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CORRELACIONAR A FISIOPATOLOGIA DA DOENÇA CELÍACA COM SEUS SINAIS E SINTOMAS EM DIFERENTES FASES DA VIDA: 👉 O glúten advém de proteínas de cereais. O grupo de proteínas (gliadinas e gluteninas) que constituem o glúten do trigo, do centeio, da cevada e da aveia é conhecido como prolaminas. Essas prolaminas contêm aminoácidos (prolina e glutamina) que fazem o glúten ter digestão difícil, consequente à quantidade de oligopeptídeos que chega ao intestino delgado. Assim, a ingestão de alimentos contendo glúten faz com que o corpo detecte a presença de elemento estranho e deflagre uma série de atividades, mais graves (doença celíaca – DC) ou menos graves (sensibilidade ao glúten não celíaca – SGNC), ocasionando sintomas gastrointestinais (GI) ou sistêmicos. Tais sintomas usualmente desaparecem com a adoção de dieta isenta de glúten (DIG). As diferenças existentes entre DC e SGNC se dão tanto em nível molecular como na resposta imune: enquanto a DC deriva de mecanismo deflagrado pela resposta adaptativa do sistema imune, a SGNC estaria mais conectada à ação do sistema imune inato e parece não envolver a função da barreira intestinal. As doenças glúten-relacionadas podem ser classificadas de acordo com o mecanismo patogênico predominante, segundo consenso realizado em Londres. O mecanismo pode ser: 1. Alérgico: alergia ao trigo. 2. Autoimune: doença celíaca (DC). 3. Não alérgico e não autoimune: sensibilidade ao glúten não celíaca (SGNC). A doença celíaca (DC) é uma condição autoimune caracterizada por um perfil sorológico e histológico específico desencadeado pela ingestão de glúten em indivíduos geneticamente predispostos. Glúten é o termo geral para proteínas solúveis em álcool presentes em vários cereais, incluindo trigo, centeio e cevada. A DC é uma doença autoimune única em que seus principais elementos genéticos (antígeno leucocitário humano (HLA)-DQ2 e HLA-DQ8), o autoantígeno envolvido (transglutaminase tecidual (tTG)) e o gatilho ambiental (glúten) estão todos bem definidos. Independentemente de as doenças autoimunes serem devidas a muita ou pouca exposição a microorganismos, é geralmente aceito que a imunidade adaptativa e o desequilíbrio entre as respostas das células T helper 1 e 2 são elementos-chave da patogênese do processo autoimune. Além da predisposição genética e exposição ao glúten, a perda da função da barreira intestinal, uma resposta imune inata pró- inflamatória desencadeada pelo glúten, uma resposta imune adaptativa inadequada e um microbioma intestinal desequilibrado parecem ser os principais "ingredientes" da receita de autoimunidade da DC. GENÉTICA Tal como acontece com qualquer outra doença autoimune, a DC tem um forte componente hereditário, comprovado por sua alta recorrência familiar (10–15%) e pela alta concordância da doença entre gêmeos monozigóticos (75–80%). A DC é uma doença complexa, já que múltiplos fatores ambientais e genéticos influenciam em seu desenvolvimento. Constitui uma afecção com forte característica hereditária e poligênica. Também comum a outras doenças autoimunes é o papel relevante dos heterodímeros HLA classe II, especificamente DQ2 e DQ8, na herdabilidade da DC. A homozigose HLA-DQ2 confere um risco muito maior (25-30%) de desenvolver DC precoce em bebês com um membro da família de primeiro grau afetado pela doença. Uma vez que HLA-DQ2/HLA-DQ8 é frequente entre a população em geral (25-35%) e apenas 3% desses indivíduos compatíveis com HLA desenvolverão DC, não é surpreendente que a associação genômica ampla de estudos identificaram mais de 100 genes não relacionados ao HLA associados à DC. A relação entre a DC e os genes HLA no cromossomo 6p21 (região CELIAC 1) é uma das associações HLA-doença tida como o exemplo mais forte e bem estabelecido até o momento. Glúten como desencadeador ambiental da DC Os grãos contendo glúten são uma adição recente à dieta humana. Além disso, o glúten é uma das poucas proteínas resistentes à digestão consumidas cronicamente em quantidades significativas e é constituído por vários peptídeos imunogênicos não digeríveis. Essas duas características poderiam ajudar na quebra da tolerância a esse antígeno alimentar, quando o sistema imunológico é ativado, como pode acontecer durante uma infecção entérica. As gliadinas, componentes chave do glúten, são proteínas complexas extraordinariamente ricas em prolinas e glutaminas e não são completamente digeríveis pelas enzimas intestinais. O produto final dessa digestão parcial é uma mistura de peptídeos que podem desencadear respostas do hospedeiro (aumento da permeabilidade intestinal e resposta imune inata e adaptativa) que se assemelham muito àquelas instigadas pela exposição a microrganismos potencialmente nocivos. Tráfego de glúten do lúmen para a lâmina própria (paracelular e transcelular) A gliadina pode causar um aumento imediato e transitório na permeabilidade das junções intercelulares das células epiteliais intestinais. Este efeito tem sido associado à liberação de zonulina, uma família de moléculas que aumenta a permeabilidade paracelular causando a desmontagem da junção. A gliadina aumenta a permeabilidade paracelular intestinal dependente de zonulina, independentemente do estado da doença. O envolvimento da via paracelular para o tráfego de glúten na lâmina própria também foi corroborado por estudos genéticos que identificam uma associação de alguns genes de junção com DC. Há evidências sólidas de que o glúten também pode atravessar a barreira intestinal através da via transcelular, uma vez que a tolerância ao glúten tenha sido quebrada. O receptor de transferrina CD71, normalmente expresso no lado basolateral dos enterócitos, é superexpresso no lado luminal do epitélio intestinal em pacientes com DC durante a fase aguda da doença, levando a uma retrotranscitose apical-basal de peptídeos de gliadina complexados com IgA. Essa retrotranscitose de complexos secretores de IgA-gliadina protege os fragmentos de gliadina da degradação lisossômica e promove a entrada de peptídeos de gliadina nocivos na lâmina própria intestinal, perpetuando assim a inflamação intestinal iniciada pela passagem paracelular desses peptídeos. Devido à sua resistência, os peptídeos imunogênicos do glúten (GIP) podem atravessar o revestimento epitelial defeituoso, atingir a corrente sanguínea (prolongando assim o processo inflamatório) e, finalmente, serem excretados com a urina. Patogênese da doença celíaca: Fragmentos de gliadina parcialmente digeridos interagem com o receptor de quimiocina 3 no lado apical do epitélio (1) induzindo uma resposta primária de diferenciação mieloide, liberação de zonulina dependente de 88 (2). A zonulina interage com o epitélio intestinal e desencadeia aumento da permeabilidade intestinal (3). A perda funcional da barreira intestinal facilita a translocação do peptídeo gliadina do lúmen para a lâmina própria (4). Os peptídeos de gliadina desencadeiam a liberação de IL-15, fator de crescimento de queratinócitos e IL-8 (5), com consequente recrutamento de neutrófilos na lâmina própria (6). Simultaneamente, os inibidores de alfa-amilase/tripsina ativam o complexo Toll like receptor 4–MD2–CD14 com subsequente regulação positiva de marcadores de maturação e liberação de citocinas pró-inflamatórias (7). Após a apoptose mediada pelo sistema imunológico inato das células intestinais com liberação subsequente de transglutaminase tecidual intracelular, os peptídeos da gliadina são parcialmente desamidados (8). A gliadina desamidada é reconhecida pelas células apresentadoras de antígeno DQ2/8+ (9) e então apresentada às células T auxiliares (10). As células T auxiliares desencadeiam a ativação e maturação das células B, produzindo anticorpos IgM, IgG e IgA contra a transglutaminase tecidual (11). As células T auxiliares também produzem citocinas pró-inflamatórias (interferon γ e fator de necrose tumoral α) (12), que por sua vez aumentam ainda mais a permeabilidadeintestinal e, juntamente com as células T killer, iniciam a enteropatia. Os enterócitos danificados expressam o transportador CD71 também em seu lado apical, resultando em retrotranscitose de complexos secretores de IgA-gliadina (13), potencializando assim o tráfego de glúten do lúmen intestinal para a lâmina própria. Por fim, a interação das células T CD4+ da lâmina própria com a gliadina induz sua ativação e proliferação, com produção de citocinas pró-inflamatórias, metaloproteases e fator de crescimento de queratinócitos pelas células do estroma, o que induz hiperplasia das criptas e embotamento viloso secundário à morte celular epitelial intestinal induzida por linfócitos intraepiteliais. As criptas hiperplásicas (14) são caracterizadas por uma expansão do compartimento de células progenitoras imaturas (WNT) e regulação negativa da cascata de sinalização Hedgehog. Um número aumentado de células estromais conhecidas por fazerem parte do nicho de células- tronco intestinais e níveis aumentados de antagonistas de proteínas morfogenéticas ósseas, como Gremlin-1 e Gremlin-2, podem contribuir ainda mais para a hiperplasia de cripta presente na doença celíaca. A resposta imune inata A imunidade inata desempenha um papel crítico no início da DC, e as citocinas, como a interleucina (IL)-15 e o interferon α, podem estimular a resposta imune inata ao polarizar as células dendríticas e a função dos linfócitos intraepiteliais. Resultados recentes sugerem que peptídeos de gliadina específicos podem induzir o fator de crescimento epitelial e uma proliferação de enterócitos dependente de IL-15, modificações estruturais, alterações no tráfego vesicular, sinalização e proliferação e estresse/ativação da imunidade inata. Os inibidores de alfa-amilase/tripsina – moléculas que conferem resistência a pragas no trigo – também parecem desempenhar um papel fundamental na resposta imune inata da DC, envolvendo o complexo Toll- like receptor 4–MD2–CD14 com subsequente regulação positiva de marcadores de maturação e liberação de citocinas pró-inflamatórias em células de pacientes com DC. Esses eventos mucosos, juntamente com a quebra funcional da função de barreira epitelial secundária à liberação de zonulina mediada por gliadina, o acesso subsequente de peptídeos tóxicos na lâmina própria e a produção induzida por gliadina de altos níveis de neutrófilos quimiocina ativa e quimioatraente IL-8, causa a 'tempestade perfeita' para iniciar a enteropatia da DC. Ao interagir com o receptor fMet-Leu-Phe 1, a gliadina exerce um efeito quimioatrativo direto de neutrófilos. A resposta imune adaptativa A consequência da resposta imune adaptativa errônea de uma interação altamente específica entre peptídeos de glúten selecionados e células T restritas ao antígeno HLA-DQ2/8 do complexo principal de histocompatibilidade classe II desempenha um papel fundamental na patogênese da DC. Dependente da desamidação pós-traducional dos peptídeos do glúten pela transglutaminase 2 (TG2), essa interação é influenciada pela impressão inicial do sistema imunológico inato por meio da regulação positiva de IL-15 que promove a resposta imune adaptativa das células T CD4+. A apresentação do glúten às células T CD4+, realizada por células dendríticas, macrófagos, células B e até mesmo enterócitos que expressam HLA classe II, pode causar sua recirculação na lâmina própria. O contato das células T CD4+ da lâmina própria com o glúten induz sua ativação e proliferação, com produção de citocinas pró-inflamatórias, metaloproteases e fator de crescimento de queratinócitos pelas células do estroma, o que induz hiperplasia criptal e embotamento viloso secundário à morte celular epitelial intestinal induzida por linfócitos (IELs). Além disso, há uma superexpressão de IL-15 ligada à membrana nos enterócitos na DC ativa, causando superexpressão dos receptores natural killer (NK) CD94 e NKG2D por CD3+ IELs. Foi levantada a hipótese de que a hiperplasia da cripta da DC seja a consequência de um desequilíbrio entre o dano tecidual contínuo devido ao insulto autoimune da mucosa e a incapacidade das células-tronco de compensar. A cripta hiperplásica celíaca é caracterizada por uma expansão do compartimento de células progenitoras imaturas e regulação negativa da cascata de sinalização Hedgehog. Esses dados lançam luz sobre os mecanismos moleculares subjacentes à histopatologia da DC e esclarecem o motivo da falta de enteropatia nos modelos de camundongos para DC. SINAIS E SINOMAS A DC é diagnosticada com mais frequência em mulheres com uma proporção de mulheres para homens variando de 2:1 a 3:1. No entanto, com base na triagem sorológica, a proporção real de mulheres para homens é de 1,5:1. A doença pode ocorrer em qualquer idade, desde a primeira infância até a terceira idade, com dois picos de início – um logo após o desmame com glúten nos primeiros 2 anos de vida, e outro na segunda ou terceira décadas de vida. O diagnóstico de DC pode ser desafiador, pois os sintomas podem variar significativamente de paciente para paciente. A forma intestinal da DC é mais comumente detectada na população pediátrica e em crianças menores de 3 anos e é caracterizada por diarreia, perda de apetite, distensão abdominal e déficit de crescimento. Crianças mais velhas e adultos podem se queixar de diarreia, distensão abdominal, constipação, dor abdominal ou perda de peso. No entanto, em adultos, a síndrome de má absorção com diarreia crônica, perda de peso e astenia significativa é bastante rara. Apesar de sua detecção incomum, esse fenótipo pode causar hospitalização por caquexia, sarcopenia, hipoalbuminemia significativa e anormalidades eletrolíticas. Por outro lado, uma apresentação semelhante à síndrome do intestino irritável (SII) com constipação ou intestino alternado e/ou sintomas semelhantes a dispepsia, como náuseas e às vezes vômitos, é mais frequente. Sintomas extraintestinais são comuns em crianças e adultos. Incluem anemia microcítica por deficiência de ferro, detectável em até 40% dos casos (por causa de má absorção de ferro ou inflamação crônica) ou, mais raramente, anemia macrocítica por deficiência de ácido fólico e/ou vitamina B12 (mais frequente na Europa do que nos EUA). Alterações na densidade mineral óssea, incluindo osteopenia ou osteoporose (afetando cerca de 70% dos pacientes no momento do diagnóstico), estão relacionadas à absorção alterada de cálcio e vitamina D3. Em crianças, o retardo do crescimento e a baixa estatura podem levantar a suspeita de uma DC subjacente. Outros sinais incluem defeitos do esmalte dentário, estomatite aftosa (identificada em cerca de 20% dos pacientes com DC não diagnosticados) e hipertransaminasemia (40-50% dos pacientes não tratados), que pode ser atribuída à translocação de alimentos e antígenos bacterianos atingindo o fígado devido ao aumento da permeabilidade intestinal. Uma ampla gama de sintomas neurológicos, como dor de cabeça, parestesia, neuroinflamação, ansiedade e depressão, pode ser detectada em pacientes com DC. A apresentação clínica também pode incluir alterações na função reprodutiva caracterizadas por menarca tardia, amenorreia, abortos recorrentes, parto prematuro, menopausa precoce e alterações no número e na mobilidade dos espermatozóides. Notavelmente, essas manifestações podem ser revertidas quando os pacientes iniciam uma dieta isenta de glúten (DIG), embora a fadiga e algumas manifestações neurológicas, bem como sintomas gastrointestinais (GI) funcionais, possam persistir por um longo período. A forma subclínica inclui pacientes com sintomas/sinais abaixo do limiar de identificação clínica e muitas vezes são reconhecíveis apenas após a apreciação dos efeitos benéficos. A DC pode estar associada a diferentes doenças autoimunes e idiopáticas, incluindo dermatite herpetiforme (que, como manifestação única, deve levar a testes para DC), diabetes mellitus tipo 1, tireoidite de Hashimoto, deficiência seletivade IgA, alopecia areata, doença de Addison, doenças do tecido conjuntivo (principalmente síndrome de Sjogren), doenças cromossômicas (síndromes de Down, Turner e William), doenças neurológicas (ataxia cerebelar, neuropatia periférica, epilepsia com e sem calcificações occipitais), doenças autoimunes hepáticas (colangite biliar primária, hepatite autoimune, colangite esclerosante primária) , e cardiomiopatia dilatada idiopática. A importância do diagnóstico da DC associada a essas doenças concomitantes é dupla, uma vez que umanista isenta de glúten é capaz de resolver os sintomas, prevenir complicações e melhorar algumas das doenças associadas à DC. A DC refratária (RCD) é caracterizada por sintomas persistentes e atrofia das vilosidades intestinais após pelo menos 12 meses de dieta sem glúten estrita. A RCD pode levar a complicações como jejunoileíte ulcerativa, espru colagenoso e linfoma intestinal. Ciclos da DC A DC desenvolve-se em ciclos: 1. Pode surgir no lactente, relacionando-se com a época do desmame e/ou introdução de cereais na alimentação. 2. Pode regredir parcialmente na adolescência ou se apresentar pela primeira vez nessa fase, com ou sem fator desencadeante. 3. Pode aparecer ou reaparecer na idade adulta, geralmente na terceira ou na quarta década, principalmente durante gestação ou puerpério. 4. Pode surgir na idade adulta ou geriátrica desencadeada ou não por algum fator, como cirurgias, infecções etc. Manifestações digestivas As manifestações digestivas são caracterizadas por dispepsia, náuseas, vômitos, distensão abdominal, flatulência, dor abdominal, diarreia, constipação, abdome escavado ou globoso, aftas, alterações da língua, aumento de ruídos hidroaéreos, peristalse visível, alças intestinais palpáveis e fezes gordurosas. Manifestações extraintestinais • Musculoesqueléticas: artralgia, dor óssea, miopatia proximal, alterações da marcha, artrite, deformidades ósseas, osteomalacia, raquitismo, fraturas. • Gineco-obstétricas: atraso na menarca, amenorreia secundária, aumento no número de abortos, diminuição da fertilidade, menopausa precoce, oligospermia, diminuição dos caracteres sexuais secundários, diminuição do sêmen, hipogonadismo. • Endocrinológicas: baixa estatura, atraso de desenvolvimento sexual, deficiência de vitamina D. • Neuropsiquiátricas: irritabilidade, choro fácil, ansiedade, depressão, tentativa de suicídio, degeneração cérebro-espinhal, neuropatia periférica, ataxia, cefaleia, neuropatia. • Metabólicas: cãibras, diurese noturna, parestesias, tetania. • Hematológicas: anemia, hematomas, sangramento. • Tegumentares: alterações nos cabelos, edema, hematomas, lesões pruriginosas, lesões bolhosas, pigmentação de pele, paquioníquia, rashes. Uma típica lesão cutânea pruriginosa, com bolhas, a dermatite herpetiforme, também está presente em até 10% dos pacientes. ❓ Por que bolhas eritematosa e pruriginosa aparecem? A dermatite herpetiforme ou dermatite de Duhring-Brocq é uma doença bolhosa da pele. Na verdade, não se sabe exatamente o que provoca seu surgimento. O que se observa é uma reação do sistema imunológico contra uma região da pele, o que leva ao surgimento de lesões de origem imunológica, associadas a uma doença intestinal por sensibilidade ao glúten (doença celíaca). A dermatite herpetiforme (DH) é considerada “a doença celíaca da pele”. Pode preceder os sinais e sintomas de DC ou surgir após alguns anos depois do diagnóstico da doença intestinal. Afeta aproximadamente 25% dos pacientes com DC. Ambas as afecções ocorrem em indivíduos de qualquer idade e de ambos os sexos, mas é predominante em homens. Podem ocorrer ambas as doenças em familiares. Todos os pacientes com DH apresentam algum grau de inflamação na mucosa intestinal ou alteração compatível com DC. A fisiopatologia da DH é complexa e ocorre em indivíduos predispostos HLA DQ2 ou DQ8. A imunofluorescência direta é necessária para confirmar o diagnóstico: depósitos granulares de IgA/C3 na derme papilar. A transglutaminase tecidual parece ser o autoantígeno predominante em ambos: intestino e pele. Os marcadores sorológicos usados para detectar DC são os mesmos que ocorrem positivamente na DH. Servem, também, para monitorar o tratamento, como na DC, embora a dieta sem glúten seja acrescida do uso de dapsona nos casos mais graves ou não responsivos somente à DIG. Essa droga melhora as lesões de pele, porém, não interfere no dano intestinal. Assim, a obediência à dieta é fundamental e para toda a vida, como na DC. Lesões orais, alopecia e vitiligo ocorrem mais frequentemente em pacientes com DH do que na população geral. Em contraste, a associação de DC com psoríase parece ser coincidência. O risco em longo prazo é a ocorrência de linfomas T ou B do trato gastrointestinal, em 2% dos casos, principalmente em homens. ENTENDER AS POSSÍVEIS COMPLICAÇÕES DA DOENÇA CELÍACA 👉 Foi amplamente demonstrado que um diagnóstico tardio de DC (após os 50 anos de idade) e/ou não seguir uma dieta sem glúten estrita pode levar a uma mortalidade mais alta em comparação com a da população em geral. Embora raras (cerca de 1% dos pacientes diagnosticados com DC), as complicações da DC incluem hipoesplenismo, DCR, linfoma intestinal, adenocarcinoma do intestino delgado e jejunoileíte ulcerativa. Deve-se suspeitar de complicações em todos os pacientes que, apesar da adesão a dieta isenta de glúten, se queixam de persistência inexplicada ou reexacerbação dos sintomas (ou seja, diarreia, suboclusão intestinal, dor abdominal, perda de peso, febre e astenia grave). Essas complicações ocorrem mais comumente quando o diagnóstico de DC foi estabelecido em pacientes idosos e/ou homozigotos para DQ2 que não observam uma dieta sem glúten estrita HIPOESPLENISMO O hipoesplenismo anatômico ou funcional pode ser identificado em cerca de 30% dos pacientes adultos com DC, com prevalência aumentando até 80% em pacientes com complicações. Em casos de DC, a detecção de um baço de tamanho pequeno na ultrassonografia abdominal deve orientar os médicos a confirmar o hipoesplenismo funcional, avaliando os corpos de Howell-Jolly (em um esfregaço de sangue periférico) ou hemácias sem caroço com microscopia de contraste de fase. A hipofunção esplênica está intimamente associada não apenas ao desenvolvimento de complicações e outras doenças autoimunes associadas à DC, mas também a infecções bacterianas encapsuladas (ou seja, Pneumococcus, Haemophilus influenzae, Meningococcus). Devido ao maior risco de desenvolvimento de infecções (em alguns casos letais ou com sequelas graves) por bactérias encapsuladas, vacinas antipneumocócicas e antimeningocócicas são recomendadas neste subgrupo de pacientes. DOENÇA CELÍACA REFRATÁRIA Esta condição é caracterizada por sintomas de má absorção, perda de peso e diarreia associada a atrofia vilositária persistente após pelo menos 1 ano em dieta sem glúten estrita, confirmada por sorologia negativa para DC. Antes de pensar em DCR, os médicos devem descartar outras causas mais frequentes de sinais e sintomas contínuos de DC. A DC refratária, por sua vez, é subdividida em duas categorias, primária e secundária, dependendo se os pacientes tiveram uma resposta sintomática desde o início da dieta sem glúten ou se tiveram uma recorrência dos sintomas após um período de melhora mais ou menos longo. LINFOMA INTESTINAL A associação entre DC e câncer é conhecida há mais de 50 anos e um diagnóstico tardio de DC expõe os pacientes a um risco aumentado de desenvolver doenças neoplásicas. Nos últimos anos, vários estudos relataram uma incidência crescente de 6 a 9 vezes maior do que a da população em geral para linfoma intestinal de células T não-Hodgkin e, em menor grau, também linfoma de células B. Na maioria dos casos, o desenvolvimento de linfoma intestinal é precedido por doença celíaca restritiva tipo 2, que evolui para doença maligna em 33-52% dos casos dentro de 5 anos a partir do diagnóstico. Mais raramente,o linfoma intestinal pode se desenvolver a partir de doença celíaca restritiva tipo 1, com uma taxa de 14% em 5 anos. O tratamento em casos de linfoma intestinal relacionado à DC envolve quimioterapia, ou seja, altas doses de ifosfamida, epirrubicina e metotrexato de etoposídeo, seguida de transplante autólogo de células-tronco. ADENOCARCINOMA DO INTESTINO DELGADO O adenocarcinoma do intestino delgado é um câncer extremamente raro na população geral (5,7 casos/1.000.000 de pessoas por ano), mas é muito mais comum em pacientes com DC (razão de chances relatada na literatura varia entre 4,3 a 60,0), sendo geralmente detectável no jejuno. Comparado aos linfomas, o adenocarcinoma do intestino delgado é raro, embora cada vez mais detectável na clínica. Atualmente, porém, o diagnóstico desse câncer ocorre em conjunto com a DC. Ao contrário do linfoma intestinal, o adenocarcinoma do intestino delgado não é precedido por doença celíaca refratária e ocorre mais comumente em pacientes do sexo feminino. O início de uma (sub)oclusão intestinal súbita e/ou anemia, particularmente em pacientes com diagnóstico tardio de DC e pacientes que seguem uma dieta sem glúten por um curto período de tempo, são características clínicas sugestivas de um adenocarcinoma subjacente do intestino delgado . Uma avaliação diagnóstica completa é obrigatória e requer uma ampla gama de exames de imagem (por exemplo, enterografia por TC/RM, PET, cápsula endoscópica e enteroscopia). COMPREENDER OS EXAMES LABORATORIAIS E ENDOSCÓPICOS PARA O DIAGNÓSTICO DA DOENÇA CELÍACA 👉 O padrão-ouro para o diagnóstico da DC é representado pela combinação de alterações mucosas detectadas por biópsia duodenal e pela positividade de testes sorológicos (anticorpos anti-tTG, anticorpos anti-endomísio (EmA) e peptídeo gliadina deamidada (DGP)). Anticorpos antigliadina Os anticorpos antigliadina (AGA) são determinados por ensaio imunoenzimático (ELISA) e demonstram moderadas sensibilidade e especificidade. Não são mais rotineiramente recomendados por poderem ser identificados em indivíduos normais, em doenças autoimunes, alergia alimentar, infecções e parasitoses intestinais. O consenso atual é de que anticorpos AGA são mais indicados apenas para crianças até 18 meses de idade. Níveis normais não excluem DC. Mais recentemente, a utilização de kits de antigliadina deamidada em testes sorológicos tem se revelado um novo instrumento na detecção da DC, porém, não se mostra necessariamente melhor do que o anti-tTG. Anticorpos antiendomísio (mais alta acurácia diagnóstica) Anticorpos antiendomísio são anticorpos da classe IgA (EmA IgA) dirigidos contra a camada linear da musculatura lisa dos primatas e correlacionam-se positivamente com a gravidade da lesão da mucosa. São detectados por imunofluorescência indireta em esôfago de macaco ou cordão umbilical humano. O resultado é fornecido como negativo ou positivo, e o título é definido como a mais alta diluição com imunofluorescência presente. O EmA IgA constitui-se um poderoso exame específico para DC e útil não só na detecção de DC ativa como na sua forma silenciosa ou potencial. Estudos encontraram 100% de sensibilidade e 99,3% de especificidade em celíacos brasileiros. É excelente para diagnóstico, monitoração da dieta, rastreamento de familiares de celíacos e detecção de DC como comorbidade em outras doenças autoimunes. Anticorpos antitransglutaminase Os anticorpos antitransglutaminase tecidual (anti-tTG) são detectados por ELISA. A tTG interfere na matriz extracelular e nos mecanismos de reparação tecidual, atuando na gliadina do trigo na DC, como substrato para essas reações. A tTG pode ser o principal, senão o único, autoantígeno endomisial-alvo, reconhecendo gliadinas ricas em glutamina como um de seus substratos. Cada laboratório fornece os valores considerados normais ou alterados, que dependem do kit comercial utilizado. A desvantagem é que pode dar níveis considerados positivos em outras doenças sistêmicas ou gastrointestinais. Em tecidos lesados, não só na DC, os níveis de tTG aumentam. O EmA e a anti-tTG se correlacionam bem, mas nos pacientes com baixos níveis de anticorpos o EmA é superior. Em síntese, os testes sorológicos são úteis: • Para detecção de DC em crianças, adultos ou familiares de celíacos. Também para esclarecimento de formas monossintomáticas. • Na monitoração do tratamento, pois após três meses de dieta sem glúten os anticorpos devem diminuir, mas só vão negativar após 12 a 24 meses, variando de indivíduo a indivíduo. Sua elevação significa não aderência à dieta, que deve ser revista. • Nos pacientes com dúvida diagnóstica em que é feita a provocação com glúten (crianças até 2 anos de idade), os anticorpos AGA se elevam, podendo-se até dispensar novas biópsias. • Para rastreamento na população geral, em estudos epidemiológicos. • No rastreamento de DC em grupos de risco: familiares e portadores de afecções autoimunes. É óbvio que a realização simultânea de vários testes sempre será o ideal para rastreamento dos casos que deverão ser submetidos à biópsia intestinal. O American College of Gastroenterology, em sua guideline, faz as seguintes recomendações sobre a solicitação de testes sorológicos: • Pacientes com sintomas, sinais ou exames laboratoriais sugestivos de má absorção intestinal. • Familiares de paciente previamente diagnosticado como celíaco que apresentem algum sintoma ou sinal ou teste de laboratório sugestivo de DC. • Familiares de primeiro grau, assintomáticos, de indivíduos com diagnóstico confirmado de DC. • Pacientes com elevados níveis de transaminases de causa desconhecida. • Pacientes com diabete melito tipo 1 com ou sem sintomas. Quanto à escolha do teste: • Anti-tTG IgA é o teste preferencial para pacientes acima de 2 anos de idade. • Determinar IgA quando há alta suspeição de DC e anticorpos estão negativos, solicitando testes com IgG. • Se há alta suspeição de DC e os testes sorológicos estão negativos, está indicada a biópsia intestinal. • Todos os testes sorológicos devem ser realizados em indivíduos ingerindo glúten. • Anticorpos antigliadina (AGA IgA e IgG) não são recomendados como primeira escolha. • Para crianças até 2 anos de idade pode-se recomendar anti-tTG combinado com AGA. Detecção de outros autoanticorpos Independentemente do tempo da sintomatologia ou diagnóstico de DC e da aderência ou não à dieta isenta de glúten, preconiza-se a determinação de autoanticorpos, principalmente para doenças gástricas, da tireoide, do fígado e do tecido conectivo, em função da alta prevalência dessas associações com a DC. Exames radiológicos • Trânsito intestinal: cerca de 12% dos celíacos têm esse exame normal, e os com DC grave podem ter apenas discretas alterações, semelhantes às observadas em afecções que cursam com má absorção. Assim, o exame serve para diagnóstico diferencial com outras afecções e para excluir ou detectar a presença de tumores. • Idade óssea: atrasada em relação à idade cronológica pode ser detectada em pacientes pediátricos e adolescentes para avaliar a evolução do tratamento. • Raios X ósseos: podem demonstrar desmineralização com diminuição da densidade, osteoporose, fraturas e pseudofraturas. • Densitometria óssea: determina a densidade mineral óssea, deve ser realizada no momento do diagnóstico, independentemente da idade do paciente. Mostra níveis de osteopenia ou de osteoporose em pacientes celíacos desde a adolescência. É indicada para monitorar a reposição de cálcio e vitamina D. Exames de imagem Enterotomografia ou enterorressonância são indicados principalmente na suspeita de linfomas ou outros tumores. Endoscopia digestiva alta Quando os endoscopistas examinam atentamente a mucosa duodenal, há aumento significativo do número de casos diagnosticados como DC, sugerido pela macroscopia e confirmado pelos achados histológicos nas várias biópsias realizadas. Aspectos sugestivos de DC à endoscopia são perdadas pregas de Kerkring no duodeno descendente, granulosidade, padrão mosaico, pregas mais espessadas e proeminentes, concêntricas e vasos sanguíneos visíveis. Observa-se perda ou redução na proeminência das pregas duodenais em aproximadamente 70% dos celíacos. Lebwohl et al. reforçam o fato de que se forem seguidas as guidelines para biópsias duodenais (1 fragmento do bulbo e pelo menos mais 3 ou 4 da segunda porção), o diagnóstico de DC dobra. • Cromoendoscopia de magnificação: por meio da endoscopia e com o uso de 5 a 10 mL de solução de índigo-carmim a 1% pode-se predizer áreas de atrofia vilositária. Tal visão tem importância para dirigir as biópsias, principalmente quando há áreas de alterações focais (patchy) e revela doença persistente. • Cápsula endoscópica (CE) – wireless capsule endoscopy (WCE): permite determinar melhor as alterações e a extensão nas vilosidades intestinais na DC, reconhecer complicações como ulcerações e, mais importante ainda, excluir tumores, principalmente nos casos de refratariedade ao tratamento. O diagnóstico por esse método chega a ser de 87%. Na DC as indicações para a CE são: • Pacientes com sintomatologia típica ou atípica com dúvida diagnóstica pelos métodos tradicionais. • No estudo e valorização das complicações em pacientes refratários ao tratamento. • No rastreamento de familiares. • No rastreamento de grupos de risco para DC (diabéticos, síndrome de Down, doenças autoimunes, tireoidopatias etc.). • Suspeita de linfoma em celíacos. • Seguimento de pacientes com maior risco de desenvolver linfomas, como nos diagnosticados como celíacos acima de 50 anos de idade. • No diagnóstico diferencial com outras causas de má absorção e processos associados há concordância de 100% entre os achados com a CE e a histologia de fragmentos duodenais obtidos por endoscopia na atrofia vilositária. Análise histopatológica A biópsia do intestino delgado atualmente é realizada durante endoscopia digestiva alta, pois a DC compromete o duodeno e o jejuno proximal, justamente segmentos em que se visualiza a mucosa com os endoscópios e nos quais se pode colher, sob visão direta, fragmentos do bulbo e quantos forem necessários na segunda porção duodenal. O que tem importância é o correto manejo do fragmento para adequada orientação dos cortes e análise acurada do espécime: colocá-lo em papel de filtro embebido ou não em soro fisiológico e com a superfície vilositária para cima, para depois colocá-lo em solução de formalina. Em 1992, Marsh sugeriu um repertório de al- terações na mucosa em relação à DC, advindo da sensibilização dos linfócitos T. Para esse autor, pelo menos quatro padrões distintos, inter-relacionados e sequenciais de alterações da mucosa poderiam ser reconhecidos: infiltrativo, hiperplástico, destrutivo e hipoplásico. • Tipo infiltrativo (Tipo 1): arquitetura mucosa normal na qual o epitélio das vilosidades está marcadamente infiltrado por uma população de pequenos linfócitos não mitóticos glúten- -dependentes (LIE). Tal lesão é encontrada em cerca de 40% dos pacientes portadores de DH não tratada e, aproximadamente, em 10% de familiares de primeiro grau dos pacientes ce- líacos. Habitualmente não se associa a sintomas gastrointestinais ou má absorção. • Tipo hiperplástico (Tipo 2): há semelhança com o tipo 1, mas soma-se alongamento das criptas cujo epitélio, como as vilosidades, também se apresenta infiltrado por pequenos LIE não mi- tóticos. É visto em aproximadamente 20% dos pacientes não tratados de DH e também quando se provoca o desafio com quantidades moderadas de glúten, revelando resposta imune mediada por linfócitos T. • Tipo destrutivo (Tipo 3): lesão “típica” com mu- cosa achatada que preenche os critérios para con- siderá-la como do tipo imunidade mediada por células. Há hiperplasia de criptas e número aumen- tado de LIE. Ocorre em pacientes sintomáticos, mas pode também ser vista em cerca de 40 a 50% dos portadores de DH e em mais ou menos 50% dos familiares de primeiro grau dos celíacos. • Tipo hipoplásico (Tipo 4): esta lesão é descrita nos casos de refratariedade à dieta isenta de glú- ten, nos quais a mucosa apresenta intensa hipo- plasia de criptas, além da redução das vilosidades. Confirmação do diagnóstico da DC: Recomendações, segundo a ACG: • A confirmação do diagnóstico de DC é baseada na combinação de história médica, exame físico e achados endoscópicos e análise histológica de múltiplos fragmentos do duodeno. • Uma a duas biópsias do bulbo duodenal e pelo menos quatro fragmentos do duodeno distal devem ser obtidos. • Infiltração por linfócitos no epitélio intestinal na ausência de atrofia das vilosidades não é específica de DC, e outras causas devem ser pesquisadas. Diagnóstico Diferencial O diagnóstico diferencial, do ponto de vista clínico, é feito, nas crianças, com afecções que cursam com diarreia crônica e má absorção, especialmente fibrose cística, alergia alimentar, desnutrição primária e diarreia persistente. Em virtude da distensão abdominal e nos casos com constipação, o diagnóstico diferencial será feito com o megacólon congênito. Cuidadosa avaliação clínica se faz necessária para saber a época do desmame e da introdução de cereais na alimentação. Infelizmente, o abandono do aleitamento materno e a introdução precoce de alimento industrializado levam crianças de até 3 ou 4 meses de vida a apresentar diarreia e vômitos por DC, gerando dúvidas diagnósticas em relação a outras intolerâncias alimentares bastante comuns nesta faixa etária. Em adolescentes, adultos e idosos, o diagnóstico diferencial é feito com estas e com outras causas de má absorção intestinal, como doença de Whipple, deficiência imunológica comum variável, gastroenterocolopatia eosinofílica, doença de Crohn, síndrome da imunodeficiência adquirida, linfomas. Recentemente, a maior dificuldade reside em diferenciar a DC das outras doenças glúten-relacionadas. Do ponto de vista histológico, a diferenciação se faz com entidades que apresentam encurtamento ou achatamento das vilosidades, a saber: alergia alimentar, enterite aguda (viral, bacteriana, por Giardia lamblia, actínica), enterite crônica (espru tropical, doença de Whipple, imunodeficiências, gastroenterite eosinofílica, linfomas, diarreia persistente, doença enxerto versus hospedeiro) e desnutrição proteico-calórica. Embora essas entidades possam se apresentar com vilosidades diminuídas em altura e mais alargadas, hiperplasia das criptas é observada marcadamente na DC. EXPLICAR O TRATAMENTO DIETÉTICO E ACOMPANHAMENTO A LONGO PRAZO TRATAMENTO O tratamento tem por objetivos: • Eliminar as alterações fisiopatológicas intestinais. • Facilitar e favorecer a absorção dos nutrientes. • Normalizar o trânsito intestinal. • Recuperar o estado nutricional do paciente. • Melhorar a qualidade de vida dos pacientes. O tratamento único é a dieta isenta de glúten para toda a vida. Recomendações, segundo ACG: • Pacientes com DC devem aderir à DIG por toda a vida. Evitar todos os produtos que contenham trigo, centeio e cevada (aveia no Brasil). • Enquanto a aveia pode ser tolerada com segurança pela maioria dos pacientes, sua introdução na dieta deve ser cautelosa, e os pacientes devem ser monitorados de perto para reações adversas. • Pacientes com DC devem ser encaminhados a nutricionista com conhecimento da enfermidade para receber orientação nutricional e educação à DIG. • Pacientes recém-diagnosticados devem ser submetidos a exames e tratamento para deficiências de micronutrientes (principalmente ferro, ácido fólico, vitamina D e vitamina B12). Considerações importantes quanto à DIG: Como a DIG é para toda a vida, deve o médico ter certeza do diagnóstico de DC e ter ciência da necessidade de mudanças intensas no estilo de vida. Os produtos são mais caros e nem sempre confiáveis. Nem sempre há condições de preparo dos alimentos em casa. • 86% dos pacientes deixam de comer fora de casa; • 82% dos pacientesdeixam de viajar; • 67% dos pacientes deixam de visitar família/ amigos; • 41% dos pacientes têm problemas no trabalho/ carreira; • 72% das crianças ficam zangadas pela dieta; • 69% das crianças sentem-se diferentes de seus amigos; • 61% das crianças ficam fora de algumas atividades escolares e festas; • 51% das crianças têm vergonha de levar comida às festas. 👉 A DIG pode ser inadequada quanto à parte nutricional, por não conter fibras e vitaminas do complexo B. A desobediência à DIG ocorre mais frequentemente em restaurantes, festas e funções sociais. Medicamentos Inicialmente, usam-se medicamentos para correção de carências, enfatizando ao paciente e à família que o verdadeiro tratamento da DC é dietético, sem glúten, permanentemente. • Ácido fólico, compostos polivitamínicos, vitamina K, vitamina B12 são utilizados quando necessário; ferro por via oral ou parenteral em casos mais graves. • Enzimas pancreáticas são utilizadas como coadjuvantes em consequência de insuficiência pancreática exócrina, que ocorre em muitos casos. • Antibióticos ou antimicrobianos são usados quando há supercrescimento bacteriano. • Corticosteroides são indicados apenas em insuficiência suprarrenal e necessitam de reposição concomitante de cloreto de sódio por via EV. Observação importante: na DC ativa ou parcialmente tratada, há absorção alterada da maioria dos medicamentos por via oral, o que exige ajustamento das doses de anticonvulsivantes, anticoncepcionais, antitireoidianos e antibióticos. As sete chaves da palavra “celíaca”: • Consulta com nutricionista preparado. • Educação acerca da doença. • Levar a sério a obediência à dieta. • Identificação e tratamento das deficiências nutricionais. • Acesso às Associações de Celíacos. • Contínuo seguimento por equipe multiprofissional. • Atenção por parte dos órgãos governamentais. Acompanhamento para DC em adultos Uma estratégia de acompanhamento bem definida deve ser acordada por médicos e pacientes assim que a DC for diagnosticada. Geralmente, a primeira consulta de acompanhamento é planejada dentro de 6 meses a partir do diagnóstico e, em seguida, a cada 12 a 24 meses (a cada 3 a 6 meses, se ocorrerem complicações) é adequada para confirmar o cumprimento da dieta sem glúten, descartar o aparecimento de doenças autoimunes e distúrbios metabólicos alterações e, mais importante, permitir o diagnóstico precoce de quaisquer complicações. Os pacientes devem passar por uma consulta com um nutricionista e exames de sangue de acompanhamento, incluindo hemograma completo, anti-tTG IgA (ou IgG em caso de deficiência de IgA), hormônio estimulante da tireoide, antitireoideperoxidase, antitireoglobulina, ferritina, folato, vitamina D3, transaminases e um perfil metabólico. O primeiro acompanhamento deve incluir uma triagem de anticorpos antinucleares e autoanticorpos não órgão-específicos, a fim de descartar a presença de marcadores preditivos de doenças autoimunes associadas à DC. Caso o teste de anticorpos antinucleares revele um título alto junto com positividade de anticorpo de antígeno nuclear extraível, essa informação pode ser útil para investigar outros distúrbios autoimunes associados à DC, por exemplo, colangite biliar primária e síndrome de Sjögren. Em adultos, uma varredura de densidade óssea deve ser realizada após 12 a 18 meses de uma dieta sem glúten e repetida regularmente apenas se anormal ou em caso de outras indicações. Indivíduos com osteopenia devem ser tratados com suplementos contendo cálcio e vitamina D, enquanto o possível tratamento com bisfosfonatos deve ser considerado em casos de osteoporose. O aumento do peso corporal pode ocorrer como consequência do consumo excessivo de produtos dietéticos ricos em gorduras vegetais (colza, palma e óleo de coco) comumente presentes na DIG. Portanto, o aconselhamento nutricional é aconselhável para prevenir complicações metabólicas, incluindo a esteatose hepática, durante o acompanhamento. Por outro lado, os pacientes que estão iniciando DSG devem ser testados com um ultrassom abdominal para excluir anormalidade do baço (isto é, hipoesplenismo). Apesar de uma dieta sem glúten estrita, os pacientes com DC podem apresentar sintomas abdominais atribuíveis à SII em 30-50% dos casos; esses sintomas podem responder às recomendações dietéticas (por exemplo, redução da ingestão de fibras insolúveis ou oligossacarídeos fermentáveis, dissacarídeos, monossacarídeos e polióis), bem como à terapia medicamentosa sintomática. Uma dieta sem glúten auto-adaptada, sem o apoio de um nutricionista, pode causar deficiência de vitaminas, que devem ser suplementados, se necessário, principalmente quando os pacientes relatam o aparecimento de astenia. Além disso, a constipação, que pode estar associada a uma DIG, requer tratamento adequado baseado em laxantes não irritantes (por exemplo, osmóticos). Caso ocorra uma complicação relacionada à DC, as visitas de acompanhamento devem ser mais frequentes, ou seja, a cada 3 a 6 meses. Os médicos podem considerar (mesmo que não seja recomendado pelas diretrizes atuais) a realização de uma biópsia duodenal de acompanhamento em adultos para verificar o crescimento das vilosidades em pacientes em dieta sem glúten, tendo em mente que o tempo médio para a reintegração das vilosidades pode levar até 3 anos. Uma segunda biópsia duodenal após dieta sem glúten deve ser recomendada apenas naqueles pacientes com sintomas persistentes e deficiências laboratoriais demonstráveis de micronutrientes. Acompanhamento para DC em crianças Crianças com DC devem ser acompanhadas após 6 meses do diagnóstico e depois anualmente para verificar melhora sintomática, adesão à DIG, qualidade de vida e normalização progressiva dos anticorpos relacionados à DC. Exames laboratoriais e avaliação bioquímica são cruciais nesses pacientes e devem ser adaptados caso a caso. Assim como nos adultos, a tireoidite autoimune deve sempre ser rastreada. O monitoramento da biópsia duodenal é desnecessário após uma dieta sem glúten ter sido instituída. No entanto, se o paciente não apresentar resposta clínica ou resposta parcial à retirada do glúten, uma avaliação cuidadosa deve ser recomendada para descartar a ingestão inadvertida de glúten ou a baixa adesão a uma dieta sem glúten. Além disso, neste subconjunto de pacientes pouco responsivos, uma histopatologia duodenal é aconselhável. Ao contrário dos adultos, as crianças raramente desenvolvem complicações; na verdade, apenas alguns relatos de casos de DC refratária foram relatados. REFERÊNCIAS Sociedade Brasileira de Dermatologia. Dermatite Herpetiforme (Dermatite de Duhring-Brocq). Disponível em:< https://www.sbd.org.br/doencas/dermatite- herpetiforme-dermatite-de-duhring-brocq/ #:~:text=O%20que%20se%20observa%20%C3%A9,ao%20gl%C3%BAten%20( doen%C3%A7a%20cel%C3%ADaca) >. Acesso em: 22 Jun. 2023. ZATERKA, S.; EISIG, J. N. Tratado de gastroenterologia: da graduação à pós- graduação. 2. ed. São Paulo: Atheneu, FBG, 2016. KUMAR, V.; ABBAS, A.; FAUSTO, N. Robbins e Cotran – Patologia – Bases Patológicas das Doenças. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2016. CAIO, G.; VOLTA, U.; SAPONE, A.; LEFFLER, D. A.; et al. Celiac disease: a comprehensive current review. BMC Medicine, v. 17, n. 1, p. 142, dez. 2019.