Prévia do material em texto
Fisiologia Veterinária II Eletrofisiologia Cardíaca SISTEMA DE CONDUÇÃO O sistema de condução, representado em amarelo na figura acima, é composto por estruturas similares à pequenos grânulos, os nodos ou nós, e feixes de fibras que se comportam como neurônios. Esse sistema se inicia no átrio direito, onde se localiza o nodo sinoatrial (SA), de onde partem fibras que se direcionam para o átrio esquerdo e fibras que se conectam com o nodo atrioventricular (AV), localizado na divisão entre os átrios e os ventrículos. Em seguida, tem-se a ramificação do feixe comum de His, que depois se ramifica também em ramo direito e ramo esquerdo de His. Estes últimos, por sua vez, se ramificam finalmente em fibras mais finas, chamadas fibras de Purkinje, que adentram por todo o miocárdio ventricular esquerdo e direito. Com esse arranjo, a atividade elétrica poderá ser propagada por todo o órgão de forma bastante eficiente e rápida. Essa atividade elétrica tem seu início no nodo SA, que é conhecido como marcapasso cardíaco, pois ele constitui uma estrutura com capacidade para gerar potenciais de ação de forma espontânea e contínua. Esses potenciais se propagam em alta velocidade pelas vias internodais, atingindo todo o átrio direito e também enviando fibras para o lado esquerdo. Depois, rapidamente também enviando as transmissões dos potenciais para o nodo AV. Do nodo AV, esses potenciais se propagam pelo feixe comum de His, e em seguida pelas ramificações dos feixes de His esquerdo e direito, e depois finalmente pelas fibras de Purkinje, atingindo todo o miocárdio ventricular. Essa forma de geração e condução dos potenciais de ação garante que os átrios direito e esquerdo sofram um processo de despolarização ao mesmo tempo, e após alguns milissegundos, os ventrículos direito e esquerdo sofram essa despolarização. Como a atividade elétrica precede a mecânica em um funcionamento normal, enquanto os átrios direito e esquerdo contraem (sístole atrial), os ventrículos se encontram relaxados (diástole). Quando os átrios relaxam, os ventrículos contraem conjuntamente. Essa forma de condução permite que a atividade elétrica dos átrios ocorra milissegundos antes da atividade elétrica dos ventrículos, garantido que os átrios contraiam enquanto os ventrículos relaxam e vice-versa. O sangue oriundo da circulação venosa (veias cavas) e pulmonar enche as câmaras atriais e aumenta a pressão dentro dos átrios, fazendo com que as válvulas atrioventriculares se abram (tricúspide – lado direito, e mitral – lado esquerdo). Nessa hora, os átrios se contraem e o volume total de sangue passa dos átrios para os ventrículos. Os ventrículos que se encontram em diástole vão sendo preenchidos com sangue até o momento em que a pressão também aumenta e eles se contraem, ejetando o volume de sangue presente nas câmaras ventriculares para a circulação sistêmica via aorta, e para a circulação pulmonar via artérias pulmonares. Tanto a musculatura quanto a inervação dos ventrículos são mais proeminentes do que as dos átrios, pois o volume sanguíneo passa dos átrios para os ventrículos de forma passiva. Quando aumenta a pressão dentro das câmaras atriais, as válvulas se abrem e a maior parte do sangue flui passivamente. Quando ocorre a contração dos átrios, é ejetado o volume final de sangue presente neles (cerca de 15 a 20%) para os ventrículos. Já os ventrículos, precisam de uma contração vigorosa e mais duradoura para ejetar o sangue para a aorta e para o tronco pulmonar, ou seja, o sangue não flui de forma passiva. O sistema de condução cardíaco é constituído por células musculares especializadas altamente excitáveis, que não se contraem e não geram força. Ele possui algumas características intrínsecas, que são: ▪ Automatismo Capacidade de gerar potenciais de ação espontaneamente. ▪ Condutibilidade Condução dos potenciais gerados por todo o sistema de condução numa sequência determinada de propagação. Na geração dos potenciais de ação no nodo SA, há semelhanças com outras células nervosas. A membrana dessas células sofre despolarização pela entrada de sódio, e repolarização pela saída de potássio. Mas também existem algumas diferenças, e a primeira delas é a participação de íons cálcio nesse processo, nas células do nodo SA. Para a despolarização da membrana das células do nodo sinoatrial, é necessário a entrada de cálcio para auxiliar nessa despolarização juntamente com o sódio. Na figura a seguir, é demonstrada a sequência dessa despolarização: CARACTERÍSTICAS DOS POTENCIAIS DE AÇÃO CARDÍACOS NO NODO SINOATRIAL • Células possuem automatismo • Despolarização: influxo Na+ • Deflexão inicial: influxo Ca++ (canais tipo T) • Repolarização: efluxo K+ Nas células contráteis, a despolarização vai se dar pela entrada de sódio, e após atingir o ápice, vai formar o que é conhecido como platô, visto no segundo retângulo da figura abaixo: Nas células do nó sinoatrial, há a entrada do sódio e do cálcio, despolarizando a membrana dessas células excitáveis. Depois ela é repolarizada pela saída de potássio. Nas células contráteis (miocárdicas), há a entrada de cálcio para a curva ascendente de despolarização, e depois uma entrada de Ca++ pelo canal lento de cálcio, que mantém essa despolarização mais prolongada (platô) antes de se abrirem os canais de potássio e a célula se repolarizar. VELOCIDADE DE CONDUÇÃO E PROPAGAÇÃO DO POTENCIAL DE AÇÃO CARDÍACO Os potenciais de ação gerados no nodo SA são propagados em velocidades distintas nas diferentes partes do coração. Nos átrios, gira em torno de 1 metro por segundo, e nos ventrículos cerca de 2 a 4 metros por segundo. No nodo atrioventricular, há uma redução na velocidade de propagação dos impulsos (0,01 - 0,05 m/s), e esse efeito é conhecido como retardo atrioventricular. Esse evento possibilita o fluxo de sangue dos átrios para os ventrículos antes que eles (V) se despolarizem e sofram contração. EXCITAÇÃO - CONTRAÇÃO NA FIBRA CARDÍACA As etapas observadas na contração da fibra miocárdica têm características muito semelhantes ao processo de contração das fibras esqueléticas (presença de sarcolema, túbulos T, retículo sarcoplasmático contendo cálcio, proteínas contráteis). Relembrando a estrutura, a miofibrila cardíaca é organizada em sarcômeros, com o arranjo dos filamentos finos contendo tropomiosina, troponina e actina, em contato com os filamentos espessos da miosina. Quando acontece a despolarização da membrana plasmática, os potenciais de ação são propagados para o interior da fibra miocárdica através dos túbulos T e promovem a abertura dos canais de cálcio (canais de cálcio voltagem-dependentes) na membrana, permitindo o influxo de Ca++ para o interior do miócito, ou seja, Ca++ do meio extracelular para o citosol da célula miocárdica. Isso faz com que o teor de cálcio intracelular aumente, propiciando a abertura de canais específicos de cálcio localizados na membrana do retículo sarcoplasmático (RS). A partir dessa abertura, o cálcio que está armazenado dentro do RS é liberado e se junta ao cálcio que já estava presente no citoplasma da célula miocárdica (liberação de cálcio induzida por cálcio). Dessa forma, íons cálcio ficam disponíveis em quantidades consideráveis para se ligar à troponina e promover toda aquela sequência de acoplamento e excitação vista nas fibras musculares (liga à troponina, desloca a tropomiosina, expõe os sítios de ligação actina-miosina, ciclo de ATP e formação de pontes cruzadas). ACOPLAMENTO EXCITAÇÃO - CONTRAÇÃO NOS MIÓCITOS O potencial de ação gerado é levado ao interior da fibra pelos túbulos T e aumenta a condutância ao Ca++, que flui do LEC para o LIC. O aumento de Ca++ intracelular promove liberação de mais Ca++ dos estoques do retículo sarcoplasmático → “Liberação de Ca++ induzidapor Ca++. O aumento adicional de Ca++ intracelular proporciona a combinação de Ca++ com troponina C, levando a alteração conformacional da tropomiosina e a desinibição dos sítios de fixação da miosina. Miosina e actina se unem formando as pontes cruzadas e deslizamento entre os filamentos finos e grossos → Contração. Cálcio se reacumula no retículo sarcoplasmático (ação da Ca++ ATPase) e ocorre o relaxamento das fibras. Ocorre redução do Ca++ intracelular → efluxo da célula pela ação da Ca ++ ATPase e troca Ca++ - Na+ ao nível da membrana do miócito. REGULAÇÃO AUTONÔMICA DO SISTEMA CARDIOVASCULAR O automatismo cardíaco ocorre sem a necessidade de um estímulo, mas é necessário um sistema regulador para modular todas essas ações automáticas que acontecem ao nível do sistema de condução. Para que ocorra a contração da fibra muscular esquelética, é necessária a ação da acetilcolina liberada pelo neurônio motor, nos receptores nicotínicos da placa motora da célula muscular esquelética. Na contração da fibra cardíaca, nenhum neurotransmissor é necessário para iniciar esse processo, já que o nó sinoatrial possui automatismo. Nesse caso, o papel do sistema nervoso autônomo na função cardíaca é atuar como um modulador dessas atividades contráteis. Há a participação de neurônios simpáticos e parassimpáticos nessa modulação. Os neurônios simpáticos são oriundos da medula torácica e irão inervar o nodo SA e também o nodo AV, um pouco menos a região do feixe de His e, dependendo da espécie, podem enviar fibras em menor densidade para a região dos ventrículos. Assim, o sistema simpático abrange uma região maior do coração, então quase todo o sistema de condução pode receber fibras simpáticas, onde a noradrenalina irá se ligar à receptores específicos promovendo sua ação. A ação primária mais importante, no entanto, é a ligação dessas fibras simpáticas no nodo SA, que é onde as fibras parassimpáticas também chegam. A origem das fibras parassimpáticas é no nervo vago, que é um nervo colinérgico produtor de acetilcolina, que irá se ligar à um receptor específico no nó sinoatrial. Dependendo da espécie, podem ter fibras parassimpáticas ao nível do nó atrioventricular, mas no restante do tecido de condução não. EFEITOS DO SNA SOBRE A FREQUÊNCIA CARDÍACA (CRONOTROPISMO) O sistema nervoso simpático possui um efeito cronotrópico positivo, ou seja, ele aumenta a frequência cardíaca. Isso ocorre, pois, a noradrenalina liberada pelos neurônios simpáticos ativa receptores 𝛽1 no nodo sinoatrial, aumentando o influxo de Na+ e, consequentemente, a velocidade de despolarização, o que gera mais potenciais de ação por unidade de tempo ( FC). Em contrapartida, o sistema nervoso parassimpático possui um efeito cronotrópico negativo, ou seja, diminui a frequência cardíaca. A acetilcolina oriunda do nervo vago ativa receptores do tipo muscarínicos (M2) no nodo SA, diminuindo o influxo de Na+ e consequentemente a velocidade de despolarização, o que diminui a geração de potenciais de ação ( FC). EFEITOS DO SNA SOBRE A VELOCIDADE DE CONDUÇÃO (DROMOTROPISMO) SNS: noradrenalina (NA) se liga à receptores 𝛽1 e aumenta a velocidade de condução no nodo AV. SNP: acetilcolina (ACH) se liga à receptores muscarínicos tipo 2 e diminui a velocidade de condução no nodo AV (bloqueios cardíacos). EFEITOS DO SNA SOBRE A CONTRATILIDADE (INOTROPISMO) SNS: efeito inotrópico positivo, ou seja, aumenta a força de contração. NA se liga à receptores 𝛽1 e ativa a proteína Gs (estimuladora), aumentando os níveis de AMPcíclico dentro da célula, que irá levar à fosforilação das proteínas dos canais de Ca++, aumentando o influxo de Ca++. SNP: efeito inotrópico negativo, ou seja, diminui a força de contração. ACH se liga à receptores muscarínicos tipo 2 e ativa a proteína Gi (inibitória), diminuindo os níveis de AMPcíclico dentro da célula, que irá levar à uma menor corrente de influxo de Ca++. FREQUÊNCIA CARDÍACA (ANIMAIS ADULTOS EM REPOUSO)