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PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DO DIREITO AMBIENTAL 1 Princípio do ambiente ecologicamente equilibrado como direito fundamental da pessoa humana (Guilherme Baggio Costa; Larissa Helena Bolla da Silva) O ambiente compõe o quadro de direitos fundamentais de terceira geração inseridos nos textos constitucionais dos Estados Democráticos de Direito, tendo validade inata, estável e definitiva, equiparado ao valor universal da pessoa humana e da democracia. Esse princípio é entendido como uma extensão do direito à vida, considerando a defesa da existência humana, sua saúde e qualidade de vida (MILARÉ[footnoteRef:1], 2009). [1: MILARÉ, Édis. Direito do ambiente: a gestão ambiental em foco: doutrina, jurisprudência, glossário. 6. ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. 2009.] Quanto a abrangência e a conceituação deste direito, Daniel Rubens Cenci[footnoteRef:2] (2012) nos afirma que o princípio do ambiente ecologicamente equilibrado como direito fundamental da pessoa humana: [2: CENCI, Daniel Rubens. O direito ao ambiente ecologicamente equilibrado como direito fundamental da pessoa humana. In: BEDIN, Gilmar Antonio. (Org.). Cidadania, direitos Humanos e Equidade. Ijuí. Unijuí, 2012.] [...] refere-se à vivência e a busca de plenitude, na qual o ser humano usufrua de tudo o que for necessário para a existência. Todos os seres vivos necessitam serem abastecidos por elementos que garantam sua vida: solo, água, ar, sol, alimentos, etc. e se tais elementos existem e seus componentes estão em razoável equilíbrio, se a degradação e a poluição não alteram substancialmente suas características, a condição de vida poderá assim, ser compreendida como sadia. (CENCI, 2012, p.331). Segundo Milaré (2009), o direito ao ambiente ecologicamente equilibrado é considerado um novo direito fundamental, reconhecido pela Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano em 1972, expresso em seu primeiro princípio, reafirmado pela Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento de 1992, pela Carta da Terra de 1997 e já tutelada pela Constituição Federal, no art. 225: “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações” (BRASIL, 1988, art. 225[footnoteRef:3]). [3: BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 21 nov. 2021.] Afirma-se que é um princípio transcendental de todo o ordenamento jurídico ambiental, caracterizado como direito difuso, ostentando status de cláusula pétrea, conforme art. 60, parágrafo 4, inciso IV da Constituição Federal, como direitos e garantias fundamentais. Decorre desse princípio, a função do Estado de evitar riscos ambientais graves à vida e o dever de assegurar o acesso aos meios de sobrevivência a todos os indivíduos e povos (MILARÉ, 2009). 2 Princípio da solidariedade ou responsabilidade intergeracional (Beatriz Silvestro Provin; Luiza Vitória Vendruscolo Ribeiro) Marcelo Abelha Rodrigues (2021) explica que o princípio da solidariedade intergeracional é aquele que busca assegurar a solidariedade das presentes gerações em relação às futuras, para que também estas possam usufruir dos recursos naturais. Celso Antônio Pacheco Fiorillo (2020) traz em seu livro interpretação do Supremo Tribunal Federal (ADI 3.540), a qual diz que incumbe ao Estado e à própria coletividade a especial obrigação de defender e preservar, em benefício das presentes e futuras gerações, o direito ambiental, a saber, as relações jurídicas vinculadas ao meio ambiente natural, ao meio ambiente cultural, ao meio ambiente artificial (espaço urbano) e ao meio ambiente laboral. O adimplemento de referido encargo, que é irrenunciável na interpretação estabelecida pelo STF, representa a garantia de que não se instaurarão, no seio da coletividade, os graves conflitos intergeneracionais marcados pelo desrespeito ao dever de solidariedade, que a todos se impõe, na proteção desse bem essencial de uso comum das pessoas em geral (o bem ambiental). Luis Paulo Sirvinskas (2020), complementa nos termos já trazidos que a responsabilidade pela preservação do meio ambiente é também da coletividade. Todo cidadão tem o dever de preservar os recursos naturais por meio dos instrumentos colocados à sua disposição pela Constituição Federal e pela legislação infraconstitucional. A divisão da responsabilidade em cuidar do meio ambiente entre o Poder Público e a coletividade impõe-se especialmente neste momento tão importante da consciência ecológica internacional. A atuação do Poder Público pode exteriorizar-se por meio de seus órgãos sob os ditames da lei, mas o dever de proteger o meio ambiente já não se insere no campo do poder discricionário da Administração Pública. Édis Milaré alerta que as políticas públicas ambientais não estão restritas à Administração Pública; ao contrário, a iniciativa privada tem condições de fazer muitas coisas melhor do que a Administração Pública, definindo estratégias de ação, visto que o serviço público está atado por diferentes limitações. Ademais, o serviço público nem é suficiente para atender a tantas necessidades ambientais da sociedade nem pode monopolizar esse atendimento. A Constituição Federal quer proteger o meio ambiente para as presentes e futuras gerações como princípio da ética e da solidariedade entre elas. A continuidade da vida depende da solidariedade da presente geração no que diz com o destino das futuras gerações, criando-se o princípio da responsabilidade ambiental entre gerações ou responsabilidade intergeracional. REFERÊNCIAS SIRVINSKAS, Luís Paulo. Manual de direito ambiental. 18. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2020. FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Curso de Direito Ambiental Brasileiro. 20. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2020. RODRIGUES, Marcelo Abelha. Direito ambiental/ coord. Pedro Lenza. 8. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2021. 3 PRINCIPIO DA PREVENÇÃO E DA PRECAUÇÃO (Luciana Chalito Lepchack; Thaís Regina Belloni Duarte) A prevenção se trata de um princípio base do direito ambiental pelo fato ser mais eficiente e barato prevenir danos ambientais do que repará-los. A Convenção sobre Diversidade Biológica, que surgiu da Eco 92 e foi sancionada no direito positivado brasileiro por meio do Decreto 2.519, de 16.03.1998, e dispõe em seu preâmbulo ser “vital prever, prevenir e combater na origem as causas da sensível redução ou perda da diversidade biológica”. (BELTRÃO,2009). Vale ressaltar o fato de que, uma vez ocorrido qualquer dano ambiental, sua reparação efetiva é praticamente impossível. A extinção de uma espécie é um dano irreparável. Desmatamento de florestas causam lesões irreversível, pela impossibilidade de reconstituição da fauna e da flora e de todos os componentes ambientais. (RODRIGUES,2020) O dano ambiental é quase sempre irreversível, portanto, o vocábulo proteção utilizado pelo art. 225 da CF/88 não deve ser interpretado somente visando um sentido reparatório, mas principalmente no sentido da prevenção, justamente porque a ideia de proteção e preservação liga-se à conservação. Trata-se de princípio expresso no texto constitucional, como fica claro da leitura do caput do art. 225, que impõe à coletividade e ao Poder Público o dever de proteger e preservar o equilíbrio ecológico, para as presentes e futuras gerações. (RODRIGUES,2020) Para finalizar, o princípio da prevenção define que, ao se saber que alguma atividade apresenta riscos de danos ao meio ambiente, essa atividade não poderá ser desenvolvida; justamente porque, caso ocorra qualquer dano ambiental, sua reparação é praticamente impossível (BELTRÃO,2009). Algumas vezes confundida com a prevenção, a precaução denota um passo a mais na evolução do direito ambiental. A prevenção visa pressupor os danos que poderão ocorrer, enquanto a precaução traz a imprevisibilidade dos danos, dada a incertezacientifica dos processos ecológicos envolvidos (BELTRÃO,2009). Isso porque o princípio da precaução deve ser visto como um princípio que antecede a prevenção: sua preocupação não é evitar o dano ambiental, mas, antes disso, pretende evitar qualquer risco de dano ao meio ambiente. Dessa forma, nos casos em que é sabido que uma atividade pode causar danos ao meio ambiente, atua o princípio da prevenção, para impedir que o intento seja desenvolvido. Há, todavia, casos em que não se tem certeza se um empreendimento pode ou não causar danos ambientais. É justamente nessas hipóteses em que atua o princípio da precaução. (BELTRÃO,2009). Assim, quando houver dúvida científica da potencialidade do dano ao meio ambiente que qualquer conduta possa causar (por exemplo, liberação e descarte de organismo geneticamente modificado no meio ambiente, utilização de fertilizantes ou defensivos agrícolas) incide o princípio da precaução para proteger o meio ambiente de um risco futuro. (RODRIGUES,2020) Foi exatamente nesse sentido que a precaução ocupou o item 15 da declaração de princípios da Conferência das Nações Unidas realizada no Rio, em 1992: “De modo a proteger o meio ambiente, o princípio da precaução deve ser amplamente observado pelos Estados, de acordo com suas capacidades. Quando houver ameaça de danos sérios ou irreversíveis, a ausência de absoluta certeza científica não deve ser utilizada como razão para postergar medidas eficazes e economicamente viáveis para prevenir a degradação ambiental.” (RODRIGUES,2020) Informativo n. 418: “DANO. MEIO AMBIENTE. PROVA. INVERSÃO. (...) Dessa forma, a aplicação do princípio da precaução pressupõe a inversão do ônus probatório: compete a quem se imputa a pecha de ser, supostamente, o promotor do dano ambiental a comprovação de que não o causou ou de que não potencialmente lesiva a substância lançada no ambiente. (...)” (STJ, 2a Turma, REsp 1.060.753/SP, rel. Min. Eliana Calmon, julgado em 1o-12-2009). O ônus da prova, assim, é do proponente de um empreendimento. É ele quem deve provar que sua atividade não apresenta riscos ao meio ambiente. Referências BELTRÃO, Antônio F. G. Direito ambiental. 2. ed. rev. e atual - Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: MÉTODO, 2009. PLATIAU, Ana Flavia. A legitimidade da governança global ambiental e o princípio da precaução. Belo Horizonte, Del Rey, 2004, p. 406. RODRIGUES, Marcelo Abelha. Direito ambiental esquematizado. 7. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2020. 4 PRINCÍPIO DA CONSIDERAÇÃO DA VARIÁVEL AMBIENTAL NO PROCESSO DECISÓRIO DAS POLÍTICAS DE DESENVOLVIMENTO (Izabela Spezzia; Luana Carolina Felippi) Tal princípio entende ser necessário considerar a variável ambiental em decisões e atividades - do setor público ou privado - com potencial de impactar negativamente o meio ambiente. Também, recomenda a incrementação de atividades com impacto ambiental positivo. Os órgãos governamentais tomam decisões que interferem no sistema ambiental, portanto, devem ter em mente o impacto que causam nele e na sociedade. Segundo ele, “percebe-se a lógica de inserir o Estado com todos os seus elementos na lógica de proteção ambiental mais proativa, já que as decisões por eles tomadas influenciam o meio ambiente de forma mais intensa que se fosse uma única pessoa agindo” (POMPEU, 2015, p. 47). Ao levar em consideração o impacto ambiental de decisões, os órgãos estatais garantem “acesso equitativo das presentes e futuras gerações ao meio ambiente” (POMPEU, 2015, p. 47) e ajuda na garantia de efetividade de proteções ambientais. Tais ações, segundo ele, influenciam o desenvolvimento sustentável. Além, o Princípio ajuda a garantir o exposto no Art. 225 da Constituição Federal de 1988, que versa sobre o “direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações” (BRASIL, 1988). REFERÊNCIAS BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República. 1988b. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 21 nov 2021. POMPEU, Eduardo Henrique Puglia. O Poder do Estado como Consumidor e Fomentador do Desenvolvimento Sustentável. Belo Horizonte, 2015. Disponível em: https://domhelder.edu.br/wp-content/uploads/arquivos_dissertacoesdefendidas/3c51252b97103feb3cd23fe6f7858d8d.pdf. Acesso em: 21 nov 2021. 5 Princípio do controle do poluidor pelo Poder Público (Paulo Ricardo Bueno Kuerten; Vitor Carlos Bandeira Leal) Espraiado pelo Art. 225 da Constituição Brasileira, o princípio do controle do poluidor pelo Poder Público, versa sobre a competência do Estado do dever de fiscalizar e pastorear os particulares sobre à utilização sensata do meio ambiente, baseada no caráter educativo. Esse princípio também denominado Princípio do limite, segundo Édis Milaré “resulta das intervenções necessárias à manutenção, preservação e restauração dos recursos ambientais com vistas à sua utilização racional e disponibilidade permanente”. A atuação do poder público portanto, consiste por meio de seu poder de polícia administrativa, limitar a devastação do meio ambiente, afim de garantir um bem maior para a sociedade, conforme versa a Constituição Federal de 1988, no art. 225, V, parágrafo 1º: “Para assegurar a efetividade desse direito, incube ao poder público: V- controlar a poluição, a comercialização e o emprego de técnicas, métodos e substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade de ida e o meio ambiente.” Jurisprudência: APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO CIVIL PÚBLICA EM DEFESA AO MEIO AMBIENTE. MOVIMENTAÇÃO DE SOLO E SUBSOLO, DANO A VEGETAÇÃO NATIVA, DESVIO DE CURSO HÍDRICO, CANALIZAÇÃO, EM ÁREA DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE, SEM A DEVIDA AUTORIZAÇÃO. ALAGAMENTOS DECORRENTES DA DEGRADAÇÃO AMBIENTAL QUE OCASIONARAM PREJUÍZO2 À POPULAÇÃO LOCAL. SENTENÇA QUE CONDENOU A EMPRESA E SEU REPRESENTANTE LEGAL POR DANOS AMBIENTAIS, BEM COMO O MUNICÍPIO DE COLOMBO E INSTITUTO AMBIENTAL DO PARANÁ (IAP) POR OMISSÃO AO DEVER DE FISCALIZAR. DEMONSTRADOS O FATO, O DANO E O NEXO CAUSAL, RESTOU CONFIGURADA A REPONSABILIDADE CIVIL. CONSTATADA OMISSÃO DOS ENTES FISCALIZADORES. SENTENÇA MANTIDA NOS SEUS EXATOS TERMOS. RECURSOS DE APELAÇÃO 1, 2 E 3 CONHECIDOS E NEGADO PROVIMENTO.(4ª Câmara Cível, 0005587-10.2014.8.16.0028, Colombo, Relatora: Astrid Maranhão de Carvalho Ruthes, julgado em 10/05/2018) REFERÊNCIAS BRASIL, Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 23 nov. 2021. MILARÉ, Edis. Direito do Ambiente. 2. ed. Editora Revista dos Tribunais. São Paulo, 2001. 6 PRINCÍPIO DO POLUIDOR-PAGADOR (Camilo Fabris; Lucas Ubiali) O Princípio do Poluidor-Pagador tem fundamento na ideia de responsabilidade jurídica. Ao causar um dano, o causador do dano fica obrigado a repará-lo. A responsabilidade surge a partir do dano. Os Estados devem produzir mecanismos para coibir ações desse caráter, tendo em vista a garantia ao direito ao ambiente equilibrado, fundamental à dignidade da pessoa humana. Nesse sentido, o arcabouço legal brasileiro prescreve no art. 225 da Constituição da República diversos princípios que visam tornar consciente a atuação do homem na natureza, prevenindo impactos danosos (BRASIL, 1988; SIRVINKAS, 2016). O Princípio do Poluidor-Pagador aduz que o responsável pela poluição deve sofrer as sanções civis, penais e administrativas referentes ao dano que causar. A previsão infraconstitucional dele está na Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981. Segundo o inciso VII do art. 4º do referido Diploma: “A Política Nacional do Meio Ambiente visará: [...] VII – à imposição, ao poluidor e ao predador, da obrigação de recuperar e/ou indenizar os danos causados” (BRASIL, 1981, on-line), o que não significa dizer que se permite a poluição em troca da obrigação de recuperar e/ou indenizar. O objetivo é claramenteinibidor e pedagógico quando analisado em consonância com os demais princípios e com as intenções do constituinte e do legislador em garantir o direito ao ambiente equilibrado (interesse público) (SIRVINKAS, 2016). Por poluidor/predador deve-se entender qualquer pessoa física ou qualquer pessoa jurídica. Quanto à natureza da responsabilidade, impera no ordenamento jurídico brasileiro a responsabilidade objetiva, bastando a comprovação do dano, sendo desnecessária a demonstração de culpa do agente. O valor da indenização é depositado em espécie no fundo para o meio ambiente (SIRVINKAS, 2016) e a pretensão civil de reparação de dano ambiental é imprescritível[footnoteRef:4]. [4: .“RECURSO EXTRAORDINÁRIO. REPERCUSSÃO GERAL. TEMA 999. CONSTITUCIONAL. DANO AMBIENTAL. REPARAÇÃO. IMPRESCRITIBILIDADE. 1. Debate-se nestes autos se deve prevalecer o princípio da segurança jurídica, que beneficia o autor do dano ambiental diante da inércia do Poder Público; ou se devem prevalecer os princípios constitucionais de proteção, preservação e reparação do meio ambiente, que beneficiam toda a coletividade. 2. Em nosso ordenamento jurídico, a regra é a prescrição da pretensão reparatória. A imprescritibilidade, por sua vez, é exceção. Depende, portanto, de fatores externos, que o ordenamento jurídico reputa inderrogáveis pelo tempo. 3. Embora a Constituição e as leis ordinárias não disponham acerca do prazo prescricional para a reparação de danos civis ambientais, sendo regra a estipulação de prazo para pretensão ressarcitória, a tutela constitucional a determinados valores impõe o reconhecimento de pretensões imprescritíveis. 4. O meio ambiente deve ser considerado patrimônio comum de toda humanidade, para a garantia de sua integral proteção, especialmente em relação às gerações futuras. Todas as condutas do Poder Público estatal devem ser direcionadas no sentido de integral proteção legislativa interna e de adesão aos pactos e tratados internacionais protetivos desse direito humano fundamental de 3ª geração, para evitar prejuízo da coletividade em face de uma afetação de certo bem (recurso natural) a uma finalidade individual. 5. A reparação do dano ao meio ambiente é direito fundamental indisponível, sendo imperativo o reconhecimento da imprescritibilidade no que toca à recomposição dos danos ambientais. 6. Extinção do processo, com julgamento de mérito, em relação ao Espólio de Orleir Messias Cameli e a Marmud Cameli Ltda, com base no art. 487, III, b do Código de Processo Civil de 2015, ficando prejudicado o Recurso Extraordinário. Afirmação de tese segundo a qual É imprescritível a pretensão de reparação civil de dano ambiental (RE 654833 AC, Relator Min. Alexandre de Moraes, 2020)” (BRASIL, 2020, on-line).] REFERÊNCIAS BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 22 nov. 2021. BRASIL. Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981. Dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, seus fins e mecanismos de formulação e aplicação, e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/lei/l12244.htm. Acesso em: 22 nov. 2021. BRASIL. Supremo Tribunal Federal (Tribunal Pleno). Recurso Extraordinário 654833/AC. Recurso extraordinário. Repercussão geral. Tema 999. Constitucional. Dano ambiental. Reparação. Imprescritibilidade. Recorrente: Orleir Messias Cameli e outros (A/S). Recorrido: FUNAI – Fundação Nacional do Índio. Relator: Min. Alexandre de Moraes, 24 de junho de 2020. Disponível em: https://jurisprudencia.stf.jus.br/pages/search?classeNumeroIncidente=%22RE%20654833%22&base=acordaos&sinonimo=true&plural=true&page=1&pageSize=10&sort=_score&sortBy=desc&isAdvanced=true. Acesso em: 22 nov. 2021. SIRVINSKAS, Luís Paulo. Manual de direito ambiental. 16. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2016. 7 PRINCÍPIO DO USUÁRIO-PAGADOR (GREGORY MATHIAS FACHINELLO) O princípio do usuário-pagador serve de alicerce para o legislador, o administrador e os juízes para a escolha de caminhos que possam privilegiar a utilização sustentável dos recursos ambientais e tem fundamento no art. 225, caput, da CF/88, verbis: “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.” Aqui, nota-se um traço distintivo entre o princípio do usuário-pagador e o princípio do poluidor-pagador, eis que quanto ao primeiro, as pessoas que utilizam recursos naturais devem pagar pela sua utilização, mesmo que não haja poluição e em relação ao último exige-se a polu- ição, sendo que a quantia paga pelo empreendedor funciona também como sanção social, além de indenização O princípio do poluidor-pagador, tem uma natureza reparatória e punitiva, já o princípio do usuário-pagador possui uma natureza meramente remuneratória pela outorga do direito de uso de um recurso natural. Não há ilicitude, infração. No princípio do usuário-pagador há uma relação contratual, bilateral, em que o usuário paga para ter uma contraprestação, correspondente ao direito de exploração de um determi- nado recurso natural, conforme o instrumento de outorga do Poder Público competente. Ainda sobre a diferença entre os princípios do poluidor-pagador e do usuário-pagador: Sendo os bens ambientais de natureza difusa e sendo o seu titular a coletividade inde- terminada, aquele que usa o bem em prejuízo dos demais titulares passa a ser devedor desse ‘empréstimo’, além de ser responsável pela sua eventual degradação. É nesse sen- tido e alcance que deve ser diferenciado do poluidor-pagador. A expressão é diversa porque se todo poluidor é um usuário (direto ou indireto) do bem ambiental, nem todo usuário é poluidor. O primeiro tutela a qualidade do bem ambiental e o segundo a sua quantidade. Na verdade, o usuário-pagador obriga a arcar com os custos do ‘emprés- timo’ ambiental, aquele que beneficia do ambiente (econômica ou moralmente), mesmo que esse uso não cause qualquer degradação. Em havendo degradação, deve arcar também com a respectiva reparação. Nesta última hipótese, diz-se que o usuário foi poluidor. (RODRIGUES, 2005, p. 227). Neste diapasão, apesar do princípio do usuário-pagador estar relacionado e decorrer do princípio do poluidor-pagador, as diferenças entre ambos são nítidas, já que no caso do usuário- pagador a necessidade de contrapartida financeira pelo agente usuário do recurso ambiental não depende do cometimento de infração ambiental, ou mesmo da ocorrência de poluição. Por fim, a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal já acolheu expressamente a exis- tência do princípio do usuário-pagador, sendo este princípio mais uma ferramenta para a con- cretização do meio ambiente equilibrado, já que impõe responsabilidade pela utilização de re- cursos ambientais independentemente de condutas ilícitas, confirmando que a defesa do meio ambiente ecologicamente equilibrado é dever de todos. 8 Princípio da função sócio-ambiental da propriedade Gabriel e Ben Hur No §1º do art. 1.228 do Código Civil de 2002 há expressa previsão à função sócio-ambiental da propriedade, nos seguintes termos: Art. 1.228. § 1 o O direito de propriedade deve ser exercido em consonância com as suas finalidades econômicas e sociais e de modo que sejam preservados, de conformidade com o estabelecido em lei especial, a flora, a fauna, as belezas naturais, o equilíbrio ecológico e o patrimônio histórico e artístico, bem como evitada a poluição do ar e das águas. Ainda, este princípio encontra respaldo jurídico no Estatudo da Cidade (Lei 10.257/2001), na Lei da Mata Atlântica (Lei 11.428/2006) e no Código Florestal (Lei 12.651/12). Desse modo, a legislação visou estabelecer a função sócio-ambiental da propriedade perante o seu titular. Em sede de julgamento da ADI4.903/DF, o voto do relator Ministro Luiz Fux indica a função dúplice das relações jurídicas sócio-ambientais, “na medida em que consubstancia simultaneamente em direito e dever dos cidadãos, os quais paralelamente se posicionam, também de forma simultânea, como credores e como devedores da obrigação de proteção respectiva”. Assim, entende-se que a propriedade é um direito-dever fundamental previsto no art. 5º, XXIII, da CF/88, pois, conforme entende Sarlet e Fensterseifer (2021, p. 575), os inúmeros deveres acometem eventuais condutas praticadas pelo titular da propriedade, o que tem como objetivo limitar o seu exercício em termos sociais e ecológicos, como por exemplo, exploração racional da terra e dever de manutenção do equilíbrio ecológico. À vista disso, é dada proteção às áreas de preservação permanente (APP) e à reserva legal, institutos que vinculam os deveres da proteção ambiental ao exercício e fruição/uso/gozo do direito pelo proprietário (SARLET; FENSTERSEIFER; 2021, p. 578). Portanto, entende o Superior Tribunal de Justiça que o titular do direito de propriedade sofre limitações com o fim da não utilização econômica e manutenção da reserva legal e da área de preservaçao permanente, pois deve haver o equilíbrio ecológico da área que está sob o domínio do proprietário, não cabendo, inclusive, indenização decorrente de limitação sofrida de sua área por direito (SARLET; FENSTERSEIFER; 2021, p. 581). REFERÊNCIAS BRASIL. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 11 jan. 2002. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm. Acesso em: 22 nov. 2021. BRASIL. Supremo Tribunal Federal (Tribuanl Pleno). AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE: ADI 4.903/DF. Relator: Ministro Luiz Fux. DJ: 28 fev. 2018. Disponível em: http://portal.stf.jus.br/processos/downloadTexto.asp?id=4499306&ext=RTF. Acesso em: 22 nov. 2021. SARLET, I. W; FENSTERSEIFER, T. Curso de direito ambiental. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2021. 9 PRINCÍPIO DA PARTICIPAÇÃO COMUNITÁRIA (Eduarda Aparecida Alves Lopes; Geovana Daniele Ekert) Trata-se da ideia de participação do cidadão no debate, na formulação, na execução e na fiscalização das decisões ambientais e políticas públicas ambientais, em contribuição à democracia participativa, em vez de simplesmente submeter-se a elas (MELO, 2017). Assim, este princípio – que não é exclusivo do direito ambiental – enfatiza a cooperação entre Estado e sociedade (MILARÉ, 1998). O direito à participação tem ligação íntima com o direito à informação, uma vez que o cidadão precisa ter acesso à informação para poder participar de forma ativa e eficaz (MILARÉ, 1998). De acordo com Melo (2017) não se trata de uma faculdade, mas de um dever jurídico, uma vez que o art. 225[footnoteRef:5] da Constituição Federal impõe a obrigação de defesa do meio ambiente e sua preservação para as futuras gerações não só ao poder público, mas também à coletividade: [5: “Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. § 1º Para assegurar a efetividade desse direito, incumbe ao Poder Público: [...] VI - promover a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública para a preservação do meio ambiente;[...].” (BRASIL, 1988). ] Para Melo (2017), o princípio se manifesta de forma diferente em três esferas: na esfera administrativa, através de audiências e consultas públicas, da participação em órgãos colegiados (conselhos de meio ambiente) e do exercício do direito de petição aos órgãos públicos ambientais; na esfera legislativa, através do plebiscito, do referendo e da iniciativa popular de projeto de lei (previstos no art. 14 da Constituição Federal) e; na esfera judicial, através das ações constitucionais, como o mandado de segurança individual ou coletivo, a ação popular e o mandado de injunção. REFERÊNCIAS BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, [2021]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 19 nov. 2021. MELO, Fabiano. Direito ambiental. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2017. MILARÉ, Édis. Princípios fundamentais do direito do ambiente. Justitia. São Paulo, n. 181/184, v. 59, p. 134-151, jan./dez. 1998. 10 Princípio da cooperação entre os povos Acadêmicas: Ana Gabriela Bandeira e Izadora Schiavini A proteção do meio ambiente é questão fundamental que afeta o bem-estar dos povos e o desenvolvimento econômico do mundo inteiro, sendo o melhoramento um desejo dos povos de todo o mundo e um dever de todos os governos. Para tanto, incide no Direito Ambiental, o princípio da cooperação entre os povos, que abrange o auxílio na acepção de repassar os conhecimentos de tecnologia e de proteção do ambiente, que são alcançados pelos países mais avançados e que possuem condições econômicas de investir e obter resultados nas pesquisas ambientais, a países com menor capacidade nesse sentido. A origem desse princípio decorre do fato de que a os fenômenos poluidores geralmente extrapolam a fronteira de uma nação, afetando outros territórios, e, espraiando-se, a outros vizinhos ou ao ambiente global do Planeta. Nessa seara, é possível citar, a título de exemplo, exemplo, as consequências danosas advindas do efeito estufa. Assim, o princípio da cooperação entre os povos reforça a importância de um engajamento global e conjunto para a preservação ambiental, o que foi reiterado em diversos atos internacionais, como a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável de 2012 (Rio+20), Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP21), Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável formulado pela ONU. Referências FENSTERSEIFER, Tiago; SARLET, Ingo Wolfgang. Princípios do Direito Ambiental. São Paulo: Saraiva, 2014. VERDAN, Tauã Lima. O PRINCÍPIO DA COOPERAÇÃO ENTRE OS POVOS COMO SUSTENTÁCULO DE PRESERVAÇÃO DO MEIO AMBIENTE: A INSPIRAÇÃO DOS VALORES TRANSINDIVIDUAIS DOS DIREITOS DE TERCEIRA DIMENSÃO. Revista Científica Semana Acadêmica. Fortaleza, ano MMXIII, Nº. 000039, 10/07/2013. Disponível em: https://semanaacademica.org.br/artigo/o-principio-da-cooperacao-entre-os-povos-como-sustentaculo-de-preservacao-do-meio-ambiente. Acesso em: 21 nov. 2021. 11 UNIVERSIDADE ESTADUAL DO OESTE DO PARANÁ Acadêmicas: Géssica Taís Cataneo Drei e Mariana Cantelmo Princípio do desenvolvimento sustentável · De acordo com Frederico Amado (2015), surge em meados de 1980, através do Relatório de Broundtland, documento da ONU posteriormente intitulado “Nosso Futuro Comum”. Foi transformado em princípio ao ser consagrado pela ECO-92. · Está previsto implicitamente nos artigos 225 c/c 170, VI, da CF/88 e expressamente no princípio nº 04 da Declaração do Rio sobre meio ambiente e desenvolvimento, in verbis: “Para se alcançar o desenvolvimento sustentável, a proteção ambiental constituirá parte integrante do processo de desenvolvimento e não pode ser considerada isoladamente deste”. · Conceito de desenvolvimento sustentável de acordo com Luís Paulo Sirvinskas (2018, p. 114): Tal princípio procura conciliar a proteção do meio ambiente com o desenvolvimento socioeconômico para a melhoria da qualidade de vida do homem. É a utilização racional dos recursos naturais não renováveis, também conhecido como meio ambiente ecologicamente equilibrado ou ecodesenvolvimento. Conforme o referido autor, o termo desenvolvimento está ligado à economia e a sustentabilidade busca conciliar as necessidades econômicas e sociais com a necessidade de preservação do ambiente (SIRVINSKAS, 2018). · Objetivos do desenvolvimento sustentável conforme Sirvinskas (2018): 1. Melhoria da qualidade de vida, preservando a capacidadedo ecossistema; 1. Manutenção de todas as formas de vida na Terra; 1. Diminuição da miséria, da exclusão social e econômica, do consumismo, do desperdício e da degradação ambiental (objetivos sociais, que vão além da vertente econômico-ambiental). · Todos os impactos da atividade humana devem ser considerados para analisar esse princípio. · É aplicado apenas aos recursos naturais renováveis (como florestas e animais). REFERÊNCIAS: AMADO, Frederico. Resumo direito ambiental: esquematizado. 3. ed. rev. e atual. Rio de Janeiro: Forense. São Paulo: MÉTODO, 2015. Disponível em: https://forumturbo.org/wp-content/uploads/wpforo/attachments/3967/8-Resumo-de-Direito-Ambiental-Esquematizado-Frederico-Amado-2015.pdf. Acesso em: 18 nov. 2021. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Diário Oficial da União. Brasília, 05 de outubro de 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 18 nov. 2021. RIO DE JANEIRO. Declaração do Rio de Janeiro sobre meio ambiente e desenvolvimento. Rio de Janeiro, junho de 1992. Disponível em: https://cetesb.sp.gov.br/proclima/wp-content/uploads/sites/36/2013/12/declaracao_rio_ma.pdf. Acesso em: 18 nov. 2021. SIRVINSKAS, Luís Paulo. Manual de Direito Ambiental. 16. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2018. Disponível em: https://forumturbo.org/wp-content/uploads/wpforo/attachments/2/2602-Manual-de-Direito-Ambiental-Lus-Paulo-Sirvinskas-2018.pdf. Acesso em: 18 nov. 2021. 12 Princípio da natureza pública da proteção ambiental (Felipe Guilherme Dallabrida) Também é chamado de Princípio da obrigatoriedade da proteção ambiental. É um princípio com fundamento constitucional, em que o Poder Público deve proteger e preservar o meio ambiente para as futuras gerações. Pois todos os indivíduos tem direito a um ambiente equilibrado, cabendo ao Poder Público o dever constitucional de garantia desse direito. Os meios de proteção desse bem que é direito de todos estão presentes no artigo 225 da Constituição Federal. O Poder Público pode agir para melhorar toda a situação ambiental, seja por meio de políticas para a redução do impacto, pela realização de audiências que envolvam a população buscando a educação ambiental, até mesmo a revitalização de certos ambientes públicos para o uso da população. Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá- lo para as presentes e futuras gerações. § 1º Para assegurar a efetividade desse direito, incumbe ao Poder Público: I - preservar e restaurar os processos ecológicos essenciais e prover o manejo ecológico das espécies e ecossistemas; II - preservar a diversidade e a integridade do patrimônio genético do País e fiscalizar as entidades dedicadas à pesquisa e manipulação de material genético; III - definir, em todas as unidades da Federação, espaços territoriais e seus componentes a serem especialmente protegidos, sendo a alteração e a supressão permitidas somente através de lei, vedada qualquer utilização que comprometa a integridade dos atributos que justifiquem sua proteção; IV - exigir, na forma da lei, para instalação de obra ou atividade potencialmente causadora de significativa degradação do meio ambiente, estudo prévio de impacto ambiental, a que se dará publicidade; V - controlar a produção, a comercialização e o emprego de técnicas, métodos e substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente; VI - promover a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública para a preservação do meio ambiente; VII - proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade. CONGRESSO ACADÊMICO DE DIREITO CONSTITUCIONAL, 1, Porto Velho/RO. Anais. O princípio da natureza pública da proteção ambiental e sua eficácia na prevenção de crimes ambientais no município de Porto Velho/RO. Porto Velho/RO: 23 jun. 2017, p. 573-593. Disponível em: https://www.fcr.edu.br/ojs/index.php/anaiscongdireitoconstitucional/article/view/172/193. Acesso em: 23 nov. 2021. 13 PRINCÍPIO DA UBIQUIDADE (Carolina Weissheimer; Heloisa Morandi Kuhnen) O princípio da ubiquidade, de acordo com Fiorillo (2020, p. 62), demonstra que “o objeto de proteção do meio ambiente, localizado no epicentro dos direitos humanos, deve ser levado em consideração toda vez que uma política, atuação, legislação sobre qualquer tema, atividade, obra etc. tiver que ser criada e desenvolvida”. Dessa forma, o autor considera que tudo que o indivíduo deseja fazer, criar ou desenvolver deveria ser analisado com um viés de proteção ao meio ambiente. Sendo necessário, primeiramente, realizar uma consulta para concluir se existe a possibilidade de degradação ambiental. Atuar contra os danos ambientais será mais efetivo se a preocupação e cuidado iniciar no âmbito local, para que sejam combatidas as causas e não apenas os efeitos da degradação ambiental. FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Curso de direito ambiental brasileiro. São Paulo: Saraiva, 2020. 14 PRINCÍPIO DO NÃO RETROCESSO OU PROIBIÇÃO DO RETROCESSO (Jessica Zauza de Oliveira; Vinicius Francisco Sinhorin) O presente princípio surge como impedimento para que novos atos e leis atinjam e desconstituam direitos e conquistas ambientais. Portanto, há a vedação do retorno à estágios anteriores que prejudiquem ou alterem a proteção de recursos naturais por exemplo, quando houver constituído status ambiental. Segundo o autor, o princípio da vedação do retrocesso representa importante ferramenta para garantir a sobrevivência das diversas formas de vida existentes. Nesse sentido, se aberta exceções, por certo se permitiria a destruição e a degradação do meio ambiente (SIRVINSKAS, 2018, p. 118). Desse modo, entende-se que a legislação ambiental deve ser interpretada de modo estrito ou restrito, optando-se sempre pela irretroatividade da lei em caso de dúvida na apreciação judicial, utilizando a irretroatividade apenas em último caso, mediante fundamentação em razões extraordinárias de ordem pública e desde que não cause prejuízo à coletividade e ao patrimônio ecológico. (SIRVINSKAS, 2018, p. 119). Outrossim, segundo o Ministro relator do STJ, Herman Benjamin, no julgamento do Agravo de Recurso Especial n.850.994, o Código Florestal não deve retroagir visando atingir ato jurídico perfeito, direitos ambientais adquiridos e a coisa julgada, muito menos para reduzir o patamar de proteção de ecossistemas frágeis e espécies ameaçadas de extinção, sem haver a devida e necessária compensação ambiental. Sob pena de violar o limite constitucional intransponível da incumbência do Estado, que deve garantir a preservação e restauração dos processos ecológicos essenciais (SIRVINSKAS, 2018, p. 119). À vista da existência de tal princípio, tanto o indivíduo como a coletividade presente e futura devem garantir-se contra a retroatividade de lei posterior aos direitos ambientais adquiridos (SIRVINSKAS, 2018, p. 120). REFERÊNCIAS SIRVINSKAS, Luís Paulo. Princípio do não retrocesso ou da proibição do retrocesso. In: SIRVINSKAS, Luís Paulo. Manual de direito ambiental. 16 ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2018, p. 118-120. 15 PRINCÍPIO DA SENCIÊNCIA (Fernanda Bizinella; Matheus da Silva Carvalho) Este princípio foi concebido pelo maior especialista do direito do animal no Brasil, Laerte Fernando Levai, que estuda a sensibilização e a consciência dos animais. Parte-se da compreensão de que os animais são sujeitos de Direito e não apenas objetos sob tutela do Estado. Sujeitos capazes de sentir dor e prazer, medo e felicidade. Sencientes são “todos os organismos vivos que, além de apresentarem reações orgânicas ou físico-químicas aos processos que afetam o seu corpo (sensibilidade), percebem estas reações como estados mentais positivosou negativos (consciência)”. (SIRVINSKAS, 2018, p. 121) De acordo com Luís Paulo Sirvinskas (2018), a principal diferença entre o homem e os animais é de aparência e não de essência, desse modo os animais possuem, assim como os seres humanos, sensibilização. Nesse sentido “Peter Singer sugeriu dois indicadores do fato de que animais não humanos são capazes de sofrer, quais sejam: comportamento do ser — se ele se contorce, emite gritos, tenta fugir da dor e assim por diante; e semelhança do seu sistema nervoso com o nosso”. (SIRVINSKAS, 2018, p. 122) Segundo o autor, não há mais dúvidas sobre a sensibilização e consciência dos animais. A ciência, através de diversos cientistas de renome no mundo, comprovou esses fatos, e não mais se pode alegar o seu desconhecimento. Desse modo, o que resta é a criação de leis protetivas desses seres vivos em desenvolvimento. Nesse sentido, a recente decisão do Egrégio Tribunal de Justiça do Estado do Paraná corrobora a aplicabilidade do referido princípio. No Agravo de Instrumento de nº 0059204-56.2020.8.16.0000, decidiu-se pelo reconhecimento da capacidade de cães em serem parte em processo. O relator do recurso, Marcel Guimarães Rotoli de Macedo, destacou na decisão: “Os animais, enquanto sujeitos de direitos subjetivos, são dotados da capacidade de ser parte em juízo (personalidade judiciária), cuja legitimidade decorre não apenas do direito natural, como também do direito positivo estatal.” Por conseguinte, o desembargador D’Artagnan destacou: “Reconhece-se a importância do animal não humano como indivíduo, vez que seu sofrimento, físico ou mental, importa por si só, como ser senciente que reconhecidamente é, tanto pela legislação como pela doutrina e jurisprudência, carecendo, portanto, de amparo a sua dignidade assim como proteção a qualquer crueldade, em respeito ao mandamento constitucional.” (TJ-PR – Cascavel, 0059204-56.2020.8.16.0000 (Acórdão), Rel: Marcel Guimarães, 7ª C. Cível – Dje: 23/09/2021.) Fundamentações que reconheceram a tese da defesa de que pessoa não é sinônimo de ser humano e personalidade não é atributo exclusivo do ser humano. A parte autora alegou, ainda, que o conceito de pessoa, para o Direito, é o ente que possui personalidade jurídica e que a personalidade jurídica é a aptidão ou a capacidade de um ente para possuir direitos e deveres, não se limitando aos seres humanos. REFERÊNCIAS SIRVINSKAS, Luís Paulo. Manual de direito ambiental. 16. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2018. BRASIL, TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO PARANÁ (7ª C. Cível). Agravo de Instrumento 00592045620208160000: Ação de reparação de danos. Decisão que julgou extinta a ação, sem resolução de mérito, em relação aos cães rambo e spike, ao fundamento de que estes não detêm capacidade para figurarem no polo ativo da demanda. Cascavel, Relator: Marcel Guimarães Rotoli de Macedo, DJe 23/09/2021. Disponível em: https://tj-pr.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/1287168301/agravo-de- instrumento-ai-592045620208160000-cascavel-0059204-5620208160000- acordao/inteiro-teor-1287168313. Acesso em: 22 nov. 2021. 16 Princípio do Equilíbrio (Kaiferson Guilherme Rufatto / Volmir Mafioletti Pela complexidade da estrutura da ciência do Direito, devido sua estruturação em bases múltiplas onde temos as normas positivadas como apenas uma parte da ordem jurídica. Temos, ainda, um papel de extrema importância para a proteção do meio ambiente, onde é aplicada de forma concreta a norma jurídica, a jurisprudência. Neste contexto surgem os princípios jurídicos do Direito Ambiental, estes podendo ser implícitos ou explícitos, sendo ambos são dotados de positividade e devem ser levados em conta pelos aplicados, em todas as esferas da administração pública. Tais princípios devem ser buscados no caso do nosso ordenamento jurídico, na Constituição e nos fundamentos éticos que regem as relações entre humanos, para que todos possam ter uma qualidade de vida digna, no nosso caso, destacaremos o Princípio do Equilíbrio. Bessa Antunes aponta-o: É o princípio pelo qual devem ser pesadas todas as implicações de uma intervenção no meio ambiente, buscando-se adotar a solução que melhor concilie um resultado globalmente positivo. (2005, p.37) Esse princípio é o qual os aplicadores da política ambiental o do Direito Ambiental devem sopesar as consequências da adoção de uma determinada medida, na medida que ela possa ser útil a sociedade e de causar a menor consequência danosa ao meio ambiente. Já para Luís Paulo Sirvinskas (2011, p. 107) Há necessidade de analisar todas as consequências possíveis da intervenção no meio ambiente, ressaltando os benefícios que essa medida pode trazer de útil ao ser humano sem sobrecarregar sobremaneira o meio ambiente. Em outras palavras, devem ser sopesadas todas as implicações do projeto a ser implantado na localidade, tais como: aspectos ambientais, aspectos sociais, aspectos econômicos, etc. Nenhum aspecto pode sobrepor-se a outro, ou seja, o conjunto dessa análise deve ser favorável ao meio ambiente. A legislação ambiental deve ser aplicada de acordo com as consequências econômicas, as consequências sociais, devendo sempre pender ao lado ambiental, na busca sempre de um meio ambiente equilibrado. É o princípio pelo qual os aplicadores do direito ambiental devem examinar, pesar, as consequências previsíveis da adoção de uma determinada medida, de forma que esta seja útil à comunidade e não prejudicar os ecossistemas e à vida humana. Porém, para a aplicação de tal princípio, é de extrema necessidade a conscientização social de que o meio ambiente necessita de uma atenção prioritária, não podendo uma falsa ideia de progresso ser superior a proteção ambiental. Nesse contexto entra o Princípio do Equilíbrio, onde deve-se buscar uma forma de pesar todas as implicações de uma intervenção no meio ambiente, buscando adotar soluções que melhor venham a conciliar um resultado globalmente positivo esperado. É o custo benefício que todos, em matéria de meio ambiente devemos analisar antes de tomarmos qualquer decisão a respeito do tema. Portanto, este princípio é de suma importância ao meio ambiente ecologicamente protegido, pois se cada ação tivesse estas medidas de equilíbrio, nosso planeta estaria em melhores condições. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANTUNES, Paulo de Bessa. Direito Ambiental. 11. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2008. SIRVINSKAS, Luís Paulo. Manual de direito ambiental. São Paulo, Saraiva, 2011. 17 eduardo henrique diba e herielton hulse 5º ano – direito unioeste PRINCÍPIO DO LIMITE NO DIREITO AMBIENTAL O princípio do limite direciona-se à Administração Pública para que essa, no uso de suas atribuições, fixe parâmetros a serem observados no que tange à emissões de partículas, ruídos, sons, e toda forma de poluição, em geral, para que se promova o bem-estar e o desenvolvimento sustentável. De acordo com Paulo Bessa Antunes (2005, p.34, apud FARIAS, 2006), a manifestação mais palpável da aplicação do princípio do limite ocorre com o estabelecimento de padrões de qualidade ambiental concretizados na forma de limites de emissões de partículas, de limites aceitáveis de presença de determinadas substâncias na água etc. Tal princípio encontra-se disposto no art. 225, §1º, V, da Constituição da República Federativa do Brasil, e no art. 2º, da Lei nº 6.938/81, in verbis: Art. 225. [...] § 1º Para assegurar a efetividade desse direito, incumbe ao Poder Público: [...] V - controlar a produção, a comercialização e o emprego de técnicas, métodos e substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente; [...] Art. 2º. A Política Nacional do Meio Ambiente tem por objetivo a preservação, melhoria e recuperação da qualidade ambiental propícia à vida, visando assegurar, no País, condições ao desenvolvimento sócioeconômico, aos interesses da segurança nacional e à proteção da dignidade da vida humana, atendidos os seguintes princípios: [...] V - controle e zoneamento das atividades potencial ou efetivamente poluidoras; [...] Dessa forma, nostermos do referido princípio, somente serão permitidas as condutas cujo impacto ambiental não extrapole os limites estabelecidos por lei ou ato normativo. Como exemplo próximo da aplicabilidade do princípio do limite, a Lei municipal nº 4.258/2014, de Francisco Beltrão/PR, prevê, em seu art. 1º: Art. 1º Fica proibida a execução de ruídos, vibrações, sons excessivos ou incômodos de qualquer natureza, produzidos por qualquer forma, inclusive os gerados e propagados por veículo, que contrariem os níveis máximos de intensidade fixados por esta Lei ou que caracterize perturbação ao sossego e o bem estar públicos. Parágrafo único. As vibrações serão consideradas prejudiciais quando ocasionarem ou puderem ocasionar danos materiais, à saúde, ao bem estar público ou ao sossego dos cidadãos. A referida Lei traz, ainda, uma tabela com os parâmetros máximos de execução de ruídos, medidos em decibéis (dB): (Fonte: FRANCISCO BELTRÃO. Lei nº 4.258/2014). Outros exemplos da aplicabilidade prática do princípio do limite, a níveis internacionais, são o Protocolo de Kyoto e o superveniente Acordo de Paris, os quais possuem como objetivo a redução da emissão de gases que causam o efeito estufa e a criação dos créditos de carbono como medida de incentivo. REFERÊNCIAS BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF, 1998. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm. Acesso em: 18 nov. 2021. _______. Lei nº 6.938/1981, de 31 de agosto de 1981. Dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, seus fins e mecanismos de formulação e aplicação, e dá outras providências. Brasília, DF, 1981. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L6938compilada.htm> Acesso em 18 nov. 2021. FARIAS, Talden Queiroz. Princípios gerais do direito ambiental. 2006. Disponível em: <https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-ambiental/principios-gerais-do-direito-ambiental/>. Acesso em 18 nov. 2021. FRANCISCO BELTRÃO. Prefeitura Municipal. Lei municipal nº 4.258, de 20 de novembro de 2014. Dispõe sobre ruídos urbanos, proteção do bem estar e do sossego público no âmbito do Município de Francisco Beltrão/PR, e dá outras providências. Francisco Beltrão, PR, 2014. Disponível em: <https://leismunicipais.com.br/a/pr/f/francisco-beltrao/lei-ordinaria/2014/425/4258/lei-ordinaria-n-4258-2014-dispoe-sobre-ruidos-urbanos-protecao-do-bem-estar-e-do-sossego-publico-no-ambito-do-municipio-de-francisco-beltrao-pr-e-da-outras-providencias>. Acesso em 18 nov. 2021.