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Aula 8 – culpabilidade e imputabilidade 19.10.2020LEGENDA Conceito Prazo Destaque Cai em prova Jurisprudência/súmula Culpabilidade: juízo de reprovação dos atos do agente = análise se a conduta do agente é ou não reprovável Teoria adotada pelo CP: teoria normativa pura (divide a culpa em 3 elementos) · Imputabilidade · Potencial consciência da ilicitude · Exigibilidade de conduta diversa Vertentes da culpabilidade: Culpabilidade é um princípio genérico que possui três vertentes: · Elemento integrante do conceito analítico de crime: juntamente do fato típico e ilicitude. Juntos eles fazem uma conduta humana se converter em crime · Na análise do fato típico e da ilicitude, o que se analisa é o fato. · Na culpabilidade, olha-se para o agente (juízo de reprovabilidade pessoal) · Na culpabilidade, o juízo de reprovação recai sobre o agente · Sem culpabilidade, o crime não existe · Elemento medidor da aplicação da pena: Beccaria dizia que a pena só se justifica se for justa · Pena justa = necessária e suficiente para a reprovação e prevenção do crime · A culpabilidade funciona como fundamento e limite de aplicação da pena · Art. 59, CP · Elemento que visa afastar a responsabilidade penal objetiva: · Princípio da responsabilidade penal subjetiva: a responsabilidade penal deve ser sempre subjetiva = se o agente agir com dolo, ou minimamente com culpa · Sem dolo ou culpa, a conduta é penalmente irrelevante · Ninguém responde por um resultado absolutamente imprevisível, sem que tenha agido com dolo ou culpa · Vira caso fortuito ou força maior · Também são vedadas as responsabilidades penais: · Coletiva · Subsidiária · Solidária · Sucessiva · A responsabilidade penal é sempre pessoa e subjetiva · Fórmula da versare in re ilícita: o agente responde por todas as consequências dos seus atos, inclusive decorrente de fortuito ou força maior = não é mais admitida · Dispositivos criticados por essa vertente: · Lei 4.628/65: crimes praticados em âmbito de mercado de capitais · Diretores da pessoa jurídica são punidos: é responsabilidade objetiva e coletiva = não se afere dolo ou culpa · Lei de contravenções penais: art. 3º diz que só se deve analisar dolo ou culpa quando a lei estabelecer · Responsabilidade objetiva · Homicídio culposo no CTB: não basta que a denúncia diga que o acusado estava na direção de veículo, mas sim demonstrar no que consistiu a violação do dever objetivo de cuidado · Livre arbítrio x determinismo: discute-se se os crimes são praticados por livre arbítrio ou por elementos externos · Determinismo: o agente é influenciado por fatores exógenos, relativos ao ambiente em que está inserido, a educação, instrução, etc · No entanto, o livre arbítrio é o que prevalece, mesmo que o ambiente possa ter influência · Fatores que eliminam o livre arbítrio: coação física ou moral Teorias da culpabilidade · Teoria psicológica: culpabilidade seria tão somente um vínculo psicológico entre o agente e o crime por ele praticado · Sistema clássico · Vínculo subjetivo e psicológico · O nexo de causalidade era um vínculo físico entre o agente e o crime, e o psicológico era a culpabilidade · O vínculo era o dolo ou a culpa, que eram considerados a própria culpabilidade (não estavam na conduta · Em relação ao dolo e culpa, vigorava a teoria causalista da ação · Teoria psicológico-normativa · Sistema neoclássico · Ganhou elementos normativos, mas continua sendo psicológica · Dolo e culpa são mantidos na culpabilidade (dentro da potencial consciência da ilicitude) · Nossos elementos (normativos): · Imputabilidade · Potencial consciência da ilicitude · Dolo · Consciência · Vontade · Culpa · Exigibilidade de conduta conforme o direito · Ainda vigorava aqui a teoria causalista da conduta (dolo e culpa permanecem na culpabilidade) · Teoria normativa pura: possuem apenas elementos normativos · Sistema finalista · Elementos: · Imputabilidade · Potencial consciência da ilicitude · Exigibilidade de conduta conforme o direito · Elementos psicológicos (dolo ou culpa) foram transferidos para a conduta · A finalidade do crime não pode estar na culpabilidade, mas sim na conduta · Aqui vigora a teoria finalista da conduta de Welzel (adotada hoje) = pai da revolução copernicada do direito penal · O dolo é considerado dolo natural = sai da culpabilidade · É chamado de dolo natural porque migra para a conduta, despido da potencial consciência da ilicitude = sem a roupagem normativa · Para a teoria psicológica-normativa, o dolo é chamado de dolo normativo · A passagem da teoria psicológica-normativa para a teoria normativa pura causa bifurcação das consciências (duas consciências em dois lugares diferentes), porque a consciência potencial da ilicitude ficou na culpabilidade, e a consciência do dolo migrou para a conduta · A consciência do dolo é a consciência plena, real e total da conduta que o agente pratica = abrange todos os elementos do tipo penal · A consciência da culpabilidade é potencial e pessoal, não sobre a conduta, mas sobre a ilicitude, sobre saber se aquela conduta é ilícita · Se divide em: · Extremada, extrema ou estrita · Limitada · Coculpabilidade: criada por Eugenio Zaffaroni · Não tem previsão legal · Para Zaffaroni a concorrência de culpabilidade envolve: · A família · A sociedade · O Estado · Entendimento de que as pessoas tem diferentes oportunidades na vida, e que determinada estruturação familiar/social desenvolve propensão maior ou menos para o caminho da ilicitude · Defende que pessoas marginalizadas que cometem crime têm culpabilidade mas também há culpabilidade da família, social e do Estado, e o grau de reprovabilidade desse agente é menos do que aquele que teve privilégios · É adotada no Brasil? · Sim: atenuante inominada/atenuante de clemência (art. 66) · Não: adotada pelo STJ · Coculpabilidade às avessas: · Criada no Brasil, mas não por Zaffaroni · Perspectivas fundamentais: · Identificação crítica da seletividade do sistema penal e incriminação da própria vulnerabilidade: constata a discriminação e segregação do sistema penal e seleciona pobres/vulneráveis para serem punidos · Crimes de rua: · Cifra negra · Cifra dourada · Reprovação penal mais severa nos crimes praticados por pessoas de maior poder econômico: Zaffaroni diz que o mais pobre tem mais motivos para delinquir e o mais rico não tem razão · Quem abusa desse poder econômico para delinquir deve receber tratamento mais severo e o mais pobre de tratamento menos severo · Adotado também na coculpabilidade às avessas · STJ já mencionou em julgados · Somente poderia ser utilizada como atenuante de pena, não como agravante por falta de previsão legal Dolo normativo x dolo natural: tem a ver com a passagem da teoria psicológica-normativa para a normativa pura. Quando o dolo estava dentro da culpabilidade, ele estava impregnado do elemento normativo da potencial consciência da ilicitude = chamado de dolo normativo. A consciência da culpabilidade é potencial e pessoal, mas não recai sobre a conduta, mas sobre a ilicitude da coduta. Quando o dolo passa para a conduta (dentro de fato típico) ele fica livre de elementos normativos, então é chamado de “dolo natural” = teoria finalista. A consciência do dolo é plena, real e total da conduta. Dirimentes: · Dirimentes são causas de exclusão da culpabilidade · Eximentes são causas de exclusão da ilicitude Elementos da culpabilidade: Imputabilidade: é a capacidade de entender e de querer, de entendimento de autodeterminação, de entender o caráter ilícito do fato e determinar-se de acordo com esse entendimento · Elementos: · Elemento intelectivo: capacidade de entender o caráter ilícito do fato · Elemento volitivo: capacidade de autodeterminação · Critérios: CP adotou dois · Critério biológico: menores de 18 anos · Ficam sujeitos ao ECA por ato infracional · Critério biopsicológico: doença mental, desenvolvimento mental incompleto ou retardado · Critério psicológico: não adotado · Não importa a idade, somente alteração no comportamento (não enfermidade mental) · Menciona que o agente é “isento de pena”,mas entende-se que exclui o próprio crime. · Imputável: capaz de ser responsabilizado · Capaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento, ao tempo da ação ou da omissão · Inimputável (art. 26): · Ao tempo da ação ou omissão · Era inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento · Semi-imputável: aquele que não era inteiramente capaz de entender o caráter ilícito do fato · Punido com pena reduzida ou submetido a tratamento hospitalar Causas excludentes de imputabilidade: · Doença mental: ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado · Critério adotado no CP: sistema biopsicológico ou misto = avalia se o agente era ou não capaz de entender o que fazia, de acordo com sua doença ou desenvolvimento mental. Verifica-se: · Existência de doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado · Manifestação de tal condição durante a realização da conduta · Completa incapacidade de o agente entender o caráter ilícito dos fatos ou inteira capacidade de determinar-se de acordo com esse entendimento · Incapacidade deve ser completa · Pode ser: · Congênita ou adquirida · Patológica ou psicológica · Permanente ou transitória · Menoridade: menores de 18 anos são absolutamente incapazes de entender o caráter ilícito dos fatos · Único critério adotado pelo CP: critério biológico = basta a comprovação da idade · Imputabilidade presumida: presunção absoluta · Crianças e adolescentes cometem ato infracional · Embriaguez completa fortuita ou acidental · Embriagues involuntária = proveniente de caso fortuito ou força maior · Fases da embriaguez: · Macaco (excitação): o agente fica alegra · Leão (depressão): o agente fica bravo · Porco (sono): o agente dorme e ronca Causas relevantes no cálculo da pena, mas que não excluem a imputabilidade: · Art. 26, §ú: agente “não era inteiramente capaz” de entender o caráter ilícito do fato ou determinar-se de acordo com esse entendimento, em virtude de perturbação de saúde mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado · Redução de 1/3 a 2/3 da pena · Tem alguma capacidade de entender, mas é reduzida · Emoção, paixão e embriaguez não acidental · Emoção e paixão: não excluem a imputabilidade · Embriaguez não acidental: se culposa ou voluntária não exclui · Embriaguez acidental incompleta: caso fortuito ou força maior: · Pena reduzida de 1/3 a 2/3 · Não está inteiramente capaz, tem a capacidade reduzida · Actio libera in causa: é a embriaguez pré-ordenada: · Agente decide se embriagar para perpetrar a conduta delituosa: agrava a pena, art. 61 (agravante genérica) Potencial consciência da ilicitude · Necessário que o autor saiba da ilegalidade dos atos ou tenha a possibilidade de conhecer · Alegação de desconhecimento da lei não é argumento válido (inescusável) · Mas deve ser valorado conforme o contexto em que vive o autor do fato · Não é uma premissa absoluta · O que se cobra é o “conhecimento do profano” = aquele que pode ser obtido por alguém leigo (conhecimento social) · “Valoração paralela da esfera do profano”: é ligada à culpabilidade, à potencial consciência da ilicitude = os critérios* utilizados pela doutrina para identificar essa consciência da ilicitude · Agente tem consciência da ilicitude: não responde pelos atos · Agente não possui consciência da ilicitude: erro de proibição = excludente · *Critérios: · Critério formal · Binding, Beling e Von Liszt · Só existe a consciência da ilicitude quando o agente, efetivamente, conhece a norma penal violada e seus efeitos (não acolhido) · Critério material · Mayer e Kaufmann · Para identificar a potencial consciência da ilicitude, o agente deve ter conhecimento do caráter injusto (antissocial) do fato praticado (não acolhido) · Critério intermediário · Welzel · Para a identificação da potencial consciência da ilicitude não se exige juízo técnico nem critério material, mas sim base no juízo da uma pessoa leiga/comum (adotado pela doutrina) · Para a valorização paralela da esfera do profano deve ser seguido o critério intermediário, e esta relacionada ao fato de se analisar o comportamento do agente acerca do fato praticado levando em conta as peculiaridades do agente Exigibilidade de conduta diversa · Teoria da normalidade das circunstâncias concomitantes: Reinhart Frank · Só tem culpabilidade o agente que pratica o fato típico e ilícito em uma situação de normalidade, ou seja, quando era exigível uma conduta diversa · Juízo sobre as opções que o agente possuía no momento em que praticou o fato típico e ilícito · Considera as circunstâncias do fato e se era possível agir de outra forma, respeitando o ordenamento jurídico · Hipóteses de excludentes: · Coação moral irresistível. Requisitos: · Emprego de grave ameaça contra alguém, de modo a obriga-lo a fazer ou deixar de fazer algo · Ameaça grave contra o próprio coagido ou contra terceiro · Ameaça irresistível = não pode ser superada pelo homem médio · Aqui quem responde é o coator = a autoria do agente coagido é mediata, mero instrumento do coator · A pena do coator é agravada, art. 62, II · Obediência hierárquica (estrita obediência a ordem): previsão específica de direito público (não se aplica a relações de direito privado) · Não manifestamente ilegal: o agente acredita estar agindo dentro da legalidade · Se sabe que a ordem é ilegal, ambos os agentes respondem pela conduta · Se há a aparência de legalidade, apenas o superior hierárquico responderá · Descobrir se a ordem é ilegal: · Atribuição prevista em lei · Ordem de acordo com as formalidades legais · Caso concreto · De superior hierárquico: autoridade competente · Relação de direito público · O agente é mediato · Causa supralegal: dificuldades financeiras da empresa e descumprimento de ordem tributária · Não é pacífica, mas se cabalmente comprovadas podem ser admitidas como causa supralegal de inexigibilidade de conduta diversa · Coculpabilidade: reconhecimento de parcela da responsabilidade do agente sendo atribuída ao próprio estado, poque não oferece saúde, educação, emprego. Pode funcionar como: · Causa de excludente de culpabilidade: não é prevista na lei, então não é aplicada · Causa de redução de pena: art. 66 = não é aplicada *A coação moral resistível atenua a pena do agente coagido: art. 65, III, “b” Zaffaroni defende que todos os elementos da culpabilidade poderiam se resumir a um único elemento: a exigibilidade de conduta diversa. Ora, se o agente não tem imputabilidade (menor de 18 anos ou deficiente mental, ele não sabe o que está fazendo, logo, não se pode exigir dele uma conduta diversa. Da mesma forma, se o agente não tem potencial consciência da ilicitude, não é possível exigir dele uma conduta diversa. Causas supralegais de exclusão da culpabilidade: