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Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2022.2 Página | 1 Ginecologia & Obstetrícia SP 2.3: FISIOLOGIA DA GESTAÇÃO 1) DESCREVER A FISIOLOGIA DA GRAVIDEZ E AS PRINCIPAIS MODIFICAÇÕES GRAVÍDICAS LOCAIS E GERAIS DO ORGANISMO MATERNO; MATURAÇÃO E FERTILIZAÇÃO DO ÓVULO Enquanto ainda no ovário, o óvulo se encontra no estágio de oócito primário. Pouco antes de ser liberado do folículo ovariano, seu núcleo se divide por meiose, e o primeiro corpo polar é expelido do núcleo do oócito. O primeiro oócito, em seguida, torna-se o segundo oócito. Nesse processo, cada um dos 23 pares de cromossomos perde um de seus componentes, que se incorpora no corpo polar que é expelido, deixando 23 cromossomos sem par no oócito secundário. É nesse momento que o óvulo, ainda no estágio de oócito secundário, é expelido para a cavidade abdominal. Em seguida, ele penetra quase imediatamente a terminação fimbriada de uma das trompas de Falópio. A Entrada do Óvulo na Trompa de Falópio (Tuba Uterina). Quando ocorre a ovulação, o óvulo, em conjunto com centena ou mais de células anexas da granulosa que constituem a coroa radiada, é expelido diretamente para a cavidade peritoneal e deve, então, entrar em uma das trompas de Falópio (também denominadas tubas uterinas) para chegar à cavidade uterina. As terminações fimbriadas de cada trompa de Falópio repousam naturalmente ao redor dos ovários. As superfícies internas dos tentáculos fimbriados são revestidas de epitélio ciliado, e os cílios são ativados pelo estrogênio ovariano, que faz com que eles batam na direção da abertura, ou óstio, da trompa de Falópio envolvida. Na verdade, é possível ver uma corrente de líquido fluindo lentamente na direção do óstio. Assim, o óvulo entra em uma das trompas de Falópio. Embora se possa suspeitar que muitos óvulos não consigam entrar nas trompas de Falópio, estudos de concepção sugerem que até 98% dos óvulos tenham sucesso nessa tarefa. Na verdade, em alguns casos registrados, mulheres que tiveram um ovário e a trompa de Falópio oposta removidos deram à luz vários filhos com relativa facilidade de concepção, demonstrando assim que os óvulos conseguem entrar até mesmo na trompa de Falópio oposta. A Fertilização do Óvulo. Depois que o homem ejacula sêmen na vagina da mulher durante a relação sexual, alguns espermatozoides são transportados, de 5 a 10 minutos, na direção ascendente da vagina e através do útero e das trompas de Falópio até as ampolas das trompas de Falópio, próximas às terminações ovarianas das trompas. Esse transporte dos espermatozoides é auxiliado por contrações do útero e das trompas de Falópio, estimuladas por prostaglandinas no líquido seminal masculino e também por ocitocina liberada pela hipófise posterior da mulher durante o seu orgasmo. De quase metade dos bilhões de espermatozoides depositados na vagina, alguns milhares conseguirão chegar a cada ampola. A fertilização do óvulo ocorre normalmente na ampola de uma das trompas de Falópio, pouco depois de o espermatozoide e o óvulo entrarem na ampola. Entretanto, antes que o espermatozoide consiga entrar no óvulo, ele precisa primeiro penetrar as múltiplas camadas de células da granulosa anexadas ao exterior do óvulo (a coroa radiada) e, em seguida, se fixar e penetrar a zona pelúcida que circunda o óvulo. Uma vez que o espermatozoide tenha entrado no óvulo (que ainda se encontra no estágio de desenvolvimento de oócito secundário), o oócito se divide mais uma vez, formando o óvulo maduro, mais um segundo corpo polar, que é expelido. O óvulo maduro ainda carrega em seu núcleo (agora denominado pronúcleo feminino) 23 cromossomos. Um desses cromossomos é o cromossomo feminino, conhecido como cromossomo X. Nesse ínterim, o espermatozoide fertilizador também passa por alterações. Ao entrar no óvulo, sua cabeça incha, formando o pronúcleo masculino. Posteriormente, os 23 cromossomos sem pares do pronúcleo masculino e os 23 cromossomos sem pares do pronúcleo feminino alinham-se para formar o complemento final de 46 cromossomos (23 pares) no ovo fertilizado ou zigoto. Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2022.2 Página | 2 O QUE DETERMINA O SEXO DO FETO QUE É CRIADO? Depois da formação do espermatozoide maduro, metade deles carrega em seu genoma o cromossomo X (o cromossomo feminino) e metade carrega o cromossomo Y (o cromossomo masculino). Portanto, se um cromossomo X de um espermatozoide combinar-se com o cromossomo X de um óvulo, gerando a combinação XX, nascerá uma criança do sexo feminino. Se o cromossomo Y do espermatozoide se combinar com o cromossomo X do óvulo, gerando a combinação XY, nascerá uma criança do sexo masculino. O TRANSPORTE DO OVO FERTILIZADO NA TROMPA DE FALÓPIO Depois de ocorrida a fertilização, normalmente são necessários outros 3 a 5 dias para o transporte do ovo fertilizado pelo restante da trompa de Falópio até a cavidade uterina. Esse transporte é feito, basicamente, pela fraca corrente de líquido na trompa, decorrente da secreção epitelial mais a ação do epitélio ciliado que reveste a trompa; os cílios sempre batem na direção do útero. Contrações fracas da trompa de Falópio também podem ajudar a passagem do ovo. As trompas de Falópio são revestidas de superfície criptoide rugosa, que impede a passagem do óvulo a despeito da corrente de líquido. Além disso, o istmo da trompa de Falópio (os últimos 2 centímetros antes da entrada da trompa no útero) permanece espasticamente contraído por cerca dos primeiros três dias após a ovulação. Depois desse tempo, a progesterona secretada cada vez mais rapidamente pelo corpo lúteo ovariano primeiro promove mais receptores de progesterona nas células do músculo liso da trompa de Falópio; em seguida, a progesterona ativa os receptores, exercendo um efeito de relaxamento tubular que permite a entrada do ovo no útero. Esse transporte lento do ovo fertilizado pela trompa de Falópio permite a ocorrência de diversos estágios de divisão celular antes que ele — agora denominado blastocisto, com cerca de 100 células — entre no útero. Durante esse tempo, as células secretoras da trompa de Falópio produzem grande quantidade de secreções usadas para nutrir o blastocisto em desenvolvimento. A IMPLANTAÇÃO DO BLASTOCISTO NO ÚTERO Depois de atingir o útero, o blastocisto em desenvolvimento, geralmente, permanece na cavidade uterina por mais 1 a 3 dias antes de se implantar no endométrio; assim, a implantação normalmente ocorre em torno do quinto ao sétimo dia depois da ovulação. Antes da implantação, o blastocisto obtém sua nutrição das secreções endometriais uterinas, denominadas “leite uterino”. A implantação resulta da ação de células trofoblásticas que se desenvolvem na superfície do blastocisto. Essas células secretam enzimas proteolíticas que digerem e liquefazem as células adjacentes do endométrio uterino. Parte do líquido e dos nutrientes liberados é transportada ativamente pelas mesmas células trofoblásticas no blastocisto, dando mais sustento ao crescimento. Uma vez tendo ocorrido a implantação, as células trofoblásticas e outras células adjacentes (do blastocisto e do endométrio uterino) proliferam rapidamente, formando a placenta e as diversas membranas da gravidez. NUTRIÇÃO INICIAL DO EMBRIÃO A progesterona secretada pelo corpo lúteo ovariano durante a última metade de cada ciclo sexual mensal tem efeito no endométrio uterino, convertendo as células do estroma endometrial em grandes células inchadas contendo quantidades extras de glicogênio, proteínas, lipídios e mesmo de alguns minerais necessários ao desenvolvimento do concepto (o Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2022.2 Página | 3 embrião e suas partes adjacentes ou membranas associadas). Então,quando o concepto se implanta no endométrio, a secreção contínua de progesterona faz com que as células endometriais inchem ainda mais e armazenem mais nutrientes. Essas células são agora chamadas células decíduas, e a massa total de células é denominada decídua. À medida que as células trofoblásticas invadem a decídua, digerindo-a e embebendo-a, os nutrientes armazenados na decídua são usados pelo embrião para crescimento e desenvolvimento. Na primeira semana após a implantação, esse é o único meio pelo qual o embrião consegue obter nutrientes; ele continua a obter pelo menos parte da sua nutrição, dessa forma, por até oito semanas, embora a placenta também comece a prover nutrição depois do 16 o dia após a fertilização (pouco mais de uma semana depois da implantação). O período trofoblástico da nutrição, gradualmente vai dando lugar à nutrição placentária. ANATOMIA E FUNÇÃO DA PLACENTA Enquanto os cordões trofoblásticos dos blastocistos estão se ligando ao útero, capilares sanguíneos crescem nos cordões do sistema vascular do novo embrião em formação. Em torno de 21 dias após a fertilização, o sangue também começa a ser bombeado pelo coração do embrião humano. Simultaneamente, sinusoides sanguíneos, supridos de sangue materno, desenvolvem-se em torno das partes externas dos cordões trofoblásticos. As células trofoblásticas enviam cada vez mais projeções, que se tornam vilosidades placentárias nas quais capilares fetais crescem. Assim, as vilosidades, carregando sangue fetal, são rodeadas por sinusoides que contêm sangue materno. Observe que o sangue fetal flui pelas duas artérias umbilicais, depois para os capilares das vilosidades e, finalmente, volta pela única veia umbilical para o feto. Ao mesmo tempo, o sangue materno flui de suas artérias uterinas para os grandes sinusoides maternos que circundam as vilosidades e, em seguida, volta para as veias uterinas da mãe. Há relação entre o sangue fetal de cada vilosidade placentária fetal e o sangue materno que circunda as partes exteriores da vilosidade na placenta totalmente desenvolvida. A área superficial total de todas as vilosidades da placenta madura é de apenas poucos metros quadrados — muitas vezes menor do que a área da membrana pulmonar nos pulmões. Contudo, nutrientes e outras substâncias atravessam essa membrana placentária basicamente por difusão, mais ou menos do mesmo modo como a difusão que ocorre através das membranas alveolares dos pulmões e das membranas capilares de outras partes do corpo. PERMEABILIDADE PLACENTÁRIA E CONDUTÂNCIA POR DIFUSÃO NA MEMBRANA A principal função da placenta é proporcionar difusão de nutrientes e oxigênio do sangue materno para o sangue do feto e difusão de produtos de excreção do feto de volta para a mãe. Nos primeiros meses de gravidez, a membrana placentária ainda é espessa porque não se desenvolveu completamente. Por conseguinte, sua permeabilidade é baixa. Além disso, a área superficial é pequena porque a placenta ainda não cresceu significativamente. Portanto, a condutância total por difusão é mínima, no primeiro momento. Por sua vez, mais tarde na gravidez, a permeabilidade aumenta devido ao afinamento das camadas de difusão da membrana e porque a área superficial se expande em muitas vezes, representando grande elevação na difusão placentária. Raramente, ocorrem “rupturas” na membrana placentária, o que permite que as células fetais passem Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2022.2 Página | 4 para a mãe, ou até menos comumente que as células maternas passem para o feto. Felizmente, é raro o feto sangrar gravemente na circulação materna devido a uma ruptura da membrana placentária. A Difusão de Oxigênio Através da Membrana Placentária. Quase os mesmos princípios de difusão de oxigênio através da membrana pulmonar são aplicados à difusão de oxigênio através da membrana placentária. O oxigênio, dissolvido no sangue dos grandes sinusoides maternos, passa para o sangue fetal por difusão simples, conduzido pelo gradiente de pressão do oxigênio do sangue materno para o sangue fetal. Perto do fim da gravidez, a média de pressão parcial de oxigênio (Po2) do sangue materno nos sinusoides placentários fica em torno de 50 mmHg, e a média de Po2 do sangue fetal, depois de oxigenado na placenta, é cerca de 30 mmHg. Portanto, o gradiente médio de pressão de difusão de oxigênio através da membrana placentária é de aproximadamente 20 mmHg. Imagina-se como é possível que o feto obtenha oxigênio suficiente quando o sangue fetal que deixa a placenta tem Po2 de apenas 30 mmHg. Existem três razões por que essa Po2, mesmo baixa, seja ainda capaz de permitir que o sangue fetal transporte quase tanto oxigênio para os tecidos fetais quanto é transportado pelo sangue materno para seus tecidos. Em primeiro lugar, a hemoglobina do feto é basicamente hemoglobina fetal, tipo de hemoglobina sintetizada no feto antes do nascimento. A curva da hemoglobina fetal se desvia para a esquerda em relação à curva da hemoglobina materna. Isso significa que, com os níveis de Po2 mais baixos no sangue fetal, a hemoglobina fetal consegue carregar 20% a 50% mais oxigênio do que consegue a hemoglobina materna. Em segundo lugar, a concentração de hemoglobina do sangue fetal é aproximadamente 50% maior que a da mãe; assim, tratando-se de um fator ainda mais importante para intensificar a quantidade de oxigênio transportada aos tecidos fetais. Em terceiro lugar, o efeito Bohr, explicado em relação à troca de dióxido de carbono e oxigênio no pulmão, proporciona outro mecanismo de intensificação do transporte de oxigênio pelo sangue fetal. Ou seja, a hemoglobina consegue carregar mais oxigênio com um nível de PCO2 baixo do que consegue com um nível de PCO2 alto. O sangue fetal que entra na placenta carrega grande quantidade de dióxido de carbono, mas grande parte desse dióxido de carbono difunde-se do sangue fetal para o sangue materno. A perda de dióxido de carbono torna o sangue fetal mais alcalino, enquanto maior quantidade de dióxido de carbono no sangue materno o torna mais ácido. Essas mudanças fazem a capacidade de sangue fetal de se combinar com oxigênio aumentar e a de sangue materno diminuir, o que força ainda mais a saída do oxigênio do sangue materno, ao mesmo tempo em que intensifica a captação de oxigênio pelo sangue fetal. Assim, o desvio Bohr opera em uma direção no sangue materno e em outra direção no sangue fetal. Esses dois efeitos fazem com que o desvio Bohr seja duas vezes mais importante aqui do que a troca de oxigênio nos pulmões; portanto, chama-se duplo efeito Bohr. Por meio desses três mecanismos, o feto é capaz de receber mais do que a quantidade de oxigênio adequada através da membrana placentária, a despeito do fato de o sangue fetal que deixa a placenta ter PO2 de apenas 30 mmHg. A capacidade de difusão total de oxigênio de toda a placenta a termo é de aproximadamente 1,2 mililitro de oxigênio por minuto por milímetro de mercúrio de diferença de pressão de oxigênio pela membrana, um valor maior do que a difusão pulmonar dos pulmões do recém-nascido. A Difusão de Dióxido de Carbono Através da Membrana Placentária. O dióxido de carbono é formado continuamente nos tecidos do feto da mesma maneira que é formado nos tecidos maternos, e o único meio de excretar esse dióxido de carbono fetal é através da placenta para o sangue materno. A pressão parcial de dióxido de carbono (PCO2) do sangue fetal é 2 a 3 mmHg maior que a do sangue materno. Esse pequeno gradiente pressórico do dióxido de carbono pela membrana é mais do que suficiente para permitir a difusão adequada do dióxido de carbono, porque a solubilidade extrema do dióxido de carbono na membrana placentária permite que elese difunda cerca de 20 vezes mais rápido que o oxigênio. Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2022.2 Página | 5 A Difusão de Nutrientes Através da Membrana Placentária. Outros substratos metabólicos necessários ao feto se difundem no sangue fetal da mesma maneira que o oxigênio. Por exemplo, nos últimos estágios da gravidez, o feto usa mais glicose que todo o corpo da mãe. Para fornecer esse alto nível de glicose, as células trofoblásticas que revestem as vilosidades placentárias proporcionam difusão facilitada de glicose através da membrana placentária, ou seja, a glicose é transportada por moléculas transportadoras nas células trofoblásticas da membrana. Ainda assim, o nível de glicose no sangue fetal é 20% a 30% menor que no sangue materno. Devido à alta solubilidade dos ácidos graxos nas membranas celulares, eles também se difundem do sangue materno para o sangue fetal, porém mais lentamente do que a glicose, de modo que a glicose é usada mais facilmente pelo feto para sua nutrição. Além disso, substâncias como corpos cetônicos e íons potássio, sódio e cloreto se difundem com relativa facilidade do sangue materno para o sangue fetal. A Excreção de Resíduos Através da Membrana Placentária. Da mesma maneira que o dióxido de carbono se difunde do sangue fetal para o sangue materno, outros produtos excretores formados no feto também se difundem através da membrana placentária para o sangue materno e, então, são excretados em conjunto com os produtos excretores da mãe. Eles incluem especialmente os produtos nitrogenados não proteicos, como ureia, ácido úrico e creatinina. O nível de ureia no sangue fetal é apenas ligeiramente maior que o do sangue materno porque a ureia se difunde através da membrana placentária com grande facilidade. Entretanto, a creatinina, que não se difunde tão facilmente, tem concentração no sangue fetal consideravelmente maior que no sangue materno. Portanto, a excreção do feto depende, principalmente, se não de forma total, dos gradientes de difusão pela membrana placentária e sua permeabilidade. Como há concentrações mais elevadas de produtos excretores no sangue fetal do que no sangue materno, ocorre difusão contínua dessas substâncias do sangue fetal para o materno. FATORES HORMONAIS NA GRAVIDEZ Na gravidez, a placenta forma quantidades especialmente grandes de gonadotropina coriônica humana, estrogênios, progesterona e somatomamotropina coriônica humana, e as três primeiras, e provavelmente também a quarta, são essenciais à gravidez normal. A GONADOTROPINA CORIÔNICA HUMANA CAUSA PERSISTÊNCIA DO CORPO LÚTEO E EVITA A MENSTRUAÇÃO A menstruação normalmente ocorre em mulher não grávida cerca de 14 dias depois da ovulação, época em que grande parte do endométrio uterino descama-se da parede uterina e é expelido para fora do útero. Se isso ocorresse após a implantação do ovo, a gravidez seria terminada. Entretanto, essa descamação é evitada pela secreção de gonadotropina coriônica humana pelos tecidos embrionários em desenvolvimento. Simultaneamente ao desenvolvimento das células trofoblásticas do ovo recém-fertilizado, o hormônio gonadotropina coriônica humana é secretado pelas células trofoblásticas sinciciais para os líquidos maternos. A secreção desse hormônio pode primeiro ser medida no sangue, 8 a 9 dias após a ovulação, pouco depois do blastocisto se implantar no endométrio. Em seguida, a secreção aumenta rapidamente, atingindo nível máximo em torno de 10 a 12 semanas de gestação e diminuindo novamente a valor mais baixo, por volta de 16 a 20 semanas, continuando nesse nível pelo restante da gravidez. A Função da Gonadotropina Coriônica Humana. A gonadotropina coriônica humana é uma glicoproteína com peso molecular aproximado de 39.000 e grande parte da mesma estrutura e função molecular do hormônio luteinizante secretado pela hipófise. A sua função mais importante é evitar a involução do corpo lúteo ao final do ciclo sexual feminino mensal. Em vez disso, faz com que o corpo lúteo secrete quantidades ainda maiores de seus hormônios sexuais — progesterona e estrogênios — pelos próximos meses. Esses hormônios sexuais impedem a menstruação e fazem com que o endométrio continue a crescer e armazenar grandes quantidades de nutrientes, em vez de se descamar em produto menstrual. Por conseguinte, as células semelhantes às células deciduais, que se desenvolvem no endométrio durante o ciclo sexual feminino normal, transformam-se, na verdade, em células deciduais verdadeiras — bastante inchadas e nutritivas — mais ou menos na mesma época em que o blastocisto se implanta. Sob a influência da gonadotropina coriônica, o corpo lúteo no ovário materno cresce para cerca de duas vezes seu tamanho inicial, por volta de um mês depois do início da gravidez. E sua secreção contínua de estrogênios e progesterona mantém a natureza decidual do endométrio uterino, o que é necessário para o desenvolvimento inicial do feto. Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2022.2 Página | 6 Se o corpo lúteo for removido antes de aproximadamente sete semanas de gestação, quase sempre ocorrerá aborto espontâneo, às vezes até a 12ª semana. Depois dessa época, a placenta secreta quantidades suficientes de progesterona e estrogênios para manter a gravidez pelo restante do período gestacional. O corpo lúteo involui lentamente depois da 13ª a 17ª semana de gestação. A Gonadotropina Coriônica Humana Estimula a Produção de Testosterona pelos Testículos Fetais do Macho. A gonadotropina coriônica humana também exerce efeito estimulador das células intersticiais nos testículos do feto masculino, resultando na produção de testosterona em fetos masculinos até o nascimento. Essa pequena secreção de testosterona durante a gestação é que faz com que os órgãos sexuais masculinos cresçam no feto em vez de órgãos sexuais femininos. Perto do final da gestação, a testosterona secretada pelos testículos fetais também faz com que os testículos desçam para o saco escrotal. A SECREÇÃO DE ESTROGÊNIOS PELA PLACENTA A placenta, assim como o corpo lúteo, secreta tanto estrogênios quanto progesterona. Estudos histoquímicos e fisiológicos mostram que esses dois hormônios, como a maioria dos hormônios placentários, são secretados pelas células sinciciais trofoblásticas da placenta. Perto do final da gestação, a produção diária de estrogênios placentários aumenta em cerca de 30 vezes o nível de produção materna normal. Entretanto, a secreção de estrogênios pela placenta é bem diferente da secreção pelos ovários. E, o mais importante, os estrogênios secretados pela placenta não são sintetizados de novo a partir de substratos básicos na placenta. Em vez disso, eles são formados quase inteiramente dos compostos esteroides androgênicos, desidroepiandrosterona e 16- hidroxidesidroepiandrosterona, formados tanto nas glândulas adrenais da mãe quanto nas glândulas adrenais do feto. Esses fracos androgênios são transportados pelo sangue para a placenta e convertidos pelas células trofoblásticas em estradiol, estrona e estriol. (Os córtices das glândulas adrenais do feto são extremamente grandes, e cerca de 80% consistem na chamada zona fetal, cuja função primária parece ser secretar desidroepiandrosterona durante a gravidez.) A Função do Estrogênio na Gravidez. Os estrogênios exercem basicamente função proliferativa na maioria dos órgãos reprodutores e anexos da mulher. Durante a gravidez, as quantidades extremas de estrogênios causam (1) aumento do útero materno; (2) aumento das mamas maternas e crescimento da estrutura dos ductos da mama; e (3) aumento da genitália externa feminina da mãe. Os estrogênios também relaxam os ligamentos pélvicos da mãe, assim as articulações sacroilíacas ficamrelativamente maleáveis; e a sínfise pubiana, elástica. Essas mudanças facilitam a passagem do feto pelo canal de parto. Existem fortes razões para acreditarmos que os estrogênios também afetam muitos aspectos gerais do desenvolvimento fetal durante a gravidez, como, por exemplo, a intensidade da reprodução celular no embrião inicial. A SECREÇÃO DE PROGESTERONA PELA PLACENTA A progesterona é também essencial para uma gravidez bem-sucedida; na verdade, é tão importante quanto o estrogênio. Além de ser secretada em quantidade moderada pelo corpo lúteo no início da gravidez, é secretada posteriormente em quantidades enormes pela placenta. Os efeitos especiais da progesterona, essenciais à progressão normal da gravidez, são os seguintes: 1. A progesterona faz com que células deciduais se desenvolvam no endométrio uterino. Essas células têm papel importante na nutrição do embrião inicial. 2. A progesterona diminui a contratilidade do útero grávido, evitando, assim, que contrações uterinas causem aborto espontâneo. 3. A progesterona contribui para o desenvolvimento do concepto mesmo antes da implantação, pois especificamente aumenta as secreções das trompas de Falópio e do útero, proporcionando material nutritivo apropriado para o desenvolvimento da mórula (massa esférica, de 16 a 32 blastômeros, formada antes da blástula) e do blastocisto. Existem ainda razões para acreditarmos que a progesterona afeta a clivagem celular no embrião em desenvolvimento inicial. Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2022.2 Página | 7 4. A progesterona, secretada durante a gravidez, ajuda o estrogênio a preparar as mamas da mãe para a lactação. SOMATOMAMOTROPINA CORIÔNICA HUMANA A somatomamotropina coriônica humana é um hormônio proteico com peso molecular de aproximadamente 22.000, que começa a ser secretada pela placenta em torno da quinta semana de gestação. A secreção desse hormônio aumenta progressivamente durante todo o restante da gravidez, em proporção direta ao peso da placenta. Embora as funções da somatomamotropina coriônica sejam incertas, ela é secretada em quantidade muitas vezes maior do que todos os outros hormônios da gravidez combinados. E tem também diversos possíveis efeitos importantes. Primeiro, quando administrada a diversos tipos de animais, a somatomamotropina coriônica humana causa pelo menos desenvolvimento parcial das mamas animais e, em alguns casos, causa lactação. Uma vez que esta foi sua primeira função a ser descoberta, o hormônio foi chamado primeiro lactogênio placentário humano, e acreditava-se que tinha funções semelhantes às da prolactina. Entretanto, tentativas de seu uso para promover a lactação em humanos não foram bem-sucedidas. Em segundo lugar, esse hormônio tem fracas ações, semelhantes às do hormônio do crescimento, causando a formação de tecidos proteicos, da mesma maneira como faz o hormônio do crescimento. Tem ainda estrutura química semelhante à do hormônio do crescimento, mas é preciso 100 vezes mais somatomamotropina coriônica humana do que hormônio do crescimento para promover o crescimento. Em terceiro lugar, a somatomamotropina coriônica humana diminui a sensibilidade à insulina e a utilização de glicose pela mãe, disponibilizando, assim, quantidades maiores de glicose ao feto. Como a glicose é o principal substrato usado pelo feto para fornecer energia ao seu crescimento, a possível importância desse efeito hormonal é óbvia. Ademais, o hormônio promove a liberação de ácidos graxos livres das reservas de gordura da mãe, assim, proporcionando essa fonte alternativa de energia para o metabolismo materno durante a gravidez. Portanto, parece que a somatomamotropina coriônica humana é um hormônio metabólico geral, com implicações nutricionais específicas tanto para a mãe quanto para o feto. Outros Fatores Hormonais na Gravidez: Quase todas as glândulas endócrinas não sexuais maternas reagem também de modo acentuado à gravidez, o que resulta basicamente do aumento da carga metabólica da mãe, mas também, até certo ponto, dos efeitos dos hormônios placentários na hipófise e outras glândulas. A seguir, são descritos alguns dos efeitos mais notáveis. Secreção Hipofisária. A hipófise anterior da mãe aumenta pelo menos 50% durante a gravidez e aumenta sua produção de corticotropina, tireotropina e prolactina. Por sua vez, a secreção hipofisária do hormônio foliculoestimulante e do hormônio luteinizante é quase totalmente suprimida, como consequência dos efeitos inibidores dos estrogênios e progesterona da placenta. Secreção de Corticosteroide Aumentada. A secreção adrenocortical de glicocorticoides fica, moderadamente, elevada durante a gravidez. É possível que esses glicocorticoides ajudem a mobilizar aminoácidos dos tecidos maternos, de maneira que possam ser usados na síntese de tecidos no feto. Geralmente, a gestante apresenta aumento de cerca de duas vezes na secreção de aldosterona, atingindo o pico no final da gravidez. Isto, em conjunto com as ações dos estrogênios, causa tendência, mesmo na gestante normal, de reabsorver o excesso de sódio de seus túbulos renais e, portanto, reter líquido, levando ocasionalmente à hipertensão induzida pela gravidez. Secreção da Glândula Tireoide Aumentada. A glândula tireoide materna aumenta, em geral, até 50% durante a gravidez e eleva sua produção de tiroxina em quantidade correspondente. A maior produção de tiroxina é causada pelo menos parcialmente por efeito tireotrópico da gonadotropina coriônica humana, secretada pela placenta e por pequenas quantidades do hormônio específico estimulante da tireoide, a tireotropina coriônica humana, também secretada pela placenta. Secreção da Glândula Paratireoide Aumentada. As glândulas paratireoides maternas geralmente aumentam durante a gravidez; esse aumento é, sobretudo, verdadeiro se a mãe estiver sob dieta deficiente em cálcio. O aumento dessas glândulas causa absorção de cálcio dos ossos maternos, mantendo, assim, a concentração normal de íons cálcio no líquido extracelular materno, mesmo quando o feto remove cálcio para ossificar seus próprios ossos. Essa secreção do hormônio paratireóideo é ainda mais intensificada durante a lactação após o nascimento do Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2022.2 Página | 8 bebê, porque o bebê em crescimento requer mais cálcio do que o feto. Secreção de “Relaxina” pelos Ovários e pela Placenta. Outra substância além dos estrogênios e da progesterona, um hormônio denominado relaxina, é secretada pelo corpo lúteo do ovário e pelos tecidos placentários. Sua secreção aumenta por efeito estimulador da gonadotropina coriônica humana, ao mesmo tempo em que o corpo lúteo e a placenta secretam grande quantidade de estrogênios e progesterona. A relaxina é um polipeptídeo de 48 aminoácidos, com peso molecular aproximado de 9.000. Esse hormônio, quando injetado, causa relaxamento dos ligamentos da sínfise pubiana em cobaias e ratos em estro. Seu efeito é fraco ou possivelmente até mesmo ausente na gestante. Em vez disso, esse papel provavelmente é desempenhado basicamente pelos estrogênios, que também ocasionam relaxamento dos ligamentos pélvicos. Também já se afirmou que a relaxina amolece o colo uterino da gestante no momento do parto. Acredita-se ainda que a relaxina atue como vasodilatador, contribuindo para aumentar o fluxo sanguíneo em vários tecidos, entre os quais os rins, e aumentando o retorno venoso e o débito cardíaco durante a gravidez. A Resposta do Corpo Materno à Gravidez: A mais aparente dentre as diversas reações da mãe ao feto e os altos níveis de hormônios da gravidez é o aumento de tamanho dos vários órgãos sexuais. Por exemplo, o útero aumenta de aproximadamente 50 gramas para 1.100gramas, e as mamas quase dobram de tamanho. Ao mesmo tempo, a vagina aumenta, e o introito se expande mais. Além disso, os diversos hormônios podem causar mudanças acentuadas na aparência da gestante, às vezes resultando no desenvolvimento de edema, acne e traços masculinos ou acromegálicos. O Ganho de Peso na Gestante. Em média, a gestante engorda durante a gravidez cerca de 11 kg a 15 kg, e grande parte desse ganho de peso ocorre nos últimos dois trimestres. Desse peso adicional, cerca de 3,5 kg são do feto e 2 kg do líquido amniótico da placenta e das membranas fetais. O útero aumenta perto de 1,3 kg, e as mamas outro 1 kg, ainda restando aumento médio de peso de 3,4 kg a 7,8 kg. Cerca de 2 kg são líquido extra no sangue e no líquido extracelular, e geralmente o restante 1,3 kg a 5,6 kg é acúmulo de gordura. O líquido extra é eliminado na urina, nos primeiros dias após o parto, ou seja, depois da perda dos hormônios retentores de líquido da placenta. Durante a gravidez, a mulher normalmente sente mais vontade de comer, em parte como consequência da remoção de substratos alimentares do sangue materno pelo feto e em parte devido a fatores hormonais. Sem o controle pré-natal apropriado da dieta, o ganho de peso da mulher pode ser tão grande quanto 34 kg, em vez dos usuais 11 kg a 15 kg. O Metabolismo Durante a Gravidez. Como consequência de maior secreção de muitos hormônios durante a gravidez, incluindo a tiroxina, hormônios adrenocorticais e hormônios sexuais, o metabolismo basal da gestante aumenta cerca de 15% na última metade da gravidez. Por conseguinte, frequentemente ela tem sensações de calor excessivo. Além disso, devido à carga extra que ela está carregando, precisa despender mais energia do que o normal na atividade muscular. A Nutrição Durante a Gravidez Sem dúvida, o maior crescimento do feto ocorre durante o último trimestre de gestação; seu peso quase duplica nos últimos dois meses da gestação. Comumente, a mãe não absorve proteínas, cálcio, fosfato e ferro suficientes de sua dieta, nos últimos meses de gestação, para suprir essas necessidades extras do feto. Entretanto, antecipando tais necessidades extras, o corpo da mãe já trata de armazenar essas substâncias — parte na placenta, mas a maioria nos depósitos normais da mulher. Se os elementos nutricionais apropriados não estiverem presentes na dieta da gestante, pode ocorrer uma série de deficiências maternas, especialmente de cálcio, fosfatos, ferro e vitaminas. Por exemplo, o feto precisa de cerca de 375 miligramas de ferro para formar seu sangue, e a mãe precisa de outros 600 miligramas para formar seu próprio sangue extra. A reserva normal de ferro não ligado à hemoglobina na mulher, no início da gravidez, geralmente fica em torno de 100 miligramas e quase nunca acima de 700 miligramas. Por isso, sem ferro suficiente na dieta, a gestante, muitas vezes, desenvolve anemia hipocrômica. Além disso, é particularmente importante que ela receba vitamina D porque, embora a quantidade total de cálcio usada pelo feto seja pequena, o cálcio normalmente é mal absorvido pelo trato gastrointestinal materno, sem vitamina D. Por fim, pouco antes de o bebê nascer, geralmente acrescenta-se vitamina K à dieta materna, de maneira que o bebê tenha protrombina suficiente para evitar hemorragia, particularmente hemorragia cerebral causada pelo processo do parto. Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2022.2 Página | 9 As Mudanças no Sistema Circulatório Materno Durante a Gravidez: O Fluxo de Sangue Através da Placenta e o Débito Cardíaco Materno Aumentam Durante a Gravidez. Cerca de 625 mililitros de sangue fluem através da circulação materna da placenta a cada minuto, no último mês de gravidez. Esse fluxo, mais o aumento geral do metabolismo materno, aumenta o débito cardíaco materno de 30% a 40% acima do normal, na 27 a semana de gestação; então, por razões inexplicadas, o débito cardíaco diminui até pouco acima do normal durante as últimas oito semanas de gravidez, independentemente do elevado fluxo sanguíneo uterino, indicando que o fluxo sanguíneo noutros tecidos possa ser reduzido. O Volume de Sangue Materno Aumenta Durante a Gravidez. O volume de sangue materno pouco antes do termo é cerca de 30% acima do normal. Esse aumento ocorre, principalmente, durante a última metade da gravidez. A causa desse aumento de volume, provavelmente, é devido, pelo menos em parte, à aldosterona e aos estrogênios, que elevam muito durante a gravidez, e à maior retenção de líquido pelos rins. Além disso, a medula óssea fica cada vez mais ativa e produz hemácias extras circulantes no excesso de volume de líquido. Portanto, na época do nascimento do bebê, a mãe tem por volta de 1 a 2 litros de sangue extra no seu sistema circulatório. Cerca de apenas um quarto desse montante é, normalmente, perdido através de sangramento, durante o trabalho de parto do bebê, sendo assim um fator de segurança considerável para a mãe. A Respiração Materna Aumenta Durante a Gravidez. Devido ao aumento do metabolismo basal da gestante e por causa do aumento de tamanho da mãe, a quantidade total de oxigênio usado por ela, pouco antes do nascimento do bebê, é de aproximadamente 20% acima do normal, e uma quantidade proporcional de dióxido de carbono é formada. Esses efeitos fazem com que a ventilação minuto da mãe aumente. Acredita-se também que os altos níveis de progesterona durante a gravidez elevem a ventilação minuto ainda mais, já que a progesterona aumenta a sensibilidade do centro respiratório ao dióxido de carbono. O resultado efetivo é o aumento da ventilação minuto de cerca de 50% e queda na PCO2 arterial de vários milímetros de mercúrio, abaixo do que seria em uma mulher não grávida. Simultaneamente, o útero em crescimento pressiona os conteúdos abdominais para cima, fazendo pressão ascendente contra o diafragma; assim, a excursão total do diafragma diminui. Por conseguinte, a frequência respiratória aumenta para manter a ventilação extra. A Função Renal Materna Durante a Gravidez. A formação de urina na gestante geralmente é maior, devido ao aumento da ingestão de líquido e à maior carga de produtos excretores. Mas, além disso, várias alterações especiais ocorrem na função renal. Primeiro, a capacidade reabsortiva dos túbulos renais de sódio, cloreto e água aumenta até 50% em decorrência do aumento da produção de sal e água, que retêm hormônios, especialmente hormônios esteroides pela placenta e pelo córtex adrenal. Em segundo lugar, a filtração glomerular e o fluxo sanguíneo renal aumentam até 50% durante a gravidez normal devido à vasodilatação renal. Embora os mecanismos que causem essa vasodilatação renal na gravidez ainda não sejam claros, alguns estudos sugerem que os níveis elevados de óxido nítrico ou do hormônio ovariano relaxina podem contribuir para essas alterações. A filtração glomerular aumentada provavelmente ocorre, pelo menos em parte, como compensação pela maior reabsorção tubular de sal e água. Assim, a gestante normal acumula, em geral, apenas 2,2 kg de água e sal extras. Líquido Amniótico e sua Formação. Normalmente, o volume de líquido amniótico (o líquido dentro do útero no qual o feto flutua) fica entre 500 mililitros e 1 litro, mas pode ser de até poucos milímetros ou vários litros. Estudos com isótopos sobre a formação do líquido amniótico mostram que, em média, a água no líquido amniótico é substituída a cada 3 horas, e os eletrólitos sódio e potássio são repostos em média uma vez a cada 15 horas. Grande porção do líquido deriva da excreção renal do feto. Da mesma maneira, determinada quantidade de absorção ocorre por meio do trato gastrointestinal e dos pulmões do feto. Entretanto, mesmo depois da morte intrauterinado feto, ainda se observa a presença de renovação de líquido amniótico, indicando que parte do líquido é formada e absorvida diretamente através das membranas amnióticas. Pré-eclâmpsia e Eclâmpsia Cerca de 5% de todas as gestantes apresentam hipertensão induzida pela gravidez, que é um rápido Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2022.2 Página | 10 aumento da pressão arterial em níveis hipertensivos nos últimos meses de gravidez. Isso também está associado à perda de grande quantidade de proteína na urina. Essa condição é denominada pré-eclâmpsia ou toxemia gravídica e se caracteriza por retenção excessiva de sal e água pelos rins maternos e pelo ganho de peso e desenvolvimento de edema e hipertensão na mãe. Além disso, há comprometimento da função do endotélio vascular, ocorrendo espasmo arterial em muitas partes do organismo materno, mais particularmente nos rins, cérebro e fígado. Tanto o fluxo sanguíneo renal quanto a filtração glomerular são menores, exatamente em oposição às mudanças que ocorrem nas gestantes normais. Esses efeitos renais incluem ainda espessamento dos tufos glomerulares, contendo depósito proteico nas membranas basais. Várias tentativas já foram feitas para provar que a pré-eclâmpsia é causada pela secreção excessiva de hormônios placentários ou adrenais, mas ainda não há provas de base hormonal. Outra teoria é que a pré- eclâmpsia resulta de algum tipo de autoimunidade ou alergia na mulher causada pela presença do feto. Em apoio a essa hipótese, os sintomas agudos normalmente desaparecem poucos dias depois do nascimento do bebê. Há ainda evidências de que a pré-eclâmpsia seja desencadeada por suprimento insuficiente de sangue à placenta, resultando na liberação pela placenta de substâncias que causam disfunção difusa do endotélio vascular materno. Durante o desenvolvimento placentário normal, os trofoblastos invadem as arteríolas do endométrio uterino e remodelam inteiramente as arteríolas maternas em grandes vasos sanguíneos com baixa resistência ao fluxo de sangue. Em mulheres com pré-eclâmpsia, as arteríolas maternas não apresentam essas alterações adaptativas, por razões que ainda não estão claras, e não ocorre fornecimento de sangue suficiente à placenta. Isso, por sua vez, faz com que a placenta libere diversas substâncias que entram na circulação materna e comprometem a função endotelial vascular, causam menor fluxo de sangue aos rins, excesso de retenção de sal e água e aumento da pressão sanguínea. Muito embora os fatores que ligam o menor fornecimento sanguíneo placentário à disfunção do endotélio materno ainda sejam incertos, alguns estudos experimentais sugerem um papel para os níveis elevados de citocinas inflamatórias como o fator de necrose tumoral a e a interleucina 6. Os fatores placentários que impedem a angiogênese (crescimento de vasos sanguíneos) também têm mostrado contribuição no aumento de citocinas inflamatórias e pré-eclâmpsia. Por exemplo, as proteínas antiangiogênicas tirosina cinases relacionadas a fms solúvel 1 (s-Flt-1) e endoglina solúvel estão aumentadas no sangue de mulheres com pré- eclâmpsia. Essas substâncias são liberadas pela placenta para a circulação materna em resposta à isquemia e hipoxia da placenta. A endoglina solúvel e as s-Flt-1 têm efeitos múltiplos que podem comprometer a função do endotélio vascular materno e resultam em hipertensão, proteinúria e as outras manifestações sistêmicas da pré-eclâmpsia. Porém, o papel preciso de vários fatores liberados pela placenta isquêmica que causam as múltiplas anormalidades nas mulheres com pré-eclâmpsia ainda é incerto. Eclâmpsia é um grau extremo de pré-eclâmpsia, caracterizada por espasmo vascular por todo o corpo; convulsões clônicas na mãe, às vezes seguidas por coma; grande redução do débito renal; disfunção hepática; geralmente hipertensão grave; e toxemia generalizada. Geralmente, ocorre pouco antes do nascimento do bebê. Sem tratamento, uma grande porcentagem de gestantes eclâmpticas falece. Entretanto, com o uso imediato e adequado de agentes vasodilatadores de ação rápida para reduzir a pressão arterial aos níveis normais, seguido pela interrupção imediata da gravidez (por cesariana, se necessário), a mortalidade, mesmo em gestantes eclâmpticas, tem sido reduzida a 1% ou menos. 2) CARACTERIZAR AS MODIFICAÇÕES PSICOLÓGICAS MATERNAS DURANTE ESTE PERÍODO; OS FATORES EMOCIONAIS DURANTE A GESTAÇÃO Considerar a importância de entender a gestação e seus fatores emocionais para saúde da mulher, deve ser levado em consideração para que novas evidências fossem descobertas e mostradas aos profissionais da saúde, para que criassem grupos de apoio voltado para as gestantes, tendo em vista ajuda-las a passar por esse momento. No que refere as emoções, elas permeiam por meio das experiências, pois o núcleo das avaliações é regido de acordo com as experiências vivenciadas. As emoções possuem um papel significativo na gravidez uma vez que todo o relacionamento familiar é norteado por novas atitudes e responsabilidades, sendo estabelecidas no casal, as funções maternas e paternas. Os pais se percebem vulneráveis emocionalmente, sendo vivenciada uma mudança no papel social. A gestação e os fatores emocionais afetam o binômio mãe e bebê, essas vivencias de emoções geradas durante o processo da gestação podem acarretar um Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2022.2 Página | 11 desequilíbrio psicológico alterando as emoções e assim, podendo haver complicações no parto. De que modo os fatores emocionais podem trazer complicações durante a gestação tanto para mãe quanto para o bebê? Durante o período gestacional ocorrem muitas alterações no comportamento e nos sentimentos da gestante. É importante verificar se ocorrem sintomas depressivos, ansiosos ou estressantes, que são detalhes fundamentais para a saúde não apenas da mãe, mas do bebê que está por vir”. Contudo, as pesquisas revelam o quanto a depressão, ansiedade e a irritação tem sido maléficas para a saúde da gestante, suas relações intrafamiliares e inclusive com o neonato. Com isso, acaba ficando difícil estabelecer o vínculo entre a mãe e o bebê, o que desencadeia um prejuízo no desenvolvimento do bebê em diversos pontos. No que se refere a característica da ansiedade segundo o DSM-5 (Manual de Diagnósticos em Saúde Mental de 2014) a ansiedade é o transtorno que possuem características de medo e ansiedade em excesso como perturbação nos comportamentos relacionados. O medo é emocional, posta como uma resposta a ameaça real ou mesmo percebida, já a ansiedade é o posto como uma antecipação de uma ameaça futura. Estes dois estados se põem no qual o medo é frequente e permeia por um período que aumenta seja para luta ou mesmo par fuga, onde os pensamentos de perigo, onde a ansiedade está mais associada pela tensão muscular e um preparo por um perigo que venha a acorrer no futuro, onde a um comportamento de cautela. Já a característica da depressão segundo o DSM-5 (2014) “é a presença de humor triste, vazio ou irritável, acompanhado de alterações somáticas e cognitivas que afetam significativamente a capacidade de funcionamento do indivíduo”. Ao comparar o estresse antes e depois o parto, as evidências nos mostram que o estresse é significativo e mais frequente por volta dos três últimos meses da gestação do que depois da fase do puerpério. Sendo que no puerpério as mulheres apresentam o estresse de forma menos acentuada do que na gestação, mas ainda assim um número significativo de gestantes se mostram estressadas. O estresse é definido por BVS (2015) como uma resposta normal do organismo, e que acontece quando experienciamos em ocasiões de risco. Esse recurso nos conduz para sermos cautelosos e atentos,desencadeando mudanças psíquicas e físicas. Essa resposta ao estresse é um comportamento orgânico imprescindível para a adequação a eventos novos. Uma das grandes ansiedades neste tempo está ligada à lactação, se terá ou não leite materno. A tranquilidade, segurança e equilíbrio ajudam no aleitamento, já o pavor, depressão, angústia, exaustão e ansiedade consegue gerar a frustação. Um espaço promissor que passe proteção e incentivo é importante à esta nova mãe. As alterações fisiológicas ocorridas durante a gravidez sejam elas sutis ou marcantes, estão entre as mais acentuadas que o corpo humano pode sofrer, gerando medos, dúvidas, angústias, fantasias ou simplesmente curiosidade em relação as transformações ocorridas no corpo. Durante o segundo e terceiro mês dá-se a formação da placenta que também gera algumas ansiedades. A ansiedade perante a percepção dos movimentos aparece conscientemente de várias maneiras: temor ao filho disforme, medo de morrer no parto. Durante a gravidez, 10% a 15% de todas as mulheres vivenciam sintomas de ansiedade e depressão leves a moderados. Os sintomas, em geral, são semelhantes aos que ocorrem na depressão em qualquer outro período da vida da mulher, tais como falta de apetite e de energia e sentimento de culpa. Além do sofrimento para a própria mulher, essas manifestações podem interferir no processo adequado de desenvolvimento fetal, aumentam o risco de eventos adversos na gestação para mãe e o feto como pré-eclâmpsia, podendo associar se a resultados obstétricos desfavoráveis como parto prematuro e baixo peso ao nascer. A depressão pode persistir no período pós- parto comprometendo o comportamento parental, o relacionamento com o parceiro e familiares, o processo de formação do vínculo entre mãe e filho, o desenvolvimento cognitivo, motor e psicossocial da criança. Conforme o grau, as mudanças tendem a provocar graves prejuízos na relação sociável da mulher, surgindo questões sérias de convívio, prejudicando e, em alguns eventos, até afastar a grávida dos convívios sociais, por exemplo no emprego, podendo intervir em seu rendimento. Um dos sintomas que inicialmente surge na grávida é a hipersonia: que é a necessidade em dormir mais que o normal, pois o prolongamento do sono revela como uma defesa em negação dos impulsos tanto interno quanto externo, propondo ao corpo um repouso a mais, sendo fundamental para este processo que está iniciando. As mudanças físicas são existentes e variadas os seios aumentam, a ânsias de vômito, vontades, indisposição e formas alteradas do corpo. É o virar mãe que faz com que a mulher comece a deixar esta condição, para participar da qual ela Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2022.2 Página | 12 determinou para si, participando então de seus outros planos pessoais de mulher. Pois é neste momento em que precisa estar amparada pelo apoio grupal, que determina o estado e saúde da mulher. O VÍNCULO ENTRE A MÃE-FILHO NA GESTAÇÃO Ter o primeiro filho é uma fase da gestação em que se revela por meio das relações expostas durante este período, ter seu primogênito é uma nova fase que inicia para a mulher, em que é manifestado diversas sensações, criando, várias incertezas e os próprios desejos. Nos primeiros três meses, a gestante passa por um turbilhão de sentimentos como dúvidas, felicidade, ansiedade, e algumas vezes se desfaz do bebê e da ideia de estar grávida. Na fase dos seis meses, a grávida já consegue sentir o feto movimentando-se, e assim tendo uma labilidade em suas emoções, pois então ela fica convicta de sua realidade e de que há uma vida ali dentro, que tem um vínculo muito forte com ela. Nos últimos meses a chegada da hora do nascimento do bebê quando a mãe fica mais ansiosa para a chegada, e junto vem as mudanças de hábitos decorrentes disso, como a vida sexual da mulher, a assistência e atenção que tem que dar para o recém-nascido, sua vida pessoal e todos os outros fatores como sociais e suas relações. Perante as exposições manifestadas e ocorridas durante o período gravídico, e diante do primeiro filho, há também alterações psicológicas, uma vez que a mulher gestante procura compreender sua nova imagem. Esse fato histórico é observado e bem evidenciado nas primigestas”. Na maternidade ocorrem variações de sentimentos nos vínculos expostos na família, na alegria dos cônjuges e das crianças. Diante destas manifestações que ocorrem nesta fase da gestação, o vínculo que se estabelece entre mãe e bebê, são carências psíquicas e corporais dele, e que irão proporcionar ao bebê, aconchego e segurança. Com isso, entende-se que a mãe é a fonte mais segura para a criação das vinculações iniciais da criança, que refletirão posteriormente em suas relações com o meio. O vínculo afetivo entre a mãe e o feto, na gestação, é fundamental. Tanto a mãe quanto o feto possuem necessidades de adaptação às mudanças, a construção do vínculo materno-filial pode contribuir para a satisfação dessas necessidades”. O cuidado afetivo reflete ao bem-estar relacionado aos pensamentos e sonhos que contorna o bebê, ao convívio indireto e a relação com feto. A realidade da gestante em mostrar a alegria e a euforia por hábitos como acariciar a barriga e falar com o neném, indica o tamanho do cuidado materno-fetal. A preparação da gestante para o parto, assim como o acompanhamento do desenvolvimento do ciclo gravídico, é extremamente importante para mãe e bebê, pois além de evitar problemas clínicos também pode atuar em nível de tratamento quando necessário. A saúde psíquica da criança recebe influência direta na qualidade do vínculo entre eles estabelecido. Por isso, a relação entre ambos tem que ser afetuosa, íntima, e de forma continuada, proporcionando satisfação e bem-estar para os dois. No entanto, não ocorre de forma imediata e impulsiva. É um desenvolvimento, que começa no período inicial da gravidez, que a criança a qual ela imagina faz parte cada vez mais da rotina da mãe, sendo formado por ilusões, anseios, sonhos e ideais de se tornar mãe. A maneira como a mãe entende seu apego com o bebê se reflete na maneira que ela entende e atende as carências dele. Sendo assim, as relações entre os pais influenciam na essência do vínculo construído pelo bebê desde seu nascer. A gestação é com certeza uma fase bem complicada na vida da mulher, sendo uma ocasião que se cerca de alterações profundas, que tem como características mudanças no corpo, na mente e no meio social. O momento pós-nascimento do bebê é considerado como um período no qual o sofrer psíquico pode desencadear uma depressão, dando origem então à DPP (depressão pós-parto), que evidencia-se de uma forma intensa e variável, sendo um fator dificultoso para a formação segura de um vínculo entre mãe-bebê, podendo então interferir futuramente nos seus convívios interpessoais. Sobre o foco de um bebê recém-nascido, sabe-se da importância do afeto e do contato constante vindo da mãe, que é a figura no qual o bebê formará suas primeiras relações de apego, e que podem garantir e propiciar a construção de seus aspectos biopsicoafetivos. Se opondo ao que se era discutido nos séculos passados, os bebês, ao nascer, não são carentes de experiências sensitivas; eles já nascem com uma certa quantidade de sistema comportamental, onde eles podem ficar evidentes através de estímulos, como o contato pelo tato, o contato visual, as conversas e o reconhecimento das vozes, o cheiro da mãe, e o momento da amamentação. Durante anos, houve uma necessidade de analisar a saúde mental das grávidas por meio sistematizado, onde atenção era quase nenhuma, pelo fato de haver uma convicção de que é uma fase gravídica do aconchego e por um reconhecimento dos especialistas de que os transtornospsicóticos ocorre no pós-parto, Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2022.2 Página | 13 e assim tendo uma necessidade de internação. É preciso que haja um reconhecimento antecipado de sinais depressivos diante da gestação, pois proporcionará uma ajuda para análise de risco e urgência de encaminhamento, oferecendo ações adequadas e soluções materno-infantil próprios. As condições que surgem durante este período gestacional, ocorrem por motivos de diversos meios psicossociais, pois é nessa fase que há uma importância de um amparo por programas sociais, que contribui para uma melhor gestação e assim melhorar a qualidade em sua saúde. Assim, é viável que os programas atendam por meio de grupos de apoio as gestantes, atendimento esse voltado para a classe média e a comunidade em geral, onde existe uma necessidade de um amparo social. Ter um apoio social durante a vivência é essencial para amortecer tais acontecimentos que há no dia a dia, ainda mais no período que há transformações psicossociais, como também fisiológica, que é o fato da gravidez. O apoio sendo um fator importante para a gestante, o apoio emocional do companheiro e o apoio familiar podem contribuir para reduzir os estressores e proporcionar gravidez mais tranquila. A qualidade do vínculo da gestante é muito importante e pode funcionar como amortecedor decorrentes das mudanças dessa fase. O companheiro ao aceitar o bebê é significativo para que haja o desenvolver do apego da mãe com o bebê. Sua contribuição se dá, por meio à mulher na harmonização dos conflitos ocorridos na infância e que envolve o meio maternal. Pois, é perante a gravidez, que o envolvimento do pai deve ser visado de um modo peculiar, sendo que este vínculo entre o lado paterno e o bebê é de forma indireta, pois à uma mediação feita pela mãe. O apoio às gestantes ocorre através do programa de humanização, pois é perante o pré-natal que à uma ajuda em uma melhoria na saúde das gestantes. A humanização privilegia o bem-estar da mulher e do bebê ao considerar os processos fisiológicos, psicológicos e o contexto sociocultural, caracterizado pelo acompanhamento contínuo de gestação e parturição”. A melhor compreensão de suporte social e diversas causas com relação a depressão em gestantes, é de grande interesse na procura de métodos para a implantação de políticas de acompanhamento materno-infantil pelo Brasil. Assim, é importante compreender sobre esse conteúdo, através de pesquisas que ajudem melhorar a metodologia como a aplicação de instrumentos exclusivos e reconhecidos, para analisar ansiedade e a depressão, como também outras causas de riscos e índices representativos, além de lugares onde é possível acolher gestantes com gravidez ameaçada, diminuindo os tipos de seleção. 3) DESCREVER O PRÉ-NATAL DE ACORDO COM AS ORIENTAÇÕES DO MINISTÉRIO DA SAÚDE, SUA IMPORTÂNCIA E PERIODICIDADE; O objetivo do acompanhamento pré-natal é assegurar o desenvolvimento da gestação, permitindo o parto de um recém-nascido saudável, sem impacto para a saúde materna, inclusive abordando aspectos psicossociais e as atividades educativas e preventivas. Talvez o principal indicador do prognóstico ao nascimento seja o acesso à assistência pré-natal. Os cuidados assistenciais no primeiro trimestre são utilizados como um indicador maior da qualidade dos cuidados maternos. Se o início precoce do pré-natal é essencial para a adequada assistência, o número ideal de consultas permanece controverso. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o número adequado seria igual ou superior a 6 (seis). Pode ser que, mesmo com um número mais reduzido de consultas (porém, com maior ênfase para o conteúdo de cada uma delas) em casos de pacientes de baixo risco, não haja aumento de resultados perinatais adversos. Atenção especial deverá ser dispensada às grávidas com maiores riscos. As consultas deverão ser mensais até a 28ª semana, quinzenais entre 28 e 36 semanas e semanais no termo. Não existe alta do pré-natal. Quando o parto não ocorre até a 41º semana, é necessário encaminhar a gestante para a avaliação do bem-estar fetal, incluindo avaliação do índice do líquido amniótico e monitoramento cardíaco fetal. Estudos clínicos randomizados demonstram que a conduta de induzir o trabalho de parto em todas as gestantes com 41 semanas de gravidez é preferível à avaliação seriada do bem-estar fetal, pois se observou menor risco de morte neonatal e perinatal e menor chance de cesariana no grupo submetido à indução do parto com 41 semanas. 10 PASSOS PARA O PRÉ-NATAL DE QUALIDADE NA ATENÇÃO BÁSICA 1° PASSO: Iniciar o pré-natal na Atenção Primária à Saúde até a 12ª semana de gestação (captação precoce); 2° PASSO: Garantir os recursos humanos, físicos, materiais e técnicos necessários à atenção pré-natal; 3° PASSO: Toda gestante deve ter assegurado a solicitação, realização e avaliação em termo oportuno do resultado dos exames preconizados no atendimento pré-natal; Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2022.2 Página | 14 4° PASSO: Promover a escuta ativa da gestante e de seus(suas) acompanhantes, considerando aspectos intelectuais, emocionais, sociais e culturais e não somente um cuidado biológico: "rodas de gestantes"; 5° PASSO: Garantir o transporte público gratuito da gestante para o atendimento pré-natal, quando necessário; 6° PASSO: É direito do(a) parceiro(a) ser cuidado (realização de consultas, exames e ter acesso a informações) antes, durante e depois da gestação: "pré-natal do(a) parceiro(a)"; 7° PASSO: Garantir o acesso à unidade de referência especializada, caso seja necessário; 8° PASSO: Estimular e informar sobre os benefícios do parto fisiológico, incluindo a elaboração do "Plano de Parto"; 9° PASSO: Toda gestante tem direito de conhecer e visitar previamente o serviço de saúde no qual irá dar à luz (vinculação); 10° PASSO: As mulheres devem conhecer e exercer os direitos garantidos por lei no período gravídico- puerperal. No contexto da assistência integral à saúde da mulher, a assistência pré-natal deve ser organizada para atender às reais necessidades da população de gestantes, mediante a utilização dos conhecimentos técnico-científicos existentes e dos meios e recursos disponíveis mais adequados para cada caso. As ações de saúde devem estar voltadas para a cobertura de toda a população-alvo da área de abrangência da unidade de saúde, assegurando minimamente 6 (seis) consultas de pré-natal e continuidade no atendimento, no acompanhamento e na avaliação do impacto destas ações sobre a saúde materna e perinatal. Para uma assistência pré-natal efetiva, deve-se procurar garantir: • Discussão permanente com a população da área (em especial com as mulheres) sobre a importância da assistência pré-natal na unidade de saúde e nas diversas ações comunitárias; • Identificação precoce de todas as gestantes na comunidade e o pronto início do acompanhamento pré-natal, para que tal início se dê ainda no 1º trimestre da gravidez, objetivando intervenções oportunas em todo o período gestacional, sejam elas preventivas e/ou terapêuticas. Deve-se garantir a possibilidade de que as mulheres realizem o teste de gravidez na unidade de saúde sempre que necessário. O início precoce da assistência pré-natal e sua continuidade requerem preocupação permanente com o vínculo entre os profissionais e a gestante, assim como com a qualidade técnica da atenção; • Acolhimento imediato e garantia de atendimento a todos os recém-natos e à totalidade das gestantes e puérperas que procurarem a unidade de saúde; • Realização do cadastro da gestante, após confirmada a gravidez, por intermédio do preenchimento da ficha de cadastramento do SisPreNatal ou diretamente no sistema para os serviçosde saúde informatizados, fornecendo e preenchendo o Cartão da Gestante; • Classificação do risco gestacional (em toda consulta) e encaminhamento, quando necessário, ao pré-natal de alto risco ou à urgência/emergência obstétrica; • Acompanhamento periódico e contínuo de todas as gestantes, para assegurar seu seguimento durante toda a gestação, em intervalos preestabelecidos (mensalmente, até a 28ª semana; quinzenalmente, da 28ª até a 36ª semana; semanalmente, no termo), acompanhando-as tanto nas unidades de saúde quanto em seus domicílios, bem como em reuniões comunitárias, até o momento do pré-parto/parto, objetivando seu encaminhamento oportuno ao centro obstétrico, a fim de evitar sofrimento fetal por pós-datismo. Toda gestante com 41 semanas deve ser encaminhada para a avaliação do bem-estar fetal, incluindo avaliação do índice do líquido amniótico e monitoramento cardíaco fetal; • Incentivo ao parto normal e à redução da cesárea; • Realização de anamnese, exame físico e exames complementares indicados; • Imunização antitetânica e para hepatite B; • Oferta de medicamentos necessários (inclusive sulfato ferroso, para tratamento e profilaxia de anemia, e ácido fólico, com uso recomendado desde o período pré-concepcional e durante o primeiro trimestre de gestação); • Diagnóstico e prevenção do câncer de colo de útero e de mama; • Avaliação do estado nutricional e acompanhamento do ganho de peso no decorrer da gestação; • Atenção à adolescente conforme suas especificidades; • Realização de práticas educativas, abordando principalmente: (a) o incentivo ao aleitamento materno, ao parto normal e aos hábitos saudáveis de vida; (b) a identificação de sinais de alarme na gravidez e o reconhecimento do trabalho de parto; (c) os cuidados com o recém-nascido; (d) a importância do Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2022.2 Página | 15 acompanhamento pré-natal, da consulta de puerpério e do planejamento familiar; (e) os direitos da gestante e do pai; (f) os riscos do tabagismo, do uso de álcool e de outras drogas; e (g) o uso de medicações na gestação. Tais práticas podem ser realizadas de forma individual ou coletiva, por meio de grupos de gestantes, sala de espera, intervenções comunitárias etc.; • Identificação do risco de abandono da amamentação e encaminhamento da gestante aos grupos de apoio ao aleitamento materno e/ou ao banco de leite humano (BLH) de referência; • Oferta de atendimento clínico e psicológico à gestante vítima de violência, seja esta de qualquer tipo (doméstica, física, sexual, psicológica etc.), seja àquela em risco de depressão pós-parto, referenciando-a para equipes especializadas e/ou encaminhamento para serviços específicos, conforme fluxograma local; • Visita domiciliar às gestantes e puérperas, principalmente no último mês de gestação e na primeira semana após o parto, com o objetivo de monitorar a mulher e a criança, orientar cuidados adequados, identificar possíveis fatores de risco e realizar os encaminhamentos necessários; • Busca ativa das gestantes faltosas ao pré-natal e à consulta na primeira semana após o parto; • Sistema eficiente de referência e contrarreferência, objetivando garantir a continuidade da assistência pré-natal (em todos os níveis do sistema de saúde) para todas as gestantes, conforme a exigência de cada caso. Toda gestante encaminhada para um diferente serviço de saúde deverá levar consigo o Cartão da Gestante, bem como informações sobre o motivo do encaminhamento e os dados clínicos de interesse. Da mesma forma, deve-se assegurar o retorno da gestante à unidade básica de origem, que está de posse de todas as informações necessárias para o seu seguimento; • Vinculação das unidades básicas de saúde (UBS) aos hospitais, às maternidades, às casas de parto, às residências de parto domiciliar (feito por parteira) de referência e aos serviços diagnósticos, conforme definição do gestor local, além do registro do nome do hospital ou da maternidade ou da casa de parto ou das residências de parto domiciliar no Cartão da Gestante. Deve-se informar à gestante a possibilidade de realizar uma visita ao serviço de saúde onde provavelmente se realizará o parto e, caso seja de seu interesse, agendar a visita por volta do sexto mês de gestação. Toda gestante deve ser orientada a procurar o referido serviço quando apresentar intercorrências clínicas/obstétricas ou quando estiver em trabalho de parto; • Vinculação à central de regulação obstétrica e neonatal, quando existente, de modo a garantir a internação da parturiente e do recém-nascido nos casos de demanda excedente; • Transferência da gestante e/ou do neonato em transporte adequado (Samu), mediante vaga assegurada em outra unidade, quando necessário; • Atendimento às intercorrências obstétricas e neonatais, assim como controle de doenças crônicas e profilaxia de doenças infecciosas; • Registro das informações em prontuário, no Cartão da Gestante e no SisPreNatal, inclusive com preenchimento da Ficha Perinatal, abordando a história clínica perinatal, as intercorrências e as urgências/emergências que requeiram avaliação hospitalar; • Atenção à puérpera e ao recém-nascido na primeira semana após o parto e na consulta puerperal (até o 42º dia após o parto). 4) DESCREVER A CONSULTA DE PRÉ -NATAL, CONSIDERANDO OS EXAMES CLÍNICOS, EXAMES SUBSIDIÁRIOS E PRINCIPAIS ORIENTAÇÕES; As consultas de pré-natal poderão ser realizadas na unidade de saúde ou durante visitas domiciliares. O calendário de atendimento durante o pré-natal deve ser programado em função dos períodos gestacionais que determinam maior risco materno e perinatal. O calendário deve ser iniciado precocemente (no primeiro trimestre) e deve ser regular, garantindo-se que todas as avaliações propostas sejam realizadas e que tanto o Cartão da Gestante quanto a Ficha de Pré- Natal sejam preenchidos. O total de consultas deverá ser de, no mínimo, 6 (seis), com acompanhamento intercalado entre médico e enfermeiro. Sempre que possível, as consultas devem ser realizadas conforme o seguinte cronograma: Até 28ª semana – mensalmente; Da 28ª até a 36ª semana – quinzenalmente; Da 36ª até a 41ª semana – semanalmente. A maior frequência de visitas no final da gestação visa à avaliação do risco perinatal e das intercorrências clínico-obstétricas mais comuns nesse trimestre, como trabalho de parto prematuro, pré-eclâmpsia e eclâmpsia, amniorrexe prematura e óbito fetal. Não existe “alta” do pré-natal antes do parto. Quando o parto não ocorre até a 41ª semana, é necessário encaminhar a gestante para avaliação do bem-estar fetal, incluindo avaliação do índice do líquido amniótico e monitoramento cardíaco fetal. Estudos clínicos randomizados demonstram que a conduta de induzir o trabalho de parto em todas as Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2022.2 Página | 16 gestantes com 41 semanas de gravidez é preferível à avaliação seriada do bem-estar fetal, pois se observou menor risco de morte neonatal e perinatal e menor chance de cesariana no grupo submetido à indução do parto com 41 semanas. O acompanhamento da mulher no ciclo grávido- puerperal deve ser iniciado o mais precocemente possível e só se encerra após o 42º dia de puerpério, período em que a consulta de puerpério deverá ter sido realizada. Na primeira consulta, deve-se pesquisar os aspectos socioepidemiológicos, os antecedentes familiares, os antecedentes pessoais gerais, ginecológicos e obstétricos, além da situação da gravidez atual. Os principais componentes podem ser assim listados: (I) data precisa da última menstruação; (II) regularidade dos ciclos; (III) uso de anticoncepcionais; (IV) paridade; (V) intercorrências clínicas, obstétricas e cirúrgicas;(VI) detalhes de gestações prévias; (VII) hospitalizações anteriores; (VIII) uso de medicações; (IX) história prévia de doença sexualmente transmissível; (X) exposição ambiental ou ocupacional de risco; (XI) reações alérgicas; (XII) história pessoal ou familiar de doenças hereditárias/malformações; (XIII) gemelaridade anterior; (XIV) fatores socioeconômicos; (xv) atividade sexual; (XVI) uso de tabaco, álcool ou outras drogas lícitas ou ilícitas; (XVII) história infecciosa prévia; (XVIII) vacinações prévias; (XIX) história de violências. Na pesquisa de sintomas relacionados à gravidez também deverá ser questionada a existência de náuseas, vômitos, dor abdominal, constipação, cefaleia, síncope, sangramento ou corrimento vaginal, disúria, polaciúria e edemas. É importante sanar dúvidas e minimizar a ansiedade do casal. Informações sobre alimentação, hábito intestinal e urinário, movimentação fetal, assim como presença de corrimentos ou outras perdas vaginais ajudam a identificar situações de risco gestacional e orientam medidas educativas que devem ser enfatizadas durante o pré-natal. As anotações deverão ser realizadas tanto no prontuário da unidade (Ficha Clínica de PréNatal) quanto no Cartão da Gestante. Em cada consulta, o risco obstétrico e perinatal deve ser reavaliado. As ações da equipe devem contemplar as seguintes atividades: • Preenchimento da ficha de cadastramento da gestante no SisPreNatal ou diretamente no sistema para os serviços de saúde informatizados; • Preenchimento do Cartão da Gestante e da Ficha Clínica de Pré-Natal: identificação e demais dados da anamnese e exame físico; número do Cartão Nacional de Saúde; hospital de referência para o parto; • Verificação da situação vacinal e orientação sobre a sua atualização, se necessário; • Solicitação dos exames de rotina; • Realização dos testes rápidos; • Orientação sobre as consultas subsequentes, as visitas domiciliares e as atividades educativas. Os fatores de risco deverão ser identificados em destaque no Cartão da Gestante, uma vez que tal procedimento contribui para alertar os profissionais de saúde que realizam o acompanhamento pré-natal. História Clínica Identificação: • Nome; • Número do Cartão Nacional de Saúde; • Idade; • Cor; • Naturalidade; • Procedência; • Endereço atual; • Unidade de referência. Dados socioeconômicos: • Grau de instrução; • Profissão/ocupação (deve-se identificar fatores de risco); • Estado civil/união; • Número e idade de dependentes (deve-se avaliar a sobrecarga de trabalho doméstico); • Renda familiar; • Pessoas da família com renda; • Condições de moradia (tipo, nº de cômodos); • Condições de saneamento (água, esgoto, coleta de lixo); • Distância da residência até a unidade de saúde. Antecedentes familiares: • Hipertensão arterial; • Diabetes mellitus; • Malformações congênitas e anomalias genéticas; • Gemelaridade; • Câncer de mama e/ou do colo uterino; • Hanseníase; • Tuberculose e outros contatos domiciliares (deve- se anotar a doença e o grau de parentesco); • Doença de Chagas; • Parceiro sexual portador de infecção pelo HIV. Antecedentes pessoais gerais: • Hipertensão arterial crônica; • Diabetes mellitus; Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2022.2 Página | 17 • Cardiopatias, inclusive doença de Chagas; • Doenças renais crônicas; • Anemias e deficiências de nutrientes específicos; • Desvios nutricionais (baixo peso, desnutrição, sobrepeso, obesidade); • Epilepsia; • Doenças da tireoide e outras endocrinopatias; • Viroses (rubéola, hepatites); • Hanseníase, tuberculose, malária, sífilis ou outras doenças infecciosas; • Portadora de infecção pelo HIV (deve-se anotar se a paciente está em uso de antirretrovirais e especificar o esquema utilizado); • Infecção do trato urinário; • Doenças neurológicas e psiquiátricas; • Cirurgia (tipo e data); • Transfusões de sangue; • Alergias (inclusive medicamentosas); • Doenças neoplásicas; • Vacinação; • Uso de medicamentos; • Uso de drogas, tabagismo e alcoolismo. Antecedentes ginecológicos: • Ciclos menstruais (duração, intervalo e regularidade; idade da menarca); • Uso de métodos anticoncepcionais prévios (quais, por quanto tempo e motivo do abandono); • Infertilidade e esterilidade (tratamento); - Doenças sexualmente transmissíveis, inclusive doença inflamatória pélvica (tratamentos realizados, inclusive pelo parceiro); • Cirurgias ginecológicas (idade e motivo); • Malformações uterinas; • Mamas (patologias e tratamento realizado); • Última colpocitologia oncótica (papanicolau ou “preventivo”, data e resultado). Sexualidade: • Início da atividade sexual (idade da primeira relação); • Dispareunia (dor ou desconforto durante o ato sexual); • Prática sexual na gestação atual ou em gestações anteriores; • Número de parceiros da gestante e de seu parceiro em época recente ou pregressa; • Uso de preservativos masculinos e/ou femininos (“uso correto” e “uso habitual”). Antecedentes obstétricos: • Número de gestações (incluindo abortamentos, gravidez ectópica, mola hidatiforme); • Número de partos (domiciliares, hospitalares, vaginais espontâneos, por fórceps, cesáreas – indicações); • Número de abortamentos (espontâneos, provocados, causados por DST, complicados por infecções, relato de insuficiência istmo-cervical, história de curetagem pós-abortamento); • Número de filhos vivos; • Idade na primeira gestação; • Intervalo entre as gestações (em meses); • Isoimunização Rh; • Número de recém-nascidos: pré-termo (antes da 37ª semana de gestação), pós-termo (igual ou mais de 42 semanas de gestação); • Número de recém-nascidos de baixo peso (menos de 2.500g) e com mais de 4.000g; • Número de recém-nascidos prematuros ou pequenos para a idade gestacional; • Mortes neonatais precoces: até sete dias de vida (número e motivo dos óbitos); • Mortes neonatais tardias: entre sete e 28 dias de vida (número e motivo dos óbitos); • Natimortos (morte fetal intraútero e idade gestacional em que ocorreu); • Recém-nascidos com icterícia, transfusão, hipoglicemia, ex-sanguíneo-transfusões; • Intercorrências ou complicações em gestações anteriores (deve-se especificá-las); • Complicações nos puerpérios (deve-se descrevê- las); • Histórias de aleitamentos anteriores (duração e motivo do desmame). Gestação atual: • Data do primeiro dia/mês/ano da última menstruação – DUM (anotar certeza ou dúvida); • Peso prévio e altura; • Sinais e sintomas na gestação em curso; • Hábitos alimentares; • Medicamentos utilizados na gestação; • Internação durante a gestação atual; • Hábitos: fumo (número de cigarros/dia), álcool e drogas ilícitas; • Ocupação habitual (esforço físico intenso, exposição a agentes químicos e físicos potencialmente nocivos, estresse); • Aceitação ou não da gravidez pela mulher, pelo parceiro e pela família, principalmente se for adolescente; • Identificar gestantes com fraca rede de suporte social; • Cálculo da idade gestacional e data provável do parto. Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2022.2 Página | 18 Idade Gestacional. Os métodos para esta estimativa dependem da data da última menstruação (DUM), que corresponde ao primeiro dia de sangramento do último ciclo menstrual referido pela mulher. I. Quando a data da última menstruação (DUM) é conhecida e certa. É o método de escolha para se calcular a idade gestacional em mulheres com ciclos menstruais regulares e sem uso de métodos anticoncepcionais hormonais: • Uso do calendário: some o número de dias do intervalo entre a DUM e a data da consulta, dividindo o total por sete (resultado em semanas); • Uso de disco(gestograma): coloque a seta sobre o dia e o mês correspondentes ao primeiro dia e mês do último ciclo menstrual e observe o número de semanas indicado no dia e mês da consulta atual. II. Quando a data da última menstruação é desconhecida, mas se conhece o período do mês em que ela ocorreu. Se o período foi no início, meio ou fim do mês, considere como data da última menstruação os dias 5, 15 e 25, respectivamente. Proceda, então, à utilização de um dos métodos descritos. III. Quando a data e o período da última menstruação são desconhecidos. Quando a data e o período do mês não forem conhecidos, a idade gestacional e a data provável do parto serão, inicialmente, determinadas por aproximação, basicamente pela medida da altura do fundo do útero e pelo toque vaginal, além da informação sobre a data de início dos movimentos fetais, que habitualmente ocorrem entre 18 e 20 semanas. Pode-se utilizar a altura uterina e o toque vaginal, considerando-se os seguintes parâmetros: • Até a 6ª semana, não ocorre alteração do tamanho uterino; • Na 8ª semana, o útero corresponde ao dobro do tamanho normal; • Na 10ª semana, o útero corresponde a três vezes o tamanho habitual; • Na 12ª semana, o útero enche a pelve, de modo que é palpável na sínfise púbica; • Na 16ª semana, o fundo uterino encontra-se entre a sínfise púbica e a cicatriz umbilical; • Na 20ª semana, o fundo do útero encontra-se na altura da cicatriz umbilical; • A partir da 20ª semana, existe relação direta entre as semanas da gestação e a medida da altura uterina. Porém, este parâmetro torna-se menos fiel a partir da 30ª semana de idade gestacional. Quando não for possível determinar clinicamente a idade gestacional, solicite o mais precocemente possível a ultrassonografia obstétrica. Cálculo da data provável do parto. Calcula-se a data provável do parto levando-se em consideração a duração média da gestação normal (280 dias ou 40 semanas, a partir da DUM), mediante a utilização de calendário. Com o disco (gestograma), coloque a seta sobre o dia e o mês correspondentes ao primeiro dia e mês da última menstruação e observe a seta na data (dia e mês) indicada como data provável do parto. Outra forma de cálculo consiste em somar sete dias ao primeiro dia da última menstruação e subtrair três meses ao mês em que ocorreu a última menstruação (ou adicionar nove meses, se corresponder aos meses de janeiro a março). Esta forma de cálculo é chamada de Regra de Näegele. Nos casos em que o número de dias encontrado for maior do que o número de dias do mês, passe os dias excedentes para o mês seguinte, adicionando 1 (um) ao final do cálculo do mês. Exame Físico São indispensáveis os seguintes procedimentos: avaliação nutricional (peso e cálculo do IMC), medida da pressão arterial, palpação abdominal e percepção dinâmica, medida da altura uterina, ausculta dos batimentos cardiofetais, registro dos movimentos fetais, realização do teste de estímulo sonoro simplificado, verificação da presença de edema, exame ginecológico e coleta de material para colpocitologia oncótica, exame clínico das mamas e toque vaginal de acordo com as necessidades de cada mulher e com a idade gestacional. No exame físico, os mais importantes componentes que precisam ser incluídos na primeira visita pré-natal são os seguintes: peso, altura, pressão arterial, avaliação de mucosas, da tireoide, das mamas, dos pulmões, do coração, do abdome e das extremidades. No exame ginecológico/obstétrico, deve-se avaliar a genitália externa, a vagina, o colo uterino e, no toque bidigital, o útero e os anexos. Após a 12ª semana, deve- se medir a altura do fundo uterino no abdome. A ausculta fetal será possível após a 10ª-12ª semana, com o sonar-doppler. Nas visitas subsequentes, torna-se obrigatório medir a altura uterina, pesar a paciente, mensurar a pressão arterial, verificar a presença de anemia de mucosas, a Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2022.2 Página | 19 existência de edemas e auscultar os batimentos cardíacos fetais. Deve-se avaliar o mamilo para lactação. A definição da apresentação fetal deverá ser determinada por volta da 36ª semana. Exame físico geral: • Inspeção da pele e das mucosas; • Sinais vitais: aferição do pulso, frequência cardíaca, frequência respiratória, temperatura axilar; • Palpação da tireoide, região cervical, supraclavicular e axilar (pesquisa de nódulos ou outras anormalidades); • Ausculta cardiopulmonar; • Exame do abdome; • Exame dos membros inferiores; • Determinação do peso; • Determinação da altura; • Cálculo do IMC; • Avaliação do estado nutricional e do ganho de peso gestacional; • Medida da pressão arterial; • Pesquisa de edema (membros, face, região sacra, tronco). Exame físico específico (gineco-obstétrico): • Palpação obstétrica; • Medida e avaliação da altura uterina; • Ausculta dos batimentos cardiofetais; • Registro dos movimentos fetais; • Teste de estímulo sonoro simplificado (Tess); • Exame clínico das mamas; • Exame ginecológico (inspeção dos genitais externos, exame especular, coleta de material para exame colpocitopatológico, toque vaginal). Obs:. O exame físico das adolescentes deverá seguir as orientações do Manual de Organização de Serviços para a Saúde dos Adolescentes. Exames Laboratoriais Para um bom acompanhamento pré-natal, é necessário que a equipe de saúde efetue os procedimentos técnicos de forma correta e uniforme durante a realização dos exames complementares, assim como quando da realização dos exames clínico e obstétrico. Do contrário, ocorrerão diferenças significativas, prejudicando a interpretação dos dados e a comparação entre eles. Cabe aos profissionais de formação universitária promover a capacitação dos demais membros da equipe, a fim de garantir que todos os dados colhidos sejam fidedignos. É importante ressaltar, no contexto da qualidade da atenção e da proteção biológica, a necessidade da lavagem das mãos do examinador antes e após o atendimento à gestante e, especialmente, na eventualidade da realização de procedimentos. Devem ser solicitados na primeira consulta os seguintes exames complementares: • Hemograma; • Tipagem sanguínea e fator Rh; • Coombs indireto (se for Rh negativo); • Glicemia de jejum; • Teste rápido de triagem para sífilis e/ou VDRL/RPR; o Teste rápido diagnóstico anti-HIV; • Anti-HIV; • Toxoplasmose IgM e IgG; • Sorologia para hepatite B (HbsAg); • Exame de urina e urocultura; • Ultrassonografia obstétrica (não é obrigatório), com a função de verificar a idade gestacional; • Citopatológico de colo de útero (se necessário); • Exame da secreção vaginal (se houver indicação clínica); • Parasitológico de fezes (se houver indicação clínica); • Eletroforese de hemoglobina (se a gestante for negra, tiver antecedentes familiares de anemia falciforme ou apresentar história de anemia crônica). Exames Laboratoriais FEBRASGO • Tipagem sanguínea (ABO/Rh) e prova de Coombs indireta, se indicadas; • Hemograma e ferritina sérica; • Glicemia de jejum e hemoglobina glicada; • Urina tipo 1 com urocultura; • Sorologias: rubéola, toxoplasmose, sífilis, citomegalovírus, hepatite B, hepatite C e vírus da imunodeficiência humana (HIV); • TSH e T4 livre; • Citologia oncológica; • Teste oral de tolerância à glicose com 75g de dextrosol (entre 24 e 28 semanas). Exames de Imagem Ao lado da avaliação clínica, a imagem ultrassonográfica deve ser voltada para algumas informações básicas que a colocam como procedimento obrigatório na assistência pré-natal (FEBRASGO): • A avaliação precoce (seis a nove semanas de gestação) objetiva identificar a gestação tópica, única ou não, a vitalidade e as medidas do sacogestacional, que permitirão, com grande propriedade, estabelecer a idade gestacional em semanas. A via vaginal deverá ser a preferida pela riqueza de detalhes que oferece; Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2022.2 Página | 20 • A ultrassonografia morfológica de primeiro trimestre deve ser realizada entre a 11ª e a 14ª semana (comprimento cabeçanádega – CCN – de 45 a 84 mm), via abdominal, com a complementação da Dopplervelocimetria, permitindo rastrear cromossomopatias (em particular a trissomia do 21), por meio principalmente da medida de translucência nucal, do fluxo no ducto venoso e da identificação do ossículo nasal, além de outros marcadores ultrassonográficos. Esses achados podem ser complementados pela avaliação do perfil bioquímico (PAPP-A, fração livre β-hCG); • A ultrassonografia morfológica de segundo trimestre deve ser realizada entre a 18ª e a 24ª semana, de preferência na 22ª semana, e identificará toda a economia fetal em seus aspectos morfológicos. Normalmente, deve-se medir o comprimento do colo uterino, por via transvaginal, que tem importância preditiva de risco de trabalho de parto prematuro (normal ≥ 2,5 cm); • Entre a 34ª e a 36ª semana, com a Dopplerfluxometria das artérias uterinas, umbilical e da artéria cerebral média, se identificará o crescimento fetal, bem como sua vitalidade e volume do líquido amniótico. Condutas Gerais • Deve haver a interpretação dos dados da anamnese, o exame clínico/obstétrico e a instituição de condutas específicas; • Deve-se orientar a gestante sobre a alimentação e o acompanhamento do ganho de peso gestacional; o Deve-se incentivar o aleitamento materno exclusivo até os seis meses; • Deve-se fornecer todas as informações necessárias e respostas às indagações da mulher, de seu companheiro e da família; • Deve-se prescrever suplementação de sulfato ferroso (40mg de ferro elementar/dia) e ácido fólico (5mg/dia) para profilaxia da anemia; • Deve-se orientar a gestante sobre os sinais de risco e a necessidade de assistência em cada caso; • Deve-se referenciar a gestante para atendimento odontológico; • Deve-se encaminhar a gestante para imunização antitetânica (vacina dupla viral), quando a paciente não estiver imunizada; • Deve-se referenciar a gestante para serviços especializados quando o procedimento for indicado. Entretanto, mesmo com referência para serviço especializado, a mulher deverá continuar sendo acompanhada, conjuntamente, na unidade básica de saúde; • Deve-se realizar ações e práticas educativas individuais e coletivas. Os grupos educativos para adolescentes devem ser exclusivos dessa faixa etária, devendo abordar temas de interesse do grupo. Recomenda-se dividir os grupos em faixas de 10-14 anos e de 15-19 anos, para obtenção de melhores resultados; • Deve-se agendar consultas subsequentes. Consultas Subsequentes Nas consultas subsequentes, devem ser realizados os seguintes procedimentos: • Anamnese atual sucinta: deve-se enfatizar a pesquisa das queixas mais comuns na gestação e dos sinais de intercorrências clínicas e obstétricas, com o propósito de se reavaliar o risco gestacional e de se realizar ações mais efetivas; • Exame físico direcionado (deve-se avaliar o bem- estar materno e fetal); • Verificação do calendário de vacinação; • Deve-se avaliar o resultado dos exames complementares; • Devem ser feitas a revisão e a atualização do Cartão da Gestante e da Ficha de Pré-Natal. Além disso, devemos executar as seguintes tarefas: I. Controles maternos: • Cálculo e anotação da idade gestacional; • Determinação do peso e cálculo do índice de massa corporal (IMC): anote no gráfico e realize a avaliação nutricional subsequente e o monitoramento do ganho de peso gestacional; • Medida da pressão arterial (observe a aferição da PA com técnica adequada); • Palpação obstétrica e medida da altura uterina (anote os dados no gráfico e observe o sentido da curva para avaliação do crescimento fetal); • Pesquisa de edema; • Exame ginecológico, incluindo das mamas, para observação do mamilo. II. Controles fetais: • Ausculta dos batimentos cardiofetais; • Avaliação dos movimentos percebidos pela mulher e/ou detectados no exame obstétrico/ registro dos movimentos fetais; • Teste de estímulo sonoro simplificado (Tess), se houver indicação clínica. Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2022.2 Página | 21 III. Condutas: • Interpretação dos dados da anamnese e do exame clínico/obstétrico e correlação com resultados de exames complementares; • Avaliação dos resultados de exames complementares e tratamento de alterações encontradas ou encaminhamento, se necessário; • Prescrição de suplementação de sulfato ferroso (40mg de ferro elementar/dia) e ácido fólico (5mg/dia), para profilaxia da anemia; • Oriente a gestante sobre alimentação e faça o acompanhamento do ganho de peso gestacional; • Incentive o aleitamento materno exclusivo até os seis meses; • Oriente a gestante sobre os sinais de risco e a necessidade de assistência em cada caso; • Faça o acompanhamento das condutas adotadas em serviços especializados, pois a mulher deverá continuar a ser acompanhada pela equipe da atenção básica; • Proceda à realização de ações e práticas educativas individuais e coletivas; • Faça o agendamento das consultas subsequentes. 5) RELACIONAR AS MEDIDAS OBSTÉTRICAS REALIZADAS CLINICAMENTE COM A AVALIAÇÃO DO CRESCIMENTO E VITALIDADE FETAL; Palpação obstétrica e medida da altura uterina (AU) Objetivos: • Identificar o crescimento fetal; • Diagnosticar os desvios da normalidade a partir da relação entre a altura uterina e a idade gestacional; • Identificar a situação e a apresentação fetal. A palpação obstétrica deve ser realizada antes da medida da altura uterina. Ela deve iniciar-se pela delimitação do fundo uterino, bem como de todo o contorno da superfície uterina (este procedimento reduz o risco de erro da medida da altura uterina). A identificação da situação e da apresentação fetal é feita por meio da palpação obstétrica, procurando-se identificar os polos cefálico e pélvico e o dorso fetal, facilmente identificados a partir do terceiro trimestre. Pode-se, ainda, estimar a quantidade de líquido amniótico. A percepção materna e a constatação objetiva de movimentos fetais, além do crescimento uterino, são sinais de boa vitalidade fetal. Técnica para palpação abdominal (Manobras de Leopold). Consiste em um método palpatório do abdome materno em 4 passos: • Delimite o fundo do útero com a borda cubital de ambas as mãos e reconheça a parte fetal que o ocupa; • Deslize as mãos do fundo uterino até o polo inferior do útero, procurando sentir o dorso e as pequenas partes do feto; • Explore a mobilidade do polo, que se apresenta no estreito superior pélvico; • Determine a situação fetal, colocando as mãos sobre as fossas ilíacas, deslizando-as em direção à escava pélvica e abarcando o polo fetal, que se apresenta. As situações que podem ser encontradas são: longitudinal (apresentação cefálica e pélvica), transversa (apresentação córmica) e oblíquas. O feto pode estar em situação longitudinal (mais comum) ou transversa. A situação transversa reduz a medida de altura uterina, podendo falsear sua relação com a idade gestacional. As apresentações mais frequentes são a cefálica e a pélvica. A situação transversa e a apresentação pélvica, ao final da gestação, podem significar risco no momento do parto. Nestas condições, a mulher deve ser referida Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2022.2 Página | 22 para a unidade hospitalar de referência que tenha condições de atender caso de distócia. Medida da Altura Uterina (AU) Objetivo: Visaao acompanhamento do crescimento fetal e à detecção precoce de alterações. Use como indicador a medida da altura uterina e sua relação com o número de semanas de gestação. Padrão de referência: curvas de altura uterina para idade gestacional desenhadas a partir dos dados do Centro Latino-Americano de Perinatologia (Clap). Existem, ainda, outras curvas nacionais e internacionais utilizadas por alguns serviços isoladamente. Ponto de corte: serão considerados parâmetros de normalidade para o crescimento uterino o percentil 10 (para o limite inferior) e o percentil 90 (para o limite superior). Representação do indicador por meio de gráfico constituído de duas linhas: a inferior representa o percentil 10, e a superior, o percentil 90. O resultado estará adequado quando estiver contido entre as duas linhas: excessivo (acima do percentil 90) e deficiente (abaixo do percentil 10). I. Técnica para medida da altura uterina • Posicione a gestante em decúbito dorsal, com o abdome descoberto; • Delimite a borda superior da sínfise púbica e o fundo uterino; • Por meio da palpação, procure corrigir a comum dextroversão uterina; • Fixe a extremidade inicial (0cm) da fita métrica, flexível e não extensível, na borda superior da sínfise púbica com uma das mãos, passando-a entre os dedos indicador e médio. • Deslize a fita métrica entre os dedos indicador e médio da outra mão até alcançar o fundo do útero com a margem cubital da mesma mão; • Proceda à leitura quando a borda cubital da mão atingir o fundo uterino; • Anote a medida (em centímetros) na ficha e no cartão e marque o ponto na curva da altura uterina. Entre as curvas inferiores e superiores → Siga o calendário de atendimento de rotina. Acima da curva superior → Atente para a possibilidade de erro de cálculo da idade gestacional (IG). A gestante deve ser vista pelo médico da unidade e deve ser avaliada a possibilidade de polidrâmnio, macrossomia, gestação gemelar, mola hidatiforme. Solicite ultrassonografia, se possível. Caso permaneça dúvida, marque retorno em 15 dias para reavaliação ou, se possível, faça o encaminhamento da paciente para o serviço de alto risco. Abaixo da curva inferior → Atente para a possibilidade de erro de cálculo da IG. A gestante deve ser vista pelo médico da unidade para se avaliar a possibilidade de feto morto, oligoidrâmnio, ou restrição de crescimento intrauterino. Solicite ultrassonografia, se possível. Caso permaneça dúvida, marque retorno em 15 dias para reavaliação ou, se possível, faça o encaminhamento da paciente para o serviço de alto risco. Consultas subsequentes, avaliação do traçado: Ausculta dos batimentos cardiofetais Objetivo: Constatar a cada consulta a presença, o ritmo, a frequência e a normalidade dos batimentos cardíacos fetais (BCF). Deve ser realizada com sonar, após 12 semanas de gestação, ou com Pinard, após 20 semanas. É considerada normal a frequência cardíaca fetal entre 120 a 160 batimentos por minuto. Observação: após uma contração uterina, a movimentação fetal ou o estímulo mecânico sobre o útero, um aumento transitório na frequência cardíaca fetal é sinal de boa vitalidade. Por outro lado, uma desaceleração ou a não alteração da frequência Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2022.2 Página | 23 cardíaca fetal, concomitante a estes eventos, é sinal de alerta, o que requer aplicação de metodologia para avaliação da vitalidade fetal. Nestes casos, recomenda- se referir a gestante para um nível de maior complexidade ou à maternidade. I. Técnica para ausculta dos batimentos cardiofetais • Posicione a gestante em decúbito dorsal, com o abdômen descoberto; • Identifique o dorso fetal. Além de realizar a palpação, deve-se perguntar à gestante em qual lado ela sente mais os movimentos fetais; o dorso estará no lado oposto; • Segure o estetoscópio de Pinard pelo tubo, encostando a extremidade de abertura mais ampla no local previamente identificado como correspondente ao dorso fetal; • Encoste o pavilhão da orelha na outra extremidade do estetoscópio; • Faça, com a cabeça, leve pressão sobre o estetoscópio e, só então, retire a mão que segura o tubo; • Quando disponível, utilize o sonar doppler; • Procure o ponto de melhor ausculta dos BCF na região do dorso fetal; • Controle o pulso da gestante para certificar-se de que os batimentos ouvidos são os do feto, já que as frequências são diferentes; • Conte os batimentos cardíacos fetais por um minuto, observando sua frequência e seu ritmo; • Registre os BCF na ficha perinatal e no Cartão da Gestante; • Avalie resultados da ausculta dos BCF Registro dos movimentos fetais Objetivo: Avaliação clínica do bem-estar fetal na gravidez a partir da 34ª semana gestacional. A presença de movimentos do feto sempre se correlacionou como sinal e constatação de vida; todavia, o monitoramento dos movimentos fetais como meio de avaliação do seu bem-estar é relativamente recente. Os padrões da atividade fetal mudam com a evolução da gravidez. Inicialmente, os movimentos são débeis e pouco frequentes, podendo ser confundidos pela gestante com outros fenômenos, como o peristaltismo. Gradativamente, à medida que prossegue a integração do sistema nervoso central com o sistema muscular do feto, os movimentos tornam-se rítmicos, fortes e contínuos. O ritmo da atividade fetal pode sofrer interferência tanto de fatores endógenos (como a presença de insuficiência placentária, isoimunização pelo fator Rh ou malformações congênitas) quanto de fatores exógenos (como a atividade materna excessiva, o uso de medicamentos sedativos, álcool e nicotina, entre outros). A presença de movimentos fetais ativos e frequentes é tranquilizadora quanto ao prognóstico fetal. Dada a boa correlação entre a subjetividade da percepção materna e a ultrassonografia em tempo real, resulta lógica a utilização do controle diário de movimentos fetais (mobilograma), realizado pela gestante, como instrumento de avaliação fetal simples, de baixo custo, que não requer instrumentalização e não tem contraindicações. Não existe na literatura padronização quanto ao método de registro. O importante é utilizar técnica simples e por período de tempo não muito longo, para não se tornar exaustivo e facilitar a sua realização sistemática pela mulher. Em gestação de baixo risco, o registro diário dos movimentos fetais pode ser iniciado a partir da 34ª semana gestacional. Existem vários métodos descritos. Método de registro diário de movimentos fetais (RDMF) O método descrito já foi testado e é utilizado em vários serviços. A gestante recebe as seguintes orientações: • Escolha um período do dia em que possa estar mais atenta aos movimentos fetais; • Alimente-se previamente ao início do registro; o • Sente-se com a mão sobre o abdome; • Registre os movimentos do feto nos espaços demarcados pelo formulário, anotando o horário de início e de término do registro. A contagem dos movimentos é realizada por período máximo de uma hora. Caso a gestante consiga registrar seis movimentos em menos tempo, não é necessário manter a observação durante uma hora completa. Entretanto, se após uma hora ela não foi capaz de contar seis movimentos, deverá repetir o procedimento. Se na próxima hora não sentir seis movimentos, deverá procurar imediatamente a Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2022.2 Página | 24 unidade de saúde. Assim, considera-se como “inatividade fetal” o registro com menos de seis movimentos por hora, em duas horas consecutivas. Para favorecer a cooperação materna em realizar o registro diário dos movimentos fetais, é importante que a gestante receba orientações adequadas quanto à importância da atividade do feto no controle de seubem-estar. Outro fator que interfere na qualidade do registro é o estímulo constante dado a cada consulta de pré-natal pelo profissional de saúde. 1º Alimente-se antes de começar o registro; 2º Fique em posição semi-sentada, com a mão no abdome; 3º Marque o horário de início; 4º Registre seis movimentos e marque o horário do último; 5º Se, em uma hora, o bebê não se mexer seis vezes, pare de contar os movimentos. Repita o registro. Se persistir a diminuição, procure a unidade de saúde. Obs.: A rotina de avaliação da movimentação fetal não deve ser recomendada. Não existem parâmetros na literatura médica para quantificar a normalidade dos movimentos fetais. A movimentação deve ser valorizada de acordo com a situação clínica de cada paciente. Há evidências contrárias à realização da cardiotocografia anteparto em gestações de baixo risco (em torno de 50% de falsos positivos). 6) DISCUTIR A RELAÇÃO DO MÉDICO COM A PACIENTE GRÁVIDA, FRENTE À SUA LABILIDADE EMOCIONAL; PRIMEIRA CONSULTA DO PRÉ-NATAL Ao procurar o médico para a primeira consulta de pré-natal, pressupõe-se que a mulher já pôde realizar uma série de elaborações diante do impacto do diagnóstico da gravidez. Nesse momento, de certa maneira, já ocorreram decisões mais conscientes quanto a dar continuidade à gestação. No entanto, existem inseguranças e no primeiro contato com o médico a gestante busca: confirmar sua gravidez; amparo nas suas dúvidas e ansiedades; certificar-se de que tem um bom corpo para gestar, certificar-se de que o bebé está bem: e apoio para seguir nessa "aventura". Sendo importante nessa fase: • Reconhecer o estado normal de ambivalência frente à gravidez. Toda gestante quer estar grávida e não quer estar grávida. É um momento em que muitas ansiedades e medos primilivos afloram, daí a necessidade de compreender essa ambivalência sem julgamentos; • Acolher as dúvidas que surjam na gestante quanto a sua capacidade de gerar um bebe saudável, de vir a ser mãe e desempenhar esse novo papel de forma adequada; • Reconhecer as condições emocionais dessa gestação se a gestante tem um companheiro ou está sozinha, se tem outros filhos, se conta com o apoio da família, se teve percas gestacionais, se desejou conscientemente engravidar e se planejou a gravidez. Enfim, o contexto em que essa gravidez ocorreu, e as repercussões dela na pertente; • Perceber esse estado de maior vulnerabilidade os quica da gestante e acolhe-la, sem banalizar suas queixas com o famoso "isso é normal"; Perceber que a gestante encontra-se psiquicamente regredida, buscando uma figura de apoio, assim, o médico fica muito idealizado e, por isso, passa a ser constantemente procurado e às vezes por dúvidas que possam ser insignificantes para ele, mas terrivelmente ameaçadoras para ela; • Estabelecer uma relação de confiança e respeito mútuos para que a empatia necessária ocorra e favoreça, por si só, a elaboração de muitas das fantasias da gestante; • Permitir um espaço para a participação do parceiro na consulta, para que ele possa também envolver- se no processo gravídico-puerperal ativamente, favorecendo um equilibrio adequado nas novas relações estabelecidas com a vinda de um novo membro da família. CONSULTAS SUBSEQUENTES Dando continuidade ao pré-natal, observam-se ao longo da gestação, algumas ansiedades típicas, ordenadas segundo uma divisão de trimestres. Ressalta-se, no entanto, que essa divisão é para efeito didático, pois o aparecimento dessas ansiedades - embora mais frequentes em determinados momentos, não estão necessariamente restritos a eles. No primeiro trimestre são frequentes a ambivalência (querer e não querer a gravidez), o medo de abortar, as oscilações do humor (aumento da irritabilidade), as primeiras modificações corporais e alguns desconfortos: náuseas, sonolência, alterações na maria o cansaço e os desejos e aversões por determinados alimentos. No segundo trimestre a ansiedade é de caráter quanto a introversão e passividade, a alteração do desejo e do desempenho sexual e a alteração do esquema corporal, e a percepção dos movimentos Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2022.2 Página | 25 fetais e seu impacto (presença do filho é concretamente sentida). E o terceiro trimestre é caracterizado pelas ansiedades que se intensificam com a proximidade do parto, os temores do parto (medo da dor e da morte) e consequentemente no um aumento das queixas físicas. Assim, neste momento é importante evitar o excesso de tecnicismo, estando atento também para essas características comuns das diferentes etapas da gravidez, criando condições para uma escuta acolhedora, continente, onde os sentimentos bons e ruins possam aparecer. Deve-se observar e respeitar a diferença de significado da ecografia para a mãe e para o médico. Os médicos relacionam a ecografia com a embriologia do feto e os pais com as características e personalidade do filho. Eles necessitam ser guiados o esclarecidos durante o exame pelo especialista e pelo obstetra. É de extrema importância fornecer orientações antecipatórias sobre a evolução do gestação e do parto: contrações, dilatação, perda do tampão mucoso, rompimento da bolsa. Deve, no entanto, evitar informações excessivas, procurando transmitir orientações simples e claras e observar o seu impacto em cada paciente, na sua individualidade. E por último deve preparar a paciente para os procedimentos médicos do pré-parto para aliviar as vivências negativas que causam mais impacto. 7) CARACTERIZAR GESTAÇÃO DE BAIXO E ALTO RISCO E IDENTIFICAR AS SITUAÇÕES EM QUE ELAS OCORREM. A gestação é um fenômeno fisiológico e deve ser vista pelas gestantes e equipes de saúde como parte de uma experiência de vida saudável que envolve mudanças dinâmicas do olhar físico, social e emocional. No entanto, devido a alguns fatores de risco, algumas gestantes podem apresentar maior probabilidade de evolução desfavorável. São as chamadas “gestantes de alto risco”. Com o objetivo de reduzir a morbimortalidade materno-infantil e ampliar o acesso com qualidade, é necessário que se identifiquem os fatores de risco gestacional o mais precocemente possível. Dessa forma, o acolhimento com classificação de risco pressupõe agilidade no atendimento e definição da necessidade de cuidado e da densidade tecnológica que devem ser ofertadas às usuárias em cada momento. De maneira geral, o acolhimento, em especial à gestante, objetiva fornecer não um diagnóstico, mas uma prioridade clínica, o que facilita a gestão da demanda espontânea e, consequentemente, permite que haja impacto na história natural de doenças agudas graves e potencialmente fatais, que, se não atendidas como prioridades, podem levar à morte, por exemplo, uma gestante com síndrome hipertensiva. Portanto, é indispensável que a avaliação do risco seja permanente, ou seja, aconteça em toda consulta. Em contrapartida, quando são identificados fatores associados a um pior prognóstico materno e perinatal, a gravidez é definida como de alto risco, passando a exigir avaliações mais frequentes, muitas vezes fazendo-se uso de procedimentos com maior densidade tecnológica. Nos casos em que não há necessidade de se utilizar alta densidade tecnológica em saúde e nos quais a morbidade e a mortalidade materna e perinatal são iguais ou menores do que as da população em geral, as gestações podem ser consideradas como de baixo risco. Assim definida, a gravidez de baixo risco somente pode ser confirmada ao final do processo gestacional, após o parto e o puerpério. O processo dinâmico e a complexidade das alterações funcionais e anatômicas que ocorrem no ciclo gestacional exigem avaliações continuadas e específicas em cada período. A atenção básica deve ser entendida como porta deentrada da Rede de Atenção à Saúde, como ordenadora do sistema de saúde brasileiro. Nas situações de emergência obstétrica, a equipe deve estar capacitada para diagnosticar precocemente os casos graves, iniciar o suporte básico de vida e acionar o serviço de remoção, para que haja a adequada continuidade do atendimento para os serviços de referência de emergências obstétricas da Rede de Atenção à Saúde. Dessa forma, a classificação de risco é um processo dinâmico de identificação dos pacientes que necessitam de tratamento imediato, de acordo com o potencial de risco, os agravos à saúde ou o grau de sofrimento. A caracterização de uma situação de risco, todavia, não implica necessariamente referência da gestante para acompanhamento em pré-natal de alto risco. As situações que envolvem fatores clínicos mais relevantes (risco real) e/ou fatores evitáveis que demandem intervenções com maior densidade tecnológica devem ser necessariamente referenciadas, podendo, contudo, retornar ao nível primário, quando se considerar a situação resolvida e/ou a intervenção já realizada. De qualquer maneira, a unidade básica de saúde deve continuar responsável pelo seguimento da gestante encaminhada a um diferente serviço de saúde. É importante que a equipe de atenção básica se baseie em sua experiência clínica para o encaminhamento da paciente. Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2022.2 Página | 26 FATORES DE RISCO QUE PERMITEM A REALIZAÇÃO DO PRÉ-NATAL PELA EQUIPE DE ATENÇÃO BÁSICA I. Fatores relacionados às características individuais e às condições sociodemográficas desfavoráveis: • Idade menor do que 15 e maior do que 35 anos; • Ocupação: esforço físico excessivo, carga horária extensa, rotatividade de horário, exposição a agentes físicos, químicos e biológicos, estresse; • Situação familiar insegura e não aceitação da gravidez, principalmente em se tratando de adolescente; • Situação conjugal insegura; • Baixa escolaridade (menor do que cinco anos de estudo regular); • Condições ambientais desfavoráveis; • Altura menor do que 1,45m; • IMC que evidencie baixo peso, sobrepeso ou obesidade. II. Fatores relacionados à história reprodutiva anterior: • Recém-nascido com restrição de crescimento, pré- termo ou malformado; • Macrossomia fetal; • Síndromes hemorrágicas ou hipertensivas; • Intervalo interpartal menor do que dois anos ou maior do que cinco anos; • Nuliparidade e multiparidade (cinco ou mais partos); • Cirurgia uterina anterior; • Três ou mais cesarianas. III. Fatores relacionados à gravidez atual: • Ganho ponderal inadequado; • Infecção urinária; • Anemia. FATORES DE RISCO QUE PODEM INDICAR ENCAMINHAMENTO AO PRÉ-NATAL DE ALTO RISCO O pré-natal de alto risco abrange cerca de 10% das gestações que cursam com critérios de risco, o que aumenta significativamente nestas gestantes a probabilidade de intercorrências e óbito materno e/ou fetal. Atenção especial deverá ser dispensada às grávidas com maiores riscos, a fim de reduzir a morbidade e a mortalidade materna e perinatal. I. Fatores relacionados às condições prévias: • Cardiopatias; • Pneumopatias graves (incluindo asma brônquica); • Nefropatias graves (como insuficiência renal crônica e em casos de transplantados); • Endocrinopatias (especialmente diabetes mellitus, hipotireoidismo e hipertireoidismo); • Doenças hematológicas (inclusive doença falciforme e talassemia); • Hipertensão arterial crônica e/ou paciente que faça uso de anti-hipertensivo (PA>140/90mmHg antes de 20 semanas de idade gestacional – IG); • Doenças neurológicas (como epilepsia); • Doenças psiquiátricas que necessitam de acompanhamento (psicoses, depressão grave etc.); • Doenças autoimunes (lúpus eritematoso sistêmico, outras colagenoses); • Alterações genéticas maternas; • Antecedente de trombose venosa profunda ou embolia pulmonar; • Ginecopatias (malformação uterina, miomatose, tumores anexiais e outras); • Portadoras de doenças infecciosas como hepatites, toxoplasmose, infecção pelo HIV, sífilis terciária (USG com malformação fetal) e outras DSTs (condiloma); • Hanseníase; • Tuberculose; • Dependência de drogas lícitas ou ilícitas; • Qualquer patologia clínica que necessite de acompanhamento especializado. II. Fatores relacionados à história reprodutiva anterior: • Morte intrauterina ou perinatal em gestação anterior, principalmente se for de causa desconhecida; • História prévia de doença hipertensiva da gestação, com mau resultado obstétrico e/ou perinatal (interrupção prematura da gestação, morte fetal intrauterina, síndrome Hellp, eclâmpsia, internação da mãe em UTI); • Abortamento habitual; • Esterilidade/infertilidade. III. Fatores relacionados à gravidez atual: • Restrição do crescimento intrauterino; • Polidrâmnio ou oligoidrâmnio; • Gemelaridade; • Malformações fetais ou arritmia fetal; • Distúrbios hipertensivos da gestação (hipertensão crônica preexistente, hipertensão gestacional ou transitória); Obs.: É necessário que haja evidência de medidas consecutivas que sugiram hipertensão. Nestas situações, não se deve encaminhar o caso com medida isolada. Em caso de suspeita de pré- eclâmpsia/eclâmpsia, deve-se encaminhar a paciente à emergência obstétrica. • Infecção urinária de repetição ou dois ou mais episódios de pielonefrite (toda gestante com Ana Beatriz Figuerêdo Almeida - Medicina 2022.2 Página | 27 pielonefrite deve ser inicialmente encaminhada ao hospital de referência, para avaliação); • Anemia grave ou não responsiva a 30-60 dias de tratamento com sulfato ferroso; • Portadoras de doenças infecciosas como hepatites, toxoplasmose, infecção pelo HIV, sífilis terciária (USG com malformação fetal) e outras DSTs (condiloma); • Infecções como a rubéola e a citomegalovirose adquiridas na gestação atual; • Evidência laboratorial de proteinúria; • Diabetes mellitus gestacional; • Desnutrição materna severa; • Obesidade mórbida ou baixo peso (nestes casos, deve-se encaminhar a gestante para avaliação nutricional); • NIC III (nestes casos, deve-se encaminhar a gestante ao oncologista); • Alta suspeita clínica de câncer de mama ou mamografia com Bi-rads III ou mais (nestes casos, deve-se encaminhar a gestante ao oncologista); • Adolescentes com fatores de risco psicossocial. FATORES DE RISCO PARA ENCAMINHAMENTO À URGÊNCIA/EMERGÊNCIA OBSTÉTRICA Os profissionais de saúde dos hospitais regionais e da emergência obstétrica deverão avaliar as gestantes encaminhadas e confirmar, ou não, o diagnóstico inicial, assim como determinar a conduta necessária para cada caso: internação hospitalar, referência ao pré-natal de alto risco ou contrarreferência para acompanhamento pela atenção básica. São fatores de risco: • Síndromes hemorrágicas (incluindo descolamento prematuro de placenta, placenta prévia), independentemente da dilatação cervical e da idade gestacional; • Suspeita de pré-eclâmpsia: pressão arterial > 140/90, medida após um mínimo de 5 minutos de repouso, na posição sentada. Quando estiver associada à proteinúria, pode-se usar o teste rápido de proteinúria; Obs.: Edema não é mais considerado critério diagnóstico (grau de recomendação C). • Sinais premonitórios de eclâmpsia em gestantes hipertensas: escotomas cintilantes, cefaleia típica occipital, epigastralgia ou dor intensa no hipocôndrio direito; • Eclâmpsia (crises convulsivas em pacientes com pré-eclâmpsia); • Crise hipertensiva (PA > 160/110); • Amniorrexe prematura: perda de líquido vaginal (consistência líquida, em pequena ou grande quantidade, mas de forma persistente), podendo ser observada mediante exame especular com manobra de Valsalva e elevação da apresentaçãofetal; • Isoimunização Rh; • Anemia grave (hemoglobina < 8); • Trabalho de parto prematuro (contrações e modificação de colo uterino em gestantes com menos de 36 semanas); • IG a partir de 41 semanas confirmadas; • Hipertermia (Tax > = 37,8C), na ausência de sinais ou sintomas clínicos de Ivas; • Suspeita/diagnóstico de abdome agudo em gestantes; • Suspeita/diagnóstico de pielonefrite, infecção ovular ou outra infecção que necessite de internação hospitalar; • Suspeita de trombose venosa profunda em gestantes (dor no membro inferior, edema localizado e/ou varicosidade aparente); • Investigação de prurido gestacional/icterícia; • Vômitos incoercíveis não responsivos ao tratamento, com comprometimento sistêmico com menos de 20 semanas; • Vômitos inexplicáveis no 3º trimestre; • Restrição de crescimento intrauterino; • Oligoidrâmnio; • Casos clínicos que necessitem de avaliação hospitalar: cefaleia intensa e súbita, sinais neurológicos, crise aguda de asma etc. Nos casos com menos de 20 semanas, as gestantes podem ser encaminhadas à emergência clínica. Óbito fetal Uma vez encaminhada para acompanhamento em um serviço de referência especializado em pré-natal de alto risco, é importante que a gestante não perca o vínculo com a sua equipe de atenção básica onde iniciou o seu acompanhamento de pré-natal. É importante também que a equipe seja informada a respeito da evolução da gravidez e dos tratamentos administrados à gestante por meio da contrarreferência, assim como são importantes a busca ativa e o acompanhamento das gestantes em sua área de abrangência, por meio da visita domiciliar mensal do ACS.