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Autoria: Ma. Priscila Ferreira Silva - Revisão técnica: Dr. Vinicius Canato Santana ÉTICA E PROFISSIONALISMO EM BIOMEDICINA UNIDADE 1 - BIOÉTICA Introdução Você já ouviu falar sobre ética? Já viu alguém ser julgado como “sem ética”? Reparou em quais foram os critérios usados para esse julgamento? Saiba que a ética presente nessas questões é um ramo da Filosofia que estuda o comportamento dos indivíduos em relação aos apelos morais da sociedade em que estes vivem. Não é fácil delimitar o campo de atuação da ética porque ela se manifesta de variadas formas, conforme a cultura, os costumes e os hábitos de determinadas populações ou públicos. Vamos começar esta primeira unidade abordando os conceitos básicos da história da ética, passando pelos pensadores e pioneiros nesse conceito, tais como: Sócrates, Platão e Aristóteles. Falaremos sobre o momento em que a sociedade sentiu necessidade de uma ética aplicada à saúde, incluindo os experimentos científicos realizados na Segunda Guerra Mundial e o desenvolvimento tecnológico de tratamentos e diagnósticos iniciados com a Reforma Industrial. Também serão abordados os conceitos básicos de bioética e sua aplicabilidade pelos profissionais de saúde nos tempos atuais, descrevendo e enfatizando a aplicação da teoria principialista nos dilemas e decisões na rotina de atendimento. Ao fim, o estudante será capaz de avaliar as situações que vivencia dentro um julgamento ético e moral. Vamos lá? Acompanhe esta unidade com atenção! Bons estudos! Tempo estimado de leitura: 35 minutos. Falar sobre ética é lembrar dos antigos ensinamentos, em uma época em que se começou a conviver em sociedade, estabelecendo normas de convivência e comportamento. Historicamente, o significado da palavra ética vem do grego “ethos”, referente ao modo de ser do indivíduo ou ao caráter do ser humano. Os filósofos gregos associavam a palavra à ideia de moral e cidadania (LOMBARDI et al., 2018). 1.1 História da Bioética Sócrates, Platão e Aristóteles são os pensadores gregos mais citados sobre ética, os quais, de modo geral, afirmavam que a conduta humana deveria ser baseada no equilíbrio, visando não faltar com a ética. Para Sócrates, a virtude é sabedoria e conhecimento, e o vício é resultado da ignorância. Baseado nesses conceitos, são dele duas frases. Platão, discípulo de Sócrates, afirmava que as virtudes se dividem em “prudência” (corresponde à razão), “valentia” (impulsos de vontade e ânimo), “autodomínio” (apetite, mas que contém os prazeres corporais) e “justiça” (equilíbrio de todas as virtudes). Já Aristóteles afirmava que a felicidade era o objetivo de todos e a plena realização que poderia ser alcançada pela virtude, sabedoria e pelo prazer (LOMBARDI et al., 2018). Tabela 1 - Período de atuação dos principais filósofos em ética, em ordem cronológica Fonte: Elaborada pela autora, 2021. #PraCegoVer: na tabela apresentada, estão listados os principais ícones da ética filosófica. À direita da tabela, estão os nomes, e à esquerda é apresentado o período em que cada um viveu. “Sei que nada sei”. “Conhece-te a ti mesmo” (LOMBARDI et al., 2018). Passando pela Idade Média, com grandes nomes, como São Tomás de Aquino, chega-se à Idade Moderna com Martinho Lutero e Immanuel Kant, sendo este considerado o último grande filósofo da área. Kant defendeu que a ética é autônoma e que corresponde à lei ditada pela própria consciência moral (LOMBARDI et al., 2018). Nesse sentido, a ética se relaciona com diversas outras ciências, tais como: a Política, a Sociologia, o Direito e a Bioética. Esta última enfoca as questões referentes à vida humana e às melhorias na qualidade de vida (LOMBARDI et al., 2018). Com visão multidisciplinar, une as áreas da Biologia, Medicina e Filosofia. A Bioética surgiu entre as décadas 1960 e 1970, nos Estados Unidos, como neologismo unindo o termo “ética” e o prefixo “bio” (derivado do latim, que significa “vida”). Esse termo foi inserido na sociedade científica pelo oncologista norte-americano Van Rensselaer Potter, no momento em que uma série de fatores histórico-culturais evidenciou a necessidade de uma nova visão moral do mundo. Nesse contexto, o período pós-guerra foi marcado pelos movimentos sociais (COHEN; OLIVEIRA, 2020). Durante a Segunda Guerra Mundial, na era nazista, houve inúmeros experimentos com seres humanos. Tais experimentos foram denunciados ao Conselho de Crimes de Guerra. Dessa forma, o veredito do julgamento de Nuremberg levantou dez diretrizes que, depois, vieram a compor o Código de Nuremberg. Nos dias 1.1.1 Bioética Martinho Lutero foi um monge agostiniano e professor de teologia germânico que se tornou uma das figuras centrais da Reforma Protestante. Questionou diversos dogmas do catolicismo romano, contestando principalmente o fato de que o perdão de Deus não era adquirido pelo pagamento de indulgências, e sim pela fé e seguimento da Bíblia (LOMBARDI et al., 2018). VOCÊ O CONHECE? atuais, esse documento é conhecido como “Declaração de Helsinque”, a qual, mesmo sem força de lei, dita os experimentos em seres humanos (COHEN; OLIVEIRA, 2020). Em 1948, a Assembleia-Geral das Nações Unidas promulgou a Declaração dos Direitos Humanos. Contudo, mesmo com essa declaração, sabe-se que os abusos à integridade humana continuaram principalmente nos países que participaram do julgamento de Nuremberg (COELHO; COSTA; LIMA, 2013). Mais tarde, em 1966, Henry Beecher, publicou em artigo a revisão de 22 estudos eticamente incorretos, dentre os quais quatro incluíam crianças. Esse artigo teve grande repercussão por demonstrar a fragilidade pela qual a dignidade humana passava naquela época (KIPPER, 2016). Van Renseller Potter, ao criar o termo “bioética”, propôs uma visão global e holística com vistas ao desenvolvimento de uma ética das relações vitais dos seres humanos entre si e com o ecossistema. A partir dessa proposta, foi criada a Comissão Nacional para Proteção de Seres Humanos em Pesquisa Biomédica e Comportamental (1974), cuja atuação resultou em um documento intitulado Relatório de Belmont (1978), constituído pelos princípios fundamentais para a resolução dos conflitos éticos relacionados a pesquisas em humanos (COELHO; COSTA; LIMA, 2013). No mesmo período em que Potter trabalhou o conceito de Bioética, em 1971, fundou-se o Instituto Kennedy de Reprodução Humana e Bioética, na Universidade de Washington. Esse grupo de cientistas não caracterizou a A Unidade 731 foi uma unidade secreta japonesa durante a 2ª Guerra Mundial utilizada para pesquisa e desenvolvimento de guerra biológica e química com experimentos humanos e letais. Submetiam-se os prisioneiros de guerra chineses a condições extremas de exaustão física e mental, que iam desde andar em círculos até a morte, em baixas temperaturas, até a injeção de agentes patogênicos letais (CONRAD, 2020). VOCÊ SABIA? Bioética como nova ética científica, e sim como a ética aplicada ao campo médico e biológico. O instituto publicou, em 1978, a Enciclopédia de Bioética (COELHO; COSTA; LIMA, 2013). Em 1979, a Bioética entra em fase de consolidação com a publicação de “Princípios de Ética Biomédica”, de Beauchamp e Childress, os quais desenvolveram uma teoria de ética aplicada chamada “teoria principialista” (COELHO; COSTA; LIMA, 2013), cujos princípios podem nortear as pesquisas biomédicas, assim como os argumentos nas discussões dos casos clínico- assistenciais. Estes são, hoje, caracterizados como conceitos básicos da Bioética. 1.2 Conceitos em Bioética Iniciação à Bioética Autores: Sérgio Ibiapina Ferreira Costa, Volnei Garrafa e Gabriel Oselka (orgs.). Editora: Conselho Federal de Medicina Ano: 1998 Comentário: Publicado pelo Conselho Federal de Medicina, o livro apresenta os conceitos básicos de Bioética do ponto de vista clínico, ou seja, enfocando o atendimento direto ao paciente. Aborda também a aplicação dos conceitos básicos nos dilemas encontrados no dia a dia. VOCÊQUER LER? A teoria principialista tem como referência os princípios do Relatório de Belmont, os quais estão relacionados à autonomia e beneficência (com caráter teológico), e não maleficência e justiça (com caráter deontológico - que consiste em um conjunto de deveres profissionais estabelecidos em um código específico) (COELHO; COSTA; LIMA, 2013). Figura 1 - Fluxograma dos itens que compõem a teoria principialista da Bioética Fonte: Elaborada pela autora, 2021. #PraCegoVer: na imagem, está organizado um fluxograma com os itens que compõem a teoria principialista. Ao lado esquerdo, há o termo “Teoria principialista”, teoria da qual partem os conceitos listados à direita: autonomia, beneficência, não maleficência e justiça. Apesar de ser dividida em quatros princípios, estes não apresentam o mesmo peso. Isso porque o princípio de autonomia se sobressai em relação aos demais, em razão de sua forte conotação individualista (COELHO; COSTA; LIMA, 2013), sendo mais centrado na resolução de dilemas e conflitos individuais biomédicos. 1.2.1 Autonomia De origem etimológica grega – “autos” (próprio) e “nomos” (governo) –, autonomia remete à capacidade de se governar por si mesmo. Trata-se dos conceitos de autogoverno, autodeterminação de tomar decisões que afetem a própria integridade físico-psíquica e suas relações sociais. Relaciona-se à capacidade de o ser humano decidir o que é “bom” ou “mau” para si, decidindo e agindo de modo livre e independente, sem qualquer impedimento (COELHO; COSTA; LIMA, 2013). Porém, conforme Coelho, Costa e Lima (2013), o princípio do respeito à autonomia é diferente do conceito da palavra autonomia, no sentido de respeitar o direito do próximo de exercer a autonomia individual. Trata-se do dever moral de reconhecer os valores, afirmar a existência ética-social, aspirações e ponto de vista de cada indivíduo, propiciando as condições para que as ações autônomas possam ser realizadas. Figura 2 - Descrição das regras morais no princípio de autonomia Fonte: Elaborada pela autora, 2021. #PraCegoVer: na imagem, é apresentado um modelo esquemático, na forma de círculo, contendo as regras morais do princípio da autonomia, interligados entre si: dizer a verdade, respeitar a privacidade alheia, proteger informações confidenciais, obter consentimento para intervenções e auxiliar na tomada de decisões. Há, porém, situações em que o princípio do respeito à autonomia não deve ser aplicado. Por exemplo, no caso de indivíduos com julgamento reduzido, incapazes de agir de forma suficientemente autônoma, pela ausência da capacidade de definir o bem e o mal, em razão de serem ou estarem inaptos para analisar a ocasião e decidir de forma consciente e racional. Por isso, nessas situações de autonomia reduzida, podem responder pelo indivíduo seus familiares ou responsáveis legais; secundariamente, os profissionais de saúde. Na hipótese de o paciente optar por não acatar a alternativa que o profissional da saúde ache mais adequada, considera-se que ele já está exercendo a sua autonomia (COELHO; COSTA; LIMA, 2013). Caso o profissional de saúde identifique que há risco iminente à saúde, poderá agir sem a autorização do paciente ou responsável. Nesse contexto, temos que existe o ato definido como “paternalismo fraco” a possibilidade de o paciente ou responsável não ser capaz de decidir; e “paternalismo forte” o caso de o paciente estar em perfeitas condições da capacidade mental (COELHO; COSTA; LIMA, 2013). Lembre-se de que o paternalismo forte se justifica quando o paciente está em risco de dano previsível e prevenível, considerando-se que o benefício será maior do que os danos, e a ação adotada for aquela que levará à menor restrição de autonomia. Paciente mental, sem condições de receber alta hospitalar, apesar de conduta responsável no hospício, mas que se sabe que, quando recebe alta, automutila-se. A equipe médica pode decidir em permanecer em internação. Paciente internado que recebe medicação pré- anestésica, e, ainda consciente, antes dos efeitos da medicação, recusa-se a ser contido na maca, alegando a não necessidade dessa contensão, por estar lúcido. Entretanto, a contenção é realizada, justificada pelos efeitos de sedação, que logo ocorrerão, e a possibilidade real de o paciente cair da maca e sofrer danos. Patern alismo fraco – Caso 1 Patern alismo forte – Caso 2 O princípio de beneficência se relaciona a fazer o bem à saúde física, emocional e mental do próximo. Em relação à atuação profissional na área da saúde, trata- se da conduta em agir eticamente, visando ao melhor procedimento e considerando a redução dos riscos, bem como a potencialização dos benefícios. A origem desse termo está na medicina grega, expressa no juramento de Hipócrates, que consiste em promover o bem e evitar o mal (COELHO; COSTA; LIMA, 2013). Nesse contexto, o princípio da não maleficência está ligado à obrigação de não infligir mal ou dano intencional ao outro, constante do juramento de Hipócrates. Assim, em caso de não se poder realizar o bem, ao menos, não se deve causar danos. Por estar implícito no princípio de beneficência, alguns autores defendem a junção em um único princípio (COELHO; COSTA; LIMA, 2013). Porém, separá- los evidencia a importância de cada princípio. O princípio da justiça tem a ver com a equidade no acesso aos serviços de saúde e na distribuição dos recursos. Por esse motivo, todos devem ser tratados de modo imparcial, não havendo discriminação social, de etnia ou de qualquer outro fator relacionado à identidade do indivíduo (COELHO; COSTA; LIMA, 2013). Assim, a justiça pode ser considerada distributiva quando incluir os direitos civis e políticos, bem como as responsabilidades na sociedade. No entanto, ao se definir as condições de justiça dos atos em medicina preventiva ou curativa, sugere-se que sejam utilizados os princípios de justiça formal e justiça material (COELHO; COSTA; LIMA, 2013). No princípio de justiça formal, os iguais devem ser tratados igualmente, e os desiguais devem ser tratados desigualmente. Esse princípio é considerado formal porque não estabelece as circunstâncias específicas nas quais os iguais devem ser tratados de modo igual. Também não fornece critérios para que sejam determinados se dois ou mais indivíduos são, de fato, iguais (COELHO; COSTA; LIMA, 2013). Ainda conforme Coelho, Costa e Lima (2013), o princípio de justiça material justifica a distribuição igual entre as pessoas, pois oferece critérios ou características que permitam distinguir o que seria um tratamento igual de um tratamento desigual. Trata-se de critérios que consideram a distribuição baseada nas necessidades fundamentais. 1.2.2 Beneficência e não maleficência 1.2.3 Justiça if é i i i A ética e a moral são termos de uso corrente no nosso cotidiano, entretanto, não são sinônimos. A ética refere-se à conduta que os indivíduos de determinada sociedade estabelecem entre si e está sempre precedida de uma reflexão esclarecedora de fundamentos, justificativas ou valores, independentemente da aprovação, ou não, social; não necessita de justificativa. São valores analisados de dentro para fora, com base em determinações morais da comunidade (SILVA, 2010). Por sua vez, moral deriva do latim “moris”, que significa o conjunto de regras que trata dos atos humanos buscando a forma do indivíduo perfeito, dos bons costumes e dos deveres do ser humano em sociedade perante os de sua classe, não sendo necessárias justificativas. No sentido amplo, abrange todas as ciências normativas do agir da sociedade (ética). Em uma concepção mais restrita, seria o regimento dos atos humanos individuais, porém, baseados na visão externa de outro indivíduo. Além do sentido normativo, apresenta outros significados no conjunto de valores sociais, quando não no sentido de regra, apenas em condutas individuais. Refere-se à rotina de comportamentos que se denominam bons ou maus, certos ou errados.São valores que vêm de fora para dentro (SILVA, 2010). Quadro 1 - Comparativo de diferenças entre ética e moral Fonte: Elaborado pela autora, 2021. 1.3 Diferenças entre ética, moral e direito #PraCegoVer: no quadro, há um comparativo entre ética e moral, considerando o modo de agir, as normas e regras, bem como a que se destinam. Já o Direito, do latim “directus”, tem diversos significados. Basicamente, é o sistema de normas de conduta imposto por um conjunto de instituições para regular as relações sociais. Nesse sentido, é correto afirmar que Direito e moral estão entrelaçados. Porém, as regras impostas no Direito são leis e passíveis de sanções punitivas, enquanto na moral essas regras sofrem apenas um julgamento da sociedade, e nem sempre as decisões de Direito são consideradas de acordo com a moralidade (SARTORI, 2015). Outra diferença é que o Direito tem a bilateralidade, necessitando da existência de uma sociedade, a busca pelo bem coletivo. Já a moral busca o próprio aperfeiçoamento visando apenas um lado. No Direito, não é necessário que o indivíduo concorde ou não, e sim que siga as leis impostas por uma figura que tenha ação punitiva, como o Estado. Na moral, é necessário apenas que o grupo aceite como regra, e não há figura punitiva (SARTORI, 2015). Os assentos preferenciais em transportes coletivos existem desde que a Lei Federal nº 10.048/00 entrou em vigor. Uma pessoa que não tenha necessidades especiais e utilize esses assentos estará agindo sem ética. Uma pessoa sentada em um assento comum de transporte coletivo pode não se levantar para que uma pessoa com necessidades especiais o use. Não falha com a lei, pois o assento não é exclusivo, porém, este poderá ser julgado pela sociedade como ato imoral. Ética – Caso 1 Moral – Caso 2 O Direito e a moral estão inseridos na ética, pois esta é a concepção ampla, que abrange todas as ciências normativas do agir humano (SARTORI, 2015). Logo, essas ciências incluem a moral e o Direito. O ser humano tem noção clara dos comportamentos éticos e morais adequados, porém, muitas vezes, age contra os princípios éticos ou aceita viver sob a ação antiética do governo e do Estado. O distanciamento entre “reconhecer” e “cumprir” efetivamente o que é moral constitui uma ambiguidade inerente ao humano. Sabendo disso e considerando o que foi estudado até o momento, responda: essa ambiguidade ocorre porque as normas morais: a) são decorrentes da vontade divina. b) não têm obrigatoriedade. c) são tão amplas que nenhum indivíduo consegue cumpri-las integralmente. TESTE SEUS CONHECIMENTOS d) são criadas pelo homem com base em sua própria vivência. e) são cumpridas por aqueles que seguem as normas jurídicas. VERIFICAR Desde a Revolução Industrial (1970), várias áreas evoluíram drasticamente, em especial a área biomédica, a qual se confronta com as inovações nos âmbitos diagnósticos e terapêuticos. Essa incorporação tecnológica biomédica vem sendo feita, muitas vezes, de forma acrítica e descriteriosa, sem avaliar corretamente a eficiência e a eficácia, comumente, sem ponderar seus efeitos sobre os gastos públicos com os serviços de saúde e até mesmo em relação à sociedade (CHRAMM; ESCOSTEGUY, 2000). Ainda para Chramm e Escosteguy (2000), os custos para a manutenção do sistema de saúde têm se elevado a cada dia, tanto pela tecnologia envolvida quanto pelo envelhecimento da população, que necessita de procedimentos cada vez mais específicos e, consequentemente, caros. Os recursos disponíveis são alocados de acordo com a necessidade da maioria, buscando obter uma distribuição justa. Nesse sentido, nem todas as demandas específicas são atendidas. O respeito do princípio de justiça implica ter que optar o que fornecer e ainda escolher para quem fornecer (CHRAMM; ESCOSTEGUY, 2000). Para que as escolhas sejam mais acertadas, é necessário o levantamento de índices de indicadores de qualidade de vida visando determinar quais procedimentos devem ser direcionados a qual população. A análise desses índices possibilita praticar os princípios morais de beneficência e não maleficência, mesmo que, na prática, não estejam acima do princípio de justiça (CHRAMM; ESCOSTEGUY, 2000). 1.4 Bioética e tecnologia biomédica é O avanço da tecnologia biomédica só é possível com altos investimentos financeiros e, mesmo sendo baseada na Medicina de evidências, em alguns momentos, a política e a possibilidade de um ganho monetário favorece que sejam inseridos no mercado tratamentos e diagnósticos sem as análises criteriosas da efetividade e eficácia do processo. Essa conduta pode trazer inevitáveis riscos à população, custos relevantes e moralmente questionáveis ao sistema de saúde pelo uso de métodos ineficazes (CHRAMM; ESCOSTEGUY, 2000). Chramm e Escosteguy (2000) ainda mencionam que, ao analisar a assistência ao paciente, pode-se identificar que, muitas vezes, os profissionais de saúde colocam a razão técnica acima da razão moral, ou seja, aplicam o tratamento ou realizam o diagnóstico apenas sob o ponto de vista científico, inclusive financeiro, sem avaliar se a conduta fere conceitos morais e éticos. A discussão ética tem sido abordada em estudos que tratam de tecnologias específicas, como reprodução assistida, transplantes de órgãos e tecnologia genética (CHRAMM; ESCOSTEGUY, 2000). Essa abordagem foca no ponto de vista da ponderação entre custos e benefícios a respeito das implicações morais da incorporação tecnológica que visa, em princípio, prevenir e aliviar o sofrimento das pessoas, o que faz parte do campo dos direitos dos consumidores. 1.4.1 Tecnologia biomédica É é “Um ato de coragem” é um filme em que um pai, injustiçado pelo plano de saúde, acredita ser a saída trancar e fazer reféns os pacientes da ala de emergência de um hospital, a fim de que seu filho entre para a lista de pessoas que necessitam de um transplante de coração. Acesse (https://youtu.be/nW3i2t7O2cE) VOCÊ QUER VER? https://youtu.be/nW3i2t7O2cE A preocupação em fornecer um atendimento ético aumenta a cada dia. Nesse sentido, pode-se dividir a ética em níveis de análises para melhor atuação. Quando se pensa em ética profissional (micro), refere-se à interação direta com o paciente e seus familiares ou responsáveis – quando este não puder responder por si –, respeitando sempre os princípios básicos da Bioética e fornecendo todas as informações necessárias para que o paciente exerça seu direito de autonomia e que seja tratado com justiça. O código de ética profissional associado aos termos principialistas formam a chamada ética clínica, buscando o tratamento ou diagnóstico mais indicado para o paciente (PARAIZO; BEGIN, 2019). 1.5 Ética em ambientes de atuação biomédica Microética O foco está nas relações diretas e entre um grupo específico de pessoas, como, por exemplo, ética profissional. Macroética Quando se considera a sociedade como um todo, buscando reger a interação, o bem e a justiça comuns. Entre ambos os níveis, muitas vezes, necessita-se de uma conexão em situações intermediárias, em que não se encontram resoluções na micro ou macroética. Nesses casos, emprega-se um terceiro nível, chamado médio ou intermediário (PARAIZO; BEGIN, 2019). Figura 3 - Níveis de atuação da ética Fonte: Elaborada pela autora, 2021. #PraCegoVer: na imagem, está ilustrado o fluxograma dos níveis de ética em: micro, intermediário e macro. Porém, o profissional, muitas vezes, atua dentro de uma organização que é responsável pelo gerenciamento de questões que sejam comuns a todos os envolvidos no processo, e não centralizadas de maneira individual no paciente. Este é o último nível em que se emprega a ética organizacional, que traz à tona a dimensão dos problemas e questões que transcendem a relação clínica e atingem a sociedade (PARAIZO; BEGIN, 2019). TESTE SEUS CONHECIMENTOS Parta do princípio de que, em um hospital, há dois tipos de ética. Dentre esses dois tipos, destaca-se a éticaorganizacional, que remete à visão, à missão e aos valores da instituição. Além disso, esses princípios têm o objetivo de padronizar os procedimentos realizados pelos profissionais envolvidos. Sabendo disso, analise as afirmativas a seguir. I. O biomédico deve sempre respeitar o princípio de justiça acima dos valores empregados pelo hospital. II. Quando um profissional da saúde sofrer um processo ético, mesmo que tenha seguido os valores da empresa, não será amparado pela instituição. III. A ética organizacional é baseada na ética profissional e limita a autonomia do funcionário. Está correto o que se afirma em: a) III, apenas. b) II, apenas. c) I e III. d) I, II e III. e) I, apenas. VERIFICAR A ética organizacional é baseada em códigos profissionais de ética na área de atuação, apresentando uma visão micro da empresa ao estabelecer a missão, a visão e os valores dos propósitos almejados, os quais são, muitas vezes, definidos pelas demandas mercadológicas. Figura 4 - Pilares que definem o propósito de uma organização Fonte: Mediapool, 2021. #PraCegoVer: na imagem, estão ilustrados os pilares para a definição dos objetivos de uma organização. A missão, na cor verde; a visão, na cor azul; e os valores, em vermelho. Ao definir uma ética da organização, os profissionais têm sua autonomia limitada, ou seja, podem decidir as condutas terapêuticas junto aos pacientes de forma individualizada, porém, não extrapolando os princípios pré-estabelecidos pela empresa. Dessa maneira, a organização visa ter controle sobre o que é desenvolvido em suas dependências e por seus colaboradores, minimizando intercorrências significativas, tanto procedimentais quanto financeiras (PARAIZO; BEGIN, 2019). Nesse contexto, com base nos pilares que definem uma organização, no momento em que os funcionários integram em suas rotinas ações em concordância à missão, visão e aos valores da empresa, consequentemente, estarão agindo de forma ética. A ética na área da saúde, também chamada ética biomédica, não é aplicada somente nos tratamentos e diagnósticos. Emprega-se também na pesquisa biomédica. Isso porque é necessário que, antes de um tratamento ou diagnóstico ser disponibilizado para o paciente, este passe por rigorosos testes e avaliações confiáveis. Essa prática visa minimizar os riscos inerentes ao paciente e determinar a eficácia e eficiência do método (ARAUJO, 2003). Os métodos de pesquisa são, basicamente, divididos em: 1.6 Aspectos éticos em métodos científicos Busque, em meio eletrônico, reportagens que incluam dilemas bioéticos. Identifique os conceitos envolvidos e aponte as falhas éticas. Em seguida, esquematize uma solução para o problema encontrado com a correção dos pontos em que houve a falha ética. Ao término, apresente a questão aos seus colegas ou familiares e discuta sobre os pontos levantados por você. Analise se essas pessoas, mesmo sem ter estudado esta disciplina, como você, apresentam pontos de vistas semelhantes, baseados na própria moral. VAMOS PRATICAR? Ambas as pesquisas precisam ser aprovadas por um colegiado de profissionais na área da saúde interdisciplinar e independente denominado “comitê de ética”, que julgará se o objetivo e a metodologia são condizentes com a expectativa de resultados, incluindo a análise de riscos e benefícios inerentes (ARAUJO, 2003). Neste momento, no Brasil, há comitês de ética e leis separadas para experimentos envolvendo animais e humanos. A Lei Arouca regulamenta a pesquisa em animais; a resolução com Conselho Nacional de Saúde nº 466/2012 regulamenta a pesquisa em humanos, seja direta ou indiretamente, que estudaremos no decorres desta disciplina. in vitro - realizados em laboratório e fora de um organismo vivo, envolvendo normalmente células, tecidos ou órgãos isolados. in vivo - realizados dentro de um organismo vivo. CONCLUSÃO Em janeiro de 2001, foi divulgado o nascimento do primeiro primata transgênico, um macaco rhesus, denominado ANDi, que teve incluído em seu mapa genético um gene de medusa apenas para que favorecesse a identificação da manipulação gênica, como um marcador. Esse experimento foi importante para demonstrar que é possível criar animais transgênicos próximos à espécie humana, porém, extremamente questionável quanto ao ponto de vista ético. Para que ANDi fosse gerado, foram utilizados 224 óvulos de macacos que foram infectados com o vírus, utilizado como vetor, que continha o gene de medusa. Desses óvulos, resultaram 126 embriões, dos quais foram implantados os 40 embriões mais saudáveis, em 20 macacas que serviram de mães substitutivas. Ao fim do processo, apenas três filhotes nasceram vivos, e somente ANDi era portador desse gene (LOPES, 2020). ESTUDO DE CASO Concluímos esta unidade e, agora, você é capaz de definir ética como sendo um conjunto de regras visando ao bom convívio em sociedade. Nestes estudos, você identificou que esta necessita que seja aprimorada e direcionada às diferentes áreas de aplicabilidade, chamando-se ética aplicada, fazendo parte da área da saúde como Bioética. Também aprendeu sobre os conceitos básicos éticos na área saúde e como identificá-los. Nesta unidade, você teve a oportunidade de: conhecer a história da ética, desde o seu surgimento; compreender os conceitos básicos de ética; aprender a aplicar a teoria principialista; diferenciar a ética no ambiente de atuação biomédica; aprender que as pesquisas na área da saúde são regidas pelos comitês de ética. Aula em PDF Clique no botão para baixar essa aula no formato PDF BAIXAR PDF ARAUJO, L. Z. S. Aspectos éticos da pesquisa científica. Pesqui. Odontol. Bras., São Paulo, v. 17, supl. 1, p. 57-63, maio, 2003. 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