculoso essa existência de 84 anos, que viveu Marília de Dirceu. Não achará prodigioso e nem excedente do possível que uma mulher extremosamente amada, e que soube sempre corresponder a esse amor, pudesse viver tanto tempo, a menos que não quisesse cair na fraqueza imperdoável de cometer um suicídio, como parece deduzir se das palavras do Sr. L. de Mendonça - ela deixa-se viver até a patriarcal idade de 84 anos. - Que cópia daria de si a amante de Tomás Antônio Gonzaga, a bela e encantadora Marília, de um coração tão cândido, tão angélico, se deixasse vencer e arrastar pela mais fatal alucinação, consentindo “voluntariamente” em sua própria destruição? Por ventura ficaria sempre ligado a sua memória o atributo de “heroína” que o poeta lhe granjeou em suas dulçorosas8 canções? Ninguém responderá que sim. E não fora melhor, como efetivamente aconteceu, que, triste, inconsolável, isolada em um retiro, consagrasse sua vida patriarcal a lembrança de seu querido noivo, banhando com a torrente de suas lágrimas, símbolo da mais acrisolada9 saudade, aquelas páginas douradas, onde se dilatava a alma do poeta aos eflúvios10 da mais santa paixão, e que ela relia, cada vez com mais explosão de ternura e de amor, cada vez com mais interesse, - com esse interesse que tem os amantes infelizes?... Ninguém responderá que - não. Acha o ilustre crítico impossível de conceber-se a Beatriz do Dante - velha, rabugenta, com os olhos amortecidos, etc.? - Pois crê impossível de conceber-se uma coisa bem trivial na série dos humanos! Nada mais possível! - nada mais consentâneo11 com as leis da natureza que nos regem! E perguntaremos: - O fato de amar e ser amado é condição sine qua non,12 é motivo suficiente para que um amante não possa sobreviver a outro, e até por longos anos? - O sentimento proveniente do amor, a paixão mesma, é de um caráter tão destrutor que infalível e irresistivelmente leve à sepultura - logo - o amante que sobreviveu a outro? E ainda que a lembrança do objeto amado, do penhor idolatrado, essa lembrança pungente e dolorosa, influa poderosamente para o enfraquecimento, ou mesmo para a extinção da vida, é regra geral que todas as naturezas tenham uma mesma têmpera,13 uma mesma constituição orgânica frágil, quebradiça aos revezes da sorte, a ponto de não poderem reagir contra esse sentimento, contra essa lembrança pungente e dolorosa? 56 Cremos que a admissão de uma tal teoria é inexequível e absurda, essa teoria fora irrealizável, - peca por exagerada; é, em fim, mais caprichosa e gratuita, do que real. Continua o Sr. L. de Mendonça em suas imprecações14 contra a pobre Marília: - “Que é feito então dessa Marília encantada, cujo rosto se avermelhava pudicamente aos protestos apaixonados do seu amante, cujas mãos delicadas iam colher rosas e jasmins para lhe coroar afronte, cuja voz doce e suave acordava os echos15 da campina, e fazia estremecer de júbilo os pássaros, que pousavam nos ramos da floresta?” “Que é feito dela, pois não sabe? - Seus cabelos encaneceram,16 suas faces crestaram17 ao sopro das estações, seus olhos perderam o brilho da mocidade, sua voz declinou do tom argentino e melodioso que somente se faz ouvir na florescência dos anos - ela morreu! E porque tudo isto? - Porque sobre ela caiu o lapso dos tempos, porque a humanidade não se pôde furtar aos estragos inevitáveis dos seus poderosos e necessários influxos, porque, como muito bem dizia o seu mavioso18 cantor é amante: - “Minha bela Marília, tudo passa: A sorte d'este mundo é mal segura: Se vem depois dos males a ventura, Vem depois dos prazeres a desgraça.” “Ontem jovem e cândida, hoje velha e triste! Que é feito dessa face tão fina e transparente?” Por mais de uma vez temos observado que o Sr. L. de Mendonça é sobremodo excepcional considerando os amantes; a ponto de, por uma lógica irresistível, chegarmos à conclusão de que o nobre crítico só encontra amor e poesia em - uns cabelos luzidos,19 em uns olhos brilhantes, em uma tez rosada e fresca, em uma fala dulçorosa, em tudo somente, que é realçado pela juventude. Doutro lado, ficamos como que suspensos... não obstante a força de semelhante dedução; porque por mais de uma vez temos voado ao mais puro e belo idealismo nas palavras poéticas e arrebatadoras do Sr. L. de Mendonça. Por mais de uma vez a fluência magnética de sua bem torneada fraseologia nos tem embevecido e acalentado a mente. E se é isto também pura verdade, como é que o ilustre crítico quer fazer consistir a poesia somente em uns cabelos que doudejam20 ao sopro dos ventos, em um rosto que se avermelha pudicamente aos protestos apaixonados do amante, em um todo unicamente, em que transparece o verniz da mocidade? - É que o Sr. L. de Mendonça não falou de harmonia com os seus legítimos pensamentos; - é que o autor das “Memórias de Literatura Contemporânea” quis por alguns momentos divertir-se com a memória da 57 bela Mineira, a quem devera votar todo aquele acatamento e respeito, de que são credores os que dormem na paz dos túmulos. Sabemos que o Sr. L. de Mendonça conhece toda a extensão e limite da verdadeira poesia; que não ignora que a verdadeira poesia, a sublime poesia, que nos arrebata nas asas da inspiração, que nos faz sonhar como os anjos, não é tão material a ponto de somente manifestar-se no que é puramente exterior. A poesia não está somente na beleza que a mocidade doura, - ela despreza muitas vezes as simples aparências; esses europeus que fascinam os olhos da matéria, e vai estabelecer seu trono no mais recôndito dos corações sensíveis, e abrir suas graciosas flores nos voos espaçosos de uma imaginação pura. Aí ela se acrisola pelos sentimentos mais puros, pelo amor ingênuo e singelo, - sem preterições grosseiras materiais: esta é que é a verdadeira poesia. Que lhe importam as cãs,21 as rugas do rosto, os olhos embaciados,22 a falia trêmula, o passo moroso, se o coração permanece cândido, e o amor sempre extremoso? Quem poderá acreditar que Tomás Antônio Gonzaga,23 se a fortuna lhe houvesse sorrido, assim como golpeou-o, vendo coroados todos os seus desejos, rodeado da inocente e mimosa prole, frutos delicados dos seus castos amores, voltaria ao estado grotesco de insensibilidade e de anti-poesia somente porque chegara a uma patriarcalidade, ou porque na querida metade notara a mudança física que o tempo produz? Pois uma alma tão grandiosa, como a sua, um coração tão apaixonado, como o seu, arrefeceriam no amor somente porque nele ou nela o tempo operara seis inevitáveis efeitos? É incrível. As almas puras, como a sua, os corações amantes, como o seu, que prazeres não sentiriam ao verem realizados os elevados voos de sua imaginação poética nos seguintes versos: “Irás a divertir-te na floresta, Sustentada, Marília, no meu braço Ali descansarei; aquente sesta, Dormindo um leve sono em teu regaço.” ............................................................... “Depois que nos ferir a mão da morte, Ou seja neste monte, ou n'outra serra, Nossos corpos terão, terão a sorte De consumir os dois a mesma terra.” “Na campa rodeada de ciprestes Lerão estas palavras os pastores: Quem quiser ser feliz nos seus amores, Siga os exemplos que nos deram estes.” 58 E quando, depois de descrever a mudança que delefizera a fortuna, se manifesta aos olhos da posteridade tão cristãmente resignado, quem não vê aí a poesia, filha do céu? “Se não tivermos lãs e peles finas, Podem mui bem cobrir as carnes nossas Às peles dos cordeiros mal curtidas, E os panos feitos com as lãs mais grossas. ............................................................... Contentes vivermos d'esta sorte, Até que chegue a um dos dois a morte.” Mas, se a poesia é inseparável da mocidade, como o bom Dirceu viveria sempre contente com sua cara Marília? Segundo o Sr. L. de Mendonça, esse contentamento desapareceria com a velhice, se é que fala sério. “Esse homem, esse poeta, essa alma terna, esse coração apaixonado... viveu 15 anos em Moçambique, longe dela, longe da noiva, a que votara lodosos suspiros da sua lira, todas as lágrimas, todas as amarguras do seu infortúnio, e ela continuou a viver descuidosa, indiferente! e não se lembrou de o ir consolar, de ir viver, de ir morrer com ele! Ó mulheres! mulheres!” Aqui de duas uma: ou o Sr. L. de Mendonça deixou a pena correr para ostentar a deliciosa fluidez de sua imaginação, ou ignora solenemente os nossos hábitos. No 1º caso, mal dizemos a deliciosa fluidez de sua imaginação que fulminou tantas imprecações contra a inocente Marília; no 2º criminamo-lo por haver antecipado seu juízo sobre um fato, de que não tem conhecimento, e que não devia decidir peremptoriamente. Entre nós as nossas donzelas, seja qual for a sua idade, se consideram sempre sob o pátrio poder, e por esse fato inibidas de empreenderem uma viagem para lugar distante do seu natalício, no próprio país, quanto mais para um país estrangeiro. Pode ser isto um prejuízo, pode; porém ninguém contestará que a amante de Dirceu, por mais pura e extremosa que fosse sua dedicação ao seu amado, não podia ir consolá-lo, ir vê-lo, ir morrer com ele. “Finalmente, em 1809, o poeta expira longo do Brasil, e descansa numa terra estranha. Quereis saber? a Marília tem então ocasião de viver muito, de viver o mais que lhe é possível; só 44 anos depois da data fatal, é que se lembra de que este mundo consente com dificuldade que se reproduzam os milagres da Bíblia. E se Deus lhe concedesse o mesmo privilégio de Sara, se houvesse unir Abraão condescendente que quisesse um Isaque legítimo, teríamos uma nova Marília talvez, para que a raça das Marílias senão perdesse.” Analisando este trecho do insigne24 crítico, chegamos a uma consequência disparatada, e é que a morte dos amantes torna elástica a 59 existência das amadas; - porque a Marília teve ocasião de viver, de viver muito, de viver o mais que lhe foi possível - com a morte de Dirceu! Porém não, isto são graças do Sr. L. de Mendonça. Ou queria que ela desse fim a sua vida pelo suicídio? Pois acha semelhante ação erótica e poética? Não o julgamos tão inglês como isso. - São graças de crítico. Mas, como acha que se Deus lhe concedesse o mesmo privilégio de Sara,25 se houvesse um Abraão26 condescendente que quisesse um Isaac27 legítimo, teríamos uma nova Marília talvez, para que a raça das Marílias se não perdesse, digne-se o ilustre crítico atender-nos, se é que a nossa fraca voz se pôde fazer ouvir por um dos mais conspícuos ornamentos da ciência moderna de Portugal. D. Maria Joaquina Dorotéia Seixas Brandão não merecia ser tratada, como de feito o foi, pelo autor das “Memórias de um Doido” e “Recordações da Itália”: l.° porque, pertencendo a uma rica e prestimosa família da província de Minas Gerais, tem uma grande parentela que não pode ler com bons olhos a nota do Sr. L. de Mendonça; 2° porque Deus já foi servido, há muito pouco tempo, de chamá-la à mansão dos justos, onde a coroa de virgindade que lhe circula a fronte, reverdecerá28 perfumosa, como soem reverdecer as coroas de todas que morrem virgens, 3° porque, além de aparentada, além de jazer no santuário dos mortos, ela é uma preciosidade real da nossa história, um diamante riquíssimo que brilha encantador, a despeito do seu trânsito para a morada dos anjos. Uma ingênua observação. Se um brasileiro, se um indivíduo qualquer ousasse ridicularizar a memória da Natércia29 portuguesa, da amante do inimitável Camões,30 qual não seria o despeito do Sr. L. de Mendonça? Quantas páginas não aumentaria o ilustre escritor as que já tem, defendendo essa beldade? O miserável que se atrevesse a tanto, seria anatematizado31 por suas expressões. Pois bem: a Natércia de Camões não pode ser equiparada a Marília de Dirceu. Não nos anatematize, porque vamos provar a asserção. Quem é Natércia de Camões? - Segundo um dos maiores vultos poéticos de Portugal, segundo um dos seus melhores críticos, o Sr. Costa e Silva, a Natércia de Camões é uma beldade fantasiada, que nunca existiu, senão como uma idealidade que o poeta criou para dourar os sonhos de sua imaginação e inspirá-lo. E quem é a Marília de Dirceu? - É uma virgem dos nossos dias, - de ontem - que vimos, que conhecemos: - foi a amante de T. A. Gonzaga, que por ela se inspirou que por ela sofreu, que por ela imortalizou o seu nome de envolta com o dela; - a mesma que, tendo votado toda a sua vida ao mavioso cantor, pôde sobrevivê-lo, porém fora do bulício32 do mundo, em um retiro, onde chorava noite e dia a perda do único esposo que seu coração apetecia. Há, pois, paralelo razoável entre essas duas entidades? Quem o afirmará?! Duvida-se da existência da primeira, que talvez seja uma ficção, uma palavra somente. A segunda, porém é tão real como são as 60 flores das nossas campinas, os frutos das nossas florestas, os cantos das nossas aves, o amor e patriotismo dos nossos corações. Há, pois, muita diferença! Ocupemo-nos ainda, e em última análise, com alguns trechos da nota do Sr. L. de Mendonça. Ele diz: “E esta mulher teve coragem para viver 84 anos! Viveu com aqueles sentidos adeuses... Não ouviu no silêncio da noite, quando o vento triste do inverno açoita as ramadas do arvoredo, a voz dolorosa do pobre louco, repetindo-lhe: Marília! Marília!” “Fiava, talvez tomasse tabaco, enfeitava-se pela manhã, fazia o rol, ia a cozinha, havia de ter um gato, etc., etc.” “Esta mulher é um tipo que retrata a mulher neste século...” “Não compreenderia esta mulher que nós não viemos unicamente ao mundo para viver, mas para cumprir uma missão digna de nós, digna da humanidade?” “Viveu, preferiu viver!” De boa vontade nos impomos a suave obrigação de responder a todos esses trechos da nota do Sr. L. de Mendonça. Quando a Marília de Dirceu ouvia no seu retiro o sussurrar das folhas, o seu ondeamento motivado pelas auras, ela certamente ouvia, por uma associação de ideias que lhe era sobre modo cara, embora mensageira de um sentimento mais ou menos doloroso, o seu mavioso cantor faltando à linguagem do poeta, ouvia-o repetindo o seu nome, chamando-a com a expressão da ternura: - Marília! Marília! E, provavelmente, não se ocupando na roça e nem de tomar tabaco, ela chorava esse pranto que sabem chorar as meigas e sensíveis filhas da Santa Cruz. Pode ser também que se enfeitasse alguma vez por uma necessidade, por um capricho que é muito das virgens que amam e estão ausentes, e mesmo que são infelizes. Não podia ela por um momento de vaidade, que se não poderá chamar criminoso, cobrir-se com suas sedas, ataviar-se33 com suas preciosidades, para dizer a si mesma: - Marília, o bom Dirceu não emprega em vão os seus cuidados; - és uma virgem muito bela, és uma mineira do Brasil! - E certamente D. Maria Dorotéia era muito bela! - era o mais fino, o mais transparente, o diamante de mais vulto, de mais preço e beleza que produziu aquela rica província, tão fértil em gênios e raridades! Dissemos, acima, que provavelmente não fiava; mas daqui não se queira concluir que seja para nós um desdouro34 o trabalho da roça. Em vez de ser uma nódoa infamante, um ofício ignóbil e desprezível, ao contrário,ele foi vida de muitas tribos que por ele puderam constituir-se em nação e é muito mais honroso uma virgem que pura se dê ao inocente trabalho da roça, do que preferir a ele a vida da inércia e da indolência, tão prejudicial ao corpo e ao espírito. A roça tem sido o sustentáculo das tribos sem civilização dela tem lançado mão - para tornar menos árdua sua vida errante, menos espinhosos os trâmites que conduziram-nas a obtenção dos meios 61 necessários para o conseguimento dos seus fins da roça se tem servido todos os povos até nós, como de um dos seus primeiros elementos de vida. É bem sabida por todos a legenda da roça, por Pitre Ckevalier.35 “Os primitivos romanos, diz este autor, faziam folia o símbolo da virtude doméstica. Todos os elogios estavam contidos neste retrato de Lucrécia:36 “Domi mansit, lanam fecit.”37 Foi ainda em consequência de uma roca que a rainha Bertha,38 esposa de Pepino,39 o curto, rei de França, pôde escapar as malévolas tramas de sua criada Alista, a qual subiu ao trono no lugar de sua ama; porém não tardou muito que a mentira fosse vulgarizada e permanecesse envolvida nos seus desprezíveis andrajos, enquanto que a verdade inocente e radiosa resplandeceu por toda a parte. E como triunfou a verdade de um modo tão esplêndido? - Todos sabem: - Alista não soube armar a roca que Branca Flor, mãe de Bertha, havia dado a esta no momento em que se separaram; Branca Flor sustentou que sua filha e a rainha seria aquela que conhecesse o segredo da roca, e foi Bertha quem soube esse segredo e quem armou a roca, que lhe restituiu o trono! Independente de fatos históricos que nos ocorreriam sem dificuldade ao bico da pena, a roca tudo prova em favor do trabalho, e nunca será manejada como uma arma ridícula, porque aquilo que é de sua natureza sério e proveitoso, não deve ter uma aplicação heterogênea, não deve servir de exprobração40 à civilização nascente de país algum. Passemos ao mais. Vivendo na solidão, como nos informam: alimentando-se dos versos de seu amado e das saudades que lhe inspiravam, a Marília poderia, também achar consolo em ver-se rodeada de alguns animais domésticos, que às vezes nos são mais fiéis e úteis que os próprios homens! Porém não foi, por certo, esta a intenção do Sr. L. de Mendonça: - sua intenção foi eivada do ridículo, e como tal merece ser repelida com as armas que a civilidade depositou em nossas mãos. “Esta Marília é o tipo que retrata a mulher neste século.” Admitimos o princípio, porém há de permitir o ilustre crítico que dele tiremos a única e verdadeira ilusão. Sim, Ela é o tipo que retrata a mulher neste século, porque sendo ele o século do progresso, das maravilhas da invenção, fora uma aberração inqualificável da natureza, uma exceção inconcebível e toda paradoxal, se nele a mulher não houvesse tocado um ponto bastante culminante das perfeições feminis, na razão direta em que os homens o têm no que lhes diz respeito mais particularmente. É o tipo que retrata a mulher neste século, porque elas, compreendendo a sublime missão á que destinou-as seu supremo Criador, sabem ser boas filhas, ótima esposas, mais desveladíssimas, e, para cúmulo de seu elogio, - sabem sacrificar o que se chama bem desta vida pelas insônias, pelas vigílias junto ao leito dos desvalidos, onde velam como anjos baixados das regiões celestes!(*) “Pois bem, serei eu que o diga ao futuro: esta Marília é uma velha 62 tem 84 anos tem os cabelos brancos e a cara idiota, já não tem dentes, nem lume nos olhos; faz meia á noite, e reza, e resmunga, e ralha, e atormenta-se a si e aos outros, Olhai-a bem! não é uma musa, é uma megera; não passeia nos jardins floridos, de Apolo,41 pertence antes aos sombrios domínios de Proserpina...” 42 Como se abusa tanto da imprensa!... É singular que o homem de gênio e os assisados tenham momentos túrgidos, assim como os tolos e os doidos tem seus intervalos lúcidos! Se quiséssemos, à maneira do autor das “Memórias de literatura contemporânea” abusar do dever de escritor sincero, teríamos o vastíssimo campo das represálias, e então as armas favoritas que foram empregadas contra a inocente mineira, seriam também manejadas, conforme pudéssemos, e a despeito da nossa inexperiência em lutas de semelhante ordem, contra o Sr. Lopes de Mendonça. Mas... fique o nobre crítico com o seu modo de escrever contra as virgens brasileiras, contra as donzelas pudibundas43 que jazem na paz do Senhor, contra as musas sagradas dos poetas, - contra a falecida D. Maria. Joaquina Dorothea Seixas Brandão, que nós “os brasileiros” temos um coração muito grande para perdoá-lo. Agora duas palavras, em conclusão, aos nossos leitores e comprovincianos de um modo muito particular. Não é preciso ser profeta para ler, às vezes, o que se passa no misterioso recinto do futuro. Tendo por guia a experiência, c por bússola que dirige a barca em mares de semelhante ordem, a história dos povos, capacitamo-nos de uma verdade, e é que “para o diante os amores de D. Maria Joaquina Dorothea Seixas Brandão, conhecida pelo nome poético de Marília de Dirceu, hão de ser ventilados e tratados com essa força, afã e ansiedade que em casos idênticos se tem observado em todas as épocas.” Então este nosso pequeno escrito para o qual muitos contemporâneos lançarão um olhar de indiferença, será tido em algum preço. Ao menos, fica-nos a glória de havermos - sido o primeiro que engendrou algumas frases, que importam - um solene protesto contra a maneira pouco cavalheirosa, e até indigna, por que foi tratada uma brasileira que, sobre ser distinta, é um objeto sagrado como o são todos aqueles que concorrem para fim tão nobre e elevado, qual e a celebridade de um poeta, a coroa imarcescível44 dos seus louros, dos seus trunfos, tecida pelo anjo que partilha dessa mesma celebridade, e sem o qual não existiria ela. (*) Alusão às irmãs de caridade. J. CORIOLANO DE S. L Publicado no Jornal O Atheneu Pernambucano: Periódico Científico e Literário. “Avante e sempre!” Volume I. N.° 3. – Mês de Setembro. 1856. 1 Não bastasse ser filósofo, jornalista, político, cronista, jurista e, sobretudo poeta, Coriolano agora se arrisca no campo da crítica. Aqui ele se propõe a fazer uma “crítica da crítica” se é que 63 assim podemos dizer. É uma espécie de defesa de Maria Dorotéia Joaquina (1763-1853) a figura real que inspirou uma das obras mais importantes da literatura brasileira, escrita pelo português Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), mas com importante passagem pelo Brasil, participando inclusive da chamada Inconfidência Mineira. Essa característica literária marca os outros dois escritos em prosa do poeta a seguir. (N. do Org.) 2 Descontraída. 3 De nome completo Antônio Pedro Lopes de Mendonça (1827-65) “foi um romancista, jornalista, folhetinista e dramaturgo português, que também se destacou como ativista social, defendendo um socialismo utópico e romântico como forma de melhorar as condições de vida do proletariado. Escritor eclético e de causas, foi, sobretudo como crítico literário que ficou na história da literatura portuguesa. (...) No ano de 1859 publicou uma reedição, muito revista e aumentada, da coletânea de crítica literária que publicara uma década antes. Esta refundição, que intitulou Memórias da Literatura Contemporânea, coloca a obra de Lopes de Mendonça entre a melhor crítica literária lusófona.” Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Pedro_Lopes_de_Mendon%C3%A7a (N. do Org.) 4 Uso irônico da palavra “elogia”. 5 Maria Dorotéia Joaquina de Seixas (1767-1853) brasileira nascida em Vila Rica/MG, era filha Baltazar do Capitão do Regimento de Cavalaria João Mayrink e da senhora Maria Doroteia Joaquina de Seixas. Ainda muito jovem teve um relacionamento com Tomás Antônio Gonzaga, a quem muitos creditam ser a inspiração para composição da obra MaríliaDirceu. Também envolvida na Inconfidência não pode casar porque Tomás havia acabado de ser preso. Fonte: http://www.descubraminas.com.br/Turismo/DestinoAtrativoPagina.aspx?cod_destino=2&cod_ atrativo=474&cod_pgi=1070 (N. do Org.) 6 Beatriz Portinari (1266-90) supostamente filha de um banqueiro, Dante Alighieri teria conhecido a mesma ainda criança passando a nutrir um típico amor platônico por ela. Impactado por esse sentimento começou a escrever Vida Nova, até a morte de Beatriz que refletiu diametralmente no escrito. Beatriz também é uma das personagens de sua mais importante obra A Divina Comédia. Fonte: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/historia-a-vida-infernal-de-dante- alighieri.phtml (N. do Org.) 7 “Dante Alighieri (1265-1321) foi escritor e poeta italiano. ‘A Divina Comédia’ tornou-se um monumento para a literatura e para o mundo. Foi escrita em três partes, Inferno, Purgatório e Paraíso, numa viagem além-túmulo, onde Dante é o personagem principal. (...) A vida em Florença era insegura, os nobres e o povo viviam em conflito. Em 1294, com a eleição do papa Bonifácio VIII, a situação se agravou. O desejo do papa era restaurar o domínio da igreja, na Toscana. O poeta Dante jamais se isolou das lutas que agitavam a cidade. Em 1302 Florença estava ameaçada de ser invadida por Carlos de Valois, aliado do papa. Dante segue para Roma numa comissão formada por três membros.” https://ecclesiae.com.br/index.php?route=product/author&author_id=104 (N. do Org.) 8 Doces. 9 Purificada. 10 Exalações, perfumes. 11 Apropriado. 64 12 Sem a qual não... 13 Índole. 14 Críticas negativas. 15 Nome grego para ecos. 16 Envelheceram. 17 Queimar suavemente. 18 Harmonioso. 19 Brilhante, vistoso. 20 Disparatam. 21 Cabelos grisalhos. 22 Embaçados, foscos. 23 “Tomás Antônio Gonzaga, poeta, advogado, juiz, nasceu na cidade do Porto, em Portugal, a 11 de agosto de 1744 e faleceu na Ilha de Moçambique, onde cumpria pena de degredo, em fevereiro de 1807. (...) Nessa ocasião estava o poeta noivo de Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, jovem pertencente a uma das principais famílias da capital mineira, e a quem dedicava poesias do mais requintado sabor clássico, que iriam fazer parte do livro intitulado Marília de Dirceu, cuja primeira parte foi publicada em Lisboa, pela Impressão Régia, no ano de 1792.” http://www.academia.org.br/academicos/tomas-antonio-gonzaga/biografia (N. do Org.) 24 Ilustre. 25 Esposa de Abraão concebeu o filho Isaac mesmo sendo muito idosa por ordem expressa de Deus através de um emissário angelical. 26 Abraão, considerado o pai da fé, foi ordenado pelo mesmo Deus para sacrificar seu único filho em obediência a Ele. 27 Obedecendo a Deus Isaac foi levando ao monte pelo pai e quando estava a ponto de ser sacrificado um anjo ordenou para que Abraão não concluísse o sacrifício, pois o mesmo já havia provado que era obediente ao Senhor em quaisquer circunstâncias. (N. do Org.) 28 Rejuvenescerá. 29 Seria o anagrama de Catarina, musa presente na obra de Camões como um amor platônico. De nome verdadeiro Catarina de Ataíde portuguesa e dama de corte era muito bela e mulher pela qual o poeta português teria se apaixonado e dedicado muitos versos. (N. do Org.) 30 “Luís Vaz de Camões (1524? - 1580) é autor dos Lusíadas, o poema épico sobre as descobertas portuguesas. A importância da sua obra só foi reconhecida após a sua morte. Teve uma vida repleta de dificuldades. Não existem muitos dados biográficos sobre a vida Luís de Camões, mas a informações que vieram a público quase três décadas depois da sua morte dão como provável o seu nascimento em Lisboa em 1524 ou 1525. Membro de uma aristocracia pouco endinheirada, supõe-se que tenha estudado em Coimbra. Como modo de vida, procura a sorte das armas e suspeita-se que tenha estado em Ceuta onde, num confronto militar com mouros, perdeu um olho. Em Lisboa é conhecido pela sua vida pouco comedida e chega a ser preso 65 devido a um assalto em que participa. Perdoado por D. João III parte para o Oriente, onde vai ficar por quase duas décadas. Participa em ações militares enquanto escreve os Lusíadas, que salva quando é vítima de um naufrágio, provavelmente na costa do atual Vietnam. É descoberto por amigos a viver como um indigente em Moçambique. Estes pagam-lhe as dívidas e a viagem de regresso a Lisboa onde publica, em 1572, a obra que o tornaria imortal, sendo considerado o maior poeta em língua portuguesa de todos os tempos.” Fonte: https://ensina.rtp.pt/artigo/luis- vaz-de-camoes/ Acesso: 19/05/2020. (N. do Org.) 31 Repreendido. 32 Confusão. 33 Enfeitar-se. 34 Aviltamento. 35 De nome completo Pierre Michel François Chevalier (1812-63) era jornalista, novelista e historiador francês. Chegou a conhecer Júlio Verne, mas depois romperam a amizade. Dentre outras escreveu: Grã-Bretanha antiga e moderna, A pessoa que eu amo, De porta em porta e vários outros. (N. do Org.) 36 Figura que incorporava o ideal romano de mulher. De vida trágica foi estuprada por um filho de um rei romano. Depois do ato revela ao pai e esposo clamando por vingança logo depois se matando. Esse fato gerou implicações políticas, pois foi dado fim a monarquia e início da república em Roma. O teatrólogo inglês Shakespeare construiu uma peça inspirado na sua história. (N. do Org.) 37 Tradução aproximada: “Fica em casa, tece a lã.” Era considerada uma virtude – sobretudo as mulheres – se dedicar a tarefas domésticas. 38 Berta de Laon se notabilizou por dar a luz a Carlos Magno, grande Imperador do Sacro Império Romano-Germânico. 39 Pepino, o Breve (c.714-768) também pai de Carlos Magno teria “fundando assim a dinastia carolíngia. Uniu a Gália e libertou a Itália dos Lombardos, cedendo as terras conquistadas à Igreja. Antes de morrer repartiu o reino entre os seus filhos Carlos Magno e Carlomano.” Disponível em: https://www.infopedia.pt/$pepino-o-breve Acesso: 19/05/2020. (N. do Org.) 40 Reprovação. 41 “Na mitologia grega, Apolo é o deus do Sol e filho de Zeus, deus dos deuses. Dessa maneira, também é deus da claridade e do calor. Além disso, é o único dos deuses que se repete nas mitologias grega e romana. Apolo também é considerado o mais poderoso e mais belo do Olimpo. Por sua aparência, portanto, também foi considerado deus da beleza. Essa função lhe rendeu o reconhecimento como patrono das artes e, assim, deus do canto.” Disponível em: https://segredosdomundo.r7.com/apolo/19/05/2020. (N. do Org.) 42 Filha de Zeus com Ceres, foi raptada por Plutão para o mundo inferior (inferno) para tomá-la como sua esposa. Sua mãe, deusa da agricultura, furiosa arrasou com as plantações da terra causando fome. Seu pai interferindo na contenda, determinou que ela passasse metade do ano com o esposo e a outra metade com a mãe. Daí teria surgido o verão e o inverno. (N. do Org.) 43 Virtuosas, respeitadas. 44 Inacabável, incorruptível. 66 O SENHOR FRANCISCO MUNIZ BARRETO - COMO POETA1 Desde o momento em que os gênios, os talentos, as capacidades, as mediocridades mesmo, tendo percorrido o estádio das leituras, e penetrando os umbrais2 do edifício literário, se mostram ao público em suas obras, as opiniões dividem-se a seu respeito, e o novo atleta do mundo científico adquire admiradores e antagonistas. Se lançarmos uma breve vista retrospectiva sobre esses homens extraordinários que tem aparecido de século em século como por um empenho e capricho da natureza; se lermos o volumoso de suas obras, e os contemporâneos que sobre elas tem emitido seu juízo, veremos quase sempre que entre centenares de belezas que as decoram, ou entre centenares de ideias boas e utilitárias que aproveitam à humanidade, se faz cavalo de batalha (permita-se-nos o modo de assim faltar) de alguns pequenos defeitos que, em lugar de concorrerempara o descrédito da obra, pelo contrário, até fazem-na realçar mais. Não asselamos3 um paradoxo. Uma flor menos procurada, porém que não deixa de ser bela e ter encantos, não servirá em um jardim primorosamente cultivado de despertar no poeta, na virgem e no homem pensador o doce, o suavíssimo sentimento da compaixão? O céu sempre azul, assim como o oceano sempre imenso e caudaloso não nos ofereceriam essa variedade de cores e de poesia que nos oferecem, se a branca nuvem não toldasse o primeiro e as fúlgidas estrelas o não recamassem,4 e se os olhos, fatigados de admirar o segundo, não fossem resfolgar5 na contemplação do sereno regato que lhe vem pagar tributo. Quem haverá que, lendo essa grande biblioteca de romances, devida à pena felicíssima de Mr. Alexandre Dumas,6 seja capaz de depreciá-lo, de negar-lhe um talento fecundo e criador, de chamá-lo mesmo poeta, segundo se ele revela por suas concepções românticas? Quem desconhecerá que ele, achando acanhada a esfera da poesia propriamente dita, posto que aí houvessem obtido renome os Béranger,7 os Lamartines,8 os Garrett,9 etc., e não querendo prender-se aos preceitos do ritmo, às leis da metrificação, escolhera um outro gênero de poesia, - o romance, - onde seus voos ocupam maior espaços e onde suas vistas abrangem maiores mundos? E, não obstante, “Mr. A. Dumas, no juízo de Mr. Eugênio de Mirecourt,10 - é um romancista violador da musa, sem invenção, assinador das obras alheias, e cujo único talento consiste na maneira porque ele coordena as coisas achadas por seus colaboradores; é enfim um assassino da literatura” (!) 67 Porém, qual o Homero11 que não tenha o seu Zoilo12? Qual o Camões que não tenha o seu José Agostinho de Macedo13? O próprio Messias teve os seus algozes, e terá ainda o seu anticristo! É isto uma verdade que a história nos atesta em cada uma das suas páginas, e que não precisa de demonstração, porque os fatos ressaltam aos olhos. Talvez (quem sabe?...) que tudo isto aconteça para a humanidade nunca se esquecer da fragilidade que é anexa à sua organização, e curvar- se, em iodos os casos, ao supremo arbitro dos destinos humanos. Não haveria desprendido de sua mente inspirada uma sentença profética o Virgílio português,14 quando disse: “Quem viu sempre um estado deleitoso?” “Ou quem viu em fortuna haver firmeza?” Certamente que sim. Levantados ao pináculo da glória, aplaudidos pelos sábios, porque os compreendem, e pelos néscios, porque os adivinham, os gênios seriam talvez mais orgulhosos do que o deveriam ser, se julgariam mais credores de elogios do que mereceram. Mas, fique esta questão de parte, e, ligando a frágil cadeia do nosso assunto, digamos outra vez - que os gênios, os talentos, por isso mesmo que são tais, encontram a cada passo juízos que os desapreciam, e que vão descobrir trevas onde a luz disperse os seus mais claros raios, e defeitos onde a natureza afanou-se em se mostrar mestra. Não admira, pois que o literato que ensaia o seu passeio no recinto da publicidade, encontre desafetos, competidores pouco ou nada generosos, - uns gratuitos, outros mais ou menos merecidos. Isto se tem verificado acerca do distinto baiano - literato e poeta - Sr. Muniz Barreto. Não temos a pretensão de crítico, porque, ingenuamente fatiando, isto fora fatuidade em nós; principalmente para emitir um juízo crítico e decisivo a respeito dos exercícios poéticos do Sr. Muniz Barreto, seja reputação se acha firmada sobre bases mui sólidas, bases que senão deixarão abalar ao sopro, não de frágeis euros, porém nem mesmo de qualquer furacão ou redemoinho mal formado. Mas, quem nos pode negar o direito de, no turíbulo15 da cândida amizade, dessa amizade que sempre se vou ao mérito e ao talento, oferecermos uma baga de incenso ao - Bocage16 - brasileiro, ao repentista - gênio, ao filho talentoso da Bahia; ao inspirado favorito das senhoras baianas, ao amigo e sócio dos poetas contemporâneos de subida nota, de reconhecido nome ao Sr. Muniz Barreto? O incenso que costuma fumegar no turíbulo que manejamos, nunca envolveu o altar; - como envolverá o da adulação. Não lemos a preterição de crítico, é forçoso ainda repeti-lo, e daremos o porquê. Achamos dificílima a missão do crítico, e por isso nunca nos atiraremos a essa importantíssima tarefa. O crítico, ao nosso ver, deve trazer em uma das mãos o báculo17 da polidez, da urbanidade, da mediania recomendada pelos sãos preceitos 68 das etiquetas sociais, para que possa com ele remover qualquer ideia que lhe escape do bico da pena, sugerida por um impulso momentâneo de irreflexão; enquanto que na outra cumpre solevar a balança da justiça, cujo lei nunca deverá inclinar-se para o lado odioso, mas antes para a benignidade, para a contemporização. Um autor qualquer que pela vez primeira aparece nos vastos salões do público, é de supor que venha revestido daquele sério e dignidade que caracterizam o homem científico, ou ao menos aquele que tem perscrutado os escaninhos da ciência, e encanecido18 nas oficinas de arte. Sua obra não é de supor que esteja eivada do ridículo seja o seu fim: obras poderão existir, e de fato existem nesse poderão existir, porém essas, raras vezes criticadas, por isso que são aplaudidas, tem uma estante especial que as acomoda. Isto posto: se um indivíduo surgindo do horizonte das letras, ainda novel, ainda calouro, for aceito por aqueles que o deviam proteger, sob as mais estrondosas demonstrações de zombaria, sem meio termo, sem critério; - se sua obra tender a um fim razoável e lícito, embora mesquinha em sua concepção, acanhada em seu desenvolvimento, pobre em sua execução, o crítico por ventura tem o direito de criticá-lo com a linguagem do célebre Zoilo, de satirizá-lo? Não, quanto a nós. O crítico deve também, tanto quanto estiver ao seu alcance, sondar e fazer por conhecer a mente e a intenção do autor, cujas qualidades, sobretudo, não devem escapar à sua mais escrupulosa análise. O autor é digno de todo respeito, sempre soube prezar sua personalidade, não teve em vista oferecer à apreciação do público em suas obras um montão de disparates, de cousas sem nexo, sem proveito, pois bem: o crítico, o homem literato, profundo nas ciências, conhecedor analítico, filósofo, filólogo etc, etc, dispondo de cabedais tão profícuos, como esses, não deve descer a uma linguagem petulante ou sarcástica, por que, descarte, em lugar de corrigir os erros ou as lacunas do infeliz que não soube compreender a missão de autor, não fará senão para ele - a irrisão19 dos tolos, o escárnio dos levianos, a odiosidade dos malévolos. E, em tais casos, - quem se tornaria mais digno de crítica e de censura o autor infeliz, porém bem intencionado, respeitável, honesto, amigo do progresso e das letras, ou o criticador hostil e malédico que abusa do sagrado tribunal, sob cujo teto sua inteligência lhe destinou um lugar eminente que só compete as capacidades? A resposta parece-nos, óbvia os leitores que a deem conforme lhes ditar a consciência. Esta espécie de preâmbulo que temos feito, não é fora de propósito; porque, cabendo-nos hoje o prazer de nos revelarmos ao público como um dos muitos admiradores do Sr. Muniz Barreto, e havendo-se pronunciado um voto, posto que não geral, contra o seu mérito de poeta, por alguns contemporâneos que o tem censurado severamente e até negado-lhe aquilo mesmo que em consciência se lhe não pode negar - o laurel de poeta que assenta belamente em sua fronte inspirada, - queremos 69 patentear ao público que não somos sectário que lhe enxergaremos essa qualidade - a de poeta - que reverbera principalmente em algumas das suas produções. “Quando os fatos faliam, cessam os argumentos.” A verdade, independente de manifestação, por si mesma, se ostenta radiosa. Alguém já disse, talvez com muita propriedade, que - a verdade é o que é- E se a verdade - é o que é - para que tentar inutilmente escondê-la? Com mais facilidade o impertinente inseto conseguiria romper uma vidraça e obter passagem, do que um impostor encampar a verdade de modo que nunca mais se pudesse ver o esplendor do seu brilho. Assim, pois apreciemos, não como crítico, porém como admirador sincero e insuspeito, logo a primeira produção poética do Sr. Muniz Barreto, produção onde brilham os encantos, a magia, os perfumes embriagantes da verdadeira poesia. Seja o seu natalício, sob o título - A mulher - Ei-lo: “A mulher!... A mulher!... este só nome Te responde o que é Deus, e o que lhe deves, Tu mísero mortal, que embevecido Amas a obra e o seu autor desdenhas! Ingrato! que do fruto do deserto Nutres a vida, e a árvore golpeas, D'onde colhendo o vais, com ímpio ferro! Que maléfico atiras Pedras ao rio que te mata a sede Co'a lympha doce e pura! Mas que! Tu amas? Não; - quem ama e sente Na mulher, sobre tudo, um Deus adora.” Se o mundo inteiro una você nos viesse contestar o merecimento deste belo tecido de palavras, que engendrou a delicada pena do ilustre baiano, e cujo nome próprio é “poesia”, nós teríamos a devida coragem para responder-lhe: não estamos por vossa opinião, somos a exceção da regra geral; porque: quem através do belo colorido que adorna este breve quadro, que se acha à mostra, não enxerga as viçosas flores da poesia, certamente se tem deixado entorpecer na gélida aridez do prosaísmo. A fraseologia do poeta é simples, porém repassada desse filtro fragrancioso que dimana20 de sua alma crente, de sua alma que vê e adora na mulher a maravilha do Eterno, o portentoso de suas mãos, que pôs um dique, talvez, ao próprio engenho da Divindade! Esta só poesia do Sr. Muniz Barreto, segundo o nosso humilde pensar e gosto, encerra tanta inspiração os seus versos correm tão líquidos e tão aromatizados do perfume delicioso que respiram as produções daqueles que escrevem sem preconceitos, sem uma premeditação adrede estudada, sem uma naturalidade fingida, que se lhe não pode negar, só por ela, - por esta sua poesia; - agrinalda de poeta. 70 Continuaremos. J. CORIOLANO DE S. L. Publicado no Jornal O Atheneu Pernambucano: Periódico Científico e Literário. “Avante e sempre!” Volume II. N.° 3. – Mês de julho. 1857. 1 Neste escrito incompleto José Coriolano faz uma “crítica” ou seria defesa da pessoa e da obra do poeta baiano Francisco Muniz Barreto (1804-68) provavelmente de alguma análise mais desfavorável que o mesmo tenha sofrido. Eram seus pais o tenente-coronel Luiz Antônio Moniz Barreto da Silveira e Dona Maria Francisca de Albuquerque Moniz. Formou-se na Universidade de Coimbra e chegou a se voluntariar na Guerra do Paraguai. Aclamado pela crítica de sua época era considerado por uns como o Bocage brasileiro. Considerado também um dos maiores repentistas do Brasil - na concepção de Sacramento Blake - foi autor de Clássicos e românticos (1855), A estátua e os mortos (1862), Álbum da rapaziada (1864), O americano pirata (1864) e muitos outros. Era pai de Rozendo Moniz Barreto, médico e também poeta. Presume-se que Coriolano tenha dado continuidade ao escrito em duas ou mais partes que não foram encontradas até o presente momento. (N. do Org.) 2 Portões. 3 Confirmamos. 4 Enfeitassem. 5 Descansar. 6 “Alexandre Dumas (1802-70) Foi um romancista francês autor de clássicos da literatura de aventura como Os três mosqueteiros e O conde de Monte Cristo cujas edições da Zahar venceram o Prêmio Jabuti de tradução. Além dos títulos acima, a Zahar publicou várias outras obras de Dumas, como Robin Hood; Grande dicionário de culinária; e Napoleão: uma biografia literária.” Disponível em: https://zahar.com.br/autor/alexandre-dumas Acesso:19/05/2020 (N. do Org.) 7 Provavelmente refere-se ao poeta francês Pierre Jean de Béranger (1780 - 1857). Sua obra marcou por fortes influências sociais e políticas de sua época. Passou pela Revolução Francesa, exaltava Napoleão e ridiculariza a monarquia e o clero. Dentre alguns de seus poemas mais famosos podemos citar: O Deus dos pobres, O rei de Yvetot (1813), A avó, O velho sargento, A coroação de Carlos, o simples e muitos outros. (N. do Org.) 8 Provavelmente refere-se ao também poeta e político Alphonse M. L. de Prat de Lamartine (1790 - 1869). No Brasil influenciou poetas como Castro Alves e Álvares de Azevedo. Vegetariano por influência da mãe, não logrou muito sucesso profissional apesar de ter sido ministro do Exterior. Por outro lado fora um exímio escritor com várias obras dentre as quais se destacam: Primeiras Meditações Poéticas (1820), Novas Meditações Poéticas (1823), Harmonias Poéticas e Religiosas (1830), Jocelyn (1836), A Queda de um Anjo (1838). Regina (Novela), Graziela (Novela), etc. (N. do Org.) 9“Almeida Garrett (1799-1855) foi jornalista, legislador, poeta e escritor. Foi percursor do Romantismo em Portugal. Envolve-se na guerras liberais ao lado de D. Pedro, razão porque se viu obrigado a procurar o exílio por duas vezes. Nasceu no Porto em 4 de Fevereiro de 1799 71 com o nome João Baptista da Silva Leitão. Estudou Direito em Coimbra, onde adoptou o nome Almeida Garrett, destacando-se como orador notável, batendo-se por causas. Como autor tem uma vasta bibliografia onde se destacam ‘Frei Luís de Sousa’ e ‘Viagens na minha Terra’, mas Garrett foi também ministro e par do reino, desenvolvendo uma carreira política após as guerras liberais, chegando a receber o título nobiliárquico de Visconde. Enquanto membro do Governo é responsável pela criação do Teatro Nacional D. Maria II e do Conservatório de Arte Dramática. Os períodos de exílio levaram-no a contactar com outros autores de origem britânica e francesa que tiveram forte influência na sua obra. É recordado aqui por Natália Correia.” Disponível em: https://ensina.rtp.pt/artigo/minibiografia-de-almeida-garrett/Acesso 19/05/2020. (N. do Org.) 10 De nome real Charles Jean-Baptiste Jacquot (1812-80) escritor e jornalista francês, acusou A. Dumas de racismo e de não ter escrito sua obra. Por conta disso Dumas o interpelou judicialmente o que lhe rendeu 6 meses de prisão. Presume-se que ele tenha escrito mais de 80 romances e contos e 140 biografias, entre as quais se destacam o seu Os Contemporâneos, obra publicada em 100 volumes tratando dos mais diversos temas possíveis como política, literatura e artes. (N. do Org.) 11 “Os gregos acreditavam que a Ilíada e a Odisseia haviam sido escritas por um único poeta, a quem chamavam de HOMERO. Nada se sabe a respeito de sua vida. Embora sete cidades gregas reivindiquem a honra de ser sua terra natal, segundo a tradição antiga ele era oriundo da região da Jônia, no Egeu oriental. Tampouco há registros de sua data de nascimento, ainda que a maioria dos estudiosos modernos situe a criação da Ilíada e da Odisseia em fins do século VIII a.C. ou início do século VII a.C.” Disponível em: https://www.companhiadasletras.com.br/autor.php?codigo=03010 Acesso: 19/05/2020. (N. do Org.) 12 Zoilo (400 a.C. - 320 a.C.) foi um filósofo cínico e crítico literário de Anfípolis na Macedônia Oriental, então conhecida como Trácia. Ficou conhecido como o “chicoteador de Homero”; por suas duras críticas desferidas ao mesmo. Ele teria escrito a obra Contra Homero tese que logo foi rebatida por Aristóteles em seu livro Problemas de Homero. (N. do Org.) 1José Agostinho de Macedo (1761 - 1831) foi um padre, poeta, escritor prolífico e crítico português, chegou a recriminar a Ordem dos Jesuítas e a Maçonaria. Foi o maior crítico de Camões em sua época o que lhe rendou o escrito Censura das Lusíadas. Ainda para confrontar a obra ele mesmo escreveu a sua épica O Oriente (1814) que para ele dentre as duas era “a menos defeituosa possível.” (N. do Org.) 14 Refere-se a Luís de Camões. 15 Incensório. 16 “Manuel MariaBarbosa du Bocage (1765-1805) nasceu em Setúbal, filho de um advogado e de uma senhora francesa. Vai para a Academia Real da Marinha aos 14 anos e embarca em serviço para a Índia em 1786. Vive dois anos em Goa, regressando a Lisboa com 25 anos de idade. Aí dedica-se a uma vida desregrada entre os botequins e as tertúlias literárias. Pertenceu à Nova Arcádia onde era conhecido pelo pseudónimo de Elmano Sadino. As suas relações com a Arcádia não foram pacíficas, tendo, ao afastar-se, lançando ataques contundentes nos seus versos. O seu pendor satírico levou-o à prisão do Limoeiro, conseguindo a transferência para o mosteiro de São Bento onde vem a falecer pobre e doente. As suas obras tiveram várias edições ainda em vida do poeta: Rimas, tomo I (1791), Rimas, tomo II (1799) e Rimas, tomo III (1804). Em 1811 foram publicadas as Obras Completas no Rio de Janeiro. Ficaram famosos os seus Sonetos, 72 os seus Epigramas e os seus Apólogos.” Disponível em: http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/bocage.htm Acesso: 19.08.2020 (N. do Org.) 17 Cajado. 18 Envelhecido. 19 Galhofa. 20 Flui, nasce. 73 A posteridade e Fr. José de S. Rita Durão1 À posteridade, geralmente fatiando, e um juiz que quase sempre não erra em suas decisões. Ela de ordinário vinga na memória que persiste e acompanha os tempos à odienta e caprichosa contemporaneidade. Milton2 vendeu o seu “Paraíso Perdido” por 125 francos, (entre nós 40:000 réis), a um editor inglês, que com ele veio a ganhar para cima de 400:000! (128:000:000 réis.) Camões recebeu de el-rei D. Sebastião3 a generosa tença de 15:000 réis, cujo favor lhe foi repetido apenas por três anos, em remuneração dos seus imortais “Lusíadas” e dos bons serviços prestados a el-rei nas índias Orientais, e dos muitos que prometia ainda prestar! Camões teve, por conseguinte, mais 5:000 que Milton. Reduzido a maior miséria, esmolou um pedaço de pão para não morrer à fome, e acabou por sucumbir na enxerga de um hospital! Era destarte que a contemporaneidade desses dois grandes cultos do século XVII pagava duas obras que para os tempos porvindouros deveriam representar - aquela um momento de literatura tão sublime que nele teria a nação inglesa a sua maior glória, a sua maior coroa literária; - este um monumento igualmente imorredouro que, atestando os feitos gloriosos do Gama,4 do Albuquerque terribil5 e do Castro forte6, na expressão do épico, levasse-os a mais remota posteridade de envolta com o talento fecundíssimo do inspirado das Tágides.7 Entretanto, os dias acumulam-se, os anos se sucede me os séculos avultam. O secretário latino de Cromwell8 é por muitos considerado como o primeiro épico do mundo, preferível até a Homero! O seu poema traduzido em todas as línguas cultas do orbe, elogiado pelos mais abalizados sabedores, ainda hoje é uma fonte perene de lucro para os livreiros, e será sempre. E Milton vendera o seu Paraíso Perdido por 125 francos! Os Lusíadas, que tem igualmente sido traduzidos em todos os idiomas, onde se tem ideia do que é grande, sublime e maravilhoso, foi, há sido e será, em quanto houver gosto pelas letras, um manancial também inexaurível de lucro para os livreiros. Eis como a posteridade costuma julgar. Porém triste consolo é este para o homem que cultiva as letras, para o homem que é poeta! A decisão da posteridade teria algum correio, algum barco a vapor, algum wagon,9 algum telégrafo elétrico que, perpassando o espaço e os diferentes céus dos astrônomos, batesse às portas da eternidade para dizer ao grande escritor, ao sublime orador, ao consumado jurisconsulto, ao divino poeta: “teu nome corre de boca em boca como uma das maiores ou como a maior maravilha de tua idade, teus escritos, teus discursos, tuas leis, teus poemas repousam tanto na suntuosa estante do cortesão como na pobre banca do rústico, são lidos por todas as inteligências, são admirados por todas as capacidades!” Era bem bom que os gênios lá no outro mundo tivessem esse consolo. Quanto se não admiraria Camões de ver o seu poema vertido doze vezes no francês, seis no latim, cinco em cada um dos idiomas italiano, alemão e 74 inglês, quatro no castelhano, duas no sueco, e uma vez em cada uma das línguas dinamarquesa, russa e hebraica! Que fonte inesgotável de interesse! - diria consigo o cantor do descobrimento das índias Orientais. Como pelas faces lhe rolaria uma lágrima de eterna gratidão ao ver o seu monumento erguido das ruínas, como por um encanto, devido às exprobrações e às incansáveis diligências de dois poetas igualmente grandes como ele! Dissemos em princípio que a posteridade quase sempre não erra em suas decisões, e tivemos razão para nos exprimirmos assim hipoteticamente. A posteridade, às vezes, como que se deixa possuir de uma ideia a tal ponto que o objeto dessa ideia não tem para ela senão uma face não tem senão um perfil: - é uma espécie de elaboração interior que não admite forma, que não admite mudança. É assim que a posteridade esquece, muitas vezes, as devassidões e os crimes de César e quando Napoleão,10 somente para olhá-los pelo prisma sedutor de suas façanhas, de suas bravuras bélicas, de suas heroicidades. - E assim que ela parece esquecer-se de que José Agostinho de Macedo fora um talento superior, um escritor meritório, um poeta muitíssimas vezes sublime, para somente olhá-lo como um homem odiento, invejoso, satírico, mordaz e egoísta. Pode ser que estejamos enganado: - será a posteridade sempre justa e infalível quando julga -, mas também ninguém nos poderá contestar que a posteridade é humana, como representante das inúmeras e diversas opiniões, de que é órgão, e, neste caso, qual será a conclusão?... Ora, tudo quanto até aqui nos aprouve de dizer, teve por esta pergunta: a posteridade, que começa a correr para o autor desde o momento em que ele deixa de existir, terá sido, até o instante em que escrevemos estas linhas, plenamente justa para com o épico brasileiro Fr. José de S. Rita Durão? A resposta é dificílima de dar-se. Talvez alguém in continenti11 respondesse afirmativamente, atendendo que “Bocage, ainda pouco antes de falecer, segundo nos assegura o Sr. Dr. Francisco Freire de Carvalho,12 por intermédio do Sr. Yarnhagen,13 contava o Caramuru como um dos livros mais queridos de sua minguada livraria;” que o insigne autor dos “Ciúmes do Bardo”14 classifica sua imaginação de viva, seu estilo de fácil e ao mesmo tempo nobre, e a sua versificação de comumente boa e às vezes muito boa que o distinto rival de Camões, Garrett, também lhe reconhece muito mérito nestas palavras: “O autor (referindo-se a Durão) atinou com muitos dos tons que deviam naturalmente combinar-se para formar a harmonia do seu canto.” E mais abaixo: “de o poeta se contentou com a natureza e com a simples expressão da verdade, há oitavas belíssimas, ainda sublimes.” Pode ser, dizíamos nós, que alguém in continenti decidisse pela afirmativa à vista de tão exuberantes e autênticos louvores, e à vista de algumas versões que na Europa teve o Caramuru: entretanto, nós, em o nosso humilde modo de pensar, nem respondemos afirmativamente nem 75 negativamente: desejáramos, porém, que a esta hora a posteridade se houvesse pronunciado de um modo mais decisivo acerca do poema de S. Rita Durão. Mas isso talvez importasse uma antecipação de fato. Esperemos. II Agora algumas palavras em favor do distinto poeta mineiro. O mérito do poema Caramuru torna-se mais saliente e adquire maior verossimilhança quando desapaixonadamente e com os olhos da verdadeira crítica, confrontando seu autor com os poetas seus contemporâneos, e com os hábitos e costumes destes, vemos-lhe uma certa superioridade, superioridade que chamaremos relativa. Fr. José de S. Rita Durão, coetâneo de Manoel Maria Barboza Du Bocage e de Francisco Manoel, oprimeiro tipo real do gênio, o segundo imagem verdadeira do talento, avantajou-se muito a esses dois autores, que tanto honram a literatura portuguesa, e aos quais muito ela deve, mui principalmente ao Padre Francisco Manoel,15 inimigo por essência de galicismo e francesas, e restauradora língua portuguesa. Leiam-se as poesias de Bocage, leiam-se as poesias de Filinto; em quaisquer delas se hão de encontrar, repetidas umas sobre outras, imensas comparações mitológicas. Será bem raro o soneto, a ode, a elegia, a epístola, a anacreôntica de Bocage ou de Filinto que não lenha uma invocação, uma queixa, um incenso, um perfume a Jove, a Vênus, a Cupido, a Mercúrio, e finalmente a essa enfiada de divindades pagãs e burlescas que formavam a beleza, senão o mérito real, da poesia desses tempos de além. Era uma forte mania! Cremos que se algum reator atrevido tivesse o poder de então dizer aos poetas da mitologia: proscrevei as vossas divindades pagãs e mesquinhas, e poetizai substituindo as pelos arquétipos da natureza - mãe, cremos que Bocage deixaria de ser repentista, que Filinto deixaria de ser puritano do pátrio idioma, e assim por diante. Verdade é (permita-nos o leitor a digressão que será breve) que se hoje não existe a mitologia, nem por isso deixa de haver na poesia alguma cousa que com ela exerce um certo ponto de contato; que de alguma sorte parece substituí-la. O que são os lobisomens, as mulas sem cabeça, as caiporas, as mais de água e outras muitas ficções que se encontram por aí? - São outros tantos mitos que entram como mistifório16 na linguagem métrica que quase nada exprimem, porém que estão identificados com os preconceitos do povo. Quando a poesia for puramente real, se terá - descoberto o motu continuo,17 - achado a pedra filosofal - demonstrado a quadratura do círculo, porque então já o cosmopolitismo dominará o mundo. Paliando desta maneira, releva dizer que não tomamos este vocábulo, cosmopolitismo, como sinônimo de catolicismo; não; neste acreditamos-, este, sim, dominará o globo, penetrará nas mais estreitas gargantas do mundo, e levará sua luz benéfica, necessária e divina às mais remotas regiões, aos mais esquisitos e, quiçá, ainda ignorados climas. Voltemos ao nosso propósito. Mas, a que veem estas reflexões? Fizemos antes (as que da 76 digressão) perguntará algum dos que tiverem o incômodo de ler essas linhas. Responderemos: estas reflexões têm por fim mostrar a superioridade de Durão relativamente aos seus contemporâneos ou a muitos deles. Lede o seu imortal poema, que contem 10 cantos, 834 oitavas e 6872 versos heroicos ou hendecassílabos, e dizei-nos se encontrastes nele essa idolatria grega que chegou até os nossos dias; dizei-nos se Fr. José de S. Rita Durão compara suas beldades com a Vênus lasciva, comas graças nuas e provocadoras se o seu tipo de amor, - o seu tirano dos corações, - é esse menino nédio18 e rechonchudo, cego, nu, com azas nos ombros como pato, e com as aljavas que lhe pendem das costas pejadas de agudas seitas, de certeiros farpões que se arremessam e ferem a torto e a direito. A vossa resposta seria que o poeta quando tem de referir-se a essas divindades, é sempre escarnecendo-as, é sempre votando-as ao desprezo e ao ridículo que merecem. Vede como ele trata o poderoso rei do tridente: “Danova Lusitânia o vasto espaço Ia povoar Diogo, a quem bisonho Chama o Brasil, temendo o forte braço, Horrível filho do trovão medonho: Quando do abismo por cortar-lhe o passo, Essa fúria saiu, como suponho, A quem do inferno o paganismo aluno,(1) Dando o império das águas, fez Netuno. Tratando da antropofagia entre os índios, compara-a com os sacrifícios do paganismo desenvolto dos tempos de Roma e Cartago, nos seguintes versos: “Roma e Cartago o sabe no noturno Horrível sacrifício de Saturno. (2)” Depois, tratando do espanto e estranheza em que ficaram os índios com a presença de Diogo, e da origem do nome Caramuru que, como todos sabem, entre eles significava “filho do trovão” ou antes “dragão do mar,” diz: “Desde esse dia é lama que por nome De grão Caramuru foi celebrado O forte Diogo; e que escutado dome Este apelido o bárbaro espantado: Indicava o Brasil no sobrenome Que era um dragão dos mares vomitado: Nem de outra arte entre nós a antiga idade Tem Jove, Apolo e Marte por deidade. (3)” 77 Note-se, porém, que quando Durão assim descrevia a credulidade dos índios de envolta com a censura que fazia à antiga idade, - essa antiga idade ainda lhe dava a gostar em cada poesia, em cada estrofe, em cada verso o perfume dessas flores peregrinas, ou antes parasitas, da mitologia grega Vede ainda como se ele exprime contra essa crença selvagem: “É fácil propensão na brutal gente, Quando em vida ferina admira uma arte, Chamar um fabro o deus da forja ingente, Dar ao guerreiro a fama de um deus Marte: Ou talvez por sulfúreo fogo ardente, Tanto Jove se ouviu por toda parte: Hercules e Theseus, Jasões no Ponto(4) Seriam cousas tais com as que eu conto.” Está, pois, evidentemente provado, (se nos não cega o amor próprio ou a admiração pelo nosso poeta), que Durão já se revolucionava contra a mitologia, contra a antiga escola, quando Garção,19 Antônio Diniz,20 Quita,21 Bocage, Filinto Elísio e outros muitos poetas, tanto portugueses como de outras nações, não davam um passo sem essa gentileza dos nossos heróis gregos e romanos. E nessa reação, nessa espécie de Duriense22 cruzada anti-mitológica não haveria alguma cousa que desse ao nosso épico uma superioridade relativa aos seus coetâneos? - Parece que sim. III Não foi somente por essa tendência bem característica do nosso insigne épico contra as divindades do paganismo que ele se tornou credor dessa superioridade relativa que nele enxergamos-, não: o distinto cantor de Diogo23 e da interessante Paraguaçu24 (a quem descreve tão bela, tão simples tão sensível, tão caroável aos preceitos do seu modesto e pudico amante) sobressai ainda a muitos dos seus coetâneos quanto à regularidade de suas estrofes, (5) não introduzindo nelas, senão geralmente palavras graves, que são por certo as que mate se casam com os assuntos grandiosos, com as epopeias. É admirável que um poema de 834 estâncias não tenha uma só que seja aguda! É admirável que todo ele seja grave! O sábio e respeitável senhor Castilho, em seu precioso opúsculo - Tratado de metrificação portuguesa - obra que tanto tem de pequena quanto de profusa em conhecimentos elevados e incansáveis vigílias, nos diz que a Tomás Antônio Gonzaga, na sua “Marília de Dirceu”, à imitação do popularíssimo poeta italiano - Metastasio25 - devem os portugueses a introdução da regularidade das estrofes. Entretanto, sem que tenhamos em vistas negar a autenticidade da asserção, julgamos conveniente dever ponderar que Durão é anterior ao melodioso cantor da bela mineira, e essa perfeição poética, ou bom costume, como apropriadamente chama aquele autor, já anteriormente deviam admirar no imortal Caramuru. 78 Eis-aqui, pois, o outro lado pelo qual há também alguma cousa que revela no poeta brasileiro alguma superioridade em relação aos seus coevos ou aos que viveram em o seu mesmo século. Será ainda o amor próprio ou a admiração que nos cega? O estado da consciência é tal que seriamente o ignoramos. Senão pelas razões que apontamos, ao menos por outras talvez que de maior peso e critério, de maior gravidade e ponderação, disse o senhor Varnhagen: “Em nossa opinião o acolhimento público, a popularidade ainda não fez justiça ao mento do Caramuru.” Haveriam motivos que levassem com justiça o ilustre historiador a pronunciar-se de semelhante modo? Talvez que sim. O Sr. Dr. J. Alencar,26 em sua última nota á pagina 81 da carta sétima, em que crítica a “Confederação dos Tamoios”, poema do Sr. Dr. Magalhães,27 diz aí uma pura verdade: (se, porém, na aplicação que faz de semelhante verdade,é igualmente verdadeiro, isto ignoramos). Ordinariamente, diz o severo crítico, quando um poeta escreve um livro sobre um assunto ainda não conhecido, cria alguma cousa nova e original, que se admira, e se repete com uma certa simpatia é um quer que seja que toca ao coração ou ao gosto do leitor. “Às vezes é um tipo, um caráter, uma descrição ou mesmo uma imagem; outras é apenas um verso, um pensamento, uma frase e até uma palavra.” E de feito. Quem, lendo mesmo de passagem no Caramuru, canto 4°, estância 56, a terrível briga dos dois índios inimigos, Jacaré e Jararaca, deixará de gravar na memória por toda vida aquela expressiva parelha que encerra em si uma das mais formosas, enargueias28 que temos lido, em que pinta o poeta os dois contendores estreitamente agarrados, enquanto os que testemunham a encarniçada luta não respiram de admiração, de espanto? Quem se esquecerá, repetimos nós, dos seguintes versos, lendo-os uma vez dominado com a vista? “Olham lutando os dons no fero abraço Pé com pé, mão com mão, braço com braço.” Quem, no canto 6.°, estância 38, quando a sensível e amorosa Moema,29 que nada em seguimento da não que conduz seu amante, o virtuoso Diogo, depois de compará-lo ao tire e achá-lo mais inaccessível ao amor do que a própria fera, depois de vociferar contra ele e conjurar os elementos para que consumam aquele infame; como que se arrepende do que dissera, ou reconhece a inutilidade de suas vociferações, de seus ultrajes, de suas queixas, - quem, repelimos nós, deixará de reter na memória para sempre esta outra importantíssima parelha, em que ela diz: “Mas pagar tanto amor com tédio e asco. Ah que o corisco és tu... raio... penhasco?” 79 Quem, finalmente, esquecerá, tendo uma vez lido o Caramuru, canto 10, estância 10, a muito linda, muito feliz e muito poética comparação do épico, alusiva à Virgem Santíssima e ao Divino Verbo? “Mas se não se de digna o verbo Santo Por nosso amor, de símbolo rasteiro, Dentro parece do Virgíneo manto Pascendo em brancos lírios um cordeiro.” Protestamos seriamente ao leitor que todas estas interessantes passagens que ficam citadas, bem como algumas outras que omitimos por brevidade, aprendemo-las de cor na primeira leitura que fizemos do Caramuru. Isto posto, não devemos terminar este artigo sem dizermos algumas palavras quanto á nacionalidade do poema Caramuru -, serão duas palavras em sentido geral. Se um poema verdadeiramente nacional e aquele em que as comparações, as imagens, os episódios, todo seu enredo em fim se harmoniza com os hábitos e costumes do país em que foi escrito, não há dúvida que o Caramuru é um poema todo nacional, porque o poeta não foi procurar para a descrição de suas cenas figuras e tipos estrangeiros. Nele não há olaias30 frondosas nem velhos carvalhos; nele não há Tejos nem Mondegos: há, porém, cenas brasileiras, cenas verdadeiramente filhas do país onde ele foi meditado e desenvolvido. Poderemos provar o que fica dito com muitas passagens do Caramuru; porém tememos abusar da paciência dos leitores, e contentamo-nos em pedir aqueles que não veem no Caramuru um poema puramente nacional, o pequeno trabalho, que será ainda mais suavizado com a beleza e brandura do verso, de lerem-no com atenção, com discernimento. Se é incontestável que; José Basílio da Gama,31 no seu “Uraguai”, encetou delicadamente a poesia americana, não é menos verdadeiro que Fr. José de S. Rita Durão continuou-a no seu muito brasileiro poema “Caramuru.” Temos, se bem que mal, desenvolvido a nossa epígrafe; com tudo, não podemos concluir este mal alinhavado escrito, sem que para aqui copiemos as duas primeiras oitavas do nosso rico poeta. Ha alguém por esses sertões, onde o Ateneu pode mui bem ter ingresso, que ignora as belezas do ótimo poema Caramuru em duas belíssimas e até arrebatadoras oitavas (tanta sublimidade em tanta concisão) faz ele a exposição do assunto e a invocação. Sejam elas a chave de ouro que venha fechar o nosso humilde trabalho. Exposição do assunto: “De um varão em mil casos agitados, Que as praias discorrendo do ocidente, Descobriu o Recôncavo afamado 80 Da capital brasílica potente: Do “filho do trovão” denominado, Que o peito domar soube à fera gente, O valor cantarei na adversa sorte-, Pois só conheço herói quem n'ela é forte.” Invocação: “Santo esplendor que do Grão Padre manas Ao seio intacto de uma Virgem bela; Se da enchente de luzes soberanas Tudo dispensas pela Mãe Donzela; Rompendo as sombras de ilusões humanas, Tu do grão caso a pura luz revelia; Faze que em ti comece e em ti conclua Esta grande obra que por fim é tua.” Recife -1858. J. CORIOLANO DE S. L. (1) Caramuru - cant. 4. - est. 9. (2) Caramuru - cant. 4. - est. 48. (3) Caramuru - cant. 4. - est. 46. (4) Caramuru - cant. 2. - est. 48. (5) Refirimo-nos, não ao número dos versos que compõem cada estrofe, porém às palavras finais - graves, agudas ou esdrúxulas - de cada verso. Publicado no Jornal O Atheneu Pernambucano: Periódico Científico e Literário. “Avante e sempre!” Volume III. N.° 1. – Mês de junho. 1858. 1 Neste ensaio Coriolano descreve uma crítica elogiosa ao autor português o Frei José de Santa Rita Durão (1722-84) e sua mais importante obra Caramuru. Agostiniano de formação o religioso doutorou-se em Filosofia e Teologia pela Universidade de Coimbra. Perseguido em Portugal foge para Roma onde se torna bibliotecário; na queda de Pombal retorna para a sua terra. A obra citada trata de um belo poema épico indigenista, cavoucados de lembranças suas da infância enquanto esteve no Brasil estudando no Colégio dos Jesuítas. (N. do Org.) 2“John Milton (Cheapside, Londres, 9 de dezembro de 1608 - Bunhill, Londres, 8 de novembro de 1674) foi um poeta, polemista, intelectual e funcionário público inglês da Comunidade da Inglaterra sob Oliver Cromwell, servindo como ministro de línguas estrangeiras. Ele escreveu em um momento de fluxo religioso e agitação política, e é mais conhecido por seu poema épico Paraíso Perdido (1667), escrito em verso branco.” Disponível em: https://ecclesiae.com.br/index.php?route=product/author&author_id=303 Acesso: 20/05/2020 (N. do Org.) 81 3 “D. Sebastião (1554 - 78) transformou-se num mito após o seu desaparecimento na batalha de Alcácer Quibir, no norte de África. A sua morte abriu as portas à crise dinástica que vai colocar os reis de Espanha no trono português. D. Sebastião era neto de D. João III e o seu nascimento foi muito festejado por se temer um problema de sucessão na coroa portuguesa. Religioso e militar zeloso, empenhou-se na preparação de um exército para combater os Mouros e em ganhar prestígio militar. Morreu no Norte de África, na batalha de Alcácer Quibir, sem deixar descendência, abrindo caminho para a entrega da coroa portuguesa aos Filipes de Espanha. À sua volta nasceu o mito do “Sebastianismo”, a esperança de que regressaria um dia, numa manhã de nevoeiro, para salvar o país de todos os seus problemas.” Disponível em: https://ensina.rtp.pt/artigo/d-sebastiao-1554-1578/ Acesso: 20/05/2020. No Maranhão, o rei de Portugal D. Sebastião teria passado por lá e se perdido confundindo uma de suas ilhas com o Deserto do Saara no Marrocos, construindo para si um castelo na localidade. Reza a mitologia maranhense ainda que Dom Sebastião se transforme em um touro negro encantado, com uma estrela na testa. Caso alguém o matasse ele retornaria ao seu reino. (N. do Org.) 4 Vasco da Gama (1469-1524) foi um navegador e explorador português, nomeado, pelo Rei Dom Manuel I, para comandar expedições principalmente para as Índias. Pelo seu sucesso nos mares ganhou do reino de Portugal o pomposo título de “Almirante dos Mares da Arábia, Pérsia, Índia e de todo o Oriente”.Sua viagem teria inspirado Camões para composição de sua mais importante obra. Ambos encontram-se enterrados no Mosteiro dos Jerônimos, com urnas funerárias praticamente idênticas. (N. do Org.) 5 Afonso de Albuquerque (1452-1515), outro importante navegador português tinha várias denominações: Leão dos Mares, César do Oriente e o Terribil (terrível) como citou o poeta brasileiro. Visando proteger-se dos otomanos, árabes e hindus monopolizou as passagens navais para o Índico. Depois de Alexandre, o Grande foi o segundo fundar uma cidade na Ásia. Também citado por Camões em sua obra. (N. do Org.) 6 João de Castro (1500-48) fora cartógrafo e o 4º vice-rei do Estado Português da Índia. Cientista, ao levar consigo agulhas magnéticas a bordo nas suas navegações, conseguiu refutar a teoria de que a variação da declinação magnética não se dava por conta da localização dos meridianos geográficos como se acreditava, tornando-se a partir daí um grande nome nos estudos das navegações. Também foi citado em Os Lusíadas. (N. do Org.) 7 São as ninfas mitológicas do rio Tejo, entidades pelas quais Camões suplica para escrever seus versos. 8 Provavelmente refere-se a Thomas Cromwell (1485-1540), estadista inglês que serviu como primeiro-ministro de Henrique VIII. Foi decapitado sob a acusação dos crimes de traição e heresia. (N. do Org.) 9 Vagão em inglês. 10 “Napoleão Bonaparte (1769-1821) foi imperador da França entre 1804 e 1814 com o título de Napoleão I. Líder político, ditador e comandante do Exército Francês, conquistou uma grande extensão territorial para a França. (...)Napoleão marcou presença na Revolução Francesa, inicialmente contra ela. Fiel à monarquia à disciplina militar, condenou a insurgência popular. Aos poucos, os soldados de seu destacamento começaram a juntar-se aos patriotas na defesa dos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Napoleão mudou de lado e entrou para o partido dos jacobinos. Napoleão foi preso e enviado para a ilha de Santa Helena, uma colônia inglesa localizada no sul do Atlântico. (...) faleceu na ilha de Santa Helena, no dia 5 de maio de 1821, depois de 6 anos de exílio.” Disponível em: https://www.ebiografia.com/napoleao_bonaparte/ Acesso 20.05.2020. (N. do Org.) 82 11 Imediatamente. 12 Provavelmente refere-se ao estudioso de língua portuguesa sobre crítica, teoria ou história literária. Dentre suas obras constam Lições elementares de eloquência nacional, Florilégio brasileiro da infância e outras. (N. do Org.) 13 Provavelmente refere-se a Francisco Adolfo de Varnhagen (1816-78) diplomata e historiador autor de Épicos brasileiros (1845), História geral do Brasil (1854), História da Independência do Brasil (1916) e outras. (N. do Org.) 14 Livro de poemas narrativos do ano de 1836, que incluíram o nome do escritor lisbonense Antônio Feliciano de Castilho (1800-75) como um dos principais expoentes do Romantismo. (N. do Org.) 15 De nome completo Francisco Manuel do Nascimento (1734 - 1819), adotava o pseudônimo Filinto Elísio, teve sua obra poética toda reunida além de traduzir As fábulas de La Fontaine. (N. do Org.) 16 Mistura. 17 Movimento perpétuo. 18 Lustroso, brilhante. 19 “Pedro Antônio Correia Garção (1724-1772) nasceu em Lisboa. Frequentou o curso de Direito da Universidade de Coimbra, mas teve de abandonar os estudos, tornando-se oficial de secretaria e redator da Gazeta de Lisboa. É considerado um dos mais importantes poetas neoclássicos da literatura portuguesa. Pertenceu à Arcádia Lusitana, utilizando o pseudônimo de Corydon Erimantheo. As suas poesias foram publicadas em 1778 num só volume intitulado Obras Poéticas. Escreveu duas comédias: Teatro Novo e Assembleia ou Partida.” Disponível em: http://www.jayrus.art.br/Apostilas/LiteraturaPortuguesa/Arcadismo/Cor reia_Garcao.htm Acesso: 20.05.2020. (N. do Org.) 20 “Antônio Dinis da Cruz e Silva (1731-1799) formou-se em Direito. Depois de exercer funções de magistratura em Castelo de Vide e Elvas, foi nomeado desembargador da Relação do Rio de Janeiro, aí permanecendo entre 1776 e 1789. Voltou ao Brasil em 1890para julgar os implicados na revolução de Tiradentes, na qual estava implicado o poeta Tomás Gonzaga. Foi um dos fundadores da Arcádia Lusitana em 1756, adoptando o pseudónimo de Elpino Nonacriense.” Disponível em: https://www.portaldaliteratura.com/autores.php?autor=152 Acesso: 20.05.2020. (N. do Org.) 21 “Domingos dos Reis Quita (Lisboa, 1726-1770). As suas obras compreendem éclogas, odes, sonetos, outras poesias miúdas, o drama pastoral Licore; e quatro tragédias, uma das quais, Castro, foi aproveitada por João Batista Gomes para a sua Nova Castro. Quita foi membro da Arcádia Ulisiponense, sob o nome de Alcino Micênio. Tinha a profissão de cabeleireiro e morreu paupérrimo.” Disponível em: http://www.consciencia.org/domingos-dos-reis-quita Acesso: 20.05.2020. (N. do Org.) 22 Refere-se a pessoas ou coisas provenientes da província do Douro em Portugal. 23 Diogo Álvares Correia (1475-1557) foi um náufrago português que foi recebido por índios tupinambás sendo-lhe dado em casamento Paraguaçu, uma índia da tribo. 83 24 Catarina Álvares Paraguaçu (1503-83). Casada com Diogo foi batizada como Catarina e chegou a ir pra Europa. Considerados a “primeira família católica do Brasil”, o casal teve 4 filhas. 25 Pietro Metastasio (1698-1782) foi um poeta e importante libretista italiano. Sua obra completa foi publicada em Paris em 12 volumes. 26 “José de Alencar (José Martiniano de Alencar), advogado, jornalista, político, orador, romancista e teatrólogo, nasceu em Messejana (atual bairro de Fortaleza), CE, em 1º de maio de 1829, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 12 de dezembro de 1877. É o patrono da cadeira n. 23, por escolha de Machado de Assis. (...) A sua notoriedade começou com as Cartas sobre A Confederação dos Tamoios, publicadas em 1856, com o pseudônimo de Ig, no Diário do Rio de Janeiro, nas quais critica veementemente o poema épico de Domingos Gonçalves de Magalhães, favorito do Imperador e considerado então o chefe da literatura brasileira. (...) Sua obra é da mais alta significação nas letras brasileiras, não só pela seriedade, ciência e consciência técnica e artesanal com que a escreveu, mas também pelas sugestões e soluções que ofereceu, facilitando a tarefa da nacionalização da literatura no Brasil e da consolidação do romance brasileiro, do qual foi o verdadeiro criador. Sendo a primeira figura das nossas letras, foi chamado ‘o patriarca da literatura brasileira’. Sua imensa obra causa admiração não só pela qualidade, como pelo volume, se considerarmos o pouco tempo que José de Alencar pôde dedicar-lhe numa vida curta. Faleceu no Rio de Janeiro, de tuberculose, aos 48 anos de idade. Disponível em: http://www.academia.org.br/academicos/jose-de-alencar/biografia Acesso: 21.05.2020 (N. do Org.) 27 “Gonçalves de Magalhães, ou Domingos José Gonçalves de Magalhães, Visconde de Araguaia (1811-1882) foi filósofo, médico, historiador, poeta, dramaturgo, político e diplomata. Introdutor do Romantismo e também do teatro noBrasil.”Disponível.em:http://www.portugues.seed.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.ph p?conteudo=623 Acesso: 21.05.2020 Teve sua principal obra atacada por Alencar, mas por outro lado foi defendido pelo próprio Imperador D. Pedro II, patrocinador da obra. (N. do Org.) 28 Na literatura é um processo retórico, que praticamente se refere a uma ficção (pessoas, lugares e fatos), mas com caráter de realidade. 29 Irmã da índia Paraguassú. 30 Espécie de árvore comum em Lisboa. 31 “José Basílio da Gama (1741 - 1795) Poeta brasileiro, nasceu em Minas Gerais e faleceu em Lisboa. Estudou em Portugal e viveu algum tempo em Roma, ingressando na Arcádia Romana com o nome de Termindo Sipílio. De volta a Lisboa foi condenado, por suspeita de jesuitismo, ao degredo em Angola.Salvou-o um epitalâmio que dedicou à filha do marquês de Pombal, que o indultou, libertou e protegeu. (...) Sua obra mais importante é o poema épico Uruguaio, que narra as lutas dos Setes Povos das Missões do Uruguai contra o exército luso-espanhol que vinha executar os dispositivos do Tratado de Madrid (1750), o qual transferia aos portugueses essas missões e aos espanhóis a Colônia do Sacramento.” Disponível em: http://urs.bira.nom.br/autor/brasil/basilio_da_gama.htm Acesso: 21/05/2020. (N. do Org.) 84 POESIAS INÉDITAS 85 Amei-te Amei-te, não te o nego; no meu peito Um altar te erigi de puro afeto, Embora me oferecesses desumana Em taça de cristal licor infecto. Percorre muito embora a negra escala Das injurias cruéis, que me hás vibrado; Sempre me lembrarei dos magros dias, Que ditoso frui junto a teu lado. Menti-te; que em meu peito um anjo mora, Um santo, um terno amor que me dá vida? Que importa? - Foi um bálsamo celeste, Com que cicatrizei funda ferida. Não devo me queixar, nem tu te deves Da sorte, que rompeu nossas cadeias: Foi vontade do céu-; nem gemo e choro Pra quê no meu amor penado creias. Reflete um só momento, alonga a vista, Mede toda a extensão desse passado, Onde tudo era gozo, onde um teu riso Me atraía a teus pés, d'amor curvado. Hás de d'ele um pungir achar de dores, Uma suspeita van, pranto e delírio; Mas não confunde o amor que brota da alma Com a dor, com o pranto do cruel martírio... Ambos amamos; e dizê-lo podem A selva que nos viu sorrir outrora, O sol extremo, perfumando o ocaso, A. cândida rolinha gemedora. Que pôde contra nós a vil calúnia? 86 Teu ódio contra mim duro e tirano? A calúnia caio, infame e negra, Teu ódio perdoei, teu trato insano. Cobre-me de impropérios, manda ao vento Palavras de desprezo em teus queixumes, Elias me arrancarão lagrimas tristes, Mas n'elas gostarei doces perfumes. Deixa o tempo passar, - vir novo tempo, Deixa o tronco morrer, - vir tronco novo, Deixa findar as gerações presentes, E suceder-lhes do porvir - o povo. O tempo em seu passar dirá aos tempos, O tronco no brotar, na voz as gentes: Que amor o deles! - mas que pecos frutos - Ódio, suspiros, lágrimas frequentes! Embora! - nosso amor será eterno No eco desta voz querida; “eu te amo!” Das aves repetida, das florinhas, Da lua e brisa, que conversa ao ramo. Recife - 1856. J. Coriolano de S. L. 87 D. Clara. Lendo, há coisa de uns três anos, a famosa batalha dada em Porto-calvo, em 1637, contra os Holandeses, comandados pelo príncipe João Maurício de Nassau, onde tanto sobressaíram, por atos de bravura, denodo e verdadeiro patriotismo. - Henrique Dias, D. Antônio Filipe Camarão e a nossa incomparável heroína - D. Clara, mulher deste herói, fiz as quatro estâncias que vão ser publicadas; estâncias sem nenhum mento poético, porém importantes - somente pelo fato de serem dedicadas a uma filha do Brasil, cuja heroicidade faz lembrar a ficção das Amazonas, e cuja memória será sempre grata aos corações brasileiros. A sua memória, pois, tributo este mesquinho monumento de fraternidade, admiração e respeito. Foi nesta mesma batalha que fugiu vergonhosamente o conde Bagnuolo, depois príncipe na Itália por mercê de Filipe IV. D. CLARA (Mulher de D. Antônio Filipe Camarão.) Ia a seu lado a combater briosa, Nem teme a multidão que o campo inunda. Durão - Caramuru cant. 4.° est. 46. Quem é aquela que encurvando o arco Atira a flecha contra o holandês? Que obriga ao batavo covarde e fraco Voltar as costas pra não vir-talvez? Quem é aquela que no horror da luta Ostenta um porte-marcil, gentil? Que em prol da Pátria valorosa luta? - É Dona Clara, filha do Brasil! Nem se atordoa do zunir das balas! Nem do ribombo do feroz canhão! Tem para os seus animadoras falas! Ferve-lhe ao peito liberal vulcão! Não se aquebranta no lidar da guerra! Grande heroína! que mulher gentil! 88 Pois quem no peito tal denodo encerra - É Dona Clara, filha do Brasil! Do esposo intrépido peleja ao lado, Do nobre e invicto herói Dom Camarão! Não erra tiro! - lá rojou banhado Em sangue o batavo no pó do chão! Aprende, Holanda, da Brasiléia e a gente Heroicos feitos de um valor gentil, Oh que heroína! que mulher ingente! - É Dona Clara, filha do Brasil!” No entanto zunem pelo ar as balas, Que veem humildes a seus pés morrer! Ella tem sempre animadoras falas, Que á gloria excitam, sem jamais torcer! Vissem-na junto do guerreiro esposo Com aquele garbo e marcial perfil, E não dissessem: “Coração brioso! - É Dona Clara, filha do Brasil!” Olinda - janeiro - 1856. J. Coriolano de S. L. 89 Qual a causa do mal? I Ou o mal procede ou nasce De uma causa natural, Ou é por Deus enviado Para castigo ao mortal. Eis as faces por que vamos Encarar esta questão, Guiados pelos princípios Que nos dita a sã razão. Se o mal só tem sua origem N'uma causa natural, Não tem o homem motivos Para queixar-se do mal. É mister sua existência Com a do bem a contrastar; Só assim a natureza Pôde bem se harmonizar. Sem a simétrica ordem Do regozijo e da dor Da alegria e da tristeza, Da antipatia e do amor; Sem que exista a alternativa Do bem seguido do mal, Do pequeno animalejo Em frente ao grande animal; Sem que exista a alternativa De um ano de inverno ruim Seguido de um ano fértil. Ou este de um seco enfim; O prazer sempre perene, 90 O bem sem nunca mudar Seriam tão corriqueiros A não poder-se aturar. Certos de haver sempre inverno, De tudo baratear, Muita gente preguiçosa Deixava de trabalhar. Além de legar aos filhos A preguiça, a inação, Trocaria o vandalismo Pela sorte do ladrão. É, pois mister que em seus gozos O bem depare com o mal, E que o mal nos seus rigores Encontre o bem afinal. Que vez a pálida lua Nos é mais grata que o sol! Que vez ao canoro cisne Prefere-se o rouxinol! Eis pois: - se da natureza É que se origina o mal, E se este se faz preciso, De que queixar-se o mortal? Seria melhor que o mundo Caísse por uma vez Sem esta grande harmonia Com que o criador o fez? II Debaixo deste outro ponto Considere-se a questão: Se Deus aos homens envia Os males por punição. 91 Não existia o que existe: Deus foi quem tudo criou, Deu-nos a vida tirando-a Nenhum direito lesou. O mundo é propriedade, Do onipotente fator, Pode, se acaso anda errado, Castiga-o com rigor. A escolha do castigo Depende de suas mãos; Humildes nos sujeitemos Gomo seus filhos - cristãos. Quem mais sofreu neste mundo Tormento e dores que Jó, Sobre o monturo assentado, Coberto de úlceras - só? E blasfemou algum dia? Quando deixou de ter fé? Os bens que a sorte roubou-lhes Não viu outra vez de pé? Este mundo é um mistério!... Deus - assim foi que o formou; Louvemos a mão do Eterno; Nas maravilhas que obrou. Quem descortina segredos Que cobre divino véu? - Ninguém. A Deus exaltemos Na terra como no céu. Recife (pelo cólera) 1856. J. CORIOLANO DE S. L. Publicado no Jornal O Ensaio Filosófico Pernambucano: Periódico Científicoe Literário. “Avante e sempre!” Ano II., Agosto de 1859, Nº 5. 92 O conselho da virgem. Les vierges sont des fleurs mystérieuse qu’on trouve dans les lieux solitaires. - Chateaubhiand - Um dia, - quase inerte - junto d'ela, Perguntou-me o que eu tinha, suspirando; E eu lhe disse: - Padeço, virgem bela, Os rigores do fado mais infando... Ai! padeces! não vês que eu também sinto Os males que tu sentes, muito amado? Ai! não vês deste peito no recinto Meu triste coração dilacerado?... Conheço, bela, os dotes do teu peito, Que aos anjos te nivelam! - mas a sorte Cruel, impiedosa, neste leito Me tem dado a sofrer mais de uma morte. Vejo meus dias que um a um se escoam, Vejo fugir-me a dita que eu sonhara. Ouço as vozes do sino que já soam Por um triste - por mim que se finara. E perder dos teus mimos esse agrado, Não ver mais teu sorriso, nem um pranto Vertido, como agora, deslizado Por tuas frescas faces, meu encanto! Não poder junto a ti, ó muito amada, Sentir esse ambiente que respiras, Nem tua nívea mão - acetinada, Nem suspirar contigo, se suspiras... Nem beijar-te os cabelos refulgentes, Nem com eles brincar a sós contido, Nem ver nestes teus olhos - inocentes 93 Dois anjinhos chorar, sorrir comigo... Não ouvir-te dos lábios maviosa, Mitigando os rigores do passado, A doce melodia e deleitosa Da voz que eu ouço sempre extasiado... E ainda que meus dias desgraçados Perdurem n'este leito de amargura. Que valem tristes membros intricados? Sem ti, bela, o que valho? Oh desventura! Ai! isto não será pior que a morte? Para que vi a luz? O mãe querida, Porque não me abafaste?... Desta sorte Não sofrera mil mortes minha vida. Amado! não delires... este mundo Nem é sempre tenaz nos seus rigores: Quantas vezes, depois de um mal Nos profundo, não semeia a senda de mil flores? Olha; um dia eu notei: minha roseira Crestava ao estivo sol; chorei sobre ela Mas, erguida do leito á luz primeira, Visitando-a, encontrei-a linda e bela. E quando o sol em prumo dardejava Sobre a terra seus raios queimadores. De novo visitei-a, e como estava Tão viçosa, embalando as meigas flores! Pois assim ha de ser... Não te amofines Com os revezes da sorte. Em breve o dia Raiará de ventura, nem me ensines Pesares, quando eu sonho com alegria. Depois da cerração, que tolda os ares, Por fim desponta prazenteira aurora, Depois de turvos, procelosos mares, 94 A barca chega ao porto e a salvo ancora. Mas, se a sorte cruel, despiedosa Prostrar-te para sempre n'este leito, Crê na mina alma, que será piedosa; Crê no meu terno, compassivo peito. Ah! já vejo teu rosto serenado, Já um riso me cedes d’esperança, Assim é que eu te quero, ó muito amado, Em; mim, nos céus, em Deus tem confiança. Príncipe Imperial (no Piauí) 1853. J. CORIOLANO DE S. L. Publicado no Jornal O Ensaio Filosófico Pernambucano: Periódico Científico e Literário. “Avante e sempre!” Ano II., Setembro de 1859, Nº 4. 95 O BRASIL Para servir-vos, braço ás armas feito, Para cantar-vos, mente ás musas dada (Camões.) Nada por mim, por minha pátria tudo; Fados brilhantes ao Brasil concede. (Sr. Dr. Magalhães) N'esta terra dos “Andradas” Tudo é belo e primoroso, Tudo é grande e precioso, Tudo é nela especial! Eu creio que foram fadas Quem descobrira tal terra! A tradição, talvez, erra Quando diz que foi “Cabral.” Fosse embora o lusitano Que esta terra do cruzeiro, Onde mora o brasileiro, Descobrira, - fosse enfim: Guiou-o um ser sobre-humano Pra descoberta tamanha, Fez a mais alta façanha, A mais alta, quanto a mim. Pois o Brasil tem lindezas Que não tem as outras terras Meu Brasil, em ti encerras Os tesouros minerais. Dos três reinos as riquezas Se contêm no teu recinto. Me arguam, se acaso minto, Se as frases não são reais, Eu sinto a mente inspirada Quando em teus destinos penso. “Teu porvir será imenso” 96 Qual na mente me reluz. Pátria minha abençoada Pelo Deus da cristandade, “Terás sempre a liberdade Por divisa - olhando a Cruz.” Quis a França, quis a Holanda Ter esta terra ditosa, Onde a Cruz esperançosa Os seus braços nos abriu; Mas essa cobiça infanda Pela pátria do cruzeiro Sufocou-a o brasileiro Com a flecha que então brandiu! Colônia este povo bravo De Portugal belicoso, Sentiu o jugo odioso Do governo português. Quis este fazê-lo escravo, Mas troou do sul ao norte “D'independência ou de morte” O grito por uma vez. E essa terra belicosa, Que nutriu “Camões e Gama Que no valor e na fama Quase não teve rival, Curvou a fronte orgulhosa Ao ressemeado gigante, E o Brasil venceu — pujante O reino de Portugal! Aqui viu sorrir-lhe a aurora Da vital primeira fama “José Basílio da Gama” E o “Santa Rita Durão:” Ambos a tuba canora Nos seus versos embocando, 97 Foram seus nomes legando Do porvir a geração. E a nossa bela heroína Pelo Durão decantada, Que foi esposa adorada Do grande “Caramuru-,” Essa Dona “Catharina,” Que antes do sacro batismo Era por patriotismo Chamada “Paraguaçu:” Também nasceu sob a copa D'estes bosques que topetam Com as nuvens, - que lancetam O ar com seus Coruchéus: N'esta terra onde se topa Quanto é grande e majestoso! Onde o mar estrepitoso Seus hinos modulam aos céus! E a pátria de “Henrique Dias,” Este solo abençoado, Que teve o “Nunes Machado” As “Claras” e os “Camarões,” É o tipo das harmonias, O país mais deleitoso! Além de ousado e brioso, É todo d'inspirações! Nosso sol é mais brilhante, Nossa lua mais saudosa, Nossa aurora mais mimosa, Mais corada, mais gentil; Nosso céu mais cintilante, Mais juncado de luzeiros. O Brasil dos brasileiros É muito belo Brasil! 98 Nosso solo é mais fecundo, Nossas correntes mais puras, Nossas vastas espessuras Contém doces frutos mil. Tudo nosso é belo e mundo! Nossas flores mais cheirosas, Nossas damas mais formosas, Tudo é mais cá no Brasil! Sim, as belas brasileiras São mais lindas e engraçadas, Carinhosas e prendadas Que as belas do outro país. São donosas, são fagueiras, Sejam louras ou morenas, Lírios, rosas, açucenas Mostram nas faces gentis. Do Brasil gosta o estrangeiro Por seu solo fecundado, Por seu clima temperado, Seus encantos, seu primor. No Brasil hospitaleiro Tem a brisa mais frescura, Tem o favo mais doçura, Tem os homens mais amor. O Brasil, oh! quanto é belo! Se ao mês estivo, calmoso Já sucede o mês chuvoso, Cada várzea é um jardim! E não custa para sê-lo: De um dia pra outro dia Já chupa a abelha a ambrosia Da flor neve-carmesim!* Nossos leves passarinhos Com seus suaves gorjeios Nos causam gratos enleios, 99 Nos geram grato cismar... Nos cumes ou nos raminhos Trinam mais que estranhas aves, São seus cantos mais suaves, Enlevam mais no cantar. E eu gosto de minha terra, Que é de primores vestida, De sua tarde sentida Qual donzela a suspirar. Tudo que é bom ela encerra: Donaire, graças, encantos, Ás vezes - saudade, prantos Suspiros de muito amar. Vale muito uma saudade, Um suspiro, um terno pranto; Às vezes exprimem tanto...Quantas vezes: - doce amor! E eu gosto de uma saudade, Gosto das lágrimas puras, Que exprimem nossas venturas Entre suspiros e dor! Viajando do Piauí para o Ceará -1854. J. CORIOLANO DE S. L. *Nas várzeas do Piauí e do Ceará há uma raiz bulbosa, vulgarmente chamada cebola brava, que depois de dois dias de chuva, germina e ostenta-se com um talo mui delgado e flexível, cousa de um palmo, coroado com uma florzinha muito bela; e aparece em tanta quantidade, que dá a uma várzea, toda inchada pelos vegetais que estão surgindo á face da terra, e já sombreada pela verdura, uma perspectiva sobre modo agradável. Muito admiro a presteza com que nasce, cresce e floresce a cebola brava! 100 SOLIDÃO Eu amo a solidão! - aqui meu peito Eu sinto dilatar-se, e ter mais vida; Aborreço os salões, onde se mente, Onde a voz, que se falia, é voz fingida. Que valem meigos risos sedutores? Que valem frases, que não vem do peito? Eu amo a solidão! - dos seus eflúvios Eu sinto dentro d'alma o puro efeito. Zombe embora de mim a turba insana, Que vive nos prazeres engolfada, Eu olho-a sobranceiro, como o cedro Olha a frágil vergôntea soçobrada. Amável solidão, quanto eu te amo! Amor, pureza, encantos, tu resumes; Só tu me dás alívio ás minhas mágoas, Em ti vivo de amor e de perfumes. Nas graças naturais, que te circundam, A ideia do infinito em ti contemplo; E' teu solo um altar da Divindade, Teu céu azul, diáfano é o templo. As aves, que modulam seus gorjeios, São anjinhos na terra, que desencantam, As flores, que perfumam teu espaço, São incensos a Deus, que se alevantam. Quando o mundo real meus olhos viram, E o vagido primeiro dei a terra, A sorte impiedosa disse: “Vai-te! Sê poeta, padece, chora e erra.” E eu tenho padecido e hei chorado, E minha vida há sido sempre errante; 101 Sou como a folha, que o tufão arrasta, Sou como o echo de choroso amante. Cumprirei minha sina como as aves, Que solitárias vivem pelas selvas, Como a flor inocente, peregrina, Que nasce, cresce e murcha junto ás relvas. Cachoeirinha (Icó) 1856. J. CORIOLANO DE S. L. 102 APÊNDICE 103 Artigo “Crônica Geral” do Jornal A Reforma: Órgão Democrático Rio de Janeiro, Sábado 1º de abril de 1871, Nº 73, Ano III Crônica Geral Na capital da província do Maranhão foi publicado um volume de poesias do falecido Dr. José Coriolano de Souza Lima. Intitula-se o livro Impressões e Gemidos a encerra muitas páginas de valor artístico. O Dr. Coriolano era um poeta do merecimento e versificava com elegância. Foi revisor da obra o falecido latinista Sotero dos Reis, juiz insuspeito o que sobre ela assim se exprimo em uma carta dirigida ao editor da obra. São estas as palavras do sábio maranhense, e com elas rematamos esta notícia: “Corrigi a folha sexta pelo autógrafo do autor, o qual V. S. devia ter-me mandado desde princípio, e como qual cotejei a prova três vezes; por isso deve ser emendada na imprensa tal qual. O mesmo farei com as outras folhas que se reimprimirem. A ortografia do autor é mui simples, apropriada e poética. Até hoje só me têm vindo cópias, pelas quais apenas podia fazer dela uma aproximada e imperfeita ideia, quando a nossa ortografia não está ajuda sujeita a regras invariáveis, como sabe. De posso d'este precioso autógrafo, pois o poeta é um verdadeiro poeta e de mui sabido mérito, asseguro lhe que as folhas reimpressas hão de sair a contento do quem manda fazer a reimpressão.” 104 Consideração de O. G. Rego de Carvalho sobre a edição da obra Deus e a Natureza em José Coriolano* A seção se chamava “De critério” “Por se tratar de assunto piauiense, melhor que eu dirigisse a carta a um dos jornais de Teresina, não fosse o comprometimento deles a favor ou contra o Governo do Estado. Daí por que tomo a liberdade de escrever ao JB, até porque o faço na defesa de princípios consagrados na legislação brasileira. A recente lei dos direitos do autor, na definição dos direitos morais, obriga o editor a fazer constar da obra o nome, pseudônimo ou sinal convencional do autor, e o título do trabalho sem qualquer alteração. Pois o Governo do Piauí, no intuito de divulgar livros de autores falecidos (O que é louvável), confiou a tarefa ao presidente da Academia Piauiense de Letras, prof. A. Tito Filho, e este, sem atentar para aqueles princípios, vem publicando as obras, na editora do Governo, com alteração do título e até do autor. Pasmem os leitores do augusto JB. Cito apenas um caso: J. Coriolano (assim era como assinava, em vida, José Coriolano de Sousa Lima) deixou pronto, para edição póstuma, feita em 1870, um livro de versos – Impressões e Gemidos – ora reeditado numa coleção de monografias (!), com o seguinte título constante de capa, frontispício e de 284 páginas: Deus e a Natureza em José Coriolano, autor A. Tito Filho. De autoria deste, contém o livro uma página dizendo que não foi a intenção dele alterar – e alterou – o nome da obra, uma dedicatória impressa e um glossário. J. Coriolano, o autor falecido, ficou em segundo plano, pois o autor do glossário aparece em todas as páginas como autor do livro. E assim é com vários trabalhos de autores piauienses, reeditados sob os auspícios do Governo do Estado. O. G. Rego de Carvalho – Teresina” *Publicado em primeira página do jornal do Brasil do Rio de Janeiro na edição de 28 e março de 1974, que tinha como diretora presidente a Condessa Pereira Carneiro. 105 Agradecimentos do jornal O Ensaio Filosófico Pernambucano ao poeta J. Coriolano “Agradecemos cordialmente ao Sr. José Coriolano de Souza Lima o nobre apoio, que sempre se dignou prestar ao Ensaio Filosófico. Ainda desta vez o distinto acadêmico, apesar de seu estado valetudinário acordo com a bondade, que nunca o desampara ao nosso reclamo, dando-nos uma de suas mimosas e sentimentais produções poéticas, a qual se encontra neste periódico. Quem sabe quais os sofrimentos físicos por que tem passado e está passando o Sr. José Coriolano, não pode deixar de possuir-se de admiração pelo seu heroico sacrifício ás letras. Em verdade é pena, que a uma inteligência tão robusta falte um corpo são. Com a abertura da Faculdade principiaram os trabalhos do Ensaio Filosóficos.” - Publicado no Jornal O Ensaio Filosófico Pernambucano: Periódico Científico e Literário. “Avante e sempre!” Ano II., Julho de 1859, Nº 4. SOCIEDADE ACADÊMICA ATHENEU PERNAMBUCANO. Presidente Honorário - O Ilmo. Sr. Dr. Joaquim Vilela de Castro Tavares. Presidente Efetivo - O Sr. Fernando Alves de Carvalho. Vice-Presidente -O Sr. Henrique Pereira de Lucena. Comissões especiais: Direito, Ciências Sociais, Filosofia, História/Geografia, Literatura e Poesia. Os Srs. - José Coriolano Souza Lima, Antônio Baptista Gitirana Costa e José Manoel de Freitas. 106 Correspondência dirigida ao jornal O Liberal Pernambucano e publicada na edição do Ano III, Quarta feira, 5 de Julho de 1854. Srs, Redatores, Não tendo o Diário de Pernambuco querido aceitar a correspondência infra, porque nela falo com a franqueza de que sou capaz, contra o mau hábito do seu correspondente de somente narrar fatos que dizem respeito aos seus inimigos e desafetos, e nunca dar penada gente sua, recorro por isso, Srs. Redatores a sua patriótica folha, e espero ser acolhido; devendo a dita correspondência ser publicada do mesmo modo porque foi oferecidaao Diário, Pelo que, Srs. Redatores, lhes ficará eternamente agradecido Seu atencioso leitor e afetuoso criado. Olinda, 1 de julho de 1854. José Coriolano de Souza lima. Se, guiado pelos princípios de honra de e equidade, é pelo amor que consagro ao pequeno torrão em que soltei o meu primeiro vagido, não julgasse de meu mais rigoroso e sagrado dever aparece diante do ilustrado público Pernambucano com a advertência ou reflexão que vou fazer, e que premente exporei, nunca, por certo, Srs. Redatores, meu nome se inscreveria em uma das colunas de seu mui conceituado jornal porque, além de ser totalmente desconhecido desta província, acresce que me faltam habilitações de escrever para o público duas linhas que mereçam, pelo lado científico, ser lidas; mas, como disto não se trata, e nem eu temo censuras, porque a minha questão não é de ciência; e somente tenho de fazer conforme permite minha fraca inteligência, um breve juízo ou reparo, atento-me a pedir a benévola atenção do público. O correspondente do Piauí, existente na Teresina, tem-se-me em suas correspondências, insertas nesta folha, revelado não como devera ser - sincero e justiceiro; - porém desleal, injusto e malédico - no último ponto; servindo-se de suas ditas correspondências como do mais pronto canal, em que derrama toda sua bílis e rancor contra seus inimigos; já querendo (de balde) ofuscar perante as vistas do público o mérito - em todo o Brasil reconhecido - do meu nobre, talentoso e honrado patrício o Sr. Dr. Casimiro José de Moraes Sarmento ;já indispondo o público contra o Rvm. Dr. Luiz Lopes Teixeira, a quem pretende ridicularizar, chamando o padre veneno; já envolvendo no pernicioso véu do esquecimento os inumeráveis e execrandos feitos dos moquecas seus amigos; e já 107 finalmente fazendo a todo o momento reviver essa ideia terrível, e em parte mentirosa, de malvadeza, que se há disseminado contra os Melos do Príncipe Imperial, pelos seus mais encarniçados inimigos. Eu ignoro, Srs. Redatores, quem seja esse correspondente; mas, em todo o caso, não tenho o mais pequeno vislumbre de receio em afirmar - que ele é algum dos mais emperrados saquaremas do Piauí, antagonista decidido do benemérito Sr. Dr. Moraes Sarmento inimigo contumaz e odiento dos meus desgraçados parentes Melos, protetor acérrimo e gostoso dos excomungados moquecas - assassinos monstruosos dos meus infelizes primos e amigos padre Ignácio Ribeiro e Mello e Sebastião Ribeiro e Mello, e de outras muitas desgraçadas vítimas que furão imoladas no altar da perversidade ao sangrento deus de seus cultos, a esse deus que lhes torna as ressequidas entranhas insaciáveis do sangue de seus semelhantes: e a final - algum dos mais gratuitos inimigos do Dr. Luiz Lopes. E no Príncipe Imperial, onde infelizmente moram os réprobos, os excomungados vitandos - assassinos do padre Ignácio, onde tem o padre Luiz Lopes com uma resignação Evangélica; arrostado os mais eminentes perigos onde se lhe tem feito várias emboscadas, de que ele e outros inocentes têm escapado, com o fim de dar-se-lhe o mesmo destino que a seu tio padre Ignácio; onde já o esperarão para o mesmo fim em uma missa, que pretendia celebrar de madrugada, e de que milagrosamente escapou, sendo avisado (note-se bem) por um moqueca ou entidade sua, que ainda se lembrava que existia inferno; onde - até o tem querido envenenar no ato da Consumação do Santo Sacrifício! (donde provavelmente procede o nome de padre veneno com que o correspondente mimosea-o.) e onde finalmente os famigerados - moquecas, Paivas Bezerras, Melos Falcões e emas (refiro-me ao excomungado, sacrílego e simoníaco padre Antônio Ricardo d'Albuquerque Cavalcante, célebre por todos estes atributos que lhe dou e a que tem direito incontestável ) apresentam matéria para folhas e folhas; tanto por serem muito mais malvados que alguns dos Melos, como porque, estando agora dando as cartas no P. Imperial, mercês a política, tem praticado atos criminosos de toda a natureza, não obstante já pesar-lhes sobre as frontes, enegrecidas pelo selo de suas torpes façanhas, uma excomunhão vitanda e a mais indelével nodoa proveniente de muitos homicídios, dos quais ainda se não quiseram purgar, nem destes nos tribunais é nem daquela ás portas do Templo do Senhor! Ora, se os moquecas e sua súcia estão frequentemente a praticar no P. Imperial e em outros pontos da província e do império crimes que repugnam a referir-se; se Joaquim Moreira, um dos apunhala dores do padre Ignácio, dos comedores de seu sangue com doce! (parece incrível! - horrorosa!) é, por miséria, deputado á provincial Piauiense, e o que se acha preso na cidade de Sobral por esforços do incansável Dr. Luiz Lopes que, como procurador da miserável viúva, cujo pobre marido foi espingardeado por esse antropófago, conseguiu metê-lo na cadeia; se mil outros fatos que constantemente se sucedem e reproduzem no P. Imperial mereciam ser comemorados pelo seu correspondente, Srs Redatores, porque, pois, ele, quando trata daquele ponto, olvida-os e somente não despesa de abocanhar a reputação do Dr. Luiz Lopes sacerdote comedido, e de fazer 108 frequentemente menção de 3 pobres Melos que, tendo apenas usado do que entendiam ser direito de represália, - por isso se acham há quase 4 anos sofrendo todas as consequências de uma prisão imunda, segregados da sociedade, onde influíam, ao passo que os matadores de seus sobrinhos, tios, irmãos e pai transitam impunes por todo o município e até pela capital! - não obstante acharem-se marcados pelo ferrete dos mais degradantes delidos, sem encontrarem (tal é a sua estrela!) um caridoso correspondente que lhes conte em boa prosa os memoráveis leitos, assim como eu - em parte e mui superficialmente - o estou agora fazendo em termos próprios de quem nunca lidou com o respeitável público e com os tipos? - Não posso compreender! Não me recordo, Srs. Redatores, já ter lido uma narração qualquer de seu correspondente em que se mencionassem leitos mãos de gente sua; se li - seria porque mente não me lembro; mas digo-lhes com a sinceridade, de que sou capaz, que só no P. Imperial ele achava muita coisa dos moquecas; porém é que ele gosta dos moquecas... alguém dirá: - É porque nada tem a relatar por nada obrarem eles digno de censura. - Não, que depois que aqui cheguei, tenho sabido por meus amigos e pessoas desinteressadas muita novidade que devera antes ser arquivada - que o título de padre veneno ao Dr. Luiz Lopes. Senhores Redatores – Qual será o homem que -; impassível - não pune pelos seus semelhantes, maxime-se, sendo vilipendiados, lhes assiste razão? Qual será o homem que não escreva algumas palavras em prol da inocência a despeito de ver sempre ela triunfar cedo ou tarde? Eu, pois, nada mais faço, do que pugnar pelos meus semelhantes detraídos, e conseguintemente pela inocência, com quanto saiba que seu triunfo - só por si - é infalível. A final, Srs. Redatores, devo concluir a minha mal traçada correspondência, ou como quiserem chamar; mas é-me necessário ainda dizer - que meu intento é tão somente mostrar ao público que o correspondente do Piauí não é justo em suas exposições, com as quais pretende, por sem dúvida, prestar relevantes serviços ao partido de que é membro: que quanto diz relativamente ao P. Imperial é em parte inexato, principalmente se atender que ele fala como cego partidário e quiçá um dos chefes do seu partido ali: que acerca do Dr. Moraes Sarmento quanto diz reverte na mais solta e imprudente temeridade, porque estou inteiramente convencido que não poderá nunca competir com ele em coisa alguma, sendo talvez levado a semelhante arrojo contra tão distinto brasileiro pela inveja que certamente o rala, pois o Dr. Moraes Sarmento não é somente conhecido no pequeno Piauí - o conhecimentoque dele se tem se estende a mais alguma cousa. e por fim, que reconheço alguma razão no Sr. correspondente quando trata do Dr. Luiz Lopes, porque esse sacerdote tem d'algum modo, é verdade que poucas vezes, tal é o cinismo da época, sabido malograr muitos dos tenebrosos planos de seus inimigos ; e mesmo porque diz mui ingenuamente - que daria a própria vida para arredar de poucos membros de sua família alguma mácula que adquirirão, mão grado seu, além de solenemente assegurar aos malvados que não teme ter a sorte do tio ; e de ser incansável em propagar pela 109 imprensa a maldade e barbaria de seus inimigos com todas as suas horrorosas cores. Dignem-se Srs, Redatores, dar publicidade a estas linhas, com o que muito me obrigarão. Elias não são mensageiras de termos ridículos, e nem eu digo injurias contra o correspondente de Ss. Ss.: chamo-o injusto e malédico porque merece: aos matadores do padre Ignácio dou os epítetos que lhes cabem de monstruosos, réprobos e excomungados: ao padre ema chamo excomungado, sacrílego e simoníaco, porque milhões de vezes o merece esse verdadeiro discípulo de Simão Mago, esse homem tão perverso como a perversidade! O Sr. Bispo do Maranhão mandou declarar excomungados a todos os assassinos que compuseram a escolta que roubou a vida e dinheiro do infeliz padre Ignácio; não sabendo porém eu a razão ou por que milagre a excomunhão foi manda, da tirar a vapor, como alguém mui apropriadamente disse, não segundo o rito admitido, porém mediante o Sacramento da penitencia e nada mais! !! E assim mesmo poucos se têm aproveitado dessa mais que benigna caridade do meu Prelado, o qual, não prevenindo a respeito, concorreu para que o muito virtuoso vigário do p. Imperial Antônio Cavalcante de Macedo e Albuquerque se tenha visto em estreitíssimas colisões sem poder expelir da casa do Senhor, em quase todos os domingos e dias festivos, esses excomungados, que não cessão de polui-o com suas presenças; E tudo isto se preveniu perante o Exm. Sr. bispo!.... Permita-se-me perguntar a quem entender da matéria: pode-se consentir que os assassinos de um sacerdote, excomungados ipso facto, comuniquem com os fiéis, ouçam missa e assistam ás mais cerimônias religiosas? - Decida o público. Senhores Redatores, peço-lhes me desculpem por me haver de alguma maneira desviado do meu propósito. Sou com a possível consideração e respeito - de Vs. Ss. atento leitor e servo reverente. José Coriolano de Sousa Lima. Olinda, 28 de junho de 1854 110 Gazetilha Jornal A Constituição: Órgão do Partido Conservador. Belém do Cará. Sábado, 31 de agosto de 1878, Ano V, N. 195. A família Mourão - colega da Boa Nova, publicou hoje o seguinte artigo: Insultos. - O Conselheiro Tito Franco trocou as luvas de pelica, que trouxe da corto, pelo guante de ferro. O alvo predileto de suas verrinas é o redator principal da Boa Nova. Eis as injúrias escritas no Liberal de ontem: ...“Gangrenado é o sangue Mourão, assassina é a família Mourão.” Injúrias desta ordem não podem ter resposta condigna na imprensa, outro devia ser! O meio de desafrontar-nos de tão pungentes insultos... Mas a educação religiosa, que recebemos, aconselha-nos o perdão de tais doestos; e só os reproduzimos para mostrai, ao público o grão de alucinação, a que tocou o Liberal do Pará. Não podemos nem devemos retaliar. A família do Sr. Tito Franco e de seus companheiros de relação nos mereceu sempre muita consideração, pois não tem ela culpa dos desvarios de um ou outro de seus membros. Em nosso periódico nunca consentiremos e as famílias ele nossos adversários sejam atadas ao poste da difamação; como acaba de fazer a gente ao Liberal do Pará com a família Mourão. A ação feia fica com quem a pratica. A família Mourão não é, nem foi assassina. Se alguns membros desta família tão numerosa no Ceará e Piauí cometeram atos de violência, quando nos nossos sertões não se atribuía a justiça, sendo muitas vezes necessário aos ofendidos. O recurso aos meios extraordinários por falta absoluta dos legais, isto não admira e facilmente se compreende. O que é, porém reprovado é que atualmente com o nosso estado social mais adiantado, se mande friamente em dar; cidadãos pacíficos pelo interior da província, com o único fim de deter-se um assento na câmara temporária. Que homens sem letras, no momento da paixão, e quando a força das armas decidia as questões de honra, tenham concorrido para o derramamento de sangue, ainda uma vez não admira. Mas o que espanta é ver bacharéis formados, no estado atual de nossos costumes, 111 capitanearem grupos de desordeiros e mandarem executar dentro dos próprios templos planos sanguinários. A família Mourão não é assassina; é infâmia qualificá-la assim. Se o redator principal da Boa Nova merece vossas injúrias, não vos doa a mão, cumpri vosso fadário; mas insultar-lhe a família para tomar uma vingança mesquinha é procedimento sem nome que nada poderá justificar. Demais, o vosso insulto pesa sobre os que hoje dormem no pó dos sepulcros. Desenterrar os mortos é imitar a ferocidade da hiena. Esta família, a quem insultais conta em Ceará, Piauí e Maranhão muitos membros que militam nas fileiras do partido liberal, e estes ficarão sabendo o que é o partido liberal do Pará. Em Pastos-Bons (província do Maranhão) os cunhados e um irmão do redator principal da Boa Nova são liberais, e pertencem ao sangue gangrenado, a família assassina. - O Dr. José Coriolano de Souza Lima, que foi um dos liberais proeminentes de Piauí, pertencia ao sangue gangrenado a família assassina. O Dr. Manuel Ildefonso de Souza Lima, que foi redator principal da Imprensa (órgão liberal da Teresina), hoje juiz de direito de Saboeiro, pertence ao sangue gangrenado e a família assassina. Os Feitosas do Inhamus (província do Ceará) são todos liberais e estão intimamente ligados ao sangue gangrenado e a família assassina. A família Castello Branco do Piauí, toda liberal, embora em grão mais distante, possui também o sangue gangrenado da família assassina. A família Souza Lima de Príncipe Imperial (província do Piauí) possui em grão muito próximo o sangue gangrenado da família assassina. O Dr. Joaquim Felício do Almeida e Castro, atual candidato á deputação geral pelo partido liberal do Ceará, é da família Feitosa, tem, por conseguinte em suas veias sangue gangrenado e pertence à família assassina. O finado Dr. Nascimento Feitosa, foi festejado chefe do pari ido liberal em Pernambuco, tinha também sangue gangrenado e pertencia à família assassina. O insulto grosseiro do Liberal não atinge somente o redator principal da Boa Nova, mas a muitos dos que trabalharam e ainda trabalham pela vitória da causa liberal. Basta. A imprensa liberal de Maranhão, Piauí e Ceará, certo não fará coro com o Liberal do Para, e reprovará o infame baldão atirado injustamente a uma família numerosa e respeitável. 112 Falais em retaliar. É isto um miserável pretexto. Acusações feitas em geral ao governo não atingem aos indivíduos e ás pessoa? Em nossos artigos não individuamos a ninguém. 113 Um poeta do norte* Poucos dos nossos escritores revelam tão entranhável sentimento ao norte, como o poeta, piauiense Dr. José Coriolano de Souza Lima, infelizmente falecido em 25 de agosto de 1809. São do norte o são caráter, costumes, crenças; tem a expressão, antes direi a alma, daquela região, nas ideias, os assuntos, a vida que ele canta nos seus versos. O inverno ou a seca, o gado, os campos de criação merecem-lhe fieis descrições. Pode dizer-se que no seu livro está perfeitamente desenhado o Piauí, não digo tudo, está fotografada toda a zona sertaneja onde dominaa nossa indústria pastoril. Os costumes sertanejos ainda não tiveram ali tão dedicado desenhista. O poeta sente satisfação em descrever aqueles espetáculos, em entrar na fisiologia daqueles dramas. Desde a faculdade do direito do Recife, em que se graduava de bacharel a 6 de Dezembro do 1859, não manifestou ele outra paixão nas letras. Nos primeiros jornais acadêmicos do seu tempo, Ateneu Pernambucano, Arena, Clarim Literário, Ensaio Filosófico, Revista Acadêmica, seu nome aparece assinando escritos em que é exaltada a vida piauiense. O hábil e ilustrado comprovinciano que lhe prefaciou o livro póstumo - Impressões e Gemidos, o Dr. D. Caldas, escreve: “Nesse ano (1859) formaram-se na faculdade de direito do Recife três moços poetas, que muito se haviam distinguido entre os Seus colegas: José Coriolano de Souza Lima, natural do Piauí; Pedro de Calazans, filho de Sergipe; e Franklin A. de M. Doria, que viu a luz na primogênita de Cabral.” O ilustrado biógrafo exprime uma verdade. Quem escreve as presentes linhas, matriculando-se então no curso de direito, ainda pode alcançar na academia os echos da nomeada dos três talentosos trovistas. Mas como é passageira e como são frágeis e curtos os louros provincianos! José Coriolano foi posteriormente juiz municipal, juiz de direito, membro da assembleia legislativa de sua província, sempre estimado pelos piauienses, como fora na faculdade pelos condiscípulos e até pelos lentes; Falecendo pobre, destino entre nós reservado ao homem de letras e ao magistrado, toda a imprensa da província referiu-se ao seu passamento nos mais honrosos termos. Dois amigos muito distintos, o já mencionado Dr. Caldas e o Dr. M. J. de Freitas, ex-deputado geral, ex- presidente de província, e atualmente juiz de direito no Recife, ao qual 114 foram recentemente concedidas as honras de desembargador, resolveram, em homenagem póstuma ao seu comprovinciano e amigo, contribuir para dilatar a sua honrosa nomeada, este fazendo as despesas da impressão das poesias de José Coriolano, aquele prefaciando o livro - resolução que se não deixou esperar. Apareceu livro em 1870, A impressão é nítida, direi até irrepreensível, o que deixará de parecer exageração, desde que se saiba que foi o livro impresso no Maranhão, sob as vistas de Belarmino de Matos, este benemérito artista, cujo nome a classe tipográfica deverá ter no livro de ouro em que registra as suas glorias. O livro tem 302 páginas em 4ª grande. Traz um ótimo retrato do autor, litografado na imperial litografia de S. A. Sisson. Compõe-se de uma introdução, sessenta poesias líricas. O poemeto sertanejo em três cantos - O touro fusco, e notas. Essa introdução é um miúdo e belo estudo sobre a vida do poeta; as poesias e o poemeto oferecem originalidade e encanto que cativara. Não falta nem aquelas nem a este, o colorido que o sentimento da verdade grava nas produções naturais. Pois bem. Perguntai aos literatos desta capital se conhecem esse livro, e talvez um ou outro, quando muito, por exceção, possa dar notícia dele. Na corte não se pensa no movimento literário das províncias. A nossa corte erudita pôde dividir-se em duas: uma é Lisboa, a outra, que constitua a quase totalidade, ó Paris. Data de pouco tempo a nossa atenção pura a Alemanha e a Inglaterra. As literaturas da América do Norte e da América latina do Pacifico e Rio da Prata são desconhecidas entre nós. O movimento literário do México e Buenos Ayres ninguém o sabe aqui. Ou livros portugueses ou livros franceses - eis os polos em que gira o nosso gosto literário. O número dos que preferem os livros portugueses aos franceses, está hoje muito reduzido. Dentre os nossos literatos, apontam-se os que têm nas livrarias incomoda permanente de qualquer novo livro que saia á lume em Portugal. Desde que se reconheceu: primeiro, que não é racional nem possível manter no Brasil a inculcada pureza da língua, que no próprio Portugal já se não observa; segundo, que Portugal não é um país que ensina, mas pura e simplesmente um país que aprende, como nós aprendemos, da França, Inglaterra e Alemanha; os livros portugueses tiveram a sua baixa e continuam a baixar, não digo entre os leitores (entre estes o velho reino tem, ao menos, em cada filho ausente no Brasil um 115 leitor), digo entre os literatos, ou os poucos a quem verdadeiramente cabe este nome. Assim divididos os homens de letras, cujas vistas vão fixar-se em centros estrangeiros, não é para admirar que se mostrem hóspedes no tocante as letras nas províncias, lei fatal do que não podia eximir-se o valioso livro de José Coriolano. Cumpre, porém, observar que o livro foi mandado para esta corte. Em 1873 vi um exemplar na vidraça de uma das nossas livrarias. Mas passou despercebido. Morreu como tantos outros, sem leitores, sem crítica. Não devia ser este o seu fim, porque é um dos livros maia brasileiros que temos, e, de obras póstumas, ordinariamente frias, não conheço nenhuma que, cora a correção e pureza, mostre mais vivacidade, e tenha mais vibração. O poeta é triste, sentimental, saudoso. Doentio e achacado desde os primeiros tempos, a vida manifestou-se-lhe mais pelo lado dos padecimento do que pelo dos gozos, que a tornam querida dos seus favorecidos. A lágrima em Coriolano ora a expressão da realidade, não a de romantismo mórbido e piegas por escola. Não é menos certo que é a romântica escola em que se filia o escritor. Não havia então outra no Brasil. Magalhães, Porto-Alegre, Gonçalves Dias, ganharam nomeada duradoura com o romantismo. Ha, porém, uma corda que o poeta vibra de preferência, e com grande mestria - a da descrição. - Neste ponto realista por intuição. Não raro, no meio de um verso harmonioso e suave, foge-lhe, pelo sentimento de grafar a verdade, uma palavra, uma frase malsoante, prosaica. Assim, descrevendo o Crateús, conhecida ribeira do Piauí, lugar do seu nascimento, para a qual se sentia atraído por afeto filial que chegava ao extremo, escapa-lhe da pena este verso: “E adeus, terra, onde a alvorada Primeira p’ra mim raiou! Onde a primeira morada Meu pai querido assentou! Onde o galo, à madrugada, Cantando, me despertou! Onde, à primeira alvorada, 116 Ouvi-lhe o có-rócô-cô!” São modelos de descrição as poesias O Catingueiro, Primeiras águas, O velho caçador de onça, Canção do serrano. A flor do bule bule produções sumamente delicada e original: “Os cabelos de Maria À mais leve exalação Se embalançam, Brincam, dançam. Buliçosos eles são, Como a flor do bule-bule, Aos beijos da viração. Quem a visse descansando Sua face sobre a mão Docemente Negligente, Dissera-a etérea visão, Ou a flor do bule-bule, Se não sopra a viração” Às vezes é de sobriedade inexcedível sem deixar do ser completo. Eis como na Primeiras águas descreve a seca e o inverno: “Foge, pavoroso espectro Maça magra e poeirenta, Deixa vir o guapo jovem Que a tudo, meigo, aviventa.” Nas cidades o inverno é tedioso. Nos sertões é a bela estação, o tempo da alegria e fartura. O poeta chama-lhe meigo, porque contrasta com o verão, época da escassez: o verão ali é áspero; e, quando se converte em seca, é a penúria e chega a ser a calamidade, morte. “Em teu ossudo regaço De medonha catadura, Só chilra o grilo, a cigarra, 117 Só há poeira e secura.” São perfeitamente bem cabidos na pena de um poeta piauiense estes versos ar inverno: “O velho tronco lascado, Que tinha a seiva perdido, Sente as fibras se lhe incharem, E brota reverdecido. .......................................... E troveja pra o nascente, E o tempo todo empardece, E a terra inchada verdeja, E o velho tronco enverdece.” Estudando a personalidade literária de Lamartine, escreve Sainte- Beuve estaspalavras: “O que domina, quer na vida, quer nos quadros de Lamartine, é o aspecto verdejante, a brisa vegetal.” G. Sanil, duas horas antes de morrer, vendo junto a si as Sras. Lina Sand é Solange, um sobrinho e o Dr. Fabre, abriu os olhos, e, com voz fraca, mas distinta, disse: “Verdura... deixem verdura!” Penetrando o sentido destas palavras, escrevo o Rappel: “Recordaram-se de que ela não havia gostado de terem posto no túmulo de seus netos cruz e pedra, e compreenderam que aquela que tanto amara e tão bem traduzira a natureza, pedia que deixassem, por único monumento, crescer a vegetação em seu túmulo.” Repetindo a mesma ideia nos verbos enverdecer, verdejar, reverdecer, dever-se-á supor que o poeta piauiense obedece da preferência a uma lei do seu gosto, como evidentemente obedecem os dois eminentes escritores franceses? Não. O verde de Sand e Lamartine, conquanto reflexo da natureza, tem o quer que seja de subjetivo, o exprime em parte um fenômeno fisiológico do poeta que se inspira no aspecto do meio ambiente, ou este poeta esteja na manhã da vida como estava Lamartine, quando Sainte- Beuve lhe aplicou as palavras apontadas, esteja no seu ocidente como estava o grande romancista no momento a que se refere o Rappel. 118 O verde de José Coriolano é uma pintura real; é um fenômeno objetivo. Verde é o nome que se dá ao inverno; era toda a zona do sertão do Norte. Não tem então a natureza ali senão uma cor - a cor verde. Os vastos campos de criação, cobertos de mimoso, gramínea vulgar, não tem outra tinta. Daí vem chamar-se Verde ao inverno, época do leite, da coalhada, dos queijos frescos em abundância. “Vai entrar o verde, estamos no verde, está acabado verde” são expressões triviais no sertão. Na Canção do serrano, a qual mais conviria talvez chamar-se Canção do plantador, quer no fundo, quer no fundo, as ideias do poeta manifestam-se com uma realidade palpitante. “Eia, meus filhos, partamos, Vamos à serra plantar, Vamos as perdas passadas Este ano recuperar: Milho, arroz, feijão, farinha, Teremos tudo a fartar. Esta noite ouvi a porta Muitas vezes estalar; Esta noite a rã esteve Constantemente a raspar... São sinais de bom inverno: Vamos, rapazes, plantar Também reparei que à noite Esteve a relampejar Para as partes do nascente, Toda noite num cortar! É sinal de bom inverno: Vamos, rapazes, plantar. É belo à tona da terra Ver-se o legume brotar; É belo vê-lo ir crescendo, Crescendo até se fechar; É belo em manhã serena Na roça se passear. 119 E quando o milho começa No roçado a pendoar, E depois de pendoado, Principia a bonecrar, E as vberdes, lindas bonecas Começam d’encabelar...” Vê-se que não está aqui o poeta erudito, sim o poeta popular, senhor dos costumes, gostos e vocabulário da multidão, para quem exclusivamente parece escrever. No gênero descritivo, na cor que é o lado excelente do livro, nenhuma das produções de J. Coriolano excede o poemeto O Touro fusco, profundamente sertanejo, concebido com muita originalidade, revelado com singeleza graça. É certo que algumas repetições o prosaísmo se lhe notam, algumas ideias lugares diminuem a simplicidade, que ó o tom gorai do poemeto; mas, notado, representa uma fel cópia do sertão e como inda o temos. Está dividido em três cantos, cada um dos quais se compõe de 17 versos hendecassílabo. O assunto é simplíssimo. Canta-se um touro que venceu todos os que com ele entraram em briga, o qual veio a morrer traiçoeiramente, dando filho um fazendeiro um tiro, por vingar-se da morte de um novilho seu, que touro fusco atravessara com as pontas. Mas, à sombra deste assunto de tão pequeno tomo, o poeta tem ocasião de assinalar, com vivo colorido, a vida Sertaneja, os costumas do criador. Vocabulário, preconceitos, episódios, tudo é sumamente brasileiro, e particularmente nortista. Sofrendo a influência do meio, o sertanejo é dado a proezas dos touros. Sabe-se que muitos bois andam celebrados em lendas e canções populares. Boi Esfúcio, o Rabicho da Geralda, e tantos outros, gozam destas honras. De que se ha do ocupar o espírito do vaqueiro, do criador, que nascem, vivem e morrera lidando com e gado, sua fortuna, sua herança, seu futuro, dote que lhes trouxe a mulher, dote que reserva as suas filhas. No belo Crateús, sertão formoso, Obra sublime do Supremo Artista, Num terreno coberto de mimoso, Está sita a Fazenda Boa Vista”; Do Príncipe Imperial, bravo e rixoso, 120 Vila do Piauí, seis léguas dista; Ai, num massapé torrado e brusco, Nasceu o valoroso “touro-fusco”. Em certo ano do século dezenove, Além de peste e fome assoladora, No pobre Crateús nem se quer chove, A seca é por demais abrasadora. Um aqui jaz faminto – nem se move! Outro ali, ante a Imagem da Senhora, Pede, em pranto banhado, ao bento Filho Chuva, arroz e feijão, farinha e milho. Foi neste ano de peste e de carência Que o fusco neste mundo foi botado; Mas da seca terrível a inclemência A mãe-vaca matou-lhe: ei-lo enjeitado! Porem dele tratou com diligência O bom do criador, com tal cuidado Que, embora magro e feio e cabeludo, Foi crescendo o bezerro barrigudo. Pouco a pouco foi ele endireitando, Já suas finas pontas amolava Na dura ribanceira, onde passando, Uma e outra a seu turno ele enfiava. Já quando algum garrote ouvia urrando, Cavando com a mão também urrava; Te que, alfim, de peloso e barrigudo, Tornou-se um touro belo e cachaçudo. Na poesia Consulta e resposta, o poeta aparece sob outra faca, que não é menos distinta - aparece como advogado, num traço, ou para melhor dizer num relevo encantador. Peço desculpa ao leitor de dar por inteiro a espontânea produção. Bom dia, senhor Doutor! Bom dia, senhor Soares! D’onde vem? “ – Dos pátrios lares, 121 Desse sertão sedutor: Eu venho do Piauí. Trousse cento e tantos queijos Saborosos como os beijos Das mulatas do Poti; Porém, por desgraça minha, Fui ter a certa covinha... Que não direi ser de Caco, Pois Caco já não existe Onde infelizmente assiste, E onde tudo abarca e vende, Sem dar o menor cavaco, Um certo atravessador. Por fim de contas, entende Que, por ser grande senhor, Deve ao credor, bom ou mau, Responder sempre: babau! Vendi-lhe, senhor Doutor, Os queijos por atacado, Só por trezentos mil reis; Venceu-se o prazo marcado, Fui cobrar do comprador, Insultou-me, - nem dez reis! Agora, o que hei de fazer Para os cobres receber? O letrado empavonou-se Na cadeira de balanço, Tossiu, cuspiu, asseou-se, Depois de breve descanso, Riscou estalante fósforo, Acendeu louro charuto, E respondeu sem mais prólogo, Em som grave e estilo arguto: (Soares reprime o fôlego e prega e concentra a vista na boca flórida, antíloqua 122 do grande e Sábio jurista: vai ouvir na voz harmônica a resposta salomônica.) “Senhor soares, o caso Não me parece tão leve, Pois não o li no Parnaso, Nem no afamado Vanguerve: Porém, deixando de parte, Mais perluxas citações, Dir-lhe-ei com engenho e arte, Sem Pandectas sem Lobões, Que presto e presto demande O tal brejeiro e malsim, À casa citá-lo mande Por esperto beleguim, E citar com hora certa; Pois, se ele vir não o encontra: Mergulhará como a lontra Do caçador descoberta.” Mas onde, senhor Doutor, Mergulhará, pois é fama Não há lá rio ou açude? “Aí em qualquer palude, Ou nessa fétida lama Do brejo do tal senhor.” Bom dia, senhor Doutor! “Bom dia senhor Soares! Como vai co’o devedor?” Em róseos, serenos mares! Todos dizem com razão, Com sentimento ou vergonha Não há mais na carantonha De tão velhaco truão. 123 Inda usou de escapatório, Inda tentou mergulhar, Ou quem sabe? – mergulhou...Mas o sujeito é finório: Julgou prudente pagar Os queijos que me comprou. Certificou o meirinho Que ele se havia ocultado Para não vir a audiência; Mas, sabendo de caminho Que já tinha advogado, Concordou co’a consciência. “Agora, já que sou velho, Quero lhe dar um conselho: Quem usa vender fiado, Logrado bem pode ser; Mas se fugir do tratante, Avante, pode vender. Tem o tratante na cara, Cousa rara! Certo quê, Ferrete que o experiente Logo sente, logo vê.” Sim, Doutor, para o futuro Protesto andar mais seguro. Quanto lhe devo, doutor? “Eu não recebo dinheiro por consulta de credor feita contra caloteiro, ou contra mau pagador.” Muito obrigado, Doutor Na fiel pintura dos costumes do norte, José Coriolano excede G. Dias, musa elegante, generalizadora, erudita, e só encontra rival em 124 Juvenal Galeno, sumamente popular, quer na poesia, quer nos ensaios do drama o de romance, gêneros em que devera ter hoje nome tão extenso como o que ganhou na poesia, se as condições do meio onde existe, não fossem tão contrárias ao mais vasto desenvolvimento mental e literário. Franklin Távora** *Pertence a série de biografias que estão sendo publicadas na Nueva Revista de Buenos Aires, Argentina, tomos V a VIII, 1882 -1883. **JOÃO FRANKLIN DA SILVEIRA TÁVORA (Baturité/CE, 13.01.1842 - Rio de Janeiro/RJ, 18.08.1888) Escritor de grande vulto era jornalista, político, advogado, romancista e teatrólogo. Foi autor de O Cabeleira (1876). Suas obras são classificadas em 2 Escolas Literárias: Romantismo e Realismo. Escreveu ainda vários outros livros: Trindade maldita (contos, 1861); Os índios do Jaguaribe (romance, 1862); A casa de palha (romance, 1866); Um casamento no arrabalde (romance, 1869); Um mistério de família (drama, 1862); Três lágrimas (drama, 1870) e outros. (N. do Org.) Publicado no Jornal Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 13 de junho de 1883, nº 164, Ano IX. 125 IMAGENS Imagem de divulgação de sua obra Impressões e Gemidos em jornais do Rio de Janeiro. Sua assinatura. 126 Coriolano imortalizado em litografia confeccionada por S. A. Sisson (Sébastien Auguste Sisson) 127 José Coriolano jovem. 128 José Coriolano e sua sobrinha-esposa Maria Cisalpina, com quem teve 5 filhos. 129 Texto de autoria de Coriolano: “O homem é bom ou mau segundo a educação que recebe” publicado em primeira capa da Revista Ensaio filosófico Pernambucano onde foram veiculadas muito de suas prosas. 130 Manuscrito original do poema ‘Crateús’ em posse na Academia de Letras de Crateús. 131 Urna funerária da Igreja Matriz de Crateús/CE onde se acham os restos mortais de José Coriolano e de sua esposa Maria Cisalpina. Este livro foi composto em High Tower Text, 13 pela Editora Uiclap impresso em papel Avena off-white, 80g/m²², em abril de 2023.