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ADMINISTRAÇÃO MERCADOLÓGICA Prof. PhD. BETO CAVALLARI Reitor Márcio Mesquita Serva Vice-reitora Profª. Regina Lúcia Ottaiano Losasso Serva Pró-Reitor Acadêmico Prof. José Roberto Marques de Castro Pró-reitora de Pesquisa, Pós-graduação e Ação Comunitária Profª. Drª. Fernanda Mesquita Serva Pró-reitor Administrativo Marco Antonio Teixeira Direção do Núcleo de Educação a Distância Paulo Pardo Coordenadora Pedagógica do Curso Edição de Arte, Diagramação, Design Gráfico B42 Design *Todos os gráficos, tabelas e esquemas são creditados à autoria, salvo quando indicada a referência. Informamos que é de inteira responsabilidade da autoria a emissão de conceitos. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem autorização. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido pela Lei n.º 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal. Universidade de Marília Avenida Hygino Muzzy Filho, 1001 CEP 17.525–902- Marília-SP Imagens, ícones e capa: ©envato, ©pexels, ©pixabay, ©Twenty20 e ©wikimedia G915b Sobrenome, Nome autor Titulo Disciplina [livro eletrônico] / Nome completo autor. - Marília: Unimar, 2020. PDF (XXX p.) : il. color. ISBN XXX-XX-XXXXX-XX-X 1. palavra 2. palavra 3. palavra 4. palavra 5. palavra 6. palavra 7. palavra 8. palavra I. Título. CDD – 610.6952017 2 005 Aula 01: 015 Aula 02: 024 Aula 03: 032 Aula 04: 039 Aula 05: 048 Aula 06: 059 Aula 07: 065 Aula 08: 074 Aula 09: 081 Aula 10: 087 Aula 11: 094 Aula 12: 101 Aula 13: 108 Aula 14: 117 Aula 15: Conceito de Marketing História do Marketing Visões de Mercado Macroambiente de Mercado Pesquisa de Mercado Mercado Consumidor Comportamento de Consumo Tomada de Decisão de Compra Neuromarketing Valor, Satisfação e Fidelidade Segmentação de Mercado Patrimônio da Marca Posicionamento e Concorrência Mix de Marketing Marketing Digital 3 Introdução Estas aulas da disciplina Administração Mercadológica servirão aos estudantes para melhor lidarem com o planejamento estratégico de marketing, na nova economia. Isso significa que as aulas vão progressivamente educando o futuro profissional de marketing para lidar com um mundo em que as pessoas estão constantemente conectadas às plataformas digitais. Nesse sentido, as aulas relacionam teorias e situações práticas que possibilitarão aos estudantes atentos adquirirem conhecimentos que formarão competências e habilidades de administração mercadológica para serem aplicados ao marketing de segmentação tradicional e ao marketing dos meios digitais. Os conhecimentos apresentados durante as aulas vão desde o campo da história do marketing até as ferramentas de marketing digital, possibilitando aos estudantes conhecimento para fazerem um planejamento estratégico de marketing completo que culmine na competitividade, inovação, satisfação dos clientes e crescimento do negócio. Seja uma startup, uma carreira artística ou uma empresa já consolidada, por exemplo. Estão prontos? Então, vamos juntos! 4 01 Conceito de Marketing 5 Os Elementos do Conceito de Marketing A partir de agora, você está convidado a adentrar o excitante universo da administração mercadológica, mais conhecida por seu termo em inglês, marketing. O conceito de marketing pode ser entendido por meio de seis elementos principais. O primeiro elemento são as necessidades, os desejos e as demandas por produtos. O segundo elemento consiste na oferta de produtos, isto é, bens, serviços e ideias. Já o terceiro elemento nos leva à relação entre custo, valor e satisfação das necessidades e desejos do consumidor com os produtos que ofertamos. Dentro da formação de um planejamento estratégico de marketing, qual a importância do estudo destes três primeiros elementos? Eles nos dão um guia inicial sobre o trabalho do profissional de administração mercadológica. Mais especificamente, eles apontam para a necessidade de levantar informação e gerar conhecimentos sobre como os consumidores fazem suas escolhas de consumo para melhor entregar o valor ao cliente. O quarto elemento é a existência de uma troca, pois isso é fundamental para saber se estamos trabalhando no caminho certo em relação aos três primeiros elementos. O quinto elemento nos ajuda a colocar em perspectiva o crescimento do negócio, pois se trata da análise do mercado consumidor. Por fim, como já deve estar claro para você, nada disso é possível sem o cliente ou consumidor, nosso sexto e último elemento. Veremos cada um desses elementos em maior detalhe nesta aula. 6 Necessidade, Desejo e Demanda Philip Kotler, uma das maiores autoridades mundiais de marketing, no livro “Administração de Marketing”, definiu que necessidade tem a ver com aquilo que é indispensável à condição humana. Geralmente ela é causada pelo estado de privação de uma necessidade humana profunda, como, por exemplo, alimentação, hidratação, locomoção e proteção, abrigo entre outras. Desejando ou não, necessitamos tomar água. Os desejos, por sua vez, são vazios causados pela busca de uma satisfação específica com a finalidade de suprir aquelas necessidades humanas. Vejamos uma situação cotidiana: temos necessidade de hidratação do corpo, tomamos água ou desejamos um guaraná de uma marca específica. Por isso que a demanda é baseada tanto no desejo quanto na necessidade por um produto específico. Soma-se a isso, o fato de que a demanda tem a ver com o potencial de compra das pessoas em satisfazerem suas necessidades e desejos. 7 Oferta de Produtos O produto é algo oferecido para satisfazer uma necessidade ou desejo. No meio mercadológico, os produtos também são comumente chamados de recursos ou ofertas. Os produtos, recursos ou ofertas podem ser divididos do seguinte modo: bens, serviços ou ideias. Vamos ver mais de perto a diferença entre eles. Bens é um termo utilizado para se referir aos produtos físicos. A utilidade final de todo bem é prestar um serviço que, por sua vez, tem como finalidade suprir uma necessidade ou um desejo. Em outras palavras, bens são veículos que nos prestam serviços. Vamos refletir um pouco sobre isso! Quais são os serviços prestados pelos bens, ou produtos físicos, televisão, poltrona, carro, fogão, parede e plantas? A resposta vai conectar respectivamente esses bens ao entretenimento, relaxamento, preparação de comida, transporte, proteção e espiritualidade. Perceberam a relação entre bem e serviço? Os serviços também são veículos para suprir uma necessidade ou um desejo, porém, prestados não por um bem físico, mas por outras entidades, como pessoas, lugares, atividades, organizações e ideias. Nesse último caso, campanhas de marketing contra a obesidade ou contra o tabagismo, por exemplo, vendem a ideia, o produto, de uma vida saudável e de bem estar pessoal. Custo, Valor e Satisfação Vimos que necessidades, desejos, demandas e ofertas de produtos são elementos essenciais para o entendimento conceitual da prática de administração mercadológica. Todavia, em um cenário cada vez mais competitivo, como sabemos se estamos satisfazendo o cliente com os nossos produtos? Eis aí o nosso terceiro elemento: a relação entre custo, valor e satisfação. 8 A resposta para a pergunta acima é simples. Sabemos se estamos satisfazendo o cliente por meio do conceito de valor. Explico melhor. Valor está relacionado a uma estimativa, impressão ou julgamento por parte do consumidor em relação à capacidade do produto em satisfazer as suas necessidades e desejos. Em outras palavras, o valor de um produto está na mente do consumidor, isto é, no modo como ele percebe os benefícios de um bem, serviço ou ideia em contraposição aos seus custos tangíveis e intangíveis (Veremos mais sobre satisfação e valor na aula 10). Fonte: Revista Mundo do Marketing / Disponível aqui A pesquisa de mercado é o principal instrumento utilizado pelos profissionais de marketing quando estão interessados em saber mais sobre a satisfação dos seus clientes por meio da entrega de valor (Veremos mais sobrepesquisa nas aulas 5 e 9). Nesse sentido, a experiência de comprar roupas tem sido modificada com os e-commerce de moda. Estávamos acostumados a experimentar fisicamente as peças antes de adquiri-las, escolhendo as roupas que nos satisfizesse. Como saber acerca da satisfação dos clientes que passaram a fazer suas compras de vestuário on-line? Vejam a matéria “Pesquisa mostra perfil de quem compra vestuário em e- commerce de moda”. Ela mostra que 68% dos consumidores que preferem o e-commerce de suas marcas preferidas estão satisfeitos. 9 https://www.mundodomarketing.com.br/reportagens/pesquisa/38279/pesquisa-mostra-perfil-de-quem-compra-vestuario-em-e-commerce-de-moda.html Troca e Transação “O marketing se realiza apenas quando as pessoas buscam satisfazer necessidades e desejos por meio de troca” (Kotler, 2012, p. 27). Pois bem, em uma comunidade alternativa, em que se autoproduzem os produtos para a subsistência, precisamos de marketing? Se um bando de bullies obriga uma pessoa a comprar um determinado produto sob uma determinada condição, fazemos marketing? Se um desafortunado pede moedas no semáforo, existe marketing? Existem atos que satisfazem necessidades e desejos, porém, estão longe de significarem uma troca no sentido mercadológico. Assim, troca, como conceito de marketing, é quando se obtém um produto de um lado, e se oferece algo em contrapartida do outro lado. Quando uma troca se realiza, ocorre o que se chama de transação. Nesse caso, a troca também pode ser entendida como um processo de criação de valor, isso porque uma transação vai se realizar apenas quando as partes perceberem o valor e a satisfação mútuos, isto é, daquilo que o outro lhe ofertou. 10 Mercado Consumidor O mercado consumidor pode ser caracterizado pela junção de um grupo de pessoas que compartilham as mesmas necessidades e desejos ao mesmo tempo em que há a possibilidade, a potencialidade, para a realização de uma troca para satisfazerem suas necessidades e desejos. Isso quer dizer que ao longo das décadas, acompanhando a complexidade do mundo dos negócios, mercados diferentes foram surgindo e classificados. Kotler (2015, p. 173) menciona pelo menos cinco mercados econômicos: mercados produtores, mercados de recursos, mercados governamentais, mercados intermediários e mercados consumidores. O termo “mercado” também é utilizado para cobrir vários grupos de consumidores: mercados de necessidades, mercados de produtos, mercados demográficos e mercados geográficos. Esses mercados se conectam ao planejamento estratégico de marketing de segmentação (veremos mais sobre o esforço de marketing em lidar com vários grupos de consumidores na aula 11). Há ainda os não consumidores, associados, por exemplo, ao mercado de eleitores, mercado de trabalho e mercado de doadores. Em comum com os demais, há uma troca. Nesse caso, esses mercados trocam bens, recursos, dinheiro, impostos e serviços. 11 Fonte: Pexels. A multidão ou cada Pessoa dentro da Multidão? Com a Coca-Cola, surge primeiro um produto, depois um conceito, então um símbolo. Em cada fase de sua história, novos fatos relevantes forçaram decisões em níveis diferentes. Com a Coca-Cola, foi inventado o marketing de massa. Quem veio depois e chegou a incomodá-la – a Pepsi –, teve de ser muito original para inventar sua própria linguagem. A Pepsi tornou mais sofisticado o universo dos soft drinks: introduziu com sucesso a tal segmentação de mercado, primeiro rudimentarmente por meio do preço - e aí já mexeu pela primeira vez com a escala normal das coisas no mundo dos refrigerantes –, depois foi mais fundo e segmentou em outros níveis: comportamento, estilos de vida. 12 Fonte: Clemente Nóbrega, Em busca da empresa quântica, p. 49-50, 1999. Isso só foi possível por que a sociedade pós-Segunda Guerra Mundial, quando a Pepsi decolou realmente, era muito mais sofisticada e rica em nuances do que a do início do século XX, na qual a Coca-Cola estabelecerá sua maneira básica de atuar. Era uma sociedade mais complexa. A história dos negócios tem lições que ajudam a entender o que está ocorrendo hoje. O padrão é como o de sempre: o movimento do simples para o complexo. Isso ocorreu com a Coca-Cola e com a Ford. Cliente ou Consumidor Se podemos conceituar marketing como uma atividade humana que objetiva satisfazer necessidades e desejos para cumprir com a finalidade de crescimento do negócio e/ou lucro, do outro lado da troca encontra-se o cliente ou consumidor. Sem ele, não há o que administrar, do ponto de vista mercadológico. Sem ele, não há marketing. Por isso, nas próximas aulas, veremos como o marketing reúne uma série de atividades coordenadas para satisfazer o cliente ou consumidor e gerar crescimento e/ou lucro ao negócio. 13 Figura 1 - Peter Drucker Fonte: Wikipédia. Quem foi que disse a seguinte frase: "Porque o objetivo da empresa é criar um cliente, a empresa possui duas e apenas duas funções básicas: marketing e inovação. Marketing e inovação produzem resultados, todo o resto são custos. Marketing é a única função distinta do negócio"? O responsável pela frase chama-se Peter Drucker, consultor de negócios americano também conhecido como o pai da administração moderna. 14 02 História do Marketing 15 Os Três Principais Períodos da História do Marketing Nesta aula vamos conhecer sobre a história do marketing. O marketing surgiu na virada para o século XX e foi decorrência de duas das principais qualidades da sociedade americana, a saber, a possibilidade de escolher e a de comprar. Para nos guiar neste percurso, vamos apresentar essa história conforme ela foi contada pelo professor de história dos negócios, Richard Tedlow, no livro “The Story of Mass Marketing in America” (A estória do marketing de massa na América) (1996). Foi Richard Tedlow quem definiu a história do marketing como sendo marcada por três períodos principais, isto é, três evoluções no mercado americano: o mercado doméstico fragmentado, o mercado global de massa e o mercado de segmentação. Veremos cada uma dessas evoluções em maior detalhe nesta aula. Mercado Doméstico Fragmentado Até antes da virada para o século XX, o cenário comercial nos Estados Unidos era marcado por mercados fragmentados. Isso estava associado à própria condição de infraestrutura do país. Mais especificamente, os meios de transporte e as vias ainda eram precárias bem como os canais de comunicação. No mercado, as vendas de produtos eram praticamente regionalizadas e contava com muitas marcas e muitos mercados indefinidos e inexplorados. Outra característica desse período foram as vendas em baixas quantidades, porém com altas margens de lucro. Existiam poucos aventureiros se lançando ao mercado de massa e não existia propaganda em nível nacional. Até que, na virada do século, começam a surgir as estradas de ferro e o telégrafo. O impacto dessas evoluções científicas e tecnológicas teve como efeito mais amplo a possibilidade de unir o país. 16 Esse espírito dos avanços tecnológicos foi capturado pelos homens de negócios, que justamente viram as mudanças no cenário americano no processo de unificação do país como a mola propulsora para a criação de mercados de massa. Mercado Global de Massa Nesse período, começam a surgir as primeiras empresas nacionais capazes de definir e explorar mercadologicamente diferentes possibilidades de vendas de costa a costa dos Estados Unidos. Isto significou que o país inteiro passava a ser definido como um único e grande mercado. O próprio mercado estava mudando. De diversos produtos para diversos mercados inexplorados, a administração mercadológica se volta para um mercado dominado por poucos, porém grandes empresas produtoras. Com isso, os mercados passam a ser cada vez mais explorados, e de maneira diferente. Ao invés de baixas quantidades de vendas, com altas margens, as empresas, cada vez maiores, lançavam mão da economia de produção em escala com margens de lucro individual menores. Mercado de Segmentação Diante de mercados cadavez mais dominados e, consequentemente, competitivos, o marketing entra em um novo período, conhecido como marketing de segmentação. Já adianto que este é um jogo mais sofisticado de marketing. Uma das principais características do marketing de segmentação é quando os profissionais da administração mercadológica voltam a perceber os mercados como algo menor, como no primeiro período, porém agrupados, conectados, como no segundo. Isso significa planejar e executar ações de marketing voltadas para grupos específicos de consumidores em potenciais, que compartilham necessidades, desejos, gostos e preferências, com a finalidade de explorar mais lucrativamente as oportunidades de mercado. 17 Por isso, a base do marketing de segmentação está nas leituras sutis da natureza humana, justamente para entender quais são as pessoas que compartilham necessidades, desejos, gostos e preferências em comum, para melhor satisfazê-las através da oferta de produtos. Mas é muito mais do que isso. A sutileza está também em entender a natureza humana a partir da mente. Mas isso exploraremos em mais detalhes nas aulas 11 e 13, sobre segmentação, mercado-alvo e posicionamento – o tripé do marketing de segmentação dentro do planejamento estratégico de marketing. Por hora, vamos continuar explorando a história do marketing ao analisar duas disputas históricas de mercado: Ford vs. General Motors e Coca-cola vs. Pepsi. Duas Disputas Históricas de Mercado As disputas de mercado entre Ford vs. General Motors e Coca-cola vs. Pepsi marcaram, cada uma em seu próprio tempo, a efetividade do marketing de segmentação sobre o marketing de massa. A primeira disputa histórica ocorreu na década de 1930 e introduziu o marketing de segmentação na indústria automobilística. Já a segunda disputa ocorreu na década de 1960, e fez o mesmo com a indústria de refrigerantes americana. 18 Fonte: Wikipédia Ford vs. General Motors Figura 1 - Alfred Sloan Figura 2 - Frederick Taylor Figura 3 - Henry Ford No início do século XX, a Ford iniciou sua consolidação de mercado por meio da aplicação da linha de produção nas bases propagadas pelo teórico da administração, Frederick Taylor. O fundador da empresa, Henry Ford, era um ferrenho defensor do taylorismo. Para ele, se a linha de produção possibilitou produzir o mesmo carro – o modelo T – em escala, então era preciso padronizar também o gosto do consumidor. Essa noção de mercado se pautou na premissa de que não se deveria perguntar o que o consumidor quer comprar, mas o que se consegue produzir. O domínio da Ford se prolongou por algumas décadas, até que surgiu Alfred Sloan, o executivo da GM (General Motors). Como Sloan acabou com as premissas do fordismo? Ele o fez ao assumir uma premissa diferente, a saber, produzir um tipo diferente de carro para cada família, de acordo com os agrupamentos por renda e finalidade no uso do veículo. 19 Sloan foi ágil ao perceber que a sociedade americana estava mudando, tornando-se uma sociedade mais complexa e com gostos diferenciados – o modelo T já não satisfazia mais e a noção de segmentação de mercado iria atropelá-lo - desculpem pelo trocadilho!. Para tanto, ele revolucionou a GM para que a empresa fosse orientada a partir do marketing, invertendo o ordem gerencial fordista. Em outras palavras, a noção de atender aos consumidores por segmento obrigou uma mudança no departamento de produção para que este produzisse diversas linhas de carros que fossem ofertados a preços diferentes. Coca-cola vs. Pepsi Na primeira metade do século XX, a Pepsi-Cola era mais uma das empresas que produziam refrigerantes de “cola” e tentavam imitar a Coca-cola, desde o próprio nome até o gosto do produto. Os sucessos da Pepsi no mercado de refrigerantes eram fugazes, isto é, a empresa conseguiu ganhar mercado da Coca-cola fazendo uma batalha de preços, o que reduzia muito as margens de lucro e colocava em risco o crescimento do negócio. Por exemplo, no final da década de 1920 e início de 1930, com a Grande Depressão econômica nos EUA, a Pepsi ofertava o dobro de refrigerante pelo mesmo preço. Diante do cenário de dinheiro escasso no bolso das pessoas devido a falta de empregos provocada pela crise financeira de 1929, a Pepsi conseguiu avançar as duras penas e atrair aqueles consumidores dispostos a aceitar a oferta da empresa. Como era percebido por ser um produto inferior, Tedlow (1998) relata registros de consumidores envergonhados por consumirem a Pepsi. Nesse caso, há relatos de pessoas que, ao receber visitas em suas casas, serviam refrigerantes na garrafa da Coca-cola, porém com o líquido da Pepsi dentro. Um golpe duro na imagem da marca (Veremos mais sobre o patrimônio da marca na aula 12). A mudança para o marketing de segmentação ocorreu apenas décadas mais tarde. A Pepsi abandonou a guerra de preços com a Coca-cola e decidiu segmentar o mercado, focando na geração jovem e revolucionária que emergia na década de 1960 nos 20 Estados Unidos. Eis que surge, então, a consagrada campanha “Pepsi Generation”, cujo ápice foi estrelar, anos mais tarde, um dos maiores símbolos pop americano da segunda metade do século XX, Michael Jackson. Os resultados com o marketing de segmentação catapultou a Pepsi para se tornar uma das maiores fabricantes de bebidas do mundo. 21 Fonte: Wikpédia A cantora pop Beyoncé se apresentando no “Pepsi Hal�ime” durante o Super Bowl XLVII. A Pepsi ainda continua muito focada no marketing de segmentação, comunicando-se com jovens e minorias. Desde 2013, a empresa patrocina o maior evento esportivo do mundo, o Super Bowl, a final do campeonato de futebol americano. O intervalo do evento é chamado de “Pepsi Halftime”, quando, em questão de minutos, é montada uma mega apresentação da banda ou do cantor/cantora do momento no intervalo da partida. Nomes como Michael Jackson, U2, Shakira, Beyoncé, Coldplay e Justin Timberlake já estrelaram por lá. Atualmente, na cultura de “cancelamento” das redes sociais, é possível fazer marketing de segmentação com o foco em minorias sem ofender as pessoas? Vejam a matéria “O papel do Super Bowl na volta 22 Leia mais em: Disponível aqui por cima da Pepsi”. Ela mostra que após protagonizar o “pior comercial de todos os tempos”, em 2017, a marca teve no big game uma plataforma estratégica de recuperação. 23 https://www.meioemensagem.com.br/home/marketing/2020/01/31/o-papel-do-super-bowl-na-volta-por-cima-da-pepsi.html 03 Visões de Mercado 24 A Importância da Visão de Mercado Antes de entrarmos definitivamente nos elementos práticos da administração mercadológica e tratar diretamente das estratégias, táticas e operações de marketing a partir da aula 4, vamos pensar juntos: Qual a importância desse estudo inicial dos elementos conceituais, da história e da própria visão de mercado? A resposta é que esse estudo inicial nos provoca a pensar sobre a perspectiva que temos sobre empreendedorismo, mercado e competição, sobre a direção dos negócios e do comportamento das pessoas, e esses conceitos e informações influenciam nas nossas decisões sobre como realizamos a aplicação dos elementos práticos, isto é, das estratégias, táticas e operações que compõem a administração mercadológica. Analisando as perspectivas dos gestores que, por sua vez influenciam os profissionais que executam a administração de marketing, existem quatro visões de mercado que nos influenciam. São elas: visão de produção, de produto, de venda e de marketing, propriamente dita. Veremos cada uma dessas visões em maior detalhe nesta aula. Estão prontos? Então, vamos juntos! Visão de Produção Na visão de produção, os gestores sustentam principalmente uma preocupação, um foco, na disponibilidade do produto e na sua produção a um baixo custo. Isso significa que o gestor investe os recursos limitados do seu negócio principalmente na eficiência produtiva e na ampla cobertura de distribuição. Este enfoque de mercado ocorre principalmente em duas situações, fazendo com que essa visão se torna a mais importante para onegócio que se encontra nesse contexto. 25 Na primeira situação, o mercado aponta para uma demanda por produtos maior do que a oferta. Isso ocorre geralmente em economias de países em desenvolvimento e do Terceiro mundo, onde os parques industriais e o desenvolvimento de serviços não são pujantes. Quando temos um mercado com essa característica, é compreensível que o consumidor se interesse mais pelo acesso aos bens materiais e serviços e deixe suas exigências de qualidade, gostos e preferências por produtos de lado. Na segunda situação, a empresa está lidando com um produto em desenvolvimento e os custos de produção ainda são altos. Isso justifica um foco maior na produção, pois é preciso fazer os ajustes internos para satisfazer os consumidores no mercado e adquirir escala para expandir esse mercado. 26 Fonte: Wikipédia Protótipo do Google Glass de 2012. O Google Glass, ou Project Glass, é um óculos interativo da Google que teve previsão de lançamento em 2014. Faz parte da tendência de wearables ou tecnologias vestíveis. Na fase de desenvolvimento, a empresa anunciou que o preço estimado do óculos seria de mil e quinhentos dólares. Inclusive, previamente a 2014, algumas pessoas foram selecionadas na pré-venda, pois o produto, mesmo disponível no mercado, ainda estava classificado como "em teste". Os óculos têm comando de voz e é possível tirar fotos, enviar mensagens instantâneas e realizar videoconferências. Após o 27 Fonte: Revista Olhar Digital / Disponível aqui fracasso do Google Glass, a empresa anunciou em 2019 o Enterprise Edition 2, uma nova versão dos óculos, com novas tecnologias e voltada ao mercado corporativo. O Valor de mercado dos óculos foi anunciado por novecentos e noventa e nove dólares. Será que um produto como o Enterprise Edition 2 possui um amplo mercado a ser explorado? Vejam a matéria “Novo Google Glass com cara de óculos normal é apresentada; conheça”. Ela mostra que a nova versão vem com processador Snapdragon XR1 da Qualcomm, câmera aprimorada e suporte ao sistema operacional Android. Visão de Produto Na visão de produto, o gestor parte da crença de que o consumidor favorece o produto que ofereça a melhor qualidade, desempenho ou características inovadoras. É a síndrome do gestor perfeccionista. Todos os esforços e investimentos do negócio são focados nos profissionais envolvidos na criação e desenvolvimento de produtos. Chama atenção que, nesse tipo de visão de mercado, geralmente o gestor cria uma relação de amor com o produto. O perigo iminente dessa visão é que leva o gestor a desenvolver a chamada "miopia em marketing", isto é, a visão deficiente que o induz a focar no produto ao invés de focar na satisfação de necessidades e desejos do consumidor melhor do que a concorrência. 28 https://olhardigital.com.br/noticia/google-anuncia-oculos-de-realidade-aumentada-com-visual-mais-comum/85978 Fonte: Adriano Silva, "Astigmatismo: na era do hedonismo, o marketing ganha interesse pelos motivos errados", Revista Exame, p. 48-50, 03 de Jun. de 1998. Astigmatismo em Marketing A ideia de marketing como mentira, como maquiagem exuberante que atrai para uma armadilha de vendas; ou pelo menos como uma atividade vazia, desprovida de tutano e seriedade, tem imperado no Brasil. Temos a certeza equivocada de que marketing é uma propaganda metida a besta, que trocou a agência pela corporação e as artes-finais pelo crachá eletrônico. Costumamos pensar, ainda, que quanto melhor marketing, maior o hype - palavra do inglês que define a promessa que não se cumpre; o exagero que deliberadamente conquista para depois frustrar. Em bom português: empulhação. Para o marketing, entretanto, a propaganda é apenas o meio mais eficiente de comunicar os benefícios de um produto ou serviço a públicos de interesse. É evidente que ações de comunicação visam sempre ressaltar os pontos positivos e omitir o que não interessa mostrar. Assim funciona a propaganda que almeja, ainda, ser divertida, surpreendente, marcante. Não é assim que funciona o marketing, processo que transcende em muito as ações publicitárias. Enquanto para a propaganda, é suicídio a admissão de pontos fracos (imagine o contrassenso de um anúncio de sabão em pó alertando para o desgaste que ele impinge às roupas ou para a poluição que causa ao meio-ambiente), para o marketing é fundamental o reconhecimento dos desempenhos sofríveis, estejam eles no produto ou na própria empresa. 29 Visão de Venda Na visão de venda, os esforços mercadológicos se reduzem aos esforços de venda, pois o gestor sustenta a visão de que os consumidores não comprarão os seus produtos caso eles não forem persuadidos pelo vendedor. Assim, não basta um negócio bem gerido para oferecer disponibilidade de produtos de qualidade a preços baixos. Muito esforço e investimento deve ser aplicado na equipe de vendas e promoção para atingir as metas do negócio. Geralmente, os gestores cujos negócios estão relacionados a produtos de difícil venda são os mais suscetíveis a desenvolverem e se apegarem a essa visão de mercado. Alguns exemplos de produtos assim são: seguros de vida, serviços funerários e bens que envolvem complexa tomada de decisão de compra, como automóveis (Veremos mais sobre os tipos de comportamento de tomada de decisão de compra, na aula 8) . Nesse caso, há o risco de irritar o potencial cliente com abordagens agressivas demais por parte da equipe de vendas. Outro exemplo, geralmente associado à difícil venda, no campo dos produtos enquanto ideias, são os candidatos políticos. Já testemunhamos a venda das ideias de candidatos, geralmente associadas com a técnica de esconderem seus defeitos. Frustrante quando, além disso, há uma preocupação mínima com o pós-venda. Visão de marketing A visão de mercado é a de marketing propriamente dita. A produção, os produtos e a venda são obviamente necessários para qualquer estratégia e técnica de marketing de sucesso. Porém, enquanto visão, foco principal do negócio, a de marketing deve sempre ser buscada pelos gestores, pois ela é a que traz mais resultados em médio e longo prazos. Na visão de marketing, o gestor acredita que a chave para atingir as metas do negócio consiste, em primeiro lugar, de fazer uma boa análise do macroambiente e fazer o levantamento apropriado das necessidades e desejos dos mercados-alvo. A partir daí, oferecer produtos que satisfaçam os consumidores de modo mais eficaz e eficiente do que os concorrentes. 30 Para tanto, temos um conjunto de elementos práticos da administração mercadológica que nos oferecem ferramentas para lidar diretamente com as estratégias e técnicas de marketing. É justamente esses conjuntos que começaremos a ver a partir da próxima aula, com a análise do macroambiente de mercado. Quem foi que disse a seguinte frase: "Marketing não é sobre sua agência ganhar prêmios. É sobre sua empresa ganhar negócios"? O responsável pela frase chama-se David Meerman Scott, autor do livro "The New Rules of Marketing & PR". Figura 1 - David Meerman Scott Fonte: Wikipédia 31 04 Macroambiente de Mercado 32 Ambientes Externos O ambiente externo da empresa ou dos negócios é formado por quatro fatores: forças macroambientais, mercados consumidores, mercados industriais e concorrentes. Eles dizem respeito aos fatores externos que, ao mesmo tempo em que exercem influência internamente na empresa, são difíceis de serem controlados. Isto é, por serem forças externas, estão aquém da capacidade interna de gerenciamento e, por isso, são praticamente incontroláveis. Nesse caso, a pergunta que devemos fazer é: como os fatores externos da empresa exercem influência internamente? Eles exercem influência em forma de ameaças e oportunidades ao negócio. O profissional de marketing possui papel especial aqui, pois nos equipamos com ferramentas especiais para realizar a análise das ameaças e das oportunidades, ou seja, para coletar informação específica sobre o mercado com o intuito de responder às ações e movimentos sobre os quais temos quase nenhumcontrole. Para tanto, no sentido de nos proteger de ameaças e aproveitar as oportunidades externas, focamos nos fatores internos da empresa sobre os quais temos controle, particularmente as competências centrais que desenvolvemos no negócio. Assim, nessa aula, veremos a função da análise de macroambiente de mercado e os seus ambientes externos como uma importante competência a ser desenvolvida pelos profissionais de marketing. 33 Macroambiente de Negócios Na análise das forças macroambientais, partimos do princípio de que sempre há necessidades não atendidas. Se esse é o caso, portanto devemos analisar o potencial destas necessidades não atendidas em termos de negócio. Por isso que Kotler (2018, p. 12) indica que os profissionais de marketing devem estar atentos às diversas tendências que ocorrem nos mercados, para aproveitá-las na frente dos concorrentes. Nesse caso, alcançamos a competência do olhar para o mercado em perspectiva das tendências por meio do desenvolvimento das habilidades de observar, acompanhar, buscar dados e informações, analisar e interagir com o macroambiente de negócios em seus diversos ambientes, como demográfico, econômico, tecnológico, natural, político e cultural. Ambiente Demográ�co Na análise do ambiente demográfico, o profissional de marketing deve perceber as mudanças de cenários e tendências relativas ao crescimento populacional, faixas- etárias e cortes geracionais, gêneros, níveis de escolaridade, padrões de moradia, mudanças geográficas, mudança de mercado de massa para pequenos mercados entre outros. Vejamos uma comparação entre comportamento e gostos com base em três cortes geracionais: 34 Fonte: Grewal e Levy, "Marketing", 2012, p. 68-69. Baby boomers Geração X Geração Y Coorte geracional de pessoas nascidas depois da Segunda Guerra Mundial, entre 1946 e 1964. Coorte geracional de pessoas nascidas entre 1965 e 1976. Coorte geracional de pessoas nascidas entre 1977 e 1995; o maior coorte desde o baby boom original após a guerra. Diversidade como uma causa Idealista Movimento em massa Conforma-se às regras Trabalhar intensamente Tornam-se instituições TV Têm tecnologia Tarefa-tecnologia Aceita a diversidade Pragmático/cético Autoconfiante/individualista Rejeita as regras Viver intensamente Desconfia das instituições PC Usa tecnologia Multitarefados Crianças que ficam trancadas dentro de casa Celebra a diversidade Otimista/realista Inventivas/individualistas Reescreve as regras Estilo de vida intenso Irrelevância das instituições Internet Incorpora tecnologia Multitarefas rápidas Acalentados Com isso em vista, os profissionais de marketing conseguem maximizar as movimentações desses diferentes públicos em torno de bens, produtos e ideias, conseguindo selecionar seus mercados-alvo e posicionar seus produtos para os cortes geracionais selecionados. 35 Fonte: Grewal e Levy, "Marketing", 2012, p. 67. Gostos e Preferências por Corte Geracional Os consumidores em um corte geracional - um grupo de pessoas da mesma geração - normalmente têm comportamentos de compras similares, porque compartilharam experiências e estão no mesmo estágio da vida. Por exemplo, os baby boomers (pessoas nascidas depois da Segunda Guerra Mundial, 1946-1964) e a geração X (pessoas nascidas entre 1965 e 1976) gravitam em direção a bens e serviços que promovam um estilo de vida casual; entretanto, eles o fazem por motivos diferentes. Os baby boomers que estão envelhecendo, e que cresceram usando jeans e calças cáqui e introduziram a vestimenta casual no local de trabalho, estão, muitas vezes, tentando manter sua juventude. Em contrapartida, a geração X normalmente usa jeans e calças cáqui porque é menos impressionada pelos símbolos de status aos quais seus pais parecem ter aderido. Ambiente econômico Na análise do ambiente econômico, o profissional de marketing deve perceber as mudanças de cenários e tendências relativas à distribuição de renda, poupança, empréstimo, disponibilidade de crédito. Renda mais distribuída e elevada, atrai os consumidores para certos tipos de produtos, com mais qualidade, por exemplo. 36 Ambiente Natural Na análise do ambiente natural, o profissional de marketing deve perceber as mudanças de cenários e tendências relativas à escassez de matéria-prima, custo de energia, poluição, proteção ambiental e regulamentação governamental. Ambiente Tecnológico Na análise do ambiente tecnológico, o profissional de marketing deve perceber as mudanças de cenários e tendências relativas ao ritmo das mudanças e seus impactos na sociedade, e as oportunidades no e do mundo digital. Para os profissionais de marketing, as ameaças representam mudanças disruptivas no comportamento de compra dos consumidores que afetam a sua empresa ou negócio ao mesmo tempo em que outras mudanças podem caracterizar oportunidades. Ambiente Político e Legal Na análise do ambiente político/legal, o profissional de marketing deve perceber as mudanças de cenários e tendências relativas a legislações que afetam a empresa. Nesse caso, é aconselhável acompanhar e/ou participar de grupos de interesse público, de acordo com as pautas de interesse da empresa ou do negócio. Ambiente Cultural Na análise do ambiente cultural, o profissional de marketing deve perceber as mudanças de cenários e tendências relativas à valorização de culturas, subculturas e o impacto de mudanças culturais no comportamento de compra. 37 Fonte: Revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios / Disponível aqui Em 2017, a empresa Allianz Global Corporate & Speciality fez um estudo com mais de 4 mil empresários de todo o mundo. Ela estava interessada em saber quais são as cinco maiores ameaças para as empresas. De acordo com as respostas dos empresários brasileiros na pesquisa, as cinco maiores ameaças aos negócios por aqui são: interrupção de negócios, desenvolvimentos de programas de controle econômico, aumento da deflação, inflação, crimes virtuais, falhas nos sistemas de TI, violação de dados, novas tendências de mercado, crescente concorrência/novos participantes, fusões e aquisições, estagnação e flutuação de mercado e mudanças na legislação. Fica muito claro que todas as ameaças anunciadas acima fazem parte do ambiente externo de mercado. Para a sua empresa, quais dos macroambientes de mercado podem impactar mais diretamente o seu negócio? Vejam a matéria “Quais são as maiores ameaças para empresas brasileiras?”. Ela mostra os fatores que podem levar ao fechamento de um negócio e nos ensina como evitá-los. 38 https://revistapegn.globo.com/Administracao-de-empresas/noticia/2019/09/quais-sao-maiores-ameacas-para-empresas-brasileiras.html 05 Pesquisa de Mercado 39 Público-alvo, Objetivos e Problema de Pesquisa As pesquisas de mercado têm como objetivo principal coletar e analisar informações para interpretar desempenhos passados visando o planejamento presente de atividades futuras. O primeiro passo é definirmos o público-alvo da pesquisa, ou seja, quem são as pessoas ou grupos de pessoas passíveis de serem abordadas com as nossas dúvidas e perguntas. Isso implica definirmos sobre variáveis geográficas, demográficas e psicográficas. Já no caso dos objetivos específicos, estes são os mais variados, como, por exemplo, conhecer melhor o comportamento do consumidor, identificar oportunidades de mercado, avaliar campanhas publicitárias, testar preferências por produtos, acompanhar movimentos da concorrência entre outros. Por isso as pesquisas de mercado geralmente partem de um problema, tais como a mudança no comportamento do consumidor, a necessidade de abrir novos mercados e o lançamento de um produto substituto concorrente. Assim, nesta aula veremos os tipos de pesquisa de mercado e a elaboração de uma boa pesquisa como uma importante competência a ser desenvolvida pelos profissionais de marketing. 40 Tipos de Pesquisa de Mercado As grandes empresas geralmente fazem pesquisas por meio da contratação de agências especializadas ou por meio dos seus próprios departamentos de marketing.Há também institutos especializados em pesquisa de mercado, que coletam, analisam, interpretam e vendem as informações comerciais para as empresas, como o caso da Nielsen. Já as pequenas empresas, muitas vezes sem capital para investir em contratação de agências especializadas, contam com a ajuda dos colaboradores, a participação voluntária dos clientes, visitas aos concorrentes - comprador "misterioso", parcerias com universidades - envolvendo professores e estudantes - e consultas pela internet. O que as une é que suas pesquisas serão geralmente do tipo exploratória, descritiva ou experimental. A pesquisa exploratória funciona muito bem como uma pré-pesquisa, quando o profissional de marketing não está certo de que o problema da pesquisa é realmente um problema que mereça os investimentos de uma pesquisa de mercado. Assim, parte-se para uma análise investigativo sobre a validade da pesquisa de mercado que se pretende fazer. 41 A pesquisa descritiva é conclusiva, isto é, ela busca analisar, classificar, interpretar e, por fim, descrever uma solução para o problema da pesquisa de mercado por meio da aplicação de questionários, grupo de foco entre outros. A pesquisa experimental pretende descobrir relações de causa e efeito no mercado, isto é, ela busca experimentar certos bens, serviços e ideias e analisar, classificar e interpretar os efeitos nos consumidores, como a satisfação de necessidades, gostos, preferências, conveniência entre outros. Elaboração de uma Pesquisa de Mercado Para coletar, analisar, interpretar e planejar as ações estratégicas de marketing a partir da pesquisa de mercado, é preciso elaborar uma pesquisa de mercado. Nesse caso, podemos dividir essa elaboração em duas etapas principais. Primeira Etapa: Problema e Objetivos da Pesquisa Na primeira etapa, realizamos as fases de definição do problema, das alternativas de decisão e dos objetivos da pesquisa. Mais especificamente, durante a fase de definição do problema, devemos nos atentar para não estabelecer um problema nem muito aberto e nem muito fechado. Por exemplo, para uma empresa de transporte de passageiros interestadual, lidando com a introdução da internet e das novas tecnologias em seus ônibus, um problema muito aberto seria: as necessidades de comunicação dos passageiros de ônibus durante os trechos entre os estados de São Paulo e Minas Gerais estão mudando. Já um problema muito fechado seria: os passageiros nesses trechos estariam dispostos a pagar um valor premium na passagem para ter acesso ao serviço de internet wi-fi no ônibus. A próxima fase passa a ser as alternativas de decisão. Isso leva o profissional de marketing a realizar pesquisas internas prévias antes da pesquisa com o consumidor. 42 Voltando ao nosso exemplo, as alternativas de decisão em jogo são: Quem iria oferecer o serviço de conexão? Qual o custo desse serviço para a empresa? Quais ônibus teriam o serviço? Leito, semileito, normal etc. A partir da coleta, análise e interpretação da pesquisa interna, temos uma ideia mais bem definida da pesquisa de mercado com o consumidor: Quais passageiros comprariam o serviço de internet a bordo pelo valor de X reais? Os objetivos da pesquisa são definidos a partir do problema e das alternativas de decisão. No caso, uma vez resolvido o estabelecimento do problema de pesquisa, nosso objetivo é oferecer um serviço de comunicação vantajoso, competitivo e lucrativo para nos diferenciar da concorrência. Mais especificamente, o objetivo da pesquisa exemplo pode ser: saber o valor que os passageiros os trechos entre os estados de São Paulo e Minas Gerais estão dispostos a pagar por serviços adicionais de bordo. 43 Segunda Etapa: Desenvol�mento do Plano de Pesquisa Na segunda etapa de desenvolvimento do plano de pesquisa, definimos as fontes de dados que serão utilizadas. Entre elas, há fontes de dados primários, que são as informações coletadas especificamente para atender aos problemas e aos objetivos de uma determinada pesquisa. Também há as fontes de dados secundários, que são dados que foram coletados para atender a alguma outra finalidade de uma pesquisa particular, porém estão disponíveis para consulta seja por meio impresso ou digital. Vejamos em mais detalhes as coletas de dados primários: Pesquisa por observação: nesse tipo de pesquisa, o campo de ação concentra-se em observar a loja, a rua principal do comércio, o shopping center, os supermercados, enfim, todos são lugares onde o profissional de marketing pode e deve acompanhar o comportamento de compra dos consumidores no mercado. Pesquisa de grupo de foco: nessa pesquisa, o profissional de marketing reúne pessoas em uma sala, com base em fatores demográficos, econômicos, políticos, religiosos entre outras variáveis do macroambiente, para conversar de maneira dirigida - roteiro de conversa - e reflexiva sobre um determinado problema e objetivo de pesquisa. Pesquisa comportamental: cientes de que os clientes deixam informações valiosas em seus comportamentos de compras em vários lugares, o profissional de marketing busca saber as preferências reais in loco dos consumidores, e não as declaradas em questionários ou grupos de foco. Pesquisa experimental: a partir de ações de marketing, essa pesquisa possibilita ao profissional de marketing interferir diretamente no mercado para coletar dados conforme a reação de causa e efeito em relação ao plano de marketing experimentado. 44 Instrumento da Pesquisa de Mercado: Questionário Entre os principais instrumentos para realizarmos uma pesquisa de mercado está o questionário. Nesse caso, devemos saber como funciona as diferentes perguntas, sua elaboração, interação e possibilidades de respostas. 45 Redação das Perguntas e das Alternativas de Respostas A redação precisa ser clara, simples e objetiva. Elabore perguntas curtas, de fácil entendimento. Forneça instruções para os entrevistados. Selecione perguntas que evitem distorções. Tome cuidado com respostas óbvias e induzidas a partir de questões abrangentes: “O(A) Sr(a). faz compras em lojas como a nossa?”. Considere as habilidades dos entrevistados em responder às perguntas: “Quantos filmes o(a) Sr(a) alugou nos últimos 12 meses?”. Nesse caso, limite perguntas a um passado próximo: “Que quantidade de filmes o(a) Sr(a) aluga por mês?”. Evite termos técnicos e palavras em outros idiomas. • Não obrigue o entrevistado a fazer cálculos. Comece com uma pergunta que capte o interesse. Começar um questionário com perguntas sobre renda ou idade pode ser desastroso. Em caso de perguntas embaraçosas, faça-as na terceira pessoa: “O Sr. acredita que os idosos estão mais conscientes da importância de se fazer exames de próstata?” É sempre melhor perguntar o que o entrevistado faz do que o que ele pensa. Se pretende montar uma empresa de roupas esportivas, é necessário descobrir se os entrevistados praticam algum esporte (ação) e não se gostam de esporte (pois podem gostar e não terem o hábito de praticar). Insira estímulos: quando o interesse do entrevistado estiver diminuindo, pode-se utilizar: “Só restam apenas algumas questões para terminar”. Faça perguntas mais gerais no início e criteriosas no meio do questionário. Deixe para o final possíveis perguntas que possam causar constrangimento no entrevistado. Algumas perguntas embaraçosas, como idade, podem ser minimizadas a partir de uma tabela de graduação (menor que 21; de 21 a 30; de 31 a 40; de 41 a 50; de 51 a 60; Acima de 60). No caso de renda, pode-se seguir os critérios de graduação como no exemplo acima ou de classificação econômica. Algumas empresas utilizam também perguntas relacionadas à região domiciliar para prever a classe econômica dos entrevistados, caso a região seja mais homogênea. 46 Fonte: Gomes, I. M. Como elaborar uma pesquisa de mercado, Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de Minas Gerais, SEBRAE-MG, 2013. Observe a sequência lógica das questões, facilitando a resposta do entrevistado. Nem sempre é preciso dizer aos entrevistados as alternativas de respostaspara não induzi-los. Indique ao entrevistador quais perguntas o relato é necessário. Quando aplicável, ao final de cada pergunta, indique até quantas opções o entrevistador pode marcar como respostas do entrevistado. As perguntas e alternativas de respostas irão variar conforme o meio de aplicação da pesquisa. Deve-se evitar a indução ao elaborá-las quando o próprio entrevistado preenche o questionário, no caso, por exemplo, de pesquisas por mala-direta ou e-mail. 47 06 Mercado Consumidor 48 Mercado Consumidor Ao tratarmos da análise do mercado consumidor dentro do planejamento estratégico de marketing, é importante nos atentarmos para a diferença entre a análise do macroambiente (Ver aula 4) e análise do mercado consumidor, que veremos nessa aula. Por um lado, ambas as análises têm como pressuposto a habilidade de levantar informações sobre pessoas, gerações, regiões, renda, comportamentos entre outros. Por outro lado, na análise do mercado consumidor, analisamos essas informações diretamente em vistas da realização de uma atividade específica. E qual é esta atividade? É a atividade de compra de pessoas, grupos e empresas. Por isso, nessa aula nos perguntamos: O que eles compram? Como eles compram? Como selecionam seus produtos? Como descartam uma compra? Assim, veremos as características do comprador e algumas teorias da motivação humana aplicadas à administração mercadológica. Estão prontos? Então, vamos juntos! Características do Comprador Um dos problemas enfrentados pelos departamentos de marketing nas grandes empresas é a distância do mercado e do comportamento do consumidor: como conhecer o mercado e o comprador se são vastos e não estamos em contato direto com eles? Se essa preocupação tende a ser menor para o pequeno empresário, muitas vezes presente na "linha de frente" e, portanto, em contato direto com o mercado e o consumidor, Kotler (2012, p. 183) nos ensina que há modos de reduzir essa distância para os profissionais de grandes empresas ou empreendedores sem experiência direta com o mercado e o consumidor. Trata-se do modelo do comportamento do consumidor. Nesse modelo, analisam-se dados e informações coletados sobre as características do comprador: culturais, sociais, pessoais e psicológicas. 49 Características Culturais A análise das características culturais do consumidor significa conhecer alguns dos valores fundamentais para as pessoas que consomem em nosso mercado. Nesse caso, há diferenças de comportamento de compra entre, por exemplo, pessoas que adotam uma cultura mais individualista, em comparação com aquelas mais inclinadas a uma cultura colaborativa, ou social. Diferenças de comportamento de compra também marcam pessoas que se consideram conservadoras ou progressistas. Por isso, também devemos analisar as subculturas, isto é, os valores específicos dos consumidores em um determinado mercado. Isso envolve analisar a nacionalidade, a religião, os grupos raciais entre outros e seus impactos no mercado consumidor. 50 Características Sociais A análise das características sociais do consumidor significa conhecer alguns dos grupos de referência que exercem influência sobre uma pessoa. Os grupos que exercem influência mais diretamente sobre o nosso comportamento são denominados grupos de afinidade. Entre eles, podemos dividir entre grupos primários e secundários. Nos grupos primários geralmente estão familiares, amigos, colegas de escola e de trabalho e vizinhos. São pessoas com quem temos uma interação frequente e emocional. Já nos grupos secundários, cujas interações são mais formais, estão membros religiosos e líderes empresariais. Os tipos de influência também variam. Com algumas grupos, podemos ter aspirações de imitar os comportamentos dos seus membros enquanto que com outros grupos, podemos querer nos dissociar de seus comportamentos. 51 Fonte: Pexels Na história da filosofia e da ciência, a questão do individualismo humano já recebeu diversas teorias e interpretações. Uma das vertentes acredita que há características da natureza humana que são comuns a todos nós. A outra, acredita que os seres humanos são únicos, com características únicas, conforme as suas relações com a cultura e a sociedade. Nessa disputa estão o escritor russo Fedor Dostoiévski e o filósofo inglês John Locke, por exemplo. Mais recentemente, o psicólogo evolucionista e professor da Universidade Harvard, Steven Pinker, tratou da influência dos pais na formação da personalidade dos filhos. Para ele, a variação de personalidade está ligada a um fator preponderante, a saber, o acaso. Ele acredita que uma ou outras de nossas experiências, vivências, acidentes, situações, enfim, um ou outro desses acasos, podem influenciar na formação de nossa personalidade mais do que anos de relação com os nossos pais. Qual a sua posição em relação à afirmação polêmica de Steven Pinker? Vejam a matéria “O que faz de você você”. Ela mostra como um caldeirão de influências forma a sua personalidade. Fonte: Revista Super Interessante / Disponível aqui 52 Características Pessoais A análise das características pessoais do consumidor significa conhecer a idade, o estágio do ciclo de vida, os estilos de vida, a situação social e econômica, a atividade profissional e a escolaridade dos consumidores no mercado. Essas variáveis definem necessidades, gostos e preferências dos consumidores. O profissional de marketing deve ser competente para acompanhar de perto essas mudanças e dar respostas mercadológicas quando essas variáveis se alteram, e elas sempre se alterem. Ocupação e Circunstâncias Econômicas Como claramente indicou a recente recessão, a escolha de um produto ou de uma marca é extremamente afetada pelas circunstâncias econômicas: renda disponível (nível, estabilidade e periodicidade), poupança e ativos (incluindo a porcentagem líquida), débitos, capacidade de endividamento e atitude em relação a gastos e economias. Embora fabricantes de artigos de luxo como Gucci, Prada e Burberry sejam vulneráveis a um declínio na economia, alguns deles obtiveram resultados surpreendentes na última crise. Se os indicadores econômicos apontam para uma recessão, os profissionais de marketing podem tomar providências para reformular, reposicionar e revisar os preços de seus produtos, ou então lançar/reforçar a ênfase em marcas de desconto para que possam continuar a oferecer valor aos clientes-alvo. Fonte: Philip Kotler, "Administração de Marketing", 2018, p. 173. 53 https://super.abril.com.br/comportamento/o-que-faz-de-voce-voce/ Teorias sobre a Motivação Humana Três teorias sobre a motivação humana nos ajudam a analisar e compreender as ações das pessoas no mercado consumidor. Veremos alguns detalhes do que Maslow, Freud e Herzberg têm a ensinar à administração mercadológica. Abraham Maslow De acordo com o psicólogo Abraham Maslow (1908 - 1970), as motivações humanas podem ser compreendidas e organizadas de maneira hierárquica. Para ele, vivemos períodos diferentes de necessidades conforme a situação, porém, procuramos satisfazer nossas necessidades mais básicas antes de galgarmos necessidades hierarquicamente superiores. 54 Figura 1 - Pirâmide de Marlow Fonte: Wikipédia Essas necessidades seguem uma sequência hierárquica conforme a sua urgência, sendo a mais urgente as necessidades fisiológicas e as menos urgentes as de autorrealização. Entres os dois extremos, estão as necessidades ligadas à segurança, ao social e à estima, conforme indicado na "Pirâmide de Maslow". Portanto, trata-se de um modelo que explica as ações racionais das pessoas no mercado consumidor. Veremos que nem sempre as pessoas agem assim. 55 Sigmund Freud Com o psicanalista Sigmund Freud (1836 - 1959), os profissionais de marketing aprendem que a hierarquia de Maslow impõe um caráter racional reducionista para o modo como as pessoas consomem em acordo com as suas necessidades. Em outras palavras, o ser humano geralmente tem um comportamento de consumo não hierárquico. Nesse caso, para Freud as motivaçõesreais das pessoas são constituídas no inconsciente. Isso significa dizer que as pessoas tem dificuldade para entender as próprias motivações por inteiro, pois essas necessidades estão envolvidas com emoções reprimidas. 56 Para Freud, a base dos nossos comportamentos irracionais está no fato de que reprimimos emoções durante a infância (como no complexo de Édipo) e elas nunca se esvaziam. O que ocorre é que elas acabam sendo silenciadas no inconsciente e, vez ou outra, emergem em nosso comportamento, inclusive em nosso comportamento de consumo. "Nossa, você não sabe que eu fiz outro dia? Saí pra tomar um sorvete no shopping e acabei comprando duas calças!?" é algo comumente falado nos bate- papos descontraídos entre amigos e familiares. Frederick Herzberg Frederick Herzberg (1923 - 2000) é conhecido entre os profissionais de marketing por sua teoria dos dois fatores. Se, por um lado, existem fatores no mercado consumidor que causam satisfação aos clientes, por outro, também existem fatores que causam insatisfação. Nessa relação, surge a teoria dos dois fatores, pois devemos prestar atenção não apenas àquilo que fazemos comercialmente e que desejamos que sejam percebidos como satisfatórios pelos consumidores, mas também àquilo que são insatisfatores. Nesse caso, fatores como falta de higiene, "pegadinhas" na garantia ou no seguro de um produto, ou um manual de instruções mau feito e difícil de seguir são considerados fatores que causam insatisfação, mas não causam necessariamente satisfação quando atendidos. 57 Por isso os profissionais de marketing devem estar atentos e perceber quais fatores contribuem com as venda e quais fatores, ainda que não contribuam diretamente, pelo menos não atrapalha a relação de troca comercial. 58 07 Comportamento de Consumo 59 Comportamento do Consumidor como Processo Para ser mais bem compreendido, o comportamento do consumidor deve ser visto como um processo. Isso significa ir além do estudo das diversas influências sobre os compradores, ou seja, seu comportamento baseado na influência social, lembram ? (Ver mais sobre o fator social na aula 6) Nesse caso, passamos do foco de atenção do macroambiente e da análise do mercado consumidor para um dos elementos fundamentais à efetivação do planejamento estratégico de marketing: a troca (Ver mais sobre o conceito de marketing na aula 1). Assim, nesta aula veremos o processo pelo qual os consumidores passam quando compram ou quando trocam com o mercado. 60 Processo de Compra O estudo processual de como os consumidores realmente compram deve levar seriamente as seguintes perguntas: Quais são os papéis em um processo de compra? Quem toma as decisões de compra? Quais tipos de decisões são tomadas? Classi�cação dos Papéis no Processo de Compra Quais são os papéis em um processo de compra? Para nomear alguns papéis, podemos citar que em nossas vidas cotidianas cumprimos diversos papéis, entre eles o de marido, esposa, criança, filho adolescente, amigo e parente; jovem universitário, estagiário, gerente, diretor, prestador de serviços, vendedor entre muitos outros. Nesse caso, é importante pensarmos onde cada papel atua, dentro dos seus grupos, para influenciar o comportamento de compra no momento de alguém ou ele/ela próprio/a realizar uma troca. Em outras palavras, vamos classificar alguns papéis: Iniciador: cumpre o papel de iniciador no comportamento de compra a pessoa que sugere a ideia de comprar ou contratar algo; Influenciador: cumpre o papel de influenciador no comportamento de compra a pessoa que influencia o processo de compra com as suas opiniões; Decisor: cumpre o papel de decisor no comportamento de compra a pessoa que toma as decisões relativas à compra, como por exemplo, a qual marca comprar, em qual estabelecimento comprar, com quais condições de pagamento comprar e quando comprar; Comprador: cumpre o papel de comprador no comportamento de compra a pessoa que efetivamente realiza a compra; Usuário: cumpre o papel de usuário no comportamento de compra a pessoa que consome ou usa o produto. Deve estar evidente que uma mesma pessoa pode ser classificada em mais de um papel durante um processo de compra, isto é, a mesma pessoa pode iniciar e decidir uma compra assim como ela também pode ser quem efetivamente realizou a compra. Isso ocorre frequentemente no caso de creme de barbear ou absorvente feminino, em que a compra pode ser feita pela mesma pessoa – como a esposa para o marido – ou podem ser pessoas diferentes, como no caso da compra de brinquedos para crianças. 61 Segundo Kotler, obter controle sobre as informações relativas à classificação dos papéis no processo de compra é importante ao profissional de marketing, pois contribui decisivamente na definição do design do produto, na definição das mensagens publicitárias e das campanhas de propaganda e no modo como se investe em promoções. Testemunho de Emilia Veloso, diretora de marketing do Grupo Ri Happy e PBKids Fonte: Pexels “Em 4 de março [de 2020] a gente montou um comitê de crise muito rapidamente e definiu o propósito de continuar muito próximo dos nossos clientes. E isso significava duas frentes de trabalho: como a gente poderia ajudar os pais a entreter os filhos nesse momento de isolamento e como a gente poderia fazer que nossos consumidores tivessem acesso aos nossos produtos. Desde o ano passado quando a gente começou nosso processo de 62 Fonte: Jessica Oliveira, "Ford, Ri Happy, Dia, L’Oréal e Suvinil falam do novo consumo". Revista PropMark, 08 de Mai. de 2020. transformação digital, então quando tudo isso aconteceu, diferente de algumas empresas, a gente não paralisou. Começamos a atuar de forma muito rápida e conseguimos achar caminhos. Resgatamos uma campanha de 2017 que chama ‘Modo Brincar’ e trouxemos para os nossos consumidores levando conteúdo diariamente pelas redes sociais e sites para as crianças. Aumentamos o conteúdo no canal, criamos outras plataformas de conteúdo, como um canal do Solzinho no Spotify com histórias para os pequenos. Além disso, uma das nossas principais ocasiões de compra na loja são as festas de aniversário e com tudo isso as festas acabaram, mas a comemoração não. Vimos as comemorações digitais e criamos uma plataforma digital na qual o cliente encontra tudo que precisa para fazer uma festa digital, como criar um convite, como organizar, lista de presentes, conteúdos para animar a festa e, ao colocar a data, a criança ganha uma mensagem personalizada de parabéns do Solzinho. Para a outra frente de levar brinquedo nesse período, abrimos alguns canais. Tínhamos o site e a loja. De repente fechamos mais de 280 lojas. Estávamos sofrendo com muita demanda. Dentro do site expandimos a opção de marketplace in, atuamos mais fortemente no marketplace out, também transformamos dezenas de lojas em centros de distribuição para suprir a demanda que aumentou rapidamente. Também estamos vendendo pelo WhatsApp, outra frente é o delivery center com alguns shoppings, também expandimos a parceria com a Rappi, estamos fazendo também drive thru. E por fim tem a implementação da plataforma de afiliados, os revendedores Ri Happy. Estava escopado para o primeiro semestre, mas lá em março naquela primeira reunião a gente decidiu acelerar, transformamos nossos vendedores de lojas em vendedores digitais. Foi muito aprendizado e estamos trabalhando em melhorias. E estamos com a equipe muito engajada em continuar fazendo o que gosta de fazer mas de um modo diferente. Estamos treinando a equipe a como vender por redes sociais. E essa nova plataforma veio para ser perene.” 63 Tipos de Comportamento de Compra Os tipos de comportamento de compra variam geralmente conforme o produto em questão e podem ser classificados em complexo, com dissonância reduzida, habitual e em busca de variedade. Com efeito, a classificação dos tipos de comportamento de compra passa pelo entendimento de três variáveis do comportamento do consumidor no processo de compra: envolvimento informacional com a compra,percepção de diferenças entre marcas e frequência de compra. Comportamento de compra complexa: nesse tipo de comportamento de compra, os clientes estão altamente envolvidos com a busca de informações sobre um produto, são conscientes das diferenças significativas entre as marcas e a frequência com que geralmente compram esses tipos de produtos é baixa. Além disso, esse tipo de produto com tipo de compra complexo exerce influência significativa no comportamento do consumidor, pois geralmente são produtos caros e autoexpressivos (o produto diz muito sobre a personalidade do comprador), o que implica em um risco maior sobre o consumidor. Exemplo: telefone celular, computador pessoal e carro. Comportamento de compra com dissonância reduzida: nesse tipo de comportamento de compra, os clientes também estão altamente envolvidos com a busca de informações sobre um produto, e a frequência com que geralmente compram esses tipos de produtos é baixa. As variáveis que definem esse tipo de comportamento de compra são basicamente as mesmas da compra complexa. O diferencial é que para certos produtos, os consumidores geralmente não são conscientes das diferenças significativas entre as marcas (sustentam uma dissonância reduzida entre as marcas), isto é, as diferentes marcas entre produtos similares não são tão expressivas para se relacionarem com a personalidade do comprador. Consequentemente, não são percebidas pelo próprio consumidor. Assim, nesse tipo de compra, ainda que tenha um alto envolvimento do comprador, não se perde muito tempo com as marcas. Exemplo: carpete, tapete e móveis de escritório. Comportamento de compra habitual: nesse tipo de comportamento de compra, os consumidores não estão altamente envolvidos com a compra de um produto, isto é, não sentem a necessidade de buscar muitas informações sobre o produto. Nesse caso, também há uma baixa relação com as marcas, acarretando, por sua vez, em pouca lealdade dos compradores. Pois é difícil para essas criar uma relação de crença, atitude ou influenciar no comportamento dos consumidores. A frequência com que geralmente compram esses tipos de 64 Gráfico 1 - Tipos de Comportamento de Compra. Fonte: Autor. produtos é alta. Nesse caso, valem muito as campanhas promocionais e a "guerra" de preços para atrair o consumidor. Exemplo: sal, arroz e material de escritório. Comportamento de compra que busca variedade: nesse tipo de comportamento de compra, os consumidores também não estão altamente envolvidos com a compra de um produto, isto é, não sentem a necessidade de buscar muitas informações sobre o produto. A frequência com que geralmente compram esses tipos de produtos também é alta. Entretanto, há alta diferença de percepção entre as marcas, isto é, o comprador avalia o produto em relação à personalidade, crenças, atitudes e comportamentos. Por se tratar de produtos com valor agregado de marca, o desafio aos profissionais de marketing é trazer suas marcas da compra habitual para a compra em busca de variedade. Exemplo: chinelos e biscoitos. 65 08 Tomada de Decisão de Compra 66 Decisão de Compra Vimos nas aulas 6 e 7 informações importantes para entender o mercado consumidor e o comportamento de compra como um processo de compra com base em tipos de comportamento de compra. Como Kotler nos lembra, essas informações são importantes para a tomada de decisão do profissional de marketing relativas a tipos de produtos a serem oferecidos a certos grupos de consumidores em potencial, design de produtos e linguagem adequada para as campanhas promocionais e publicitárias. Nessa aula, veremos quais são as etapas do processo de compra, também chamadas de estágios do processo de decisão de compra. Estágios do Processo de Decisão de Compra Podemos identificar cinco estágios do processo de decisão de compra: reconhecimento do problema ou necessidade, busca de informação, avaliação das alternativas, decisão de compra e comportamento pós-compra. Entretanto, isso não significa que todo o processo de compra passe pelos cinco estágios. No comportamento de compra habitual, por exemplo, o consumidor pode saltar da percepção da sua necessidade diretamente para a decisão de compra. Do mesmo modo, para o comportamento ligado a uma compra complexa, o mesmo consumidor passará provavelmente pelos cinco estágios elencados na aula 7. Reconhecimento do Problema ou Necessidade Reconhecemos um problema ou uma necessidade por meio de estímulos internos, tais como fome, sede, insegurança, vulnerabilidade, orgulho entre outros. Os produtos trabalhados pelo marketing devem ir justamente ao encontro de satisfazer esses impulsos do comprador, oferecendo bebidas (sede), comidas (fome), moradia e 67 seguros de vida (segurança), serviços educacionais (crescimento) e materiais de luxo (orgulho), por exemplo (ver mais sobre necessidade no conceito de marketing na aula 1 e na teoria da motivação humana de Maslow na aula 6). Os profissionais de marketing também provocam os estímulos internos por meio de ações externas, como o cheiro de pão fresco na padaria do supermercado ou a propaganda de um passeio turístico em uma agência de viagens. Essas táticas de marketing tem por finalidade juntar os interesses do comprador com os meus produtos. 68 Fonte: Mariana Oliveira, "Afinal, o marketing cria necessidades", Revista Mundo do Marketing, 24 de Jul. de 2006. Disponível aqui A�nal, o Marketing Cria Necessidades? Para algumas pessoas o principal objetivo do marketing é, mais que criar e promover um produto, persuadir os consumidores da necessidade que possuí-lo representa. Para outras, estas necessidades são criadas por formas cada vez mais agressivas de vender. Se o comportamento humano é uma equação com inúmeras variáveis, ciências como a antropologia e a sociologia apontam caminhos que pressupõem fatores sociais, culturais e psicológicos no ato de compra de qualquer consumidor. Lívia Barbosa, antropóloga especialista em comportamento do consumidor, explica que as ciências sociais veem o marketing através de duas vertentes principais. Uma delas, de cunho conservador, acredita que as pessoas são passivas e estão sujeitas como marionetes à manipulação de interesses escusos. A segunda vertente vê o marketing sem poder de coerção, agindo de forma a seduzir o consumidor que está ciente de suas escolhas. “O que move o consumo é o desejo e não a necessidade”, constata. 69 https://www.mundodomarketing.com.br/reportagens/comportamento-do-consumidor/169/afinal-o-marketing-cria-necessidades.html Busca de Informações Nesse estágio, a estratégia de marketing deve se ater as fontes de informação dos seus consumidores. Isso significa tanto descobrir quais são essas fontes de informação – revistas, blogs, escola, amigos e familiares – quanto em ter em sua estratégia a criação e o gerenciamento destas informações. Para tanto, os profissionais de marketing trabalham em conjunto com jornalistas, assessores de imprensa e publicitários, além de ações de merchandising. Atualmente, esse estágio do processo de decisão de compra encontra-se quase que inteiramente dominado pela busca de notícias e informações na internet, particularmente nos mecanismos de busca como Bing e Google, e nas redes sociais, como Facebook, Twitter, Instagram e LinkedIn (ver mais sobre marketing digital na aula 15). 70 Fonte: Revista Mundo do Marketing / Disponível aqui O merchandising vive seus momentos de altos e baixos dentro dos planejamentos estratégicos de marketing de varejistas. Isso cria, muitas vezes, tensões comerciais com os produtores e suas principais marcas. A verdade é que o merchandising é uma importante ação visual que possibilita os profissionais de marketing melhor entender a experiência do consumidor in loco, isto é, dentro dos seus estabelecimentos favoritos. Dentre essas experiências de compra, estão a busca de informação, a degustação e a interação com materiais publicitários e promocionais. Você se lembra a última vez que teve uma experiência de consumo em uma ação de merchandisingem seu estabelecimento de compra? Como foi? Você fez perguntas ao promotor de marketing e colheu informações sobre o produto em questão? Vejam a matéria “Evolução e obstrução do merchandising no varejo”. Ela mostra como alguns varejistas de reinventaram e voltaram a trabalhar em parceria com a indústria nas ações merchandising. Avaliação de Alternativas Nesse estágio, a preocupação principal do profissional de marketing deve ser sobre o modo como os consumidores avaliam todas essas informações disponíveis sobre produtos. Esse estágio geralmente antecede a tomada de uma decisão de compra. Contudo, isso pode acontecer com base em premissas hierárquicas de necessidades ou não (Ver mais sobre as teorias da motivação humana na aula 6), pois é preciso que o consumidor tome as suas decisões de compra de modo racional e consciente. A possibilidade de essa avaliação ser pautada por nossas emoções e, portanto, de maneira irracional, também deve ser considerada. Nesse caso, o profissional de marketing deve se familiarizar com os princípios da psicologia comportamental. 71 https://www.mundodomarketing.com.br/artigos/simone-terra/26798/evolucao-e-obstrucao-do-merchandising-no-varejo.html Fonte: Fonte aqui Disponível aqui O que é a psicologia comportamental? Quem é considerado o pai dessa área de pesquisa e estudos? Psicologia comportamental é uma área de pesquisa e estudo baseada na noção de que os comportamentos humanos são formados por meio de condicionamentos. Nesse caso, o condicionamento ocorre na relação das pessoas com um ambiente externo controlado ou incontrolado. Também chamada de behaviorismo, seus defensores acreditam as ações das pessoas se formam à medida que elas respondem à estímulos externos. Essa área de aprendizagem chama muito a atenção dos profissionais de marketing que buscam analisar e formar o comportamento de consumo utilizando táticas mercadológicas para estimular e controlar as ações dos consumidores. O psicólogo americano John Broadus Watson (1978 - 1958), considerado o pai do behaviorismo, a ciência da psicologia comportamental 72 Decisão de Compra Uma vez que as necessidades ou desejos foram reconhecidos, as informações foram buscadas e as alternativas foram avaliadas, chegou o momento da tomada de decisão de compra. Nesse estágio, o consumidor já sabe geralmente sobre os fatores diretos na decisão de compra, como por exemplo, a capacidade de compra com base na sua renda ou na renda familiar, os diferentes preços de mercado, os benefícios que o produto lhe proporcionará, as condições de pagamento, seguros, frete entre outros fatores. Mesmo assim, é preciso levar em consideração que alguns fatores indiretos podem exercer um papel fundamental na última hora. Dois dos fatores externos que podem entrar no caminho do processo de compra, isto é, entre a intenção e a decisão de compra são atitudes dos outros perante a nossa decisão e algumas situações imprevistas, como uma fofoca. Comportamento Pós-Compra Nesse estágio, o profissional de marketing deve preparar o seu negócio para diversas situações, como solicitações de troca de produtos e busca por informações adicionais. Os “marketeiros” também devem preparar ações de marketing para analisar o comportamento do pós-compra dos seus clientes, como pesquisas de satisfação e sobre a utilização do produto. 73 09 Neuromarketing 74 Neuromarketing é um termo relativamente novo no universo da administração mercadológica. Basicamente, é um tipo diferente de pesquisa de mercado; uma pesquisa dentro do inconsciente e que, por isso, explica muito dos comportamentos irracionais dos consumidores. Mais especificamente, o neuromarketing significa o uso de tecnologia da neurociência para pesquisar os efeitos dos estímulos provocados pelas marcas no cérebro dos consumidores. Duas das tecnologias utilizadas são o eletroencefalograma e a ressonância magnética. Os profissionais de marketing, com o auxílio dos neurocientistas, estudam as preferências, os gostos, os medos e as esperanças dos consumidores por meio dos sinais cerebrais e fisiológicos como resposta aos estímulos mercadológicos, como, por exemplo, a atividade cerebral, a temperatura do corpo e os movimentos dos olhos. Nessa aula, veremos alguns dos resultados dessas pesquisas e como elas mostram preferências e gostos diferentes daqueles comunicados em pesquisas tradicionais utilizando questionários e perguntas. Estão prontos? Então, vamos juntos! As Principais Técnicas do Neuromarketing Ao contrário do que muitos pensam, as principais técnicas de neuromarketing estão ao alcance de todos e com um investimento relativamente baixo. Vamos a algumas delas: Eye-tracking: neurotecnologia de rastreamento ocular que grava e apreende o movimento dos olhos do consumidor ao longo de uma página de Internet, vídeo, folder, prateleira, entre outros recursos. Após o tracking, é possível diagnosticar quanto tempo o usuário olhou para determinada área do seu site ou da loja, quais cores chamaram a atenção, qual a ordem da observação ou até mesmo se existe uma confusão na ordem das informações (o que pode ocasionar queda em suas vendas). Mapa de calor: uma das formas mais utilizadas e conhecidas para identificar ações do consumidor em um site. Com ele, é possível assistir em tempo real por onde seu cliente tem navegado, qual sua ordenação, a movimentação do mouse, barra de rolagem, entre outros. Este tipo de informação ajuda a compreender um padrão de navegação das pessoas e, assim, melhorar sua usabilidade. 75 EEG: esta ferramenta visa captar pulsos elétricos emitidos pelos neurônios quando há troca de informações entre eles e, assim, saber quais áreas do cérebro são acionadas mediante determinado estímulo. Este tipo de estudo ainda tem um custo alto, mas promove um detalhamento muito interessante sobre atenção, memória e emoção. (SOUZA, 2016). Uma Pesquisa com Fumantes Martin Lindstrom (1970 - ) é um dos pioneiros na pesquisa de neuromarketing. Em seu livro "A lógica do consumo: verdades e mentiras sobre porque compramos" (2015), ele narra os bastidores e resultados do maior estudo de neuromarketing realizado, até então, envolvendo fumantes americanos. Como vimos, toda pesquisa começa com um problema. No caso, o problema que afetava Lindstrom era o fato de que as mensagens de advertência impressas nas embalagens dos cigarros pareciam não surtir efeitos nos consumidores, e as 76 mensagens eram cada vez mais dramáticas em relação aos danos à saúde provocados pelo consumo de cigarro. Foi então que o neuromarketing entrou em ação para desvendar as verdades e as mentiras por trás da dependência da nicotina. Por meio da ressonância magnética aplicada a 32 fumantes, Lindstrom “entrou” no cérebro dos voluntários e descobriu como as mensagens de marketing afetam os fumantes. Entre suas descobertas, vamos apresentar o caso da fumante de nome Marlene, narrada no livro. Em suas respostas ao questionário da pesquisa tradicional, Marlene havia se declarado uma "fumante social", ao invés de assumir a dependência de nicotina. Perguntada sobre as advertências nos maços de cigarro, ela respondeu que as mensagens afetavam o seu consumo, isto é, ela era sensível aos danos que o cigarro provocava à sua saúde e, por isso, estava fumando cada vez menos. Então chegou o momento de "entrevistar o cérebro" de Marlene (LINDSTROM, 2016, p. 21). Já posicionada dentro do aparelho de ressonância magnética, foram apresentadas diversas imagens em slides a Marlene, entre essas, as imagens de advertência estampadas nas embalagens de cigarro. Marlene deveria apertar um botão toda vez que esses estímulos externos lhe causasse vontade de fumar. O exame foi repetido com os demais voluntários. 77 Após as análises feitas em conjunto com a neurocientista Dra. Calvert, os resultados foram surpreendentes. Primeiro, as imagens com as advertências dos danos do cigarro à saúde não inibem a vontade de as pessoas fumarem. Nesse caso, essa informação já valia a pesquisa uma vez que poderia melhor direcionaros bilhões de dólares que os governos mundo afora gastam com essas campanhas de advertência contra o tabagismo. Em segundo lugar, e mais surpreendente, tais mensagens haviam, na verdade, estimulado uma parte importante do cérebro dos voluntários, o nucleus accumbens ou "ponto do desejo". Portanto, ao serem expostos às imagens de advertência, elas estimulavam as pessoas a fumarem, ao invés de as coibir. O passo final foi entender os motivos que levavam as pessoas a responderem de maneira diferente no questionário da pesquisa tradicional. Lindstrom e a Dra. Calvert concluíram que os voluntários se sentiam culpados por sentirem que as mensagens de advertência lhes causavam desejos de fumar, ao invés de se sentirem envergonhados. 78 Fonte: Pexels Para o estudioso brasileiro de neuromarketing, Pedro Camargo, estamos valorizando demais as técnicas que aplicam a neurociência ao marketing. Apesar de reconhecer que as pesquisas baseadas em neuromarketing trouxeram avanços significativos para compreendermos a relação entre o cérebro humano e o comportamento do consumidor, muito “achismo” tem invadido esse campo do conhecimento. Para o especialista brasileiro, as pressões que as empresas estão jogando sobre o neuromarketing em busca de uma "bala de prata" que decifre os enigmas do comportamento do consumidor é o principal causador do charlatanismo. Ele também ressalta que o exame das atividades cerebrais não dá conta de fornecer todas as respostas para os mistérios do comportamento do consumidor. Você concorda com Pedro Camacho? Qual a sua opinião sobre o uso excessivo das técnicas de neuromarketing para buscar desvendar e manipular o 79 Fonte: Revista Mundo do Marketing / Disponível aqui comportamento do consumidor? Vejam a matéria “Efeito Lindstrom! O exagero em Neuromarketing”. Ela mostra como que a ânsia em vender soluções, a qualquer preço, provocou o surgimento dos "neuroportunistas" e suas descobertas mirabolantes. O Papel da Ética no Neuromarketing O risco associado ao desenvolvimento do neuromarketing está ligado ao uso desenfreado das técnicas da neurociência para compreender e manipular o comportamento dos consumidores. O próprio Lindstrom apresenta a responsabilidade ética como um aspecto fundamental do estudo sobre neuromarketing. Colocando-se no papel de consumidor, e não de especialista em marketing, ele também teme os abusos e não quer ser vítima das empresas. Assim, ele explica que escreveu o livro sobre o assunto justamente para levar conhecimento às pessoas comuns sobre as técnicas do neuromarketing, fazendo com que nos conscientizássemos das suas possibilidades e dos riscos de manipulação e controle das nossas mentes por parte das empresas. 80 https://www.mundodomarketing.com.br/artigos/pedro-camargo/20985/efeito-lindstron-o-exagero-em-neuromarketing.html 10 Valor, Satisfação e Fidelidade 81 Cliente no Centro da Atenção Com base nos conhecimentos acumulados até agora nas aulas anteriores, deve estar evidente que as empresas que levam a administração mercadológica de segmentação a sério colocam o cliente no centro das atenções. Esse movimento é justificado em algumas variáveis de macroambiente: novas experiências com informação (demográfico), educação financeira e planejamento do orçamento doméstico (demográfico e econômico), rede institucional de proteção (legislação e política) e utilização de tecnologia (tecnológico). Isso se traduz no fato de que os consumidores têm cada vez mais acesso a ferramentas de busca de informação, educação e instituições democráticas e, consequentemente, estão cada vez mais bem informados, formados e protegidos. A conclusão que os profissionais de marketing chegaram é a de que os consumidores vão se mover cada vez mais, em seu comportamento de compra, em busca de valor na hora de tomar as suas decisões de compra. Nessa aula, veremos como maximizar a percepção de valor pelo cliente e a fidelização. Maximização da Percepção de Valor A palavra-chave aqui é a busca da maximização de valor. Essa iniciativa toma por base os limites de custo, conhecimento sobre o produto, conveniência, renda entre outros que formam a percepção de benefícios relativos aos produtos. Essa percepção dos benefícios emerge em relação aos custos relativos aos produtos, formando o "Valor Percebido pelo Cliente" ou VPN. O VPN, portanto, é um valor percebido pelo cliente que emerge por meio da análise ou avaliação entre a diferença de todos os benefícios e de todos os custos relativos aos produtos. 82 Nesse caso, a percepção do benefício total de um produto para um cliente é entendida como um valor monetário, cuja base está associada a questões econômicas, funcionais e psicológicas que o cliente espera receber de um determinado produto. Por sua vez, o custo total para o consumidor emerge por meio da análise ou avaliação de um conjunto de custos relacionados à obtenção, utilização e descarte dos produtos. O custo total assim como os benefícios estão associados a questões monetárias, de tempo e energia, e psicológicas. Por exemplo, o produto máquina de lavar-louça deve proporcionar um benefício direto ao consumidor por meio do serviço de lavagem mecânica de louça, satisfazendo o consumidor pelo serviço, mas também por proporcionar mais tempo livre, para ler um livro, assistir ao jogo de futebol após o almoço de domingo ou a preservação dos esmaltes nas unhas. Do mesmo modo, há um dispêndio de tempo e energia para tomar a decisão de compra e avaliar os custos e os incômodos com a instalação do produto na cozinha, passando pela própria avaliação da instalação elétrica e dos encanamentos adequados para o produto funcionar em sua capacidade máxima. Assim, o VPN é o valor monetário na mente do consumidor que leva em conta a diferença entre todos esses elementos relacionados aos benefícios e aos custos de um determinado produto. 83 Análise de Consumidores e Criação de Valor 1. O consumidor permanecerá imerso em suas emoções quando estiver processando comportamentos de compra. Esqueça qualquer possibilidade da emergência de consumidores racionais fazendo compras como se elas fossem equações matemáticas. 2. Marcas ocupam espaço vital na rotina do consumidor. Elas continuarão a dar sentido a suas escolhas e a criar uma identidade para ele. Nada tão remoto e ilusório como um cenário no qual as marcas deixassem de ser o centro da escolha do consumidor. E digo mais: nos espaços virtuais de e-commerce criados pela internet, elas já são importantes e serão ainda mais. Comprar e fazer negócios a distância exige marcas respeitadas e de qualidade reconhecida. 3. Quase como consequência do ponto anterior, o consumidor continuará a ser o legítimo proprietário das marcas. É apenas em seu coração e na sua mente que elas têm existência concreta. Isso obriga as empresas a acompanhar e entender seu consumidor como o fiel depositário de seu ativo mais valioso. 4. O consumidor brasileiro insistirá em “tirar o atraso” de décadas de contenção. Enquanto existir estabilidade econômica – e espero que fique para sempre –, buscará formas de compensar a emoção adiada tantas vezes, em compras que ele não pôde fazer. Persistirá sua paixão por promoções, descontos, saldões, etc., não por que ele gastará menos, mas principalmente porque comprará mais. E a inadimplência será sempre uma possível ressaca dessa deliciosa bebedeira... 5. O consumidor continuará sendo “malinchista”, ainda que com o reconhecimento de que nem tudo que vem de fora é melhor. O que é ser malinchista? Dizem que uma das amantes prediletas do líder espanhol Hernán Cortés, quando os espanhóis chegaram ao México, adorava tudo o que ele trazia da Espanha. Seu nome era Malinche. O “malinchismo” é um traço essencial de nossa personalidade latino- americana. 6. O consumidor não deixará de se encantar com nossa comunicação. Além de ser importante fonte de informação, ela continuará alimentando suas fantasias e seus sonhos, muitas vezes entretendo mais que o próprio programa. No entanto, o consumidor sempre repudiaráo mau gosto e, em geral, o estupro a sua inteligência. 7. O consumidor seguirá ignorando quem fala com ele de forma confusa. Sairão perdendo as empresas sem atitude profissional para 84 Fonte: TROIANO, J. As Marcas no Divã - Uma análise de consumidores e criação de valor. eBook, 2019. / Disponível aqui desenvolver estratégias claras e relevantes para suas marcas – e também aquelas que não têm conhecimento legítimo de seu público- alvo, isto é, não entendem seu consumidor como pessoa. 8. O consumidor continuará amando as marcas que não mudam de cara da noite para o dia – em outras palavras, marcas que resistem ao novo diretor de criação ou de marketing. 9. Por fim, ele ainda se mostrará disponível e interessado para ser ouvido e consultado. Muitos estarão ansiosos para dizer o que pensam. Por isso, vá além das opiniões que normalmente são filtradas. Ouça diretamente da fonte o que seu consumidor tem a dizer. Satisfação do Consumidor Obter um VPN positivo é apenas uma parte do sucesso comercial de um produto. As pessoas irão realmente consumir o produto. É nesse momento que elas irão se sentir satisfeitas com a sua compra, ou não. Assim, a satisfação é justamente esse sentimento de prazer ou de decepção que emerge quando os consumidores comparam aquilo que eles percebem como um desempenho real do produto com as expectativas criadas. Em outras palavras, a satisfação é resultado da análise e avaliação da expectativa, da realidade e da percepção sobre um produto. Os profissionais de marketing devem agir em relação à satisfação do cliente, por exemplo, reduzindo o preço de um produto ou aumentando as expectativas sobre o consumo de um outro produto. De qualquer modo, a satisfação dos consumidores deve ser medida com regularidade. Para tanto, há algumas ferramentas, como as caixas de sugestão, as pesquisas on-line e os questionários. 85 http://conteudo.mundodomarketing.com.br/livro-as-marcas-no-diva Fonte: Revista Mundo do Marketing / Disponível aqui De acordo com a Secretaria Nacional do Consumidor, vinculada ao Ministério da Justiça, os problemas com o aparelho celular fizeram parte das reclamações mais recorrentes dos brasileiros junto ao PROCON em 2011, órgão de defesa do consumidor. A Secretaria divulgou que, naquele ano, foram feitas mais de 153 mil reclamações no total, sendo que 52% referiam- se a compras de produtos, com o aparelho celular aparecendo com 14,1%. Já as reclamações contra serviços financeiros (bancos) totalizaram 22,1% das reclamações. Assim, esses produtos e serviços entraram no foco da Universidade de São Paulo (USP), dentro de um estudo inédito para definir o Índice Brasileiro de Satisfação do Cliente (BCSI). O quão é importante a análise dos índices de satisfação dos clientes? Vejam a matéria “Novo índice mede satisfação do cliente em telefonia, TV paga e bancos”. Ela mostra o estudo feito pela USP em parceria com universidades de Michigan e Nova de Lisboa. Fidelidade do Cliente A fidelidade do cliente emerge quando os profissionais de marketing conseguem formar fortes conexões entre os produtos, as marcas e os clientes. Para isso, é preciso, como ponto de partida, criar, lançar e comercializar produtos que proporcionem experiências marcantes nos consumidores. Outro ponto fundamental para a criação de fidelidade do cliente é fazer com que toda a empresa se unifique ao redor da satisfação, planejando e gerindo os seus processos com vistas ao objetivo único de satisfação e retenção dos consumidores. Por fim, e fidelização dos clientes também é conquistada quando as opiniões, sugestões e reclamações dos consumidores são levadas a sério internamente, capturando suas necessidades e oferecendo continuamente melhores produtos. 86 https://www.mundodomarketing.com.br/ultimas-noticias/25506/novo-indice-mede-satisfacao-do-cliente-em-telefonia-tv-paga-e-bancos.html 11 Segmentação de Mercado 87 Segmentação de Mercado e Micromarketing A segmentação de mercado é uma estratégia de marketing utilizada pelos profissionais em contraposição ao marketing de massa. Segmentar o mercado significa criar e lançar produtos para um grupo selecionado de pessoas que compartilham gostos e preferências em comum. Essa estratégia surgiu como resposta a duas mudanças do próprio mercado, a saber, a fragmentação crescente dos gostos e preferências das pessoas e a maior concorrência por participação de mercado. Com efeito, os profissionais da administração mercadológica desenvolveram e aprimoraram ações mais eficientes e eficazes para segmentos específicos do mercado, também chamado de micromarketing. Nessa aula, veremos os tipos de segmentação de mercado. Tipos de Segmentação O micromarketing pode ser dividido em segmento, nicho, local e customizado. Segmento O mais comum é o próprio segmento de mercado, quando as estratégias de marketing são voltadas para um grande grupo de consumidores que compartilham gostos e preferências similares. Vamos ver isso melhor: estamos nos referindo a um segmento de mercado quando nos referimos aos jovens de classe média de Florianópolis. Eles formam um segmento? Não! O que temos em mãos até o momento são dados do macroambiente (ver mais sobre macroambiente de marketing na aula 4). 88 Porém, se nos referimos a jovens de classe média que desejam um modelo barato de carro para se locomoverem ou jovens em busca de um modelo esportivo, aí então estamos tratando de gostos e preferências associados a dados demográficos. Portanto, formamos um segmento de mercado a ser explorado pelas agências de carro na cidade de Florianópolis, por exemplo. Nicho Em uma ação de micromarketing, podemos afirmar que o nicho é um segmento dentro de uma segmentação. Em outras palavras, é um subsegmento. Para melhor tomarmos a decisão de focar nossa planejamento estratégico em um nicho, há quatro fatores que devemos nos atentar: 1. Os gostos e as preferências comuns são bem distintas? 2. Os compradores estão propensos a pagar mais pelo produto? 3. Há baixa concorrência, isto é, quem são os concorrentes focando nesses grupos menores de consumidores? 4. Há maior potencial de lucro? 89 Fonte: Pexels “Nichos são o novo mainstream para aumentar audiência” As redes sociais ajudaram a dar contornos mais claros a grupos ou comunidades centrados em determinados assuntos: os pet lovers, por exemplo, que demonstram seu apego aos animais; os fãs de games, com seu fanatismo por jogos eletrônicos e e os fãs de gastronomia, que não perdem a chance de compartilhar suas receitas. Em comum, essas pessoas têm um profundo engajamento, ou, em outras palavras, verdadeira paixão por esses temas. Ao identificarem, conhecerem e estabelecerem conversas com esses segmentos, ou mesmo mapearem com agilidade novos grupos em formação, as empresas de conteúdo do setor conseguem redefinir suas 90 Fonte: Felipe Turlão, “Nichos são o novo mainstream para aumentar audiência”. Propmark Revista. / Disponível aqui estratégias de negócios, criando novos canais ou programas muito mais direcionados, que trazem impacto positivo na audiência e engajamento com o público. Há poucas semanas, a Discovery Networks Brasil trouxe ao país a DogTV, de olho em um segmento de pet que só cresce: há 52 milhões de animais de estimação no país e os donos nunca buscaram tanta informação sobre cuidados para saúde e bem-estar dos cães. Muito por conta da integração nas redes sociais das pessoas que amam seus pets, a saúde dos animais passou a ser debatida mais profundamente na sociedade brasileira. Uma das descobertas relativamente recentes é a ansiedade extrema que a maioria dos cães desenvolve quando deixados sozinhos na casa, a chamada “síndrome da separação”. Uma das razões para o canal existir é ofertar conteúdo que minimize esse quadro. Localização A estratégia de micromarketing com base na localização significa ações que busquem satisfazer as necessidades e desejos de grupos de compradores locais. Nesse caso, os quatro fatores apresentados na tomada de decisão sobre o nicho também podem ser aplicadosneste subsegmento, com a diferença que o foco é predominantemente pautado por gostos e preferências mais específicos e peculiares a uma determinada localidade. 91 https://propmark.com.br/midia/nichos-sao-o-novo-mainstream-para-aumentar-audiencia/ Fonte: Revista Mundo do Marketing / Disponível aqui Quando os profissionais de monitoramento de mídias sociais das agências New Vegas, SapientNitro e Ogilvy se juntaram com a Geofeedia, eles queriam saber se haviam diferenças nos gostos e nas preferências de homens e mulheres na hora de se divertirem à noite, de acordo com o planejamento de programas, hábitos nas redes sociais e consumo, conforme as capitais do país. O resultado foi divulgado no estudo "Night Life". Vejam a matéria “Vida noturna varia conforme a localização geográfica”. Ela traz o link para a pesquisa completa sobre os hábitos dos consumidores em relação à vida noturna. 92 https://www.mundodomarketing.com.br/ultimas-noticias/33454/vida-noturna-varia-conforme-a-localizacao-geografica.html Customerização A estratégia de micromarketing com base na customerização significa ações que busquem satisfazer as necessidades e desejos de grupos de compradores por meio da participação dos mesmos na configuração do produto de sua escolha. Ainda que essa ação de micromarketing não seja eficaz para todo e qualquer tipo de negócio, muitos mercados exploram o seu potencial, como o mercado de móveis, bicicletas, carros, roupas, remédios entre outros. 93 12 Patrimônio da Marca 94 Construção de Marcas Fortes Quando falamos em patrimônio da marca, falamos em construção de marcas fortes enquanto um ativo do negócio. Assim, o patrimônio da marca ou brand equity refere- se a um conjunto de ativos em forma de um nome, um sinal, um termo, um design ou um símbolo. Do mesmo modo, o patrimônio da marca pode ser uma combinação disso tudo. Para construir marcas fortes, os profissionais de marketing precisam planejar e investir nas suas marcas em longo prazo. Eles também precisam continuamente alinhar os valores das suas marcas com a qualidade dos produtos oferecidos. Nessa aula, veremos o papel da marca, como se planeja uma ação de inserção de uma marca no mercado e a extensão da marca. O papel da marca Uma marca cumpre muitas funções, e nem todas elas estão diretamente ligadas ao marketing. Vejamos algumas dessas principais funções. Identificação: a marca cumpre o papel fundamental de gerar uma identificação entre o consumidor e o negócio - produtos, serviços e ideias - que a marca representa, proporcionando experiências diferentes mesmo para produtos concorrentes similares (trataremos mais sobre isso na aula de posicionamento). Responsabilidade: a marca contribui para a geração de responsabilidade empresarial perante os consumidores e os órgãos de fiscalização uma vez que é por meio delas que se aciona, por exemplo, uma campanha de recall de um determinado produto ou peça de um produto com defeito. Administração: a marca facilita na gestão interna do negócio, pois as empresas geralmente administram seus estoques e realizam seus registros contábeis por meio do uso das marcas dos produtos. Fidelidade: as empresas desejam que seus consumidores percebam os níveis de qualidade de seus produtos e retornem continuamente para consumi-los, gerando fidelização, o que também ocorre por meio da relação dos consumidores com as marcas. 95 A fidelização da marca cumpre um outro papel. Ela traz importantes vantagens para o negócio, como, por exemplo, uma melhor previsão sobre a demanda futura, a criação de barreiras de entradas à um concorrente em um determinado segmento e a possibilidade de se comprar um preço premium por um determinado produto. Inserção de uma Marca no Mercado Para planejar uma ação de inserção de uma marca no mercado, em primeiro lugar devemos saber que a marca é um ativo simbólico (ao invés de um ativo concreto, como um prédio). Isso significa que continuamos no campo das percepção que formam as realidades das pessoas. Portanto, quando dizemos inserção de uma marca no mercado ou branding, estamos geralmente nos referindo a inserção da marca na mente dos consumidores. Branding O branding é um conjunto de ações de marketing destinadas a agregar os valores que uma marca carrega nos produtos para a mente do consumidor. Essas ações circulam na relação entre a escolha do mercado-alvo e a construção da identidade da marca forte. No caso, nos referimos ao nome da marca, a logomarca, os representantes, os slogans, as embalagens dos produtos, jingles entre outros elementos. Mas como executamos o branding, criando diferenças significativas com base em valores para os nossos produtos? Uma das principais ações de branding é apresentar aos consumidores o "nome" do produto e as suas principais características. No mesmo sentido, podemos lançar mão de ações visando ensinar os consumidores sobre a funcionalidade e a finalidade dos produtos. Também ensinamos os consumidores sobre como os produtos satisfazem suas necessidades e desejos particulares, mostrando os motivos pelos quais eles devem se interessar e consumir esses produtos. 96 Essas ações de branding, como deve estar claro para nós, marcam as qualidades do produto na mente do consumidor, possibilitando uma tomada de decisão de compra que leve em consideração as nossas marcas e gere fidelidade. Valor Agregado Como estamos falando de um ativo abstrato, o patrimônio da marca está diretamente associado a valores. Nesse caso, é um valor agregado atribuído aos produtos. Os valores agregados indicam aos consumidores como eles devem pensar, sentir e agir em relação à nossa marca. Vejamos alguns exemplos de valores agregadas às marcas: As marcas Gillette, Sony e 3M buscam agregar o valor "inovação" a praticamente qualquer produto que aparecer no mercado com suas marcas. A marca Coca-cola busca agregar o valor "felicidade" ao seu produto mundialmente conhecido. A marca Volvo busca agregar o valor "segurança" aos seus carros. A marca BMW, concorrente da Volvo, busca agregar o valor "dirigibilidade" aos seus carros. A marca Apple busca agregar o valor "produtos tecnológicos com estilo" e "funcionalidade" aos seus produtos. Esses valores não dizem respeito diretamente ao produto, mas ao pensamento, sentimento e ação das pessoas provocados por estímulos externos por meio de propagandas e campanha publicitárias. O propósito, assim, é justamente fazer com que a marca se transforme em uma expectativa de experiência com base em seu valor agregado. Com efeito, se compramos um carro Volvo, assumimos que a empresa cumprirá sua promessa e entregará a segurança que confiamos na marca; se compramos um produto da Apple, desejamos que a empresa cumpra sua promessa e nos entregue não apenas notebook ou um telefone celular, mas esse algo a mais representado pelo valor agregado da marca, associando "estilo" à minha personalidade. 97 Extensão da Marca Em meio às ações estratégicas de branding, isto é, a definição dos elementos da marca que serão aplicados ao produto, temos algumas opções ou possibilidades. Podemos desenvolver novos elementos para uma marca, para um produto novo, podemos utilizar elementos de uma marca já consolidada em nosso portfólio para o lançamento de um produto novo ou ainda podemos combinar a aplicação de elementos novos e aqueles já consolidados ao produto. De qualquer modo, todas essas opções fazer parte da tomada de decisão sobre a extensão da marca. O que é extensão de marca? É a aplicação de elementos de uma marca já consolidada para lançar novos produtos. Nesse caso, quando os profissionais de marketing combinam a aplicação de elementos novos e aqueles já consolidados ao produto chama-se submarcas. A marca principal, que carrega os valores agregados em sua logomarca, slogan e embalagens, por exemplo, é chamada de marca-mãe. 98 Extensão de Linha e Categoria A extensão da marca pode ser dividida em extensão de linha e extensão de categoria. Em relação à extensão de linha, essa ação acontece quando os valores agregadosda marca-mãe são aplicados a novos produtos cujos mercados-alvo estão dentro de uma categoria única de produtos. Um exemplo de marca que realiza brilhantemente a extensão de linha é a Danone com os seus iogurtes. Em relação à extensão de categoria, essa ação acontece quando os valores agregados da marca-mãe são aplicados a novos produtos cujo as categorias de produto são diferentes daqueles comumente atendido pela marca. Um exemplo de marca que realiza bem a extensão de categoria é a Ford com os seus carros, tratores e caminhões. “Danone apresenta Oikos para Categoria de Lácteos” 99 Fonte: Material de divulgação/Revista PropMarket Fonte: Propmark. “Danone apresenta Oikos para categoria de lácteos”. 07 de Dez. de 2018. / Disponível aqui A Danone está lançando no Brasil a linha Oikos. O produto tem cinco sabores exclusivos no mercado de lácteos: pistache, caramelo e nozes, chocolate e baunilha, laranja e chocolate e delícia de morango. Segundo Juliana Assad, gerente da marketing da Danone, a proposta é proporcionar prazer a qualquer momento do dia, com ingredientes sofisticados. “Sabemos que muitas pessoas procuram um snack doce ao longo do dia e querem comer sem culpa, mas sem abrir mão do sabor. Desta forma, Oikos traz a leveza da massa branca combinada a ingredientes refinados e o resultado é uma explosão de sabores”, afirma. O logotipo de Oikos é inspirado na cremosidade do produto, bem como a embalagem desenvolvida exclusivamente para o lançamento. Ela traz as cores preta e dourada como protagonista e lembra uma taça de sobremesa. O produto já está disponível nos principais mercados do Brasil. Vantagens e Desvantagens da Extensão da Marca Para os profissionais de marketing, é importante saber que as ações de extensão da marca possuem suas vantagens e desvantagens, e cabe aqui a análise de cada movimento em relação à situação peculiar do seu planejamento estratégico de marketing e a percepção de valor e qualidade associada à marca-mãe. Entre as vantagens da extensão da marca, estão: os consumidores ficam com menos dúvidas em relação aos novos lançamentos da empresa, pois já possuem experiência com a marca, criam expectativas com o novo produto, minimizam os riscos de 100 https://propmark.com.br/anunciantes/danone-apresenta-oikos-para-categoria-de-lacteos/ 13 Posicionamento e Concorrência 101 Motivos para Posicionar sua Marca Entendemos por posicionamento a ação de comunicar os valores da marca, as ofertas de produtos e a imagem da empresa visando ocupar um lugar diferenciado na mente do público-alvo. Há dois motivos principais que fazem os profissionais de marketing buscarem estratégias de posicionamento em seus planejamentos de marketing. O primeiro é que o negócio selecionou um segmento promissor. Até aqui tudo bem! Porém, esse segmento que ora era promissor se enfraqueceu ou se diluiu. Isso requer um novo posicionamento da marca diante de um novo segmento. O segundo é que o ciclo de vida de um determinado produto, segmentado e posicionado, chegou ao fim ou o crescimento de vendas estagnou ou vem diminuindo com o tempo. Isso requer um novo posicionamento da marca diante de um novo segmento por meio de um novo produto. Assim, com o posicionamento, efetivou por completo o nosso tripé da segmentação, dentro do planejamento estratégico de marketing: segmentar, estabelecer os alvos e posicionar a marca para o diálogo com o mercado, ou melhor, com a mente dos consumidores (KOTLER, 2018, p. 305). Nessa aula, veremos alguns critérios importantes a ser considerado na hora de decidir sobre o posicionamento da marca. Também analisaremos a relação entre posicionamento da marca, segmentação de mercado e concorrência. Estão prontos? Então, vamos juntos! 102 Critérios do Posicionamento Efetivo O posicionamento não deve ser implementado apenas levando em consideração a relação da marca com o mercado-alvo, mas também a relação da concorrência com o mercado. Isso significa que posicionar é também ocupar um espaço aberto no mercado, não explorado, ou mau atendido, pela concorrência. Assim, há alguns critérios que temos que prestar atenção para entender melhor como as empresas executam o seu posicionamento e como podemos posicionar nossa própria marca. Categoria: dentro do posicionamento, categoria significa o agregado de produtos similares e seus substitutos mais próximos. A regra a ser seguida, neste caso, é: temos que entender bem a nossa categoria para melhor entender as necessidades, gostos e preferências dos seus consumidores. Nessa análise, também entendemos os pontos fortes e fracos dos concorrentes em suas relações com a categoria. Por fim, caso novas necessidades, gostos e preferências emergem ou são criados, a regra da categoria do posicionamento é clara: crie sua própria categoria. Exemplo: na categoria de alimentos, para o produto carne de frango congelada, a Sadia é uma forte líder. Pontos de diferença: dentro do posicionamento, pontos de benefício significam os benefícios ou os aspectos qualitativos que os consumidores percebem fortemente associados com uma marca. Nesse caso, os consumidores sustentam a percepção de que tais qualidades ou benefícios são únicos e exclusivos a uma determinada marca, isto é, o modo com a marca entrega o valor não é passível de comparação com outra marca. Exemplo: para a categoria de carros clássico-esportivos, a BMW entrega exclusivamente o valor "prazer em dirigir" ou "dirigibilidade". Pontos de paridade: dentro do posicionamento, pontos de paridade significam elementos que são percebidos pelos consumidores em relação à marca, porém, não são qualidades ou benefícios necessariamente exclusivos a marca. Nesse caso, outras marcas também são percebidas pelas mesmas qualidades ou benefícios. É a chamada "lição de casa", aquilo que o negócio deve cumprir para "entrar no jogo" em uma determinado categoria. Em outras palavras, são as qualidades que fazem parte da categoria. Exemplo: qualquer marca que compete no segmento gastronômico deve oferecer qualidade e benefício associado à higiene e ao bom atendimento. 103 Fonte: Material de divulgação/Site oficial: Disponível aqui “Oreo Estimula a Criati�dade em novo Posicionamento” O Oreo apresenta o novo posicionamento da marca com o vídeo “Oreo, recheado de Maravilhas”. Com um novo visual, a comunicação adota palavras-chave para expressar as sensações que deseja transmitir nessa nova fase como imaginar, brincar e transformar. A ideia da marca de biscoito da Mondelēz é trabalhar o conceito de que, ao compartilharem o biscoito, as pessoas se abrem para experiências criativas e divertidas e vivenciam um mundo onde a imaginação faz a diferença. No filme, por exemplo, um vampiro experimenta o biscoito e muda de hábitos. O foco da nova campanha é atingir um público chamado de “millennial parents”, pais e mães jovens, com idade entre 18 e 34 anos. A estratégia de mídia com exposição em TV aberta foi arquitetada pela FCB Brasil, e ações 104 http://www.oreo.com/ Fonte: Bianca Ribeiro, “Oreo estimula a criatividade em novo posicionamento”. Revista Mundo do Marketing, 30 de Mai. de 2016. Disponível aqui em digital estão sob a responsabilidade da agência LOV. Concorrência A análise do posicionamento da concorrência é importante para o posicionamento da nossa marca, isto é, isso não pode ser negligenciado pelos profissionais de marketing. Entretanto, essa análise não deve fundamental, pois não controlamos os movimentos do mercado e da concorrência. Assim, precisamos desenvolver o posicionamento da marca de modo a tentar nos diferenciar da concorrência ao mesmo tempo em que temos que manter a concorrência próximo. Nesse caso, Kotler nos ajuda ao interpretar as cinco forças criadas no mercado pela concorrência de Michael Porter (2018, p. 291). Rivalidade intensa no segmento: isso significa que um determinado segmento pode deixar de ser atrativo quando há diversos concorrentes poderosos e agressivos. Exemplo: o mercado de telefonia celular. Novos concorrentes: isso significa a possibilidadede novas competições e, consequentemente, novos posicionamentos ocupando espaço na mente do consumidor caso as barreiras de entrada e saída em um determinado segmento não forem altas e baixas, respectivamente. Exemplo: o mercado de transporte aéreo. Produtos substitutos: isso significa analisar os riscos potenciais e reais de um determinado segmento ser alvo de produtos substitutos, isto é, produtos de segmentos diferentes, mas que satisfazem uma mesma necessidade impondo preços e lucros mais baixos. Exemplo: o mercado de refrigerantes e de sorvetes. Poder de barganha dos compradores: isso significa que um determinado segmento pode deixar de ser atrativo quando há empresas grandes e poderosas dominando o setor, quando essas empresas concentram o mercado a ponto de cada um dos seus fornecedores representaram apenas uma pequena parcela do 105 https://www.mundodomarketing.com.br/ultimas-noticias/36279/oreo-estimula-a-criatividade-em-novo-posicionamento.html seu portfólio. Exemplo: Wal-Mart tem poder de barganha diante da grande maioria dos produtores de bens de consumo que querem ver seus produtos expostos nas prateleiras da gigante varejista americana. Poder de barganha dos fornecedores: isso significa que um determinado segmento pode deixar de ser atrativo quando os fornecedores do seu negócio têm o poder de aumentar os preços cobrados pelos produtos ou diminuir a entrega conforme as quantidades demandas pelo seu negócio. Isso geralmente acontece quando os fornecedores concentram matéria-prima, quando os produtos substitutos não representam uma ameaça e quando a troca de fornecedores é complexa e custosa para o seu negócio. Uma vez que a análise e o mapeamento da concorrência foram feitos, a tomada de posicionamento da sua marca pode se encaixar uma ou outra posição no segmento: líder, desafiante do líder, seguidor dos principais movimentos da concorrência ou ocupante de um nicho criado a partir da análise de lacunas na satisfação de necessidades, gostos e preferências de um grupo seleto de consumidores. 106 Figura 1 - Al Ries Fonte: Wikipédia Quem foi que disse a seguinte frase: "O posicionamento começa com um produto, uma mercadoria, um serviço, uma empresa, uma instituição e até mesmo uma pessoa. Entretanto, posicionamento não é o que você faz para um produto. Posicionamento é o que você faz para a mente do comprador potencial. Você posiciona o produto na mente deste comprador potencial"? O responsável pela frase é Al Ries (1950 - ) consultor de marketing americano também conhecido por ter cunhado o termo "posicionamento" de marketing. 107 14 Mix de Marketing 108 O Mix de Marketing O mix de marketing refere-se ao conjunto de elementos táticos e operacionais do planejamento estratégico de marketing. Esses elementos são controláveis pelo profissional de marketing para atingir o objetivo do planejamento. Com efeito, o mix de marketing é constituído pela famosa sigla "4Ps". Os quatro "pês" se referem, em sua origem, ao conjunto de ações da administração mercadológica focada no produto, preço, praça ou ponto de venda e promoção. A sigla vem dos termos no inglês product, price, place e promotion. Nessa aula, veremos o objetivo inicial com o mix de marketing, qual o significado de cada um dos seus elementos e como ele foi atualizado para representar as preocupações atuais dos profissionais de marketing no mercado do século XXI. 109 Os Quatro "pês" do Mix de Marketing O objetivo principal do mix de marketing é maximizar a criação de valor e a satisfação dos consumidores por meio da administração da apresentação do produto, do preço do produto, da praça onde o produto é comercializado e as ofertas comunicadas do produto ao mercado-alvo. Produto: para criar valor por meio do produto, os profissionais devem conhecer à fundo os produtos com os quais estão trabalhando, suas especificidades, os gostos e usos que os consumidores fazem desses produtos para satisfazerem suas necessidades e desejos. Eles também devem identificar necessidades e desejos não atendidos e buscar criar e desenvolver, em seus negócios, bens, serviços e ideias que satisfaçam os consumidores melhor do que a concorrência. Preço: para criar valor por meio do preço, os profissionais devem gerir os custos diretos e indiretos relacionados a comercialização dos produtos e, principalmente, identificar as diferentes percepções dos consumidores em relação ao valor do produto, isto é, quanto eles estão dispostos a gastar para adquirir determinados produtos. Praça: para criar valor por meio da praça, os profissionais devem gerir a entrega do valor aos consumidores. Isso significa analisar a "entrega do produto" como um todo, indo além do local físico (como um restaurante) ou do ato empírico (como a transportadora) de entregar alguma coisa a alguém para minimizar os riscos e maximizar as oportunidades do negócio. Promoção: para criar valor por meio da praça, os profissionais devem comunicar a proposta de valor conforme os seus respectivos mercados-alvo. Isso implica a tomada de decisão sobre os canais ou mídias de publicidade e propagando que fazem parte do planejamento estratégico de marketing, os valores dos investimentos e o acompanhamento dos impactos no crescimento das vendas. Mais especificamente, Kotler (2018, p. 28) seleciona os principais elementos de táticas e operações pautadas no mix de marketing. Vejamos na tabela abaixo: 110 Mix de Marketing Produto Preço Praça Promoção Variedade Qualidade Design Características Nome da marca Embalagem Tamanhos Serviços Garantias Devoluções Preço de tabela Descontos Bonificações Prazo de pagamento Condições de financiamento Canais Cobertura Sortimentos Locais Estoque Transporte Promoção de vendas Propaganda Força de vendas Relações públicas Marketing direto Fonte: Divulgação/Havaianas 111 Fonte: Revista Mundo do Marketing / Disponível aqui Vimos na aula 7 como o produto chinelo conseguiu sair de um comportamento de compra habitual para um que busca variedade, isto é, onde há percepção da marca pelo consumidor e o negócio consegue cobrar um preço premium por isso (ver mais sobre os tipos de comportamento de compra na aula 7). A marca em questão é a dos chinelos Havaianas. O posicionamento da Havaianas é um dos casos mais bem sucedidos do marketing. Entretanto, por trás do burburinho das novas propagandas com celebridades, está o trabalho árduo dos profissionais de marketing que realizaram uma mudança profunda no mix de marketing da Alpargatas, empresa proprietária da marca. Por um lado, o produto foi originalmente criado para atender a classe média. Com o passar do tempo, ele se popularizou, massificou, e perdeu qualquer identidade da marca com os consumidores. Em outras palavras, virou uma commodity. A consequência foi que na década de 1980, a rentabilidade da empresa com a vendas dos chinelos Havaianas chegou a níveis bem baixos e a empresa correu riscos de fechar suas operações. Esse ponto da crise estimulou uma reformulação profunda do mix de marketing das Havaianas. Vejam a matéria “Havaianas, o chinelo que virou artigo de moda”. Ela mostra como a estratégia que salvou a Alpargatas tem a ver com investimento em pesquisa de mercado e na mudança radical do mix de marketing. Os Novos "pês" do Mix de Marketing Para Philip Kotler (2018, p. 27), os 4 Ps do mix de marketing já não representam mais a realidade da administração mercadológico do século XXI. Nesse caso, é proposto uma nova formulação dos 4 Ps: pessoas (produto), performance (preço), processos (praça) e programas (promoção). Pessoas: para criar valor por meio das pessoas, o mix de marketing deve valorizar os profissionais que colaboram com o negócio e tratar a relação comercial com seus consumidores e potenciais consumidores com ética. Em 112 https://www.mundodomarketing.com.br/cases/330/havaianas-o-chinelo-que-virou-artigo-de-moda.html outras palavras, é preciso ter o olhar humano tanto para o público interno quanto externo do negócio. Performance: para criar valor por meio da performance,o mix de marketing deve estabelecer um conjunto de indicadores que são importantes para o crescimento das vendas e o sucesso do negócio em geral. Em outras palavras, é preciso ter visão, objetivos e metas financeiras, mas também sociais, éticas e ambientais, entre outras. Processos: para criar valor por meio da performance, o mix de marketing deve planejar e estabelecer modos de operar que estimulem a criatividade, disciplina e estrutura para o planejamento estratégico de marketing. Em outras palavras, é preciso evitar tomadas de decisão apressadas, infundadas e baseada em crenças e preconceitos ultrapassados para abrir espaço à organização e inovação. Programas: para criar valor por meio da performance, o mix de marketing deve direcionar suas atividades para satisfazer as necessidades, gostos e desejos dos consumidores. Em outras palavras, os programas de marketing devem estar integrados na cultura organizacional, influenciando direta e indiretamente todo o negócio, seus departamentos, seus colaboradores, seus indicadores e seus processos e programas. 113 Fonte: Pexels Causas Impactam Decisão de Compra A preocupação dos brasileiros com o meio ambiente, educação e outras causas sociais tem influenciado a maneira como eles consomem produtos e serviços. O movimento ainda é sutil, com preponderância entre as classes econômicas mais altas e no público mais jovem, mas a consciência social já orienta a população como um todo. É o que revelou a terceira edição do Estudo Marketing Relacionado à Causa, lançada nesta quinta-feira (24), em São Paulo, pela consultoria Cause, ESPM, Instituto Ayrton Senna e Ipsos. O levantamento ouviu 1200 pessoas das classes ABC de agosto a setembro de 2019, e revelou que embora o conhecimento sobre marketing de causa ainda seja baixo, correspondendo apenas a 29%, a porcentagem de pessoas que compraram algum produto que destinava parte do seu valor para uma causa social, cultural ou ambiental neste ano é relevante (34%). A maioria (84%) também é totalmente favorável às empresas que apoiam causas sociais. Os dados são bons indicadores para o mercado, que deve olhar para o marketing de causa sob o ponto de vista mais estratégico. Isso 114 Fonte: Danúbia Paraíso, “Causas impactam decisão de compra”. Revista Propmark, 24 de Out. de 2019. Disponível aqui porque 77% das pessoas já esperam que as empresas contribuam muito mais para a sociedade do que contribuíam no passado. Dessa maneira, mais do que “sair bem na foto”, uma postura socialmente responsável será cada vez mais exigida pelos consumidores, impactando diretamente os negócios das marcas. 115 https://propmark.com.br/mercado/causas-sociais-impactam-decisao-de-compra-mas-fator-economico-ainda-domina/ Figura 1 - E. Jerome McCarthy e Philip Kotler Fonte: Wikipédia Quem foi o criador da teoria do mix de marketing baseada nos 4Ps? Quem a aprimorou e a tornou mundialmente famosa?: O responsável pela teoria foi Edmund Jerome McCarthy (1928 - 2015), professor de marketing na Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos, que divulgou pela primeira vez os resultados da sua pesquisa que culminou na teoria do mix de marketing no livro "Basic Marketing: A Managerial Approach", publicado em 1960. Entretanto, foi o consultor de marketing Philip Kotler quem aprimorou e aplicou a teoria de maneira exitosa, tornando-a mundialmente famosa nas ações táticas e operacionais de realização do planejamento estratégico de marketing das grandes empresas. 116 15 Marketing Digital 117 Conceito de Marketing Digital O marketing digital é um conjunto de modos de comunicação com os consumidores por meio de estratégias de segmentação via canais digitais, como website, e-mail e redes sociais. Entre as estratégias mais importantes desse tipo de marketing está a análise, qualificação e engajamento com as pessoas que mostram interesse por bens, serviços ou ideias nos canais digitais. Esses comportamentos dos potenciais consumidores na internet tomam a forma de comentários, compartilhamento, likes, acessos a páginas de websites, e são chamados de leads. Com o contínuo aumento das pessoas na internet, a possibilidade de rastrear seus comportamentos e conseguir entregar mais eficazmente uma mensagem de valor ao seu potencial cliente faz do marketing digital uma ferramenta indispensável ao profissional da administração mercadológica. Dentro do marketing digital, essa estratégia é chamada de inbound marketing ou "marketing de atração". Nessa aula, veremos as cinco etapas para a realização de um inbound marketing de resultado. Inbound Marketing O marketing de atração deve atrair as pessoas para o website e as redes sociais do seu negócio e gerar os leads, isto é, fazê-los se envolver com os seus conteúdos. As técnicas são variadas, como oferecer um eBook, um curso, um desconto ou qualquer outra situação que entregue um valor ao visitante em troca de uma informação para contatos futuros ou o fechamento de uma venda. Nesse caso, mais especificamente, existem cinco etapas a serem cumpridas na aplicação de um inbound marketing de sucesso: atração, conversão, relacionamento, venda e análise. 118 Atração A atração de visitantes é o primeiro passo de uma estratégia de marketing digital. O tráfego de qualidade surge quando vamos atrás do mercado-alvo nos canais de comunicação digital e/ou quando proporcionamos algo que tenha valor ao mercado- alvo. Enquanto a primeira opção requer um investimento relativamente alto em links patrocinados e geralmente atrai um público menos engajado, a segunda opção depende muito da nossa criatividade e capacidade de produzir conteúdos além de atrair um público mais engajado. Portanto, ela é a mais indicada para quem não têm à disposição um alto valor para patrocínio de links via Facebook Ads e Google AdWords. Além do patrocínio de links, existem algumas outras ações específicas para atrair tráfego de qualidade na internet. Entre elas, está a publicação constante de conteúdos nas redes sociais, como Facebook, Twitter, Instagram e LinkedIn. Outra técnica é a produção de conteúdos em websites institucionais, blogs e jornais on-line com a devida otimização da página do conteúdo digital para se posicionar melhor nos buscadores como Google e Bing. Essa técnica é conhecida pela sigla SEO ou Search Engine Optimization (Otimização dos Mecanismos de Busca). 119 Vejam o exemplo da Poiesis Editora. Na Poiesis Editora, comercializamos livros com conteúdos científicos e literatura nas áreas da Pedagogia, Educação, Filosofia, História, Administração e Direito. No nosso blog, convidamos os autores a escrever sobre tópicos que circulam os conteúdos dos seus respectivos livros. Em 2019, lancei o primeiro livro de minha autoria intitulado "Com Ítaca na mente: em busca dos sentidos do ensino". O livro é voltado ao público docente da Educação Básica ao Ensino Superior em busca de dar significados mais profundos à sua vida profissional em sala de aula. Um dos aspectos tratados no livro é o da alfabetização. Portanto, escrevo sobre esse assunto no blog da Poiesis, fazendo SEO das páginas para posicioná-las no topo das buscas no Google. Com a produção de conteúdo de qualidade, ofereço um valor gratuitamente e atraiu o meu público-alvo, realizando as posteriores etapas do inbound marketing até a compra do livro. Na imagem abaixo, observem o resultado da atração no mês de agosto de 2020 as minhas publicações no blog: 120 121 Foram mais de 4.700 impressões, com 163 acessos aos artigos no blog, sendo que 4 páginas do blog da Poiesis aparece entre as primeiras impressões no motor de busca do Google. Uma parcela dos acessos se converte em leitores do meu livro caso as demais etapas do marketing digital aconteçam de maneira bem sucedida. Conversão O objetivo principal da etapa da conversão é transformar os visitantes em clientes. Nesse caso, o negócio pode manter um e-commerce, isto é, uma loja comercial digital na qual os produtos são expostos e o processo de tomada de decisão de compra ocorre quando o visitanteresponde a um CTA ou call to action (chamado à ação). Isso pode ocorrer, por exemplo, ao clicar no link "comprar". Porém, há outros caminhos até chegar na conversão dos visitantes em clientes. Como vimos, a tomada de decisão de compra segue um processo. Esse processo, no inbound marketing, segue pelo lead. Atraímos os visitantes e queremos a confiança dele. Oferecemos um valor para ele nos conhecer, para conhecer nossos produtos, em troca de informações de contato, principalmente via chats on-line, formulários digitais e landing pages. Por meio dessas informações, usamos outros canais, como email, mensagens de texto e telefone, para fazer o visitante se sentir confortável com o seu interesse em um determinado produto que está sendo oferecido on-line. Relacionamento Nem todos os visitantes estão prontos para se tornar clientes. Porém, se eles foram atraídos até o seu website ou conteúdo e geraram um lead para você, a etapa de relacionamento é fundamental para a conversão futura. Nesse caso, o profissional de marketing deve entrar em contato com o potencial cliente para descobrir e esclarecer suas dúvidas. O objetivo é mostrar que o seu produto pode ser a solução para uma necessidades ou preferência da pessoa. Para tanto, há diversos canais de comunicação: e-mail, redes sociais, telefone e chats. 122 Venda Para estabelecer um bom relacionamento com os clientes potenciais, os profissionais de marketing podem trabalhar em conjunto com os vendedores. Nesse caso, o marketing já terá informações valiosas sobre o cliente potencial. Essas informações devem ser compartilhadas com a equipe de venda, encarregada em entrar em contato com as pessoas (relacionamento) e fazer a conversão (venda). Análise Nossas ações na internet deixam muitos rastros, desde as páginas que visitamos até as publicações nas redes sociais com as quais interagimos de algum modo: curtindo, compartilhando, etc. Por isso é fundamental que os profissionais de marketing desenvolvam análises e produzam indicadores sobre as ações dos visitantes no website e o engajamento nas redes sociais. Entre os principais indicadores estão: número de visitantes, geração de leads e conversão de venda 123 Fonte: Fonte aqui Disponível aqui “Inbound Cresce no Brasil, mas ainda Carece na Quali�cação de Leads” Há ainda espaço para trabalho em conteúdo, mas a assertividade e qualificação dos leads ainda precisam melhorar. Esses são os principais pontos apresentados na pesquisa "Maturidade do Marketing Digital e Venda no Brasil", realizada a partir de um esforço conjunto do Mundo do Marketing, Resultados Digitais, Vendas B2B e Rock Content. Segundo o relatório recém-lançado, 94% das empresas adotaram o Marketing Digital como estratégia de crescimento. O resultado é promissor, mas na análise ao longo da pesquisa, há pontos que precisam ser melhorados. E isso é reconhecido por 95% da amostra, que totaliza 1.386 participantes. Em relação à acurácia da estratégia, 67% dos respondentes estão confiantes, com 5% afirmando que ela é eficiente e um grande volume de 62% apontando que o direcionamento é eficiente, mas ainda pode ser melhorado. 124 Fonte: Claudio Martins, “Inbound cresce no Brasil, mas ainda carece na qualificação de leads”. Revista Mundo do Marketing, 24 de Jun. de 2019. Disponível aqui Quando são observados os canais empregados para a estratégia digital, as redes sociais são disparadas as líderes em adoção. Plataformas como Facebook, Twitter, LinkedIn e Instagram são utilizados por 91% das empresas que participaram da pesquisa. O site proprietário é o segundo canal mais usado, com uma penetração de quase 86% da amostra, à frente do e-mail marketing, que já apresenta uma considerável queda em relação aos anteriores - 68%. Os blogs, ferramentas de Analytics e Mídia Paga ainda têm um bom caminho para se consolidarem, com percentuais de utilização de 52,2%, 48,0% e 50,7%, respectivamente. Já as ações que possuem baixa adoção são estratégias de backlinks (12,6%), otimização de conversão ou OCR (14,7%), desenvolvimento de buyers personas (25,9%) e links patrocinados (35,5%). 125 https://www.mundodomarketing.com.br/reportagens/digital/38253/inbound-cresce-no-brasil-mas-ainda-carece-na-qualificacao-de-leads.html Conclusão Chegamos ao fim das nossas aulas de Administração Mercadológica. É esperado que o estudante atento tenha aproveitado ao máximo toda a sua experiência com os conhecimentos e práticas do marketing apresentados durante esse tempo. Mais especificamente, você deve se sentir preparado para saber fazer um planejamento estratégico de marketing. Isso significa, além de ter conhecimentos históricos e conceituais do marketing, saber: autoconhecer-se sobre a visão de mercado pesquisar e levantar informações importantes sobre o macroambiente formular uma pesquisa de mercado entender a dinâmica do mercado consumidor observar a comportamento do consumidor estimular a tomada de decisão de compra familiarizar-se com as novas pesquisas de neuromarketing formular a proposta de valor em busca da satisfação e fidelização do consumidor alinhar a segmentação de mercado e tomar a decisão sobre o mercado-alvo criar o patrimônio da marca de acordo com os valores agregados que formam o posicionamento gerir as táticas e operações do mix de marketing implementar o marketing digital Isso não é tarefa simples, sabemos. Ainda mais dentro da perspectiva de um mercado cada vez mais competitivo e fragmentado. Entretanto, essas aulas lhe forneceram os conhecimentos para o desenvolvimento dessas competências e habilidades. Hora de partir para a prática. Sucesso nas suas aventuras mercadológicas! 126 Material Complementar Livro "Marketing na Era Digital", de Martha Gabriel Editora Novatec Com o objetivo de auxiliar o leitor a desenvolver estratégias de marketing usando adequadamente as possibilidades tecnológicas existentes e emergentes, esse livro aborda cinco importantes pilares: o planejamento estratégico de marketing, a experiência do consumidor (CX), as plataformas e tecnologias digitais emergentes, as estratégias digitais de marketing e o marketing orientado a dados. Além disso, como marketing digital é antes de tudo ‘marketing’, o livro apresenta também os conceitos essenciais, metodologias, técnicas, ferramentas e estratégias fundamentais para que o leitor possa desenvolver o seu plano de marketing – que é a base estrutural necessária para usar o digital com sucesso. Apresenta também inúmeros cases e exemplos com links digitais ao longo dos capítulos, disponíveis via QRcodes, que podem ser escaneados e acessados imediatamente online. Filme À procura da felicidade EUA, 1h 58min / Biografia, Drama Direção: Gabriele Muccino Elenco: Will Smith, Thandie Newton, Jaden Smith À Procura da Felicidade é baseada na história real de um homem que passou de sem-teto a milionário. Chris Gardner (Will Smith) é um pai de família que enfrenta sérios problemas financeiros. Apesar de todas as tentativas em manter a família unida, Linda (Thandie Newton), sua esposa, decide partir. Chris agora é pai solteiro e precisa cuidar de Christopher (Jaden Smith), seu filho de apenas 5 anos. Ele tenta 127 usar sua habilidade como vendedor para conseguir um emprego melhor e consegue uma vaga de estagiário numa importante corretora de ações, mas não recebe salário pelos serviços prestados. Sua esperança é que, ao fim do programa de estágio, ele seja contratado e assim tenha um futuro promissor na empresa. Porém, seus problemas financeiros não podem esperar que isto aconteça, o que faz com que sejam despejados. Chris e Christopher passam a dormir em abrigos, estações de trem, banheiros e onde quer que consigam um refúgio à noite, mantendo a esperança de que dias melhores virão. Web Rory Sutherland – Lições de vida de um publicitário Acesse o link 128 https://www.youtube.com/watch?time_continue=21&v=audakxABYUc&feature=emb_logo CAMARGO, Pedro. Eu compro, sim! mas a culpa é dos hormônios. Ribeirão Preto, SP: Novo Conceito Editora, 2013. GREWAL,Dhruv; LEVY, Michael. Marketing. 2. ed. Porto Alegre: AMGH, 2012. KOTLER, Philip; KELLER, Kevin Lane. Administração de marketing. 15. ed. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 2018. LINDSTROM, Martin. A lógica do consumo: verdades e mentiras sobre por que compramos. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2016. NÓBREGA, Clemente. 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