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Rosilene Siray Bicalho Lúcia Maria Pôrto de Paula LIVRO DO PROFESSOR Com viver com ciência Alinhado com a BNCC, Com viver com ciência busca orientar para uma formação continuada do professor do Ensino Médio. Todas as propostas aqui apresentadas valorizam o diálogo entre as partes en- volvidas no processo de aprendizagem. O projeto de vida do pro- fessor, o isolamento disciplinar, a interdisciplinaridade e os proces- sos de avaliação estruturam esta obra e são integrados ao longo dos capítulos, de modo a demonstrarem suas questões específicas, mas também a sua forte conexão na prática escolar cotidiana. Para me- diar as discussões sobre os objetos do conhecimento foram eleitos subtemas a partir de três Temas Contemporâneos Transversais: Saú- de, Ciência e Tecnologia, e Meio Ambiente, articulando-os às com- petências gerais do Ensino Básico e às competências específicas da área de Ciências da Natureza e suas Tecnologias. Esta obra é um convite à reflexão-ação, pois, ao se apropriar mais de si, o professor se torna mais capaz de viver o nós e modificá-lo. Afinal, o que é aprender, se não, o modificar ideias, e, consequente- mente as ações sobre elas? C om viver com ciên cia R o sile n e Siray B icalh o • Lú cia M aria P o rto d e P au la BIOLOGIA Ciências da Natureza e suas Tecnologias LIVRO DE FORMAÇÃO CONTINUADA ISBN: 978-65-88618-03-5 9 786588 618035 G U I A P N L D G U I A P N L D Rosilene Siray Bicalho Professora de Biologia. Mestre e doutora em Parasitologia pela Universidade Federal de Minas Gerais. Lúcia Maria Pôrto de Paula Professora de Biologia. Mestre em Ecologia, Conservação e Manejo da Vida Silvestre pela Universidade Federal de Minas Gerais. Com viver com ciência LIVRO DO PROFESSOR Belo Horizonte – 1ª edição – 2021 BIOLOGIA – Ciências da Natureza e suas Tecnologias G U I A P N L D Copyright © 2021 by Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula COLABORADORES Ana Paula Lima Cerqueira Professora de Química. Especialista em Gerenciamento de Recursos Hídricos. Mestranda em Educação em Química. Marcos Antônio Nicácio Professor de Química. Especialista em Educação Ambiental. Luiz Carlos de Souza Professor de Filosofia e Português. Doutor em Literatura de Língua Portuguesa. EDITOR Rafael Borges de Andrade COORDENAÇÃO EDITORIAL, CAPA E PROJETO GRÁFICO Mário Vinícius Silva PRODUÇÃO EDITORIAL Alice Bicalho ASSISTENTE EDITORIAL Olívia Almeida DIAGRAMAÇÃO Elen Carvalho – Formata Alexandre Alves ILUSTRADOR Carlos Jorge Nunes PREPARAÇÃO DE ORIGINAIS Débora de Castro Barros REVISÃO DE PROVAS Cida Ribeiro ASSISTENTE DE LICENCIAMENTO DE DIREITOS AUTORAIS Camila Parreiras Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) de acordo com ISBD 1ª edição, janeiro de 2021 Proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem o consentimento por escrito da editora. Todos os direitos reservados à: RHJ Livros Ltda. Rua Helium, 119 – Nova Floresta – Belo Horizonte/MG – CEP: 31140-280 Telefone: (31) 3334-1566 – editorarhj@rhjlivros.com.br – www.rhjlivros.com.br Impresso no Brasil Printed in Brazil B583c Bicalho, Rosilene Siray. Com viver com ciência / Rosilene Siray Bicalho, Lúcia Maria Pôrto de Paula. - Belo Horizonte, MG : RHJ, 2021. 140 p. : il. ; 20,5cm x 27,5cm. Inclui índice e bibliografia. ISBN: 978-65-88618-03-5 1. Formação continuada. 2. Professor. 3. BNCC. 4. Ensino Médio. I. Paula, Lúcia Maria Pôrto de. II. Título. 2020-3281 CDD 370 CDU 37 Elaborado por Odilio Hilario Moreira Junior - CRB-8/9949 Índice para catálogo sistemático: 1. Educação 370 2. Educação 37 G U I A P N L D Carta ao professor Prezado colega, Nossa proposta com este livro é subsidiá-lo para os desafios intrínsecos ao Novo Ensino Médio, conforme a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Esse Novo Ensino Médio continua a compor uma sequência histórica de importantes mudanças político-social-econômicas. Somente em 1942, com a Reforma Gustavo Capanema, o Ensino Médio estruturou-se definitivamente como um curso regular basilar para o Ensi- no Superior. A partir desse momento, tivemos importantes mudanças po- lítico-econômicas, e, em 1961, foi sancionada a primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), cujo artigo 33 do Título VII diz que “a educação de grau médio, em prosseguimento à ministração na escola primária, destina-se à formação de adolescente”. No período do regime militar, a Lei no 5.692/1971 fixou as diretrizes e bases para o ensino de 1o e 2o graus, indicando escolaridade obrigatória dos 7 aos 14 anos de idade e a generalização do Ensino Profissionalizante para o 2o grau. Com a pro- mulgação da nova Constituição, em 1988, a educação ganha destaque no artigo 205, “visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”, sendo compreendida como um direito de todos e dever do Estado e da família. Em 1996, foi aprovada a segunda LDB, e a Educação Básica ficou dividida em Educação Infantil (desenvolvimento da criança até os seis anos), Ensino Fundamental (duração mínima de oito anos) e Ensino Médio (duração mí- nima de três anos), Profissionalizante e Superior. Houve também a criação dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). A BNCC, homologada em 14 de dezembro de 20181, propõe uma profun- da transformação no Ensino Básico. Que transformação é essa? O que essa transformação exigirá de você, professor, e da equipe gestora? Os PCNs orientavam o professor para o desenvolvimento de trabalhos inter- disciplinares e já propunham uma organização por área de conhecimen- to, porém a organização do currículo ainda era majoritariamente pensada por disciplinas. A BNCC modifica essa estrutura, e o trabalho por área do conhecimento busca atender ao desenvolvimento de competências gerais e específicas. Com isso, modifica-se a relação entre ensino e objetos de conhecimento, exigindo-se que os professores repensem suas práticas a partir da formação das competências e das habilidades a serem desen- volvidas pelos estudantes, e não como nas antigas disciplinas. Haverá a 1 Para ver o histórico da estruturação da BNCC acesse: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/historico. G U I A P N L D necessidade da construção de novas relações de ensino-aprendizagem, estruturadas em áreas de conhecimento. Socializaremos com você um pouco de nossas experiências como pro- fessores do Ensino Médio. As vivências são sempre únicas, mas podemos mostrar, por meio delas, possíveis atuações que fazem diferença no coti- diano. Acreditamos, com base em nossa prática pedagógica, que o estudo das ciências biológicas não se limita a uma mera apresentação sistemática de conteúdos previstos nos currículos de Ensino Médio. As ciências biológicas, como um campo do saber, encantam facilmente as pessoas, independentemente de idade, sexo ou posição social. Nossa mis- são, como educadores, é produzir um pouco desse encantamento e trazer para a sala de aula, e para outros espaços, o mundo intricado, complexo e profundamente bonito da VIDA. Neste livro, vamos auxiliá-lo na construção e na condução de uma prática pedagógica com base na proposta da BNCC para a área das ciências da natureza. Não podemos dizer que seja uma prática fácil, isso porque nossa formação foi e é disciplinar, situação que está ainda muito longe de ser a ideal. Professores são geralmente levados a apresentar aos estudantes determinados conteúdos de biologia simplesmente porque fazem parte, tradicionalmente, doscurrículos dessa disciplina; os estudantes, por sua vez, não veem muito sentido nas aulas simplesmente porque a forma de apresentação dos conteúdos (objetos do conhecimento), em geral, não agrega nenhum significado a suas vidas. Os estudantes não devem assimilar conteúdos (os objetos do conheci- mento) somente como informações, mas atribuir-lhes novos significados, para construir conhecimentos. Assim, tanto para professores quanto para estudantes, em termos pedagógicos, o que se propõe é que a biologia seja parte integrante de suas vidas, dentro e, sobretudo, fora do espaço escolar. Viemos de escolas, do ensino fundamental ao superior, de concepção tra- dicional. O empacotamento disciplinar e a concepção que o segue são muito fortes e solidificam nossa forma de pensar e de enxergar o entorno. Vamos socializar com você um pouco de nossas vivências no que se refere aos incômodos, às decisões de mudança, à saída da acomodação, às frus- trações, aos acertos e aos erros, ao se trabalhar de forma interdisciplinar e por área do conhecimento. Como nos prepararmos para essa mudança? Você consegue enxergar a inserção do conhecimento de outras áreas em suas discussões? Você considera alguma área do conhecimento mais importante que outra? No momento de discutir a organização curricular de sua escola, você argu- mentou a favor do aumento do número de aulas de biologia? Você argu- mentou a favor de aumento da carga horária de outra área do conheci- mento? Você argumentou a favor da organização por área e da otimização G U I A P N L D das cargas horárias a partir da interação das áreas? Você já assistiu a uma aula de outra área, e vice-versa, e depois debateu com os outros profes- sores? Você já trabalhou em conjunto com professores de outras áreas? De que forma? Devo avaliar o estudante ou o produto entregue por ele? Você acredita que estaria “dando moleza” para seu aluno, caso devolvesse a prova para ele refazer e justificar as questões corrigidas como erradas? Essas perguntas serão apresentadas e discutidas ao longo do livro. Propu- semos trabalhar com alguns Temas Contemporâneos Transversais (TCTs), temas esses que buscam contextualizar o que é ensinado, trazendo aspec- tos de interesse dos estudantes. Os TCTs não pertencem a nenhuma área em particular e atravessam todas elas; permitem diferentes abordagens, principalmente a inter e a transdisciplinar. A proposta é que consigamos dialogar com as três áreas do conhecimento que compõem a área das ciências da natureza (biologia, física e química) e com outras áreas, de forma a proporcionar um maior entendimento do tema a ser discutido. Atualmente, estamos sentindo a necessidade de fazer a conexão entre di- versas áreas do conhecimento. Percebemos que, por mais especificida- des que tenha uma dessas áreas, ela sempre estará interligada com outras, compondo toda a dinâmica desse imenso ambiente no qual vivemos e criamos. Vale ressaltar o papel da linguagem como parte integrante de nossas vidas, dentro e, sobretudo, fora da escola, sendo instrumento indispensável tanto para a aquisição e a comunicação de conhecimentos em quaisquer áreas quanto para a participação nas mais diversas áreas sociais de interlocução. Portanto, esperamos que este livro o ajude a trilhar novos caminhos ou a reforçar os já trilhados por você na interdisciplinaridade, que é a coopera- ção e o diálogo entre as disciplinas em uma ação coordenada. Ou, quem sabe, o auxilie a expandir para a transdisciplinaridade, que, segundo Do- mingues (2003), procura aproximar campos de conhecimento, buscando unificá-los. Os autores e os colaboradoresG U I A P N L D Sumário CAPÍTULO 1 – RECURSOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS ........................................................... 9 Abordagens teórico-metodológicas de cada dimensão ....................................................... 11 Dimensão I – Conhecimento de si, do outro e do nós (miniprojeto de vida para os professores) ....................................................................... 11 A autorreflexão ...........................................................................................................14 Discussão do projeto de vida para o professor ...................................................14 A percepção de sua prática pedagógica...............................................................15 Discussão dos modelos pedagógicos e epistemológicos ................................16 Dimensão II – O saber disciplinar em xeque (problematização do isolamento disciplinar) ................................................................ 20 Dimensão III – Área de conhecimento em foco (problematização da interdisciplinaridade) .................................................................... 22 Dimensão IV – Repensando a avaliação (mapeando novos processos de avaliação) ................................................................... 23 Organização da obra .....................................................................................................................25 Princípio norteador das discussões dos objetos do conhecimento da área e desenvolvimento das competências e habilidades ....................................25 Estratégias pedagógicas para trabalhar os TCTs e as quatro dimensões .......................... 28 Os TCTs e as quatro dimensões ....................................................................................... 28 Dimensão I – Conhecimento de si, do outro e do nós ................................... 28 Dimensão II – Problematização do isolamento disciplinar Dimensão III – Problematização da interdisciplinaridade ............................... 29 Dimensão IV – Repensando a avaliação ..............................................................31 CAPÍTULO 2 – SAÚDE – CORPO E SAÚDE AMBIENTAL ..............................................................33 Dimensão I – Conhecimento de si, do outro e do nós .........................................................33 Atividade: Conhecendo a si mesmo ............................................................................... 34 Atividade: Conhecendo o outro e o nós .........................................................................35 Vivência: Refletindo sobre sua prática pedagógica ..................................................... 36 Situação 1 ................................................................................................................... 36 Situação 2 ....................................................................................................................41 Situação 3 ....................................................................................................................41 Situação 4 ................................................................................................................... 42 Situação 5 ................................................................................................................... 43 Dimensão II – O saber disciplinar em xeque ........................................................................... 44 Dialogando com os reais interesses do estudante ...................................................... 46 Vivência: Anorexia – história ............................................................................................ 46 G U I A P N L D Vivência: Anorexia – conceito, causas e consequências ........................................... 49 Vivência: Estudando o conceito de anorexia .................................................................51 Vivência: Estudando as consequências da desnutrição causada pela anorexia nervosa em nosso organismo ................................................................. 54 Desdobramentos e atividades .......................................................................................... 58 Conteúdo a ser ensinado, sua natureza e as estratégias e hipóteses didáticas ...................................................................................................58 Dimensão III – Área de conhecimento em foco .................................................................... 59 Proposta interdisciplinar: Alimentos ................................................................................61 Atividade: O corpo – como o vejo e como ele é visto? ............................................. 63 Atividade: A boneca cresceu, e agora? (o padrão de beleza e suas consequências) .................................................................. 65 Atividade: Olhando para o próprio corpo ....................................................................... 71 Atividade: O alimento e a evolução humana .................................................................73 CAPÍTULO 3 – CIÊNCIA E TECNOLOGIA .......................................................................................83 Dimensão I – Conhecimento de si, do outro e do nós ........................................................ 83 Vivência: Conhecimento de si .......................................................................................... 83 Vivência: Conhecimento do eu, do outro e do nós no espaço escolar ............................................................................................................... 85 Vivência: Refletindo sobre a prática pedagógica: metodologia ou tecnologia? ............................................................................................87 Vivência: Ciência e tecnologia: é possível separá-las? ............................................... 90 Vivência: Somos apenas uma peça do quebra-cabeça .............................................. 94 Dimensões II e III – O saber disciplinar em xeque ................................................................. 96 Contextualização: transgênicos e agrotóxicos ............................................................ 96 Atividade: Breve introdução ao tema dos organismos transgênicos e dos agrotóxicos ................................................................................................................... 98 Vivência: A história da descoberta da molécula de DNA ........................................... 98 Vivência: Transgênicos ..................................................................................................... 102 Vivência: Relação entre organismos transgênicos e agrotóxicos .......................... 103 Vivência: Visita virtual a um museu de ciências e tecnologia ................................. 109 Atividade: Dialogando com as palavras ........................................................................ 109 CAPÍTULO 4 – MEIO AMBIENTE – EDUCAÇÃO PARA O CONSUMO ..................................... 112 Atividade: Conhecimento de si ....................................................................................... 112 Atividade: Conhecimento do eu, do outro e do nós no espaço escolar ...............114 G U I A P N L D O eu, o outro e o nós na educação para o consumo ................................................ 115 Educação para o Consumo .............................................................................................116 Vivência: Consumo de alimentos orgânicos ................................................................ 117 Atividade: Experiências no ambiente do espaço escolar ..........................................118 Os objetos do conhecimento na Educação para o Consumo ............................... 130 Vivência: Compreendendo situações do dia a dia a partir das vivências no espaço escolar .............................................................................................................. 131 Vivência: Compreendendo situações do dia a dia a partir da Educação para o Consumo .......................................................................... 131 A importância das vivências para o entendimento e a mudança de comportamento e atitudes ..............................................................................................133 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................................135 REFERÊNCIAS ....................................................................................................................................136 G U I A P N L D CAPÍTULO 1 Recursos teórico-metodológicos A BNCC propõe que as decisões pedagógicas sejam orientadas para o de- senvolvimento de competências e habilidades, devendo os estudantes “sa- ber” e “saber fazer”. Isso significa: • “saber” – ter os conhecimentos, desenvolver as habilidades, conhecer a existência e desenvolver atitudes e valores. Mas, sobretudo, • “saber fazer” – referindo-se a utilizar esses conhecimentos e essas ha- bilidades, vivenciando as atitudes e os valores desenvolvidos. […] a BNCC indica que as decisões pedagógicas devem estar orientadas para o desenvolvimento de competências. Por meio da indicação clara do que os alunos devem “saber” (considerando a constituição de conhecimentos, habi- lidades, atitudes e valores) e, sobretudo, do que devem “saber fazer” (consi- derando a mobilização desses conhecimentos, habilidades, atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho), a explicitação das competências oferece referências para o fortalecimento de ações que assegurem as aprendizagens essenciais definidas na BNCC. (BRASIL, 2018, p. 13). Na BNCC, competência é definida como a mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas, cognitivas e socioemocio- nais), atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho. (BRASIL, 2018, p. 8). Para atender a essas orientações e exercer a real função do ato de educar, devemos, em nossa prática pedagógica, colocar nosso estudante na posi- ção de protagonista de seu aprendizado, enquanto assumimos o papel de mediadores. Para conduzir essa prática, é importante: contextualizar o ensino, valorizar os conhecimentos trazidos pelos estudantes e abrir um campo de investi- gação. Como fazer isso? Para que preciso aprender isso? Algum aluno seu já lhe fez essa pergunta? É importante parar e pensar nessa pergunta. Até que ponto as estratégias que utilizamos tornam os conteúdos dos componentes curriculares signi- ficativos para nossos estudantes? No documento da BNCC (BRASIL, 2018, p. 16), consta: “contextualizar os conteúdos dos componentes curriculares, identificando estratégias para apresentá-los, representá-los, exemplificá-los, conectá-los e torná-los 9Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D significativos, com base na realidade do lugar e do tempo nos quais as aprendizagens estão situadas”. Vejamos mais de perto tais questões, a partir da análise de alguns verbetes. Contextualizar: significa observar a realidade local. Como essa realidade local se conecta com questões em escalas municipais, esta- duais, nacionais ou internacionais? Qual é o momento importante que a comunidade está vivenciando? Qual é a cultura local que ne- cessita ser resgatada, intensificada ou valori- zada? Qual é a situação que seus estudantes ou a escola estão colocando em evidência, seja positiva, seja negativamente? São várias as situações que deixamos passar, sem valo- rizarmos sua importância para o bem-estar pessoal, social e ambiental e a construção cognitiva dos estudantes. Precisamos estar atentos a questões que estejam provocando mudanças comportamentais em nossos es- tudantes e/ou na comunidade escolar, ques- tões culturais, situações presentes nas diver- sas comunidades, inclusive mundiais, que abalam o bem-estar social-político-econô- mico e ambiental. O contexto está intrinse- camente ligado ao conteúdo trabalhado, de forma que, se você não está conectado com o momento, vai propiciar uma aprendizagemmenos efetiva. Conhecimentos e vivências trazidos pelos estudantes: valorizar os conhecimentos pré- vios dos estudantes e as vivências que eles trazem é de fundamental importância, para que possamos partir para a discussão e a ela- boração de uma proposta contextualizada e motivadora para o aprendizado. Pesquisado- res apontam que, para aprender algo, todos nós utilizamos os conhecimentos que já fo- ram previamente ancorados (subsunçores). Indicamos adiante uma leitura que poderá auxiliá-lo no entendimento do que é conhe- cimento prévio, como diagnosticar esse co- nhecimento e como, a partir dele, desenvol- ver as propostas pedagógicas. No segundo capítulo, daremos exemplos de diagnóstico de alguns desses conhecimentos prévios. CONVITE À LEITURA MOREIRA, M. A; CABALLERO, M. C.; RODRI- GUEZ, M. L. (org.). Aprendizagem significati- va: um conceito subjacente. In: ENCUENTRO INTERNACIONAL SOBRE EL APRENDIZAJE SIGNIFICATIVO, 1997, Burgos. Actas. Burgos, Espanha, 1997. p. 19-44. Disponível em: https://www.if.ufrgs.br/~moreira/ apsigsubport.pdf. Acesso em: 1º dez. 2020 A aprendizagem significativa é um conceito sub- jacente a subsunçores, esquemas de assimilação, internalização de instrumentos e signos, cons- trutos pessoais e modelos mentais, significados compartilhados e integração construtiva de pen- samentos, sentimentos e ações. Segundo Vasconcelos, para que ocorra o pro- cesso de aprendizagem é preciso que o estu- dante tenha capacidade sensorial e motora, além da ca- pacidade de operar mentalmente; ter co- nhecimento prévio relativo ao objeto de conhecimento; ter acesso ao objeto de co- nhecimento; querer conhecer o objeto; agir sobre o objeto e expressar-se sobre o objeto. (VASCONCELOS, 2009, apud SAVARIS, 2016) Por outro lado, para a efetivação desse pro- cesso torna-se relevante que os educadores disponham de sensibilidade, diálogo e afe- tividade, além de proporcionar “ambientes, linguagens e metodologias que não violen- tem o universo psicossocial do aluno, de forma que ele se reconheça no contexto da aprendizagem”. (FURTADO, 2010 apud SAVARIS, 2016). Campo para investigação: ter um campo de pesquisa que possa ser estudado minuciosamente e que possa responder aos questionamentos e, ao mesmo tempo, gerar novos – essa é a proposta da BNCC. Ou seja, no lugar de pretender que jovens somente 10 Com viver com ciência G U I A P N L D ouçam ou aprendam o que sabemos, devemos apresentar-lhes o mundo como um campo aberto para a investigação. Para formar esses jovens como sujeitos críticos, criativos, autônomos e res- ponsáveis, cabe às escolas de Ensino Médio proporcionar experiências e pro- cessos que lhes garantam as aprendizagens necessárias para a leitura da rea- lidade, o enfrentamento dos novos desafios da contemporaneidade (sociais, econômicos e ambientais) e a tomada de decisões éticas e fundamentadas. O mundo deve lhes ser apresentado como campo aberto para investigação e intervenção quanto a seus aspectos políticos, sociais, produtivos, ambientais e culturais, de modo que se sintam estimulados a equacionar e resolver questões legadas pelas gerações anteriores – e que se refletem nos contextos atuais –, abrindo-se criativamente para o novo. (BRASIL, 2018, p. 465). A posteriori selecionar e aplicar metodologias e estratégias didático-pedagógicas diversi- ficadas, recorrendo a ritmos diferenciados e a conteúdos complementares, se necessário, para trabalhar com as necessidades de diferentes grupos de alunos, suas famílias e cultura de origem, suas comunidades, seus grupos de socializa- ção etc. (BRASIL, 2018, p. 17). Assim, este livro busca auxiliá-lo na condução de sua prática pedagógica segundo as orientações da BNCC. © C P A M e d ia P te L td / A la m y St o c k P h o to Figura 1 – O que vejo? Apropriando-se do princípio da teoria da Gestalt, que atesta não ser possível ter co- nhecimento do “todo” por meio de suas par- tes, pois o todo é maior que a soma de suas partes, e corroborando com Santos (2009, p. 14), para quem “a percepção visual é um fenômeno difícil de explicar, pois é o ponto de contato, ou melhor, a interface entre o mundo físico e o mundo mental, sensível e inteligível”, vamos olhar para a Figura 1. O QUE VOCÊ VÊ? SERÁ QUE TODOS VEEM A MESMA COISA? Abordagens teórico-metodológicas de cada dimensão Neste tópico, orientaremos você utilizando uma abordagem teórico-metodológica com base na concepção construtivista. Durante as reflexões que vamos propor, você atuará como pro- tagonista de seu conhecimento. Infelizmente, não estaremos interagindo frente a frente, mas vamos lhe propor que você faça algumas reflexões em relação a seu conhecimento e com- portamento como pessoa, um ser social e um profissional, e proporemos discussões relacio- nadas com as questões envolvendo os entraves disciplinares, a problematização da interdis- ciplinaridade e o processo avaliativo. Do segundo capítulo em diante, discutiremos com você alguns exemplos de atividade didática partindo dos TCTs. DIMENSÃO I – CONHECIMENTO DE SI, DO OUTRO E DO NÓS (MINIPROJETO DE VIDA PARA OS PROFESSORES) 11Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D Se mostrarmos essa figura para outras pes- soas, provavelmente algumas verão outra imagem, diferente da que você viu, o que é chamado de ilusão de ótica. Assim, da mes- ma forma, outras pessoas pensam, compor- tam-se e vivem de maneiras diferentes de você. Isso ocorre porque somos únicos, te- mos uma história, e mesmo que tenhamos vivenciado as mesmas coisas ou fatos, sua ação sobre cada um de nós é diferente. E a imagem abaixo? O que é isto? Essa res- posta está ligada especificamente a uma per- cepção visual ou depende de um conheci- mento específico? POR QUE ESSA DISCUSSÃO? Você possivelmente está se fazendo essa pergunta, afinal de contas está lendo este li- vro na condição de professor. Mas é possível separar a pessoa do professor? A forma de pensar, de enxergar seu entorno, de se sen- sibilizar com o outro, de compreender e se relacionar com o mundo tem a ver com essa pessoa que se formou para ser professor. Carl G. Jung dizia: “O inconsciente é o gran- de guia, o amigo e conselheiro do conscien- te” (JUNG, 1964, p. 12). Olhar para dentro faz despertar. Este é o convite que fazemos a você a par- tir de agora: olhar para dentro de si mesmo. Procure fazer isso em um momento de maior tranquilidade, sem estar preocupado com horário ou outra atividade. Reserve alguns minutos para você. Seria importante ter um caderno para anotar suas reflexões. Posteriormente, você poderá reler tudo o que escreveu, afinal de contas as coisas que acontecem conosco geram mu- danças em nossa forma de pensar, agir e en- xergar o outro e o mundo. Essas reflexões poderão auxiliá-lo a pensar ou a repensar seu projeto de vida, incluindo ser professor. E, para que possamos entender o que vem a ser um projeto de vida, convida- mos você à leitura a seguir. PROJETO DE VIDA A principal ferramenta de trabalho do professor é a sua pessoa, sua cultura, a relação que instaura com os alunos, individual ou coletivamente. Mesmo que a formação esteja centrada nos saberes, na didática, na avaliação, na gestão de classe e nas tecnologias, nunca deve esquecer a pessoa do professor. (PERRENOUD, 2002, p. 176) Mas o que é um PROJETO DE VIDA? Literalmente, a palavra “projeto” significa propósito de executar algo. Etimologicamente, a palavra “projeto” deriva do latim projectus, que significa lançar para frente. Segundo Machado, […] cada ser humano, ao nascer, é lançado no mundo, como um jato de vida. Paulatinamente, constitui-se como pessoa, na medida em que desenvolve a capacidade de antecipar ações, de eleger continuamente metas a partir de um quadro de valores historicamente situado, e de lançar-se em busca das mesmas, vivendo, assim, a própria vida como um projeto. (MACHADO, 2006, p.2). © A rq u iv o p e ss o al das a u to ra s Figura 2 – O que você vê? 12 Com viver com ciência G U I A P N L D Segundo Boutinet (2002 apud SOUSA; ALVES, 2019), a palavra “projeto” é si- nônimo de desígnio, intenção, finalidade, objetivo, alvo, planejamento e pro- grama. Projetar algo é comum à espécie humana, e a intenção de projetar vem acompanhada de metas a serem alcançadas. Muitas vezes, planejamos, mas não conseguimos atingir nossa(s) meta(s). Por que isso ocorre? Para Machado (2006), a ideia de “projeto” apresenta alguns ingredientes funda- mentais: • Referência ao futuro – o projeto consiste na antecipação de uma ação; não se trata de uma previsão do futuro, e, sim, de algo a ser feito nele. Barbie (1994 apud MACHADO, 2006. p. 6) afirma: “o projeto não é uma simples repre- sentação do futuro, do amanhã, do possível, de uma ideia; é o futuro a fazer, um amanhã a concretizar, um possível a transformar em real, uma ideia a transformar em acto [sic.]”. • Abertura para o novo – “não se faz projeto quando só se tem [sic.] certezas, ou quando se está imobilizado por dúvidas. […] a sabedoria do projetar con- siste na fixação de metas que podem ser atingidas independentemente dos agentes, ou tão imediatas que sejam suficientes para motivá-los[,] mas tam- bém não sejam tão inacessíveis que semeiem a sensação de impotência ou de desamparo”. (MACHADO, 2006 p. 7) • Caráter indelegável da ação projetada – o projeto deve ser feito pelo sujeito que o projetou. Podemos elaborar projetos com outros, mas não pelos outros. “Assim como não se pode viver pelo outro, não se pode ter projetos por ele. […] no mesmo sentido um professor não pode impacientar-se tanto com o insucesso de seu aluno, ou desejar ajudar com tanto entusiasmo que tente determinar as metas a serem atingidas pelo outro ou realizar as ações proje- tadas em seu lugar” (MACHADO, 2006, p. 19). Outros dois pontos importantes defendidos por Machado (2006) é a singulari- dade de um projeto e a ilusão, essa sendo associada à ideia de imaginação ou fantasia. Quanto à singularidade, por mais que os projetos sejam semelhantes, haverá uma identidade em cada um; já quanto à ilusão, é preciso acreditar, ter esperança. CONVITE À LEITURA MACHADO, N. J. Educação: projetos e valores. 6. ed. São Paulo: Escrituras, 2006. (Coleção En- saios Transversais). Os textos apresentados nessa coletânea oferecem subsídios para uma compreensão mais nítida da importância das ideias de projeto e de valor no universo educacional. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/ pluginfile.php/4122951/mod_resource/content/3/ Texto%20do%20Nilson%20Machado%20 %28livro%20completo%29.pdf. Acesso em: 1º dez. 2020. A pessoa precisa acreditar em si mesma e em sua projeção. “Um professor precisa de ilusão pelos alunos. Precisa acreditar na semeadu- ra, na fecundidade de um trabalho[,] que, sob muitos aspectos, assemelha-se ao de Sísifo, condenado a rolar eternamente morro acima uma pedra que, noite após noite, retorna à base do morro” (MACHADO, 2006, p. 19). 13Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D Agora, o convidamos a continuar as reflexões. São várias as perguntas que precisamos, queremos ou não queremos fazer, mas que são necessárias, quando temos por objetivo estruturar ou reestruturar nosso projeto de vida. Com as novas experiências e a aquisição de novos conhecimentos, você poderá mudar seus objetivos e metas. Por isso, seu projeto de vida precisa ser flexível, dando margem a acréscimos e retiradas, quando assim julgar necessário. A autorreflexão Eu pessoa A. Eu sou… B. Sempre quis… C. Desejo… D. Fico feliz quando… E. Minha vontade é… F. Neste momento, quero… G. Uma frase bonita sobre mim… Eu professor A. Sou um professor… B. Sempre quis ser um professor… C. Desejo ser um professor… D. Vejo um professor como… E. Minha vontade é ensinar… F. Neste momento, quero… G. Uma frase bonita sobre minha profissão… Eu aluno A. Fui… B. Gostava da aula de… C. Aprendi… D. Não gostava de… E. Gostaria que a aula fosse… F. Gostava quando o professor… G. As aulas que me lembro foram… Eu colega A. Sou um colega… B. Sempre quis ser e ter um colega… C. Desejo conviver com meu colega… D. Minha vontade é trabalhar com um… E. Neste momento, quero ser um colega… F. Meus colegas me fazem mais… G. Uma frase bonita sobre um colega… Discussão do projeto de vida para o professor Após esse autoconhecimento, é importante que você anote também como os outros o veem como pessoa, professor e colega. Ouvir as pessoas que nos cercam é muito importante, para que possamos ficar mais atentos a nossas atitudes. Muitas vezes, não percebemos os efeitos de determinadas atitudes ou comportamentos, e os incorporamos como algo normal. Nossos comportamentos, em geral, são formas de defesa, e podemos ter incorpo- rado o ataque, a ironia, a não resposta, com o intuito de nos defendermos. Segundo Mendes et al. (2012): Entendendo a autoimagem e a autoestima como, respectivamente, a percepção e a valoração que o sujeito faz de si e estando estes dois construtos relaciona- dos com o modo como os outros o veem e o avaliam, consideramos que estas influenciam na construção do autoconceito, sendo que todas as relações sociais são fundamentais para a elaboração da formação do self. (MENDES, 2012, p.11). 14 Com viver com ciência G U I A P N L D A percepção de sua prática pedagógica Indo além no desenvolvimento da Dimensão I, consideremos também suas escolhas pedagó- gicas. Em qual desses exemplos você se identifica na condução de sua prática? Exemplo 1 1o passo Preparação Você recorda a atividade anterior. 2o passo Apresentação Você coloca o aluno diante de um novo conhecimento que deve assimilar. 3o passo Assimilação, comparação Você percebe que a assimilação ocorrerá por comparação: o novo é assimilado a partir do velho. 4o passo Generalização Você percebe que o aluno deve ser capaz de identificar todos os fenômenos correspondentes ao conhecimento adquirido. 5o passo Aplicação Você verifica com exemplos novos se o aluno efetivamente assimilou o que lhe foi ensinado. Exemplo 2 1o passo Problema Você expõe um problema para os alunos. 2o passo Pesquisa Você busca as informações com o objetivo de que essas informações possam ajudar a resolver o problema. 3o passo Leitura Você faz a leitura do material e expõe as informações para o aluno. 4o passo Discussão Você, de posse do material pesquisado, prepara uma aula em que no material se encontra a discussão das diferentes informações e, assim, as transmite aos alunos. 5o passo Avaliação Você prepara questões objetivas e/ou abertas para validar se o aluno conseguiu assimilar o que foi falado em sala de aula. Exemplo 3 1o passo Problema Você expõe um problema para os estudantes. 2o passo Pesquisa Os estudantes terão de pesquisar as informações para a possível resolução do problema. 3o passo Leitura O estudante faz a leitura de todo o material e levanta os questionamentos que serão discutidos com os colegas. 4o passo Discussão De posse do material pesquisado, o estudante discutirá com os colegas de sala. Você é o ouvinte e faz poucas intervenções. 5o passo Avaliação Você elabora questões para validar se o aluno conseguiu assimilar o que foi falado em sala de aula. As avaliações poderão ser objetivas e/ou abertas e individuais, em dupla ou em grupo. 15Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D Exemplo 4 1o passo Diagnóstico Você diagnostica os conhecimentos prévios dos estudantes sobre o tema que será estudado. Esse tema já foi previamente selecionado pelos estudantes e por você. 1o passo Desenvolvimento da temática A partir dos conhecimentos prévios dos estudantes, vocês (estudantes e professor) selecionarão material de interesse para discussão do tema. 2o passo Discussão Você organiza uma discussão na sala de aula ou em outro ambiente que favoreça o desenvolvimento dessa atividade. Nessadiscussão, você e os estudantes trarão seus questionamentos, e você fará o papel de mediador da aprendizagem. 3o passo Avaliação Todos os resultados obtidos a cada atividade serão avaliados por você e pelos estudantes. Para que os objetivos quanto à aprendizagem possam ser alcançados, você utiliza diferentes instrumentos de caráter cognitivo, interacional e autoavaliativo. Discussão dos modelos pedagógicos e epistemológicos Toda proposta de ensino tem como base uma concepção de aprendiza- gem (POZZO, 2002). Muitas vezes, o professor segue uma proposta já uti- lizada na escola e não procura saber qual episteme e teoria embasam sua prática. Esse conhecimento nos ajuda a entender a concepção do aluno, do professor e da escola. Outro ponto importante é quando tentamos modificar algumas atividades de nossa prática pedagógica e acreditamos que estamos mudando a con- cepção pedagógica, mas, na maioria das vezes, estamos mantendo a mes- ma concepção de aprendizagem anterior. Por que isso ocorre? A mudança de concepção exige uma mudança de postura e um real in- cômodo com a prática pedagógica instalada. Vejamos as relações entre o modelo epistemológico, modelo pedagógico e as teorias de aprendizagem: 1. No modelo epistemológico Empirista, o conhecimento do sujeito vem da experiência com o objeto. Nele temos a relação (Objeto Sujeito). No processo educacional, esse modelo epistemológico cor- responde à Pedagogia diretiva, ou seja, o aprendizado do aluno está diretamente relacionado ao que o professor ensina (Professor Alu- no). Além disso, esse modelo pedagógico é orientado pela teoria da aprendizagem Comportamental/Behaviorista que propõe um estí- mulo que gera uma resposta (Estímulo Resposta). 2. No modelo Apriorista (Sujeito Objeto), o conhecimento é ine- rente ao sujeito. Nesse modelo, as contribuições do objeto são 16 Com viver com ciência G U I A P N L D desvalorizadas. No processo educacional esse modelo epis- temológico corresponde à Pedagogia não diretiva, ou seja, o aprendizado do aluno não está diretamente relacionado ao que o professor ensina, mas ao que traz da sua herança genética (Aluno Professor). O modelo Apriorista é orientado pela teoria da aprendizagem da Gestalt. 3. No modelo interacionista, o conhecimento é construído a partir da interação entre o sujeito e o objeto (Sujeito Objeto). No processo educacional esse modelo corresponde à Pedagogia Relacional, ou seja, à construção do conhecimento a partir da interação entre aluno e professor (Aluno Professor). Esse modelo pedagógico é orien- tado pela teoria da aprendizagem construtivista histórico-cultural, centrado na ação e na linguagem. No modelo epistemológico empirista, o ser humano é visto como uma tábula rasa (uma folha em branco), e o conhecimento é incorporado a partir das experiências adquiridas no meio físico, mediado pelos órgãos dos sentidos. O modelo pedagógico relacionado é o da pedagogia diretiva, em que o aluno aprende porque o professor ensina, e a teoria relaciona- da é a behaviorista, ou seja, a aprendizagem é compreendida como uma modificação no comportamento do sujeito provocada pelo “agente que ensina”, utilizando estímulos reforçadores adequados sobre o sujeito que “aprende”. Esse modelo epistemológico e a teoria behaviorista são a base da concep- ção da escola tradicional. O professor é o centro, repassa as informações, o aluno repete/reproduz e o professor reforça, para aumentar as chances de obtenção dos resultados esperados. Parte-se do pressuposto de que a inteligência é uma aquisição que torna o ser humano capaz de armazenar informações das mais simples às mais complexas. É preciso fragmentar a realidade a ser estudada com o objetivo de simplificar a complexidade dos conhecimentos, facilitando que o aluno armazene os resultados do processo. O papel do indivíduo no processo de aprendizagem é basicamente de passividade, como afirma Mizukami: […] atribui-se ao sujeito um papel irrelevante na elaboração e aquisição do co- nhecimento. Ao indivíduo que está adquirindo conhecimento compete memo- rizar definições, enunciados de leis, sínteses e resumos que lhe são oferecidos no processo de educação formal a partir de um esquema atomístico. (MIZUKA- MI, 1986, p. 11). O modelo epistemológico apriorista é o contrário do empirista. “Aprioris- mo” vem de a priori, isto é, aquilo que é posto antes (bagagem hereditária) como condição do que vem depois (BECKER, 2001). Considera-se que o indivíduo, ao nascer, já tenha as condições predeterminadas para a apren- dizagem. Segundo Facin (2017), na concepção apriorista, a partir da teoria da forma ou da Gestalt (conhecimento visto das partes para o todo), o 17Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D conhecimento é visto como algo inerente ao sujeito, necessitando ser despertado. O modelo pedagógico, nesse caso, é não di- retivo, sendo o professor um facilitador com uma pequena intervenção no processo de aprendizagem do aluno. O professor precisa estimular o aluno para que o conhecimento desperte e se efetive. Existe uma supervalori- zação da percepção, chegando-se a confun- dir percepção com cognição. Esse modelo está mais nas concepções pe- dagógicas e epistemológicas do que na prá- tica da sala de aula. Segundo Becker: O aluno já traz um saber que ele precisa, apenas, trazer à consciência, organizar, ou, ainda, rechear de conteúdo. O professor deve interferir o mínimo possível. Qualquer ação que o aluno decida fazer é, a priori, boa, instrutiva. É o regime do laissez-faire: “deixa fazer” que ele encontrará o seu caminho. O professor deve “policiar-se” para interferir o mínimo possível. Qualquer semelhança com a liberdade de mercado do neo-liberalismo [sic.] é mais do que coincidência. O professor não-diretivo acredita que o aluno aprende por si mesmo. Ele pode, no máximo, auxi- liar a aprendizagem do aluno, despertando o conhecimento que já existe nele. (BECKER, 2001, p. 4). Ainda segundo Becker, […] o resultado é um processo que caminha inevitavelmente para o fracasso, com preju- ízo imposto a ambos os pólos [sic.]. O pro- fessor é despojado de sua função, “sucate- ado”. O aluno guindado a um status que ele não tem e sua não-aprendizagem explicada como “déficit herdado”; impossível, portanto, de ser superado. (BECKER, 2001, p. 6). Já no modelo construtivista, a pedagogia é relacional, ou seja, professor e aluno traba- lham juntos, e ambos ensinam e aprendem. O professor, além de ser um aprendiz, tam- bém é um mediador. Ele trará para o grupo sua experiência de vida, sua vivência acadê- mica e seus questionamentos. Os estudan- tes também trarão suas experiências de vida, seus aprendizados escolares e seus questio- namentos. O professor ou a escola que tra- balham com essa concepção compreendem (teoria) que o aluno só aprenderá alguma coisa, isto é, construirá algo novo, se agir e problematizar sua ação (BECKER, 2001). Em outras palavras, ele sabe que há duas condições necessárias para que algum co- nhecimento novo seja construído: a) que o aluno aja (assimilação) sobre o material que o professor presume que tenha sido cognitiva- mente interessante, ou melhor, significativo para o aluno; b) que o aluno responda para si mesmo às perturbações (acomodação) pro- vocadas pela assimilação deste material, ou, que o aluno se aproprie, neste segundo mo- mento, não mais do material, mas dos me- canismos íntimos de suas ações sobre este material, este processo far-se-á por “refle- xionamento e reflexão”. (PIAGET, 1977, apud BECKER, 2001, p. 6-7). Agora, vamos discutir os exemplos apresen- tados na atividade anterior. Exemplo 1: Nesse exemplo, repare que o professor é o centro do processo. Ele recor- da a atividade anterior, o estudante responde e ele reforça o conteúdo, para que o estu- dante identifique todos os fenômenos cor- respondentes ao conhecimento adquirido. Esse exemplo corresponde à concepção tra-dicional. Exemplo 2: O professor continua sendo o centro. O docente, apesar de instigar o es- tudante com a apresentação de um proble- ma real, fez todas as buscas de informações, apresenta as discussões do material e faz a validação do que foi assimilado. O estudante continuou passivo no processo. Esse exem- plo também corresponde à concepção tra- dicional. Exemplo 3: O professor estimula os estudan- tes, trazendo um problema de interesse, e eles terão de pesquisar as informações, fazer as leituras dos textos, levantar os questiona- mentos, preparar o material para ser discu- 18 Com viver com ciência G U I A P N L D tido com os colegas. A participação do professor é a de um facilitador, porém, no final, a “avaliação” é dele. Foi o docente que elaborou questões para validar se seus estudantes conseguiram assimilar o que foi falado em sala de aula. Observe que, mesmo dando voz ao estudante, no final, o professor validou o que o estudante assimilou ou memorizou. Mas e o que aprendeu? E as outras questões, além do cognitivo? Apesar de usar o modelo pedagógico não diretivo, o professor ainda continua no centro, e sua participação nas atividades foi pouca, mas a avaliação final contou so- mente com a participação do professor. Apesar da tentativa, a concepção ainda é uma concepção tradicional. Exemplo 4: Nesse exemplo, o professor e os alunos estão ensinando e aprendendo. Há uma relação de construção do aprendizado de ambos os lados. Existe a preocupação de diagnosticar os conhecimentos já exis- tentes dos estudantes sobre o tema selecionado por ambos (professor e alunos), de buscar informações (professor e alunos) para discussão e en- tendimento do tema, de discutir em voz alta e com a escuta de todos e de avaliar o processo de aprendizado por parte do professor e dos estudan- tes. O professor utilizará diferentes instrumentos, cognitivos ou não. Esse exemplo segue a concepção construtivista. De acordo com Piaget (apud BECKER, 2001, p. 10), não se pode fazer in- terdisciplinaridade se as direções sujeito-objeto dos modelos epistemoló- gicos não estiverem sobrepostas à relação aluno-professor dos modelos pedagógicos. CONVITE À LEITURA BECKER, F. Modelos pedagógicos e modelos epistemológicos In: BECKER, F. Edu- cação e construção do conhecimento. Porto Alegre: Artmed, 2001. p. 15-32. O autor aborda as três diferentes formas de representar a relação entre ensino e aprendizagem escolar, ou, mais especificamente, entre o exercício da docência e as atividades de sala de aula. São discutidos os modelos pedagógicos: a) pedagogia diretiva; b) pedagogia não diretiva; e c) pedagogia relacional ou construtivista. É apresentado como tais modelos são sustentados, um a um, por concepções episte- mológicas. Disponível em: https://www.larpsi.com.br/media/mconnect_uploadfiles/c/a/ cap_01_95_.pdf. Acesso em: 1º dez. 2020. Segundo Perrenoud, é preciso reconhecer que os professores não possuem apenas saberes, mas também competências profissionais que não se reduzem ao domínio dos con- teúdos a serem ensinados, e aceitar a ideia de que a evolução exige que to- dos os professores possuam competências antes reservadas aos inovadores ou àqueles que precisavam lidar com públicos difíceis. (PERRENOUD, 2001) 19Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D A partir do que considera serem as cinquen- ta competências cruciais para a profissão de educador, este autor descreve 10 grandes “famílias”. São elas: 1. Organizar e estimular situações de aprendizagem. 2. Gerar a progressão das aprendizagens. 3. Conceber e fazer com que os dispositi- vos de diferenciação evoluam. 4. Envolver os alunos em suas aprendiza- gens e no trabalho. 5. Trabalhar em equipe. 6. Participar da gestão da escola. 7. Informar e envolver os pais. 8. Utilizar as novas tecnologias. 9. Enfrentar os deveres e os dilemas éticos da profissão. 10. Gerar sua própria formação contínua. Considerando essas 10 grandes famílias de competências a serem desenvolvidas, pode- mos vislumbrar algumas outras questões que o nortearão na construção do seu projeto de vida: • Qual o meu objetivo enquanto profes- sor? • Quais as características e demandas do público para quem eu irei lecionar? • Até que ponto as minhas condições pes- soais afetam minha atuação profissional, ou seja, minha prática docente? • Quais são as minhas necessidades para atingir os meus objetivos enquanto professor? • O que devo fazer para suprir essas ne- cessidades? • Quais etapas eu preciso cumprir de for- ma otimizada? • Quais demandas são exigidas para que eu possa cumprir cada etapa? • Qual o prazo que necessito para o cum- primento de cada etapa? • Esses prazos atenderão às demandas que terei durante a minha prática pedagógica? DIMENSÃO II – O SABER DISCIPLINAR EM XEQUE (PROBLEMATIZAÇÃO DO ISOLAMENTO DISCIPLINAR) Porque[,] num mundo em que ninguém mais parece entender ninguém, tor- na-se imprescindível que abandonemos a rotinização e as falsas seguranças de que ainda se vangloriam nossas disciplinas isoladas e nos entreguemos ao sonho da aventura transdisciplinar concertativa[,] apresentando-se como um meio de compensar as lacunas de um pensamento científico mutilado pela especialização e exigindo a restauração de um pensamento globalizante em busca de unidade, por mais utópica que possa parecer. (JAPIASSU, 2006, p. 17). Como dominar os objetos do conhecimento de nosso respectivo compo- nente curricular ou campo de saber no que se refere à BNCC para o Ensino Médio? 20 Com viver com ciência G U I A P N L D Dominar os objetos de conhecimento do campo de saber é algo que requer atualiza- ção constante e uma visão para além de nos- sa área. Corroborando Moreto: Conhecer os conteúdos significa conhecer não apenas conceitos, definições ou fórmu- las, mas também as relações que ligam esses conteúdos conceituais às experiências vividas pelos alunos em seu dia a dia. É preciso de- senvolver procedimentos que demonstrem aos alunos as relações existentes e permitam que eles adquiram atitudes pertinentes com o desenvolvimento pleno da cidadania (MO- RETO, 2003, p. 115). Não tem como dominar os objetos de conhe- cimento de sua área sem conhecer o que dos outros objetos de conhecimento das outras áreas influencia o entendimento do conteúdo em estudo. Por exemplo, para desenvolver a competência CNT101: Analisar e representar, com ou sem o uso de dispositivos e de aplicativos digitais específi- cos, as transformações e conservações em sistemas que envolvam quantidade de maté- ria, de energia e de movimento para realizar previsões sobre seus comportamentos em situações cotidianas e em processos pro- dutivos que priorizem o desenvolvimento sustentável, o uso consciente dos recursos naturais e a preservação da vida em todas as suas formas. (BRASIL, 2018, p. 557). Primeiramente precisamos dominar o con- ceito de matéria e energia. O que é matéria? Como pode se transformar? Quais são os componentes da matéria? Qual a relação en- tre matéria e energia? Reparem que os objetos de conhecimento das áreas de química e física estão comple- tamente intricados na compreensão des- se contexto. Além disso, precisamos definir o que são fenômenos, o que e quais são os processos tecnológicos e como analisar os impactos socioambientais destes. Como fa- zer isso sem conhecer e entender a dinâmica ambiental e as influências das ações huma- nas sobre esse ambiente? É importante perceber que trabalhar por com- petência não permite ficar preso a uma única área do conhecimento. No caso, os objetos de conhecimento da área da biologia exem- plificados, como interações entre os fatores abióticos e os seres vivos, interações entre os seres vivos, cadeias e teias alimentares, cadeia energética, produção primária e secundária, curvas de crescimento e sobrevivência, po- tencial biótico etc. revelam a intricada relação e dinâmica da matéria e da energia.Assim, os objetos de conhecimento da física e da quími- ca contribuem para a explicação da existência e das alterações dessa matéria e energia. Ou seja, não tem como desenvolver as compe- tências com os conhecimentos de uma única área. Como se estruturam, em uma hierarquia, es- ses objetos de conhecimento? Quanto à hie- rarquização dos objetos de conhecimento, ela estará muito relacionada com o modelo epistemológico e o modelo pedagógico uti- lizado. Se for o modelo diretivo, essa hierar- quia será determinada pelo professor. O que vem primeiro? Geralmente, os professores da escola que segue esse modelo afirmam que, se determinado conteúdo não for dado pri- meiro, o estudante não conseguirá entender o próximo, e a quantidade de conteúdo tam- bém é determinada por eles. Caso o modelo seja construtivista, a hierarquia dos objetos de conhecimento poderá ser determinada a partir do diálogo e do interesse de nossos estudantes. Pode-se partir do macro para o micro, ou seja, de algo palpável para algo que ele tenha de abstrair, ou vice-versa, de forma contextualizada. Muitas vezes, nós nos perguntamos: como posso representar, formular e expor esses objetos de conhecimento, de modo a torná- -los compreensíveis para os estudantes? Primeiramente, precisamos trazer esses ob- jetos para dentro de um contexto de inte- resse para os estudantes. Um exemplo seria entender o contexto de uma reportagem 21Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D sobre a possibilidade de alegação de paternidade: como ler e entender, se não souber a base da composição e da função da molécula de ácido desoxirribonucleico (DNA)? É importante ouvir nossos estudantes, bem como quais são seus interesses e questionamentos. Por que não começar por aí? Outro ponto importante é que, considerando a perspectiva histórica dos indivíduos, perceberemos a evolução de alguns conceitos, técnicas e com- portamentos sociais, como foram modificados ao longo do tempo e como essas mudanças interferiram no objeto de estudo. É importante resgatar a história como uma subsunção (uma âncora), para amparar o que hoje se sabe da realidade. Além disso, a história, conforme Morin (2011), não constitui uma evolução linear. Trata-se da sobreposição de devires, que se entrechocam com imprevistos, incertezas, que comportam evoluções, involuções, progressões, regressões e rupturas. É preciso que estejam certos que o mundo é da incerteza e que nós temos que preparar nossos estudantes para enfrentar as incertezas do momento. A perspectiva histórica a todo momento nos lembra dessa incerteza. O conhecimento pertinente é aquele que pede exames, verificações e convergência de indícios. (MORIN, 2011, p. 75). • Como estabelecer relações entre os ob- jetos do campo de saber com os demais objetos da área de conhecimento da bio- logia? • Como dialogar sobre as diferentes maneiras de representar, formular e expor esses ob- jetos que foram correlacionados, de modo a tornar o conjunto compreensível para os estudantes? • Como identificar diferentes estratégias de ensino e atividades adequadas a esse conjunto de objetos? • Como estruturar o conjunto de objetos em uma progressão adequada à realidade local? • Como mapear o que torna, para os estu- dantes, a relação entre ensino e apren- dizagem mais fácil ou mais difícil nesse novo contexto integrado por área? • Como trabalhar as habilidades propostas na BNCC se são interfaces entre duas ou mais disciplinas? Vamos ler, primeiramente, este pequeno tex- to de Hugo Assmann, que assim escreveu em seu livro Reencantar a educação: rumo à so- ciedade aprendente: Interdisciplinaridade. O enfoque científico e pedagógico que se caracteriza por buscar algo mais que do que mera justaposição das contribuições de diversas disciplinas sobre um mesmo assunto, e se esforça por estabelecer um diálogo enriquecedor entre especialistas de diversas áreas científicas sobre uma deter- minada temática. Aplica-se a problemas, ati- vidades e projetos que ultrapassam a capaci- dade de uma só área disciplinar. O conceito expressa a consciência dessa limitação das disciplinas específicas, mas não transforma isso necessariamente num questionamen- to epistemológico mais radical, como o faz a transdisciplinaridade. (ASSMANN, 2001, p. 162). DIMENSÃO III – ÁREA DE CONHECIMENTO EM FOCO (PROBLEMATIZAÇÃO DA INTERDISCIPLINARIDADE) 22 Com viver com ciência G U I A P N L D As áreas se completam e dialogam. Parti- mos novamente dos princípios de Morin (2011), para quem o todo tem qualidades ou propriedades que não são encontradas nas partes, se estas estiverem isoladas umas das outras, e certas qualidades ou propriedades das partes podem ser inibidas pelas restrições provenientes do todo (MORIN, 2011, p. 34). Sabemos, por vivências acumuladas nes- ses anos de efetivo exercício da docência, que, conforme afirma Morin (2011), muitas ideias não são apreendidas, porque se igno- ra a complexidade do conhecimento. A so- ciedade comporta as dimensões histórica, econômica, sociológica, religiosa… O co- nhecimento pertinente deve reconhecer o caráter multidimensional e nele inserir seus dados: não apenas se poderia isolar uma par- te do todo, mas as partes umas das outras; a dimensão econômica, por exemplo, está em inter-retroação permanente com todas as outras dimensões humanas; além disso, a economia carrega em si, de modo “holo- grâmico”, necessidades, desejos e paixões humanas que ultrapassam os meros interes- ses econômicos (MORIN, 2011, p. 35, 36). Daí decorre a importância de trabalhar em sala a ecologia do consumo, a história da humani- dade, o consumo de alimentos orgânicos ou não… No cotidiano de todos nós não existe a com- partimentação que visualizamos no espaço escolar. O estudante, para conseguir saber fazer algo, necessita buscar respostas que só serão possíveis com a utilização de ideias ge- radas utilizando o pensamento complexo. O aprendizado é construído considerando o aluno como um “tomador de decisão”, como um sujeito capaz de decidir, de modificar seu entorno, enfim, de saber fazer. Portanto, pensar em um ensino efetivo, capaz de cons- truir cidadania, é pensar em como explorar as particularidades e as potencialidades dos saberes. Nesse processo, a reflexão crítica é uma es- tratégia para o aluno perceber e tomar cons- ciência de sua realidade, visando à sua trans- formação e à de seu entorno. CONVITE À LEITURA JAPIASSU, H. O sonho transdisciplinar e as razões da filosofia. Rio de Janeiro: Imago, 2006. Cada vez mais, as demandas da sociedade à ciên- cia exigem questionamentos e abordagens trans- disciplinares solicitando respostas encontradas por uma concertação de disciplinas. Neste contex- to, não só o interdisciplinar surge como exigência, a complexidade como cientificamente frequentá- vel e o transdisciplinar como abordagem legítima. (JIAPIASSU, 2006). O autor mostra como é impossível resolver os problemas da sociedade tendo uma visão disci- plinar. A forma como aborda o assunto prende o leitor do início ao fim do livro. DIMENSÃO IV – REPENSANDO A AVALIAÇÃO (MAPEANDO NOVOS PROCESSOS DE AVALIAÇÃO) Por que, geralmente, nós, professores, apre- sentamos uma forte contradição entre o dis- curso e a prática no que diz respeito ao pro- cesso avaliativo? Segundo Hoffmann (1995), principalmente a ação classificatória e auto- ritária exercida pela maioria dos educadores encontra explicação na concepção de ava- liação do educador, reflexo de sua história de vida como aluno e professor. Nós viemos sofrendo a avaliação em nossa trajetória de alunos e professores. É neces- sária a tomada de consciência dessas influ- ências para que nossa prática avaliativa não reproduza, inconscientemente, a arbitra- riedade e o autoritarismo que contestamos pelo discurso. Temos de desvelar contra- dições e equívocos teóricos dessa prática, construindo um ressignificado para a avalia- çãoe desmitificando-a de fantasmas de um passado ainda muito em voga. (HOFFMANN, 1995 p. 12-13). 23Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D Estamos acostumados a nos preocupar com a distribuição de pontos para aprovação e re- provação dos alunos. “O nosso exercício pe- dagógico escolar é atravessado mais por uma pedagogia do exame que por uma pedagogia do ensino/aprendizagem”. (LUCKESI, 2003, p. 18). Precisamos criar oportunidades para que os estudantes possam mostrar seu entendimen- to do que está sendo estudado, permitindo, ao mesmo tempo, que reflitam sobre essa forma de compreensão e que possam mu- dar de opinião ou postura, se necessário. A utilização de diferentes instrumentos avalia- tivos nos auxilia a detectar o entendimento dos estudantes, bem como lhes possibilita a oportunidade de demonstrar melhor seu aprendizado: “Avaliar é dinamizar oportuni- dades de ação/reflexão, num acompanha- mento permanente do professor, que incitará o aluno a novas questões a partir de respos- tas formuladas” (HOFFMANN, 1995, p. 20). Como instrumentos avaliativos, podemos citar: provas escrita e oral; seminários; rela- tórios de diferentes atividades; grupos de dis- cussão; exercícios de assimilação; propostas de projetos; execução e discussão de proje- tos; participação e contribuição nas ativida- des em grupo; autoavaliação e avaliação dos colegas quanto à participação nas atividades em conjunto, etc. Outro ponto importante é a coerência da avaliação com o modelo epistemológico e pedagógico utilizado na escola. Caldeira, com muita clareza, afirma: A avaliação escolar é um meio e não um fim em si mesma; está delimitada por uma de- terminada teoria e por uma determinada prá- tica pedagógica. Ela não ocorre num vazio conceitual, mas está dimensionada por um modelo teórico de sociedade, de homem, de educação e, consequentemente, de en- sino e de aprendizagem, expresso na teoria e na prática pedagógica. (CALDEIRA, 2000, p. 122). Na concepção tradicional, a avaliação é feita partindo-se do princípio de que o professor fala e o aluno o escuta, assimila e reproduz no instrumento avaliativo. Alguns professores procuram mudar as atividades, ou seja, fazem uma aula de laboratório, levam a campo, fa- zem seminário… Porém, o princípio é o mes- mo: quem determina o que será pontuado é o professor, e o aluno não tem o direito de rever seu “erro”. Um exemplo que podemos citar é quando o professor dá uma aula so- bre fotossíntese no laboratório, mostrando: liberação do oxigênio, presença de pigmen- tos e amido nas folhas e influência da inten- sidade luminosa. No momento da avaliação, ele pergunta: o que é fotossíntese? A respos- ta que ele considerará correta será a contida no livro didático, ou seja, a resposta do aluno dependerá de sua capacidade de memoriza- ção, e não de sua capacidade de construção do conceito a partir do aprendizado com as atividades práticas e as leituras teóricas. Na concepção construtivista, avaliar é ofere- cer oportunidades de reflexão, tanto por par- te do professor quanto por parte do aluno. É um processo interativo e dialógico. A avalia- ção mostra ao professor o que foi aprendido pelo aluno, fazendo-o refletir sobre a eficá- cia de sua prática educativa e orientando-o para intervenções necessárias. Para o aluno, a avaliação o informa sobre seus avanços, di- ficuldades e possibilidades. Segundo Hoffmann, […] a ação avaliativa abrange justamente a compreensão do processo de cognição. Porque o que interessa fundamentalmente ao educador é dinamizar oportunidades de o aluno refletir sobre o mundo e de conduzi-lo à construção de um maior número de verda- des, numa espiral necessária de formulação e reformulação de hipóteses. (HOFFMANN, 1995, p. 23). Já segundo Soffner: (i) A aprendizagem é processo, e não produ- to; mas só podemos avaliá-la indiretamente, 24 Com viver com ciência G U I A P N L D por meio dos produtos gerados pelos apren- dentes e por seu desempenho; (ii) A aprendi- zagem gera mudança no conhecimento, nas crenças, nas atitudes e no comportamento dos alunos; mas é bastante difícil medi-la; (iii) A aprendizagem não é algo feito aos alunos, mas algo que eles mesmos fazem; e aqui existem fatores individuais a serem conside- rados, como defendem as teorias de apren- dizagem mais ativas; (iv) A aprendizagem não é guiada apenas por fatores pedagógicos, mas também por indicadores sociais, emo- cionais e motivacionais, o que dificulta sua medição (SOFFNER, 2018, p. 97). Segundo Ronca e Escobar (1986), no pro- cesso de aprendizagem é importante que o professor seja um bom observador e que es- tabeleça junto com o aluno os critérios para a avaliação do processo. Na avaliação do pro- duto, o professor deve ter sempre em mente quais foram as condições de aprendizagem, quem fala, de onde fala, como fala e quais são os problemas propostos. É importante também que o professor esteja durante todo o processo oferecendo uma devolutiva para o estudante. Ainda segundo Ronca e Escobar (1986, p. 78), é importante que o professor, no momento de dar retorno ao estudante, aponte: • a coerência entre os princípios teóricos explicitados e as alternativas de solução; • a capacidade de distinguir informações essenciais de acidentais para a solução de problemas; • o grau de elaboração e de transformação das informações recebidas; • a capacidade de utilizar o conhecimento em outras situações da vida. Organização da obra Para alcançarmos esses princípios e contribuirmos para a continuidade de sua formação, trabalharemos neste livro as interligações na área da Ciência da Natureza, conforme as seguintes estratégias metodológicas: PRINCÍPIO NORTEADOR DAS DISCUSSÕES DOS OBJETOS DO CONHECIMENTO DA ÁREA E DESENVOLVIMENTO DAS COMPETÊNCIAS E HABILIDADES A cada capítulo que se segue, estruturaremos exemplos de possíveis tra- balhos em sala de aula que nos guiarão para as propostas de atividades e vivências a serem realizadas por vocês, professores. Assim, os exemplos não devem ser entendidos como modelos a serem repetidos, mas apenas como pontos de partida para um trabalho direcionado aos professores, para que sejam capazes de elaborar suas propostas a partir de seus con- textos com autonomia. Nossa proposta é utilizarmos alguns TCTs norteadores dos exemplos de trabalhos em sala de aula. Parece interessante notar que os TCTs não são exclusivos de nenhuma área em particular e atravessam todas elas, permi- tindo, por isso, dialogar com a realidade e o interesse dos estudantes. Além disso, atendem às demandas da sociedade contemporânea, ou seja, trata- -se daqueles que são intensamente vividos pelas comunidades, pelas famí- 25Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D lias, pelos estudantes e pelos educadores no dia a dia, que influenciam e são influencia- dos pelo processo educacional (MEC, 2019). Esses temas são amplos (Saúde; Meio Am- biente; Ciência e Tecnologia; Cidadania e Ci- vismo; Multiculturalismo e Economia) e nos permitem uma grande flexibilidade, para que possamos trabalhar os objetos do conheci- mento dentro da realidade do momento, seja ela local, regional, nacional ou internacional. Um exemplo possível seria trabalhar o tema Saúde e focar a realidade do momento, que é a pandemia do coronavírus. Focado nesse contexto real, poder-se-ia discutir com nos- sos estudantes: como eles estão percebendo essa pandemia?; quais são seus questiona- mentos?; o que é a doença?; quais são as ca- racterísticas do vírus?; quais são as interações e a transmissão do vírus?; quais são as ações do vírus no organismo humano?; quais são as reações dos diferentes sistemas à presença do vírus?; qual é a imunidade do organismo ao vírus?; qual é a importância da vacina para a comunidade e o indivíduo?; como pode ser feita essa vacina? Já ocorreram outros momentos na história em que o isolamentosocial foi uma medida preventiva para conter o surto de uma doença? Quando? Onde? Já existiram outras enfermidades em que indiví- duos assintomáticos transmitiam a doença? Nossa proposta é trabalhar as quatro dimen- sões, utilizando os TCTs. Na BNCC, a pro- posta do ensino por competência é defini- da como a mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos). Os TCTs exi- gem a mobilização dos conhecimentos, ou seja, os objetos dos conhecimentos serão trabalhados conforme a demanda para o en- tendimento da temática a ser estudada e os esclarecimentos dos questionamentos que surgirão com os estudos. Haverá uma gran- de flexibilidade e recursividade dos objetos do conhecimento das diferentes áreas. Essa mobilização permitirá também o desenvolvi- mento das habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais) propostas para a área das Ciências da Natureza. Para nossa proposta, elegemos os temas Saúde (Corpo e Saúde Ambiental), Ciência e Tecnologia, e Meio Ambiente (Educação para o Consumo). A proposta é que cada um des- ses temas possa ser trabalhado em determi- nada série do Ensino Médio, durante todo o ano, considerando que as competências se desenvolvem de forma progressiva, à medi- da que o sujeito se depara com as situações apresentadas e vivenciadas. No que tange ao desenvolvimento das quatro dimensões propostas nesta obra para a for- mação do professor, o primeiro tema, Saú- de, pretende despertar a preocupação com o conhecimento da fisiologia do corpo e sua interdependência da saúde ambiental. É pre- ciso conhecer a fisiologia e os sinais de nosso corpo às mudanças internas e externas, bem como os sinais e as consequências para o ambiente externo quando ocorrem mudan- ças em nosso corpo e em nossa sociedade. O segundo tema, Ciência e Tecnologia, con- vida o professor a trabalhar sua concepção de ciências, a conhecer o que a mente humana produz e a questionar os impactos de novas descobertas. O conhecimento dos princípios básicos de cada tecnologia gerada nos ajuda- rá a opinar e a aderir, ou não, aprovar, ou não, propor alterações às novas tecnologias. Ou seja, contribuir de forma cidadã para o pro- gresso e a saúde de nosso ambiente. Na abordagem do terceiro tema, Meio Am- biente, propusemos trabalhar com Educação para o Consumo. Geralmente, ao consu- mirmos um produto, não nos preocupamos com a origem de sua matéria-prima, sua du- rabilidade, as consequências ambientais com o aumento da produção desse produto, o real grau da necessidade para a aquisição do produto, a possível substituição desse produ- to e outras questões que poderiam amenizar significativamente as condições do ambiente 26 Com viver com ciência G U I A P N L D em que vivemos. Muitas vezes, o conhecimento desconexo e fragmenta- do sobre a intrincada rede de inter-relações presente no ambiente nos faz optar pelo mais fácil e até pelo mais caro, dependendo do produto e de sua durabilidade. Esse tema nos permitirá trabalhar com nossos conhe- cimentos biológicos, dialogando com as outras áreas do conhecimento, as que compõem ou não a área das Ciências da Natureza, e ao mesmo tempo contextualizar o professor em um de seus comportamentos, que poderá ser alterado a partir das reflexões que serão realizadas. Partindo-se desse tema, vamos trabalhar matéria e energia. O quadro a seguir apresenta os objetos do conhecimento da área da Ciên- cia da Natureza que serão trabalhados nos TCTs propostos. Temas Contemporâneos Transversais (TCTs) Objetos de conhecimento Competências e habilidades Saúde Corpo, Saúde Ambiental Biologia: metabolismo celular (morfologia e fisiologia celular); morfologia e fisiologia animal. Física: termodinâmica. Química: constituição química dos alimentos; reações químicas; oxidação, redução e antioxidantes; função orgânica. Todas as competências gerais Competência específica 2 EM13CNT203 EM13CNT205 EM13CNT207 EM13CNT208 Ciência e Tecnologia Biologia: genética molecular e hereditária; biotecnologia e evolução. Física: cinética, mecânica, ótica; termodinâmica. Química: propriedades da matéria (densidade, pontos de fusão e ebulição); fenômenos físicos e químicos; substâncias inorgânica e orgânica; a química no cotidiano. Competências específicas 1 e 3 EM13CNT104 EM13CNT105 EM13CNT301 EM 13CNT303 EM13CNT304 EM13CNT305 EM13CNT306 (continua) 27Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D Temas Contemporâneos Transversais (TCTs) Objetos de conhecimento Competências e habilidades Meio Ambiente Educação para o Consumo Biologia: ecossistemas (conceito, dinâmica ambiental – cadeias, teias alimentares, pirâmides ecológicas, inter-relações, produtividade bruta e liquida); consumo: por quê, quando e como consumir. Biomas: impactos ambientais. Física: mecânica (movimentos dos corpos); termodinâmica; óptica; eletromagnetismo; física nuclear. Química: propriedades da matéria (densidade, pontos de fusão e ebulição); fenômenos físicos e químicos; substâncias inorgânica e orgânica; físico-química. Competência específica 1 EM13CNT101 EM13CNT105 Estratégias pedagógicas para trabalhar os TCTs e as quatro dimensões Os TCTs serão os norteadores e fornecerão a ponta para chegar a uma intricada rede de relações. O entendimento dessas redes auxiliará tanto alunos quanto professores na compreensão do funcionamento de seu en- torno. No momento em que a teia de saberes estiver sendo tecida, estará sendo pensado o conjunto dos conhecimentos, ao mesmo tempo que serão vivenciados. As quatro dimensões serão trabalhadas em cada TCT e em cada atividade. OS TCTS E AS QUATRO DIMENSÕES Dimensão I – Conhecimento de si, do outro e do nós Essa dimensão será trabalhada em todos os TCTs. O objetivo da proposta é levar o professor a uma autorreflexão sobre o pensar, o falar e o fazer. As atividades a serem desenvolvidas para essa dimensão poderão ser adap- tadas pelos professores, para que sejam utilizadas também pelos estudan- tes em sua autorreflexão e na relação com outras pessoas, inclusive seus colegas. (conclusão) 28 Com viver com ciência G U I A P N L D No entanto, as questões gerais relacionadas com essa dimensão serão apresentadas em destaque na abordagem dos TCTs Saúde e Ciência e Tec- nologia. Já no TCT Meio Ambiente – Educação para o Consumo não serão mais destacadas; porém, estarão presentes em todo o desenvolvimento do texto. O andamento das atividades em atendimento à Dimensão I, se analisadas por uma perspectiva pedagógica, capacitará o professor ao trabalho com as competências gerais 6 e 7 da BNCC, que são: 6. Valorizar a diversidade de saberes e vivências culturais e apropriar-se de co- nhecimentos e experiências que lhe possibilitem entender as relações próprias do mundo do trabalho e fazer escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e res- ponsabilidade. 7. Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para for- mular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que res- peitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta. (BRASIL, 2018, p. 11) As atividades propostas permitirão a você, professor, refletir sobre seu comportamento, diferente ou igual, em relação à sua proposta de ensi- no. Isso lhe proporcionará perceber que o comportamento de seu aluno poderá ser e/ou permanecer diferente do que é ensinado. Esse comporta- mento pode apresentar uma justificativa que, se ouvida e analisada, poderá fazer com que o discurso e as estratégias de ensino possam ser outros. Proporemos discussões que mostrarão a necessidade do desenvolvimento de uma capacidade de argumentação. Dimensão II – Problematização do isolamento disciplinar DimensãoIII – Problematização da interdisciplinaridade Trabalharemos essas dimensões com propostas de atividades que deman- dem a resolução de problemas. Inicialmente, faremos discussões somente no campo disciplinar, ou seja, no campo da biologia, e mostraremos os entraves para conseguir propor soluções aos problemas apresentados. Em seguida, faremos discussões envolvendo diferentes áreas do conhecimen- to e, posteriormente, uma comparação do alcance das discussões e do número de propostas para a possível resolução do problema. De modo semelhante à Dimensão I, as Dimensões II e III serão destacadas e abordadas separadamente no TCT Saúde. Já no TCT Ciência e Tecnologia, serão destacadas e abordadas concomitantemente. No TCT Meio Ambiente – Educação para o Consumo, por sua vez, elas não serão destacadas, sendo abordadas simultaneamente em todo o desenvolvimento do tema. 29Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D A abordagem dessas duas dimensões contri- buirá para o desenvolvimento das dez com- petências gerais da BNCC com as propostas apresentadas para os três TCTs escolhidos. 1. Valorizar e utilizar os conhecimentos his- toricamente construídos sobre o mundo fí- sico, social, cultural e digital para entender e explicar a realidade, continuar aprendendo e colaborar para a construção de uma socie- dade justa, democrática e inclusiva. 2. Exercitar a curiosidade intelectual e re- correr à abordagem própria das ciências, in- cluindo a investigação, a reflexão, a análise crítica, a imaginação e a criatividade, para investigar causas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas e criar solu- ções (inclusive tecnológicas) com base nos conhecimentos das diferentes áreas. 3. Valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, e também participar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural. 4. Utilizar diferentes linguagens – verbal (oral ou visual-motora, como Libras, e escri- ta), corporal, visual, sonora e digital –, bem como conhecimentos das linguagens artísti- ca, matemática e científica, para se expressar e partilhar informações, experiências, ideias e sentimentos em diferentes contextos e pro- duzir sentidos que levem ao entendimento mútuo. 5. Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as es- colares) para se comunicar, acessar e disse- minar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva. 6. Valorizar a diversidade de saberes e vi- vências culturais e apropriar-se de conheci- mentos e experiências que lhe possibilitem entender as relações próprias do mundo do trabalho e fazer escolhas alinhadas ao exer- cício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência críti- ca e responsabilidade. 7. Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular, nego- ciar e defender ideias, pontos de vista e de- cisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioam- biental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta. 8. Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, compreendendo- -se na diversidade humana e reconhecendo suas emoções e as dos outros, com autocrí- tica e capacidade para lidar com elas. 9. Exercitar a empatia, o diálogo, a resolu- ção de conflitos e a cooperação, fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao outro e aos direitos humanos, com acolhimento e valorização da diversidade de indivíduos e de grupos sociais, seus saberes, identidades, culturas e potencialidades, sem preconceitos de qualquer natureza. 10. Agir pessoal e coletivamente com auto- nomia, responsabilidade, flexibilidade, resi- liência e determinação, tomando decisões com base em princípios éticos, democrá- ticos, inclusivos, sustentáveis e solidários. (BRASIL, 2018, p. 9, 10) Apresentaremos algumas atividades que farão com que você analise quais foram seus entraves no desenvolvimento do trabalho interdisciplinar proposto na Dimensão III. Listaremos, por exemplo: qual foi a dificuldade para chegar até o colega da outra área?; qual foi a dificuldade para aceitar as diferentes visões sobre um mesmo objeto?; qual foi a dificuldade para aceitar os equívocos que cometeu ou comete ao discutir um tema somente com os conhecimentos de sua área?; qual foi sua disponibilidade para encontrar com outro colega em seu campo de trabalho? Quando o foco for sua área do conhecimen- to, mostraremos que o professor precisa ter os conhecimentos específicos da área e sua 30 Com viver com ciência G U I A P N L D linguagem para que possa dialogar e argumentar com as outras áreas do conhecimento. Dimensão IV – Repensando a avaliação As questões relacionadas com avaliação serão abordadas no de- senvolvimento das atividades dos capítulos que se seguem. Di- ferentemente das dimensões anteriores, esta não terá uma parte específi ca em cada capítulo, mas permeará todas as refl exões do capítulo. Discutiremos, nas atividades e vivências propostas para as Dimensões I, II e III, o que, como e quando avaliar. Mostra- remos estratégias de avaliação e os diferentes recursos a serem utilizados no processo. LEITURAS COMPLEMENTARES FREIRE, P. Pedagogia da esperança. 17. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2011. O autor relata que a prática educativa é uma aventura desveladora, uma experiência de desocultação da verdade. Seu livro é um convite à espe- rança na ação pedagógica. MORIN, E. Educação e complexidade: os sete saberes e outros ensaios. São Paulo: Cortez, 2013. O autor nos convida a refl etir sobre a importância de abraçar o pensa- mento complexo na educação. SERRES, M. Polegarzinha. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013. Essa obra chama a atenção para os nativos digitais e sua forma de se inteirar dos conhecimentos existentes. O autor afi rma que estamos em uma nova era e que, como educadores, temos de nos preparar para ela. 31Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D G U I A P N L D CAPÍTULO 2 Saúde – Corpo e Saúde Ambiental Caro professor, iniciaremos agora o estudo de um conteúdo relacionado com o TCT Saúde. Não temos a pretensão de indicar uma receita, mas queremos, sim, sugerir algumas possibilidades para que você possa trilhar sua própria conduta pedagógica. Para conduzir melhor nossas discussões, apresentaremos as atividades dentro de cada dimensão, sendo a Dimensão IV (processo avaliativo) tra- balhada junto com as Dimensões II (entrave disciplinar) e III (interdiscipli- naridade). Ao longo das atividades, indicaremos as competências gerais, as competências específicas e as habilidades que serão contempladas. Reafirmamos a sugestão de que você tenha um caderno para anotar suas reflexões, questionamentos, dúvidas que poderão surgir ao longo da lei- tura deste livro. Esse caderno poderá auxiliá-lo durante seu planejamento de aula. Iniciaremos convidando você para uma reflexão sobre os alimentos que consome ao longo do dia. Dimensão I – Conhecimento de si, do outro e do nós Objetivos gerais das atividades e vivências dessa dimensão • Refletir sobre o próprio comportamento alimentar. • Ter consciência do impacto de seu comportamento em outra pessoa ou grupo. • Perceber que seu comportamento sofre influências externas, muitas vezes atendendo a diversos interesses políticos, econômicos e socioculturais. • Ter consciência de que sua concepção de mundo e seu comportamento influenciam sua prática pedagógica. Justificativa Esses objetivos permitirão a você, professor, ter consciência de sua ação e distinguir o grau de dificuldade enfrentadoem um processo de mudança. Eles também o levarão a se conscientizar dos impactos de sua escolha, tanto para você, quanto para os outros e o meio ambiente, no caso em particular da escolha do alimento. 33Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D ATIVIDADE: CONHECENDO A SI MESMO Propomos que você reserve um momento de maior tranquilidade para re- fletir sobre as questões a seguir. Sugerimos que inicie, a partir dessa ativi- dade, os registros de suas reflexões no caderno de notas. Essa proposta de reflexão vai auxiliá-lo a: • Perceber-se como cidadão que integra a construção da vida familiar, escolar, comunitária, nacional e internacional. • Ampliar seus horizontes e perspectivas em relação a oportunidades de inserção no mundo do trabalho. • Conhecer-se, compreendendo as próprias emoções e sabendo como lidar com elas. EXPANDINDO AS IDEIAS ATENÇÃO AOS SINAIS DE FOME E DE SATISFAÇÃO DO CORPO É importante que você fique sintonizado nas dicas de seu corpo sobre fome e saciedade. Quando ao comermos estamos sintonizados com nosso eu interno, plenamente conscientes do momento presente, o desejo por doces di- minui; além disso, os níveis de glicose e cortisol no sangue ficam mais baixos antes das refei- ções. Outra importante dica é você se alimen- tar antes de estar com muita fome. Os trabalhos de Elizabeth Blackburn, médi- ca ganhadora do Prêmio Nobel de Medicina em 2009, e Elissa Epel, Psicóloga diretora do Centro de Envelhecimento, Metabolismo e Emoções da Universidade da Califórnia, de- monstram que quando você melhora sua saúde mental e metabólica, a ponta de seus cromos- somos pode se modificar. Essa modificação é feita pela telomerase. A telomerase é uma en- zima que age nos telômeros, extremidades dos cromossomos. Então, se você tem uma saúde melhor, terá as pontas de seus cromossomos mais intactas. Resumindo, estará genetica- mente mais jovem. Para conhecer mais sobre o assunto, sugerimos a leitura do livro O segredo está nos telômeros, de autoria de Elizabeth Blackburn e Elissa Epel. Blackburn, E.; EPEL, E. O segredo está nos telômeros. São Paulo: Planeta, 2017. Refletindo sobre: o que, como, quando, quanto… A. Qual é sua preocupação ao se alimentar? B. Qual é a qualidade de sua alimentação? C. Você se alimenta do que gosta? O que gosta de comer? D. Você tem memória(as) gustativa(as)? Qual(ais)? Que lembrança(as) lhe traz(em)? E. Qual é sua preocupação ao escolher um alimento? F. Você já se alimentou de forma insaciável? Quando isso acontece ou aconteceu? E como você reage ou reagiu a esse ímpeto? Privilegie os diferentes aspectos que já in- fluenciaram a qualidade e a quantidade de alimentos que você forneceu a seu organis- mo e como ele respondeu a essas mudanças de comportamento. 34 Com viver com ciência G U I A P N L D ATIVIDADE: CONHECENDO O OUTRO E O NÓS Essas reflexões vão auxiliá-lo em suas escolhas e em como você poderá: • Agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabilidade, flexi- bilidade, resiliência e determinação, tomando decisões com base em princípios éticos, democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidários. • Reconhecer as próprias forças e apoiar-se nelas, reconhecendo tam- bém a importância do convívio com o outro. Como o tipo e a quantidade de alimento que você consome impactam a(o): A. produção de determinados tipos de alimentos? B. sua saúde? C. saúde de sua família? D. economia? E. cultura? F. vida social? G. ambiente? Nossos comportamentos exercem grande influência, positiva e/ou negati- va, em nosso organismo, no organismo do outro, na sociedade em geral e no ambiente, mas muitas vezes não temos consciência dessas interferên- cias. Porém, sugerimos algumas bibliografias que poderão auxiliá-lo nes- sas reflexões. Faça essas leituras com calma, sem nenhuma pressão, mas como forma de crescimento. CONVITE À LEITURA BRASIL. Guia alimentar para a população brasileira. 2. ed. 1. Reimp. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2014. Disponível em: https://bvsms.saude.gov. br/bvs/publicacoes/guia_alimentar_populacao_ brasileira_2ed.pdf Acesso em: 1º dez. 2020. Esse livro, publicado pelo Ministério da Saúde, é um documento oficial, que aborda os princípios e as recomendações de uma alimentação adequada e saudável para a população brasileira. Apresenta discussões que vão além de simplesmente falar dos tipos e da importância nutricional dos alimentos. Aborda questões comportamentais, culturais e eco- nômicas. PROENÇA, R. P. C. Alimentação e globalização: algumas reflexões. Cienc. Cult., São Paulo, v. 62, n. 4, out. 2010. Disponível em: http:// cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_ arttext&pid=S0009-67252010000400014. Acesso em: 1º dez. 2020. Nesse artigo, é feita uma reflexão sobre questões relativas à alimentação e às práticas alimentares humanas no contexto do mundo globalizado. A glo- balização é percebida como um dos processos de aprofundamento da integração econômica, social, cultural e política que vem impulsionando o mun- do, considerando, principalmente, as facilidades de transporte e difusão de informações, produtos e in- teração entre as pessoas. 35Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D Nossa aula de hoje será sobre alimentos proteicos. Vou continuar com a comida de casa mesmo. É muito caro. Vou decorar os nomes deles. VIVÊNCIA: REFLETINDO SOBRE SUA PRÁTICA PEDAGÓGICA As refl exões a seguir o auxiliarão a identifi car os próprios interesses e necessidades no âmbito escolar e fora dele. Ao discutir o tema alimentação em sala de aula: A. quais aspectos você costuma enfatizar? B. você procura saber qual a importância que seu aluno dá ao ato de se alimentar? C. você costuma utilizar como exemplo sua própria alimentação? D. você se preocupa em mostrar os aspectos sociais, econômicos, políticos culturais e ambientais das escolhas alimentares? E. você instiga seus alunos a exteriorizarem os conhecimentos que têm sobre os alimentos que comem? F. você considera fundamental incluir debates sobre a história da alimentação? G. você organiza todo o conteúdo com bastante antecedência ou vai organizando conforme a demanda do grupo? H. você percebe se seu comportamento alimentar infl uencia a forma como escolhe e aborda os conteúdos relacionados com o tema alimento? I. você já procurou repensar suas propostas, considerando as diferentes realidades alimentares de seus alunos? A seguir, colocamos imagens de diferentes situações e posturas que nós, professores, viven- ciamos em nosso dia a dia. Essas vivências objetivam que você: • refl ita e dialogue sobre as maneiras com que se relaciona com o bem comum e com o outro (em especial, com os estudantes e demais membros da comunidade escolar). • conheça-se profundamente como professor, identifi cando como e por que ensina. Veja se você já vivenciou algumas dessas situações. Situação 1 © B an c o d e im g e n s R H J / C ar lo s Jo rg e N u n e s 36 Com viver com ciência G U I A P N L D Quais são os alimentos mais caros, e por que são caros? Observe que, ao falar de alimen- tos, mostrando que o indivíduo precisa se alimentar de proteínas e que sua falta pode acarretar, por exemplo, baixa estatura, isso aponta para a discussão de questões econô- mico-sociais no ato de educar. Em sala de aula, um estudante nos disse que no Brasil já não tínhamos mais a falta de pro- teínas na alimentação dos indivíduos pela questão financeira, e que isso era passado. Repare que esse é um bom momento para você repassar para a turma a discussão desse assunto, fazer uma intervenção, permitindo aos estudantes expor suas realidades e vivên- cias, e argumentando sobre sua opinião em relação à afirmação do outro aluno. Na sequência de atividades, você pode levar dados estatísticos, documentários ou pes- soas que possam socializar com a turma sua condição de vida e de alimentação.Convide um de seus colegas, por exemplo, o profes- sor de geografia, para participar da discussão na aula, apontando informações relevantes advindas de seu objeto de conhecimento. É muito comum, quando se vive em condição de fartura ou de miséria, não se construir a visão do todo. Trouxemos essas discussões como exem- plos, e estes demonstram possibilidades de desenvolvimento de algumas competências gerais da BNCC: 6. Valorizar a diversidade de saberes e vi- vências culturais e apropriar-se de conheci- mentos e experiências que lhe possibilitem entender as relações próprias do mundo do trabalho e fazer escolhas alinhadas ao exer- cício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência críti- ca e responsabilidade. 7. Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular, nego- ciar e defender ideias, pontos de vista e de- cisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioam- biental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta. […] 10. Agir pessoal e coletivamente com auto- nomia, responsabilidade, flexibilidade, resi- liência e determinação, tomando decisões com base em princípios éticos, democrá- ticos, inclusivos, sustentáveis e solidários. (BRASIL, 2018, p.9,10) Para fechar esse momento de reflexão, pro- cure pensar em alternativas de abordagem, a partir de sua realidade escolar, que possibili- tariam o desenvolvimento dessas três com- petências. Anote-as como um rascunho para que, com o desenvolvimento que propomos neste livro, você volte a essas ideias mais tar- de, aperfeiçoando-as. Ampliando essas questões, podemos trazer a discussão sobre o consumo de proteínas animal e vegetal no mundo e no Brasil. Segue um exemplo: Hoje, especificamente, o consumo mundial de proteína animal (carne) é quatro vezes maior do que há 50 anos. O aumento não se deve apenas ao crescimento da população do planeta, mas também o [sic.] avanço eco- nômico nos países de renda média, como China e Brasil. (VIANA; ARAÚJO, 2019, p. 15). Após a leitura da informação apresentada, é importante questionar se: A. O aumento da produção de carne ga- rante que todos consumam esse tipo de alimento? B. O aumento da produção e do consu- mo de carne é uma boa notícia para todos? C. Quais os prós e os contras do aumento da produção e do consumo de carne para o meio ambiente, a saúde huma- na e o bem-estar animal? A indústria da carne é responsável por um grande percentual no aumento do desmata- 37Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D mento, emissão de gases de efeito estufa, poluição do ar e da água, for- mação de zonas mortas no oceano, ameaças à saúde, entre outros males, (VIANA, ARAÚJO, 2019). Em relação à produção e ao consumo das proteínas de origem vegetal, podemos realizar quase as mesmas perguntas: A. O aumento da produção de proteína vegetal garante que todos consumam essa proteína? B. O aumento da produção e do consumo de proteína vegetal é uma boa notícia? C. O consumo de proteína vegetal impacta o ambiente tanto quanto o consumo de proteína animal? O trecho adiante, Nutrição Importa, poderá ser utilizado como texto mo- tivador para o início de uma discussão sobre a ingestão de um alimento e seus benefícios e malefícios, dependendo da quantidade e da qualidade. Além disso, poderá desencadear questionamentos se, em sua escola, es- tiver ocorrendo casos de depressão entre os adolescentes ou até mesmo na família desses estudantes. O trecho O Experimento de Atwater mostra um pouco da perspectiva his- tórica e chama a atenção para como o conhecimento é situado no tempo e no espaço. Esse artigo pode ser utilizado para trabalhar como as ideias vão sendo construídas e mudam no decorrer do tempo. Já o outro trecho, Alimentos Ultraprocessados, chama a atenção para o fato de que alimentos ultraprocessados parecem ser gatilhos de sinais neurais que nos fazem querer comer mais. O artigo também pode ser mo- tivador de uma discussão referente à obesidade. TEXTO MOTIVADOR NUTRIÇÃO IMPORTA Será que os estudantes sabem que determinados alimentos são capazes de au- mentar a produção de neurotransmissores e áreas do cérebro associadas ao bem -estar? É importante que eles saibam que, por exemplo, o triptofano, aminoá- cido utilizado para produzir serotonina, está presente em alguns alimentos. O triptofano é também importante para a produção do hormônio do crescimento vegetal, auxina, nas plantas. Então, dependendo de como você está se alimen- tando, está fornecendo triptofano, ou não, para o corpo e terá mais ou menos serotonina. Um artigo intitulado “Biologia para ser feliz” trabalha a ideia da felicidade como projeto interdisciplinar. Se você deseja saber mais sobre essa ideia, entre no link: https://cienciahoje.org.br/artigo/biologia-para-ser-feliz/ Acesso em: 20 jul. 2020 38 Com viver com ciência G U I A P N L D TEXTO MOTIVADOR O EXPERIMENTO DE ATWATER Wilbur Atwater, químico americano nascido em 1844, é conhecido por seus estudos sobre nutrição humana. Ele e dois colegas inventaram e usaram o calorímetro de respiração, uma máquina que media o consumo de oxigênio e a produção de gás carbônico, alojada em uma câmara lacrada. O objetivo era medir com precisão a energia for- necida pelos alimentos. Ele também criou um sistema para medir essa energia em unidades, conhecido como calorias dos alimentos. Os seres voluntários humanos ficavam confinados por até cinco dias enquanto ele e seus colegas mediam minuciosamente as etapas do processo metabó- lico – a absorção de alimentos e oxigênio e a pro- dução de dióxido de carbono, ureia, amônia, fe- zes, e assim por diante – e estimavam o consumo calórico. Um trabalho tão minucioso, que eram necessárias dezesseis pessoas para ler os mostra- dores e fazer os cálculos (BRYSON, 2020, p. 220). Sabe-se hoje que muitos dos resultados de Atwa- ter estavam errados. Naquela época, os conceitos de vitaminas e minerais não eram compreendi- dos, e automaticamente não se tinha consciência da necessidade de uma dieta balanceada. Para Atwater e seus colegas, um alimento era supe- rior a outro conforme sua eficiência energética. Assim, ele acreditava que frutas e hortaliças for- neciam comparativamente pouca energia e não precisavam fazer parte da dieta normal das pes- soas. Em vez disso, sugeriu que comêssemos bas- tante carne, quase um quilo por dia, 330 quilos por ano. (BRYSON, 2020, p. 222) Figura 3 – Laboratório de nutrição de Atwater. © T h e R e ad in g R o o m / A la m y St o c k P h o to TEXTO MOTIVADOR ALIMENTOS ULTRAPROCESSADOS A obesidade está ligada aos níveis de grelina, hormônio da fome, e de leptina, hormônio da saciedade, bem como a seus mecanismos no corpo. Além desses mecanismos hormonais, temos o tipo de alimento e como ele atua no cérebro. Alguns estudos (ex. SHALL, 2019) apontam que a energia usada pelo corpo de- pois de consumir alimentos ultraprocessados não corresponde à energia ingeri- da percebida, levando esse indivíduo a se alimentar mais. Para saber quais são os alimentos ultraprocessados e seus efeitos na população brasileira, recomendamos a referência abaixo. ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE (OPAS). Alimentos e bebidas ultraprocessados na América Latina: tendências, efeito na obesidade e implicações para políticas públicas. Brasília, DF: Opas, 2018. Disponível em: https://iris.paho.org/ bitstream/handle/10665.2/34918/9789275718643-por.pdf?sequence=5&isAllowed=y. Acesso em: 2 dez. 2020. 39Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D Para desenvolver as discussões, você também pode trazer dados estatísti- cos do aumento da produção de proteína animal e vegetal, contrapondo a dados referentes à desnutrição e à fome no Brasil e no mundo. Como exemplo, apresentamos duas referênciasque poderão auxiliá-lo na extra- ção de dados, para desencadear uma ampla discussão. Você pode promover essas discussões e, junto com seus estudantes, tra- zer relatos de membros da comunidade, do bairro, sobre o conhecimento ou as vivências relacionados com a desnutrição e a fome. Uma proposta também é levar os estudantes para assistirem o documentário Muito além do peso que traz dados reais sobre a obesidade e desnutrição no Brasil. FONTE DE DADOS SAWAYA, A. L. A desnutrição no Brasil acabou?. São Paulo: Unifesp: Cren, 17 ago. 2020. Disponível em: http://www.cren.org.br/blog/2017/08/17/desnutricao-no -brasil-nao-acabou/. Acesso em: 1º dez. 2020. Esse artigo, publicado no blogue do Centro de Recuperação e Educação Nutricional (Cren), levanta alguns questionamentos sobre o tema. Nele há o link que dá acesso a uma biblioteca virtual, que apresenta vários materiais para consulta. COMPANHIA NACIONAL DE ABASTECIMENTO. Perspectivas para a agropecuá- ria safra 2019/2020. Brasília, DF: Conab, 2019. v. 7. Disponível em: https://www. conab.gov.br/perspectivas-para-a-agropecuaria Acesso em: 1º dez. 2020. Esse volume analisa a influência que exercem os aspectos macroeconômicos e geo- políticos, os problemas de infraestrutura, as questões conjunturais e os custos de produção sobre as atividades de produção, consumo e comercialização de alguns dos principais produtos brasileiros, tais como algodão, arroz, carnes, feijão, milho e soja. Esse tipo de atividade é um exemplo de como você pode desenvolver em seus estudantes as habilidades correspondentes à competência específica 2 da área de Ciências da Natureza e suas Tecnologias: (EM13CNT205) Interpretar resultados e realizar previsões sobre atividades experimentais, fenômenos naturais e processos tecnológicos, com base nas noções de probabilidade e incerteza, reconhecendo os limites explica- tivos das ciências (BRASIL, 2018, p.557). (EM13CNT207) Identificar, analisar e discutir vulnerabilidades vinculadas às vi- vências e aos desafios contemporâneos aos quais as juventudes estão expos- tas, considerando os aspectos físico, psicoemocional e social, a fim de desen- volver e divulgar ações de prevenção e de promoção da saúde e do bem-estar (BRASIL, 2018, p. 557). 40 Com viver com ciência G U I A P N L D Alguém aqui come vegetais? Só como arroz, feijão, carne e batata. Já ouvi falar em oxidação. Mas não sei o que é isso. Eu não como vegetais. Mas que professora insistente! Como já propusemos anteriormente, busque elencar alternativas, a partir de sua realidade es- colar, que possibilitariam o desenvolvimento dessas mesmas competências. Anote-as e, após o desenvolvimento que propomos neste livro, volte a essas ideias, aperfeiçoando-as. Situação 2 A pergunta “Alguém aqui come vegetais?” partiu de uma das autoras durante uma aula sobre ecossistema. Quando, em aula, um es- tudante disse que não gostava de vegetais, ela perguntou para a turma quem comia vegetais frequentemente, e somente três disseram que comiam alface. Começou a perguntar para alguns estudantes como eles costuma- vam se alimentar e, com algumas exceções, o prato mais falado foi “arroz, feijão, carne e batata”. Refez a pergunta por mais duas ve- zes, dando ênfase à questão: “Vocês comem vegetais com que frequência?”, e a resposta era sempre a mesma. Reparem como mui- tas vezes não paramos para refl etir sobre o que estamos falando. Quando começou a chamar a atenção para a fala deles, a maioria sabia que arroz, feijão e batata são vegetais, porém alguns não sabiam que feijão é uma semente, arroz é um fruto, e a batata, um tu- bérculo. A partir daí, ampliamos nossas dis- cussões sobre os vegetais. Nesse caso, uma aula prática, para reconhe- cer as diferentes partes do vegetal: sementes, frutos, caules e raízes comestíveis, é muito oportuna. Situação 3 Quando cortamos uma maçã e a deixamos ao ar livre, ela escurece. Por que isso acontece? © B an c o d e im g e n s R H J / C ar lo s Jo rg e N u n e s © B an c o d e im g e n s R H J / C ar lo s Jo rg e N u n e s 41Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D O que é um carboidrato? Eu sei que tem carbono, hidrogênio e oxigênio. Mas são os mesmos da tabela periódica? Na maioria das vezes, os estudantes memorizam palavras, frases, imagens, mas não enten- dem quais são seus signifi cados, suas funções ou suas constituições, não conseguindo, com isso, criar interações entre elas e a realidade material que os cerca. Essa é uma boa oportunidade para permitirmos as manifestações dos estudantes e, a partir de suas exposições, desencadearmos discussões e esclarecimentos das dúvidas apresentadas e dos entendimentos equivocados de conceitos e processos científi cos. Mais à frente, apresen- taremos uma proposta de atividade teórico-prática sobre oxirredução. O momento é oportuno também para ampliar as discussões e falar um pouco sobre alimentos com função antioxidante e sobre sua importância para nosso organismo. Situação 4 Reparem como costumamos fragmentar o conhecimento. Isso faz com que o estudan- te não consiga perceber, por exemplo, que os carbonos da química são os mesmos ele- mentos químicos estudados na biologia. Alguns estudantes nos dizem que o oxigê- nio é a fonte de energia. É importante que- brar a visão disciplinar, pois, ao fragmentar as ideias, estas também são compreendi- das de forma fragmentada. Nosso corpo é um só, e é importante compreendê-lo no todo. Podemos hierarquizar as informações respondendo às seguintes questões: afi nal, para que comemos? Para obter energia? Mas como é a questão da energia no alimento? Ao responder a essas perguntas, você tra- balhará com o conteúdo da respiração ce- lular e seguirá para a respiração sistêmica. Por exemplo: a glicose é resultante da quebra do carboidrato, mas para onde irá essa glico- se? E o lipídio? E a proteína? Quais são suas contribuições na produção de energia? Qual é a denominação desse processo? E qual é o papel do oxigênio na obtenção de energia? Afi nal, o que é respiração sistêmica e respira- ção celular? A digestão, a circulação, a respiração, a ex- creção e outras são funções que, se ensina- das em partes, deixam lacunas muito grandes e impossibilitam a compreensão do todo. No caso dos alimentos, se não ocorrer sua que- bra, não teremos glicose, sem glicose, sem respiração celular, sem energia, virá a morte celular. É importante partir do todo e ir construindo as ideias em conjunto com nossos estudantes. © B an c o d e im g e n s R H J / C ar lo s Jo rg e N u n e s 42 Com viver com ciência G U I A P N L D Prestem atenção, porque tudo isso é importante e vai cair na prova. Esta aula que preparei está linda. EXPANDINDO AS IDEIAS Nossos jovens estão a todo momento trazendo suas construções para o ambiente da sala de aula. Precisamos fi car atentos ao que estão dizendo não só verbal- mente, mas com gestos, expressões faciais… Um estudante, ao apresentar um trabalho sobre obesidade, disse que os obesos não eram desnutridos. Resgatamos essa refl exão com o grupo. Seria possível um obeso desnutrido? O grupo acabou por concluir que sim, pois poderia estar faltando ao indivíduo vitaminas e sais minerais. Corroborando Hoff mann (1995, p. 67), a avaliação se desvincula da concepção de verifi cação de respostas certas/ erradas, encaminhando-a em um sentido investigativo e refl exivo do professor sobre as manifestações dos alunos. De fato, é muito importante resgatarmos o que nossos estudantes sabem. Vejamos o caso apresentado na Situação 4. Por que se esquece que arroz e feijão são plantas? Será que todo alimento saudável é mais caro? Quanto custa um pacote de biscoito, e uma penca de bananas? Apenas carboidratos têm carbono, hidrogênio, oxigênio? O que pretendemos introduzir neste texto é a perspectiva da açãoavaliativa como uma das media- ções pelas quais se encorajaria a reorganização do saber. Ação, movimento, pro- vocação, na tentativa da reciprocidade intelectual entre os elementos da ação educativa. Professor e aluno buscando coordenar seus pontos de vista, trocando ideias, reorganizando-as (ver HOFFMANN, 1995, p. 67). O professor atento às construções realizadas no espaço escolar oferece retorno aos seus estudantes durante o processo de ensino, possibilitando desconstruções, construções ou reafi rmações de conceitos. Situação 5 © B an c o d e im g e n s R H J / C ar lo s Jo rg e N u n e s Quantas vezes preparamos uma aula e a achamos linda e completa! Agora, vem a pergunta: você a preparou para quem? Para você ou para seu estudante? Sendo para seu estudante, você precisa ouvi-lo, procurar co- nhecer o que ele sabe sobre o tema e partir desse ponto. Continue atento, preste aten- ção no comportamento de seu estudante e abra espaço para que ele questione e emi- ta opiniões. São nesses posicionamentos de fala e postura que ele lhe dirá se está enten- dendo ou se precisa de mais explicações. E 43Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D provavelmente essas explicações precisarão ser dadas utilizando outros recursos ou estratégias de ensino. Por exemplo, se você está explican- do determinado processo oralmente, às vezes a utilização de imagens 2D e 3D, e/ou de recurso de vídeo, e/ou de atividades práticas, e/ou de leitura de textos específicos com discussão, ou de outros recursos poderá melhorar o entendimento. Você precisa ficar atento ao com- portamento de seu aluno e sempre abrir espaço para questionamentos; e, se a turma estiver apática e não quiser questionar, traga algo provo- cador. Pode ser uma notícia, uma imagem, dados estatísticos, memes, charges, porém sempre relacionado com algo atual e que possa estar ligado ao que os estudantes estejam vivenciando na comunidade esco- lar (dentro ou fora da sala de aula), na comunidade onde moram ou que esteja presente na mídia. Dimensão II – O saber disciplinar em xeque Neste momento, discutiremos com você as limitações dos conhecimen- tos de nossa área, ou seja, a Biologia. Como exemplo, elegemos como tema norteador a anorexia: vem ao encontro de um problema muito pre- sente entre os adolescentes e atende às orientações gerais da BNCC na construção do currículo, correspondente a: • Contextualizar os conteúdos dos componentes curriculares, identifi- cando estratégias para apresentá-los, representá-los, exemplificá-los, conectá-los e torná-los significativos, com base na realidade do lugar e do tempo nos quais as aprendizagens estão situadas. • Decidir sobre formas de organização interdisciplinar dos componen- tes curriculares e fortalecer a competência pedagógica das equipes escolares para adotar estratégias mais dinâmicas, interativas e colabo- rativas em relação à gestão do ensino e da aprendizagem. • Selecionar e aplicar metodologias e estratégias didático-pedagógicas diversificadas, recorrendo a ritmos diferenciados e a conteúdos com- plementares, se necessário, para trabalhar com as necessidades de dife- rentes grupos de alunos, suas famílias e cultura de origem, suas comu- nidades, seus grupos de socialização etc. • Conceber e pôr em prática situações e procedimentos para motivar e engajar os alunos nas aprendizagens; construir e aplicar procedimen- tos de avaliação formativa de processo ou de resultado que levem em conta os contextos e as condições de aprendizagem, tomando tais registros como referência para melhorar o desempenho da escola, dos professores e dos alunos. • Selecionar, produzir, aplicar e avaliar recursos didáticos e tecnológicos para apoiar o processo de ensinar e aprender (BRASIL, 2018, p. 14, 15). 44 Com viver com ciência G U I A P N L D Resumindo é importante saber qual é a realidade local, trabalhar o currículo dentro dessa realidade, buscando sua integração junto à comunidade escolar e com outros professores, estando atento ao processo, e buscando motivar os estudantes utilizando diferentes recursos didáticos, incluindo os tecnológicos, além de atender às seguintes competências gerais: 1. Valorizar e utilizar os conhecimentos historicamente construídos sobre o mundo físico, social, cultural e digital para entender e explicar a realidade, con- tinuar aprendendo e colaborar para a construção de uma sociedade justa, de- mocrática e inclusiva. 2. Exercitar a curiosidade intelectual e recorrer à abordagem própria das ci- ências, incluindo a investigação, a reflexão, a análise crítica, a imaginação e a criatividade, para investigar causas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas e criar soluções (inclusive tecnológicas) com base nos co- nhecimentos das diferentes áreas. 8. Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, com- preendendo-se na diversidade humana e reconhecendo suas emoções e as dos outros, com autocrítica e capacidade para lidar com elas. (BRASIL, 2018, p. 9, 10.) As competências específicas da área Ciências da Natureza e suas Tecnolo- gias (CNT) serão indicadas nas atividades. Proporemos uma sequência de vivências (atividades seguidas de reflexões) como um exemplo das inúmeras possibilidades de trabalhar os objetos do conhecimento a partir de um tema norteador preferencialmente de interesse do aprendente, ou que ele esteja vivenciando, mas ainda não deu conta de sua importância ou influência. Objetivos gerais das atividades e vivências dessa dimensão Permitir ao professor: • Reconhecer as limitações do entendimento de determinado assunto, em determinada situação, quando se aplicam somente conhecimentos da área biológica. • Reconhecer as limitações em relação aos entendimentos dos conhecimentos da própria área. • Reconhecer que as tentativas de simplificação do que é complexo gera equívocos e erros nos momentos de sua aplicação. • Reconhecer que as diferentes áreas do conhecimento estão interligadas e compõem um todo. 45Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D Justificativa Esses objetivos se justificam pelo fato de não conseguirmos avançar nas discussões ou até mesmo propor soluções para as resoluções dos problemas, porque estamos muito presos em nossa área de conhecimento. Em alguns momentos, deparamos com uma grande dificuldade de saber o que de fato precisamos conhecer das outras áreas. DIALOGANDO COM OS REAIS INTERESSES DO ESTUDANTE Junto com sua comunidade escolar, procure observar, detectar ou eleger situações, fatos, momentos de relevância ou de grande potencialidade, como a obesidade, a desnutrição, a fome, a baixa estatura etc. Esses po- dem ser observados dentro da comunidade escolar, no entorno da escola, no bairro, na cidade, no estado, no país ou no mundo. É importante partir de um contexto de interesse da maioria. Para dar continuidade a nossas discussões, elegemos o tema anorexia. Ele tem atingido um grande número de adolescentes e gerado interesse por parte da comunidade escolar e fora dela. VIVÊNCIA: ANOREXIA – HISTÓRIA Inicialmente, sugerimos a leitura do artigo indicado adiante, que faz um resgate histórico da anorexia, e de um segundo texto, que relata o pri- meiro caso documentado desse transtorno alimentar. Frequentemente, diz-se que uma doença atingiu um grupo mais amplo em detrimento de outro, ou apareceu em época distinta, porém o mais provável é que ela não era diagnosticada como doença, e, sim, considerada um compor- tamento, seja ele normal, seja ele não normal, dependendo da cultura da época. CONVITE À LEITURA CORDÁSA, T. A.; CLAUDINOB, A. M. Transtornos alimentares: fundamentos his- tóricos. Rev. Bras. Psiquiatr., São Paulo, n. 24, supl 3, p. 3-6, dez. 2002. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516- 44462002000700002&lng=en Acesso em: 1º dez. 2020. Nesse artigo,os autores fazem uma breve revisão dos aspectos históricos dos trans- tornos alimentares. Eles discutem as correlações psicopatológicas em face dos diag- nósticos atuais. 46 Com viver com ciência G U I A P N L D TEXTO MOTIVADOR A SANTA DE GONZAR, O PRIMEIRO CASO DOCUMENTADO DE ANOREXIA Uma mulher de O Pino passou 34 anos sem comer no início do século XIX Josefa de la Torre (1773-1848) se alimentou apenas de hóstias durante os seus últimos 34 anos de vida, aquelas que recebia do padre uma vez por mês. Ninguém a viu comer nem beber, e de seu frágil corpo não saía sequer uma excreção. Nem urina, nem bile, nem fezes. Ela mantinha-se permanente- mente prostrada em sua cama, em posição fetal inalterável, sem se mexer, sem falar. A figura da mulher que ficou conhecida como a Santa de Gonzar, um distrito da cidade de O Pino1, foi resgatada agora no livro Arte e ciência en Galicia: a ilustración científica e técnica2, do catedrático Francisco Díaz-Fierros Viqueira, publicado pela Universidade de Santiago de Compostela. Mas sua história, fascinante e complexa, já havia sido objeto de todos os tipos de es- tudos e debates. Não à toa, ela figura na literatura médica como o primeiro caso documentado de anorexia. Com efeito, ela sofria de inédia crônica, uma espécie de jejum absoluto, se- gundo um informe dado em 1838 por José Varela Montes, grande figura da medicina da época na Espanha e na Galícia. O caso da também conhecida como Definhada3 de Gonzar foi debatido em 1995 pela seção de etnomedicino do Museu do Povo Galego e, mais tarde, foi objeto de um artigo científico a cargo dos psiquiatras M. Fuentes Barco, S. García Piñeiro e T. Angosto Saura, do hospital Xeral Cíes, de Vigo. Josefa de la Torre levava uma vida rotineira em Gonzar, com seu sogro e seus três filhos, até que um certo dia de 1808 sofreu um quadro de paroxismo, desmaios e diarreia após uma discussão com o sogro e uma exposição ao frio. O bispo mandou investigar A partir de então, ela deixou de comer e de beber, até o ponto em que seus vi- zinhos começaram a considerá-la uma santa e, em volta de sua casa, organizar excursões de peregrinos vindos de toda a Galícia, Castela, Astúrias e Aragão. Ali chegavam doentes e loucos para que Josefa os curasse, até que o bispo de Santiago de Compostela, Rafael Vélez, ordenou uma investigação. 1 N. do T.: O Pino é um pequeno município espanhol situado na província de Corunha, comunidade autônoma da Galícia. 2 N. do T.: Título em galego. Em português, Arte e ciência na Galícia: a ilustração científica e técnica. 3 N. do T.: ‘Espiritada’, no original, adjetivo que, segundo o dicionário da Real Academia Espanhola, é atribuído a alguém que, devido à sua esqualidez, parece não ter mais nada além do espírito. Em português, a palavra não tem o mesmo significado, o que levou à escolha de uma palavra com sentido próximo. Segundo o dicionário Caldas Aulete, ’espiritado’ é aludido aos adjetivos ‘possesso’, ‘endemoninhado’, ‘animado’, ‘alentado’, ‘travesso’, ‘buliçoso’ e ‘endiabrado’. (continua) 47Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D Para que estudassem seu caso, enviou-o primeiro a quatro padres, logo ao Exército e mais tarde ao doutor Varela Montes. O afamado galeno esteve com ela por treze dias e, efetivamente, comprovou que não ingeria nem uma lasca de comida, nem uma gota de água. Varela Montes descartou a ideia de que se tratava de uma intervenção divina e, para explicar a iné- dia de Josefa, desenvolveu uma curiosa teoria sobre o processo metabólico, que, segundo os psiquiatras de Vigo que analisaram o fato, pode resumir-se em uma frase: “Josefa não precisa comer porque não consome sequer energia”. “A enferma – escreveu o médico em texto extraído do livro de Díaz-Fierros –, sem se alimentar e se desgastar, vive em um círculo de movi- mento de partículas nutritivas que se desprendem, são novamente elabora- das, descansam?,4 para voltarem a ocupar outra vez o mesmo lugar, e assim sucessivamente”. O médico da Corte Logú y Zelada também se ocupou do caso e apresentou sua própria teoria, refutando parcialmente a do médico galego. O que parece claro é que o jejum de Josefa não foi absoluto. “Foram encontrados restos de comida em seu corpo, o que nos leva a crer que, de ma- neira muito hábil, ela devia se alimentar em algum momento do dia”, aponta o psiquiatra Tiburcio Angosto. R. Romar / Redação / La Voz de Galicia / 16 março 2014 / 07:00 h. Tradução de Thiago Landi. 4 N. do T.: O ponto de interrogação consta na notícia original. O estudo desse contexto histórico é fundamental para que você e seus estudantes possam entender e explicar melhor a realidade. Poderão per- ceber os inúmeros segmentos que influenciam e desencadeiam determi- nados comportamentos. Esse estudo histórico pode ser organizado por você e pelos professores da área das ciências humanas. Além de iniciar uma boa base para o entendi- mento do tema, você atenderá à seguinte competência geral da educação básica: 1. Valorizar e utilizar os conhecimentos historicamente construídos sobre o mundo físico, social, cultural e digital para entender e explicar a realidade, continuar aprendendo e colaborar para a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva. (BRASIL, 2018, p. 9) Depois, questione se hoje existem casos de anorexia no mundo. Se sim, o que leva as pessoas a terem anorexia hoje? Em qual faixa etária é mais co- mum essa anorexia? Como as faixas etárias se veem em relação ao corpo e à alimentação? Esse momento de discussão poderá ser realizado em uma aula de cin- quenta minutos ou gerar desdobramentos que exigirão um maior número de aulas. Isso tudo dependerá da sua realidade, da sua motivação e da motivação dos seus estudantes. (conclusão) 48 Com viver com ciência G U I A P N L D VIVÊNCIA: ANOREXIA – CONCEITO, CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS Vamos ler a reportagem a seguir e após fazer as discussões, envolvendo a problematização do entrave disciplinar. TEXTO MOTIVADOR ANOREXIA PODE ESTAR RELACIONADA A PROBLEMAS NO METABOLISMO Publicado em 17 jul. 2019. Uma equipe de pesquisadores britânicos descobriu que a anorexia nervosa – transtorno alimentar caracterizado pela obsessão com o peso – pode ser desen- cadeada por problemas metabólicos. A descoberta acende uma luz sobre uma condição grave que até hoje era associada apenas a questões psiquiátricas. O estudo, publicado na revista Nature Genetics, indica que indivíduos com ano- rexia apresentam mutações genéticas que afetam o metabolismo, especialmen- te no controle da queima de gordura e dos níveis de açúcar no sangue. Essas mutações poderiam acionar outros genes relacionados à doença, aumentando o risco de desenvolvê-la. Atualmente, o tratamento desse transtorno alimentar consiste em uma combinação de intervenções psicológicas e programas de rea- limentação que visam proporcionar uma dieta capaz de garantir um peso sau- dável através do apoio familiar. Para chegar a esta conclusão, a equipe comparou o DNA de 16.992 pessoas diagnosticadas com anorexia nervosa com os genes de 55.525 indivíduos sem a condição. O objetivo era encontrar variantes genéticas que pudessem estar associadas ao transtorno. A análise mostrou a presença de mutação em oito genes relacionados à anorexia que também está associado [sic] a transtornos psicológicos, incluindo ansiedade, depressão e TOC. Segundo os pesquisadores, esses resultados já eram esperados. No entanto, a surpresa veio quando a avaliação alertou para uma mutação na parte do DNA envolvida na queima de gordura, propensão à prática de atividade física e níveis de açúcar no sangue. Disponível em: https://veja.abril.com.br/saude/anorexia-pode-estar-relacionada-a- problemas-no-metabolismo/. Acesso em: 1º dez. 2020. Nessa reportagem, publicada pela revista Veja, fala-se de um trans- torno alimentar, que é a ANOREXIA. Para que possamos entender o que está sendo abordado na reportagem, precisamossaber responder a algu- mas perguntas imediatas: • O que é anorexia? • O que acontece com a pessoa que sofre de anorexia? • O que são problemas metabólicos? • O que é metabolismo? 49Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D • O que são genes e mutações gênicas? • Como ocorrem as mutações gênicas? • O que é gordura e como ocorre sua queima? • O que é açúcar e como se mede seu nível no sangue? • Como esse açúcar chegou ao sangue e qual é sua função? • Por que ocorrem esses transtornos psiquiátricos? • A falta de fome na anorexia é o que origina o transtorno psiquiátrico ou é o transtorno psiquiátrico que causa a falta de fome na anorexia? Antes de iniciarmos essa discussão, é importante ressaltar que esses co- nhecimentos foram sendo construídos aos poucos no passado, sob con- dições sociais, econômicas e culturais diferentes das vivenciadas hoje. Dando continuidade a nossos estudos, iniciaremos uma sequência de atividades que auxiliarão no desenvolvimento das seguintes competên- cias e habilidades: Competência geral 2 Exercitar a curiosidade intelectual e recorrer à abordagem própria das ciên- cias, incluindo a investigação, a refl exão, a análise crítica, a imaginação e a criatividade, para investigar causas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas e criar soluções (inclusive tecnológicas) com base nos conhecimentos das diferentes áreas. (BRASIL, 2018, p.9) Competência específi ca 2 Analisar e utilizar interpretações sobre a dinâmica da Vida, da Terra e do Cos- mos para elaborar argumentos, realizar previsões sobre o funcionamento e a evolução dos seres vivos e do Universo, e fundamentar e defender decisões éticas e responsáveis. (BRASIL, 2018, p.553). Habilidades (EM13CNT203) Avaliar e prever efeitos de intervenções nos ecossistemas, e seus impactos nos seres vivos e no corpo humano, com base nos mecanismos de manutenção da vida, nos ciclos da matéria e nas transformações e transfe- rências de energia, utilizando representações e simulações sobre tais fatores, com ou sem o uso de dispositivos e aplicativos digitais (como softwares de simulação e de realidade virtual, entre outros). (BRASIL, 2018, p. 557). (EM13CNT207) Identifi car, analisar e discutir vulnerabilidades vinculadas às vi- vências e aos desafi os contemporâneos aos quais as juventudes estão expos- tas, considerando os aspectos físico, psicoemocional e social, a fi m de desen- volver e divulgar ações de prevenção e de promoção da saúde e do bem-estar. (BRASIL, 2018, p. 557). 50 Com viver com ciência G U I A P N L D Uma perda voluntária de peso, motivada por um desejo patológico de emagrecer, aliado a um medo intenso de engordar. Para explicar esse desejo patológico, é preciso falar de hormônios, ação do sistema nervoso sobre eles, transmissão dos estímulos e, conforme a informação do texto, as questões relacionadas com os genes e as mutações. E o envolvimento das questões sociais e culturais. Para essas explicações, necessitamos recorrer às áreas da Química e da Física, envolvendo também a área da Sociologia. Para explicar a queima de gordura, somente será possível utilizando os conhecimentos da Química. O medo de engordar remete ao controle na ingestão de alimento, principalmente rico em carboidratos. O que são os carboidratos? Como são metabolizados? Como promovem o aumento de peso? Para responder a essas perguntas, precisaremos dos conhecimentos da Química. A perda de peso está relacionada com a queima de gordura e a redução da ingestão de carboidrato. Anorexia é uma doença caracterizada por uma perda voluntária de peso, motivada por um desejo patológico de emagrecer, aliado a um medo intenso de engordar. ANOREXIA VIVÊNCIA: ESTUDANDO O CONCEITO DE ANOREXIA Como seria possível responder a todas as perguntas anteriores, para entendimento do texto sobre anorexia, somente com o conhecimento da área biológica? Conseguiremos responder a elas se trabalharmos tudo superficialmente, ou seja: Nesse exemplo, nosso conceito de anorexia poderá ser memorizado, mas caso não dialoguemos com as outras áreas que compõem a Ciência da Natureza (Química e Física), não terá um melhor entendimento e aprofun- damento. Para tanto, é importante envolver áreas das Ciências Humanas, como a Sociologia, para que possamos entender a influência do social no desencadeamento dos distúrbios fisiológicos. Agora, vamos continuar essa discussão, elegendo um dos pontos abor- dados no esquema anterior: a queima de gorduras. O indivíduo anoré- xico tem propensão à queima de gordura e à intensificação da prática de 51Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D esportes. No seguinte trecho da reportagem, “a avaliação alertou para uma mutação na parte do DNA envolvida na queima de gor- dura, propensão à prática de atividade física e níveis de açúcar”, vimos a ação genética nesse processo. Para falar sobre a relação entre a atividade física e a “queima” de gorduras, podemos fazer duas abordagens: ABORDAGEM 1 A anorexia é caracterizada por perda voluntária de peso. Essa perda de peso está relacionada com a queima de gorduras. Essas gorduras, ou lipídios, são moléculas orgânicas presentes nos seres vivos. Compreendem cinco grupos: os triglicerí- deos (“gorduras” e óleos) e ceras, os fosfolipídios e glicolipídios, os esteroides, as prostaglandinas e os terpenos. Especificamente, as gorduras e os óleos apre- sentam a função de reserva energética de animais (gorduras) e vegetais (óleos), iso- lante térmico e amortecedor contra impactos mecânicos. Esse grupo de lipídios se origina da reação entre duas substâncias orgânicas: um álcool (chamado glicerol) e três ácidos graxos. Os óleos vegetais também são triglicerídeos, a diferença é a quantidade de insaturação da cadeia dos ácidos graxos. Os triglicerídeos sóli- dos, muitas vezes denominados “gorduras”, apresentam coloração esbranquiçada ou levemente amarelada. Nos primeiros minutos do início de uma atividade físi- ca, utilizaremos a glicose armazenada nos músculos sob a forma de glicogênio. Com a continuidade da atividade, ocorre a liberação de hormônios (epinefrina) na corrente sanguínea, o que sinaliza para o fígado e as células adiposas a necessi- dade de liberação de seus nutrientes armazenados, principalmente glicose e ácidos graxos. Os ácidos graxos participarão da cadeia de produção de energia. Essa energia será gasta conforme a demanda do organismo: mantê-lo em funciona- mento, manter a temperatura e ser armazenada na forma de ATP. Reparem que a Abordagem 1 cita os objetos de conhecimentos das outras áreas das Ciências da Natureza, porém para o enten- dimento dos conceitos é necessário, no mínimo, compreender o significado dos conteúdos utilizados. Os termos destacados foram citados, mas não explicados. É um texto de memoriza- ção relativamente fácil, mas será que ele será entendido se o lei- tor não possuir conhecimento dos conteúdos utilizados? Veja o quanto da área da Química está inserido nesse texto, que nor- malmente digitamos para produzir nosso material de sala de aula. Muitas vezes, redigimos um texto mais simples, para não termos de explicar aqueles contextos que não são da área de Biologia, ou porque queremos simplificar para o estudante, o que não é simples. Perceba que, por mais que queiramos, não conseguire- mos suprimir os conhecimentos das áreas de Química e Física, ao tentarmos explicar qualquer conteúdo da área biológica. 52 Com viver com ciência G U I A P N L D ABORDAGEM 2 A anorexia é caracterizada por perda voluntá- ria de peso, motivada por um desejo patológi- co de emagrecer, aliado a um medo intenso de engordar (PALAZZO, 2016). Vamos, inicialmen- te, abordar a perda voluntária de peso. Para que possamos perder peso, naturalmente, existem algumas ações que, em conjunto, aceleram o pro- cesso: redução da quantidade e preocupação com a qualidade alimentar, associadasà atividade fí- sica. A redução da quantidade faz com que não forneçamos, para nosso organismo, o necessário para a demanda de seu metabolismo (toda reação bioquímica que acontece no interior de uma cé- lula de nosso corpo com o objetivo de síntese ou quebra de compostos orgânicos. Algumas dessas reações de quebra são realizadas para a produção de ATP. Todas essas reações são coordenadas por enzimas). Quando selecionamos os tipos de ali- mentos que ingerimos e reduzimos a quantidade de carboidrato, tendo em vista que os carboi- dratos são nossas primeiras fontes para obtenção de energia, podemos forçar nosso organismo a utilizar os lipídios de reserva. Quando essa perda voluntária é motivada por um desejo patológico, ou seja, um desejo que está relacionado com uma doença, as consequências podem ser muito gra- ves. No caso da anorexia, a pessoa evita comer e tem propensão a fazer atividades físicas. Agora, vamos entender como ocorre essa perda de peso, considerando que o indivíduo está ingerindo bai- xa quantidade de alimentos, inclusive carboidra- to, e com isso força seu organismo a metabolizar as gorduras. É o que chamamos de “queima de gordura”, ou oxidação lipídica. LIPÍDIOS A palavra “lipídio” vem do grego “λίπος − lipos”, que significa “gordura”. São substâncias presen- tes nos seres vivos e se diferenciam das proteí- nas e dos carboidratos por apresentar baixa solubilidade em água. Porém, são solúveis em solventes orgânicos, como éter, álcool, acetona, entre outros. Podem exercer as funções de re- serva energética, isolante térmico e mecânico, estrutural, agentes emulsificantes (p. ex., bile), coenzimas (as vitaminas lipossolúveis A, D, E, K), e são precursores de alguns hormônios. Essa molécula orgânica apresenta diferentes classes, que desempenham diversas funções biológicas no organismo. Especificamente, os lipídios que apresentam em sua composição química molé- culas de ácidos graxos (ácidos orgânicos mono- carboxílicos; é importante ressaltar que esse áci- do não é um lipídio, mas compõe a maioria das moléculas lipídicas. Contém apenas um grupo carboxila −COOH, ligado a uma cadeia de C−H, podendo apresentar de 4 a 36 carbonos) e glice- rol (apresenta um grupo OH ligado a um carbono saturado – função álcool CH2 − CH2 − CH2 OH OH OH ) são de- nominados GLICERÍDEOS. Nesse grupo, encon- tram-se os triglicerídeos, que exercem a função de armazenamento de energia no tecido adipo- so, além de atuarem como isolantes térmicos. De acordo com as propriedades físicas e a caracte- rística de ácido graxo presente em sua estrutura, ele pode ser classificado como gordura (aspecto sólido em temperatura ambiente, ácido graxo sa- turado) ou óleo (aspecto líquido na temperatura ambiente, ácido graxo insaturado). A estrutura química dos triglicerídeos é: 3R − C + 3 H2O Ácido graxo Glicerol Triglicerídeo Água OH HO − CH2 H − C − O − C − R H − C − O − C − R H − C − O − C − R →HO − CH HO − CH2 O H H O O O + Ou seja, uma molécula de glicerol ligada a três moléculas de ácido graxo. Na reportagem sobre anorexia, a pesquisa aler- tou para uma mutação na parte do DNA envol- vida na queima de gordura, propensão à prática de atividade física e níveis de açúcar no sangue. Essa queima de gordura está relacionada com a quebra dos triglicerídeos, sob a ação de hormô- nios lipolíticos, liberando ácidos graxos e glicerol para o sangue. Os ácidos graxos participarão do ciclo de produção de energia (ATP). A propen- são do anoréxico para a realização de atividades físicas intensifica a quebra dos triglicerídeos de reserva, diminuindo, assim, a quantidade da re- serva de gordura; isso, associado à não alimen- tação, causa um intenso emagrecimento. 53Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D Essa segunda abordagem esclarece alguns conceitos bio- lógicos e químicos, porém abre para mais questionamentos sobre outros conceitos, como carboidratos, proteínas, so- lubilidade, agentes emulsificantes, oxidação, ATP, DNA, mu- tação e hormônios. Esses termos poderão ser esclarecidos com a possibilidade de abertura para novas discussões sobre anorexia. Veja que, novamente, o número de aulas programadas para esse estudo pode variar conforme a dinâmica do grupo. No mínimo você necessitaria de duas horas aula. VIVÊNCIA: ESTUDANDO AS CONSEQUÊNCIAS DA DESNUTRIÇÃO CAUSADA PELA ANOREXIA NERVOSA EM NOSSO ORGANISMO Vamos discutir os dados, apresentados no Quadro abaixo, que mostram algumas alterações observadas nos casos de desnutrição e a relação com possíveis deficiências na dieta. Quadro 1 – A desnutrição e algumas possíveis alterações na composição e no funcionamento normal do organismo Sistemas Alterações funcionais Deficit de nutrientes Sistema muscular e Sistema Esquelético Grande perda muscular e dos depósitos de gordura, provocando debilidade física. Desaceleração, interrupção ou até mesmo involução do crescimento. Alterações ósseas, como a má formação. Proteínas, lipídeos, carboidratos e minerais, como o cálcio. Sistema Urinário Edema Cálculo renal Proteína Distúrbio eletrolítico. Ingestão hídrica insuficiente. Sistema Digestório Dificuldade para evacuar e redução do peristaltismo intestinal Fibras e redução na ingestão de água. Sistema tegumentar Alterações de cabelo e de pele: o cabelo perde a coloração, fica quebradiço e a pele enrugada e flácida. Proteína e zinco. Sistema Nervoso Alterações no sistema nervoso: estímulos nervosos prejudicados, número de neurônios diminuídos, depressão, apatia. Déficit na produção de energia devido a redução do aporte calórico Desequilíbrio hidroeletrolítico de sódio e potássio. Sistema Circulatório Anemia, diminuição da pressão arterial, arritmias Aporte calórico reduzido Desequilíbrio hidroeletrolítico. Ferro, vitamina B12, ácido fólico (Ver: AROLDO FILHO, s. d.. RECINE; RADAELLI. s. d.) 54 Com viver com ciência G U I A P N L D Veja que nesse quadro encontram-se ter- mos ligados à Biologia, porém sua explica- ção está carregada de conceitos da física, como: movimentos (peristaltismo), veloci- dade e pressão (pressão arterial e arritmias), diferença de potencial (desequilíbrio eletro- lítico), e de conceitos da química, como: ca- loria (aporte calórico insuficiente) e reações e interações químicas das substâncias orgâ- nicas e dos metais. Esse quadro abre campo para a discussão da fisiologia dos diferentes sistemas, do meta- bolismo celular, em particular a respiração celular, no momento da apresentação de aporte calórico, difusão e osmose na expli- cação sobre o desequilíbrio hidroeletrolítico. Por exemplo, uma das reações químicas im- portantes que ocorrem na respiração celular é a oxirredução. Se você deparar com uma situação igual ou similar à citada neste livro sobre o escurecimento da maçã, poderá aproveitar para organizar uma atividade teó- rico-prática para entendimento da reação. Segue a estrutura de uma possível atividade. TEXTO MOTIVADOR OXIRREDUÇÃO Quando cortamos a maçã e a deixamos um tempo exposta ao ar, ela escurece (oxida)? Quais processos químicos estão envolvidos? As maçãs, quando cortadas, expõem as enzimas polifenoloxidase (PPO) ao ar, que entram em con- tato com o oxigênio e reagem com esses compostos fenólicos (como o catecol) presentes nos tecidos de frutas e vegetais, oxidando-os. A oxidação ocorre quando o conjunto de enzimas PPO catalisa a reação, removendo o hidrogênio das hidroxilas – o que chamamos oxidação. Como produtos dessa reação, têm-se água e quinona, a qual pode se condensar, formando polímeros escuros e insolúveis, como a melanina, que são compostos que resultam em coloração amarronzada no produto. A transformação da quinona em melanina envolve diversas etapas complexas, as quais não demons- traremos, por não ser esse o objetivo. R OH H2O O OH O HO HO H C OH O NR + Catecol PPO + O2 Quinona Melanina As PPOs são compostas porum conjunto de enzimas, podendo também ser conhecidas por fe- nolases, fenoloxidases, catecolases, cresolases e tirosinases. Essas enzimas também podem estar presentes em mamíferos e crustáceos, como lagosta, camarão e caranguejo, e nesses produtos sua ação é conhecida como “mancha preta”. Nas maçãs, ela se encontra quase que exclusivamente nos cloroplastos e nas mitocôndrias. A atividade prática a seguir poderá auxiliar seu aluno a entender uma reação de oxirredução. Procedimento Pegue um béquer, ou copo de 50 ml, e coloque 20 ml de solução aquosa de sulfato de cobre (CuSO4) (o sulfato de cobre pode ser comprado em lojas que vendem material para piscina) e uma a duas colhe- res de chá de plástico, para fazer uma solução nem muito clara, nem muito escura. (continua) 55Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D Mergulhe nesse béquer um pedaço de palha de aço (Fe) e observe. • O que aconteceu com a solução? • O que aconteceu com a palha de aço? • Como você explica os resultados obtidos? • Tente escrever a reação que está envolvida no processo. Compare sua reação química com esta: 3 Cu(SO4)(aq) + 2Fe(s) → Fe2(SO4)3 (aq) + 3 Cu(s) Reescrevendo e colocando somente os átomos e elétrons que participam da reação, teremos: Cu+2(aq) + 2e-→ 2Cu(s) Fe(s) → Fe+3(aq) + 3e- Fe = ferro; Cu = cobre; aq = solução aquosa; S = sólido; e- = elétrons Sabemos que, em um átomo neutro, a quantida- de de prótons (carga positiva) é igual à quantida- de de elétrons (carga negativa). Observando os átomos de ferro (Fe) e cobre (Cu) antes da reação, o que podemos dizer sobre a quantidade de prótons e elétrons de cada um? E depois da reação? Houve alguma mudança na quantidade de pró- tons e elétrons antes e depois da reação no ferro e no cobre? Se sim, de onde vieram e para onde foram os elétrons perdidos ou adquiridos? Reações como essas são chamadas de reações de oxirredução. Ocorrem com a transferência de elétrons de um átomo para outro, e a quantidade de elétrons cedidos tem que ser igual à quantida- de de elétrons adquiridos. • Na reação citada, qual a quantidade de elé- trons envolvida na reação? • Quem ganhou elétrons? • Quem perdeu elétrons? • O que aconteceu com a carga de quem ganhou elétrons? • O que aconteceu com a carga de quem perdeu elétrons? Podemos perceber que quem ganha elétrons tem sua carga reduzida, portanto dizemos que o áto- mo ou substância reduziu, e quem cedeu elétrons tem sua carga aumentada, e dizemos que a subs- tância ou átomo oxidou. Nas substâncias orgânicas, muitas vezes dizemos que aquela que oxidou ganhou oxigênio, pois ele tem mais afinidade por elétrons que o hidrogê- nio. Dessa forma, as moléculas orgânicas, ao so- frerem oxidação, tendem a aumentar a quantida- de de ligações com o oxigênio. Observe que compreender o que é oxidorredu- ção permite entender quimicamente a respira- ção, a fotossíntese e até a formação da melanina na pele. Nesse contexto, podemos aprofundar as questões do vitiligo e do albinismo. A seguir estão as referências para a escrita do texto e um convite à leitura para aprofunda- mento. CONVITE À LEITURA CARVALHO, L. C. de; LUPETTI, K. O.; FATIBELLO-FILHO, O. Um estudo sobre oxidação enzimática e a prevenção do escurecimento de frutas no ensino médio. Química Nova na Escola, n. 22, nov. 2005. Disponível em: http://qnesc.sbq.org.br/ online/qnesc22/a10.pdf. Acesso em: 1º dez. 2020. Nesse trabalho, propõe-se um experimento didático para a observação do escureci- mento de frutas e a prevenção da oxidação enzimática na presença de alguns agen- tes inibidores, como ácido ascórbico e ácido cítrico. (conclusão) 56 Com viver com ciência G U I A P N L D Os instrumentos que poderão ser utilizados para a avaliação da aprendizagem com a ati- vidade prática podem ser: • relatório com explicação do entendi- mento do passo a passo da execução da prática da reação de oxirredução e co- mentário final do entendimento do que é reação de oxirredução e qual sua relação com a saúde dos seres vivos; • comportamento do estudante durante a execução da prática (execução das eta- pas propostas, cooperação com o cole- ga de trabalho, colaboração na discussão para resolução dos problemas durante a execução da prática); • participação na discussão e na socializa- ção com a turma sobre as pesquisas e os questionamentos oriundos dela. Para a realização da atividade prática seria necessário no mínimo duas horas aula e mais duas para a discussão dos resultados. Retornando aos dados apresentados na Qua- dro 1, sugerimos a seguir duas leituras, que mostram conceitos da física explicando a fi- siologia dos fluidos sanguíneos e a pressão arterial e a motilidade gastrointestinal. CONVITE À LEITURA OLIVEIRA, M. A. B. et al. Conceitos de física básica que todo cirurgião cardiovascular deve saber. Parte I: mecânica dos fluidos. Rev. Bras. Cir. Cardiovasc., São José do Rio Preto, v. 25, n. 1, p. 1-10, jan./mar. 2010. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102- 76382010000100006&lng=pt&nrm=iso. Acesso em: 1º dez. 2020. Nesse artigo, o autor discorre, à luz da matemática, acerca da dinâmica dos fluidos, ou seja, do sangue, com enfoque nas medidas invasivas de pressão arterial, do efeito do diâmetro do vaso sobre sua resistência interna e do fluxo que passa por ele na conversão de diversas unidades de medidas de pressão e resistência, viscosi- dade sanguínea e suas relações no vaso, hemodiluição, diferenças de fluxo laminar e turbulento, velocidade e pressão do sangue e tensão da parede após uma estenose e a origem do aneurisma pós-estenótico. SANTOS, Armenio Aguiar dos; MAGALHÃES, Pedro Jorge Caldas; LIMA, Ricardo de Freitas. Motilidade do Trato Gastrintestinal, p. 411-440. In: Sistema Digestório: Integração Básico-Clínica. São Paulo: Blucher, 2016. Disponível em: https://openaccess.blucher.com.br/article-details/motilidade-do-trato- gastrintestinal-20126. Acesso em: 2 dez. 2020. Trata-se de um capítulo específico sobre motilidade do trato gastrointestinal, mostrando as interações da química, da física e da biologia para a efetivação dos movimentos gastrointestinais. Você deve estar pensando: isso é muito complicado. Como desenvolverei um trabalho com tantos questionamentos? Como farei esse tipo de dis- cussão? O mais importante é termos em mente que os fenômenos e os objetos de estudo não podem ser ensinados e discutidos somente com o conheci- mento de nossa área. Precisamos despertar o interesse para adentrar ou- tras áreas. Sempre haverá questionamentos, e, a cada vez que estudarmos e compreendermos determinado contexto, novas perguntas surgirão, le- vando a novas buscas. 57Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D DESDOBRAMENTOS E ATIVIDADES Vamos agora auxiliá-lo na condução de uma proposta de ensino, explorando as informa- ções apresentadas no Quadro 1. 1. Os conhecimentos prévios e o mapea- mento das experiências dos estudantes Procure levantar os conhecimentos que seus estudantes trazem a respeito do assunto com o qual você vai trabalhar. Atividades que tenham como finalidade verificar o que os estudantes já sabem podem ser planejadas de diferentes for- mas […]. O que precisa ser garantido pelo professor, independentemente do tipo de atividade oferecido, é que os estudantes lidem com situações-problema diversas, que os provoquem a mobilizar seus co- nhecimentos para resolver uma tarefa. (BRASIL, 2017, s. p.). Por exemplo, se você estiver discutindo as informações apresentadas no Quadro 1 em relação ao sistema digestório, a primeira coisa que pode fazer é saber de seus estudantes quais os órgãos e qual a posição de cada um no organismo. Se houver poucos alunos em sala, permita que eles se coloquem e mostrem no próprio corpo a posição dos órgãos; caso contrário, ou seja, se houver muitos alunos em sala, entregue um esboço do corpohumano e peça-lhes que o preencham com o desenho da posição dos órgãos e seus respectivos nomes. Você também pode pedir aos estudantes que acessem o site https://www.zygotebody. com/# para verificarem a posição dos órgãos em 3D. Com essa atividade, você já terá várias informações sobre o entendimento que seus estudantes têm da posição dos órgãos, e, consequentemente, isso influenciará a identificação dos sintomas em caso de alteração no órgão, bem como lhes ensinará até mesmo o caminho do alimento. Somente para exemplificar, em uma de nossas aulas alguns estudantes acreditavam que o alimento passava pelo fígado. Conseguimos perceber isso porque alguns colocaram o fígado como pertencente ao tubo digestivo. Nesse mesmo quadro, repare que as altera- ções do sistema digestório estão relaciona- das com o movimento peristáltico e o apor- te calórico. Procure, por meio de uma roda de conversa, por exemplo, saber o que seu estudante conhece desse movimento e por que o aporte calórico poderá ser reduzido. Conteúdo a ser ensinado, sua natureza e as estratégias e hipóteses didáticas A diversidade de conhecimentos apresen- tados lhe permitirá ampliar as discussões. Aproveite as diferentes habilidades de seus estudantes para produzir maquetes, dese- nhos, animações no computador e outros recursos que eles possam criar para auxiliar no entendimento do tema. As produções de seus estudantes precisam ser exploradas ao máximo, e eles devem ter a oportunidade de apresentá-las para a turma ou o público externo. Durante a preparação do material, deve ser esclarecido o porquê da escolha do modelo e o que significa cada parte ou etapa dele. Assim, você desenvolverá a capacidade argumentativa do estudante: falar sobre algo que ele mesmo fez traz mais segurança e, ao mesmo tempo, avalia-se melhor o entendi- mento do processo. Outro ponto importante que deve ser ressal- tado é que, ao explorar e valorizar as diferen- tes habilidades de seus estudantes, você cria um grande ambiente de troca entre aluno- -aluno e aluno-professor. Muitas vezes, um estudante que não tem perfil para determi- nada habilidade pode ser motivado a desen- volvê-la, mesmo que não plenamente, mas o suficiente para que ele possa utilizá-la em outras situações em que for demandado. 58 Com viver com ciência G U I A P N L D Dimensão III – Área de conhecimento em foco Objetivos gerais das atividades e vivências dessa dimensão • Perceber a relação existente entre sua área e as demais áreas do conhecimento. • Refl etir sobre a importância de construir um ambiente propício ao diálogo para o desenvolvimento de um trabalho interdisciplinar. • Conscientizar que o diálogo com as diferentes áreas do conhecimento proporcionará um novo olhar e, consequentemente, uma forma mais compreensível de apresentar e discutir o objeto de estudo. • Ser capaz de reconhecer suas inconsistências teóricas e metodológicas. Justifi cativa Esses objetivos se justifi cam pela existência de um discurso muito forte sobre a necessidade da interdisciplinaridade, porém os caminhos para atingir efetivamente esse tipo de trabalho requerem: a existência de um incômodo que o retire da acomodação, a disponibilidade para o diálogo e a receptividade para o novo como um processo de avaliação e revisão constante. A BNCC estrutura as competências específi cas por áreas de conhecimento, o que exige um trabalho conjunto com as diferentes disciplinas, articuladas de forma interdisciplinar. © B an c o d e im g e n s R H J / C ar lo s Jo rg e N u n e s Vamos ler, primeiramente, este pequeno texto de Hugo Assmann (2001, p. 162), que assim escreveu em seu livro Reencantar a educação: rumo à sociedade apreendente: Interdisciplinaridade. O enfoque científi co e pedagógico que se caracteriza por buscar algo mais que do que mera justaposição das contribuições de diversas dis- ciplinas sobre um mesmo assunto, e se esforça por estabelecer um diálogo enri- quecedor entre especialistas de diversas áreas científi cas sobre uma determinada temática. Aplica-se a problemas, atividades e projetos que ultrapassam a capaci- dade de uma só área disciplinar. O conceito expressa a consciência dessa limi- tação das disciplinas específi cas, mas não transforma isso necessariamente num questionamento epistemológico mais radical, como o faz a transdisciplinaridade. (ASSMANN, 2001, p. 162). 59Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D Você deseja iniciar um trabalho interdisciplinar, porém: • Não sabe qual(ais) a(s) outra(s) área(s) que poderá(ão) auxiliá-lo no tra- balho e/ou • Sabe discriminar qual(ais) a(s) área(s), mas quer chegar com a proposta pronta e não está conseguindo e/ou • Sabe qual(ais) professor(es) da(s) outra(s) área(s) procurar, mas não se sente à vontade para fazer a proposta e/ou • Ao fazer a proposta, não se sente confortável quando o professor da outra área expõe a dele, mas você não apresenta argumento suficiente para aceitar ou contrapor e/ou • Você apresenta um argumento contrário à proposta exposta pelo pro- fessor da outra área, mas ele é irredutível e/ou • Depois de fazer todos os contatos e alinhavar a proposta, os estudan- tes não mostraram muito interesse e/ou • A proposta está pronta, os estudantes estão motivados, mas você está tendo dificuldade para propor a avaliação junto ao(s) outro(s) profes- sor(es) e/ou • A organização temporal e espacial do ambiente escolar foi um impor- tante fator que impossibilitou o trabalho interdisciplinar. CONVITE À LEITURA DIRCE, E. T. Ciência: conceitos e saberes. Revista Interdisciplinaridade. Número especial. Nov. 2015. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/inter- disciplinaridade/article/view/25477 Acesso em: 3 dez. 2021 Trata-se de um capítulo no qual a autora discute, em flashes, possibilidades de con- ceitos que nunca poderemos ditar como verdades, mas apenas como linhas de pes- quisa, foi o que Japiassu permitiu concluir após analisar documentos e ideias de outros teóricos sobre os conceitos de disciplinaridade, multidisciplinaridade, pluri- disciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade. THIESEN, J. da S. A interdisciplinaridade como um movimento articulador no processo ensino-aprendizagem. Rev. Bras. Educ. [online], Rio de Janeiro, v. 13, n. 39, p. 545-554, set./dez. 2008. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo. php?pid=s1413-24782008000300010&script=sci_abstract&tlng=pt. Acesso em: 1º dez. 2020. O autor faz uma apresentação da origem histórica desse movimento. Discute aspec- tos de sua conceituação e suas implicações no campo das diferentes ciências con- temporâneas, para, então, apresentar a interdisciplinaridade como um importante fenômeno de articulação do processo de ensino-aprendizagem, que pode transfor- mar profundamente a qualidade da educação escolar por intermédio de seu processo de ensino. 60 Com viver com ciência G U I A P N L D Essas questões, na maioria das vezes, causam desmotivação para a realiza- ção de trabalhos interdisciplinares. Considerando que fomos formados por uma escola de concepção tradi- cional, o trabalho interdisciplinar não é algo que se desenvolve rapidamen- te e com adesão de um grande número de pessoas. É importante ressaltar que a organização por área e a determinação das competências propostas na BNCC exigem o formato de um trabalho interdisciplinar. É preciso que o iniciemos o quanto antes e nos disponibilizemos para o encontro com o outro. Farei aqui uma comparação com fazer atividade física para emagre- cer. No início, qualquer coisa é motivo para dar um tempo, ou até mesmo parar; porém, se ultrapassamos os obstáculos iniciais, não conseguimos mais ficar sem fazer atividade física. O mesmo ocorre com os trabalhos interdisciplinares: quando conseguimos ultrapassar os obstáculos e de- senvolver as atividades, é muito difícil voltara pensar e a trabalhar isolado em nossa área do conhecimento. As competências gerais para a formação completa de um sujeito exigem a capacidade de integração de conheci- mentos de diferentes áreas, para a efetiva resolução dos problemas pes- soais, profissionais e sociais/políticos, econômicos e ambientais. Esse trabalho pode ser planejado por iniciativa: • Da escola, com o objetivo de estruturar seu projeto pedagógico. Nesse caso, a escola fará uma discussão ampliada com a comunidade esco- lar e terá de pensar na organização temporal e espacial. • De um professor ou um grupo de professores. Nesse caso, o professor ou grupo de professores terão de, inicialmente, detectar profissionais de outras áreas que tenham afinidade com sua proposta para a realiza- ção desse tipo de trabalho. Precisa existir interesse mútuo para propor ou dar continuidade a um trabalho já existente. Não podemos achar que todos concordarão com nossas propostas. Aque- les professores que se identificam com elas acabam aceitando a participa- ção. Outros também se identificam, mas, no momento do convite, podem não estar disponíveis ou receptivos para participar do trabalho coletivo. Sua proposta ou ideia não pode chegar pronta; ela precisa mostrar uma flexibilização para que o professor da outra área se sinta à vontade para intervir ou mesmo alterá-la. PROPOSTA INTERDISCIPLINAR: ALIMENTOS Neste capítulo, propusemos o TCT Saúde e elegemos o subtema o corpo – a matéria e energia que o nutre – o alimento. Para nortear nos- sa discussão, escolhemos um assunto importante para ser debatido com nossos adolescentes: a anorexia. Pois bem. Agora, qual poderia ser a se- quência de atividades que organizaríamos para não perdermos o foco e discutirmos os conteúdos científicos relacionados com o tema? 61Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D Vamos dar o exemplo de uma sequência de atividades, para que você possa ampliar as discussões realizadas até agora. Na perspectiva interdisciplinar, é impossível que você tenha ciência de todos os conhecimentos interligados ao que você está trabalhando. Porém, para que haja o entendimento do tema ou do contexto a ser discutido, é impor- tante que você saiba reconhecer qual e o que da(s) outra(s) área(s) será(ão) necessário(s) para o enriquecimento das discussões. • Não pense que todos os professores se identificarão com sua proposta. Pode ser que um ou dois professores concordem em fazer o planeja- mento com você, ou até mesmo pode acontecer que nenhum professor concorde. Caso isso ocorra, inicie seu trabalho e convide um ou outro professor para participar de determinado momento da atividade, como um trabalho de campo ou uma discussão em sala. Essas pequenas partici- pações podem despertar em seu colega o desejo de iniciar uma atividade junto com você. É importante ressaltar que as descobertas científicas são construções sociais. Para que possamos auxiliá-lo, propomos uma sequência de atividades cons- truídas por um grupo de professores das diferentes áreas do conhecimento, como Biologia, Química, Física, Português, Geografia, História etc. O tema é a dinâmica do corpo, como o percebemos e como ele funciona. Com o objetivo do desenvolvimento interdisciplinar, construiremos uma base com um construto de ideias que vão ancorar os novos conhecimentos. As atividades que se seguem auxiliarão no desenvolvimento das seguintes competências gerais da BNCC: 3. Valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, e também participar de práticas diversificadas da produção artístico- cultural. 4. Utilizar diferentes linguagens – verbal (oral ou visual-motora, como Libras, e es- crita), corporal, visual, sonora e digital –, bem como conhecimentos das lingua- gens artística, matemática e científica, para se expressar e partilhar informações, experiências, ideias e sentimentos em diferentes contextos e produzir sentidos que levem ao entendimento mútuo. 5. Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunica- ção de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva. 9. Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fa- zendo-se respeitar e promovendo o respeito ao outro e aos direitos humanos, com acolhimento e valorização da diversidade de indivíduos e de grupos so- ciais, seus saberes, identidades, culturas e potencialidades, sem preconceitos de qualquer natureza. (BRASIL, 2018, p. 9,10). 62 Com viver com ciência G U I A P N L D ATIVIDADE: O CORPO – COMO O VEJO E COMO ELE É VISTO? PERCEPÇÃO DO CORPO EM DIFERENTES ÉPOCAS Paleolítico Figura 4 – Vênus de Willendorf. Grécia Antiga Figura 5 – Vênus de Milo, c. 200 a.C., mármore, altura 202 cm. Museu do Louvre (Paris, França). Figura 6 – Estátua retratando um atleta se preparando para arremessar um disco. © S o w a Se rg iu sz / A la m y Fo to d e s to c k © Ia n G D ag n al l / A la m y St o c k P h o to © m ra ko n /i st o c k. c o m .b r (continua) 63Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D Idade Média Figura 7 – A estética do Corpo na Filosofia e na Arte da Idade Média. Figura 8 – As mulheres medievais seguindo a figura da Virgem Maria. Renascimento Figura 9 – Valorização do corpo feminino. Figura 10 – O homem vitruviano, de Leonardo da Vinci. Analise as imagens e faça uma pesquisa sobre como o corpo era percebido, sentido e representado nas diferentes épocas. Individualmente, redija um texto expondo o resultado de sua pesquisa. Para auxiliá-lo nesse estudo, você poderá ler as duas referências sugeridas a seguir. Elas foram acessadas pelo Google Acadêmico, um bom recurso para suas pesquisas e para orientar seus estudantes nas pesquisas. © H e ri ta g e Im ag e P ar tn e rs h ip L td / A la m y Fo to d e s to c k © S e d m ak /i st o c k. c o m .b r © T im u r K u lg ar in /S h u tt e rs to c k. c o m © t ito sl ac k/ is to c k. c o m .b r (conclusão) 64 Com viver com ciência G U I A P N L D ATIVIDADE: A BONECA CRESCEU, E AGORA? (O PADRÃO DE BELEZA E SUAS CONSEQUÊNCIAS) Agora, vamos trazer algo que também pode abrir uma discussão sobre como a indústria nos influencia desde criança a seguirmos um padrão de beleza. Essa atividade pode ser pla- nejada junto com seus colegas professores. 1. Montando a boneca A partir de um levantamento prévio do tipo de boneca com o qual seus colegas mais gostavam de brincar quando crianças, pe- ça-lhes para se pesar e medir sua altura, cintura, comprimento das pernas, busto, comprimento dos braços, quadril e ombro. Calculando as devidas proporções, planeje com seus colegas professores uma atividade para a construção de uma boneca com um tamanho real de 1,60 cm. Após a construção da boneca, discuta com seus colegas as facilidades e as dificuldades que essa boneca teria para viver, caso fosse humanizada. CONVITE À LEITURA LOURO, G. L. (org.) et al. O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Tradução Tomaz Tadeu da Silva. 4. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2018. Esse livro foi organizado com reflexões sobre seis temas: pedagogia da sexualidade; o corpo e a sexualidade; curiosidade, sexualidade e currículo; Eros, erotismo e pro- cesso pedagógico; cultura, economia, política e construção social da sexualidade; e corpos que pesam: os limites discursivos do sexo. Os autores refletem sobre as desi- gualdades e as diferenças históricas e socialmente atribuídas aos corpos. BARBOSA, M. R.; MATOS, P. M.; COSTA, M. E. Um olhar sobre o corpo: o corpo ontem e hoje. Psicologia & Sociedade, v. 23, n. 1, p. 24-34, 2011. Disponívelem: https://www.scielo.br/pdf/psoc/ v23n1/a04v23n1. Acesso em: 1º dez. 2020. Neste ensaio em torno do tema do corpo, os autores propõem pensar alguns aspectos sociais e culturais que contribuíram para a construção do corpo na nossa sociedade, a forma como ele tem sido e pode ser olhado e representado. 2. Roda de conversa: olhares transdisciplinares sobre o corpo Depois da construção da boneca, é impor- tante que ocorra a organização de uma roda de conversa, para que possam ser apresen- tados e discutidos os estudos sobre a pos- sibilidade de humanização da boneca em tamanho real. Os professores poderão enri- quecer a discussão com os olhares das dife- rentes áreas. Para instigar mais as discussões, sugerimos a leitura inicial do trecho a seguir, com a apresentação das imagens dos dife- rentes padrões de beleza em diferentes cul- turas. Sant’Anna (2000) nos lembra que cada corpo, longe de ser apenas constituído por leis fisiológicas, supostamente imutáveis, não escapa à história. E se o corpo não escapa à história, faz senti- do dizer […] que cada cultura tem seu corpo assim como ela possuiu sua língua. Além de ser um processo histórico, o corpo funciona como um processador da história, por meio do qual são veiculados e modificados os le- gados culturais e biológicos. (SANT’ANNA, 2000, p. 50). 65Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D PADRÕES DE BELEZA EM DIFERENTES PARTES DO MUNDO Figura 11 – Mulheres da Mauritânia: fazendas para engordar as mulheres. © A lp h o ro m /i st o c k. c o m .b r Figura 12 – Mulheres da tribo Karenis. © R .M .N u n e s/ is to c k. c o m .b r Figura 13 – Mulheres da Etiópia – tribo Mursi – pratos labiais. © D av o rL o vi n c ic /i st o c k. c o m .b r Figura 14 – Pés de lótus – mulheres chinesas. © A la to m /i st o c k. c o m .b r 66 Com viver com ciência G U I A P N L D 3. Desdobrando o tema Neste momento, abra a oportunidade para que possam ser discutidos as consequências de determinados estigmas e os padrões socioculturais para a sociedade como um todo. Outros temas relacionados, como a obesi- dade e a fome, também podem ser abordados. Sugerimos os seguintes recursos para iniciar as discussões: A. Uma HQ de humor B. Trechos de artigos que abordam a rede de significados das palavras e a relação entre obesidade e fome. Dentro da vertente pós-estruturalista de análise, a linguagem torna-se um conceito chave [sic.], pois ela não apenas é concebi- da como narrando acontecimentos e sujei- tos, mas os constitui. Assim, ao nomearmos alguém de “gordo”, podemos não apenas estar nos referindo ao seu excesso de peso, mas a toda a rede de significados atribuídos a ser gordo e que não lhe são inerentes. Isto porque a palavra “gordo”, hoje, é carregada de sentidos que vão muito além do sentido dicionarizado. Ao dizermos que alguém é gordo, provavelmente podemos fazer re- ferência a esse sujeito como uma pessoa preguiçosa, desleixada com seu corpo, que come muito, que possui vida sedentária […]. Enfim, a linguagem constituindo o sujeito, a linguagem produzindo identidades, a lin- guagem incluindo e excluindo, aprovan- do e reprovando sujeitos. (MARTINS et al., 2006, p. 21). © B an c o d e im g e n s R H J / C ar lo s Jo rg e N u n e s Figura 15 – Paródia do meme “E agora um poema” Ver: https://www.facebook.com/UmPoemaOficial. Acesso em: 04 dez. 2020. 67Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D Brasil A realidade de não ver ninguém magro ali talvez demonstre um desconhe- cimento de que a obesidade também pode ser resultado de insegurança ali- mentar (fome), já que muitos procedem a substituição de alimentos melho- res por altas porcentagens de gordura e açúcar por terem menores preços. A alimentação é reconhecida pela Constituição Federal Brasileira como um direito humano (artigo sexto da EC 64/2010), onde o Estado Brasileiro tem a obrigação de respeito, proteção, promoção e provimento de ali- mentação adequada para população. Estimativas da ONU indicam que pelo menos nove milhões de pessoas convivem com a fome e este número só vem crescendo, principalmente em função da pandemia de coronavírus e seus efeitos econômicos, o Bra- sil caminha para voltar ao Mapa da Fome Programa Mundial de Alimentos (WFP/ONU), com mais 5,4 milhões de pessoas, com um total chegaria a quase 14,7 milhões até o fim de 2020, ou 7% da população, segundo estu- dos do Banco Mundial. A extrema pobreza, medida pelos que ganham menos de US$ 1,90 por dia, no Brasil, são 9,3 milhões de pessoas, segundo dados de 2018. A estimativa agora é que, por conta dos efeitos econômicos, mais 5,4 milhões deverão entrar na extrema pobreza, segundo o Banco Mundial. (PINHATA, 2019, s. p.). EUA Nos Estados Unidos, atualmente, 40% dos adultos e 20% das crianças são obesas. Em 2018, pela primeira vez, mais de 35% dos adultos em nove es- tados do sul eram obesos. (Fonte: https://pebmed.com.br/o-novo-retrato-da-obesidade-nos-estados-unidos-e-brasil/) Ainda nos Estados Unidos, a obesidade em crianças triplicou nas últimas três décadas (Neumark-Sztainer, 2005, apud, Nunes et. al, 2006). “Entre os fatores que tem sido associados ao aumento de sobrepeso/ obesidade, destaca-se na vertente do consumo, a disponibilidade de uma ampla va- riedade de produtos gostosos, baratos, porém ricos em energia e servidos em largas porções”. (NUNES et al, 2006, p. 251). Sudão do Sul No Sudão do Sul, a Caritas Espanhola alertou em julho de 2019 que até 7 milhões de pessoas passam fome (61 % da população), em razão de uma guerra civil desde 2013, que agravou a produção de alimentos e o deslocamento da população (2,2 milhões de refugiados e 2,0 milhões de deslocados internos). A mudança climática levou a prolongados períodos de seca, doenças nas plantações e pragas. (Fonte: https://www.acidigital.com/noticias/fome-ameaca-milhoes-no-sudao-do-sul- denuncia-caritas-96354) União Europeia (Europa e Ásia Central) Cerca de 7,5 milhões de adultos passam fome na Europa e mais 6,8 milhões de pessoas na Ásia Central também de acordo com a Orga- nização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO 2014/2016), equivalente a 1,7% de toda a população. A pobreza continua sendo o maior obstáculo para a segurança alimen- tar, o sobrepeso e a obesidade; estando relacionados à renda per ca- pita, pois permite um maior consumo de produtos ricos em calorias, combinada com um estilo de vida mais sedentário. Em locais em que as famílias têm baixas rendas o consumo é de ali- mentos baratos e com alto teor de gordura, açúcares e carboidratos refinados, sem uma dieta saudável. Existem desnutrição em uma ou mais de suas três formas principais (desnutrição, excesso de nutrientes e carência de micronutrientes). (Fonte: https://www.efe.com/efe/brasil/sociedade/cerca-de-7-5-milh-es-adultos- passam-fome-na-uni-o-europeia-segundo-fao/50000246-3457702) 68 Com viver com ciência G U I A P N L D União Europeia (Europa e Ásia Central) Cerca de 7,5 milhões de adultos passam fome na Europa e mais 6,8 milhões de pessoas na Ásia Central também de acordo com a Orga- nização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO 2014/2016), equivalente a 1,7% de toda a população. A pobreza continua sendo o maior obstáculo para a segurança alimen- tar, o sobrepeso e a obesidade; estando relacionados à renda per ca- pita, pois permite um maior consumo de produtos ricos em calorias, combinada com um estilo de vida mais sedentário. Em locais em que as famílias têm baixas rendas o consumo é de ali- mentos baratos e com alto teor de gordura, açúcares e carboidratos refi nados, sem uma dieta saudável. Existem desnutrição em uma ou mais de suas três formas principais (desnutrição, excesso de nutrientes e carência de micronutrientes). (Fonte: https://www.efe.com/efe/brasil/sociedade/cerca-de-7-5-milh-es-adultos-passam-fome-na-uni-o-europeia-segundo-fao/50000246-3457702) 4. Investigando as diferentes percepções do corpo Agora, que já trabalhamos um pouco sobre a percepção do corpo, avançare- mos com a proposta de uma atividade de entrevista. A proposta é entrevistar algumas pessoas com diferentes faixas etárias com o objetivo de saber como elas veem seu corpo em relação a vários quesitos relacionados com a morfo- logia e a fi siologia. Essa atividade poderá ser realizada na própria comunidade escolar, porém, como em toda entrevista, o entrevistado terá de ser infor- mado sobre o assunto e sobre a utilização dos dados, para permitir ou não a entrevista. Segue um modelo de questionário que poderá ser aplicado com pessoas, de diferentes gêneros, das seguintes faixas etárias: 20 a 40; 41 a 60; 61 a 80; e acima de 80. 69Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D QUESTIONÁRIO Sexo Faixa etária COMO VOCÊ VÊ SEU CORPO EM RELAÇÃO A: Altura Voz Textura da pele Audição Cor do cabelo Visão Olfato Agilidade dos movimentos Peso Massa muscular COMO VOCÊ VÊ O FUNCIONAMENTO DE SEU CORPO EM RELAÇÃO A: Aumento ou perda de apetite Horas de sono Qualidade do sono Irritabilidade Dor de cabeça Euforia Tristeza Impaciência Organize as respostas do questionário por categorias e apresente os resultados em tabelas ou gráfi cos em forma de seminário. Essa atividade permitirá a coleta de dados para que possam ser comparados aos presentes na literatura. Você poderá utilizar as referências a seguir para auxiliar na comparação dos dados. M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O COMO VOCÊ VÊ O FUNCIONAMENTO DE SEU CORPO EM RELAÇÃO A: M OD EL O COMO VOCÊ VÊ O FUNCIONAMENTO DE SEU CORPO EM RELAÇÃO A: M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O M OD EL O 70 Com viver com ciência G U I A P N L D CONVITE À LEITURA SANTOS, D. C. A.; BIANCHI, L. R. O. Envelhecimento morfofuncional: diferença entre os gêneros. Arquivos do MUDI, v. 18, n. 2, p. 33-46. Disponível em: http:// www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/ArqMudi/article/view/24657 Acesso em: 1º dez. 2020 Este trabalho mostra o processo de envelhecimento do corpo humano, caracterizan- do os aspectos morfofuncionais que ocorrem durante esse processo e a diferenciação entre gêneros. As atividades propostas para que sua equipe de professores as realize são uma forma de estabelecer na prática a relação interdisciplinar no corpo docente. A partir dela, novas atividades poderiam ser pensadas por esse grupo de professores para serem realizadas com os estudantes. A partir da sequência que propusemos, seria possível avaliar seus estudantes quanto: • ao empenho no trabalho de campo para a aplicação do questionário (entrega dos questionários preenchidos); • à organização e à análise dos dados (aqui é importante contar com a ajuda de outra área, como a Matemática); • à preparação do material visual para o seminário (avaliar a qualidade do material visual, a exposição e o entendimento teórico, a argumentação e a resposta aos questionamentos dos colegas. Se for apresentação em grupo, avaliar a organização do grupo na apresentação); • à argumentação oral (inferências e utilização dos recursos teóricos para explicações dos dados organizados e analisados). Chame a atenção de seus colegas professores para a importância de pensar uma proposta conectada às realidades dos estudantes e da escola. Nesse sentido, outras sequências serão pensadas, com diferentes competências e habilidades, e outros aspectos podem ser elencados na avaliação. ATIVIDADE: OLHANDO PARA O PRÓPRIO CORPO Agora, a próxima atividade tem por objetivo proporcionar um olhar para o próprio corpo, de fora para dentro, e, na sequência, pesquisar quais são os sistemas e como eles interagem para permitir as atividades do dia a dia. A pesquisa deve ser feita em fontes confiáveis disponibilizadas na internet (Scielo, sites de instituições de pesquisa, Google Acadêmico e revistas cientí- ficas), por exemplo: https://www.zygotebody.com https://human.biodigital.com/login?returnUrl=/explore Revista Ciência Hoje. Revista Scientific American Brasil Revista Mente e Cérebro. 71Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D DIFERENTES AÇÕES HUMANAS DO DIA A DIA Figura 16 – O corpo humano. Após a análise da sequência das imagens, pode ser realizada a descrição da anatomia do externo para o interno, apontando qual o maior órgão representado. Nas imagens a seguir, o movimento que está sendo realizado envolve vários sistemas do corpo humano. Sugerimos a organização de uma atividade para que possam ser realizadas a descrição da fi siologia e a integração dos sistemas que viabilizam a realização do movimento. © B an c o d e im g e n s R H J / C ar lo s Jo rg e N u n e s Figura 18 – O ato de comerFigura 17 – O ato de correr Figura 19 – O ato de nadar Figura 20 – O ato de dirigir © C o le m at t/ is to c kp h o to .c o m .b r 72 Com viver com ciência G U I A P N L D Durante a execução dessa atividade, po- de-se dialogar com a área da Física (e também da Educação Física) para um me- lhor entendimento sobre a física dos movi- mentos e a importância de manter uma pos- tura correta. Com a área da Química, pode-se discutir sobre o gasto calórico em cada ati- vidade, e com a área das Ciências Humanas podem-se ampliar as discussões em relação às influências culturais na apropriação e na manutenção dessas atividades nas diferentes sociedades. Nessa atividade, objetiva-se desenvolver a capacidade de observação, transformação e compreensão do tema ou da situação apre- sentada. Atende-se à orientação da BNCC no que se refere à progressão das habilidades, ou seja, para o desenvolvimento de uma ha- bilidade mais complexa, é necessário desen- volver primeiro as mais simples. A sequência de atividades organiza-se na se- guinte ordem: observação das imagens, em seguida transformação das informações para a compreensão dos mecanismos integra- dos, biológico-fisicos e químicos, e influên- cia cultural e comportamental no processo. Mais uma vez, a proposta foi pensada para ser vivenciada pelos professores, de modo a testar a amplitude e ampliar seus objetos de conhecimento e a relação interdisciplinar. A sequência de atividades pode despertar no corpo docente o desejo de utilizá-la com os estudantes. O importante, nesse caso, é que a vivência docente permita levantar hipóte- ses coletivas de como criar condições para que cada atividade esteja em consonância com os elementos na avaliação dos conhe- cimentos prévios dos estudantes: O trabalho docente precisa se orientar por uma lógica de conhecimentos prévios. Quando trabalha a partir da lógica de pré-re- quisitos, é fato irrefutável que a escola exclui dos processos educativos os estudantes que “não aprenderam” determinados assuntos. (BRASIL, 2017, s. p.). ATIVIDADE: O ALIMENTO E A EVOLUÇÃO HUMANA Ampliando a malha de relações, a próxima atividade introduzirá as infor- mações sobre o papel e a importância do alimento na evolução humana. Esse alimento, como fonte de energia para nosso organismo, contribuiu significativamente para nossa evolução. Tal conhecimento pode nos aju- dar a valorizar mais a qualidade de nossa alimentação. Este conhecimento permite também compreender um pouco da evolução humana indo ao encontroda BNCC: Habilidade (EM13CNT208) Aplicar os princípios da evolução biológica para analisar a his- tória humana, considerando sua origem, diversificação, dispersão pelo planeta e diferentes formas de interação com a natureza, valorizando e respeitando a diversidade étnica e cultural humana (BNCC, 2018, p.557). Os textos a seguir são trechos citados do artigo “Alimentos e evolução humana” (disponível em: https://sciam.com.br/alimentos-e-evolucao- humana/ Acesso em: 1o dez. 2020). 73Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D TEXTO 1 “Mudanças na oferta de alimentos parecem ter influenciado fortemente nossos ancestrais homi- nídeos. Assim, em um sentido evolutivo, somos o que comemos. Consequentemente, o que comemos é ainda uma outra forma pela qual nos diferenciamos de nos- so parente primata. Populações de humanos con- temporâneos pelo mundo afora adotam dietas mais calóricas e nutritivas que aquelas de nossos primos, os grandes macacos. Então, quando e como os hábitos alimentares de nossos ancestrais divergiram dos hábitos de outros primatas? Além disso, quanto os humanos modernos se distancia- ram do padrão alimentar ancestral? O interesse científico na evolução das necessida- des nutricionais humanas tem uma longa histó- ria. Investigações relevantes começaram a ganhar espaço a partir de 1985, quando S. Boyd Eaton e Melvin J. Konner, da Emory University, publica- ram um artigo no New England Journal of Medici- ne intitulado ‘Nutrição Paleolítica’. Eles argumen- tam que a prevalência de muitas doenças crônicas nas sociedades modernas – entre elas obesidade, hipertensão, doenças coronarianas e diabetes – se- riam [sic] o resultado de uma incompatibilidade entre padrões dietéticos modernos e o tipo de die- ta que nossa espécie desenvolveu para se alimen- tar como caçadores-coletores pré-históricos. Desde então, a compreensão da evolução das ne- cessidades nutricionais humanas tem avançado consideravelmente – graças, em parte, às análi- ses comparativas entre populações de humanos vivendo tradicionalmente e outros primatas –, emergindo daí um retrato com mais nuances. Sabemos, agora, que os humanos evoluíram não para subsistirem com uma dieta paleolítica úni- ca, mas para desfrutarem de um padrão alimen- tar diversificado.” Esse trecho nos permite levantar os seguintes questionamentos: a que dieta paleolítica o au- tor se refere? Qual era a fonte predominante de substância orgânica? Quais poderiam ser as deficiências nutricionais nesse período? O que significa desfrutar de um padrão alimentar diversificado? TEXTO 2 “Para se compreender o papel da alimentação na evolução humana, devemos nos lembrar de que a procura pelo alimento, seu consumo e, fi- nalmente, como ele é usado para processos bio- lógicos são, todos, aspectos críticos da ecologia de um organismo. A energia dinâmica entre or- ganismos e seus ambientes, ou seja, a energia despendida comparada à energia adquirida, tem consequências adaptativas importantes para a sobrevivência e reprodução. Esses dois compo- nentes da aptidão darwiniana refletem-se na forma como estimamos o estoque de energia de um animal. A energia de manutenção é o que mantém um animal vivo. A energia produtiva está associada à concepção e manutenção da prole para a próxima geração. Para mamíferos, isso deve cobrir as demandas das mães durante a gravidez e lactação.” Nesse trecho, o autor diz que “devemos nos lembrar de que a procura pelo alimento, seu con- sumo e, finalmente, como ele é usado para processos biológicos são, todos, aspectos críticos da ecologia de um organismo”. Podemos questionar, especificamente: qual mensagem o au- tor quis passar quando usou a expressão “ecologia de um organismo”? Como Darwin relataria as questões sobre energia de manutenção e energia produtiva? 74 Com viver com ciência G U I A P N L D TEXTO 3 “O tipo de ambiente que uma criatura ocupa infl uenciará a distribuição de ener- gia entre esses componentes, em que condições mais duras representam, obvia- mente, maiores difi culdades. No entanto, o objetivo de todos os organismos é o mesmo: assegurar a reprodução, visando garantir, a longo prazo, o sucesso das espécies. Portanto, ao observarmos a forma como os animais se deslocam para obter a energia alimentar, podemos compreender melhor como a seleção natural produz a mudança evolutiva.” [...] “Lovejoy (1981) propôs que a locomoção sobre as duas pernas liberou os braços para carregar crianças e objetos. Recentemente, Kevin D. Hunt, da Indiana University, sugeriu que o bipedalismo emergiu como uma postura de alimentação, por ter permitido o acesso a alimentos que antes estavam fora de alcance. Peter Wheeler, da John Moores University, Liverpool, acrescentou que, ao se erguerem, os antigos humanos puderam regular melhor a temperatura corporal, expondo menos o corpo ao calor abrasador africano. A lista continua. Uma série de fatores provavelmente infl uenciou esse tipo de locomoção. A minha própria pesquisa, conduzida em colaboração com minha esposa, Márcia L. Robertson, sugere que o bipedalismo se desenvolveu em nossos ancestrais, pelo menos em parte, por ser menos dispendioso energeticamente que o deslocamento sobre quatro membros. Nossas análises dos custos de energia do movimento em animais demonstraram que, em geral, a maior demanda depende do peso do ani- mal e da velocidade com que ele se desloca. O mais surpreendente no movimento bipedal humano é que ele é notadamente mais econômico que o deslocamento quadrupedal em velocidade de marcha.” Nesse trecho, podemos explorar os conhecimentos da área da Física, ex- plicando por que o autor, em seu trabalho, sugere que “bipedalismo de- senvolveu-se em nossos ancestrais, pelo menos em parte, por ser menos dispendioso energeticamente que o deslocamento sobre quatro mem- bros”, e que “o mais surpreendente no movimento bipedal humano é que ele é notadamente mais econômico que o deslocamento quadrupedal em velocidade de marcha”. 75Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D TEXTO 4 “A evolução maior dos primeiros hominídeos ocorreu em pastos e espaços de ter- ra mais abertos, onde a sustentação é mais difícil. Sem dúvida, os caçadores-co- letores humanos modernos que vivem nesses ambientes, e que nos oferecem o melhor modelo disponível dos padrões de subsistência dos humanos primitivos, frequentemente se deslocam 12 km por dia em busca de alimentos. Quanto aos hominídeos que viveram entre 5 milhões e 1,8 milhão de anos atrás, durante o Plioceno, a mudança climática estimulou essa revolução morfológica. À medi- da que o continente africano foi se tornando mais árido, florestas deram lugar a pastos, deixando os recursos alimentares distribuídos mais irregularmente. O bipedalismo, nesse contexto, pode ser visto como uma das primeiras estratégias na evolução nutricional humana, um padrão de movimento que teria reduzido substancialmente o número de calorias despendidas na coleta de alimentos. O que é extraordinário em nosso cérebro grande, sob uma perspectiva nutricional, é o quanto de energia ele consome – aproximadamente 16 vezes mais que um te- cido muscular por unidade de peso. Porém, apesar de os humanos apresentarem, quanto ao peso corporal, cérebros maiores que os dos outros primatas (três vezes maior que o esperado), as necessidades totais de energia em repouso do corpo humano não são maiores que a de qualquer outro mamífero do mesmo porte. Usamos uma grande parte de nossa quota diária de energia para alimentar nossos cérebros vorazes. Na verdade, o metabolismo de um cérebro em repouso ultrapas- sa de 20 a 25% as necessidades de energia de um humano adulto – bem mais que os 8 a 10% observados em primatas não humanos – que os 3 a 5% em outros ma- míferos. […] Como teria evoluído esse cérebro tão energeticamente dispendioso? Uma teoria, desenvolvida por Dean Falk, da State University of New York, Albany,sustenta que o bipedalismo permitiu aos hominídeos resfriar o sangue cranial e, consequentemente, liberar o cérebro sensível do calor de temperaturas agressi- vas que haviam colocado em xeque o seu tamanho. Suspeito que vários fatores estiveram em jogo, mas a expansão do cérebro quase que certamente não teria ocorrido se os hominídeos não tivessem adotado uma dieta suficientemente rica em calorias e nutrientes, para suportar os custos associados.” Nesse trecho, poderemos explorar os conhecimentos da Química e da Física, associando-os aos da Biologia, para compreender as afirmações a seguir: […] bipedalismo permitiu aos hominídeos resfriar o sangue cranial e, conse- quentemente, liberar o cérebro sensível do calor de temperaturas agressivas que haviam colocado em xeque o seu tamanho […]. […] a expansão do cérebro quase que certamente não teria ocorrido se os ho- minídeos não tivessem adotado uma dieta suficientemente rica em calorias e nutrientes, para suportar os custos associados […]. 76 Com viver com ciência G U I A P N L D TEXTO 5 “Para as crianças em populações rurais de regiões em desenvolvimento, dietas de bai- xa qualidade resultam em crescimento físico deficiente e em altas taxas de mortalidade nos primeiros anos de vida. Nesses casos, os alimentos oferecidos às crianças após o des- mame não são, em geral, nutritivos e energe- ticamente fortes o suficiente para suprir as ex- tensas necessidades associadas a esse período. Apesar de essas crianças, ao nascerem, apre- sentarem altura e peso tipicamente similares às de crianças norte-americanas, por exem- plo, são menores e mais leves por volta dos três anos, assemelhando-se, frequentemente, aos pequenos 2% ou 3% das crianças norte-a- mericanas de mesma idade e sexo. Estamos encarando o problema oposto no mundo in- dustrial: os registros de obesidade na infân- cia e na vida adulta estão crescendo, porque nosso desejo por alimentos ricos em energia – notadamente aqueles que incluem gordura e açúcar – tornaram-se muito disponíveis e relativamente baratos. Conforme estimativas recentes, mais da metade dos adultos norte -americanos estão acima do peso. A obesida- de também apareceu em algumas regiões em desenvolvimento, onde, até há uma geração, era virtualmente desconhecida. Esse aparen- te paradoxo surgiu quando pessoas que cres- ceram malnutridas se mudaram das áreas rurais para lugares urbanos, onde o alimento tem disponibilidade imediata. A obesidade e outras doenças comuns do mundo moder- no, de alguma forma, são extensões de um contexto que começou há milhões de anos. Nós somos vítimas de nosso próprio sucesso evolutivo, desenvolvendo uma dieta calórica concentrada, mas minimizando a quantida- de de energia de manutenção despendida em atividade física.” O autor, nesse trecho do artigo, expõe uma situação da realidade americana. Qual é nossa realidade, ou seja, temos esses mesmos problemas? As causas são as mesmas ou apresen- tamos outras realidades? TEXTO 6 “Assim como as pressões para melhorar a quali- dade alimentar influenciaram a evolução dos pri- meiros humanos, também esses fatores desem- penharam um papel crucial nas expansões mais recentes do tamanho populacional. Inovações como cozimento, agricultura e mesmo aspectos da tecnologia alimentar moderna podem, todas, ser consideradas táticas para elevar a qualidade da dieta humana. Cozinhar, por um lado, aumenta a energia disponível em alimentos vegetais selva- gens. Com o advento da agricultura, os humanos começaram a manipular espécies de plantas mar- ginais, visando maior produtividade, digestibili- dade e conteúdo nutricional – tornando as plantas essencialmente mais próximas dos alimentos ani- mais. Esse tipo de improviso continua hoje, com a manipulação genética de espécies para a pro- dução de “melhores” frutas, vegetais e grãos. Da mesma forma, o desenvolvimento de suplemen- tos nutricionais, que substituem refeições, é uma continuação da tendência iniciada por nossos an- cestrais: obter o máximo de retorno nutricional, no menor volume e com o mínimo esforço físico. A estratégia evidentemente funcionou: os humanos estão aqui hoje, e em números recordes. O testa- mento mais contundente, porém, da importância de alimentos ricos em energia e nutrientes na evolução humana, talvez esteja na observação de que tantas preocupações com a saúde, que ator- mentam as sociedades em todo o planeta, tenham origem nos desvios da dinâmica energética esta- belecida por nossos ancestrais.” 77Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D TEXTO 7 “Não foram somente as mudanças na dieta que difundiram muitos dos nossos problemas de saúde, mas a interação entre trocas alimentares e mudanças no estilo de vida. Os problemas de saúde modernos são, com frequência, retrata- dos como o resultado da ingestão de alimentos ‘ruins’, que são desvios da dieta humana natural – uma supersimplificação incorporada pelo debate atual sobre os méritos relativos de uma dieta superproteica e rica em gorduras tipo-Atkins, ou uma alternativa pobre em gorduras, que enfatiza carboidratos complexos. Essa é uma visão fundamentalmente equivocada de se enfocar as necessidades nutricionais humanas. A nossa espécie não está apta a subsistir com uma dieta única e ideal. O que é singular nos seres humanos é a extraordinária variedade do que comemos. Fomos capazes de prosperar em quase todos os ecossistemas sobre a Terra, consumindo desde alimentos de origem animal, entre as popula- ções do Ártico, até, basicamente, tubérculos e cereais, entre as populações dos Andes. Sem dúvida, um marco da evolução humana tem sido a diversidade de estratégias que desenvolvemos para criar dietas adequadas às nossas necessida- des, e a sempre crescente eficiência com que extraímos energia e nutrientes do ambiente. O desafio que as sociedades enfrentam agora é o balanceamento entre as calorias que consumimos e as que queimamos. A ingestão de mais alimentos de origem animal é uma forma de aumentar a densidade calórica e nutricional, uma mudança que parece ter sido crítica na evolução da raça humana. Mas poderiam nossos antepassados ter melhorado a qualidade alimentar de outra forma? Richard Wrangham, da Harvard University, e colegas recentemente pes- quisaram a importância do cozimento na evolução humana. Eles demonstraram que cozinhar não só faz com que os vegetais fiquem mais macios e fáceis de se mastigar, como aumenta substancialmente o conteúdo energético disponível. […] Os pesquisadores propuseram que o Homo erectus foi, provavelmente, o pri- meiro hominídeo a usar o fogo para cozinhar há, talvez, 1,8 milhão de anos.” O autor relata que, “com o advento da agricultura, os humanos começa- ram a manipular espécies de plantas marginais, visando maior produtivida- de, digestibilidade e conteúdo nutricional”. Qual é a bagagem de conheci- mento necessária para entender essa afirmativa do autor? O autor afirma: “Eles demonstraram que cozinhar não só faz com que os vegetais fiquem mais macios e fáceis de se mastigar, como aumenta subs- tancialmente o conteúdo energético disponível.” O entendimento des- sa afirmativa exigirá a incorporação de conhecimentos químicos, como transformações, reações e interações químicas. 78 Com viver com ciência G U I A P N L D TEXTO 8 “Estudos entre populações que vivem tradicionalmente apontam que os huma- nos modernos estão aptos a suprir suas necessidades nutricionais usando uma ampla variedade de estratégias. Adquirimos flexibilidade alimentar. A preocu- pação com a saúde no mundo industrial, em que alimentos calóricos concen- trados estão facilmente disponíveis, não se origina de desvios de uma dieta específica, mas de um desequilíbrio entre a energia que consumimos e a que despendemos.” É possível fazer um estudo da estimativa do número de calorias que con- sumimos diariamente. Para isso, podemos consultar tabelas de calorias por alimento e de quantidadede calorias gastas, disponibilizadas na internet, para responder aos seguintes questionamentos: • Ingiro mais calorias do que consumo? Se sim, o que isso implica para meu organismo? • Consumo mais calorias do que ingiro? Se sim, o que isso implica para meu organismo? • A quantidade de calorias que consumo é igual à quantidade que gasto? Se sim, o que isso implica para meu organismo? • Se meu gasto calórico for igual ao que consumo, isso significa que meu organismo é saudável? • Mas o que seria um corpo saudável? Devo só analisar a caloria? E as vitaminas e os micronutrientes? Neste momento, cabe uma discussão sobre o caso histórico das navega- ções e a doença do escorbuto, que só foi resolvida com a descoberta da vitamina C nas frutas cítricas (laranja, limão), das batatas, das folhas do abeto vermelho… Pode-se desenvolver um projeto interdisciplinar, com a parti- cipação, por exemplo, de professores das áreas de Biologia, História, Geo- grafia, Química e/ou os de Literatura, em um âmbito da contextualização sociocultural e do sistema produtivo e industrial. Repare que a aplicação desse tipo de sequência de atividades fornecerá vá- rios instrumentos para avaliação do processo, como: a pesquisa de cam- po, com a aplicação e a análise das respostas do questionário, os materiais oriundos das socializações dos diferentes estudos realizados, textos pro- duzidos sobre as reflexões, o acompanhamento da evolução da capacidade argumentativa a cada discussão, as apresentações orais, autoavaliações etc. Nesse processo de aprendizagem, caso seja utilizado por você para criar uma proposta contextualizada à sua escola, chamamos a atenção para os seguintes aspectos a serem avaliados: • A evolução da capacidade argumentativa oral (capacidade do estu- dante de utilizar as informações das fontes de pesquisa para explicar ou defender uma posição). 79Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D • A evolução na capacidade argumentativa escrita, ou seja, a qualidade dos textos produzidos com o objetivo de explicar e/ou defender uma posição. • A evolução na capacidade de utilizar os conhecimentos das outras áreas durante suas explicações e argumentações orais e escritas. • A evolução nos níveis de participação e questionamentos durante as discussões. • A evolução na capacidade propositiva, principalmente em relação aos problemas que forem levantados. • A evolução do trabalho em grupo, observando o envolvimento de cada membro do grupo, a cooperação entre eles durante as apresentações e discussões e a motivação para contribuir com o outro nos esclarecimen- tos dos pontos apresentados. VOCÊ SABIA? CARNE ARTIFICIAL A carne artificial desenvolvida em laboratório é uma descoberta que pode re- volucionar os hábitos alimentares humanos. Os métodos para cultivo não têm sidos relatados em detalhes, mas seguem dois processos: a cultura em suspensão e a cultura tridimensional. O método de cultivo em suspensão inicia com uma biopsia para a retirada de um pedaço muito pequeno de tecido muscular esquelético do animal. Esse te- cido contém uma série de células, as mais utilizadas são células-tronco adultas, que proliferam e podem se diferenciar apenas em células musculares esqueléticas. (Ver: VIANA; ARAÚJO, 2019). A New Harvest (https://www.new-harvest.org/) é uma das organizações que mais apoiam as iniciativas para desenvolver carne cultivada com tecnologias simpáticas ao ambiente. Segundo o site, sua missão é buscar substitutos para a carne livres de hormônios, antibióticos e pesticidas. “As células podem se mul- tiplicar tanto que, em teoria, uma única célula poderia ser utilizada para pro- duzir carne suficiente para alimentar a população mundial durante um ano” (KUKSO, 2019). Finalizando essa sequência de estudos, você, professor, pode trazer uma curiosidade da área da Ciência e Tecnologia. Essas curiosidades podem proporcionar uma gama muito grande de discussões relacionadas com os impactos desses avanços nos vários setores, ou seja, social, político, econômico, ambiental e cultural. Por exemplo: quais são as vantagens que virão com essa nova tecnologia? Quais são as desvantagens? No próximo capítulo, vamos discutir mais sobre o tema Ciência e Tecno- logia e suas implicações. 80 Com viver com ciência G U I A P N L D LEITURAS COMPLEMENTARES ARAÚJO, J. M. A. Química de alimentos: teoria e prática. 2. ed. Viçosa: UFV, 1999. “Este livro traz informações básicas a respeito dos diversos componentes dos alimentos e das altera- ções químicas e físicas que ocorrem durante o seu processamento, armazenamento e sua distribuição. O livro está organizado em 17 capítulos[,] a saber: Oxidação de lipídios em alimentos, Consequências biológicas da oxidação de lipídios, Antioxidantes, Óleos essenciais, Emulsifi cantes, Toxicantes natu- rais, Afl atoxinas, Conservantes químicos, Croma- tografi a de fase gasosa, Cromatografi a líquida de alto desempenho, Microextração em fase sólida, Proteína, catalase e peroxidase, Escurecimento en- zimático, Escurecimento não enzimático, Corantes naturais e extração com CO supercrítico, comple- mentados por oito apêndices.” MCARDLE, W. D.; KATCH, F. I.; KATCH, V. L. Fi- siologia do exercício: energia, nutrição e desempe- nho humano. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan S.A., 1998. “O livro trata dos seguintes itens: Nutrição: a base para o desempenho humano; Energia para a ativi- dade física; Sistemas de fornecimento e utilização de energia; Aprimoramento da capacidade energé- tica; Realização do exercício e estresse ambiental; Composição corporal, equilíbrio energético e aspec- tos do exercício relacionado à saúde.” NUNES, M. A.; APPOLINARIO, J. C.; GALVÃO, A. L. COUTINHO, W. Transtornos alimentares e obe- sidade. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2006. O livro apresenta 20 capítulos sobre transtornos alimentares, dos aspectos históricos à psicoterapia. ROONEY, A. A história da medicina: das primei- ras curas aos milagres da medicina moderna. São Paulo: M. Books do Brasil Editora Ltda., 2013. No livro incluem-se tópicos como: primeiras cirur- gias; modelos históricos do corpo e de doenças; a chave está nos corpos mortos; diagnóstico; pestes e pandemias ao longo da história; teoria do germe e contágio; como o corpo pode se voltar contra si mesmo; escarifi cadores, sanguessugas, larvas e ou- tros tratamentos nojentos; farmacopeia da nature- za; enfermagem. TEIXEIRA, C. S.; PEREIRA, E. F. Alterações morfofi siológicas associadas ao envelhecimento humano. Revista Digital, Buenos Aires, ano 13, n. 124, 2008. Disponível em: https://www.efdeportes. com/efd124/alteracoes-morfofisiologicas- associadas-ao-envelhecimento-humano.htm. Acesso em: 1º dez. 2020. O artigo discute algumas das principais alterações em importantes sistemas orgânicos. Os autores mostram exemplos de alterações no organismo que são naturais e inevitáveis, porém, a forma e a velo- cidade com que ocorrem, e se serão acompanhados por quadros patológicos, normalmente são resulta- dos do estilo de vida e estão associados com maior ou menor autonomia na velhice. WOLKE, R. L. O que Einstein disse a seu cozinheiro: a ciência na cozinha. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. “Este livro traz mais de 100 esclarecimentos sobre bastidores da cozinha, descartando informações e mitos que passaram do prazo de validade e aju- dando você a interpretar rótulos e propagandas. Deliciosas receitas criadas especialmente para de- monstrar princípios científi cos, dicas, um glossário e sugestões de leitura complementam o banquete.” 81Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D G U I A P N L D CAPÍTULO 3 Ciência e Tecnologia Dimensão I – Conhecimento de si, do outro e do nós Objetivos gerais das atividades e vivências dessa dimensão • Refletir sobre o entendimento e as opiniões formadas sobre o tema ciência e os avanços tecnológicos. • Perceber que seu comportamento dianteda ciência e dos avanços tecnológicos sofre influências constantes das situações políticas, socioeconômicas e ambientais. • Ter consciência de que sua concepção de mundo e seu comportamento influenciam a prática pedagógica. Justificativa Esses objetivos se justificam para que você possa ter consciência de sua ação e perceber as dificuldades no processo de mudança, estando atento ao impacto da tecnologia no ambiente e à intrínseca relação hoje existente entre o fazer do ser humano e os avanços das tecnologias. De modo semelhante ao que fizemos no segundo capítulo, convidamos você a continuar as reflexões, agora sobre sua relação com a tecnologia e a influência desta na intermediação com o outro e em especial com seu estudante. Essas reflexões o auxiliarão a: • identificar os próprios interesses e as necessidades no âmbito escolar e fora dele; • refletir e dialogar sobre as maneiras com que se relaciona com o bem comum e com o outro (em especial com os estudantes e os demais membros da comunidade escolar); • perceber-se como cidadão que integra a construção da vida familiar, escolar, comunitária, nacional e internacional, e é capaz de ampliar seus horizontes e perspectivas em relação a oportunidades de inser- ção no mundo do trabalho. VIVÊNCIA: CONHECIMENTO DE SI • Você acredita que a ciência traz mais benefícios ou malefícios para a humanidade? Por quê? 83Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D • Você concorda que os cientistas deve- riam expor para a comunidade os riscos da ciência e da tecnologia? • Você concorda que, pelo menos par- cialmente, a ciência e a tecnologia são responsáveis pela maior parte dos pro- blemas ambientais atuais? Em caso ne- gativo, quem o seria? • Você responsabiliza ou não os cientistas pelo mau uso de suas descobertas? • Para você, qual deveria ser a liberdade dos cientistas na condução de sua pes- quisa? • Para você, os cientistas são: pessoas in- teligentes, que fazem coisas úteis à hu- manidade, ou pessoas comuns, que têm tratamento especial? Você poderia ser um(a) cientista? Em caso positivo, quais as características que o favoreceriam? • Você acredita que a maioria das pessoas é capaz de entender o conhecimento científico? Em caso negativo, por quê? • Você concorda que a população deve ser ouvida nas grandes decisões sobre o rumo do desenvolvimento científico/ tecnológico? Em caso negativo, por quê? Em caso positivo, você já se fez ouvir? Após refletir sobre todos esses questiona- mentos, sugerimos a leitura do artigo a se- guir, que apresenta e discute os resultados de uma pesquisa com uma amostra da popula- ção brasileira sobre as questões apontadas. CONVITE À LEITURA VELHO, R. A ciência e a tecnologia no olhar dos brasileiros. Cienc. Cult., São Paulo, v. 69, n. 4, p. 10-13, out./dez. 2017. Disponível em: http://cienciaecultura.bvs.br/pdf/cic/v69n4/v69n4a04.pdf. Acesso em: 1º dez. 2020. O artigo apresenta o resultado da última enquete em nível nacional sobre percepção pública da ciência e da tecnologia, realizada em 2015 pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), órgão ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). Trata-se da quarta de uma série de enquetes realizadas em 1986, 2006 e 2010, que tiveram como objetivo saber o que pensam e como agem os brasileiros em relação a temas científicos e tecnológicos. Após essa reflexão, vamos convidá-lo a ava- liar qual é o impacto desse seu entendimento durante a preparação e a discussão de suas aulas sobre a ciência e os avanços tecnológi- cos. Essa reflexão lhe permitirá: • Conhecer-se profundamente como pro- fessor, identificando como e por que ensina. • Refletir e dialogar sobre as maneiras com que se relaciona com o bem comum e com o outro (em especial com os estudan- tes e os membros da comunidade escolar). • Perceber-se como cidadão que integra a construção da vida familiar, escolar, comunitária, nacional e internacional, e é capaz de ampliar seus horizontes e pers- pectivas em relação a oportunidades de inserção no mundo do trabalho. • Identificar, valorizar e fortalecer sonhos, aspirações, conhecimentos, habilidades e competências desenvolvidos ao longo de sua trajetória escolar, familiar e co- munitária. • Apropriar-se de habilidades pessoais, es- tratégias mentais e instrumentos práticos para planejamento de metas e estratégias para alcançá-las. 84 Com viver com ciência G U I A P N L D VIVÊNCIA: CONHECIMENTO DO EU, DO OUTRO E DO NÓS NO ESPAÇO ESCOLAR Vamos começar avaliando como você utiliza os avanços tecnológicos para aprimo- ramento de suas estratégias metodológicas com o objetivo de melhorar sua apren- dizagem e a de seu estudante. Observe as imagens a seguir e refl ita: em que esses recursos o ajudaram a desenvolver estratégias de ensino que auxiliassem melhor na aprendizagem de seu estudante? E, para você, quais foram as vantagens e as desvantagens? Figura 21 – Substituição do quadro-negro, passando pelo quadro branco, até chegar ao datashow. Figura 22 – Mimeógrafo a álcool, o xerox e a impressora a laser. Figura 23 – Máquina de escrever com o uso de corretivo, o computador desktop e o notebook. © B an c o d e im g e n s R H J / C ar lo s Jo rg e N u n e s © B an c o d e im g e n s R H J / C ar lo s Jo rg e N u n e s © B an c o d e im g e n s R H J / C ar lo s Jo rg e N u n e s 85Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D Agora, seria interessante dedicar um tempo para conhecer mais sobre o contexto histórico dessas mudanças. Sugerimos a seguir um site que traz um pouco desse contexto histórico. CONVITE À LEITURA LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. 2 ed. Rio de Janeiro: Editora 34, 2010. O autor relata que a técnica não é neutra, ela está sempre associada a um contexto social. A técnica é determinada pelo contexto e modifi ca o contexto em que está inserida. Figura 24 – Disquetes, CD, pendrives, HD externo e as nuvens. Figura 25 – Calculadora comum, calculadora gráfi ca, aplicativos com uso de caneta na tela e calculadora de smartphone. © B an c o d e im g e n s R H J / C ar lo s Jo rg e N u n e s © B an c o d e im g e n s R H J / C ar lo s Jo rg e N u n e s 86 Com viver com ciência G U I A P N L D VIVÊNCIA: REFLETINDO SOBRE A PRÁTICA PEDAGÓGICA: METODOLOGIA OU TECNOLOGIA? Vamos atentar para as imagens a seguir: Nas três imagens, reparem que, apesar do uso da tecnologia em sala de aula, a metodologia de ensino e a avaliação se mantiveram as mesmas. Sabemos que, quando utilizamos as tecnologias da informação e comuni- cação (TICs) educacionais: • Podemos criar uma falsa ilusão de que estamos utilizando uma nova metodologia e melhorando o aprendizado de nosso estudante. O uso da tecnologia não se restringe apenas aos novos modelos de determinados equipamentos e produtos; ela altera comportamentos. A ampliação da tecnolo- gia impõe-se à cultura existente, transformando não apenas o comportamento individual, mas o de todo o grupo social. Belloni (2001, p. 55) afi rma que: “A integração das inovações tecnológicas aos processos educacionais vai depen- der, então, da concepção de educação das novas gerações que fundamentam as ações e políticas do setor.” Assim, devem-se repensar os métodos, refl etir sobre a prática educativa e entender como a educação hoje pode responder às demandas da sociedade, sem estacionar nos modelos e nas práticas tradicio- nais. (Ver: NUNES, 2009, p. 27). Figura 26 – Aplicando a tabuada. Figura 27 – Quadro digital. © B an c o d e im g e n s R H J / C ar lo s Jo rg e N u n e s Agora basta acessar o site e encontrar as respostas! © B an c o d e im g e n s R H J / C ar lo s Jo rg e N u n e s Figura 28 – O mau usoda tecnologia. 87Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D • Podemos subutilizá-las, porque não nos sentimos à vontade para ex- plorar os recursos disponíveis: Sabe-se que o professor, ao receber o estudante em sala de aula, presencia uma realidade que, para ele, foi construída diferente daquela do estudante: por vezes calcada em seu passado no qual não existia o computador. Pos- sivelmente o computador não faça parte da sua rotina fora do ambiente da escola, mas talvez faça parte da realidade da escola em que atua. Eventual- mente pode ter sido motivo de constrangimento para o professor, ou que o mesmo tenha tido experiências desagradáveis ao usá-lo. (SCHUHMACHER, 2017, p. 564). • Necessitamos de novos saberes e competências para lidar criticamen- te com as TICs em nosso dia a dia. Schuhmacher (2017), em seu estu- do, ainda aponta: Os professores do Ensino Médio refletem, em suas respostas, a debilidade quanto ao conhecimento técnico e o uso das TIC como recurso pedagógi- co. Nessa situação, a insegurança relacionada ao uso do computador e seus recursos aflige 54,7% dos professores (forte e média), o que caracteriza a dificuldade que eles sentem ao serem confrontados com seu uso na prática docente. (SCHUHMACHER, 2017, p. 571). • As TICs nos auxiliam, após um planejamento, a atingir os objetivos pro- postos no processo de ensino-aprendizagem: É preciso compreender que a ferramenta tecnológica não é ponto principal no processo de ensino e aprendizagem, mas um dispositivo que proporcionaliza a mediação entre educador, educando e saberes escolares, assim é essencial que se supere o velho modelo pedagógico […]. Sendo assim, temos que entender que, [sic.] a inserção das TICS no ambiente educacional, [sic.] depende primeira- mente da formação do professor em uma perspectiva que procure desenvolver uma proposta que permita transformar o processo de ensino em algo dinâmico e desafiador com o suporte das tecnologias. (OLIVEIRA, 2015, p. 80). • Os próprios estudantes podem nos incentivar e auxiliar no uso das fer- ramentas: Os alunos demonstram conhecer as novas tecnologias mais que os docen- tes e estes, na sua maioria, apresentam dificuldades para trabalhar com os novos aparatos tecnológicos. Existe uma situação paradoxal, pois enquanto os jovens interagem com as tecnologias, através de meios eletrônicos, in- formações audiovisuais, sites de relacionamentos, os professores formam-se para conduzir aulas baseadas em práticas usuais. Quando estão diante de novas técnicas e novos instrumentos tecnológicos, reproduzem os modelos tradicionais de ensino. Os alunos, devido à presença constante dos meios de comunicação, possuem um comportamento diferente dos professores: eles agem e pensam por meio de outra razão cultural; eles são os “nativos da era digital”. (NUNES, 2009, p. 35). • O acesso às informações e aos recursos didáticos se torna mais rápido, porém precisamos ter conhecimento de como acessar e selecionar as fontes e as informações pesquisadas: 88 Com viver com ciência G U I A P N L D A utilização adequada destas tecnologias estimula a capacidade de desenvol- ver estratégias de buscas; critérios de escolha e habilidades de processamento de informação, não só a programação de trabalhos. Em correlação à comu- nicação, induz o desenvolvimento de competências sociais, a capacidade de comunicar efetiva e coerentemente, a qualidade da apresentação escrita das ideias, permitindo a autonomia e a criatividade. (OLIVEIRA, 2015, p. 84). CONVITE À LEITURA NUNES, M. J. O professor e as novas tecnologias: pontuando difi culdades e apontando contribuições. 2009. Monografi a (Graduação em Pedagogia) Universidade do Estado da Bahia, Salvador, 2009. Disponível em: https:// docplayer.com.br/3905511-O-professor-e-as-novas-tecnologias-pontuando- difi culdades-e-apontando-contribuicoes.html. Acesso em: 04 dez. 2020. A autora procura responder como se dá a prática educativa dos professores das esco- las fundamentais com relação ao uso das novas tecnologias, pontua problemáticas e aponta contribuições frente aos problemas evidenciados. SCHUHMACHER, V. R. N.; ALVES FILHO, J. de P.; SCHUHMACHER, E. As barreiras da prática docente no uso das tecnologias de informação e comunicação. Ciênc. Educ., Bauru, v. 23, n. 3, p. 563-576, 2017. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/ciedu/v23n3/1516-7313-ciedu-23-03-0563.pdf Acesso em: 1º dez. 2020. Continuaremos a ensinar e a aprender pela palavra, pelo gesto, pela emoção, pela afetividade, pelos textos lidos e escritos, pela televisão, mas agora também pelo computador, pela informação em tempo real, pela tela em camadas, em janelas que vão se aprofundando às nossas vistas. (OLIVEIRA, 2015, p. 91). d av id f/ is to c k. c o m “ “ 89Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D VIVÊNCIA: CIÊNCIA E TECNOLOGIA: É POSSÍVEL SEPARÁ-LAS? Agora, avançaremos um pouco mais nossas discussões, refl etindo sobre a seguinte pergunta: é possível separar ciência de tecnologia? Figura 29 – Montando a estrutura da molécula de DNA. Watson & Crick. A . B ar ri n g to n B ro w n , G o n vi lle A n d C ai u s C o lle g e / Sc ie n c e P h o to L ib ra ry / Fo to ar e n a Vetor plasmidial Marcador de seleção (III) Promotor (I) Múltiplo sítio de clonagem Poli A (II) Sequência imunoestimulatória Origem de Replicação (IV) Intron Sequência sinal Figura 31 – Representação esquemática de um vetor plasmidial utilizado na vacina de DNA. © B an c o d e im g e n s R H J Figura 30 – Imagem do Projeto Genoma. kt si m ag e /i st o c k. c o m .b r 90 Com viver com ciência G U I A P N L D Figura 33 – Tubo de fi bra óptica. D e st in ac ig d e m /1 2 3 R F Figura 35 – Descoberta dos raios X. P R IS M A A R C H IV O / A la m y St o c k P h o to Figura 36 – Aparelho de raios X. Le b az e le /i st o c k. c o m .b r Figura 32 – Mendel e suas observações. © B an c o d e im g e n s R H J / C ar lo s Jo rg e N u n e s Espelho A Espelho B Fonte de luz Anteparo de visualização Espelho semi-refl exivo (Divisor de feixes) Figura 34 – Interferômetro. © B an c o d e im g e n s R H J 91Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D EXPANDINDO AS IDEIAS A VISÃO TRADICIONAL DA CIÊNCIA A ciência tem recebido várias defi nições, mas uma das mais aceitas pela comuni- dade científi ca é a proposta pela Unesco, que declara: “a ciência é o conjunto de conhecimentos organizados sobre os mecanismos de causalidade dos fatos obser- váveis, obtidos através do estudo objetivo dos fenômenos empíricos”. O desenvol- vimento científi co é concebido como um processo regulado por um rígido código de racionalidade autônomo em relação a condicionantes externos, tais como: so- ciais, políticos, psicológicos, entre outros, em que, nas situações de incertezas, ape- la-se para algum critério metafísico objetivo, valorizando a simplicidade, o poder preditivo, da fertilidade teórica e do poder explicativo, sendo o desenvolvimento temporal do conhecimento científi co visto como avanço linear e cumulativo, como paradigma de progresso humano. […] Contrário a essa linha de pensamento, a partir de Kuhn a fi losofi a toma consciência da importância da dimensão social e do enraizamento histórico da ciência, ao mesmo tempo em que inaugura um estilo interdisciplinar que tende a dissolver as fronteiras clássicas entre as espe- cialidades acadêmicas. Para Bazzo, Lisingen e Pereira (2003, p. 21), a superação do positivismo lógico teve infl uência marcante de Thomas S. Kuhn, quando em 1962, introduziu conceitos sociais para explicar como muda a ciência, sua dinâmica e seu desenvolvimento. […] Portanto, a partir de Kuhn, é a comunidade científi ca que marca os critérios para julgar e decidir sobre a aceitabilidade dasteorias e não a realidade empírica. Conceitos como “busca da verdade” e “método científi co” passaram então a ser substituídos por conceitos como “comunidade” e “tradição”. Nesse contexto, Japiassu (1981, p. 142) contribui dizendo que a fi m de estabelecer um novo fundamento epistemológico para a ciência, vem sendo realizadas tenta- tivas de reconhecer a dimensão social da prática científi ca e da necessidade dos cientistas tomarem consciência dessa dimensão, de forma que se desenvolva uma “epistemologia crítica”, cujo objetivo fundamental seria “uma atitude refl exiva sobre os projetos de pesquisas científi cas, tendo em vista a descoberta, a análise e a crítica das diferentes consequências funestas ao homem e a natureza gerada pela tecnologia em curso”. SILVEIRA, R. M. C. F.; BAZZO, W. A. Ciência e tecnologia: transformando o homem e sua relação com o mundo. Revista Gestão Industrial, v. 2, n. 2, p. 68-86, 2006. Disponível em: https://periodicos.utfpr.edu.br/revistagi/article/view/115/112 Acesso em: 1º dez. 2020. 92 Com viver com ciência G U I A P N L D EXPANDINDO AS IDEIAS TECNOLOGIA: SUA ORIGEM E DISSEMINAÇÃO Análoga à história da ciência na modernidade, a tecnologia sofre e causa transformações profundas de caráter político, econômico, social e filosófico, na história do séc. XVII em diante. Por isso, Miranda (2002, p. 51) afirma que a tecnologia moderna não pode ser con- siderada um mero estudo da técnica. Ela representa mais que isso, pois nasceu quando a ciência, a partir do Renascimento, aliou-se à técnica, com o fim de promover a junção entre o saber e o fazer (teoria e prática). Nesse sentido, Bastos (1998, p. 13) corrobora ao afirmar que a tecnologia é um modo de produção, o qual utiliza todos os instrumentos, invenções e artifícios e que, por isso, é também uma maneira de organizar e perpetuar as vinculações sociais no campo das forças produtivas. Dessa forma, a tecnologia é tem- po, é espaço, custo e venda, pois não é apenas fabricada no recinto dos laboratórios e usinas, mas recriada pela maneira como for aplicada e metodologicamente organizada. […] A tecnologia concede à ciência precisão e controle nos resultados de suas descober- tas, facilitando não só a relação do homem com o mundo como possibilitando dominar, controlar e transformar esse mundo. Segundo Miranda (2002, p. 48), a teoria crítica dos frankfurtianos considera “que a ciência moderna instrumentalizou a razão e escravizou o homem através do controle lógico-tecnológico criando a tecnocracia, onde toda a vida humana é conduzida e determinada pelos padrões técnicos impostos pela ciência. Tudo se submete às regras da produção tecnológica.” Contrariando essa postura, entendemos que defensores e questionadores do desenvolvimento tecnológico devem atender, sobre- tudo, o “poder coletivo” que geram, incluindo-se aí o potencial para a destruição, para realizar as atividades perigosas e para depredar a natureza e, também os benefícios para a saúde humana, inclusive a preservação ou construção de relações que não degradem o meio ambiente. Entretanto, o balanço entre um ou outro tipo de atividade, [sic.] depende fundamentalmente de como é distribuído o “poder” gerado pela ciência e pela tecnologia, ou seja, de quem ou de como são manipuladas. […] é necessário fazermos uma avaliação crítica sobre a tecnologia, sua constituição histórica e sua função social, no sentido de não só compreender o sentido da tecnologia, mas também de repensar e redimensionar o papel da tecnologia na sociedade. SILVEIRA, R. M. C. F.; BAZZO, W. A. Ciência e tecnologia: transformando o homem e sua relação com o mundo. Revista Gestão Industrial, v. 2, n. 2, p. 68-86, 2006. Disponível em: https:// periodicos.utfpr.edu.br/revistagi/article/view/115/112. Acesso em: 1º dez. 2020. Essa leitura nos instiga a pensar em como a ciência está atrelada à tecnologia e quais são os impactos na definição das condições de vida da sociedade humana e no ambien- te como um todo. Atualmente, a ciência e a tecnologia têm atingido um patamar com demandas de ações rápidas e, de preferên- cia, eficientes. Assim, podemos perguntar: eficiente em que e para quem? Segundo Pa- lacios et al. (2003), fenômenos como globa- lização, nova economia, sociedade de risco e a própria relação da humanidade com o entorno natural só se entendem quando são postos em relação com as atuais condições do processo tecnocientífico e com os mar- cos de poderes, interesses e valores em que se desenvolvem. A tríade ciência, tecnologia e sociedade (CTS) é uma complexa rede de relações. “Ao colo- car o processo tecnocientífico no contexto 93Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D social e defender a necessidade da participação democrática na orientação do seu desenvolvimento, os estudos CTS adquirem uma relevância pública de primeira magnitude” (PALACIOS et al., 2003, p. 9). Especificamente, a biotecnologia tem avançado a passos largos. Como po- demos entender o que está sendo descoberto e proposto? Quais as in- formações que preciso saber sobre os tipos de vacinas que estão sendo desenvolvidos? Como posso desenvolver meu senso crítico, por exemplo, para acatar ou não certas opiniões sobre o uso ou não de determinados objetos tecnologicamente desenvolvidos? Como minhas escolhas dos re- cursos tecnológicos afetam outras espécies além da minha? E de que for- ma isso ocorre? VIVÊNCIA: SOMOS APENAS UMA PEÇA DO QUEBRA-CABEÇA Vamos avançar mais um pouco nessas reflexões e nos percebermos como cidadãos que integram a construção da vida familiar, escolar, comunitária, nacional e internacional, sendo capazes de ampliar os horizontes e as pers- pectivas em relação às oportunidades de inserção no mundo do trabalho. Na pandemia de Covid-19 “descobrimos” que estamos mais dependentes da internet, vivemos hiperconectados. Recentemente, um colega enviou uma mensagem no WhatsApp perguntando se era a sua internet que estava com problema ou se estávamos todos sem acesso à plataforma de sala de aula do Google. Cada vez mais necessitamos da tecnologia no nosso dia a dia. Além disso, hoje, as máquinas realizam atividades que julgávamos que seria apenas da esfera do humano. Diagnosticar doenças a partir de informações genéticas, históricos médicos e exames. Encontrar o suspeito de um crime com reconhecimento facial. Raciocinar dentro de um cenário de incertezas [...] Todas essas tarefas, antes feitas por nós, humanos, hoje já po- dem ser executadas pela inteligência artificial, a IA. (PRADO, 2019, p. 15). Dentro desse cenário, outros autores apontam que os aparelhos de nos- sas casas podem ser ligados e conectados, por exemplo, pela fala. Dessa forma, viveremos, num futuro, em “cidades inteligentes”. Esse desenvolvi- mento também pode ser vislumbrado no setor produtivo. Nós – com nossas necessidades atuais que nos forçam a ser indivíduos hiper- conectados – somos apenas uma peça nesse quebra-cabeça, que surge com o desenvolvimento tecnológico. O setor produtivo (por exemplo, a indústria automobilística) também vê o quanto pode se beneficiar se os equipamentos que compõem sua linha de produção puderem se comunicar com velocidade e confiabilidade necessárias para que possam operar de maneira mais produti- va. (BRAZ; DAVID, 2020, p. 31). O trecho acima remete-nos aos seguintes questionamentos: desde quan- do somos uma peça em um quebra-cabeça? E de qual quebra-cabeça? Quem mais faz parte desse quebra-cabeça? O quebra-cabeça vem se formando antes de chegarmos a este planeta… 94 Com viver com ciência G U I A P N L D CONVITE À LEITURA BRAZ, J. A. C.; DAVID, R. P. 5G: a mãe de todas as redes. Ciência Hoje, n. 365, 2020. Disponível em: http://cienciahoje.org.br/artigo/5g-a-mae- de-todas-as-redes/. Acesso em: 1º dez. 2020. PRADO, C. A era da inteligência artifi cial. Ciên- cia Hoje. n. 361, 2019. Disponível em: https:// cienciahoje.org.br/artigo/a-era-da-inteligencia -artificial/. Acesso em: 18 dez. 2020. A frase “Nós – com nossas necessidades atuais que nos forçam a ser indivíduos hiper- conectados – somos apenas uma peça nesse Figura 37 – Espiral da origem da vida. © B an c o d e im g e n s R H J / C ar lo s Jo rg e N u n e s 1 MILHÃO 2 MILHÕES répteis ALPES pastos 36 MILHÕES 60 MILHÕES 65 MILHÕES 130 MILHÕES pássaros mamíferos 150 MILHÕES 180 MILHÕES plantas de sementes 230 MILHÕES 320 MILHÕES insetosalgas e bactérias FORMAÇÃO DA TERRA anfíbios APALACHES E URAIS formas primitivas da vida últimos dinossauros plantas com fl ores HIMALAIA E MONTANHAS ROCHOSAS ROCHAS MAIS ANTIGAS macacos mamíferos gigantes echippus 26 MILHÕES 400 MILHÕES 420 MILHÕES 500 MILHÕES 590 MILHÕES 600 MILHÕES 1 BILHÃO 2 BILHÕES 2,7 BILHÕES 3,8 BILHÕES protozoários e esponjas trilobitas 4,6 BILHÕES DE ANOS plantas terrestres peixes 350 MILHÕES SERRAS NEVADA E DAS CASCATAS mamute IDADES GLACIAIS GRANDE CÂNION quebra-cabeça, que surge com o desenvolvi- mento tecnológico”, retirada do trecho cita- do, remete-nos aos seguintes questionamen- tos: desde quando somos uma peça em um quebra-cabeça? E de qual quebra-cabeça? E quem mais faz parte desse quebra-cabeça? O quebra-cabeça vem se formando antes de chegarmos a este planeta… Em que momento você fecha esse quebra- cabeça? Como o avanço da ciência e da tec- nologia, poderá infl uenciar o crescimento dessa espiral? dinossauros Pré-Cambriano Paleozóica Mesozóica Cenozóica (Terciário) Cenozóica (Quartenário) HIMALAIA E mamíferos Pré-Cambriano Paleozóica Cenozóica (Quartenário) Pré-CambrianoPré-Cambriano Paleozóica ROCHAS MAIS 420 MILHÕES algas e bactérias 2,7 BILHÕES sementes 600 MILHÕES formas primitivas da 2 MILHÕES 65 MILHÕES últimos macacos anfíbios 400 MILHÕES 130 MILHÕES GRANDE CÂNION 60 MILHÕES IDADES GLACIAIS ROCHAS MAIS 2,7 BILHÕES 26 MILHÕES APALACHES E URAIS 180 MILHÕES 590 MILHÕES dinossauros 230 MILHÕES 3,8 BILHÕES 180 MILHÕES180 MILHÕES primitivas da primitivas da HIMALAIA E anfíbios echippus plantas terrestres fl ores APALACHES 36 MILHÕES FORMAÇÃO DA TERRA SERRAS NEVADA E DAS CASCATAS 26 MILHÕES mamíferos 1 BILHÃO 500 MILHÕES 350 MILHÕES protozoários e esponjas 60 MILHÕES 150 MILHÕES 590 MILHÕES 320 MILHÕES 150 MILHÕES 350 MILHÕES echippus 500 MILHÕES 36 MILHÕES anfíbiosanfíbios formas primitivas da Pré-CambrianoPré-Cambriano Paleozóica Pré-Cambriano Paleozóica APALACHES 320 MILHÕES plantas de trilobitas 1 BILHÃO 65 MILHÕES protozoários e 150 MILHÕES Cenozóica (Terciário) Cenozóica (Quartenário) 1 MILHÃO 95Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D Dimensões II e III – O saber disciplinar em xeque Objetivos gerais das atividades e vivências dessas dimensões • Refletir sobre opiniões (doxa) formadas no campo da ciência e dos avanços tecnológicos, com foco nas intensões e nas limitações ou articulações de ideias. • Perceber as limitações argumentativas quando o foco se restringe a uma área específica do conhecimento. • Preocupar em conhecer o responsável pela divulgação do documento escrito ou oral a ser analisado, para interpretar melhor determinada mensagem transmitida. Justificativa Esses objetivos se justificam para que você possa perceber que, para entender a complexidade de uma ação, de uma produção, do uso de um produto, é necessário conhecer. E, para conhecer melhor, é necessário pelo menos ter consciência dessa complexidade. Entender um pouco dessa complexidade exige de nós um movimento de projeção e ousadia, para querer dialogar com as diferentes áreas do conhecimento. CONTEXTUALIZAÇÃO: TRANSGÊNICOS E AGROTÓXICOS De forma similar à estrutura do capítulo anterior, vamos, a priori, discutir com você dois importantes temas e sua inserção em seu trabalho pedagó- gico: transgênicos e agrotóxicos. Essa forma de organização e discussão auxiliará no atendimento das se- guintes competências e habilidades: Competência específica 1 Analisar fenômenos naturais e processos tecnológicos com base nas relações entre matéria e energia, para propor ações individuais e coletivas que aperfei- çoem processos produtivos, minimizem impactos socioambientais e melhorem as condições de vida em âmbito local, regional e global. (BRASIL, 2018, p. 553) Habilidades (EM13CNT104) Avaliar os benefícios e os riscos à saúde e ao ambiente, consi- derando a composição, a toxicidade e a reatividade de diferentes materiais e produtos, como também o nível de exposição a eles, posicionando-se critica- mente e propondo soluções individuais e/ou coletivas para seus usos e descar- tes responsáveis. (BRASIL, 2018, p. 555). (EM13CNT105) Analisar os ciclos biogeoquímicos e interpretar os efeitos de fe- nômenos naturais e da interferência humana sobre esses ciclos, para promover ações individuais e/ou coletivas que minimizem consequências nocivas à vida. (BRASIL, 2018, p. 555). 96 Com viver com ciência G U I A P N L D Competência específica 3 Analisar situações-problema e avaliar aplicações do conhecimento científico e tecnológico e suas implicações no mundo, utilizando procedimentos e lingua- gens próprios das Ciências da Natureza, para propor soluções que considerem demandas locais, regionais e/ou globais, e comunicar suas descobertas e con- clusões a públicos variados, em diversos contextos e por meio de diferentes mídias e tecnologias digitais de informação e comunicação (TDICs). (BRASIL, 2018, p. 553) Habilidades (EM13CNT301) Construir questões, elaborar hipóteses, previsões e estimativas, empregar instrumentos de medição e representar e interpretar modelos expli- cativos, dados e/ou resultados experimentais para construir, avaliar e justificar conclusões no enfrentamento de situações-problema sob uma perspectiva científica. (BRASIL, 2018, p. 559). (EM13CNT304) Analisar e debater situações controversas sobre a aplicação de conhecimentos da área de Ciências da Natureza (tais como tecnologias do DNA, tratamentos com células-tronco, neurotecnologias, produção de tecno- logias de defesa, estratégias de controle de pragas, entre outros), com base em argumentos consistentes, legais, éticos e responsáveis, distinguindo diferentes pontos de vista. (BRASIL, 2018, p. 559). (EM13CNT305) Investigar e discutir o uso indevido de conhecimentos das Ci- ências da Natureza na justificativa de processos de discriminação, segregação e privação de direitos individuais e coletivos, em diferentes contextos sociais e históricos, para promover a equidade e o respeito à diversidade. (BRASIL, 2018, p. 559). (EM13CNT306) Avaliar os riscos envolvidos em atividades cotidianas, aplican- do conhecimentos das Ciências da Natureza, para justificar o uso de equi- pamentos e recursos, bem como comportamentos de segurança, visando à integridade física, individual e coletiva, e socioambiental, podendo fazer uso de dispositivos e aplicativos digitais que viabilizem a estruturação de simula- ções de tais riscos. (BRASIL, 2018, p. 559). A seleção desses dois temas, os organismos transgênicos e os agro- tóxicos, justifica-se por sua importância e interferência nas diferentes esferas – social, política, econômica e ambiental. (EM13CNT303) Interpretar textos de divulgação científica que tratem de temá- ticas das Ciências da Natureza, disponíveis em diferentes mídias, considerando a apresentação dos dados, tanto na forma de textos como em equações, gráfi- cos e/ou tabelas, a consistência dos argumentos e a coerência das conclusões, visando construir estratégias de seleção de fontes confiáveis de informações. (BRASIL, 2018, p. 559). 97Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D ATIVIDADE: BREVE INTRODUÇÃO AO TEMA DOS ORGANISMOS TRANSGÊNICOS E DOS AGROTÓXICOS Iniciaremos com três perguntas: 1. O que são organismos transgênicos? 2. O que são agrotóxicos? 3.Qual a relação entre organismos transgênicos e agrotóxicos? As respostas a essas três perguntas parecem simples, porém carregam uma intricada malha de conhecimentos que precisam ser assimilados e compreendidos para a formulação consciente das respostas. Repare que a primeira pergunta, para ser respondida com entendimento, está carregada de conceitos básicos de genética molecular e hereditária. É necessário saber o que é, qual a constituição química e a função do DNA. Como podemos entender a técnica transgênica e emitir opinião sobre o assunto se não temos esse conhecimento básico, ou até mesmo o temos, mas não o compreendemos? Ler um pouco sobre a história da descoberta e a compreensão da molé- cula de DNA nos permite obter boas informações e entendimento da es- trutura e do funcionamento dessa molécula. Outro ponto importante: essa história nos pede um diálogo com nossos colegas das áreas da Química e da Física. Veja a seguir um pouco dessa história, que poderá auxiliá-lo na construção do conceito e de seu próprio entendimento. VIVÊNCIA: A HISTÓRIA DA DESCOBERTA DA MOLÉCULA DE DNA A proposta pode ser construir o conceito de DNA a partir das informações apresentadas a seguir (textos e imagens) sobre a história da descoberta da molécula. TEXTO 1 Em meados do século XIX, Friedrich Miescher isolou do núcleo das células bran- cas sanguíneas um precipitado branco e floculento, o qual denominou nucleína. Ele detectou grande quantidade de fósforo nessa substância, elemento que não era encontrado na composição de proteínas; logo, podia-se concluir que não se tratava de substância já conhecida. Com a continuidade de seus estudos, com amostras de espermatozoides de salmão, Miescher detectou a presença de car- bono, oxigênio, hidrogênio, nitrogênio e fósforo. Em 1889, Richard Altmann, aluno de Miescher, purificou o material nuclear e confirmou a natureza ácida da substância, renomeando-a ácido nucleico. Em 1909, Phoebus Levene, químico russo, e outros pesquisadores definiram os componentes básicos do ácido nucleico, ou seja, do nucleotídeo (composto por uma pentose (ou ribose), uma base nitrogenada em um grupamento fosfato). (continua) 98 Com viver com ciência G U I A P N L D A partir de então, sabia-se que os ácidos nucleicos eram formados por nucleo- tídeos que se repetiam ao longo de uma grande molécula. Com o avanço das pesquisas e após Levene e os outros pesquisadores terem descoberto que existia outro tipo de ácido nucleico, o RNA, muitos cientistas já estavam convencidos de que o DNA era a molécula que carregava as informações genéticas. No fim da década de 1940, Erwin Chargaff, bioquímico austríaco, demonstrou uma equivalência numérica entre as bases nitrogenadas do DNA, adenina com timina e citosina com guanina. Essa característica foi fundamental para se pensar a duplicação. Em 1944, Avery, físico canadense, desativou o DNA, o RNA e as proteínas, um de cada vez, utilizando o calor, e descobriu que, quando desativava o DNA, a trans- ferência de características de uma bactéria para outra não ocorria, demonstrando, assim, que o DNA é o agente transformador que permite a uma forma de bactéria adotar propriedades de outra forma. Ele também demonstrou que bastava forne- cer o DNA, em vez de células inteiras, para facilitar a transferência de material. Em 1952, Hershey, bacteriologista americano, e Chase, geneticista americana, demonstraram que o revestimento proteico do fago (vírus) não tinha importân- cia no mecanismo de transferência. Eles usaram bacteriófagos marcados com enxofre ou fósforo radiativos para infectar a bactéria Escherichia coli. O enxofre é incorporado pela proteína, e o fósforo, pelo DNA. O fago infecta a bactéria, in- jetando na célula bacteriana seu próprio material genético, e então usa a célula bacteriana para produzir mais partículas virais. Eles descobriram que o fósforo, mas não o enxofre, tinha se transferido para a bactéria (Fontes: ROONEY, 2018; BRYSON, 2005; ORTIZ, 2003). Veja que, nesse texto, já é possível obter a in- formação de que essa molécula está presen- te no núcleo das células brancas do sangue, apresentando grande quantidade de fósforo e diferenciando-se da proteína. Estudo com gametas, linhagem germinativa, mostrou a presença de carbono, oxigênio, hidrogênio, nitrogênio e fósforo. Outro estudo mostrou sua característica ácida, e, posteriormente, foi mostrada a composição básica da mo- lécula (pentose, base nitrogenada e fosfato); denominaram-na, então, nucleotídeo, que se repetia, formando uma grande molécula. Mais tarde, definiram as bases nitrogenadas e seus pares de ligação. É possível também perceber que uma informação foi se soman- do às outras informações e que a própria natureza de replicação da molécula foi aos poucos desvendada. Com essas informações e outras, trazidas por outros experimentos, podemos já fazer uma primeira construção do conceito, que é: DNA é uma grande molécula de natureza ácida que carrega as informações gené- ticas, presente no núcleo de células das linhagens somáticas e germinativas, for- mada por unidades básicas denominadas nucleotídeos, compostos por pentoses, ba- ses nitrogenadas e fosfato. As bases nitro- genadas (timina, adenina, guanina e citosi- na) apresentam ligações específicas, sendo essas adenina com timina e guanina com citosina. (conclusão) 99Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D Com essas informações, foi possível dar um grande passo na estrutura- ção do conceito, mas ainda precisamos saber como esses nucleotídeos se ligam e qual a conformação da molécula. A imagem de raios X obtida pela pesquisadora Rosalind Franklin auxiliou em parte esse entendimen- to. Na década de 1950, a técnica de difração de raios X para detecção de imagens de estruturas moleculares já estava disponibilizada. Rosalind Franklin, pesquisadora do King’s College, em Londres, conseguiu obter imagens da molécula de DNA a partir de uma amostra de material nuclear. Veja a imagem a seguir. Imagem de uma amostra de DNA sendo bombardeada com feixes de raios X e capturada por uma placa fotográfi ca. O m ik ro n / S c ie n c e S o u rc e / F o to ar e n a Figura 38 – Fotografi a dos raios X Figura 39 – Processo para registro dos raios X da molécula de DNA. Agora, dialogando com seus colegas de física e química, você poderá en- tender como pode ser produzida essa imagem e como, após a leitura des- sa fotografi a de raios X, foi possível perceber que a molécula apresentava uma estrutura helicoidal. Watson e Crick, com base na fotografi a de raios X da molécula de DNA e com o auxílio de resultados obtidos por outros pes- quisadores, inclusive por Linus Pauling, propuseram um modelo estrutural para a molécula com dupla fi ta, e cada uma delas apresentava sequências de fosfatos e riboses repetidamente. Ligando as duas fi tas, havia as bases nitrogenadas, adenina com timina e citosina com guanina, conforme pos- tulado por Chargaff . © B an c o d e im g e n s R H J / C ar lo s Jo rg e N u n e s 100 Com viver com ciência G U I A P N L D Observe que, agora, com essas informações, podemos ampliar nosso conceito de DNA, chegando ao conceito aceito hoje pela comunidade científica: DNA é uma grande molécula helicoidal, de natureza ácida, presente no nú- cleo das células dos seres vivos, que carrega as informações genéticas. É for- mada por unidades básicas, denominadas nucleotídeos, compostos por pen- toses, bases nitrogenadas e fosfato. As bases nitrogenadas (timina, adenina, guanina e citosina) apresentam ligações específicas, sendo essas adenina com timina e guanina com citosina. Com a descoberta do DNA bacteriano, mitocondrial e nos cloroplastos, podemos alterar o conceito para: DNA é uma grande molécula helicoidal, de natureza ácida, presente em maior quantidade no núcleo de células dos organismos eucariotas e no ci- toplasma dos procariotas.Carrega as informações genéticas e é formada por unidades básicas, denominadas nucleotídeos, compostos por pentoses, ba- ses nitrogenadas e fosfato. As bases nitrogenadas (timina, adenina, guanina e citosina) apresentam ligações específicas, sendo essas adenina com timina e guanina com citosina. Figura 40 – Montando a estrutura da molécula do DNA. Watson e Crick. Figura 41 – Representação da molécula de DNA. M ac ro ve c to r/ b r1 2 3 rf .c o m M ac ro ve c to r/ b r1 2 3 rf .c o m 101Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D CONVITE À LEITURA ALVES, E. A.; SOUZA, D. S. Biologia molecular. In: MOLINARO, E; CAPUTO, L; AMENDOEIRA, R. (org). Conceitos e métodos para a formação de profissionais em laboratórios de saúde. Vol. 3 . Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro. 2013. Cap 02. p.133-185. 283p. Disponível em: https://www.arca.fiocruz.br/bitstream/ icict/13723/2/Conceitos%20e%20Metodos%20 V3_Biologia%20Molecular.pdf Da mesma forma como chegamos ao conceito de DNA, podemos construir os conceitos de cromos- somos, genes, genoma, duplicação do DNA, tradu- ção, transcrição… e todos os outros conceitos de que necessitaremos para entendermos a técnica de transgenia e a formação dos organismos trans- gênicos (organismos com genes que não são de sua espécie, mas de outra). Mas, de imediato, nos per- guntamos: o que são e onde estão os genes? Res- posta: são uma sequência codificável de um DNA e estão no cromossomo. Mas o que é um cromosso- mo? Resposta: DNA mais histonas. Repare que no- vas perguntas são elaboradas a partir do momento em que me proponho a entender algo. VIVÊNCIA: TRANSGÊNICOS Entendendo o que são a técnica e os organis- mos transgênicos, poderemos ler os artigos científicos e as reportagens sobre os trans- gênicos e conseguir formar e emitir nossas opiniões a favor, contrárias ou até mesmo medir os prós e os contras da aplicação da técnica e de nosso próprio consumo de pro- dutos transgênicos. Giuliani (2000), em seu artigo intitulado “O dilema dos transgênicos”, afirma: Os argumentos favoráveis e contrários aos produtos da bioengenharia nos levam a um dilema. De um lado, são apontados como os mais eficientes meios para enfrentar a amea- ça da inexorável falta de alimentos e para re- solver uma série de enfermidades. De outro, são vistos como grande ameaça da ordem econômica e social, do meio ambiente, da biodiversidade e da própria saúde humana. O dilema persiste em três planos: argumentos de ordem filosófica a respeito da natureza e da natureza humana; de ordem científica, que transforma suas teorias em inelutáveis verdades; de ordem social e econômica, que avalia estes produtos somente do ponto de vista do custo-benefício ou da produção e consumo. O reconhecimento deste dilema torna necessário o diálogo entre cientistas, empresas de biotecnologia, organizações da sociedade civil e as agências governamen- tais. (GIULIANI, 2000, p. 13). Como emitir uma opinião favorável ou con- trária ao tema? Como entender temas tão complexos? Precisamos prestar atenção: nas fontes que utilizamos para buscar as in- formações de que necessitamos; em quem redigiu o que estamos lendo; e em qual é o aspecto que está sendo enfatizado em sua argumentação, ou seja, é econômico, polí- tico, ambiental, de saúde etc. Por exemplo, artigos ou reportagens escritas: • financiados por instituições que produ- zem os organismos transgênicos; • por pessoas envolvidas com a produção da agricultura familiar, agroecológica ou agricultura orgânica; • por pessoas ligadas a instituições religiosas; • por pesquisadores de universidades pú- blicas de diferentes áreas do conheci- mento que publicam os resultados de suas pesquisas financiadas por órgãos governamentais; • por ambientalistas e ecologistas; • por juristas… É importante fazermos uma leitura crítica e detectarmos a parcialidade ou a imparcialida- de da matéria, avaliarmos o máximo de aspec- tos possíveis, ampliarmos nossa visão e nos posicionarmos com consciência, porém com flexibilidade, para que possamos acompanhar as novas pesquisas e os impactos do tema. Sugerimos, assim, a leitura do artigo a seguir: 102 Com viver com ciência G U I A P N L D Estados que mais usaram agrotóxicos entre 2012 e 2014 Média anual do uso de agrotóxico (em tonelada) Relação entre a média anual do uso de agrotóxico, em (Kg), e a área agrícola da unidade da federação em hectare (ha) De 0,10 a 1,01 1,02 a 2,65 2,66 a 3,90 3,91 a 7,54 7,55 a 12,22 12,23 a 16,69 CONVITE A LEITURA GUIVANT, J. S. Transgênicos e percepção pública da ciência no Brasil. Ambiente & Sociedade [online], Campinas, v. 9, n. 1, p. 814-103, 2006. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1414-753X2006000100005&script=sci_ abstract&tlng=pt. Acesso em: 1º dez. 2020. Este artigo analisa os resultados de pesquisas sobre percepções de consumidores, produtores, cidadãos em relação ao uso de alimentos transgênicos, estabelecendo comparações entre as desenvolvidas no Brasil, na Europa, na Ásia e nos Estados Uni- dos. A falta de pesquisas, ou seu número limitadíssimo é considerado uma evidência para caracterizar a trajetória da polêmica no Brasil, com uma signifi cativa ausência de participação pública nos debates sobre transgênicos. Estes giram em torno de atores sociais organizados, que atuam sem ou com parcial representatividade. VIVÊNCIA: RELAÇÃO ENTRE ORGANISMOS TRANSGÊNICOS E AGROTÓXICOS Com uma análise crítica das informações apresentadas nas imagens (FIG. 42 a 45), nos grá- fi cos (FIG. 46 e 47) e nos textos 1, 2 e 3, é possível, a priori, levantarmos vários questiona- mentos sobre o tema em estudo. E novas leituras, de diferentes fontes e segmentos, vão nos auxiliar a desenvolver uma boa argumentação que sustente a opinião formada. Figura 42 – Uso de agrotóxicos no Brasil. Fonte: Adaptado de Repórter Brasil. Disponível em: https://reporterbrasil.org.br/2017/11/agrotoxicos-alimentos-brasil-estudo/ Acesso em: 12 jan. 2021. © m ap a: C ar lo s Jo rg e N u n e s 103Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D O texto 1 na sequência corresponde à conclusão do trabalho intitulado 20 anos de transgênicos: benefícios ambientais, econômicos e sociais no Brasil, publicado pela Cropli- fe com dados gerados pela Agroconsult e com o apoio do Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB). As informações sobre cada um desses órgãos se encontram no quadro a seguir. As Figuras 45 e 46 também foram retiradas da mesma fonte. Top 7 área plantada com transgênicos no Brasil (em milhões de ha) Figura 43 – Área plantada com transgênicos no Brasil. Fonte: CIB - Conselho de Informações sobre Biotecnologia (Céleres. Informativo Biotecnologia, Dezembro 2014) 14 12 10 8 6 4 2 Algodão Soja Total: 76 aprovações Eucalipto FeijãoCana 19 98 19 99 20 00 20 01 20 02 20 03 20 04 20 05 20 06 20 07 20 08 20 09 20 10 20 11 20 12 20 13 20 14 20 15 20 16 20 17 20 18 Milho Número de aprovações Características inseridas 7% 12,5% 48,5% 32% Tolerância a herbicidas + resistência a insetos Tolerância a herbicidas Outras Resistência a insetos Figura 45 – Aprovações de plantas transgênicas Fonte: CIB - Conselho de Informações sobre Biotecnologia/ Agroconsult. Aprovações de plantas transgênicas no Brasil © m ap a: C ar lo s Jo rg e N u n e s Figura 44 – Área monitorada pela Agroconsult no Brasil. © m ap a: C ar lo s Jo rg e N u n e s (em milhões de ha) Mato Grosso • 11,4 Paraná • 7,1 Goiás • 4,2 Minas • 2,4 Bahia • 2,0 Rio Grande do Sul • 5,9 Mato Grosso do Sul • 3,6 104 Com viver com ciência G U I A P N L D TEXTO 1 Em 20 anos de adoção no Brasil, os transgêni- cos mostraram-se eficientes e seguros. Ao longo deste período, nenhum malefício foi registrado. Essa é, por exemplo, a conclusão da Comissão Europeia[,] que, desde os anos 2000, jápublicou diversos relatórios desenvolvidos pela comuni- dade científica do continente. Estudos de longo prazo chegaram à mesma conclusão que os tra- balhos europeus, a exemplo do amplo trabalho publicado em 2014 na revista científica Journal of Animal Science. Conduzido pela geneticis- ta Alison Van Eenennaam, da Universidade da Califórnia-Davis, a pesquisa analisou 29 anos de produção pecuária e apresentou dados sobre a saúde dos animais antes e depois da introdu- ção dos transgênicos. A conclusão do estudo é que a alimentação transgênica é equivalente à não-transgênica. Cabe citar, ainda, relatório da Academia Nacional de Ciências dos Estados Uni- dos (2016), que confirma que os transgênicos são seguros para a alimentação humana e animal e para o meio ambiente. Além disso, cientistas e organizações ao redor do mundo, incluindo a Or- ganização Mundial da Saúde (OMS), pronuncia- ram-se a favor das culturas GM (geneticamente modificadas) e de sua segurança como alimento. Os benefícios dos transgênicos para a atividade agrícola são evidentes. A despeito dos cálculos feitos por este estudo, a simples observação da velocidade com que se deu a adoção da tecnolo- gia, no Brasil e no mundo, sugere que há bene- fícios sensíveis em seu emprego e que estes têm sido consistentes nos vários anos. A menor utili- zação de insumos é a expressão mais facilmente mensurável no decorrer do ciclo produtivo, bem como seus reflexos nas atividades operacionais que conferem mais benefícios aos animais e ao meio ambiente. A economia de combustível foi estimada em 377 milhões de litros, equivalente à metade do consumo estimado de diesel para todo o setor agropecuário em 2017. A redução nas perdas em virtude do ataque de pragas e a consequente melhora na produtividade dos cul- tivos transgênicos levaram, ainda, à economia de área plantada em 9,9 milhões de hectares. Isso é equivalente à toda a área de soja plantada no Mato Grosso na última safra. A menor utilização de combustíveis fósseis somada à economia de área permitiu evitar a emissão de 26,5 milhões de toneladas de CO2, o mesmo que o plantio de 189 milhões de árvores nativas. No que se refe- re aos impactos econômicos e sociais, o uso da transgenia nas culturas da soja, milho e algodão no Brasil injetou um valor adicional de R$45,3 bilhões na economia e impactou o PIB em R$2,8 bilhões. Em receita de impostos, os resultados obtidos pelo uso da biotecnologia causaram um aumento de R$731 milhões. Estima-se, ademais, que o volume adicional produzido de soja, milho e algodão representou 16,7 milhões de toneladas a mais para exportação e gerou reservas próxi- mas de US$3,8 bilhões. A geração de postos de trabalho, de 49.281, correspondeu a R$ 2,2 bi- lhões pagos em salários. Diante de todos esses resultados, é possível concluir que o estímulo ao uso correto e sustentável da transgenia deve ser considerado parte de uma agenda estratégica do agronegócio e do país. É inquestionável o reflexo positivo dessa tecnologia na atividade agrícola, na qualidade de vida, no nível de educação e na renda da população. (CIB; AGROCONSULT, 2018, s. p.). A CropLife Brasil (CLB) é uma associação que reúne especialistas, instituições e empresas que atuam na pesquisa e no desenvolvimento de tecnologias em quatro áreas essenciais para a produ- ção agrícola sustentável: germoplasma (mudas e sementes), biotecnologia, defensivos químicos e produtos biológicos. Criada em 2019, a CropLife Brasil é resultado da união de entidades que antes representavam cada um desses setores individualmente. (continua) 105Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D Soja AlgodãoMilho Soja 250 000 200 000 150 000 100 000 50 000 0 U so d e he rb ic id as p or c ul tu ra (t ) 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 Milho Algodão O Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB) é uma organização não governamental (ONG) e uma associação civil sem fins lucrativos e sem conotação político-partidária. Seu objetivo é divulgar informações técnico-científicas sobre a biotecnologia, aumentando a familiaridade de diversos setores da sociedade com o tema. A Agroconsult é uma consultoria especializada em agronegócios no Brasil. Desde 2000, atende a toda a cadeia de valor: produtores, cooperativas, associações, indústria, instituições financeiras e organismos internacionais. É formada por uma equipe multidisciplinar, que analisa cenários e tendências em curto e longo prazos. CONSELHO DE INFORMAÇÕES SOBRE BIOTECNOLOGIA (CIB); AGROCONSULT. 20 anos de transgênicos: benefícios ambientais, econômicos e sociais no Brasil. [S. l.: s. n.], 2018. Disponível em: https://croplife.storage. googleapis.com/1/2019/10/Vinte-anos-transgenicos.pdf. Acesso em: 1º dez. 2020. CONVITE À LEITURA CONSELHO DE INFORMAÇÕES SOBRE BIO- TECNOLOGIA (CIB); AGROCONSULT. 20 anos de transgênicos: benefícios ambientais, econô- micos e sociais no Brasil. [S. l.: s. n.], 2018. Dis- ponível em: https://croplife.storage.googleapis. com/1/2019/10/Vinte-anos-transgenicos.pdf. Acesso em: 1º dez. 2020. O estudo objetivou quantificar os benefícios que as plantas transgênicas proporcionaram aos pro- dutores rurais e ao agronegócio brasileiro ao lon- go de 20 anos: de 1998 a 2018. Os gráficos e o texto 2 a seguir foram retirados do artigo intitulado “Uso de sementes geneti- camente modificadas e agrotóxicos no Brasil: cultivando perigos”, publicado na revista Ciên- cia & Saúde Coletiva em 2017 (ALMEIDA et al., 2017). Os autores buscaram identificar possí- veis alterações no padrão de uso de agrotóxi- cos a partir da adoção da tecnologia de cul- turas geneticamente modificados (GM), nas quais se incluem os transgênicos, consideran- do um período de 12 anos (2000 a 2012). Figura 46 – Evolução do uso de herbicidas no Brasil entre 2000 e 2012. (conclusão) 106 Com viver com ciência G U I A P N L D 600 500 400 300 200 100 0 12 10 8 6 4 2 0 So ja p or h er bi ci da s (k g/ kg ) H er bi ci da s po r ár ea (k g/ ha ) 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 y = -16,786 + 508,41 R2 = 0,584 y = 0,3867 + 4,3596 R2 = 0,1705 Soja por herbicida utilizado (kg/kg) Herbicidas por área (kg/ha) TEXTO 2 O estudo sugere que culturas GM contribuíram para o aumento do uso de agrotóxicos no Brasil e, consequentemente, da exposição humana e ambiental a essas substâncias químicas potencialmente perigosas. Portanto, o aumento no uso de agrotóxicos também deve ser levado em conta durante o processo de autorização de culturas GM. Como demonstrado, o uso de agrotóxicos na produção de soja aumentou no período analisado, especialmente após a in- trodução de sementes GM em 2003. O uso de agrotóxicos por área também aumentou significativamente, indicando uma possível dependência química dessas culturas e descartando a hipótese que culturas GM reduziriam o con- sumo de agrotóxicos. Outro aspecto relevante para a soja é que esse aumento do consumo de agrotóxico não contribuiu positivamente para um aumento na produtividade média. É digno de nota ainda que os dados sobre o uso de agro- tóxicos podem servir como indicadores para dar suporte a ações de vigilância como monitoramento de seus resíduos em solo, água e alimentos e aprimorar medidas de diagnóstico e tratamento das intoxicações. (Ver: ALMEIDA et al., 2017, p. 3337). Figura 47 – Evolução do uso de herbicidas e de soja produzida por volume de herbicida utilizado no Brasil. 107Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D TEXTO 3 A precisão e o poder de manipulação genética in vivo aumentaram considera- velmente nestas últimas décadas com o avanço do conhecimento científi co na área molecular. Uma das questões que ainda permanecem pendentes quanto aos Organismos Geneticamente Modifi cados refere-se aos impactos e riscos da liberação em larga escala de plantas transgênicasno meio ambiente. A ameaça à diversidade biológica em consequência da liberação de OGMs decorre das pro- priedades do transgene no ecossistema ou de sua transferência e expressão em outras espécies. A adição de um novo genótipo numa comunidade de plantas pode proporcionar vários efeitos indesejáveis, como o deslocamento ou a elimi- nação de espécies não domesticadas, a exposição de espécies a novos patógenos ou agentes tóxicos, a geração de plantas daninhas ou pragas resistentes, a polui- ção genética, a erosão da diversidade genética e a interrupção da reciclagem de nutrientes e energia. Assim, antes da liberação em larga escala de uma cultivar transgênica, deve ser feito um estudo de impacto ambiental que inclua a avalia- ção de riscos, passo a passo e caso a caso. A abrangência desta avaliação de risco deverá ser baseada numa matriz, a qual, de um lado, inclua a escala espacial (planta, parcela, lavouras agrícolas e região) e, de outro lado, os efeitos diretos e indiretos na agricultura, ecologia e socioeconomia. NODARI, R. O. ; GUERRA, M. P. Avaliação de riscos ambientais de plantas transgênicas. Caderno de Ciencias & Tecnologia. v. 18., 2001. https://seer.sct.embrapa.br/index.php/cct/ article/view/8833 CONVITE À LEITURA ALMEIDA, V. E. S. de et al. Uso de sementes geneticamente modifi cadas e agrotó- xicos no Brasil: cultivando perigos. Ciência & Saúde Coletiva, v. 22, n. 10, p. 3333- 3339, 2017. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/csc/v22n10/pt_1413-8123- csc-22-10-3333.pdf. Acesso em: 2 dez. 2020. Nesse artigo, são apresentados e discutidos os resultados da identifi cação de possí- veis alterações no padrão de uso de agrotóxicos a partir da adoção da tecnologia de culturas geneticamente modifi cadas, considerando o período de 2000 a 2012. O Texto 03 esclarece um pouco mais o que são e os efeitos dos transgênicos. 108 Com viver com ciência G U I A P N L D A utilização desse tipo de conduta em sala de aula exigirá a abertura de amplos momentos de discussão, e, o que é mais importante, precisamos permitir que nosso estudante expresse sua opinião e seu olhar diante do que lê e da vivência em seu dia a dia. Não podemos impor nossa opinião, mas, sim, mostrar que existem várias argumentações em defesa de uma ideia, de um produto, de uma situação, cabendo a cada um de nós avaliar o maior número possível de informações e desenvolver nosso argumento. O processo avaliativo vai mensurar a evolução na leitura e na interpreta- ção, o posicionamento pró, contra ou neutro, com apresentação da argu- mentação. Quando se fala de agrotóxicos, há outros olhares, que também podem ser utilizados para um trabalho com os estudantes. Existe o uso indevido de substâncias e suas consequências, pois, quando se estuda a natureza, de fato, se percebem os grandes elos entre todos os seres vivos e não vivos. No próximo capítulo, discutiremos o TCT Meio Ambiente – Educação para o Consumo e aprofundaremos essa ideia. E mais! Até que ponto a forma- ção de opinião poderá contribuir para um consumo consciente? E esse consumo consciente poderá alterar a oferta de mercado? Permitirá que continuemos progredindo, porém de forma que favoreça a saúde das ou- tras espécies e do ambiente como um todo? VIVÊNCIA: VISITA VIRTUAL A UM MUSEU DE CIÊNCIAS E TECNOLOGIA Faça uma visita virtual a um museu de ciência e tecnologia. Veja: https://www.youtube.com/watch?v=SbkRd8n2X-E. ATIVIDADE: DIALOGANDO COM AS PALAVRAS Para fecharmos este capítulo, convidamos você a reservar um tempo e fa- zer alguns trocadilhos com as palavras a seguir. Essa atividade foi organiza- da a partir da frequência com que essas palavras ocorrem nos textos deste capítulo. Elas são apresentadas em ordem decrescente, de acordo com o número de citações (número colocado ao lado da palavra), e, quanto mais citadas, maior a dimensão das letras. Utilize os verbos e substantivos e faça a associação que melhor dê sentido para você. Por exemplo: • USAR a informação científi ca… • REFLETIR sobre o uso de agrotóxicos… • PROCESSAR o DNA… • LER o DNA… 109Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D tecnologia(63) ciência(41) transgênico(31) usar(29) informação; científica(25) DNA(24) processar(22) sociedade(21) refletir(20) agrotóxico(19) ler; base nitrogenada(18) homem(16) conhecer; desenvolver(15) molécula(14) professor; ambiente; estudar(16) natureza; comunidade; construir; estudante; relacionar(12) avaliar; cultivar; entender; escola; história; imagem; organismo; técnica; timina; trabalhar(11) mundo; conceito; ensinar; guanina; individual; pentose; perceber; textos; economia(10) adenina; argumenta; benefício; citosina; concluir; descoberta; discutir; genéticas; opinar; praticar; vida; educação(9) alimento; diferente; formar; impacto; transformar(8) analisar; cientista; estratégia; fosfato; metodologia; nucleotídeo; quebra-cabeça; recurso; saúde(7) comportamento; comunicar; coletiva; agir; aprender; células; consciência; consumo; criticar; gerar; GM (geneticamente modificado); ideia; integrar; matéria; núcleo; organizar; poder; produtor; produtos; propor; questionar; química(6) ácida; ampliar; atividade; aplicar; compreender; conduzir; dialogar; identificar; familiar; favorável; fonte; instrumentalizar; meio ambiente; nacional; pessoa; política; saber; seguro(5) ácido nucleico; adotar; agricultura; alterar; ambiental; apresentar; auxiliar; avançar; biotecnologia; buscar; causar; cidadão; confiabilidade; computador; contrariar; controlar; dificuldade; eficiente; espécie; estruturar; perigo; pedagógico; perspectiva; plantio; física; fenômeno; fósforo; gene; gestão; grande molécula; habilidades; inserção; interpretar; justificar; ligação específica; melhorar; modelo; necessitar; novo; observar; ordem; promover; proteína; publicar; público; realidade; responder; resultado; soja; ver; tema; teoria; TICs(4) 110 Com viver com ciência G U I A P N L D BRAGA, D. B. Ambientes digitais. Refl exões teóricas e práticas. São Paulo: Cortez, 2013. A autora faz uma refl exão sobre o conjunto de recursos oferecidos pelos ambientes digitais. DAWKINS, R. O maior espetáculo da Terra: as evidências da evolução. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. O autor descreve, de forma apaixonada, mas sem perder a cientifi cidade, os cami- nhos da evolução da vida. ZATZ, M. Genética: escolhas que nossos avós não faziam. São Paulo: Globo, 2011. A autora apresenta, de forma clara, os avanços da genética e as questões éticas em torno desses avanços. FRANCIS, R. Epigenética: como a ciência está revolucionando o que sabemos sobre hereditariedade. Rio de Janeiro: Zahar, 2015. O autor nos convida a conhecer os efeitos da epigenética em situações retiradas de vivências observadas; por exemplo, gêmeos idênticos que não são idênticos, a fome holandesa na Segunda Guerra Mundial e outros fatos apresentados. LEITURAS COMPLEMENTARES 111Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D CAPÍTULO 4 Meio Ambiente – Educação para o Consumo Objetivos gerais das vivências e atividades deste capítulo: • Refletir sobre o ato de consumir: o que, quando, como e quando. • Perceber que seu comportamento de consumo sofre influência e influencia o mercado e as decisões socioeconômicos e políticas. • Ter a consciência que seu comportamento e sua concepção de consumo influenciam na prática pedagógica. Justificativa Esses objetivos se justificam para que você possa ter consciência da sua ação e perceber as dificuldades no processo de mudança e ficar atento ao impacto do ato de consumir tanto para o ambiente quanto para a sociedade. ATIVIDADE: CONHECIMENTO DE SI Da mesma forma como fizemos nos capítulos anteriores, convidamos você para uma reflexão sobre o seu comportamento no ato de consumir. Leia e reflita sobre as questões abaixo: 1. Qual a quantidade de produtos de vestuário você consome anualmente? 2. Essa quantidadeatende ou ultrapassa as suas necessidades? 3. Você utiliza mais roupa sintética ou de algodão? 4. Você se preocupa com o ambiente ao comprar um determinado produto? 5. Ao consumir algo você pensa na matéria-prima necessária e qual é a sua origem? 6. Você consome por impulso? Em caso positivo, isso é raro ou frequente? 7. Em geral, quando você consome algo, o que é prioridade, a qualidade ou o preço? Pense no porquê dessas escolhas? 8. Qual o transporte você mais utiliza? Reflita sobre o porquê dessa escolha? 9. Você se preocupa com o ambiente ao se deslocar de um lugar para o outro? 10. Como você descarta os resíduos sólidos? 11. Você se preocupa com o tipo de embalagem ao comprar os produtos? 112 Com viver com ciência G U I A P N L D Você conhece o poema de Carlos Drummond de Andrade “Eu, etiqueta”? Como você se vê diante dessa frase? Como seria um poema escrito por você se fosse sugerido cria-lo a partir desse título? Carmo (2008), com o objetivo de buscar perceber a concepção de enun- ciado, signo e ideologia, analisa o poema de Carlos Drummond com uma leitura mais reflexiva de Bakhtin e questiona: O nome grudado na calça, e que não se conhece, é a etiqueta do produto ou um signo? As estampas contidas no blusão, na camiseta, nas meias, não seriam publicidades gratuitas (que o poeta menciona que se paga ao usar)? Todos os produtos que rodeiam as pessoas são mensagens? E essas mensagens, e o uso de imperativos, denunciados nesses versos, retratam costumes ou ordens? O homem é um veículo de propaganda que tem liberdade de escolha? O ser humano que vive na realidade pronunciada pelo poema, sabe se reconhecer? Sabe se é ser humano ou coisa? Quantas perguntas podem ser formuladas por intermédio deste poema? (CARMO, 2008, p. 2). Santiago (2014), em resenha crítica ao poema de Carlos Drummond de Andrade, afirma que “todo o referido poema evidencia, já nos anos 80, o fenômeno atual da coisificação da sociedade moderna e o apequenamen- to do ‘ser’ diante do ‘ter’”. Segue abaixo um convite para aprofundar nas discussões apostadas por Carmo (2008) e Santiago (2014). CONVITE A LEITURA CARMO, A.S.A. Os signos do poema Eu, Etiqueta. Revista de Letras 10, 2008. Disponível em: https://periodicos.utfpr.edu.br/rl/article/download/2396/1531 Acesso em: 18 dez. 2020. Este artigo procurou extrair do poema “Eu, Etiqueta”, de Carlos Drummond de An- drade, por meio de uma análise contextual, elementos que identificassem certa pro- ximidade com os estudos de Bakhtin, acerca do enunciado, do signo e da ideologia. SANTIAGO, M.R. “Eu, etiqueta”: o panorama atual das relações de consumo e a crítica de Carlos Drummond de Andrade. Scientia Iuris, Londrina, v. 18, n. 2, p. 229-234, dez. 2014. Disponível em: https://www.researchgate.net/ publication/272641576_Eu_Etiqueta_o_panorama_atual_das_relacoes_de_ consumo_e_a_critica_de_Carlos_Drummond_de_Andrade Acesso em: 18 dez. 2020. Esta resenha analisa o peculiar interesse no campo do direito das relações de con- sumo, na perspectiva da modernidade líquida de Zygmund Bauman (2007), em face do poema “Eu, Etiqueta” presente no livro Corpo de Carlos Drummond de Andrade. 113Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D CONVITE A LEITURA LEÃO, I. Z. C. C. Reflexões sobre O império do efêmero, de Gilles Lipovetsky. Economia & Tecnologia, v. 7, n. 2, 2011. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/ret/arti- cle/view/26826 Acesso em: 18 dez. 2020. “Este artigo-resenha apresenta um dos mais importantes livros do filósofo francês Gilles Lipovetsky, marcado por uma ambiguidade entre uma compreensão mais acurada dos conceitos de comportamento, cultura e consumo e um esquecimento de conflitos reais nas sociedades modernas, que esses conceitos não podem e não devem mascarar.” As “Reflexões sobre O império do efêmero” relatam criticamente o trabalho de Gilles Lipovetsky no que se refere a moda nas sociedades modernas. Muitas vezes, nosso comportamento e nossa coerência em relação ao que dizemos e fazemos influenciam um número significativo de pessoas, prin- cipalmente aquelas que estão sendo educadas por nós. Aquelas peque- nas coisas, que às vezes não percebemos ou até mesmo consideramos sem muita importância, podem servir de exemplo para alguém, até mesmo permitir que os outros não considerem nossa orientação, por perceber uma incoerência entre o falar e o fazer. ATIVIDADE: CONHECIMENTO DO EU, DO OUTRO E DO NÓS NO ESPAÇO ESCOLAR Agora, vamos convidá-lo a avaliar seu comportamento e a possível in- fluência sobre o comportamento das pessoas que convivem com você no ambiente escolar. Qual é sua preocupação com os recursos que você utiliza e descarta no ambiente escolar, antes durante e após as aulas? Por exemplo: A. Número de cópias mimeografadas ou xerocadas que você pede para reproduzir e utiliza por turma; B. Caneta ou giz que você solicita ou adquire para cada turma; C. Indicação ou solicitação de compra de materiais que serão utiliza- dos na sua escola; D. Utilização e descarte de pilhas, CDs, pendrives e/ou disquetes; Agora, reflita e responda a questão: 1. Qual a sua identificação com as questões de consumo anteriormen- te relatadas? Qual é o impacto de nossa visão em relação ao nosso ecossistema? Agora, convidamos você para a leitura do artigo a seguir, que é uma refle- xão de um dos mais importantes livros do filósofo francês Gilles Lipovetsky, O império do efêmero. 114 Com viver com ciência G U I A P N L D E. Durante o lanche, que tipo de embalagem ou utensílio você costuma utilizar na cantina e/ou na sala dos professores; F. Os resíduos que ficaram na mesa após o término do lanche; G. Utilização das lixeiras para coleta seletiva. CONVITE À LEITURA PEIXOTO, K.; CAMPOS, V. B. G.; D’AGOSTO, M. de A. A coleta seletiva e a redução dos resíduos sólidos. In: VIII Congresso Brasileiro de Defesa do Meio Ambiente (CBDMA), Rio de Janeiro, 2005. Disponível em: http://aquarius.ime. eb.br/~webde2/prof/vania/pubs/(7)coletaresiduossolidos.pdf Acesso em: 2 dez. 2020. Esse artigo apresenta perspectiva histórica, legislação, experiências brasileiras e es- trangeiras sobre a coleta seletiva. Finaliza chamando a atenção para a importância da educação ambiental. O EU, O OUTRO E O NÓS NA EDUCAÇÃO PARA O CONSUMO Como somos influenciados e influenciamos o consumo? E o que pode- mos mudar? Empresas estudam as tendências e os hábitos dos consumidores pelo mundo e descrevem perfis que auxiliarão na criação e na forma de traba- lhar os produtos, para que sejam consumidos. Vamos analisar os cinco perfis de consumidores definidos após um estudo realizado por uma empresa de gestão de informação que auxilia o merca- do a compreender o perfil de seu consumidor. Ou seja, o que eles querem? O que compram? O que compartilham? A matéria, intitulada “Nielsen cria perfis inéditos de hábitos de consumo para acompanhar os novos paradig- mas do consumidor brasileiro”, combinou nível socioeconômico, gênero e idade com estilo de vida, hábitos e atitudes. São eles: Consciente Pragmático – segue fielmente seus hábitos e preferências. Predo- minante em indivíduos com mais de 46 anos de idade, das classes C2, D e E, maioria do sexo masculino (55%). Como busca uma vida estável, preocupa-se com o aumento do custo de vida e com os serviços públicos. Equilibrista – o “negociante”, aquele que busca fazer escolhas inteligentes para conseguir consumir tudo o que quer. Esse perfil é predominantemente feminino (67%), das classes C1 e C2 e mais jovem (26 a 45 anos). Responsável pelas compras da casa, esse perfil foi bastante impactado pela crise, então, preocupa-se bastante com o aumento do custo de vida e com a educação. Consciente Sonhador – busca levar uma vida sossegada, na qual possa cuidar de si e do mundo. Maioria do sexo feminino (72%), esse perfil está mais presen- te nas classes C2, D e E. É responsável pelas compras de casa e, embora não tenha sidoimpactado pela crise, se preocupa com o custo de vida, a economia e, em especial, o meio ambiente. 115Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D Conectado – se comunica e passa a maior parte do seu tempo na internet. A maioria possui até 25 anos de idade, está inserida nas classes B2 e C1 e sem predominância de gênero (homens e mulheres com 50%). Apesar de estar sem- pre online, não deixa de ir a festas, eventos culturais e de estar com os amigos. Esse perfil valoriza ações que criem experiência e exclusividade com produto/ marca, como degustação, amostra grátis, cupons e desconto nos aplicativos. Aspiracional – busca aliar seu bem-estar próprio ao coletivo. Esse perfil tem predominância nas classes A, B1 e B2, com idade entre 26 e 45 anos e maioria feminina (64%). Suas maiores preocupações são com meio ambiente, educa- ção, corrupção e preconceito. Esse perfil é muito bem informado, tornando-o mais exigente. (Adaptado de: NIELSEN, 2019, s. p.). Repare que nosso comportamento diante do mercado é estudado e cate- gorizado. Isso indica que falamos para o mercado o que, o quanto e como ele vai produzir. Porém, o ato de consumir não está atrelado somente à necessidade do produto, mas também às questões emocionais, patoló- gicas. Podemos nos deixar convencer pela fala ou pela argumentação do vendedor, pela linguagem utilizada pela empresa e/ou porque não apre- sentamos conhecimento suficiente para definir a compra do produto. Atualmente, a chamada internet das coisas (IoT), combinada com a análise de dados e a ciência comportamental, identifica métodos eficazes para alterar nosso comportamento. Segundo Nunes e Gonçalves: A interconexão de dispositivos digitais, principalmente smartphones, possibi- litada pela “Internet das Coisas” (IoT) cria novas fontes de dados sobre o com- portamento de consumidores. As empresas agora podem observar melhor as escolhas individuais e testar a eficácia de diferentes formas de ativação e retenção de clientes. […] A IoT também permite a identificação de métodos eficazes para alterar nosso comportamento. Isso é otimizado pela combi- nação de IoT, análise de dados e ciência comportamental. […] A IoT gra- va e transmite informações personalizadas. Isso significa que as técnicas de mudança de comportamento podem ser aprimoradas pela coleta de dados observacionais do comportamento cotidiano de seus usuários e, por meio da experimentação, identificar quais intervenções são mais eficazes. (NUNES; GONÇALVES, 2018, s. p., grifos do original). EDUCAÇÃO PARA O CONSUMO Preparar-se para o consumo significa ter consciência do que, para que, como, o que e quanto consumir. Isso significa: conhecer o produto, sua produção, sua composição, a origem da matéria-prima, o impacto socioe- conômico e ambiental, e avaliar o quanto necessitamos do produto. Para que possamos consumir com consciência, respeitando os pontos des- tacados, precisamos não somente consumir, mas olhar para o ambiente e tentar compreender como se dão as relações e o que implica cada ação de exploração da matéria-prima para a produção do bem que vamos consumir. Isto é, o quanto a matéria-prima será transformada para gerar o produto de 116 Com viver com ciência G U I A P N L D consumo. Do mesmo modo, devemos anali- sar se esse material transformado será reapro- veitado pelo ambiente ou se gerará um acú- mulo de resíduos não aproveitados. Conhecer toda essa malha de interações é impossível, mas saber de sua existência e que elas carregam várias especificidades, bem como que alguns mecanismos lhes são co- muns e que seu conhecimento nos permitirá a previsão de possíveis impactos ao ambiente com a opção de uma ou outra ação. Vamos convidá-lo a pensar em algumas si- tuações, que apresentaremos a seguir, sobre o consumo de alimentos. Como optar pelo consumo de um ou outro tipo de alimento? Como opinar em relação a uma ou outra for- ma de produção de alimento? Para que possamos emitir um juízo de valor, precisamos conhecer, primeiramente, a base que sustenta a ideia. Às vezes, opinamos por- que ouvimos falar que aquela forma é me- lhor ou pior. Com frequência, executamos algumas tarefas em nosso dia a dia de forma mecânica, sem nos questionarmos sobre o porquê de estarmos fazendo dessa maneira. Teremos por foco um tipo de consumo, ou seja, os alimentos. VIVÊNCIA: CONSUMO DE ALIMENTOS ORGÂNICOS Consumir alimentos orgânicos ou não? Qual o benefício de um e outro? Primeiramente, o que são alimentos orgânicos? São alimentos com um sistema de produção sem a utilização de agrotóxicos, adubos químicos ou substâncias sintéticas que agridam o ambiente. O processo produtivo deve contemplar o uso responsável do solo, da água, do ar e dos demais recursos naturais, respeitando as relações sociais e culturais (ver: BRASIL, 2017). Vamos considerar que seu aluno lhe dissesse que o vizinho cultiva horta- liças e legumes sem agrotóxico, perguntando-lhe: “esses alimentos são orgânicos?”. Quais as orientações que você lhe daria? CONVITE À LEITURA MOORI, R. G.; SATO, G. S.; LOMBARDI, M. F. S. Um estudo comparativo da per- cepção dos consumidores sobre produtos orgânicos e transgênicos. Portal do Governo de São Paulo, São Paulo: Secretaria de Agricultura e Abastecimento: Instituto de Economia Agrícola (IEA), 15 jun. 2004. Disponível em: http://www. iea.sp.gov.br/out/verTexto.php?codTexto=1391. Acesso em: 2 dez. 2020. Foram confeccionados e aplicados 138 questionários para alimentos orgânicos e 144 para transgênicos. Por meio de testes não paramétricos, comparou-se a percepção do mercado consumidor para esses dois produtos. A coleta dos dados foi realizada junto à população da Região Metropolitana de São Paulo e do interior do estado de São Paulo. O resultado indicou existir uma concepção diferenciada do consumidor para o alimento orgânico e o transgênico. 117Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D ATIVIDADE: EXPERIÊNCIAS NO AMBIENTE DO ESPAÇO ESCOLAR Que tal se você desenvolvesse uma atividade com seus estudantes que poderia gerar dados para discussão em sala de aula no momento em que estivesse refl etindo sobre temas relacionados com o ambiente e o consu- mo consciente? Qual poderia ser a estratégia pedagógica a ser utilizada com eles? Daremos exemplo de uma estratégia que poderá ser utilizada tanto no es- paço escolar quanto fora dele. Essas atividades demandarão das pessoas envolvidas: observação, iniciativa, autonomia e busca de informação. Será possível desenvolver a seguinte competência e as seguintes habilidades: Competência específi ca 1 Analisar fenômenos naturais e processos tecnológicos, com base nas interações e relações entre matéria e energia, para propor ações individuais e coletivas que aperfeiçoem processos produtivos, minimizem impactos socioambientais e me- lhorem as condições de vida em âmbito local, regional e global. Habilidades (EM13CNT101) Analisar e representar, com ou sem o uso de dispositivos e de aplicativos digitais específi cos, as transformações e conservações em sistemas que envolvam quantidade de matéria, de energia e de movimento para realizar previsões sobre seus comportamentos em situações cotidianas e em proces- sos produtivos que priorizem o desenvolvimento sustentável, o uso consciente dos recursos naturais e a preservação da vida em todas as suas formas. (EM13CNT105) Analisar os ciclos biogeoquímicos e interpretar os efeitos de fe- nômenos naturais e da interferência humana sobre esses ciclos, para promover ações individuais e/ou coletivas que minimizem consequências nocivas à vida. (BRASIL, 2018). 118 Com viver com ciência G U I A P N L D A B A proposta a seguir é a descrição e a discus- são dos resultados de uma atividade desen- volvida por uma das autoras com seus estu- dantes. O objetivo era a intervenção em um ecossistema aberto e o acompanhamento do processo de intervenção com a observaçãodas dinâmicas das inter-relações e dos im- pactos possíveis de serem detectados. Esse tipo de atividade pode ser planejado e executado por um grupo de professores de diferentes áreas do conhecimento. É um exer- cício que, por sua característica, proporciona- rá aos aprendizes (professores, alunos e de- mais pessoas envolvidas) uma vivência de ter de deparar com o inesperado, com demandas de respostas para resoluções dos problemas emergentes, além de criar uma grande neces- sidade de busca de informações e discussões com grupos de diferentes áreas. O estudo permite obter exemplos in loco de diferentes processos adaptativos, interações dos seres vivos entre si e desses seres vivos com os fatores abióticos, além da infl uência de fatores externos à área estudada e seus impactos positivos e/ou negativos. Ou seja, é possível fazer um estudo sobre a dinâmi- ca em um ecossistema. Esse estudo poderá atingir um amplo nível de questionamentos e aprofundamentos, dependendo das condi- ções espacial e temporal da escola e do grau de interesse dos envolvidos na atividade. Orientações e desenvolvimento do estudo Foi selecionada uma área próxima à escola, que, em seguida, foi subdivida em quadrantes de 1 m × 1 m. Descreveremos os resultados e as questões a serem discutidas referentes a um dos quadrantes estudados. A orienta- ção era para demarcarem a área, manterem as espécies que estavam visivelmente adap- tadas ao local, discutirem no grupo qual seria o objetivo da intervenção a ser alcançado e não utilizarem nenhum tipo de agrotóxico e fertilizante sintético. Intervindo em um ecossistema Figura 48 – Área delimitada que sofreu intervenção. Figura 49 – Pontos A e B demarcados para perfuração e observação das condições do solo. © A rq u iv o p e ss o al d as a u to ra s © A rq u iv o p e ss o al d as a u to ra s 119Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D O quadrante selecionado está localizado em um espaço em que predo- mina o bioma cerrado. O entorno apresenta um pouco de área verde, com espécies nativas e espécies introduzidas pelo ser humano. Grande parte da área está cercada por construções. Atrás passa um córrego, que recebe grande quantidade de dejetos domiciliares e rejeitos industriais. Existe uma canalização dessa água, que passa por dentro da área sele- cionada para o estudo. O quadrante recebia uma incidência solar em toda a sua extensão até às 16h. A superfície do solo se apresentava geralmente ressecada, e, a partir de 30 cm de profundidade, umedecida. As intervenções e as observações se iniciaram no mês de março. A média climatológica mensal calculada na região estudada foi: temperatura míni- ma de 19 °C, máxima de 29 °C e precipitação de 143 mm. A Figura 48 mostra detalhes da área, e a Figura 49, a localização dos dois pontos onde foram perfurados buracos de 30 cm para a observação das possíveis camadas do solo. As Figuras 50 e 51 mostram as camadas dos solos dos pontos A e B. É importante fazer uma descrição da área, apontando as inter-relações entre os seres vivos e entre os seres vivos e os fatores abióticos (incidência solar, condições do solo, umidade, pH). Quanto mais minuciosa for essa descrição, melhor, pois os dados serão comparados com os obtidos du- rante e após as intervenções. Nesse ponto é importante também verificar quais são as ideias iniciais dos estudantes, por exemplo, a incidência solar é importante? Por quê? E as condições do solo? A umidade? O pH? Mesmo que eles não respondam a essas perguntas, elas são importantes de serem feitas para que os estudan- tes comecem a refletir sobre o assunto. Figura 50 – Estratos do ponto A. Figura 51 – Estratos do ponto B. © A rq u iv o p e ss o al d as a u to ra s © A rq u iv o p e ss o al d as a u to ra s 120 Com viver com ciência G U I A P N L D CONVITE À LEITURA COELHO, M. R.; FIDALGO, E. C. C.; SANTOS, H. G. dos et al. Solos: tipos, suas funções no ambiente, como se formam e sua relação com o crescimento das plantas. In: MOREIRA, F. M. S.; CARES, J. E.; ZANETTI, R.; STÜMER, S. L. (ed.). O ecossistema solo: componentes, relações ecológicas e efeitos na produção vegetal. Lavras: UFLA, 2013. cap. 3, p. 45-62. O livro aborda os fatores químicos, físicos e, principalmente, os fatores biológicos do solo, enfatizando a relação entre eles e a produção vegetal. Os principais grupos fun- cionais que compõe a biodiversidade do solo (macrofauna, mesofauna, microfauna e micro-organismos), e também o componente vegetal, são apresentados, enfatizan- do-se os processos que realizam e que são fundamentais para a sustentabilidade dos ecossistemas. HARIDASAN, M. Nutrição mineral de plantas nativas do cerrado. R. Bras. Fi- siol. Veg., v. 12, n. 1, p. 54-64, 2000. Disponível em: https://files.cercomp.ufg.br/weby/ up/284/o/v12n1p54.pdf. Acesso em: 2 dez. 2020. Breve revisão das informações sobre alguns aspectos de nutrição mineral de plantas nativas do cerrado. Estão abordadas a questão de deficiência nutricional dos ecos- sistemas do cerrado e a questão de acumulação de alumínio em plantas nativas do cerrado, área da pesquisa desenvolvida. Primeira intervenção na área Preparação do solo A primeira intervenção realizada foi a pre- paração do solo, que se apresentava seco, compacto e com pouca presença de maté- ria orgânica. Optou-se por umedecer, arar e adubar o solo. Para adubação, foi construída uma composteira com restos de alimentos, como cascas de ovo, frutas, cascas de legu- mes. Essa intervenção foi realizada com o objetivo de aumentar os nutrientes presentes no solo. Após três semanas, foram realizados os primeiros plantios. Antes de continuarmos com a intervenção, va- mos discutir o porquê de cada uma das ações que foram tomadas durante o preparo do solo. As explicações precisam considerar o efeito da ação para a mudança do ecossistema. Figura 52 – Primeira intervenção: preparo do solo. © A rq u iv o p e ss o al d as a u to ra s 121Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D • Por que umedecer, arar e colocar adubo no solo? O que é composta- gem e quais são as etapas do processo e as interações ocorridas? • Para fazer a compostagem, utilizamos cascas de frutas, legumes e ovos; no entanto, se essas frutas e legumes utilizados forem cultivados com agrotóxicos, o adubo formado estaria contaminado com agrotó- xicos? • E os alimentos produzidos nesse solo, serão considerados orgânicos? • Qual é a importância da água? • Qual é a importância das cascas de frutas e legumes para as plantas? • Com a aragem, aumenta-se a quantidade de partículas de oxigênio disponível. Mas por que isso é importante? CONVITE À LEITURA BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Gabinete do Ministro. Instrução Normativa no 46, de 6 de outubro de 2011. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 7 out. 2011. Disponível em: https://www.gov.br/ agricultura/pt-br/assuntos/sustentabilidade/organicos/produtos-fitossanitarios/ IN46.2011alteradapelaIN17.2014epelaIN35.2017.pdf Acesso em: 2 dez. 2020. INÁCIO, C. de T. Compostagem: curso prático e teórico. Circular Técnica, Rio de Janeiro: Embrapa, n. 48, p. 1-8, 2015. Disponível em: https://ainfo.cnptia.embrapa.br/ digital/bitstream/item/132319/1/Circular-tecnica-48.pdf Acesso em: 2 dez. 2020. Esse material apresenta as orientações técnicas para se fazer um sistema de compos- tagem e discute algumas reações do processo biológico. Segunda intervenção na área Plantio dos primeiros exemplares vegetais Os primeiros vegetais plantados foram abóbora-menina e tomate-cereja. As sementes foram plantadas em sementeiras. A abóbora foi replantada após 18 dias da semeadura, e o tomate, após 25 dias. Ambos foram trans- plantados na segunda quinzena do mês de abril (média mensal: tempera- tura mínima de 17 °C e máxima de 28 °C; precipitação de 56 mm). A esco- lha dessesvegetais foi em razão de as condições de plantio se adequarem às condições do ambiente. Condições favoráveis ao cultivo de abóbora-menina (Curcubi- ta sp) e tomate-cereja (Solanum lycopersicum): temperatura de 15 °C a 27 °C; luminosidade alta; umidade alta; solo rico em matéria orgânica; e pH de 5,5 a 6,5. 122 Com viver com ciência G U I A P N L D Figura 53 – (A) Semeadura das sementes de abóbora-menina (família Cucurbitaceae, gênero Cucurbita, espécie Curcubita sp) e de tomate-cereja (família Solanaceae, gênero Solanum, espécie Solanum lycopersicum). (B) Transferência das mudas de abóbora e tomate para a área de intervenção. Figura 54 – Plantio da cebolinha verde. Introdução de mudas de cebolinha (A. schoenoprasum) © A rq u iv o p e ss o al d as a u to ra s © A rq u iv o p e ss o al d as a u to ra s A B Ainda no mês de abril, foram introduzidas na área três mudas de cebolinha verde (família Alliaceae, gênero Allium, espécie A. schoe- noprasum). As condições para plantio desse vegetal são: temperatura de 13 °C a 24 °C; lu- minosidade alta; umidade alta; solo adubado; pH de 6,0 a 6,8. • Por que se semeou, inicialmente, em se- menteiras? • Germinação e fotossíntese são um mes- mo processo? É importante verificar que as condições reque- ridas por uma espécie são diferentes das reque- ridas por outra espécie, não só para a realização da fotossíntese como para a germinação. Nesse início de plantio, é importante pesqui- sar antes sobre cada espécie que será planta- da. Qual seu ritmo de crescimento? • Existe a possibilidade de competição por espaço? Por luminosidade? Por nutriente?… 123Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D A terceira espécie introduzida poderá apre- sentar qual tipo de inter-relação? CONVITE À LEITURA VAZ, A. P. A.; JORGE, M. H. A. Cebolinha. Corumbá: Embrapa, nov. 2007. Disponível em: https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/ publicacao/786582/cebolinha Acesso em: 2 dez. 2020. Trata-se de um manual de orientação para o plantio da cebolinha. SILVA, A. P. G. da.; BORGES, C. D.; MENDONÇA, C. R. B. Características físico-químicas de cebolinhas comum e europeia. Braz. J. Food Technol., Campinas, v. 18, n. 4, p. 293-298, out./ dez. 2015. Disponível em: https://www.scielo.br/ pdf/bjft/v18n4/1981-6723-bjft-18-4-293.pdf Acesso em: 2 dez. 2020. O estudo avalia a qualidade físico-química de cebolinhas Allium fistulosum (comum) e Allium schoenoprasum (europeia). As amostras das dife- rentes espécies foram analisadas quanto a: colo- ração; sólidos solúveis (SS); acidez titulável (AT); relação SS/AT; pH; umidade; clorofila a; clorofila b; clorofila total; e carotenoides totais. HORA, R. C. da; CAMARGO JR., O. A.; BUZANINI, A. C. Cucurbitáceas e outras. In: BRANDÃO FILHO, J. U. T.; FREITAS, P. S. L.; BERIAN, L. O. S.; GOTO, R. (comp.). Hortaliças- fruto. Maringá: Eduem, 2018. cap. 3, p. 71-111. E-book. Disponível em: http://books.scielo.org/id/ bv3jx/pdf/brandao-9786586383010-05.pdf Acesso em: 2 dez. 2020. O capítulo detalha as características e as con- dições para o plantio das espécies da família Cucurbitaceae. Evolução do ecossistema após um mês do plantio Figura 55 – A evolução do aspecto das folhas e dos talos da abóbora após um mês de plantio. © A rq u iv o p e ss o al d as a u to ra s B C D E A 124 Com viver com ciência G U I A P N L D Após um mês, ou seja, no mês de maio (mé- dia mensal: temperatura mínima de 15 °C e máxima de 26 °C; precipitação de 29 mm), as folhas da abóbora se apresentavam como mostrado na Figura 55. Esse momento é muito rico para trabalhar as relações intra e interespecíficas, as relações com os fatores abióticos e também a interfe- rência externa que esse ambiente sofre. • Que tipo de interação biológica está ocorrendo? • A adubação feita anteriormente não foi o suficiente para permitir um desenvolvi- mento saudável da abóbora. Por que isso aconteceu? • Que grupo animal estava presente nas folhas e nos talos da abóbora? Como ele pode ter chegado ali? E por que aumen- tou tanto o número de exemplares? Repare que esse também é o momento em que todos pensam em usar um tipo de agro- tóxico, para matar as espécies que estão prejudicando o desenvolvimento da cultura. Como o acordo inicial foi não utilizar nenhum tipo de agrotóxico ou fertilizante sintético, é hora de parar, observar mais e recorrer a um processo natural. CONVITE À LEITURA LOVATTO, P. B.; SCHIEDECK, G.; GARCIA, F. R. M. A interação co-evolutiva en- tre insetos e plantas como estratégia ao manejo agroecológico em agroecossis- temas sustentáveis. Interciência, v. 37, n. 9, p. 657-663, set. 2012. Disponível em: https://www.interciencia.net/wp-content/uploads/2018/01/657-LOVATTO-7.pdf. Acesso em: 2 dez. 2020. O trabalho faz uma revisão sobre a defesa das plantas e sua relação com a herbivoria de insetos, direcionando, a partir das inter-relações coevolutivas desses organismos, estratégias possíveis de utilização para o manejo de insetos considerados “pragas” agrícolas em agroecossistemas. TISSOT-SQUALLI, M. L. Interações ecológicas e biodiversidade. Ijuí: Unijuí, 2017. v. 2. Esta publicação apresenta pesquisas relacionadas a biodiversidade e interações eco- lógicas nos mais distintos habitats, tanto no seu aspecto prático investigativo quanto na análise conceitual. Contempla a discussão sobre o uso do ambiente e dos recursos naturais nas perspectivas de conservação, preservação e recuperação. Terceira intervenção na área Panorama da área: foi observado que o tomateiro e as cebolinhas não es- tavam crescendo, mas também não estavam mortos. O pé de abóbora estava cada vez mais debilitado, porém os insetos haviam sumido. Na tentativa de espantar esses insetos caso reaparecessem ou fossem re- introduzidos, decidiu-se, no final do mês de maio, plantar alecrim (família Lamiaceae, gênero Rosmarinus, espécie R. officinalis), manjericão (família Lamiaceae, gênero Ocimum, espécie O. basilicum) e arruda (família Ruta- ceae, gênero Ruta, espécie R. graveolens). 125Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D Novos questionamentos: • O que pode ter acontecido com os espé- cimes presentes nas folhas da abóbora? • Que tipo de interação essas espécies po- deriam realizar na área? Na primeira quinzena do mês de junho (mé- dia mensal: temperatura mínima de 13 °C e máxima de 25 °C; precipitação de 12 mm), foi registrada a imagem da Figura 56. Figura 56 – Infestação na folha da abóbora. © A rq u iv o p e ss o al d as a u to ra s Após o registro (Figura 56), a área foi visitada todos os dias, para acompanhar a evolução do desenvolvimento da abóbora e observar a presença desses espécimes verdes com bo- linhas amarelas, chamados popularmente de vaquinha, porém nenhum deles foi encontra- do novamente. A partir daí, surgem os ques- tionamentos: • Considerando a dinâmica de um ambien- te, o que pode ter ocorrido? A que grupo animal pertence esse exemplar? Por que essa espécie não foi vista mais na área? • De onde ele veio? CONVITE À LEITURA MORAIS, L. A. S. de; MARINHO-PRADO, J. S. Plan- tas com atividade inseticida. In: HALFELD-VIEI- RA, B. de A.; MARINHO-PADRO, J. S.; NECHET, K. de L.; MORANDI, M. A. B.; BETTIOL, W. Defen- sivos agrícolas naturais: uso e perspectivas. Brasí- lia, DF: Embrapa, 2016. cap. 19, p. 542-593. Dis- ponível em: http://www.bdpa.cnptia.embrapa. br/consulta/busca?b=ad&id=1065813&bibliote- ca=vazio&busca=1065813&qFacets=1065813&sor- t=&paginacao=t&paginaAtual=1 Acesso em: 2 dez. 2020. O texto é um convite a conhecer a história de al- gumas plantas com efeito inseticida, o seu uso e atuação. FERREIRA, A. G.; AQUILA, M. E. A. Alelopatia: uma área emergente da ecofi siologia. Rev. Bras. Fi- siol. Veg., n. 12 (Edição Especial), p. 175-204, 2000. Disponível em: http://www.lpv.esalq.usp.br/si- tes/default/files/8%20-%20Semana%204%20-%20Alelopatia%20na%20agricultura%20-%20 referencia%20leitura%20-%20referencia%20lei- tura.pdf Acesso em: 2 dez. 2020. Esse trabalho apresenta a relação entre C:N, e também do P, na complexidade da manifestação dos fenômenos alelopáticos. Distingue alelopa- tia, competição e interação. Foi mostrada a me- todologia e foram criticados os bioensaios mais usuais. Foi relacionado o fenômeno alelopático com outros fenômenos que alteram ou infl uen- ciam o crescimento de plantas. 126 Com viver com ciência G U I A P N L D CONVITE À LEITURA LAUMANN, R. et al. Diversidade de crisomelídeos-praga (Coleoptera: Chryso- melidae) no Distrito Federal. Boletim de Pesquisa e Desenvolvimento, Brasília, DF: Embrapa, n. 76, p. 1-22, 2004. Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa. br/infoteca/bitstream/doc/185301/1/bp076.pdf. Acesso em: 2 dez. 2020. Esse estudo tem por objetivo identificar a diversidade de espécies em áreas hortí- colas do Distrito Federal. Discute as diferentes espécies de coleópteros encontradas nas culturas da região. Quarta intervenção na área Observe na Figura 57 a imagem registrada da área na primeira quinzena do mês de julho (média mensal: temperatura mínima de 13 °C e máxima de 25 °C; precipitação de 15 mm). Figura 57 – Área de estudo após cinco meses de intervenção. • Com base nas intervenções que foram descritas e na observação da imagem, como podemos explicar o aparecimento dessas espécies que não haviam sido introduzidas pelos estudantes? • Considerando o ritmo de desenvolvimento da abóbora, do alecrim, do manjericão e da arruda, o que se pode afirmar em relação à saúde dessas espécies? • Quais relações ecológicas estão evidentes na imagem? © A rq u iv o p e ss o al d as a u to ra s 127Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D Quinta intervenção na área As condições da área demandavam uma inves- tigação para saber o que estava acontecendo com as plantas, visto que apresentavam bai- xo desenvolvimento e os insetos não estavam mais presentes na superfície das folhas do pé de abóbora. Ao arrancar algumas amostras das diferentes partes da planta para verificar com mais cuidado sob uma lupa de mão, foi pos- sível observar que as raízes do pé de abóbora e do tomateiro estavam infestadas com várias larvas de cor branca com a cabeça marrom. Como o objetivo do estudo era fazer uma intervenção e observar seu desenvolvimento natural, e considerando que não se poderia utilizar nenhum tipo de produto sintético, após várias pesquisas os estudantes resolve- ram que iriam molhar as plantas todos os dias com infusão de uma planta medicinal e iriam retirar as plantas invasoras. Surge um novo “problema”, representado nas Figuras 58 e 59. Figura 58 – Manchas brancas nas folhas da abóbora. © A rq u iv o p e ss o al d as a u to ra s Figura 59 – Manchas brancas nas folhas do tomateiro. © A rq u iv o p e ss o al d as a u to ra s 128 Com viver com ciência G U I A P N L D • Considerando todo o processo observa- do até o momento, provavelmente qual a origem das larvas presentes nas raízes? • Qual seria a melhor conduta para poder controlar as larvas e favorecer o desen- volvimento da abóbora e do tomate? • Foi pensado em se retirar as plantas in- vasoras. O que são plantas invasoras e qual avaliação deve ser feita, no caso em estudo, para saber se essa medida seria eficiente? • O que estava acontecendo com as fo- lhas de abóbora e tomate mostradas nas Figuras 58 e 59? Qual(ais) relação(ões) ecológica(s) está(ão) ocorrendo nesse ambiente? Sexta intervenção na área Depois de algumas pesquisas, os estudantes resolveram regar as plantas com uma infu- são da erva popularmente chamada erva- de-santa-maria (Dysphania ambrosioides), durante os meses de agosto e setembro. Na segunda quinzena do mês de outubro (tem- peratura mensal mínima de 18 °C e máxima de 28°C; precipitação de 142 mm), eles regis- traram a imagem da Figura 60. • Quais as possíveis vias de introdução das espécies que não foram plantadas pelos estudantes, como o feijão e algumas gramíneas? • Quais as novas interações ecológicas presentes na área? • A introdução dessas novas espécies foi benéfica ou não, conside- rando a área como um todo e o objetivo da intervenção? Figura 60 – Área de estudo após oito meses de intervenção. © A rq u iv o p e ss o al d as a u to ra s 129Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D OS OBJETOS DO CONHECIMENTO NA EDUCAÇÃO PARA O CONSUMO Repare que a observação dessa pequena área antes, durante e após uma intervenção nos per- mitirá trabalhar vários objetos do conhecimento básicos da Ecologia, além de objetos de co- nhecimento da Física e da Química. Apresentamos, no quadro a seguir, alguns desses objetos. OBJETOS DO CONHECIMENTO Atividade como um todo BIOLOGIA – Ecossistema: conceito; dinâmica do ecossistema (fluxo de energia, interações entre os fatores abióticos e os seres vivos; territorialidade; diversidade dos seres vivos; adaptação dos seres vivos, cadeias e teias alimentares; produção do sistema; ciclos geoquímicos, dissipação de calor; interação com o ambiente externo…). Processos biológicos (fotossíntese, respiração, decomposição). Biomas (característica do bioma da área que está sendo estudada e inferência com outros biomas brasileiros). Impacto ambiental (impacto das ações de intervenção e inferência para outros ambientes de maiores proporções). FÍSICA – Lei da termodinâmica nos sistemas biológicos; princípio básico para o funcionamento dos aparelhos para mensuração dos fatores abióticos, como: temperatura, umidade do ar e solo, pH, além de produção de mecanismos para irrigação do sistema. QUÍMICA – Matéria e energia (matéria, elemento químico, substâncias químicas, interações e reações químicas, termoquímica, pH). Demarcação da área e primeira intervenção BIOLOGIA – Bioma: característica do bioma em que está inserida a área de estudo. Fatores abióticos (luminosidade, temperatura, umidade e pH). Seres vivos (características, classificação dos exemplares, forma de adaptação e interações). Processo de decomposição (organismos decompositores e suas interações, fatores abióticos que influenciam o processo e produtos do processo de decomposição). Nutrição vegetal. FÍSICA – Energia (fluxo de energia, transformação de energia e dissipação de calor). Lei da termodinâmica. QUÍMICA – Química do solo (característica do solo quanto a coloração, umidade, porosidade, drenagem e pH) e constituição e interações químicas do solo. Segunda e terceira intervenções BIOLOGIA – Estudo das características morfológicas, fisiológicas e adaptativas dos seres vivos (classificação, territorialidade, interação com outros seres vivos e com os fatores abióticos). Impactos das intervenções. FÍSICA – Energia (fluxo de energia, transformação de energia e dissipação de calor). Lei da termodinâmica. QUÍMICA – Química do solo (alterações químicas do solo em relação tanto a coloração, umidade, porosidade, drenagem e pH quanto a constituição e interações químicas do solo). (continua) 130 Com viver com ciência G U I A P N L D Quarta, quinta e sexta intervenções BIOLOGIA – Interações entre os seres vivos (causas e consequências para o ambiente interno e externo, alelopatia, pragas, plantas com ação inseticida, parasitismo, herbivoria, competição, predação…). Impactos das ações. FÍSICA – Energia (fluxo de energia, transformação de energia e dissipação de calor). Lei da termodinâmica. QUÍMICA – Transformações da matéria (físicas e químicas). Química do solo (alterações químicas do solo em relação tanto a coloração, umidade, porosidade, drenagem e pH quanto a constituição e interações das substâncias químicas do solo). Química das plantas. VIVÊNCIA: COMPREENDENDO SITUAÇÕES DO DIA A DIA A PARTIR DAS VIVÊNCIAS NO ESPAÇO ESCOLAR Daremos alguns exemplos de questionamen- tosque podem ser respondidos após a vivên- cia do estudo anterior e que poderão, inclu- sive, servir de instrumentos de avaliação do processo de aprendizagem nessa atividade. Exemplo 1 O estudante vai para casa e, quando chega, seu irmão pergunta: “Hoje, na escola, a pro- fessora falou que o solo precisa ser adubado para as plantas crescerem. Mas, se as plantas produzem seu próprio alimento, com a luz solar, o gás carbônico e a água, para que se preocupar com a adubação?” Exemplo 2 Um aluno foi comprar semente de maxixe e estava escrito na embalagem: “colocar para germinar no escuro”. Sua mãe o questiona: “Mas ouvi dizer que a planta, para fazer fotos- síntese, precisa estar no claro, certo?” Exemplo 3 Um funcionário de seu prédio, ao ver um vaso de planta vistosa, lugar com muita sombra, resolveu que iria transportá-la para um lugar com maior incidência solar. Após quinze dias, a planta apresentou um amarelamento das folhas e murchou. Ao encontrá-lo, o funcio- nário pergunta: “Você saberia dizer por que a planta ficou assim? Eu somente coloquei no sol, afinal é o que faz bem para ela.” Exemplo 4 No quintal de uma casa está crescendo uma muda de amora, que ninguém havia planta- do. O que pode ter acontecido? Exemplo 5 Um senhor deixou um pouco de entulho de construção no quintal. Passado um período, ele foi retirar e estava cheio de pequenos in- setos e aracnídeos. Como eles chegaram lá? Qual a relação deles com o ambiente? Exemplo 6 Um rapaz questiona a mãe por que, há um mês, ele não vê mais a presença de borbo- letas no jardim da casa deles, e a mãe res- ponde: “Não sei, meu filho. Eu não fiz nada diferente, apenas plantei algumas mudas de alecrim, hortelã e tomilho.” A partir dessa fala da mãe, o rapaz chegaria a que conclusão? (conclusão) VIVÊNCIA: COMPREENDENDO SITUAÇÕES DO DIA A DIA A PARTIR DA EDUCAÇÃO PARA O CONSUMO Os conhecimentos adquiridos com a vivência do desenvolvimento dessa atividade vão pro- porcionar uma maior compreensão quando tivermos de fazer escolhas, emitir opiniões e/ou mudar o comportamento diante do ato do consumo consciente. 131Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D Vamos analisar algumas situações que poderão, inclusive, servir de instrumentos de avaliação do processo de aprendizagem nessa atividade. Situação 1 Quando vamos comprar um alimento, e o vendedor nos diz que o alimento X produzi- do sem agrotóxico “dá bicho” e não pode ser consumido, porque está com aspecto feio… • Isso é verídico? • O que significa “dá bicho”? Por que “dá bicho”? • Os alimentos com aspecto feio podem ou não ser consumidos? Situação 2 Sua família o orienta a comprar um alimento X no sacolão ao lado de sua casa, porque, quan- do você compra esse alimento X nesse local, ele dura mais tempo fora da geladeira, mesmo apresentando o mesmo grau de amadureci- mento do comprado em outro local. • Seria realmente o melhor alimento? • Qual a característica do alimento que pode fazer com que ele dure mais ou menos fora da geladeira? Situação 3 Durante o intervalo de um programa de TV, você assiste a um noticiário dizendo que uma praga de gafanhotos está vindo em direção ao Sul do Brasil e que eles terão de utilizar um inseticida que matará 50% da população de gafanhotos. • Qual o risco que o Brasil sofreria rece- bendo essa população reduzida de gafa- nhotos? • Qual poderia ser o impacto para seu con- sumo alimentar? • Qual poderia ser a origem do surgimento dessa praga tão temida? Situação 4 Ainda referente às pragas de gafanhoto, uma empresa faz propaganda de um novo produ- to, mais eficiente para combatê-la. Animados com esse novo produto no mercado, sua fa- mília resolve investir no aumento da área de plantação da monocultura de milho. Diante dessa situação, você: • Incentivaria ou não o aumento do plan- tio? Com qual argumento? Situação 5 Com base na reportagem a seguir, qual se- ria seu argumento para ser favor ou contra a medida que estava sendo votada? O Congresso Nacional deve decidir este ano se o nome “agrotóxico” será banido ou não do país. Caso o Projeto de Lei (PL) 6.299/2002, conhecido pelos opositores como “Paco- te do Veneno”, seja aprovado, o termo será substituído nos documentos oficiais e nas embalagens dos produtos mandatoriamente por “pesticida”, “defensivo agrícola” ou “de- fensivo fitossanitário”. (GRIGORI, 2019, s. p.). • Isso significa que nossos alimentos apre- sentarão menos quantidade de veneno? CONVITE À LEITURA GRIGORI, P. Agrotóxico, veneno, defensivo? Entenda a disputa pelo nome desses produtos agrícolas. Repórter Brasil, 24 jan. 2019. Disponível em: https:// reporterbrasil.org.br/2019/01/agrotoxico-veneno-defensivo-entenda-a-disputa-pelo- nome-desses-produtos-agricolas/ Acesso em: 2 dez. 2020. O artigo aborda o que está por trás da mudança do nome de agrotóxico para defensivo ou similar. A abordagem histórica trabalhada pelo autor mostra em que contexto o nome foi incorporado à lei, e a importância também da manutenção do nome agro- tóxico para não mascarar a realidade, visto que, de fato, os agrotóxicos são venenos. 132 Com viver com ciência G U I A P N L D A IMPORTÂNCIA DAS VIVÊNCIAS PARA O ENTENDIMENTO E A MUDANÇA DE COMPORTAMENTO E ATITUDES Sabemos que obter as informações e não refletir sobre elas faz com que, na maioria das vezes, elas sejam memorizadas e repetidas sem qualquer ação na mudança de nosso comportamento. Ao vivenciar um processo, aumenta-se a chance de ocorrer reflexões e até mudança de comporta- mentos e atitudes. Por exemplo, o hábito de utilizar sacolas retornáveis toda vez que for ao supermercado ou sacolão implica o entendimento de sua importância para o contexto ambiental. Esse hábito pode estar relacio- nado com uma sensibilização e/ou conscientização desenvolvida a partir de uma vivência obtida na escola ou mesmo em seu dia a dia. O ato de comprar pode estar sofrendo influências de vários fatores. Se- gundo Nascimento et al. (2018), uma das razões pelas quais as pessoas compram é que os seres humanos são grandemente influenciados por sua psique, que, eventualmente, leva a respostas de compra evidente, e […] o ser humano na atualidade vive na constante procura da felicidade, de um sentido para sua vida, ou um significado para a sua existência. Logo, com essa perspectiva segue os mais diversos caminhos, caindo muitas vezes em extremos, apegando-se à materialidade, ou alienando-se a sistemas e coisas, procurando aí preencher seu vazio existencial muitas vezes no ato de consumir. (MATOS, 2012, p. 77). Brum e Hillig (2010) realizaram uma pesquisa de campo sobre o que um grupo de jovens considera consumo responsável. Os resultados mostraram que a maioria deles reconhece que o consumo respon- sável é aquele que prioriza o atendimento das necessidades básicas (87% das respostas), bem como o que considera se o produto é de boa qualidade (67%). No entanto, 54% dos entrevistados consideraram a “satisfação” como um dos fatores que também os fizeram consumir. Esse ato, segundo os autores, evidencia a influência de algum outro mecanismo que impulsiona as pessoas ao consumo, podendo ser a propaganda ou o baixo custo. Isso faz com que a reflexão sobre o ato fique para um segundo plano. As razões para exercer o ato de consumir são muitas, e nós, educadores, não conseguiremos atingir todas elas, mas podemos discutir com nossos estudantes as existências dessas possíveis razões e prepará-los para que possam consumir por uma ou outra razão, sabendo do porquê está fazen- do isso, na tentativa de atingir o consumo consciente. Refletir é repensar, e o repensar ocorre de maneira mais espontânea com o domínio do conhecimento sobre o assunto em discussão. (BRUM; HILLIG, 2010) “ “ 133Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D LEITURAS COMPLEMENTARES BAUMAN, S. Sobre educação e juventude. Rio de Janeiro: Zahar, 2013. Nesselivro, o autor, resgatando a modernidade líquida, aponta o papel da educação em ensinar a discernir informações e fornecer condições de navegar em um mundo multifacetado. BORNHAUSEN, R. L. As ervas do sítio: história, magia, culinária e cosmética. São Paulo: MAS, 1991. O título do livro indica o caminho trilhado pela autora, que escreve em uma lingua- gem acessível para leigos, resgatando desde a magia até a culinária de ervas utiliza- das em nosso cotidiano. Bornhausen faz uma pesquisa histórica do uso das plantas e relata essa pesquisa em seu livro. LORENZI, H.; MATOS, F. J. Plantas medicinais no Brasil: nativas e exóticas. 2. ed. Nova Odessa: Instituto Plantarum, 2008. Esse livro faz um registro acadêmico do uso medicinal de muitas plantas encontra- das no Brasil. MORALES, A. et. al. Educação ambiental e multiculturalismo. Ponta Grossa: Edito- ra UEPG, 2012. O livro resgata a importância da educação ambiental e de se pensar os confl itos ambien- tais dentro de práticas sociais, dialogando com a hibridização de culturas. 134 Com viver com ciência G U I A P N L D Considerações finais O objetivo desse livro foi lhe propiciar uma formação complementar ali- nhada com a BNCC para a prática no Ensino Médio. Para isso, trabalhamos inicialmente quatro dimensões separadas de modo a apresentar de forma didática aquilo que diz respeito a uma compreensão do seu lugar como pessoa e como profissional; da importância e das limitações do ensino centrado em uma só área de conhecimento; da contínua complexidade que se alcança sobre os objetos de estudo num trabalho interdisciplinar e dos parâmetros e formas de se avaliar nessas perspectivas. No segundo capítulo, procuramos ser mais detalhistas e didáticos, de modo a apontar as especificidades de cada uma dessas dimensões. No terceiro e no quarto capítulos, trabalhamos de modo a incorporar as dimensões nas atividades, buscando demonstrar como, na prática, está tudo interligado e constante- mente unido no nosso cotidiano escolar. As atividades deste livro não foram propostas para serem aplicadas em sala de aula, mas, caso queira utilizá-las, adaptando-as ao seu contexto esco- lar, fique à vontade. O mais importante é que você, PROFESSOR, se sinta mais preparado para criar suas próprias sequências didáticas, atento à sua sala de aula e às demandas do contexto em que você trabalha. Esperamos que você tenha se sentido mais capacitado para recriar o seu cotidiano, por isso resgatamos diversas estratégias e adicionamos várias sugestões de leituras complementares, de referências, e de espaços para visitas. Esperamos que tenha gostado desse livro, que ele tenha trazido momen- tos de reflexão e também de felicidade. Morin, ao se referir ao conhecimento e à figura do professor, nos diz que este precisa ter consigo: EROS – Amor doação. Resgatando Platão, afirma: Como Platão o disse há muito tempo: para ensinar é necessário o eros. O eros não se resume apenas ao desejo de conhecer e transmitir, ou ao mero prazer de ensinar, comunicar ou dar: é também o amor por aquilo que se diz e do que se pensa ser verdadeiro. É o amor que introduz a profissão pedagógica, a verdadeira missão do educador. (MORIN, 2013, p. 73). A alegria, a felicidade de estar sempre aprendendo e ensinando traz para nós esse eros. De fato, somos muito privilegiados por termos um cotidiano que é sempre diferente, desafiador e, mais que isso, estamos constante- mente mudando nesse aprendizado crescente. Esperamos que tenha compreendido como é importante para nossa pro- fissão que você conheça de onde fala, com quem fala, para quem fala, de quem fala, como fala e, finalmente, como, com sua ação, você constrói o presente e uma pitada de futuro. EXCELENTE JORNADA!!! 135Rosilene Siray Bicalho & Lúcia Maria Pôrto de Paula G U I A P N L D Referências Carta ao Professor BRASIL. Base Nacional Comum Curricular (BNCC): educação é a base. Brasília, DF: MEC/Consed/Undime, 2018. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/ images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_ site.pdf Acesso em: 1° dez. 2020. BRASIL. Câmara dos Deputados. 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Considerações finais MORIN, E. Educação e complexidade: os sete saberes e outros ensaios. São Paulo: Cortez, 2013. 140 Com viver com ciência G U I A P N L D G U I A P N L D Rosilene Siray Bicalho Lúcia Maria Pôrto de Paula LIVRO DO PROFESSOR Com viver com ciência C om viver com ciên cia R o sile n e Siray B icalh o • Lú cia M aria P o rto d e P au la BIOLOGIA Ciências da Natureza e suas Tecnologias LIVRO DE FORMAÇÃO CONTINUADA ISBN: 978-65-88618-03-5 9 786588 618035 G U I A P N L D Powered by TCPDF (www.tcpdf.org) http://www.tcpdf.org