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CONTROLADORIA Bruno C. Souza Márcio L. Borinelli Este livro tem o propósito de apresentar aos alunos uma introdução à Controla- doria. Assim, a discussão desenvolvida nele tem como objetivo principal esta- belecer um panorama geral sobre o que é, como funciona e para que serve a Controladoria, tanto do ponto de vista teórico quanto do ponto de vista prático. No decorrer dos capítulos, os alunos compreenderão as principais ênfases do processo de gestão de uma organização, consubstanciadas nas etapas de planejamento, execução e controle das atividades empresariais, sempre com foco na maneira como a Controladoria pode auxiliar nesse processo. G es tã o C O N T R O L A D O R IA B ru no C . S ou za M ár ci o L. B or in el li Fundação Biblioteca Nacional ISBN 978-85-387-0384-6 9 7 8 8 5 3 8 7 0 3 8 4 6 50687_CAPA_Controladoria.indd 1 17/10/2016 08:47:58 Bruno C. Souza Márcio L. Borinelli IESDE BRASIL S/A Curitiba 2016 Controladoria 00_paginas_iniciais.indd 1 25/10/2016 16:42:06 CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ S713c Souza, Bruno Carlos $oOUroMBdorJB � 4oV[B #rVOo $BrMos� #orJOeđMJ .´rcJo -VJ[� m Curitiba, PR: IESDE BRASIL S/A, 2009. 268 p. 21 cm *OcMVJ CJĄMJogrBGJB ISBN 978-85-387-0384-6 �� $oOUroMBdorJB� �� "dNJOJsUrBºão GJOBOceJrB� *� #orJOeđMJ .´rcJo Luiz. II. Título. 16-36031 CDD: 658.15 CDU: 658.15 %JreJUos destB edJºão reserWBdos · 'BeM� ¡ QroJCJdB B reQrodVºão UoUBM oV QBrcJBM destB oCrB seN BVUorJ[Bºão eYQressB dB 'BeM� © 2009 – I E S D E B R A S I L S / A É pr oi bi d a a r e pr oduç ã o, m e s m o pa r c i a l , por qua l que r pr oc e s s o, s e m a u t or i z a ç ã o por e s c r i t o dos a ut or e s e do de t e nt or dos di r e i t os a ut or a i s . Todos os direitos reservados. IESDE BRASIL S/A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br Produção FAEL Direção Acadêmica Francisco Carlos Sardo Coordenação Editorial Raquel Andrade Lorenz Revisão IESDE Projeto Grá�co Sandro Niemicz Capa Vitor Bernardo Backes Lopes Imagem Capa Shutterstock.com / Hywards / ESB Pro�ssional Arte-Final Evelyn Caroline dos Santos Betim 50687_MIOLO_Controladoria.indb 2 17/10/2016 10:34:35 Sumário Carta ao Aluno | 5 1. Introdução à Controladoria | 7 2. Processo de gestão | 31 3. Demonstrações contábeis: Balanço Patrimonial | 57 4. Demonstrações contábeis: DRE e DFC | 81 5. Logística | 103 6. Métodos de custeio | 123 7. Gestão estratégica de custos | 145 8. Preço de venda | 165 9. Orçamento | 187 10. Governança corporativa | 209 Gabarito | 229 Referências | 257 50687_MIOLO_Controladoria.indb 3 17/10/2016 10:34:38 50687_MIOLO_Controladoria.indb 4 17/10/2016 10:34:38 Carta ao aluno Este livro tem o propósito de apresentar aos alunos uma introdução à Controladoria. Nesse sentido, a discussão que se segue tem como objetivo principal estabelecer um panorama geral sobre o que é, como funciona e para que serve a Controladoria, tanto do ponto de vista teórico quanto prático. No decorrer dos capítulos, os alunos compreenderão as principais ênfases do processo de gestão de uma organização, con- substanciadas nas etapas de planejamento, execução e controle das atividades empresariais, sempre focalizando como a Controladoria pode auxiliar nesse processo. Assim, as principais demonstrações contábeis – balanço patri- monial, demonstração do resultado do exercício e demonstração dos � uxos de caixa – são tratadas, uma vez que se constituem num pode- roso conjunto de informações disponibilizado pela Controladoria, para subsidiar o processo de gestão organizacional. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 5 17/10/2016 10:34:40 m � m Controladoria Além das demonstrações contábeis, outros instrumentos que auxiliam a empresa no alcance de seus objetivos, por intermédio da Controladoria e sempre com vistas no auxílio à otimização da rentabilidade, são discutidos, entre eles: logística, métodos de custeio, gestão estratégica de custos, preci�- cação e orçamento. Por �m, o livro apresenta e justi�ca aos pro�ssionais de Controladoria a importância da governança corporativa no desenvolvimento de boas prá- ticas para um ambiente de negócios dentro de um modelo de distribuição do poder. Nesse contexto, discute-se como a Controladoria pode auxiliar na gestão de riscos, com vistas à proteção dos valores da companhia e à maximi- zação dos lucros. Gostaria de agradecer, antes de tudo, a Deus. Dedico esse livro a uma pessoa maravilhosa: minha avó Hilda. Agradeço também ao Moisés, Ilda e Bianca pelo apoio e a dois pro�ssionais que me ajudaram nesse processo de re�exão: Lucas O. Santos e Juliana F. Homem. (Bruno C. Souza) 50687_MIOLO_Controladoria.indb 6 17/10/2016 10:34:40 Introdução à Controladoria A Controladoria é uma área de atuação relativamente nova no Brasil e ainda não está consolidada. Isso acontece, entre outras razões, porque tanto a literatura quanto a prática empresarial demonstram divergências quanto às principais funções, atividades, responsabilidades e formas de organização da Controladoria. Nesse sentido, a discussão que se segue tem como objetivo principal gerar um panorama geral sobre o que é, como funciona e para que serve a Controladoria, tanto do ponto de vista teórico quanto prático. 1 50687_MIOLO_Controladoria.indb 7 17/10/2016 10:34:43 Controladoria – 8 – 1.1 Uma mudança comportamental: da Contabilidade Gerencial1 à Controladoria Em 1987, em um turbulento período de transformações no cenário mundial político, econômico e tecnológico, os norte-americanos Johnson e Kaplan publicaram a obra Relevance Lost, alegando que a Contabilidade Gerencial tinha perdido sua relevância, o que causou uma verdadeira inquie- tação entre os estudiosos da área. Johnson e Kaplan discutem que na década de 1980 a Contabilidade Gerencial tinha atingido uma situação indesejá- vel porque os acadêmicos estavam ocupados demais desenvolvendo modelos altamente so�sticados, porém em cenários de produção estilizados e sim- pli�cados, como considerando que as empresas possuíam uma única linha de produtos, não sendo comparável aos fenômenos organizacionais reais. O sistema da Contabilidade Gerencial não apenas deixava de fornecer informa- ção relevante, como, também, desviava sua atenção de fatores críticos para o desempenho (Borinelli et al., 2005, p. 1-2). Várias razões foram apontadas pelos autores para essa perda de relevân- cia: crescimento e complexidade das organizações, in�uência das informações contábeis para usuários externos, maior importância à mensuração do que à gestão de custos, automação dos sistemas de informação e omissão aca- dêmica sobre o assunto. Assim, o Relevance Lost motivou a re�exão sobre o papel da Contabilidade Gerencial (LUFT, 1997, p. 163; MACDONALD; RICHARDSON, 2002, p. 120). Os principais desenvolvimentos da Contabilidade Gerencial estariam, a partir de então, focados em três principais áreas: mensuração de custos de produto, controle de processos e desempenho gerencial. Na área de men- suração, por exemplo, o modelo de Custeio Baseado em Atividades (ABC) foi criado com o propósito de tratar os custos e despesas de overhead2; tem como tarefa veri�car como os recursos são consumidos pelas atividades e 1 A Contabilidade Gerencial é uma aplicação da Contabilidade que tem como principal �- nalidade produzir informações destinadas a subsidiar o processo de gestão organizacional, in- formações estas que não necessitam seguir as exigências legais. Inclui informações de caráter �nanceiro e não �nanceiro (físico), enfatizando aspectostais como custos, mensuração de desempenho, análise de produtividade, satisfação de clientes etc. 2 Overhead é o recurso organizacional (custo ou despesa) utilizado na atividade de natureza administrativa. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 8 17/10/2016 10:34:43 – 9 – Introdução à Controladoria como as atividades são consumidas pelos objetos de custeio. Já no controle de processos, veri�ca-se, por exemplo, o desenvolvimento da Gestão Baseada em Atividades (ABM), que utiliza os princípios do ABC e se concentra na gestão de atividades como o caminho para melhorar o retorno da entidade. No que se refere ao desempenho gerencial nota-se o surgimento do Balanced Scorecard (BSC) como ferramenta de coordenação estratégica, vinculando as ações operacionais a quatro perspectivas diferentes: �nanceira, satisfação dos clientes, processos internos e capacidade de aprendizagem da organização. Além das contribuições mencionadas, houve o desenvolvimento de outros artefatos gerenciais. O custeio-alvo, desenvolvido originalmente no Japão, espalhou-se a partir de 1993 pela Alemanha e, em 1994, pelos Estados Unidos (SAKURAI, 1997; SAKURAI; SCARBROUGH, 1997). O custo da qualidade tornou-se bastante difundido, dado que a qualidade pode ser considerada um diferencial competitivo e passa-se, então, a mensurá-la com o intuito de buscar formas de otimizá-la (GARVIN, 1984). As abordagens de cadeia de valor, em que os custos são analisados dentro do contexto de uma cadeia e não de uma empresa especí�ca, são um signi�cativo avanço dentro da Contabilidade Gerencial, pois se passa a observar externamente o ambiente da empresa (HERGET; MORRIS, 1989). Alguns autores desenvolveram pesquisas empíricas para avaliar se os artefatos mais modernos utilizados pela Contabilidade Gerencial têm sido capazes de complementar ou substituir as práticas tradicionais. Chenhall e Lang�eld-Smith (1998) conduziram um estudo que examinou como as com- binações de técnicas de gestão e práticas de Contabilidade Gerencial podem aumentar o desempenho das organizações. Os autores incluíram uma série de artefatos gerenciais modernos constatando que, no grupo de empresas com desempenho mais alto, há a adoção de técnicas em maior intensidade que nos grupos de menor desempenho. Estudo semelhante foi feito por Soutes e Guerreiro (2007) com empresas que atuam no Brasil. Toda essa mudança comportamental da Contabilidade Gerencial exacerbou o papel da Controladoria, transformando-a de um departamento fazedor de relatórios para uma unidade criadora de valor na empresa, na qual as informações são elaboradas para subsidiarem o processo de gestão organizacional. Assim, torna-se crucial compreender que características 50687_MIOLO_Controladoria.indb 9 17/10/2016 10:34:43 Controladoria – 10 – assume a Controladoria ao exercer seu papel de auxiliar a organização no seu processo de gestão. 1.2 Controladoria Tendo em vista as diferentes visões encontradas na literatura sobre o que é, de fato, Controladoria e qual seu papel dentro das organizações, Borinelli (2006) empreendeu um estudo que resultou na sistematização de uma Estrutura Conceitual Básica de Controladoria (ECBC). Em tal estrutura (p. 95-96) o autor estabelece que a Controladoria precisa ser estudada em três perspectivas, a saber: conceitual, procedimental e organizacional. 2 Perspectiva conceitual (o que é) – diz respeito ao entendimento da Controladoria enquanto ramo de conhecimento, responsável pelo estabelecimento da estrutura conceitual que cerca o tema. Nessa perspectiva, três principais perguntas devem ser respondidas: o que é Controladoria, qual o seu objeto de estudo e quais são as rami- �cações ou subdivisões que pode assumir. Ainda nessa abordagem é possível veri�car a interface da Controladoria com outros ramos do saber. 2 Perspectiva procedimental (como funciona) – estuda os elementos relativos ao seu funcionamento nas organizações. Essa perspectiva deve contemplar respostas para quais são as funções, atividades e responsabilidades típicas da Controladoria e os instrumentos (arte- fatos) necessários para operacionalizá-la. 2 Perspectiva organizacional (como se materializa nas organizações) – gera uma re�exão da forma como estão disseminadas as atividades, funções e responsabilidades contempladas na perspectiva anterior pelos vários órgãos ou unidades organizacionais. Busca entender como o órgão Controladoria situa-se na estruturação organizacional. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 10 17/10/2016 10:34:43 – 11 – Introdução à Controladoria 1.2.1 Perspectiva conceitual O primeiro passo a �m de minimizar as contradições mencionadas no início deste tópico é de�nir o que é Controladoria. Depois de proceder a uma análise crítica das diversas de�nições e conceitos encontrados na literatura que versa sobre o tema, Borinelli (2006, p. 105) chegou à seguinte de�nição: “Controladoria é um conjunto de conhecimentos que se constituem em bases teóricas e conceituais de ordens operacional, econômica, financeira e patrimonial, relati- vas ao controle do processo de gestão organizacional.” De acordo com a de�nição do autor, Controladoria, para �ns de estru- tura conceitual, é um conjunto organizado de conhecimentos, doutrinas e princípios que estabelece bases teóricas e conceituais que fundamentam o tema Controladoria. Adicionalmente, o autor considera que tal base conceitual é multidisci- plinar, uma vez que abrange aspectos de outras teorias ou ciências. Finalmente, quando se refere ao controle do processo de gestão, o autor discute que a Controladoria, enquanto ramo do conhecimento, oferece sus- tentação teórica para os propósitos de gerenciamento, ao exercício do con- trole, à de�nição de metas, ao atendimento da necessidade dos gestores, à gestão econômica e à modelagem de sistema de informação, tanto no que tange aos aspectos internos, quanto no que se refere ao processo de gestão que leva em conta o ambiente externo da entidade. Outro elemento relevante da perspectiva conceitual é considerar qual o objeto de estudo da Controladoria, ou seja, qual o seu foco. De acordo com a ECBC sistematizada por Borinelli (2006), a Controladoria tem as 50687_MIOLO_Controladoria.indb 11 17/10/2016 10:34:43 Controladoria – 12 – organizações como objeto-alvo de estudo; desse modo, ela estuda o modelo organizacional como um todo, que pode ser subdividido em modelo de ges- tão, modelo de decisão e modelo de informação, como mostra a Figura 1, a seguir. Figura 1 - Visão esquemática do objeto de estudo da Controladoria Modelo de Gestão Modelo de Decisão Modelo de Informação Objeto de estudo da controladoria: As Organizações (Modelo Organizacional) Que conduzem ao processo de formação dos resultados: Modelo de Mensuração e Modelo de Identificação e Acumulação Subdividido em: Fonte: (BORINELLI, 2006, p. 109.) Um aspecto fundamental do objeto de estudo da Controladoria que deve ser analisado é o modelo de gestão da organização. Este compreende o conjunto de crenças, valores e princípios dos proprietários de uma empresa ou dos gestores de uma entidade, conjunto este que norteia a forma como será gerida a organização. De acordo com Catelli (2001), são as certezas e opiniões que dão diretrizes, orientam e norteiam o comportamento dos ges- tores quanto ao planejamento das atividades, ao controle das operações, aos recursos humanos, organizacionais, materiais etc. Ainda segundo o autor, do modelo de gestão da entidade decorre uma série de variáveis que impactam o comportamento de todo o sistema orga- nizacional, como exemplo: a existência ou não de planejamento e controle, o 50687_MIOLO_Controladoria.indb 12 17/10/2016 10:34:43 – 13 – Introdução à Controladoria grau de autonomia dos gestores, os critériosde avaliação de desempenho, e os papéis e posturas gerenciais. Assim, o modelo de gestão organizacional faz parte do objeto de estudo da Controladoria, uma vez que para que esta exerça adequadamente seu papel, ela necessitará compreender como a entidade esco- lheu ser gerida, em especial no que se refere às suas fases de planejamento e controle, nas ênfases operacional, econômica, �nanceira e patrimonial. O modelo de decisão, por sua vez, evidencia a forma como os gestores tomam suas decisões. Ele orienta o modo de gerar informações, calcado em como se de�niu que a entidade deveria ser gerida. Assim, a Controladoria considera o modelo de decisão como um de seus objetos de estudo, haja vista a necessidade de se produzir informações que estejam alinhadas com as demandas dos gestores e com o modo como estes decidem. A título de exemplo, não adianta a Controladoria gerar um relatório de rentabilidade de produtos segmentado por região se os diretores tomam decisões por unidades de negócio. Portanto, como o modelo de gestão estabelece de que forma os gestores devem decidir, torna-se necessário estudar as necessidades informacionais dos decisores. Por essa razão, o modelo de informação, o qual estabelece a forma como os relatórios devem ser preparados, passa a compor o objeto de estudo da Controladoria. Esse modelo de�ne as características que devem conter as informações organizacionais, tendo em vista as ações dos gestores em busca do que propõem os modelos de gestão e de decisão. Portanto, o modelo de informação constitui-se num dos objetos de estudo da Controladoria porque é por meio deste que a Controladoria se materializa em suas ações dentro de uma organização. O modelo de informação, por sua vez, é alimentado pelos modelos de mensuração e de identi�cação e acumulação. Nesse contexto, uma das maio- res di�culdades que se vê no ambiente de Controladoria é a mensuração de um evento econômico. Em um evento simples, tal como o reconhecimento e registro de um carro fabricado por uma empresa como seu ativo, por exemplo, pode-se ter pelo menos três valores a serem considerados: valor de custo, valor de mercado na visão do vendedor e valor de mercado na visão do comprador. A questão não é somente o valor correto, e sim qual é o valor que deve ser uti- lizado em cada situação. Por exemplo, se a empresa estiver em continuidade, 50687_MIOLO_Controladoria.indb 13 17/10/2016 10:34:43 Controladoria – 14 – provavelmente o valor que será visto no ativo dela é o valor de custo menos depreciações; porém, se ela estiver em risco de descontinuidade, o valor será de acordo com o mercado. A mensuração será base para gerar os dados para a informação, que por sua vez serve como fonte para o gestor tomar suas decisões. Portanto, o modelo de mensuração de�ne as diretrizes que devem ser seguidas pela organização quando do processo de mensuração de eventos e este se constitui, também, num objeto de estudo da Controladoria. O modelo de identi�cação e acumulação, por sua vez, de�ne como deve ser reconhecida, classi�cada e registrada uma transação ou um evento, bem como a forma de acumulação das transações e eventos, no que diz respeito ao ato de inserir os dados destes de forma organizada e em alinhamento com os modelos de decisão, gestão e informação. A título de exemplo, o modelo de identi�cação e acumulação de�ne, por exemplo, se os eventos e transações serão acumulados e evidenciados por região, por unidade de negócio, por produto, se mensalmente, trimestralmente, semestralmente etc. Ressalte-se que todos os modelos devem interagir dentro do convívio social da organização. Desse modo, a Controladoria se preocupa com o aspecto da vida social – motivo pelo qual é parte das Ciências Sociais Aplicadas. É a área que se preocupa com o efeito que a ação do homem causa sobre os resul- tados de uma organização, por isso a necessidade de a Controladoria ter como seus objetos de estudo todos os modelos ora discutidos. A perspectiva conceitual leva em conta, também, a interação que a Controladoria possui com os diversos ramos do saber cientí�co, principal- mente nas seguintes áreas do conhecimento: Contabilidade, Administração, Economia, Direito, Estatística, Matemática, Psicologia e Sociologia (BORINELLI, 2006, p. 112). Vejamos a seguir como cada uma delas interage com a Controladoria. 2 Contabilidade: fornece conceitos para identi�cação, classi�cação, registro e sumarização das transações e eventos resultantes das operações econômicas realizadas pela organização. O intuito é a produção de informações que serão utilizadas no processo de pla- nejamento, execução e controle organizacional. Desse modo, a Contabilidade fornece a linguagem para a Controladoria. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 14 17/10/2016 10:34:43 – 15 – Introdução à Controladoria 2 Administração: fornece os conceitos de gestão para balizar os fun- damentos teóricos dos quais a Controladoria se utilizará para o controle do processo de gestão organizacional, como também, do accountability, que, segundo Nakagawa (1993, p. 17), é a “[...] obrigação de se prestar contas dos resultados obtidos, em função das responsabilidades que decorrem de uma delegação de poder”. 2 Economia: fornece conceitos econômicos que permitem mensurar, monetária e economicamente, todos os processos organizacionais. É da Economia que se extrai o conceito de valor econômico, ele- mento fundamental na avaliação dos ativos da empresa e na apura- ção de resultados, os quais são importantes para exercer o controle do processo de gestão organizacional. 2 Direito: �xa normas que regulam direitos e deveres individuais e sociais; a Controladoria deve levar em consideração essas regras de conduta para respeitar as relações jurídicas nas quais a organização está inserida. Um exemplo claro são os regulamentos tributários, que são utilizados como base para o planejamento tributário de uma organização. 2 Estatística: fornece conceitos relativos à coleta, organização, descri- ção, análise e interpretação de dados que servem de estudo e medi- ção dos fenômenos relacionados ao controle organizacional. Por exemplo, no planejamento das ações futuras, a teoria da probabili- dade oferece subsídios para a realização de estudos de alternativas em condições de risco e incerteza. 2 Matemática: fornece a estrutura conceitual referente a símbolos, valores e métricas, para que a Controladoria possa materializar suas quanti�cações monetárias e físicas, ou seja, mensurar os valores econômicos para a geração de informações nos relatórios destinadas ao controle do processo de gestão. 2 Psicologia: auxilia no entendimento do comportamento humano. Sabendo que a organização é comandada por seres humanos que se relacionam continuamente, é fundamental o entendimento do comportamento destes nas tomadas de decisão, pois tais decisões 50687_MIOLO_Controladoria.indb 15 17/10/2016 10:34:43 Controladoria – 16 – provocam efeito comportamental que irá in�uir na forma de con- trole organizacional. 2 Sociologia: auxilia no entendimento da forma de convivência que as organizações adotam. Nessa forma de convivência estão relacio- namentos de autoridade, de responsabilidade, níveis de poder, pro- cessos de centralização e descentralização de funções. Todos esses elementos, que são objeto de estudo da Sociologia, são aspectos que estão relacionados diretamente com o processo de gestão organiza- cional, foco da Controladoria. Encerrando a perspectiva conceitual, é mister considerar como a Controladoria é segmentada, para, dentro de uma visão sistêmica, compreen- der o todo denominado Controladoria a partir de suas subdivisões. A ECBC sistematizada por Borinelli (2006, p. 121) enumera duas formas de rami�ca- ção ou subdivisão da Controladoria: 2 quanto à natureza daorganização em que se aplica – Controladoria Empresarial, Controladoria Pública e Controladoria em Entidades do Terceiro Setor; 2 quanto à área de e�cácia dentro da organização – Controladoria Corporativa e Controladoria de Unidade – esta podendo dividir-se em Controladoria de Filial, de Planta, de Marketing, de Divisão, de Unidade de Negócio etc. 1.2.2 Perspectiva procedimental As considerações discutidas a partir desse momento levam em conta ape- nas o enfoque das atividades e funções da Controladoria no contexto do ramo de conhecimento. O que se quer entender é o que se espera da Controladoria, em termos de atividades e funções típicas dessa área do saber quando esta for colocada em prática, dentro das organizações. É importante esclarecer, conforme discute Borinelli (2006, p. 125), que a literatura estudada utiliza as expressões funções, atividades, responsabili- dades, atribuições, entre outras, quando coloca em questão o papel do con- troller. As diversas expressões utilizadas na literatura são aqui sintetizadas em funções. Uma função corresponde a uma agregação de atividades que têm 50687_MIOLO_Controladoria.indb 16 17/10/2016 10:34:43 – 17 – Introdução à Controladoria propósito comum (NAKAGAWA, 1994, p. 44), como: compras, vendas, produção, marketing, �nanças, segurança, qualidade etc. O autor comple- menta: “[...] a de�nição de uma função deve responder o mais precisamente possível à questão: ‘o que ela (função) faz?’ A resposta deverá conter um verbo transitivo acompanhado de seu objeto direto” (exemplo: comprar materiais). Borinelli (2006, p. 127-128) fez uma pesquisa com 47 textos (livros, papers, dissertações e teses) de autores que discutem as atividades de Controladoria, separando em 28 obras de autores brasileiros e 19 estrangei- ros. Com base nessa pesquisa, o autor apresenta uma relação das atividades de Controladoria mais citadas pelos respectivos autores. Os dados estão em porcentagem em relação ao total de material pesquisado de cada grupo, con- forme quadro 1. Quadro 1 – Resumo das atividades de Controladoria mais citadas, segundo a literatura Atividades Autores (em %) BRA EST 1 Gerenciar o departamento de Contabilidade. 29 21 2 Desenvolver e gerenciar o sistema de informação. 24 32 3 Implementar e manter todos os registros contábeis. 21 58 4 Elaborar demonstrações contábeis. 25 58 5 Atender aos agentes de mercado (preparar informações). 36 47 6 Realizar o registro e controle patrimonial (ativos fixos). 14 32 7 Gerenciar impostos (registro, recolhimento, supervisão etc.) 25 37 8 Desenvolver e gerenciar o sistema de custos. 29 42 9 Realizar auditoria interna. 25 26 10 Desenvolver e gerenciar o sistema de informações gerenciais. 82 11 11 Prover suporte ao processo de gestão, com informações. 79 63 12 Coordenar os esforços dos gestores das áreas (sinergia). 39 11 13 Elaborar, coordenar e assessorar na elaboração do planejamento da organização (agrupadas). 36 32 50687_MIOLO_Controladoria.indb 17 17/10/2016 10:34:43 Controladoria – 18 – Atividades Autores (em %) BRA EST 14 Elaborar, coordenar, consolidar e assessorar na elab- oração do orçamento das áreas (agrupadas). 29 58 15 Desenvolver, acompanhar e assessorar o con- trole do planejamento/orçamento (agrupadas). 39 47 16 Desenvolver políticas e procedimentos contábeis e de controle. 11 37 Fonte: (BORINELLI, 2006, p. 133.) Como evidencia o quadro 1, mesmo sendo as atividades mais citadas na literatura pesquisada por Borinelli, há muitas diferenças entre o que um autor reconhece como atividade típica de Controladoria e o que outro autor reconhece. 1.2.2.1 Funções Diante da lista de atividades de Controladoria encontrada na literatura e considerando a proposta de Nakagawa (1994, p. 42-44), em que um con- junto de atividades forma uma função, Borinelli (2006, p. 135) optou por organizar tais atividades dentro de suas respectivas funções. Nesse sentido, aquele autor chegou a oito funções típicas de Controladoria, com suas respec- tivas atividades, conforme quadro 2. Antes, porém, vale esclarecer que as funções aqui apresentadas são con- sideradas “funções típicas de Controladoria”, o que não corresponde neces- sariamente às funções da área organizacional Controladoria, ou seja, aque- las funções atribuídas pela administração de uma organização à sua área de Controladoria. Como destaca Borinelli (2006, p. 98), “[...] há funções ‘de’ Controladoria (aspecto conceitual) e funções ‘da’ área organizacional de mesmo nome (aspecto organizacional).” 50687_MIOLO_Controladoria.indb 18 17/10/2016 10:34:43 – 19 – Introdução à Controladoria Quadro 2 – Funções de Controladoria e suas atividades Função Atividades 1) Contábil Desenvolver a contabilidade financeira (ou societária), gerenciar as atividades de contabilidade, implementar e manter todos os regis- tros contábeis, elaborar as demonstrações contábeis, atender aos agentes do mercado (stakeholders) em suas demandas informacio- nais, proceder análise interpretativa das demonstrações contábeis e desenvolver políticas e procedimentos contábeis e de controle. 2) Gerencial estratégica Gerencial – prover informações de natureza contábil, patrimo- nial, econômica, financeira e não financeira ao processo de gestão como um todo; coordenar, assessorar e consolidar os processos de elaboração de planos empresarias, orçamentos e previsões; acompanhar o plano comparativamente com o real; auxiliar na definição de métodos e processos para medição do desempenho; auxiliar na definição e gestão de preços de transferências ger- enciais; realizar estudos sobre análise de viabilidade econômica de projetos de investimentos; desenvolver condições para a real- ização da gestão econômica e proceder à avaliação econômica. Estratégica – prover informações que permitam aos executivos construir as estratégias da organização, bem como obter feedback do desempenho relativo às estratégias escolhidas e adotadas, entre elas: se e como os objetivos estratégicos estão sendo atingidos; eviden- ciar como e em que atividades a organização está produzindo valor; analisar os diversos processos organizacionais e suas inter-relações; demonstrar se e como os recursos empregados pela entidade lhe conferem vantagem competitiva; acompanhar o mercado, de forma a identificar, prever, mensurar e avaliar o impacto das forças críti- cas ambientais sobre os resultados da empresa (oportunidades e ameaças) – o que significa prover informações sobre a concorrên- cia, os fornecedores, os clientes, e até mesmo os consumidores. 3) Custos Registrar, mensurar, controlar, analisar e avaliar os custos da organização, incluindo análises gerenciais e estratégicas referentes à viabilidade de lançamento de bens e serviços e resultados de entidades objetos de custeio (produtos, clientes, projetos, centros de responsabilidades, centro de custos, linhas de negócios etc.). 50687_MIOLO_Controladoria.indb 19 17/10/2016 10:34:43 Controladoria – 20 – Função Atividades 4) Tributária Desenvolver a contabilidade tributária (ou fiscal); atender às obrigações legais, fiscais e acessórias previstas em leis e normas tributárias; registrar, apurar e controlar impostos, tributos e con- tribuições; elaborar o planejamento tributário da organização. 5) Proteção e controle dos ativos Prover proteção aos ativos; analisar e contra- tar opções de seguros, além de controlá-los; regis- trar e controlar todos os bens da organização. 6) Controle interno Estabelecer e monitorar o sistema de controles inter- nos destinado a proteger o patrimônio organizacio- nal e salvaguardar os interesses da entidade. 7) Controle de riscos Identificar, mensurar, analisar, avaliar, divulgar e controlar os diver- sos riscos envolvidos no negócio,bem como seus possíveis efeitos. 8) Gestão da informação Desenvolver, implementar e gerir o sistema de informações; conce- ber modelos de informações e gerenciar as informações contábeis, econômicas, financeiras, patrimoniais, gerenciais e estratégicas. Não se incluem, aqui, as atividades relativas a gerir a tecnolo- gia e infraestrutura de tais sistemas, mas, tão-somente, aquelas identificadas com os aspectos conceituais das informações. Fonte: (BORINELLI, 2006, p. 135-139. Adaptado.) 1.2.3 Instrumentos (artefatos) Uma vez que se pode enumerar as atividades e funções típicas de Controladoria, é possível relacionar quais são os artefatos necessários ao desempenho dessas atividades e funções. De acordo com Borinelli (2006, p. 185), os artefatos “[...] compreen- dem um conjunto de conceitos, modelos, métodos, sistemas e �loso�as utili- zados no desenvolvimento das atividades e funções de Controladoria”. Via de regra, esses artefatos (instrumentos) são agrupados em três categorias: a) métodos, critérios e sistemas de custeio; b) métodos de mensuração e avaliação, e medidas de desempenho; c) �loso�as e modelos de gestão. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 20 17/10/2016 10:34:43 – 21 – Introdução à Controladoria A seguir é demonstrada uma lista exempli�cativa desses intrumentos: a) métodos, critérios e sistemas de custeio 2 Custeio por Absorção 2 Custeio Baseado em Atividades 2 Custeio Variável 2 Custo Padrão 2 Custo de Reposição 2 Total Cost of Ownership b) métodos de mensuração e avaliação, e medidas de desempenho; 2 Preços de transferência 2 Moeda constante 2 Valor presente 2 Retorno sobre o Investimento 2 Economic Value Added (EVA) 2 Market Value Added (MVA) c) �loso�as e modelos de gestão. 2 Planejamento 2 Orçamento 2 Beyond Budgeting 2 Teoria das Restrições 2 Balanced Scorecard (BSC) 2 Gestão Baseada em Valor (VBM) 2 Análise de Cadeia de Valor 2 Planejamento Tributário 2 Mapa de Gestão de Riscos 50687_MIOLO_Controladoria.indb 21 17/10/2016 10:34:43 Controladoria – 22 – 1.2.4 Perspectiva organizacional A perspectiva organizacional, como dito anteriormente, é aquela que entende a Controladoria enquanto uma área constante no sistema formal de uma organização, ou seja, trata-se da estruturação da unidade organizacional que desenvolve atividades e funções de Controladoria. Nessa perspectiva, o objetivo é compreender como os itens discutidos nas duas perspectivas ante- riores (conceitual e procedimental) tomam forma dentro das organizações. Com base no que se encontra em Borinelli (2006, p. 189), a estrutura- ção da unidade organizacional Controladoria pode ser entendida com base na resposta a cinco perguntas, conforme o quadro 3. Quadro 3 – Perguntas e respostas sobre a perspectiva organizacional Perguntas Respostas 1) Há, ou deve haver, de fato, no sistema formal das organizações, uma área que recebe a denom- inação Controladoria? Deve haver, no sistema formal das organizações, uma unidade organizacional que realize as atividades de Controladoria de caráter corporativo ou divisional (de planta, de marketing etc.), as quais precisam ser desenvolvidas de forma macro, e que consolide as atividades realizadas de forma descentralizada. 2) Quando há uma unidade administrativa que recebe o nome Controladoria, como esta é definida? É o órgão do sistema da organização responsável pelo controle do processo de gestão e pela ger- ação e fornecimento de informações de ordens operacional, econômica, financeira e patrimo- nial demandadas (i) para assessorar as demais unidades organizacionais durante todo processo de gestão, buscando integrar os esforços dos gestores para se obter um resultado otimizado e (ii) pelos agentes externos que se relacionam com a empresa, para suas tomadas de decisões. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 22 17/10/2016 10:34:43 – 23 – Introdução à Controladoria Perguntas Respostas 3) Qual sua missão? Zelar pela sobrevivência e continuidade da orga- nização, por meio de um processo permanente de promoção, coordenação e integração dos esforços de cada uma das partes que formam o todo orga- nizacional, de maneira a assegurar a eficácia e a otimização do resultado econômico da entidade. 4) Quais seus objetivos? Subsidiar o processo de gestão. Garantir adequadas informações. Monitorar os efeitos das decisões. Colaborar com os gestores na busca da eficácia de sua área. Administrar as sinergias existentes entre as áreas. Zelar pelo bom desempenho da organização. Viabilizar a gestão econômica. Criar condições para se exercer controles. Contribuir para o aperfeiçoamento de processos internos. Desenvolver relações com os stakeholders, a fim de atender às demandas por eles impostas à organização. 5) Qual a sua posição hierárquica no organograma? Subordinada ao principal executivo (presidente), para ter independência e liberdade necessária ao acompanhamento das operações realiza- das, sendo independente hierarquicamente em relação às demais áreas da organização. Autoridade de órgão de linha para fazer o processo de gestão e de tomada de decisão acontecerem, juntamente com os demais órgãos e funções da organização, ou seja, deve ser corresponsável pelas decisões tomadas e resultados auferidos. Fonte: (BORINELLI, 2006, p. 189-219. Adaptado.) 50687_MIOLO_Controladoria.indb 23 17/10/2016 10:34:43 Controladoria – 24 – Apesar das bases teóricas, pesquisas e estudos sobre o assunto, conside- ra-se que os temas aqui tratados não fazem parte de uma visão consensual. Não obstante, todos os itens discutidos re�etem o pensamento desses autores sobre a Controladoria. Por essa razão, considera-se importante o quadro ante- riormente apresentado respondendo às principais perguntas, pois as diferentes atividades e funções de Controladoria podem estar espalhadas pelas diversas unidades organizacionais. Ressalte-se, por �m, que, na prática, as entidades optam por modos dife- rentes de organizar a Controladoria, levando em conta seu modelo de gestão e outros aspectos. Portanto, essa perspectiva organizacional representa um direcionamento de aspectos comuns à unidade organizacional Controladoria. 1.3 Resumo A Controladoria é uma área de atuação relativamente nova no Brasil. Para entender o papel da Controladoria, dividiu-se o estudo em três pers- pectivas: conceitual, procedimental e organizacional. A perspectiva concei- tual diz respeito ao ramo de conhecimento, responsável pelo estabelecimento da estrutura conceitual. Nela se encontra a de�nição de Controladoria, seu objeto de estudo, suas rami�cações, além da interface com outras áreas do saber. A perspectiva procedimental, por sua vez, estuda os elementos relati- vos ao funcionamento da Controladoria, quando o ramo do conhecimento for materializar-se nas organizações. Assim, enumera as atividades, funções e artefatos (instrumentos) típicos de Controladoria. Já na perspectiva organi- zacional busca-se entender como o órgão Controladoria situa-se na estrutu- ração organizacional. O estudo evidenciou que a Controladoria é um conjunto organizado de doutrinas com estabelecimento de bases teóricas e conceituais, utilizan- do-se de outras teorias ou ciências para buscar fundamento aos propósitos de gerenciamento, exercício do controle, de�nição de metas, atendimento da necessidade dos gestores, gestão econômica e modelagem de sistema de infor- mação. Tem como principal objeto de estudo as organizações. Veri�cou-se também que a Controladoria tem interações com diversos ramos do saber 50687_MIOLO_Controladoria.indb 24 17/10/2016 10:34:43 – 25 – Introdução à Controladoria cientí�co, principalmente Contabilidade, Administração, Economia,Direito, Estatística, Matemática, Psicologia e Sociologia. As diversas atividades da Controladoria podem ser divididas em oito fun- ções: Contábil, Gerencial Estratégica, Custos, Tributária, Proteção e Controle de Ativos, Controle Interno, Controle de Riscos e Gestão da Informação. Ademais, a Controladoria no desempenho de seu papel (atividades e fun- ções) precisa valer-se de alguns artefatos (instrumentos) que se dividem em (i) métodos, critérios e sistemas de custeio, (ii) métodos de mensuração e avaliação e medidas de desempenho e (iii) �loso�as e modelos de gestão. Alguns exemplos desses artefatos são: preços de transferência, Gestão Baseada em Atividades (ABM), Gecon (Modelo de Gestão Econômica), Balanced Scorecard (BSC), Gestão de Custos Interorganizacionais (GCI), Planejamento Tributário, entre outros. Finalmente, considera-se que deve haver uma unidade organizacional, com missão e objetivos claramente de�nidos, que realize as atividades de Controladoria de caráter corporativo ou divisional, subordinada ao principal executivo, para ter independência em relação às demais áreas da organização e atuando como órgão de linha. Não obstante, na prática, as entidades optam por modos diferentes de estruturar a unidade organizacional Controladoria, levando em conta seu modelo de gestão, entre outros aspectos. Ampliando seus conhecimentos O perfil do profissional sob a luz dos anúncios de recrutamento (SOUZA; BORINELLI)3 Este texto complementar é parte de um artigo que investiga as características demandadas do profissional de Controladoria, 3 Texto ainda não publicado. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 25 17/10/2016 10:34:43 Controladoria – 26 – com base nos anúncios publicados por empresas de recruta- mento. Os anúncios foram separados em dois grupos, com objetivo de distinguir os níveis na pirâmide organizacional. O grupo 1 engloba os profissionais mais próximos de atividades operacionais e o grupo 2 contempla características mais táticas ou gerenciais. Grupo 1: 2 Cargos oferecidos: analista contábil, analista de controla- doria, analista de gestão, analista de orçamento, analista financeiro, assistant controller, entre outros. 2 Subordinação: coordenador contábil, gerente de custos e orçamento, gerente de Controladoria, gerente finan- ceiro, controller, controller corporativo, entre outros. 2 Remuneração anual: de R$30.000,00 a R$110.000,00. Grupo 2: 2 Cargos oferecidos: controller, controller corporativo, especialista de planejamento financeiro, gerente admin- istrativo e financeiro, entre outros. 2 Subordinação: diretor administrativo, diretor de unidade, diretor financeiro, diretor geral, presidente, entre outros. 2 Remuneração anual: de R$130.000,00 a R$340.000,00. Perfil do profissional Este tópico descreve, analisa e interpreta os dados referentes às características demandadas do profissional de Controladoria no momento do recrutamento, tais como formação acadêmica desejada, línguas requisitadas, experiências anteriores e fun- ções de Controladoria. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 26 17/10/2016 10:34:43 – 27 – Introdução à Controladoria Tabela 1 – Formação acadêmica desejada pelas oportunidades oferecidas Formação Grupo 1 Grupo 2 Total Ciências Contábeis 35 76% 34 76% 69 76% Administração 33 72% 27 60% 60 66% Economia 32 70% 26 58% 58 64% Pós-graduação 11 24% 15 33% 26 29% Engenharia 14 30% 6 13% 20 22% A formação mais requisitada é a de Ciências Contábeis (76%), seguida por Administração (66%), Economia (64%) e Engenharia (22%). A pós-graduação é um requisito mais exigido do nível 2 (33%) do que no nível 1 (24%); isso faz sentido na medida em que os profissionais do grupo 2 comandam os profissionais do grupo 1, evidenciando, então, que eles precisam de um conteúdo infor- macional maior. No entanto, chama a atenção, tendo em vista as características atuais do mercado de trabalho, que somente 29% dos anúncios exijam pós-graduação. Ressalte-se, ainda, que no grupo 2, do total de 15 anúncios que solicitam pós-graduação, seis são considerados pré-requisitos, quatro são considerados desejáveis e dois consideram diferencial. Tabela 2 – Línguas requisitadas nos anúncios Línguas Grupo 1 Grupo 2 Total Inglês 40 87% 39 87% 79 87% Espanhol 2 4% 7 16% 9 10% Japonês 1 2% 1 2% 2 2% Alemão 1 2% 0 0% 1 1% No que se refere à exigência de uma segunda língua, 87% dos anúncios solicitam, formalmente, a língua inglesa. Isso representa um forte direcionamento da profissão para a 50687_MIOLO_Controladoria.indb 27 17/10/2016 10:34:43 Controladoria – 28 – internacionalização e pode ser um sinal para as instituições de ensino atentarem-se para essa característica nos profissio- nais formados por elas. Uma terceira língua ainda está sendo pouco necessária para os dois níveis e, quando requisitado, a espanhola é a mais citada. Tabela 3 – Experiências específicas Ferramentas Grupo 1 Grupo 2 Total ERP 13 28% 8 18% 21 23% US GAAP 10 22% 10 22% 20 22% IFRS 3 7% 11 24% 14 15% Big Four 6 13% 7 16% 13 14% SOX 5 11% 3 7% 8 9% Referente às exigências sobre conhecimento de técnicas e ferramentas, a solicitação mais repetida é ter conhecimento sobre sistemas integrados, caso dos ERPs, (23%), seguido logo pelo conhecimento de normas americanas de contabili- dade – US GAAP (22%) e normas de contabilidade inter- nacionais – IFRS (15%). Interessante notar que 14% dos anún- cios mencionam experiências em uma das grandes auditorias internacionais, como as tradicionais Big Four (PWC, Deloitte, Ernst & Young ou KPMG). Solicitação de conhecimento da lei americana Sarbanes-Oxley (SOX) é, também, encontrada em oito anúncios (9%). Tabela 4 – Funções mencionadas nos anúncios Funções Grupo 1 Grupo 2 Total Contábil 29 63% 36 80% 65 71% Gerencial-estratégica 35 76% 42 93% 77 85% Custos 13 28% 19 42% 32 35% Tributária 9 20% 19 42% 28 31% 50687_MIOLO_Controladoria.indb 28 17/10/2016 10:34:44 – 29 – Introdução à Controladoria Funções Grupo 1 Grupo 2 Total Proteção e con- trole de ativos 3 7% 4 9% 7 8% Controles internos 13 28% 18 40% 31 34% Controle de riscos 3 7% 9 20% 12 13% Gestão da informação 28 61% 39 87% 67 74% No que se referem às funções exigidas nos anúncios três predominam, a saber: gerencial-estratégica (85%), gestão da informação (74%) e contábil (71%), considerando-se o total geral de anúncios. Por outro lado, as funções menos solicita- das são: proteção e controle de ativos (8%) e controle de riscos (13%). Ressalte-se que a classificação dos anúncios em cada uma das funções preconizadas pela literatura foi feita pelos pesquisadores, uma vez que os anúncios não trazem tais funções já categorizadas. Nota-se, portanto, que nem todas as funções que a literatura atribui à Controladoria são requisitadas aos profissionais na prática, tendo em vista o universo investigado. Conclusão Conforme se constatou nos anúncios, os profissionais de Controladoria precisam ser formados em uma das quatro seguintes áreas de estudo: Ciências Contábeis, Administração, Economia ou Engenharia. A maior parte dos anúncios dá ênfase em Ciências Contábeis, seguidos bem perto de Administração e Economia. A pós-graduação para o profissio- nal de Controladoria ainda é um requisito pouco exigido, na visão desses autores, e o idioma inglês é quase que unanimi- dade. Isso representa um forte direcionamento da profissão para a internacionalização e pode ser um sinal para as instituições de ensino atentarem-se para essa característica. Uma terceira língua ainda está sendo pouco necessária para esses profissionais e, quando exigida, a espanhola é a mais requisitada. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 29 17/10/2016 10:34:44 Controladoria – 30 – No que diz respeito às exigências sobre conhecimentode técnicas e ferramentas, a solicitação mais repetida é ter conhe- cimento sobre sistemas integrados (ERPs). Os conhecimentos de normas americanas e normas internacionais de contabili- dade também são verificados. Interessante notar que uma pas- sagem por uma empresa de auditoria internacional de renome pode fazer diferença na hora da contratação. No que se refere às funções exigidas nos anúncios das empresas de recrutamento para atuar em Controladoria, a pesquisa mostra que três funções têm predominância: gerencial-estratégica, gestão da informação e contábil. Por outro lado, as funções menos soli- citadas são: proteção e controle de ativos e controle de riscos. Segundo entrevista com o responsável de uma das empresas de recrutamento, o anúncio não representa fielmente todos os aspectos necessários. Portanto, conversar com os pro- fissionais responsáveis pela entrevista é de extrema impor- tância, já que estes, normalmente, são ex-profissionais das áreas e conhecem os requisitos e funções necessárias para o cargo; assim, durante as entrevistas, pontos pendentes e fun- ções não demonstradas no anúncio tendem a ser um ponto a descobrir do entrevistado. Atividades 1. O que é Controladoria, segundo a perspectiva conceitual e qual o seu objeto de estudo? 2. Quais são as funções típicas da Controladoria? Exemplifique três ins- trumentos necessários para operacionalizá-la. 3. Como o órgão Controladoria deveria se situar na estruturação orga- nizacional, em relação à posição hierárquica? 50687_MIOLO_Controladoria.indb 30 17/10/2016 10:34:44 Processo de gestão As organizações tomam decisões diariamente que podem resultar em acertos ou fracassos, dependendo de diversos fatores. Alguns desses fatores são prováveis, estimáveis e conjecturáveis, como, por exemplo, o número de funcionários no mês seguinte; já outros são imprevisíveis, improváveis e alheios à vontade da com- panhia, como é o caso de um acidente de avião. Para minimizar a possibilidade de fracassos é necessário que existam fontes de infor- mações que ajudem a organização a traçar alguns cenários futuros possíveis. Essas fontes de informações servem para diagnosticar um quadro de prováveis ocorrências e identi� car os fatores que podem viabilizar ou prejudicar a decisão tomada pela empresa. 2 50687_MIOLO_Controladoria.indb 31 17/10/2016 10:34:46 Controladoria – 32 – Nesse sentido, o planejamento é um artefato utilizado pelas organizações que ajuda a reduzir a ocorrência de erros nas tomadas de decisões. É uma for- malização do processo de tomada de decisões importantes, com o objetivo de reduzir a incidência de erros que geram custos às organizações (HERGERT; MORRIS, 1989). Portanto, o planejamento é um processo de decidir, ante- cipadamente e com base em informações diversas, o caminho a ser trilhado pela organização. Como resultado de um adequado planejamento, algumas empresas conseguem manter ou até aumentar sua vantagem competitiva. Ao se falar em planejamento, dois elementos têm a sua necessidade de compreen- são ressaltada, quais sejam a missão da organização e seu modelo de gestão, os quais serão discutidos na sequência. Ainda neste capítulo, os conceitos de planejamento, orçamento, execução, controle e avaliação de desempenho serão abordados. A Controladoria tem o papel de fazer o processo de ges- tão acontecer, pois atua de forma integrada com todas as áreas da empresa, fornecendo aos gestores as informações necessárias para o alcance do resultado esperado. Portanto, é fundamental que se compreenda as características desse processo de gestão quando se estuda o tema Controladoria. 2.1 Missão A primeira característica que deve ser focada desde o início de uma orga- nização é o seu propósito principal e permanente, ou seja, a sua razão de ser. Ela (a missão) é o escopo bem de�nido das intenções que a empresa almeja; são os desejos dos acionistas descritos para uma determinada �nalidade; o propósito da continuação da entidade. Uma adequada de�nição de missão deveria explicitar o âmbito de atua- ção da entidade e seu campo de negócios, ou seja, o horizonte dentro do qual a empresa atua ou deveria atuar. Deveria evidenciar, também, o porque e para que ela existe, a satisfação de alguma necessidade da sociedade (ambiente externo) que pretende atender, além de algumas expectativas macro da organização. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 32 17/10/2016 10:34:46 – 33 – Processo de gestão Nesse sentido, não é recomendável que a missão seja de�nida em termos de oferecer algum produto ou serviço. Por exemplo, pode não ser adequada uma missão como “fabricar determinado bem” ou “prestar determinado ser- viço”, pois esta pode rapidamente tornar-se obsoleta à medida que esses bens ou serviços não satisfaçam mais as necessidades ambientais (PEREIRA, 2001, p. 52). Por outro lado, uma missão mais abrangente seria: “Satisfazer as neces- sidades de transportes de nossos clientes e consumidores, oferecendo serviços de qualidade e pautado em princípios éticos, gerando valor aos acionistas, empregados, fornecedores e clientes”. Assim, a missão da entidade, uma vez de�nida e corretamente funda- mentada, deve ser seguida por toda a organização, haja vista que a missão caracteriza, condiciona e norteia a forma de atuação desta. 2.2 Modelo de gestão Antes de entrar diretamente no processo de gestão, um componente fundamental que deve ser analisado e que in�uencia e é in�uenciado por todo o processo é o modelo de gestão da organização. Com base em Pereira (in Catelli, 2001, p. 57-58), tem-se que o modelo de gestão é o conjunto de crenças, valores, certezas, opiniões e princípios dos proprietários da empresa, relacionados à forma de administrar a organização para que esta cumpra a missão para a qual foi constituída; essas são as diretrizes que orientam e nor- teiam o comportamento dos gestores quanto à condução das atividades. Do modelo de gestão da empresa decorre uma série de diretrizes que impactam no comportamento de todo o sistema, como por exemplo: a exis- tência ou não de planejamento e controle, o grau de autonomia dos gestores, os critérios de avaliação de desempenhos, os papéis e posturas gerenciais, as preocupações quanto ao controle das operações etc. (PEREIRA, in Catelli, 2001, p. 58). 2.3 Processo de gestão O processo de gestão é estruturado pelo ciclo composto de planeja- mento, execução, controle e avaliação de desempenho. Serve para garantir 50687_MIOLO_Controladoria.indb 33 17/10/2016 10:34:46 Controladoria – 34 – que a utilização dos recursos disponibilizados seja otimizada a �m de atingir um determinado resultado e cumprir a missão da organização. Assim, na fase de planejamento, analisam-se as possibilidades de ocorrências futuras e na execução acontecem as transações econômicas. O controle assegura que a execução está de acordo com o planejamento e, se não estiver, propõe a ado- ção de medidas corretivas. Na avaliação veri�ca-se quão bem a organização desempenhou o planejamento. Para que o processo de gestão resulte em sucesso, é recomendável que este seja estruturado e fundamentado na lógica do processo decisório, que compreende a identi�cação, a avaliação e a escolha de alternativas de ação. Para isso é necessário que seja suportado por sistemas de informações que subsidiem as decisões que ocorrem em cada fase do processo. Ressalte-se que o processo de gestão é, via de regra, desenvolvido de maneira diferente em cada organização, uma vez que estas possuem modelos de gestão especí�cos. Uma visão abrangente de estruturação do processo de gestão pode ser cunhada a partir da proposta de Catelli, Pereira e Vasconcelos (in Catelli, 2001, p. 137), que faz uma estruturação nas seguintes etapas: pla- nejamento estratégico, planejamento operacional,execução e controle. Estes autores, no entanto, incluem na proposta de Catelli, Pereira e Vasconcelos a etapa de avaliação de desempenho. Figura 1 – Visão geral do processo de gestão Planejamento estratégico Pré-planejamento Planejamento médio / longo prazo Planejamento Operacional Planejamento curto prazo Avaliação de desempenho Execução Controle Fonte: (CATELLI, PEREIRA; VASCONCELOS, In Catelli , 2001, p. 137. Adaptado) 50687_MIOLO_Controladoria.indb 34 17/10/2016 10:34:46 – 35 – Processo de gestão Deve-se destacar que a forma de quanti�cação do planejamento é o orça- mento. Todos os elementos da �gura 1, assim como o orçamento serão dis- cutidos na sequência. A Controladoria, dentro do processo de gestão, torna-se uma área importante nas organizações, haja vista que está intimamente ligada a esse processo (de gestão), em razão de ser a responsável pela informação por exce- lência (SIQUEIRA; SOLTELINHO, 2001, p. 67). Souza e Souza (2000, p. 70) chegam a a�rmar que, dependendo das informações reportadas à administração, pode haver até mudança na missão da empresa. Resumidamente, a Controladoria é a área da organização que faz o processo de gestão acontecer. 2.3.1 Planejamento A atividade de planejar é utilizada no intuito de diminuir incertezas, pois por meio do planejamento os riscos podem ser precavidos e evitados. Portanto, o planejamento consiste em decidir antecipadamente sobre a direção que a empresa adotará no futuro, a �m de alcançar os objetivos esperados. Detalhadamente, planejar é o ato de preparar um plano ou roteiro para a execução, conjecturar, estabelecer com antecedência ações, estimar recursos, atribuir responsabilida- des, de�nir diretrizes e objetivos almejados. O objetivo �nal do planejamento é garantir que as metas sejam alcançadas satisfatoriamente; por esse motivo a �xação de metas é um passo inicial indispensável ao planejamento. Planejamento é um exercício organizacional que envolve a análise, avaliação e escolha de alternativas de ações futuras da entidade, orga- nizadas na forma de planos, para o alcance de um estado futuro obje- tivado, baseada naquilo que aconteceu no passado com a entidade e seu ambiente, no que está acontecendo e nos cenários possíveis de acontecerem; ou seja, é uma forma de se controlar o amanhã, de se decidir hoje o que se fará amanhã. (BORINELLI, 2006, p. 146) A divisão do planejamento em estratégico e operacional pode auxiliar as organizações no processo de pensamento das decisões, haja vista que, via de regra, as decisões que se tomam numa entidade são de dois tipos: estratégicas e operacionais. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 35 17/10/2016 10:34:46 Controladoria – 36 – 2 As decisões estratégicas estão diretamente voltadas ao atendi- mento da missão, envolvendo comprometimento de capital e e�cácia nas operações. Decisões nesse nível afetam fortemente o resultado econômico da organização, uma vez que dizem respeito a soluções de problemas que envolvem a empresa como um todo e seu relacionamento com o meio externo. Normalmente essas deci- sões têm efeito de longo prazo. 2 As decisões operacionais estão mais próximas ao dia a dia, de forma a gerenciar mais e�cientemente os recursos. Buscar a e�ciência ope- racional pode requerer um redesenho da forma de como está sendo executada a atividade. Normalmente essas decisões têm efeito de curto ou médio prazo e são de caráter mais interno. O que se deve observar é que a organização requer os dois tipos de deci- são e, portanto, dois níveis de planejamento no desenvolvimento de suas atividades, atentando-se para o fato de que as in�uências entre eles devem ser analisadas. Em suma: enquanto as decisões estratégicas exigem e buscam a e�cácia das organizações, as operacionais têm grande preocupação com o aumento da e�ciência (FISCHMANN; ALMEIDA, 1995). 2.3.1.1 Planejamento estratégico O primeiro passo para materializar a missão em realidade, considerando o modelo de gestão, é a elaboração de um planejamento estratégico. O produto �nal dessa fase é um conjunto de objetivos e diretrizes estratégicas que visam o cumprimento da missão e, consequentemente, a continuidade da organização. No planejamento estratégico, os objetivos da empresa como um todo, relativos à interação desta com o ambiente num horizonte de médio e longo prazo, são descritos em atributos que visam orientar a etapa de planejamento operacional. Todos esses objetivos são estabelecidos levando-se em conta a análise do ambiente externo, veri�cando as oportunidades que podem ser aproveitadas e as ameaças que precisam ser minimizadas ou evitadas, bem como do ambiente interno, detectando os pontos fortes que a organização possui e que deverão ser usufruídos e superando as de�ciências re�etidas nos pontos fracos. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 36 17/10/2016 10:34:46 – 37 – Processo de gestão Nessa fase do processo de gestão deve-se sair com um conjunto de dire- trizes que visam orientar a etapa de planejamento operacional. 2.3.1.2 Planejamento operacional O planejamento operacional visa viabilizar a execução dos objetivos e diretrizes estratégicas. Conforme asseveram Catelli, Pereira e Vasconcelos (in Catelli, 2001, p. 140), “consiste na identi�cação, integração e avaliação de alter- nativas de ação e escolha de um plano de ação a ser implementado”. Os mesmos autores discutem que o processo de planejamento operacional compreende: 2 estabelecimento dos objetivos operacionais; 2 de�nição dos meios e recursos; 2 identi�cação das alternativas de ação; 2 simulação das alternativas identi�cadas; 2 escolha das alternativas e incorporação ao plano; 2 estruturação e quanti�cação do plano; 2 aprovação e divulgação do plano. Recomenda-se que o planejamento operacional seja feito em nível das diversas unidades organizacionais e em consonância com as de�nições já fei- tas no planejamento estratégico. O planejamento operacional, segundo Catelli, Pereira e Vasconcelos (in Catelli, 2001, p. 143), pode ser dividido em três fases distintas: pré-planeja- mento, planejamento de médio e longo prazos e planejamento de curto prazo. Pré-planejamento corresponde à �xação de objetivos, identi�cação das alternativas de ação e escolha das melhores alternativas que viabilizem as dire- trizes estratégicas, resultando, portanto, no conjunto de alternativas de ação. Planejamento de médio e longo prazo corresponde ao detalhamento das alternativas selecionadas, dentro de determinada perspectiva temporal, quan- ti�cando-se analiticamente recursos, volumes, preços, prazos, investimentos e demais variáveis. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 37 17/10/2016 10:34:46 Controladoria – 38 – Planejamento operacional de curto prazo corresponde a um replaneja- mento efetuado em momento mais próximo à realização dos eventos e à luz do conhecimento mais seguro das variáveis envolvidas. O produto dessa fase é o programa operacional ajustado. Portanto, o produto �nal do planejamento operacional, consideradas suas três subdivisões, deve contemplar um plano que contenha o que dever ser feito, quando deve ser feito, como deve ser feito e quem deverá fazê-lo, para assegurar que os objetivos do planejamento estratégicos sejam atingidos e a missão da organização seja cumprida. 2.3.1.3 Execução Borinelli (2006, p. 157) discute que, no processo de gestão, a fase de execução é aquela em que os gestores fazem os planos acontecerem, imple- mentando as ações planejadas. Portanto, é a etapa em que os planos são implementados, as ações se materializam, as transações ocorrem, os recursos são consumidos e os produtos gerados. Catelli, Pereira e Vasconcelos (in Catelli, 2001, p. 146) advertem que na fase de execução “[...] podem ser necessárias alterações e ajustes no programa,com consequente identi�cação de alternativas operacionais, seleção da mais apropriada e implantação dos ajustes”. 2.3.1.4 Controle Já que o planejamento de�ne metas a serem perseguidas e objetivos a serem alcançados, o papel do controle é assegurar (garantir) que estes sejam efetivamente realizados, ou seja, consiste em acompanhar sistematicamente a execução dos planos a �m de certi�car se a organização está caminhando rumo à situação futura objetivada, de forma a garantir que o que foi plane- jado aconteça de fato. Portanto, controle é a veri�cação, monitoramento, acompanhamento, �scalização e análise atenta e minuciosa da regularidade do planejamento, com vistas à sua correção e realimentação. O controle serve para prevenir que erros se propaguem e que eventuais falhas de planejamento possam ser corrigidas em tempo oportuno. Nesse sen- tido, cabe lembrar que o enfoque adequado de controle “[...] não é o de che- car ou veri�car se as coisas aconteceram, mas acompanhar, simultaneamente, 50687_MIOLO_Controladoria.indb 38 17/10/2016 10:34:46 – 39 – Processo de gestão a implementação das ações de forma que se consiga, como dito antes, garan- tir ou assegurar que o planejado aconteça.” (BORINELLI, 2006, p. 159). Frezatti (2007, p. 8) reforça dizendo que o termo controle tem sido utilizado de maneira enfática, pois, na verdade, o que se pretende no universo empre- sarial é garantir que decisões tomadas realmente ocorram. Dessa maneira é recomendável que o controle seja executado em todas as áreas funcionais, assim como na organização como um todo, e de forma con- comitante à execução e não a posteriori. Isso garante que medidas corretivas que se façam necessárias sejam implementadas a tempo. Em suma, a fase de controle do processo de gestão compreende as seguintes atividades: 2 identi�cação do desempenho esperado, conforme os planos; 2 conhecimento e mensuração do desempenho real (ocorrido); 2 comparação do desempenho real com o esperado; 2 análise dos desvios ocorridos e identi�cação de suas causas; 2 identi�cação e escolha de ações corretivas, quando necessárias; 2 realimentação do planejamento. 2.4 Orçamento Borinelli (2006, p. 153), de�ne orçamento “[...] como o processo organizacional de quanti�cação detalhada dos planos empresariais, em termos de recursos a serem consumi- dos e produzidos, na forma de custos, despesas, receitas, resultados e investimentos, para ser utilizado como direcionador das atividades dos membros da organização e, posteriormente, como elemento de controle. Em suma: é o processo de especi�car os recursos que serão consumidos para a realização dos planos, bem como os resultados que serão gerados [...]. Já Frezatti (2007, p. 46) a�rma que o plano �nanceiro para implementar a estratégia da empresa é mais do que uma simples estimativa, pois deve estar baseado no compromisso dos gestores em termos de metas a serem alcançadas 50687_MIOLO_Controladoria.indb 39 17/10/2016 10:34:46 Controladoria – 40 – e proporciona condições de avaliação do desempenho da entidade, suas áreas internas e seus gestores. As de�nições expostas dão uma boa conceituação de orçamento e, em resumo, devem ser guardados os seguintes pontos principais: 2 enfoque sistemático e formal; 2 materialização monetária e quantitativa do planejamento; 2 responsabilidade e controle em um período de tempo especí�co; 2 avaliação de desempenho. Desse modo, pode se dizer que o orçamento é um enfoque sistemático e formal na tentativa de organizar e quanti�car o futuro, estimando as des- pesas e receitas monetariamente com base no planejamento da organização, atribuindo responsabilidades e permitindo controle, durante certo período de tempo. Nesse sentido, o orçamento serve como elemento de controle dos custos e avaliação de desempenho, com base nas métricas estipuladas e sua comparação entre o orçado (planejado) e o de fato acontecido (real). Em suma, o orçamento deve especi�car datas, recursos a serem captados, consumidos e gerados, valorações físicas e monetárias de tais recursos, bem como os respectivos responsáveis em cada elemento do orçamento. Ressalte-se ainda que, com base em Welsch (1996, p. 63), o orçamento deve ser um instrumento de gestão para viabilização do controle que assegure o alcance dos objetivos empresarias. Assim, deve-se levar em consideração que ele baseia-se em estimativas e, por isso, precisa ser adaptado, sempre que necessário, às circunstâncias empresariais. Ademais, sua execução não é auto- mática, ou seja, os gestores e suas equipes devem fazer o orçamento acontecer, não permitindo que este tome o lugar da administração. 2.4.1 Tipos de orçamento Algumas características visualizadas no modelo de gestão de�nem o tipo de orçamento que a organização deve adotar. Em geral, pode-se classi�car os orçamentos quanto às seguintes dimensões: abrangência, �loso�a, �exibili- dade e participação. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 40 17/10/2016 10:34:46 – 41 – Processo de gestão Quadro 1 – Características e tipos de orçamento, segundo suas dimensões Dimensão Tipo Características Abrangência Período Curto, médio e longo prazos. Projeto Considera as etapas necessárias até a conclusão do projeto. Programa Considera os vários programas existentes. Filosofia Histórico Com base nos registros de período anterior. Base zero Como se estivesse sendo elabo-rado pela primeira vez. Flexibilidade Estático Não considera a influência de mudanças ambientais. Flexível Assimila aumentos ou redu-ções inesperadas de volume. Participação Participativo Envolvimento dos gesto-res que executam a tarefa. Não participativo Envolvimento somente da alta administração. Fonte: Elaborado pelos autores. 2.4.1.1 Orçamento por período O orçamento por período atende às necessidades das operações coti- dianas, com base em períodos relativamente regulares, que normalmente são abertos em curto, médio ou longo prazos. Geralmente, re�ete o calendário da legislação �scal. É comum veri�car a desagregação por mês, trimestre e ano. Uma abordagem utilizada desse tipo de orçamento, na prática, é o orça- mento contínuo (rolling forecast). Horngren, Foster e Datar (2000, p. 127) comentam que essa abordagem proporciona disponibilidade constante do orçamento para um período futuro especi�cado, pela adição de um mês, tri- mestre ou ano, à medida que um mês, trimestre ou ano se encerra. Frezatti (2007, p. 44) alerta para esse tipo de abordagem, pois permite que o processo 50687_MIOLO_Controladoria.indb 41 17/10/2016 10:34:46 Controladoria – 42 – de planejamento se torne menos esporádico e proporciona maior continui- dade ao mesmo. 2.4.1.2 Orçamento por projeto O orçamento por projeto ocorre quando o centro da atenção é o pró- prio projeto (WELSCH, 1996, p. 32). Segundo Sanvicente e Santos (2000, p. 19), tem por �nalidade adotar um esquema diferente do orçamento por período, pois há certos empreendimentos que, por sua importância relativa e sua duração, justi�cam um tratamento separado das demais atividades, como, por exemplo, a construção de uma nova instalação. No caso do planejamento por projeto, a prioridade da estimativa não é em função de períodos de tempo (meses, trimestres ou anos), mas sim, de acordo com as etapas necessárias até a conclusão do empreendimento em base satisfatória (ciclo de vida). Bowersox, Closs e Cooper (2002, p. 458) comentam que o orçamento por projeto espe- ci�ca o montante e a oportunidade (timing) de investimentos. 2.4.1.3 Orçamento programa O orçamento programa é aquele cujo orçamento re�ete os vários pro- gramas estabelecidos no planejamento estratégico. Ele é adequado quando a organização trabalha por programas, como acontece muito em órgãos públicos. Jones e Trentin (1978, p. 95)a�rmam que “[...] o orçamento por programa representa a apropriação de uma determinada importância para alcançar um objetivo ou série de objetivos”, organizados na forma de um programa. Mais adiante, os autores detalham que “esta abordagem orçamen- tária prevalece nas atividades ‘programadas’ de pesquisa e desenvolvimento, mercadologia, manutenção preventiva, treinamento e relações públicas, nas quais o orçamento programa ou de apropriação representa o custo total de uma série de projetos distintos.” Portanto, ao invés de construir o orçamento segmentado em funções das atividades operacionais de uma organização, essa abordagem propõe a estruturação do plano orçamentário com foco nos diver- sos programas existentes na entidade. 2.4.1.4 Orçamento histórico O referencial histórico é uma informação útil na gestão de uma organi- zação. No orçamento histórico a base para a estimativa da quanti�cação do 50687_MIOLO_Controladoria.indb 42 17/10/2016 10:34:46 – 43 – Processo de gestão planejamento ocorre alicerçada nos acontecimentos do passado, em que, com base nos registros realizados, projetam-se receitas, custos, despesas e inves- timentos. Uma premissa que está por trás desse tipo de orçamento é que o futuro não será muito diferente de fatos acontecidos no passado (realizados). Isso pode desencadear um problema, haja vista que as ine�ciências apresen- tadas no desempenho anterior podem não ser facilmente destacadas, in�uen- ciando a perspectiva para o futuro. 2.4.1.5 Orçamento base zero O referencial histórico permite o entendimento parcial de alguns fato- res, mas pode-se revelar inadequado quando a comparação é com o que se deseja atingir. O orçamento base zero tem o objetivo de identi�car e mensu- rar os recursos necessários para atingir uma meta, como se a organização não tivesse passado, buscando ligar as despesas às tarefas especí�cas. A �loso�a está em romper com o passado, ou seja, não se deve comparar os resultados de um mês com o mês anterior, ou mesmo com o mesmo mês do ano anterior; o que se deve comparar é o realizado com o que se deveria atingir. A ine�ciên- cia de tempos passados pode ser isolada, entendida e eliminada, sendo que o planejamento é obtido com base nos recursos necessários para se chegar à e�ciência desejada. Bowersox, Closs e Cooper (2002, p. 458) denotam que o orçamento base zero começa sem fundos autorizados e a formação de recur- sos é desenvolvida de uma maneira de zero para mais. Toda despesa proposta é revisada a cada período de elaboração do orçamento e os recursos devem ser justi�cados com base nos níveis planejados, julgados de acordo com os benefícios previstos. De acordo com Padoveze (1997, p. 384), no orçamento base zero toda a empresa é rediscutida cada vez que se elabora o orçamento, questionando-se cada gasto, buscando-se veri�car sua real necessidade. Para aquele autor, “[...] não é porque aconteceu que deverá acontecer”. 2.4.1.6 Orçamento estático O orçamento estático, também conhecido como orçamento �xo, não considera a in�uência de mudanças ambientais, como variações no volume de vendas. Ao contrário, todas as peças orçamentárias são elaboradas a partir de um determinado volume de vendas ou produção, o qual não pode ser alte- rado ao longo do período orçamentário. Horngren, Foster e Datar (2000, p. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 43 17/10/2016 10:34:46 Controladoria – 44 – 154) caracterizam-no como sendo baseado em um único nível de produção e não é alterado ou ajustado, apesar da existência de divergência com o nível de produção real ou com a receita e direcionadores de custos reais. Nesse tipo de orçamento, independente da variação do volume de atividades (por exemplo: ocorrência de uma greve), o orçamento não pode ser alterado. Conforme Bowersox, Closs e Cooper (2002, p. 457), o orçamento �xo é raramente utilizado, pois não considera a in�uência de mudanças ambientais, como um volume de vendas menor ou maior do que o previsto. 2.4.1.7 Orçamento flexível Diferentemente do orçamento estático, o orçamento �exível é aquele que oferece um modo de assimilar aumentos ou reduções inesperadas de volume durante um determinado período operacional. Horngren, Foster e Datar (2000, p. 154) explicam o orçamento �exível como sendo aquele que pode ser ajustado de acordo com as mudanças no nível de atividade real ou na receita e direcionadores de custos reais. Assim, o orçamento �exível permite aos gestores visualizarem um conjunto mais vasto de variações que o orça- mento estático. Bowersox, Closs e Cooper (2002, p. 458) comentam que, em geral, um orçamento �exível é estruturado numa base de custo-padrão (norma esperada) e que pode ser desenvolvido para avaliar a variedade de atividades logísticas, tais como: recebimento e descarte, seleção de pedidos, embalagens e transporte. O nível autorizado de despesa é então comparado com base na medida do custo-padrão multiplicada pelo nível previsto da ati- vidade; assim, as despesas orçadas ajustam-se automaticamente ao nível pre- visto de atividade. 2.4.1.8 Orçamento participativo O orçamento participativo privilegia a política de participação dos ges- tores na escolha das prioridades de investimentos. Trata-se de uma consulta aos executores das atividades a respeito do destino dos recursos a serem adqui- ridos e investidos durante o período. O orçamento participativo pressupõe uma gestão participativa. Essa gestão participativa acredita que é no exercício e no próprio fazer da gestão que as ideias da alta administração, juntamente com o conhecimento especí�co da gerência, vão guiar a organização para 50687_MIOLO_Controladoria.indb 44 17/10/2016 10:34:46 – 45 – Processo de gestão um resultado otimizado. Esse modelo de gestão é centrado no trabalho em equipe, na construção coletiva, que planeja quem executa, porém com deba- tes com a alta administração, que pretende garantir o resultado global. 2.4.1.9 Orçamento não participativo Nesse tipo de orçamento, o processo de elaboração é dissociado dos ges- tores que o executam. As decisões orçamentárias são tomadas com base na visão da alta diretoria e são entregues para o corpo gerencial executar. Ao con- trário do participativo, esse tipo de orçamento privilegia as decisões da alta administração e faz com que os funcionários da empresa tenham que alcançar as metas estabelecidas. 2.4.2 Benefícios do planejamento e orçamento As principais vantagens de tomar decisões antecipadamente podem ser descritas como seguem: 2 O processo de planejamento ajuda na coordenação das atividades; quando, por exemplo, se planeja aumentar o volume produzido, a logística deve se preparar para atender essa necessidade, analisando as possíveis restrições, riscos e possibilidades. 2 Podem-se antecipar futuros problemas e, assim, tentar minimizar ris- cos envolvidos, criando-se cenários de possibilidade, avaliando-se a incerteza de ocorrência, protegendo a empresa contra as di�culdades. 2 O comprometimento começa logo no planejamento. Em conso- nância com o item anterior, por exemplo, os gestores da logística se comprometem com um nível de serviço apropriado com base no aumento do volume, correndo atrás dos recursos necessários. 2 A transparência no planejamento possibilita comunicação entre as áreas, permitindo conversas entre os agentes, o que permite aos gestores um melhor entendimento das áreas que não são de sua responsabilidade. 2 O orçamento permite a formalização de responsabilidades, como também é uma forma de mensurar e reportar o seu efeito. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 45 17/10/2016 10:34:46 Controladoria – 46 – 2 A e�ciência pode ser planejada. O desempenho inadequado é evi- tado na fase de planejamento, já que o controle pressupõe zelar para que o nível planejado de e�ciência seja atingido.2 O orçamento possibilita uma autoavaliação frente aos desa�os que pretende superar no futuro. 2.4.2.1 Avaliação de desempenho A avaliação é o ato ou o efeito de se atribuir valor, calcular ou determinar a valia e reconhecer o merecimento. O desempenho, por sua vez, é a realiza- ção de uma atividade ou de um conjunto de atividades. Pereira (in CATELLI, 2001, p. 196) explica que “o ato de avaliar, entendido num sentido genérico, [...] é o exercício da análise e do julgamento sobre qualquer situação que exija uma apreciação de fatos, ideias, objetivos e, também, uma tomada de decisão a �m de se atingir uma situação desejada”. Mais adiante, o autor especi�ca: “Avaliar um desempenho signi�ca julgá-lo ou atribuir-lhe um conceito diante de expectativas preestabelecidas.” (PEREIRA, in CATELLI, 2001, p. 197). Peleias (1992, p. 119), acertadamente, considera que são objetos de avaliação de desempenho os ciclos econômicos de uma empresa, as áreas de responsabilidade que os compõem e os respectivos gestores responsáveis por tais ciclos e áreas. Com base nisso, pode-se dizer que a avaliação de desempenhos é a ativi- dade de julgar, ou seja, de atribuir juízo de valor ao desempenho das funções e áreas organizacionais e seus respectivos gestores. Segundo Pereira (in Catelli, 2001, p. 201-202), o desempenho de uma organização pode ser visto em cinco dimensões: amplitude (global, divisio- nal e funcional), natureza (operacional, econômico e �nanceiro), ocorrência (planejado, em realização e realizado), tempo (curto, médio e longo prazo) e qualidade (e�cácia e e�ciência). 50687_MIOLO_Controladoria.indb 46 17/10/2016 10:34:46 – 47 – Processo de gestão Adicionalmente, o modelo de avaliação de desempenho deve levar em conta quatro características básicas: accountability, controlabilidade, indução e integração. A accountability refere-se à responsabilidade do gestor em prestar contas de seus atos. A controlabilidade diz respeito à cobrança feita aos gestores pelos efeitos das decisões por eles in�uenciáveis. A indução é a in�uência das métricas para se alinhar os interesses da empresa com os das pessoas. A inte- gração visa à otimização de resultados em termos de e�cácia empresarial, aten- dendo a todas as fases do processo de gestão e integrando-as conceitualmente. Operacionalmente, o processo de avaliação de desempenhos com- preende as seguintes atividades, conforme descreve Borinelli (2006, p. 169): 2 veri�car o que se esperava das áreas, funções e gestores (identi�cação dos parâmetros); 2 veri�car o que, de fato, aconteceu (mensuração); 2 observar quais são os parâmetros para quali�car o desempenho; 2 analisar o desempenho, veri�cando, inclusive, causas de possíveis desvios; 2 julgar o desempenho. 2.5 Papel da Controladoria Com base no que se discutiu até aqui, e à luz dos conceitos, funções, responsabilidades e objetivos da Controladoria, considera-se que esta desen- volve um papel importante e especí�co em cada etapa do processo de gestão, pois ela é responsável por fazer o processo de gestão como um todo acontecer, desde a fase de planejamento até a fase de controle e avaliação de desempenho. Borinelli (2006, p. 145-172) separa e especi�ca o papel da Controladoria nas etapas de planejamento, orçamento, execução, controle, adoção de medidas corretivas e avaliação de desempenhos, como se vê no quadro 2. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 47 17/10/2016 10:34:46 Controladoria – 48 – Quadro 2 – Papel da Controladoria nas etapas de elaboração do planejamento, orçamento, execução, controle, adoção de medidas corretivas e avaliação de desempenhos Etapa Papel da controladoria Planejamento Participar ativamente das escolhas das diretrizes e defi- nições de objetivos estratégicos, tomando decisões em conjunto com os gestores das demais funções organi- zacionais, sendo a coordenadora desse processo. Coordenar o processo de construção como um todo do plano, em nível operacional. Assessorar as diversas unidades e funções organiza- cionais com informações e aconselhamento de cará- ter operacional, econômico, financeiro e contábil. Consolidar os diversos planos das unidades e funções organi- zacionais num planejamento global integrado e otimizado. Orçamento Coordenar o processo de construção do orçamento. Determinar, em conjunto com a alta administra- ção e com as demais funções e unidades organizacio- nais, as premissas e diretrizes orçamentárias. Assessorar as demais unidades na elabora- ção dos seus respectivos orçamentos. Consolidar os orçamentos das áreas num orça- mento global, buscando a otimização do todo. Avaliar os orçamentos das unidades, bem como o orça- mento consolidado, a fim de verificar se atendem às defi- nições dos planos estratégico, tático e operacional. Execução Auxiliar as áreas organizacionais na apli- cação dos recursos planejados. Dar suporte às áreas organizacionais na implementação dos projetos. Coordenar os esforços dos gestores na consecução dos seus respec- tivos objetivos e também dos objetivos da empresa como um todo. Fornecer apoio informacional sobre o anda- mento da implementação dos planos. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 48 17/10/2016 10:34:47 – 49 – Processo de gestão Etapa Papel da controladoria Controle Gerar informações que contemplem eventos planejados e realiza- dos, a fim de verificar o grau de aderência entre os planos e o real. Gerar relatórios que apontem desvios em relação ao planejado. Interagir no sentido de identificar as causas dos desvios. Exercer, efetivamente, o controle. Garantir a eficácia do sistema de controle. Revisar periodicamente o sistema de controle. Coordenar o processo de controle. Adoção de medi- das corretivas Em conjunto com as outras áreas organizacionais, identificar as possíveis e necessárias medidas corretivas a serem adotadas. Avaliar o impacto das medidas corretivas propostas. Monitorar a implementação das medidas corretivas. Avaliação de desempenhos Auxiliar no processo de escolha de indicado- res e parâmetros que compõem o desempenho. Mensurar o desempenho. Fornecer bases informativas para proceder à avaliação e, consequentemente, ao julgamento do desempenho. Participar deste processo, fornecendo opiniões que pos- sam auxiliar na correta avaliação de desempenho. Fonte: (BORINELLI, 2006. Adaptado.) Deve-se destacar que essas atividades de Controladoria são ou não desempenhadas por uma unidade organizacional com esse nome, depen- dendo de como a empresa tem o seu modelo de gestão, a sua estrutura orga- nizacional, entre outros fatores. 2.6 Resumo O planejamento utilizado por algumas organizações ajuda na tentativa de reduzir a incidência de erros nas tomadas de decisões, antecipando-se à ocor- rência dos eventos. Para discutir o planejamento, dois fatores são importantes 50687_MIOLO_Controladoria.indb 49 17/10/2016 10:34:47 Controladoria – 50 – de se entender nas empresas: sua missão e seu modelo de gestão. A missão da entidade é sua razão de ser, seu propósito principal. O modelo de gestão é todo o conjunto de crenças, valores, certezas, opiniões e princípios dos proprietários da empresa, relacionados à forma de administrar a organização. O processo de gestão é uma forma estruturada de gerir a entidade, constituída pelo ciclo formado pelas atividades de planejamento, execução, controle e avaliação de desempenho. Serve para garantir que os recursos dis- ponibilizados sejam utilizados da melhor forma no objetivo de atingir um determinado resultado. Assim, na fase de planejamento, analisam-se as pos- sibilidades de ocorrências futuras. Via de regra, o planejamento é dividido em estratégico e operacional. O orçamento, por sua vez, é um instrumento que pode ser utilizado para formalizar o planejamento,podendo ser de vários tipos, conforme as dimensões de abrangência, �loso�a, �exibilidade e partici- pação. É um artefato que serve como base de controle e avaliação de desempe- nho. O controle assegura que a execução está de acordo com o planejamento e, se não estiver, propõe a adoção de medidas corretivas. Na avaliação veri�- ca-se quão bem a organização desempenhou o planejamento. Essa avaliação deve ser realizada com base nas métricas estipuladas e sua comparação entre o orçado (planejado) e o de fato acontecido (real). Com base nos conceitos, funções, responsabilidades e objetivos da Controladoria, considera-se que esta desenvolve um papel importante e espe- cí�co em cada uma dessas etapas do processo de gestão, pois ela é responsável por fazer o processo de gestão como um todo acontecer, desde a fase de pla- nejamento até a fase de controle e avaliação de desempenho. Ampliando seus conhecimentos Beyond Budgeting (FREZATTI, 2007, p. 105-108) Hope e Fraser (2003) citam o caso de Jan Wallander, CEO da Svenska Handelsbanken, conhecida instituição europeia que havia abandonado há algum tempo o modelo dito “tradicional” 50687_MIOLO_Controladoria.indb 50 17/10/2016 10:34:47 – 51 – Processo de gestão de planejamento central. De acordo com os autores, a empresa abandonou o orçamento em 1972 devido aos descontenta- mentos com os efeitos indesejáveis por ele provocados. Outro exemplo é a empresa Rodhia, multinacional francesa que aban- donou o orçamento em 1999, depois que a Borealis, uma empresa dinamarquesa, fizera o mesmo em 1995. Recentemente, Wallander apresentou uma abordagem – reconhecida na literatura pela expressão beyond budgeting – que serve para caracterizar o processo de gestão flexível, sem a existência de um orçamento anual de resultados. Essa abordagem foi aplicada pelo banco escandinavo Svenska Handelsbanken, que obteve êxito gerenciando seus negócios por mais de 25 anos com resultados positivos, embora não superiores à concorrência (HOPE, 2000). O esforço estruturado para trazer respostas à insatisfação em relação ao orçamento, considerado um instrumento rígido, teve seu início num grupo de executivos de organizações com atuações em empresas multinacionais, apoiados por consulto- res. As reuniões, realizadas a partir de 1997, geraram uma pes- quisa realizada num grupo diversificado de empresas, em ter- mos de setores e nacionalidade (HOPE; FRASER, 2003). O foco do estudo estava baseado nas seguintes questões: 2 Existe alguma alternativa para o orçamento? 2 Existe algum modelo gerencial? 2 Que lições podem ser retiradas da implementação? O encaminhamento dessa reunião culminou na abordagem conhecida hoje como beyond budgeting, que se propõe a especificar a formatação de gestão sem a existência do orça- mento anual nas organizações. A abordagem se baseia na ideia de que deva existir flexibilidade para os gestores, o que é obtido a partir de negociações, grande participação dos profissionais da “linha de frente”, fazendo com que o pla- nejamento e a execução sejam desenvolvidos pelos mesmos 50687_MIOLO_Controladoria.indb 51 17/10/2016 10:34:47 Controladoria – 52 – atores. A liderança de Hope e Fraser é percebida por meio de livros, artigos, de um site, e mesmo por meio de organiza- ções empresariais que divulgam o beyond budgeting. De acordo com esses autores, a abordagem beyond budgeting é um “grupo de processos alternativos que apoiam metas e reconhe- cimentos, um planejamento contínuo, a demanda de recursos, a coordenação dinâmica da empresa e um significativo grupo de con- troles nos vários níveis” (HOPE e FRASER, 2003, p. xix). Não exige um processo anual de negociação que culmine com uma meta fixa, e exige maior confiança entre os participantes, focando a rela- ção entre os executivos seniores e a gerência da entidade. Os ingredientes tratados nessa abordagem são os seguintes (HOPE; FRASER, 2003, p. 70): 2 Definição de metas levando em conta benchmarking externo à organização, numa perspectiva de médio prazo. Não existem metas fixas, mas variáveis, decorren- tes do momento vivenciado pelos gestores. Pretende eliminar as metas anuais fixas para conviver com uma abordagem situacional. 2 Motivação e premiações baseadas nas metas externas avaliadas posteriormente, levando em conta o que deve- ria ser feito. O objetivo dessa visão é reduzir o que os autores chamam de “jogo orçamentário”, no sentido de atingir metas fixas a todo custo, inclusive abrindo mão de princípios éticos. 2 Processo estratégico contínuo, descentralizado e até mesmo local, que deve ser incentivado considerando o nível de ambição e respostas rápidas. 2 Oferecimento de recursos quando demandados, o que reduz perdas, desperdícios e gastos desnecessários, eli- minando-se questões do tipo: “tenho que gastar para não perder a verba no ano que vem”. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 52 17/10/2016 10:34:47 – 53 – Processo de gestão 2 Coordenação entendida como “um time” ou “todos no mesmo barco”, encorajando a cooperação e a exce- lência dos serviços. 2 Circulação rápida de informações, que devem ser dis- ponibilizadas para facilitar o aprendizado e encorajar o comportamento ético. Alguns princípios são oferecidos no desenvolvimento da pro- posta (HOPE; FRASER, 2003, p. 70-92), cujos destaques são: a definição de metas práticas realizáveis relacionadas com melhorias, desconectadas da avaliação de desempenho e pre- miações; a avaliação do desempenho e as premiações basea- das em contratos de melhorias relativas, levando em conta o que deveria ser feito, diferentemente da visão tradicional, que estabelece a priori a meta e, posteriormente, a compara com o resultado real; a transformação do seu plano de ação numa sucessão de melhorias contínuas, inclusive os processos; a dis- ponibilização dos recursos quando necessários; a coordenação de ações conjuntas na entidade de acordo com as demandas do cliente; os controles baseados na governança efetiva e nos indicadores de desempenho relativos. Ao se excluir o orçamento anual, que efeitos se verificaram na gestão das organizações? No quadro abaixo, Hope e Fraser (2003, p. 27) indicam, de maneira comparativa, alguns ele- mentos da gestão que permitem entender o que muda de acordo com a proposta. Descrição Orçamento tradicional Beyond budgeting Metas As metas são fixa- das anualmente. As metas não são fixas, mas continua- mente monitoradas contra um dado ben- chmarking, preferencialmente externo, negociado com o grupo de gestores. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 53 17/10/2016 10:34:47 Controladoria – 54 – Descrição Orçamento tradicional Beyond budgeting Premiações e bonificações Os executivos recebem, desde que se enquadrem nos objetivos das metas. Existe a confiança do recebimento da premiação a partir da avalia- ção do grupo de gestores que ana- lisa o desempenho na abordagem “daquilo que deveria ser feito”. Planos A figura das metas fixas (contratos fixos) está relacionada aos planos. Existe a confiança de que qualquer ação possa ser exigida para atingir metas de médio prazo aceitas pelo grupo de gestão, dentro dos princípios de governança e parâmetros estratégicos da entidade. Recursos Os recursos cuja acei- tação e disponibilidade para apoiar os orçamen- tos operacionais e de capital são colocados à disposição. Os recursos cuja necessidade é aceita para apoiar os orçamentos operacio- nais e de capital já são colocados à disposição. Existe a confiança de prover os recur- sos quando forem necessários. Coordenação As atividades serão coordenadas com outros gestores de planos de acordo com o plano aceito ou redirecionado por nível superior. Existe a delegação de confiança para que o gestor coordene as ati-vidades a partir de acordos perió- dicos e exigências de clientes. Controles O desempenho deve ser monitorado men- salmente e qualquer variação significativa deve ser revisada. Forecast demandado trimestralmente. Existe confiança de que o forecast seja baseado na alternativa mais provável, de maneira que só existirá interfe- rência se a tendência dos indicadores ficar fora de certos parâmetros. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 54 17/10/2016 10:34:47 – 55 – Processo de gestão Atividades 1. Planejamentos e orçamentos não estão relacionados entre si. Você concorda com esta afirmativa? Por quê? 2. O que é processo de gestão? 3. Caracterize os seguintes tipos de orçamento: por período, por pro- jeto, programa, histórico, base zero, estático, flexível, participativo e não participativo. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 55 17/10/2016 10:34:47 50687_MIOLO_Controladoria.indb 56 17/10/2016 10:34:47 Demonstrações contábeis: Balanço Patrimonial Com base na Norma e Procedimento Contábil (NPC) número 27, item 7, emitida pelo Instituto dos Auditores Independentes do Brasil (Ibracon) e acatada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), por meio da Deliberação número 488, de 03/10/2005, as demonstrações contábeis são relatórios que evidenciam uma repre- sentação monetária estruturada da posição patrimonial e � nanceira de uma entidade em determinada data, bem como das transações realizadas por esta no período � ndo nessa data. Tais demonstrações “[...] objetivam fornecer informações que sejam úteis na tomada de decisões e avaliações por parte dos usuários em geral [...].” (CPC, 2008, p. 3) 3 50687_MIOLO_Controladoria.indb 57 17/10/2016 10:34:49 Controladoria – 58 – Portanto, as demonstrações contábeis revestem-se de utilidade para diver- sos usuários, como acionistas, gestores, empregados, bancos, fornecedores e governo, uma vez que esses necessitam da informação contábil para diversas tomadas de decisões, tais como: decidir quando comprar, manter ou vender ações; avaliar o desempenho econômico; analisar a capacidade da empresa pro- porcionar remuneração e benefícios; decidir se concedem ou não crédito, se realizam ou não venda; estabelecer políticas; imputar tributação etc. Em algumas empresas, a Controladoria está responsável pela elaboração e divulgação dessas demonstrações. Dessa forma, é muito importante que, no estudo sobre Controladoria, se compreendam os signi�cados de cada uma das demonstrações contábeis, como devem ser construídas e organizadas, bem como a forma de interpretá-las. Um ponto importante a ser mencionado é que as demonstrações con- tábeis não têm como objetivo gerar informações sobre o valor da entidade, mas sim evidenciar a situação em que ela se encontra e quais resultados têm alcançado. Adicionalmente, as demonstrações contábeis devem ser analisadas em conjunto, conforme explica o Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC) (2008, item 20): As partes componentes das demonstrações contábeis se inter-rela- cionam por re�etirem diferentes aspectos das mesmas transações ou outros eventos. Embora cada demonstração apresente informações distintas, nenhuma provavelmente se presta a um único propósito, nem fornece todas as informações necessárias para necessidades espe- cí�cas dos usuários. Assim sendo, neste capítulo são apresentadas as diversas demonstrações contábeis, dando ênfase ao balanço patrimonial. 3.1 Relacionamento entre as demonstrações contábeis As demonstrações contábeis podem ser divididas em dois grandes gru- pos: as obrigatórias e as não obrigatórias. Relatórios obrigatórios são aqueles exigidos por lei, principalmente pela Lei das Sociedades Anônimas (Lei 6.404/76 e alterações). Em geral são cinco: 50687_MIOLO_Controladoria.indb 58 17/10/2016 10:34:49 – 59 – Demonstrações contábeis: Balanço Patrimonial balanço patrimonial, demonstração do resultado do exercício, demonstração dos lucros ou prejuízos acumulados (pode ser substituída pela demonstração das mutações do patrimônio líquido), demonstração dos �uxos de caixa e demonstração do valor adicionado. Os relatórios não obrigatórios, apesar de não serem exigidos por lei, não são menos importantes. Exemplos típicos são: a demonstração das origens e aplicações de recursos, que relata a forma de captação e destino dos recursos; e orçamentos, que descrevem o futuro e não o passado como os demais rela- tórios citados, além de outros. Considera-se que a peça mais importante é o balanço patrimonial, pois representa a situação econômica da empresa numa proporção bastante ampla, ou seja, denota a posição patrimonial e �nanceira atual; é como uma foto que abrange todos os departamentos internos e todos os agentes externos que se relacionam com a entidade. As outras demonstrações são explicações de contas (ou grupo de contas) do balanço patrimonial, conforme demonstra a �gura a seguir. Deve-se esclarecer que a necessidade de se elaborar outras demonstrações para detalhar ou explicar elementos do balanço ocorre para que se dê ênfase a determinados aspectos e para que se tenham relatórios compreensíveis e menos “poluídos” em termos de quantidade de informa- ções. Certamente, se todas as informações estivessem contidas em um único relatório, a di�culdade na interpretação e análise poderia aumentar. Figura 1 – Relacionamento entre o balanço patrimonial e as outras demonstrações contábeis Balanço Patrimonial Ativo AC ANC PC PNC PL (DMPL) CCL (DOAR) Passivo Equivalentes caixas (DFC) Resultado (DRE / DLPA / DVA) Fonte: Elaborado pelos autores. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 59 17/10/2016 10:34:49 Controladoria – 60 – Como mostra a �gura 1, o Balanço Patrimonial (BP) é composto de Ativo Circulante (AC), Ativo Não Circulante (ANC), Passivo Circulante (PC), Passivo Não Circulante (PNC) e Patrimônio Líquido (PL). O rela- cionamento das outras demonstrações contábeis com o balanço patrimonial acontece da seguinte forma: 2 Demonstração do Resultado do Exercício (DRE) – explicação da conta resultado, localizada dentro do PL visualizado no BP; a DRE evidencia o desempenho, ou seja, o resultado econômico-contábil de determinado período. 2 Demonstração dos Fluxos de Caixa (DFC) – explicação da conta caixa e equivalentes de caixa (disponibilidades imediatas da orga- nização) que fazem parte do AC, localizada do lado esquerdo do BP nas primeiras contas; a DFC evidencia as mudanças no �uxo �nanceiro em determinado período. 2 Demonstração das Mutações do Patrimônio Líquido (DMPL) – explicação da movimentação das contas que compõem o PL, visua- lizado no canto inferior direito do BP; a DMPL evidencia todas as mudanças ocorridas nas diversas contas que compõem o patrimô- nio líquido. 2 Demonstração dos Lucros ou Prejuízos Acumulados (DLPA) – explicação da movimentação da conta resultado dentro do PL, visualizada no canto inferior direito do BP. 2 Demonstração do Valor Adicionado (DVA) – uma outra forma de se visualizar a DRE, dando ênfase não ao resultado econômico- -contábil da organização, mas, sim, ao valor que ela adiciona na estrutura econômica da sociedade; é o produto interno bruto (PIB) da entidade. 2 Demonstração das Origens e Aplicações de Recursos (DOAR) – explicação da variação do Capital Circulante Líquido (CCL), que é a diferença entre o AC e o PC, que podem ser visualizados no BP. 2 Orçamento – estimativa dos valores que deverão estar nas demons- trações (BP, DRE, DFC, DMPL, DLPA, DVA, DOAR) em um período futuro. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 60 17/10/2016 10:34:49 – 61 – Demonstrações contábeis: Balanço Patrimonial 3.2 Balanço Patrimonial Objetivamente falando, o balanço patrimonial é a demonstração contá- bil que representao patrimônio de uma entidade, patrimônio este composto pelo conjunto dos bens, direitos e obrigações da organização. É uma demons- tração estática que apresenta a posição �nanceira e patrimonial da empresa em determinada data. Por essa razão, diz-se que o balanço patrimonial é uma fotogra�a da entidade em dado momento. Quadro 1 – Balanço Patrimonial Ativo Passivo Patrimônio Líquido Fonte: Elaborado pelos autores O lado esquerdo do balanço patrimonial é denominado Ativo. Nele consta o conjunto dos bens e direitos da organização. São os recursos apli- cados pela empresa, investidos em terrenos, edifícios, automóveis, estoques, contas a receber, dinheiro etc. O lado direito representa as origens de recursos, demonstrando como a entidade está se �nanciando. A parte superior é denominada de Passivo; nele encontram-se as obrigações classi�cadas como exigíveis; majoritariamente é composto por dívidas com terceiros, como fornecedores, bancos, impostos, salários etc. A parte inferior é denominada Patrimônio Líquido; é a conta dos pro- prietários (sócios/acionistas/quotistas/shareholders) para com a empresa. Constitui a soma de todos os bens e direitos subtraindo o total de obrigações exigíveis; na verdade, evidencia o valor residual destinado aos proprietários, se todos os bens fossem vendidos, os direitos recebidos e as obrigações com terceiros fossem quitadas. Ativo – Passivo = Patrimônio Líquido 50687_MIOLO_Controladoria.indb 61 17/10/2016 10:34:49 Controladoria – 62 – O Balanço Patrimonial informa, de forma estática, em que estão aplica- dos os recursos da entidade, bem como suas fontes de �nanciamento (origens dos recursos), em determinada data. Um ponto importante é que, quando se avalia um item para seu enquadramento no ativo, passivo ou patrimônio líquido, deve-se atentar para a essência e a realidade econômica e não apenas sua forma legal (CPC, 2008, item 51). 3.2.1 Ativo Ativo é o conjunto de bens e direitos, mensuráveis monetariamente, que representam benefícios econômicos, de propriedade (na essência) da organi- zação. De acordo com a Lei 6404/76 e alterações (Lei das S/As), artigo 178, parágrafo 1.o, tem-se: Art. 178. [...] §1.º No ativo, as contas serão dispostas em ordem decrescente de grau de liquidez dos elementos nelas registrados [...]. Assim, quanto mais para cima a conta estiver, mais rápido ela pode se tornar dinheiro. De acordo com a Deliberação 488, de 3 de outubro de 2005, da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que acata a NPC 27 do Ibracon, bem como o artigo 177, parágrafo 1.o, da Lei das S/As1, as companhias aber- tas deverão segregar os ativos em circulantes e não circulantes. 3.2.2 Ativo Circulante Segundo o item 54 da NPC 27 Um ativo deve ser classi�cado como circulante quando se espera que seja realizado, ou é mantido para venda, negociação ou consumo, dentro dos 12 meses seguintes à data do balanço ou é um ativo em dinheiro ou equivalente, cuja utilização não está restrita. Nesse grupo, portanto, são incluídas as contas cuja expectativa de serem transformadas em dinheiro seja até o �nal do exercício seguinte ao fechamento 1 Redação dada pela Lei 11.941/2009. Antes de tal Lei, as contas do ativo eram divididas em ativo circulante, ativo realizável a longo prazo e ativo permanente (investimento, imobilizado, intangível e diferido). 50687_MIOLO_Controladoria.indb 62 17/10/2016 10:34:49 – 63 – Demonstrações contábeis: Balanço Patrimonial do Balanço Patrimonial, além daquelas que já representam dinheiro. São exemplos de contas do Ativo Circulante: 2 Disponibilidades – representam recursos em caixa, bancos e aplica- ções �nanceiras de resgate imediato. 2 Clientes – compreendem os valores a receber de terceiros decorren- tes das vendas de produto ou prestação de serviços. 2 Estoques – referem-se a insumos destinados à produção, consumo ou produtos (mercadorias) destinadas à venda. 2 Despesas antecipadas – contemplam recursos pagos antecipada- mente com direito de utilização futura. 3.2.3 Ativo não Circulante O item 55 da NPC 27, por sua vez, estabelece que: O grupo de “não circulante” deverá ser desdobrado em ativo realizável a longo prazo, investimentos, imobilizado e intangível. (alterado pela Lei 11.941/2009). 2 Realizável a Longo Prazo: de acordo com o artigo 179 da Lei da S/As, o ativo realizável a longo prazo contempla: Art. 179. [...] II - [...] os direitos realizáveis após o término do exercício seguinte, assim como os derivados de vendas, adiantamentos ou empréstimos a sociedades coligadas ou controladas [...], diretores, acionistas ou participantes no lucro da companhia, que não constituírem negócios usuais na exploração do objeto da companhia. [...] São exemplos de contas desse grupo: 2 títulos a receber de clientes de longo prazo; 2 contas a receber de administradores, gerentes e diretores; 2 contas a receber de entidades ligadas; 2 impostos diferidos de longo prazo etc. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 63 17/10/2016 10:34:49 Controladoria – 64 – 2 Ativo Permanente – investimento: o artigo 179 da Lei das S/As expressa que neste grupo devem ser registradas Art. 179. [...] III - [...] participações permanentes em outras sociedades e os direitos de qualquer natureza, não classi�cáveis no ativo circulante, e que não se destinem à manutenção da atividade da companhia ou da empresa. [...] São exemplos de contas desse grupo: 2 investimentos em controladas; 2 investimentos em coligadas (e a elas equiparadas); 2 obras de arte; 2 imóveis não de uso etc. 2 Ativo Permanente – imobilizado: de acordo com o artigo 179 da Lei das S/As, nesse grupo devem ser registrados: Art. 179. [...] IV - [...] direitos que tenham por objeto bens corpóreos destinados à manutenção das atividades da companhia ou da empresa ou exercidos com essa �nalidade, inclusive os decorrentes de operações que trans�- ram à companhia os benefícios, riscos e controle desses bens. [...] Deve-se ressaltar que os componentes do ativo imobilizado estão sujei- tos a depreciação em função do uso. Alguns exemplos de contas do ativo imobilizado são: 2 instalações; 2 móveis e utensílios; 2 máquinas equipamentos; 2 veículos; 2 terrenos; 2 edifícios; 50687_MIOLO_Controladoria.indb 64 17/10/2016 10:34:49 – 65 – Demonstrações contábeis: Balanço Patrimonial 2 depreciação acumulada etc. 2 Ativo Permanente – intangível: o artigo 179 da Lei da S/As expressa que no ativo intangível devem ser classi�cados: Art. 179. [...] VI - [...] direitos que tenham por objeto bens incorpóreos destinados à manutenção da companhia ou exercidos com essa �nalidade, inclu- sive o fundo de comércio adquirido. [...] Destaque-se que os itens que formam o ativo intangível estão sujeitos a amortização. São exemplos de contas do ativo intangível: 2 marcas e patentes; 2 fundo de comércio etc. 3.2.4 Passivo O passivo representa as obrigações classi�cadas como exigíveis. O CPC (2008, item 49) de�ne que: Passivo é uma obrigação presente da entidade, derivada de eventos já ocorridos, cuja liquidação se espera que resulte em saída de recursos capazes de gerar benefícios econômicos. As contas do passivo são apresentadas no balanço patrimonial em ordem decrescente de grau de exigibilidade, ou seja, das obrigações que primeiro serão exigidas, para aquelas que menos serão cobradas. De acordo com a Deliberação 488, de 3 de outubro de 2005, da CVM, que acata a NPC 27 do Ibracon, as companhias abertas devem segregar os passivos em circulantes e não circulantes2. 3.2.4.1 Passivo Circulante O artigo 180 da Lei das S/As assim estabelece: 2 Redação dada pela Medida Provisória (MP) 449 de 3/12/2008. Antes de tal MP, no passivo ascontas eram dispostas em passivo circulante; passivo exigível a longo prazo; resultados de exercícios futuros e patrimônio líquido. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 65 17/10/2016 10:34:49 Controladoria – 66 – Art. 180. As obrigações da companhia, inclusive �nanciamentos para aquisição de direitos do ativo não circulante, serão classi�cadas no passivo circulante, quando se vencerem no exercício seguinte [...]. São exemplos de contas do passivo circulante: 2 empréstimos bancários; 2 saldos em contas garantidas bancárias credoras; 2 fornecedores; 2 �nanciamentos; 2 impostos sobre a renda a pagar. 3.2.4.2 Passivo não Circulante As demais obrigações devem ser classi�cadas como passivo não circu- lante. Destaca-se que, conforme o item 58 da NPC 27, [...] as parcelas de empréstimos de longo prazo, vencíveis dentro do período de 12 meses da data do balanço, devem ser classi�cadas como passivo circulante. São exemplos de contas desse grupo: 2 empréstimos de longo prazo; 2 empréstimos de partes relacionadas; 2 debêntures; 2 encargos �nanceiros a pagar de longo prazo. 3.2.5 Patrimônio Líquido Segundo o CPC (2008, item 49) o Patrimônio Líquido é o valor residual dos ativos da entidade depois de deduzidos todos os passivos. Representa as obrigações da organização com os proprietários. Evidencia o montante de obrigações próprias que pode ser originado de duas fontes: 50687_MIOLO_Controladoria.indb 66 17/10/2016 10:34:49 – 67 – Demonstrações contábeis: Balanço Patrimonial 2 Recursos do proprietário – investimentos realizados pelos proprie- tários em troca de ações, quotas ou outras participações. 2 Evolução normal da empresa – geração de resultados e sua acumu- lação como fonte de �nanciamento. De acordo com o CPC (2008, item 67), o valor pelo qual o patrimô- nio líquido é apresentado no balanço patrimonial depende da mensuração dos ativos e passivos. Seria uma coincidência o valor contábil do patrimônio líquido igualar-se ao valor de mercado, seja pela soma das ações ou pela liqui- dação de seus ativos e passivos. Por esse motivo é que o balanço patrimonial não tem o objetivo de evidenciar o valor de uma entidade. O objetivo princi- pal é demonstrar como ela se encontra em determinado momento. De acordo com a Lei das S/As serão classi�cadas no patrimônio líquido as contas representativas de: 2 Capital social: Art. 182. A conta do capital social discriminará o montante subscrito e, por dedução, a parcela ainda não realizada. Isso signi�ca que deverão aparecer no balanço patrimonial as parcelas do capital já entregues pelos proprietários, bem como as parcelas a realizar. Ademais, os valores gerados pela sociedade no decorrer das suas atividades, por decisão dos proprietários, podem ser incorporadas ao capital social. As principais contas desse grupo são o capital social e o capital a integralizar. 2 Reservas de capital: (Lei 6404/76 e alterações, art. 182) Art. 182. [...] §1.º Serão classi�cadas como reservas de capital as contas que registrarem: a) a contribuição do subscritor de ações que ultrapassar o valor nominal e a parte do preço de emissão das ações sem valor nominal que ultrapas- sar a importância destinada à formação do capital social, inclusive nos casos de conversão em ações de debêntures ou partes bene�ciárias; b) o produto da alienação de partes bene�ciárias e bônus de subscrição; [...] 50687_MIOLO_Controladoria.indb 67 17/10/2016 10:34:49 Controladoria – 68 – O artigo 182, parágrafo 2.°, da mesma lei estabelece, também, que Art. 182. [...] §2.º Será ainda registrado como reserva de capital o resultado da corre- ção monetária do capital realizado, enquanto não capitalizado. Deve-se destacar que, conforme o artigo 200 da Lei das S/As, Art. 200. [...] as reservas de capital somente poderão ser utilizadas para: I - absorção de prejuízos que ultrapassarem os lucros acumulados e as reservas de lucros [...]; II - resgate, reembolso ou compra de ações; III - resgate de partes bene�ciárias; IV - incorporação ao capital social; V - pagamento de dividendo a ações preferenciais, quando essa vanta- gem lhes for assegurada [...]. 2 Ajustes de avaliação patrimonial: de acordo com o CPC (2008, item 81), A reavaliação ou atualização de ativos e passivos dão margem a aumentos ou diminuições do patrimônio líquido. Embora tais aumentos ou diminuições se enquadrem na de�nição de recei- tas e de despesas, sob certos conceitos de manutenção de capi- tal eles não são incluídos na demonstração do resultado. Em vez disso, tais itens são incluídos no patrimônio líquido como ajustes para manutenção do capital ou reservas de reavaliação. A Lei 6.404/76 e alterações, em seu artigo 182, parágrafo 3.o estabelece que Art. 182. [...] §3.º Serão classi�cadas como ajustes de avaliação patrimonial, enquanto não computadas no resultado do exercício em obediência ao regime de competência, as contrapartidas de aumentos ou dimi- nuições de valor atribuído a elementos do ativo e do passivo, em decorrência da sua avaliação a valor justo [...]. Essas contas são necessárias quando alguns elementos do ativo, em espe- cial do ativo permanente, podem sofrer reavaliação em decorrência de estarem registrados pelo valor original, deduzidos da respectiva depreciação, mas não 50687_MIOLO_Controladoria.indb 68 17/10/2016 10:34:50 – 69 – Demonstrações contábeis: Balanço Patrimonial re�etirem o valor real de tal ativo. Pode-se ter, por exemplo, uma máquina registrada pelo valor zero no ativo, após depreciação total do bem, mas que ainda possui uma vida útil relevante que justi�que seu valor �gurar no ativo. Exemplos de contas desse grupo são: 2 reavaliação de imóveis. 2 reavaliação de máquinas. 2 reavaliação de recursos naturais. 2 Reservas de lucros: são constituídas pela apropriação dos lucros gerados pela entidade, conforme enuncia o artigo 182, parágrafo 4.º, da Lei das S/As. Em outras palavras, essas reservas representam a parte do lucro que não é retirada pelos proprietários, reservadas para determinado �m. São elas: 2 Reserva legal – por imposição de lei, conforme estabelece o artigo 193 da Lei das S/As. Art. 193. Do lucro líquido do exercício, 5% (cinco por cento) serão aplicados, antes de qualquer outra destinação, na constituição da reserva legal, que não excederá de 20% (vinte por cento) do capital social. §1.º A companhia poderá deixar de constituir a reserva legal no exer- cício em que o saldo dessa reserva, acrescido do montante das reservas de capital de que trata o §1.º do artigo 182, exceder de 30% (trinta por cento) do capital social. §2.º A reserva legal tem por �m assegurar a integridade do capital social e somente poderá ser utilizada para compensar prejuízos ou aumentar o capital. 2 Reserva estatutária: por determinação do estatuto ou contrato social da entidade. O estatuto deve estabelecer a �nalidade e os critérios para determinar a parcela anual dos lucros líquidos que devem ser destinados à sua constituição e o limite máximo da reserva, con- forme prevê o artigo 194 da Lei das S/As. 2 Reservas para contingências: A Lei das S/As expressa: Art. 195. A assembleia-geral poderá, por proposta dos órgãos da admi- nistração, destinar parte do lucro líquido à formação de reserva com a 50687_MIOLO_Controladoria.indb 69 17/10/2016 10:34:50 Controladoria – 70 – �nalidade de compensar, em exercício futuro, a diminuição do lucro decorrente de perda julgada provável, cujo valor possa ser estimado. §1.º A proposta dos órgãos da administração deverá indicar a causa da perda prevista e justi�car, com as razões de prudência que a recomen- dem, a constituição da reserva. §2.º A reserva será revertida no exercício em que deixaremde existir as razões que justi�caram a sua constituição ou em que ocorrer a perda. 2 Reservas de incentivos �scais: O artigo 195-A da Lei das S/As prevê: Art. 195. A. A assembleia-geral poderá, por proposta dos órgãos da administração, destinar para a reserva de incentivos �scais a parcela do lucro líquido decorrente de doações ou subvenções governamen- tais para investimentos, que poderá ser excluída da base de cálculo do dividendo obrigatório [...]. 2 Retenção de lucros: O artigo 196 da Lei das S/As estabelece: Art. 196. A assembleia-geral poderá, por proposta dos órgãos da administração, deliberar reter parcela do lucro líquido prevista em orçamento de capital por ela previamente aprovado. 2 Ações em tesouraria: emissão da própria empresa e por ela recom- pradas no mercado. A empresa utiliza recursos do seu caixa para comprar suas próprias ações que são negociadas no mercado. Isso normalmente ocorre quando a empresa pretende fazer o cancela- mento de ações ou quando concede boni�cação (remuneração) aos gestores em forma de ações. Visto que os gestores têm informações privilegiadas sobre a empresa, as operações de recompra de ações em tesourarias não podem ser utilizadas para gerar lucro ou alterar o valor de mercado da ação. Tais operações devem ser autorizadas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e precisam ser jus- ti�cadas aos investidores no mercado de capitais. Em consonância com o artigo 182, da Lei das S/A, Art. 182. [...] §5 As ações em tesouraria deverão ser destacadas no balanço como dedução da conta do patrimônio líquido que registrar a origem dos recursos aplicados na sua aquisição. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 70 17/10/2016 10:34:50 – 71 – Demonstrações contábeis: Balanço Patrimonial 2 Prejuízos acumulados: receitas menores que despesas, re�etem uma redução do patrimônio líquido que ocorre em função das próprias operações da empresa. O artigo 189 da Lei das S/As assim estabelece: Art. 189. Do resultado do exercício serão deduzidos, antes de qual- quer participação, os prejuízos acumulados e a provisão para o Imposto sobre a Renda. Parágrafo único. O prejuízo do exercício será obrigatoriamente absor- vido pelos lucros acumulados, pelas reservas de lucros e pela reserva legal, nessa ordem. 3.3 Resumo As demonstrações contábeis são relatórios que informam os usuários sobre a situação e o desempenho das organizações e podem ser divididas em dois grandes grupos: as obrigatórias (exigidas por lei) e as não obrigatórias. Entre as exigidas por lei, as peças principais são: o Balanço Patrimonial (BP) que representa a posição patrimonial, econômica e �nanceira da empresa num dado momento; a Demonstração do Resultado do Exercício (DRE) que é a explicação da conta de resultado (lucro ou prejuízo) num determi- nado período; e a Demonstração dos Fluxos de Caixa (DFC) que evidencia as movimentações da conta caixa e equivalentes de caixa. O Balanço Patrimonial é a demonstração contábil que representa o patrimônio de uma entidade, composto pelo conjunto dos seus bens, direitos e obrigações. É uma demonstração estática que apresenta a posição �nan- ceira e patrimonial da empresa em determinada data. Por essa razão, �gura- damente, diz-se que o Balanço Patrimonial é uma fotogra�a da entidade. O lado esquerdo do balanço patrimonial é denominado ativo, a parte superior direita, passivo e a parte inferior direita é o patrimônio líquido. O Ativo compreende o conjunto de bens e direitos, mensuráveis monetaria- mente, que representam benefícios econômicos, de propriedade (na essência) da organização; está disposto em ordem decrescente de grau de liquidez e segregado em circulante (disponibilidades, clientes, estoques etc.) e não circulante (ativo realizável a longo prazo, investimentos, ativo imobilizado e ativo intangível). 50687_MIOLO_Controladoria.indb 71 17/10/2016 10:34:50 Controladoria – 72 – O Passivo, por sua vez, representa as obrigações, na sua maioria com terceiros, classi�cadas como exigíveis; suas contas são apresentadas em ordem decrescente de grau de exigibilidade e segregadas em circulante e não circu- lante. No passivo circulante se encontram as obrigações que vencem até o �nal do exercício seguinte (empréstimos bancários, saldos em contas garan- tidas bancárias credoras, fornecedores etc.) e no passivo não circulante as demais obrigações vencíveis em datas superiores ao �nal do exercício seguinte (exigível a longo prazo). Patrimônio líquido é a diferença entre o ativo e o passivo. Representa as obrigações com os proprietários ou acionistas. São classi�cadas no patri- mônio líquido as contas representativas de capital social, reservas de capital, ajustes de avaliação patrimonial, reservas de lucros, ações em tesouraria e pre- juízos acumulados. Ampliando seus conhecimentos Comentários à Lei 11.638/07, que altera a Lei 6.404/76 (Lei das Sociedades por Ações) (Ferreira, 2008. Adaptado) Ao apagar das luzes do processo legislativo de 2007, mais precisamente no dia 28 de dezembro desse ano, foi publi- cada a Lei n.º 11.638/07, que, entre outras coisas, altera os artigos da Lei n.o 6.404, de 15 de dezembro de 1976 (Lei das S/As) que tratam das demonstrações contábeis. Nesta mesma linha, a Lei 11.941/2009, veio complementar o rol de mudanças promovido na Lei das S/As. Estes comentá- rios têm por objetivo orientar os estudantes e profissionais de Contabilidade e áreas afins quanto aos efeitos das mudanças. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 72 17/10/2016 10:34:50 – 73 – Demonstrações contábeis: Balanço Patrimonial Introdução Segundo a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), as alterações promovidas por intermédio da Lei 11.638/07 têm por objetivo adequar a Lei 6.404/76 (Lei das Sociedades por Ações), principalmente na parte em que ela dispõe sobre matéria contábil, à nova realidade da economia brasileira, tendo em vista o processo de globalização dos mercados, bem como a evolução havida, em âmbito mundial, dos prin- cípios fundamentais de contabilidade. As recentes mudanças na Lei das S/As também objetivam adequar normas brasileiras de Contabilidade às normas internacionais. Demonstração dos Fluxos de Caixa Com as recentes alterações, a demonstração do fluxo de caixa torna-se obrigatória para as companhias abertas, assim como para as fechadas com patrimônio líquido, na data do balanço, igual ou superior a R$2 milhões. A Lei 11.638/07 substitui a obrigatoriedade da demonstração das origens e aplicações de recursos (DOAR) pela demons- tração dos fluxos de caixa (DFC), acompanhando uma ten- dência internacional. Demonstração do Valor Adicionado Para as companhias abertas, a Lei 11.638/07 também tornou obri- gatória a demonstração do valor adicionado (DVA). As compa- nhias fechadas estão dispensadas de elaborar essa demonstração. Demonstrações Obrigatórias na Nova Legislação Com a nova legislação, as demonstrações obrigatórias passam a ser: balanço patrimonial; demonstração dos lucros ou pre- juízos acumulados ou, se companhia aberta, por exigência da CVM, demonstração das mutações do patrimônio líquido; 50687_MIOLO_Controladoria.indb 73 17/10/2016 10:34:50 Controladoria – 74 – demonstração do resultado do exercício; demonstração dos fluxos de caixa, exceto no caso de companhia fechada com patrimônio líquido, na data do balanço, inferior a R$2 milhões; e se companhia aberta, demonstração do valor adicionado. Escrituração Na tentativa de corrigir distorção e de preservar o interesse de entidades, agências e órgãos reguladores, sem que haja perda de qualidade da informação a ser disponibilizada para os demais usuários, a nova lei permite que a companhia adote em sua escrituração mercantil todas as disposições da lei tribu- tária ou especial, desde que efetue, quandohouver divergên- cias, ajustes nessa escrituração, mediante lançamentos com- plementares, de forma a produzir demonstrações contábeis adequadas aos Princípios Fundamentais de Contabilidade. Tendo em vista garantir um mínimo de qualidade para essas demonstrações, a Lei 11.638/07 condiciona a utilização desta última alternativa ao exame das demonstrações contábeis por auditor independente registrado na CVM. De qualquer forma, os lançamentos de ajuste efetuados exclusivamente para harmonização de normas contábeis e as demonstrações e apurações com eles elaboradas não pode- rão ser base de incidência de impostos e contribuições nem ter quaisquer outros efeitos tributários. Normas expedidas pela Comissão de Valores Mobiliárias – CVM Conforme a nova lei, as normas expedidas pela CVM, de obser- vância obrigatória pelas companhias abertas, deverão ser elabora- das em consonância com os padrões internacionais de contabi- lidade adotados nos principais mercados de valores mobiliários. Muito embora não estejam sujeitas ao controle da CVM, as companhias fechadas poderão optar por observar as nor- 50687_MIOLO_Controladoria.indb 74 17/10/2016 10:34:50 – 75 – Demonstrações contábeis: Balanço Patrimonial mas sobre demonstrações contábeis expedidas pela CVM para as companhias abertas, o que implica adotar padrões contábeis internacionais. Comitê de Pronunciamentos Contábeis No Brasil, a convergência às práticas internacionais foi incenti- vada e impulsionada de maneira significativa com a criação do CPC, em 2005, por meio da Resolução 1.055 do Conselho Federal de Contabilidade. O CPC tem como objetivo “[...] o estudo, o preparo e a emissão de Pronunciamentos Técnicos sobre procedimentos de Contabilidade e a divulgação de informações dessa natureza, para permitir a emissão de normas pela entidade reguladora brasileira, visando à centralização e uniformização do seu processo de produção, levando sem- pre em conta a convergência da Contabilidade Brasileira aos padrões internacionais.” Portanto, o CPC foi idealizado a partir da necessidade de (1) convergência internacional das normas contábeis, (2) centralização na emissão de normas contábeis no Brasil e (3) representação e processo democrático na pro- dução de normas, considerando opiniões de acadêmicos, usu- ários, contadores, auditores, intermediários e governo. Ativo Permanente Em virtude das alterações na Lei 6.404/76, o ativo permanente passa a ser dividido em: investimentos, imobilizado e intangível. 2 Investimentos: a principal novidade são os critérios para avaliação de participações pelo método da equivalência patrimonial. 2 Imobilizado: passa a apresentar apenas bens corpóreos. 2 Intangível: considera os direitos que tenham por objeto bens incorpóreos destinados à manutenção da compa- nhia ou exercidos com essa finalidade, inclusive o fundo de comércio adquirido. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 75 17/10/2016 10:34:50 Controladoria – 76 – 2 Diferido: deixou de existir. A companhia deverá efetuar, periodicamente, análise sobre a recuperação dos valores registrados no imobilizado e no intangível. Patrimônio Líquido Pela nova lei, passa a ser dividido em capital social, reservas de capital, ajustes de avaliação patrimonial, reservas de lucro, ações em tesouraria e prejuízos acumulados. Uma alteração relevante é que a conta lucros acumulados deixa de existir, exi- gindo que todo o lucro produzido no período seja destinado para uma das contas de reservas. Avaliação de Instrumentos Financeiros Eis a nova redação do inciso I do art. 183 da Lei 6.404/76: Art. 183. No balanço, os elementos do ativo serão ava- liados segundo os seguintes critérios: I - as aplicações em instrumentos financeiros, inclusive derivativos, e em direitos e títulos de créditos, classifica- dos no ativo circulante ou no realizável a longo prazo: a) pelo seu valor de mercado ou valor equivalente, quando se tratar de aplicações destinadas à negociação ou disponíveis para venda; e b) pelo valor de custo de aquisição ou valor de emis- são, atualizado conforme disposições legais ou contra- tuais, ajustado ao valor provável de realização, quando este for inferior, no caso das demais aplicações e os direitos e títulos de crédito; Como instrumentos financeiros podem ser considerados os valores mobiliários (ações, debêntures), bem como os deriva- tivos – instrumentos financeiros cujo valor deriva ou depende do preço ou desempenho de mercado de determinado bem básico, taxa de referência ou índice. Integram o mercado de 50687_MIOLO_Controladoria.indb 76 17/10/2016 10:34:50 – 77 – Demonstrações contábeis: Balanço Patrimonial derivativos os mercados futuros, a termo, de opções e de swaps, pois têm seus preços derivados do mercado à vista. Já os direitos e títulos de crédito a que se refere o inciso I são as contas a receber representadas por duplicatas, notas promissórias ou títulos similares. Em razão da nova lei esses ativos passam a ser avaliados pelo seu valor de mercado ou equivalente, desde que represen- tem aplicações destinadas à negociação ou disponíveis para venda, vale dizer, vinculados à especulação financeira. Isso não é comum no caso de duplicatas e notas promissórias rela- cionadas às atividades da companhia, de forma que a elas se aplica o valor de emissão, ajustado ao valor provável de realização (provisão para devedores duvidosos), quando este for inferior (inciso I, “b”). Para esses efeitos, considera-se valor de mercado dos ins- trumentos financeiros, o valor que se pode obter em um mercado ativo (bolsa de valores, de mercadorias e futuros), decorrente de transação não compulsória realizada entre par- tes independentes; e na ausência de um mercado ativo para um determinado instrumento financeiro: 1- o valor que se pode obter em um mercado ativo com a negociação de outro instrumento financeiro de natureza, prazo e risco similares; 2- o valor presente líquido dos fluxos de caixa futuros para instrumentos financeiros de natureza, prazo e risco simila- res; ou 3- o valor obtido por meio de modelos matemático-estatísticos de precificação de instrumentos financeiros. Aqui está a redação revogada do inciso I do art. 183: Art. 183. No balanço, os elementos do ativo serão ava- liados segundo os seguintes critérios: 50687_MIOLO_Controladoria.indb 77 17/10/2016 10:34:50 Controladoria – 78 – I - os direitos e títulos de crédito, e quaisquer valores mobiliários não classificados como investimentos, pelo custo de aquisição ou pelo valor do mercado, se este for menor; serão excluídos os já prescritos e feitas as provisões adequadas para ajustá-lo ao valor provável de realização, e será admitido o aumento do custo de aqui- sição, até o limite do valor do mercado, para registro de correção monetária, variação cambial ou juros acrescidos. Quanto ao estoque de mercadorias, produtos etc., é impor- tante observar que não houve mudanças nos critérios de ava- liação, uma vez que eles estão previstos no inciso II do art. 183, que não foi alterado. Ajuste a Valor Presente de Ativo e Pas- sivo de Longo Prazo Segundo a Lei das Sociedades por Ações, artigos 183, VIII, e 184, III, na sua nova redação, os elementos do ativo e do passivo exigível decorrentes de operações de longo prazo serão ajusta- dos a valor presente, sendo os demais ajustados quando houver efeito relevante. Com isso a lei busca resolver a questão dos juros embutidos nos preços das operações a prazo, eis que as empresas tendem a dar a estas tratamento igual ao das operações à vista, deixando de reconhecer despesas e receitas financeiras incluídas nas operações e apurando resultados distorcidos. Participações nos Lucros A nova lei reforça a necessidade de participações sereminfor- madas no resultado mesmo na hipótese de se revestirem da forma de instrumentos financeiros. No entanto, por uma falha grosseira, a nova redação não menciona a participação dos titulares de partes beneficiárias, que continua prevista na Lei 6.404/76 em relação às companhias fechadas. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 78 17/10/2016 10:34:50 – 79 – Demonstrações contábeis: Balanço Patrimonial Na parte final do inciso VI, mencionam-se participações de fundos de previdência privada: “[...] instituições ou fundos de assistência ou previdência de empregados, que não se caracterizem como despesa”. Ora, se não forem despesa não deverão figurar na demonstração do resultado. É provável que o legislador tenha tentado dizer que tais participações devem ser calculadas em razão do lucro, em vez de um valor fixo anual que independa do resultado. Neste último caso é mais adequada a classificação como despesa operacional. Reserva de Lucros a Realizar Com a nova redação, passa-se a computar na apuração dos lucros a realizar o lucro, rendimento ou ganho líquidos (dedu- zidos prejuízos, gastos ou despesas necessárias). (Artigo 197, §1.º, inciso II). No conceito de lucros a realizar foram incluídos os resultados positivos na contabilização de ativo e passivo de longo prazo pelo valor de mercado. Em todos os casos, continua a prevalecer a regra de realização financeira após o término do exercício social seguinte, o que exclui os resultados positivos líquidos de curto prazo. Limite do Saldo das Reservas de Lucro Pela nova redação do artigo 199 da Lei das S/As, o saldo das reservas de lucros, exceto as para contingências, de incentivos fiscais e de lucros a realizar, não poderá ultrapassar o capital social. Atingindo esse limite, a assembleia deliberará sobre a aplicação do excesso na integralização ou no aumento do capi- tal social ou na distribuição de dividendos. Essa regra já existia na legislação anterior. A novidade é a exclusão da recém criada reserva de incentivos fiscais para efeitos do cálculo do limite das reservas de lucro em relação ao capital social. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 79 17/10/2016 10:34:50 Controladoria – 80 – Sociedades de Grande Porte A Lei 11.638/07 estendeu às sociedades de grande porte as disposições relativas à elaboração e publicação de demonstra- ções contábeis aplicáveis às companhias abertas, entendendo que aquelas empresas, pela sua importância no cenário eco- nômico e social, devem ter o mesmo nível de abertura de informações que as companhias abertas. Considera-se de grande porte, para esses efeitos, a sociedade ou conjunto de sociedades sob controle comum que tiver, no exercício social anterior, ativo total superior a R$240 milhões ou receita bruta anual superior a R$300 milhões. Atividades 1. O que são demonstrações contábeis e quais são seus objetivos? Exem- plifique três tipos de usuários das demonstrações contábeis e diga quais decisões eles podem tomar com base nas demonstrações. 2. Quais são as principais demonstrações contábeis existentes, como elas se dividem e quais são as características de cada uma delas? 3. O que é balanço patrimonial, quais são suas principais características e que grupos e subgrupos o compõem? 50687_MIOLO_Controladoria.indb 80 17/10/2016 10:34:50 Demonstrações contábeis: DRE e DFC O Balanço Patrimonial é a demonstração contábil que representa o patrimônio de uma entidade. Essa informação é de extrema importância para as atividades da Controladoria, pois evidencia o conjunto dos bens, direitos e obrigações de uma orga- nização, permitindo que os diversos usuários possam tomar suas decisões a partir desse relatório. Não obstante, além de trabalhar com as informações do balanço, a Controladoria deve utilizar outras duas demonstrações em conjunto: Demonstração do Resultado do Exercício (DRE) e Demonstração dos Fluxos de Caixa (DFC), como mostra a Figura 1. 4 50687_MIOLO_Controladoria.indb 81 17/10/2016 10:34:52 Controladoria – 82 – Figura 1 – Relacionamento entre o balanço patrimonial, DRE e DFC Balanço Patrimonial Ativo Ativo Circulante Ativo Não Circulante Passivo circulante Passivo Não Circulante Patrimônio Líquido Passivo Equivalentes caixas (DFC) Resultado (DRE) Fonte: Elaborado pelos autores. O relacionamento da Demonstração do Resultado do Exercício (DRE) e da Demonstração dos Fluxos de Caixa (DFC) com o Balanço Patrimonial (BP) acontece da seguinte forma: 2 Demonstração do Resultado do Exercício (DRE) – informa e deta- lha as movimentações que ocorreram na conta de resultado, locali- zada no PL, conforme destacado no BP (Figura 1). 2 Demonstração dos Fluxos de Caixa (DFC) – informa e detalha as movimentações das contas equivalentes de caixa (as disponibi- lidades imediatas) que estão localizadas do lado esquerdo do BP (Figura 1). 4.1 Regime de caixa versus competência Ao se discutir a DRE e a DFC é importante entender a principal dife- rença entre os dois regimes de registro, apuração e análise das operações de uma entidade: “caixa” e “competência”. Esses dois regimes são utilizados pelas organizações e é imprescindível que se distinga ambos para auxiliar na de�ni- ção de qual deve ser utilizado em cada circunstância. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 82 17/10/2016 10:34:52 – 83 – Demonstrações contábeis: DRE e DFC 2 O regime de caixa, também denominado regime �nanceiro, envolve as entradas e saídas de “dinheiro”. Mede o �uxo �nanceiro nos momentos dos recebimentos e pagamentos, ou seja, as receitas e despesas são contabilizadas por ocasião dos recebimentos e paga- mentos, respectivamente, e não por ocasião do fato gerador de tais receitas e despesas. É utilizado na gestão do �uxo de caixa. 2 O regime de competência, conhecido também por regime con- tábil, apura o resultado da organização por meio do registro das transações no período da ocorrência de seu fato gerador e não no momento da transferência de recursos �nanceiros. Portanto, nesse regime as receitas são reconhecidas no momento da venda (emissão da nota �scal – transferência da propriedade) e as despesas na data da sua ocorrência (consumo, por exemplo), independente das datas de recebimentos e pagamentos. Para exempli�car os dois regimes e analisar suas diferenças, imagine que os acionistas de uma organização estejam analisando a e�ciência operacional de sua diretoria. Em determinado período ocorreram os seguintes eventos: Vendas A receber (a prazo) R$15 mil Recebidas (à vista) R$105 mil (já em caixa) Total R$120 mil Despesas diversas A pagar (a prazo) R$30 mil Pagas (à vista) R$80 mil (já desembolsadas) Depreciação R$30 mil (pago na compra e depreciado conforme período de vida útil) Total R$140 mil Analisando a situação pelo regime de caixa, veri�ca-se que no período a empresa teve um �uxo �nanceiro positivo que gerou sobra de caixa de R$25 mil (recebimentos de clientes de R$105 mil menos pagamentos de despesas de R$80 mil); porém, esse valor não é o resultado realizado pela organização, uma vez que no regime de caixa só são consideradas as entradas e saídas de dinheiro. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 83 17/10/2016 10:34:52 Controladoria – 84 – Analisando pelo regime de competência, veri�ca-se que a empresa teve receitas de R$120 mil, pois é considerada a ocorrência da venda e não neces- sariamente o recebimento do dinheiro. Além disso, a organização teve des- pesas de R$140 mil, pois é considerada a ocorrência das despesas e não o pagamento das mesmas. Desse modo, a entidade teve um prejuízo líquido do exercício de R$20 mil (R$120 mil menos R$140 mil). Analisando-se o exemplo pela junção dos dois regimes, pode-se a�rmar que apesar de a empresa ter �uxo �nanceiro positivo de R$25mil (regime de caixa), a entidade teve e�ciência operacional negativa de R$20 mil (regime de compe- tência), uma vez que as receitas do período foram inferiores às despesas ocorridas. Na prática, as empresas devem preocupar-se com as duas situações, haja vista que tanto a informação de caixa é relevante, quanto a apuração do resul- tado econômico-contábil das transações realizadas no período. Nesse sentido, pode-se fazer um paralelo entre as organizações e o corpo humano: a situação �nanceira equivale ao aparelho respiratório, ou seja, o fôlego da empresa, enquanto a situação econômica está relacionada com o aparelho circulatório, pois o sangue é a vida; no caso das empresas, o lucro é o que lhe dá vida, ou seja, ela sobrevive tendo lucratividade e rentabilidade. Por tudo isso, é que tanto a DRE quanto a DFC são duas demonstrações essenciais nos trabalhos da Controladoria de qualquer organização. Vale destacar que, no Brasil, para �ns legais, as empresas com �ns lucra- tivos são obrigadas a realizar sua Contabilidade pelo regime de competência, enquanto as entidades sem �ns lucrativos devem utilizar-se do regime de caixa. 4.1.1 Demonstração do Resultado do Exercício (DRE) A demonstração responsável por divulgar a mensuração das transações econômicas que ocorreram em um determinado período de tempo é deno- minada Demonstração do Resultado do Exercício (DRE). De maneira geral, os gestores têm a necessidade de veri�car os resultados da organização, ou seja, quão bem foi o desempenho desta, para utilizar como base para a tomada de decisões referentes à lucratividade e rentabilidade da empresa. A apuração do resultado mede a e�ciência das operações da entidade, colocando em uma única demonstração as receitas, ganhos, despesas e perdas 50687_MIOLO_Controladoria.indb 84 17/10/2016 10:34:52 – 85 – Demonstrações contábeis: DRE e DFC acontecidas. Denomina-se lucro quando o valor de receitas e ganhos supera o valor de despesas e perdas. Se ocorrer o contrário, o resultado é chamado de prejuízo. 4.1.1.1 Terminologia utilizada na DRE O resultado frequentemente é usado como medida relativa do desem- penho da organização; portanto, quando confrontado com o capital apli- cado pelos sócios é possível veri�car o retorno sobre o patrimônio líquido. Se comparado com os ativos à disposição para o funcionamento da empresa, é possível se obter o retorno sobre o ativo. Os termos diretamente relacionados com a mensuração do desempenho econômico são: receita, ganho, despesa, perda e resultado. 2 Receita – é o aumento no benefício econômico que resulta no crescimento do patrimônio líquido e aumento do ativo. Surge no curso das atividades ordinárias e é designada por uma variedade de nomes, tais como vendas, juros recebidos, dividendos recebidos, royalties e aluguéis recebidos. 2 Ganho – é um aumento no benefício econômico que não surge no curso das atividades ordinárias da entidade e aumenta o patrimônio líquido. Por exemplo, venda de ativos imobilizados (ativos de uso próprio) por valor superior ao valor registrado na Contabilidade. 2 Despesa – é o sacrifício de um recurso econômico no esforço de obter receita que resulta na diminuição do patrimônio líquido, em contrapartida com redução do ativo (se pagas à vista) ou aumento do passivo (se pagas a prazo). São exemplos de despesas: comissão de vendedor, salários e depreciação. 2 Perda – ocorre quando um recurso é consumido de forma anormal e involuntária. Deve ser sacri�cado sem a intenção de produzir receita. Perdas incluem, por exemplo, os sinistros de incêndio e inundações, ou o descarte de produtos com data de validade vencida. 2 Resultado – é confronto das receitas e ganhos com as despesas e per- das. Quando a soma das receitas e ganhos possuir valor superior à soma das despesas com as perdas, o resultado é denominado lucro. Se, por outro lado, a soma das despesas e perdas tiver valor superior 50687_MIOLO_Controladoria.indb 85 17/10/2016 10:34:52 Controladoria – 86 – à soma das receitas e ganhos o resultado é chamado de prejuízo. O resultado será denominado equilíbrio caso o valor das receitas e ganhos seja igual ao das despesas e perdas. 4.1.1.2 Contas do resultado Os gestores precisam conhecer exatamente quais são as naturezas das contas de resultado para conseguir tomar decisões mais precisas, na tentativa de otimizar o resultado. Para �ns ilustrativos, o quadro 1 apresenta a demons- tração dos resultados contemplando as principais contas, que são discutidas logo na sequência. Ressalte-se que todas as contas que devem �gurar na DRE estão elencadas no artigo 187 da Lei das Sociedades Anônimas (Lei 6404/76 e alterações). Quadro 1 – Demonstração dos resultados dos exercícios XX/XX/XX XX/XX/XX Receita bruta $$$.$$$ $$$.$$$ (-) Dedução de receita bruta $$$.$$$ $$$.$$$ Receita líquida $$$.$$$ $$$.$$$ (-) CMV e/ou CSP e/ou CPV $$$.$$$ $$$.$$$ Resultado bruto $$$.$$$ $$$.$$$ (-) Despesas adminstrativas $$$.$$$ $$$.$$$ (-) Despesas comerciais $$$.$$$ $$$.$$$ (+ ou -) Resultado financeiro $$$.$$$ $$$.$$$ Resultado operacional $$$.$$$ $$$.$$$ (+ ou -) Resultado não operacional $$$.$$$ $$$.$$$ Resultado antes dos impostos $$$.$$$ $$$.$$$ (-) IRPJ / CSLL $$$.$$$ $$$.$$$ (-) Participações $$$.$$$ $$$.$$$ Resultado líquido $$$.$$$ $$$.$$$ Fonte: Elaborado pelos autores. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 86 17/10/2016 10:34:52 – 87 – Demonstrações contábeis: DRE e DFC 2 Receita bruta A receita bruta contempla o valor de prestação de serviços ou venda de mercadorias/produtos efetuadas pela entidade. A contabilização deve ser feita pelo valor bruto (valor de faturamento da nota �scal). Como a Contabilidade trabalha com o regime de competência, signi�ca dizer que o momento do reconhecimento da receita é o período da ocorrência de seu fato gerador e não o momento do recebimento. Na teoria, o fornecimento dos serviços ou a entrega dos bens deve ser o momento do reconhecimento da receita. Na prática, a contabilização ocorre com base na data da nota �scal, pois é considerado que a entrega do produto ou a prestação de ser- viço ocorre próxima à data da emissão da nota �scal. 2 Dedução da receita bruta Após a receita bruta, a DRE deve evidenciar uma conta redutora denominada dedução da receita bruta. Essa conta abrange as ven- das canceladas, abatimentos e impostos incidentes sobre as vendas. Essas contas são subtrações da receita bruta e diferem, substancial- mente, de custos e despesas por normalmente não representarem sacrifícios e esforços feitos pela organização vendedora ou presta- dora do serviço. As vendas canceladas são produtos devolvidos pelos clientes por diversos motivos, como defeitos nos produtos ou entregas equivo- cadas. Os abatimentos e descontos, por sua vez, são aqueles con- cedidos aos clientes após a entrega do produto; não se referem a descontos �nanceiros por pagamentos antecipados, denominados como despesas �nanceiras. Os impostos incidentes sobre vendas (impostos indiretos) são cobrados pelas três esferas de governo (federal, estadual e munici- pal). Por exemplo, o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) na esfera federal, o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS) na esfera estadual e o Impostos Sobre Serviços de qualquer natureza (ISS) na esfera municipal. Ainda existem outros impostos e contribuições que, certamente, interfe- rem demasiadamente no preço do produto/mercadoria ou serviço, 50687_MIOLO_Controladoria.indb 87 17/10/2016 10:34:52 Controladoria – 88 – e que devem estar incluídas nessa rubrica de dedução de receita bruta, tais como: Imposto de Exportação, Programa de Integração Social (PIS), Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS), além de outros. 2 Receita líquida Para apurar areceita líquida devem-se subtrair da receita bruta (vendas de bens e serviços) as deduções (vendas canceladas, abati- mentos, descontos concedidos e impostos incidentes sobre as ven- das). Nota-se que esse é o valor real de gerenciamento da empresa, pois o valor da receita bruta total não é de exclusividade da orga- nização, ou seja, parte dele pertence ao governo. É este, de fato, o valor que a empresa pode contar para cobrir os custos e despesas e auferir o lucro desejado. 2 Custo dos produtos/mercadorias vendidos e serviços prestados A rubrica Custo dos Produtos Vendidos (CPV) é utilizada em empre- sas industriais e contempla o valor de todos os recursos consumi- dos no processo de transformação da matéria-prima nos produtos acabados que foram vendidos no período de apuração do resultado. Já a expressão Custo dos Serviços Prestados (CSP), utilizada em empresas de serviços, corresponde ao valor dos recursos envolvidos no processo de prestar o serviço. As empresas comerciais, por sua vez, utilizam a rubrica Custo das Mercadorias Vendidas (CMV) para expressar o valor de custo das mercadorias vendidas no período, ou seja, o valor pago aos for- necedores. Portanto, a apuração do custo na empresa comercial é mais simples, bastando um levantamento de estoque, através de uma contagem e, com base no valor das compras, apura-se o valor do estoque e dos custos das mercadorias que foram vendidas. Os valores de compras podem ser obtidos através do levantamento das notas �scais de compras. Como se pode notar, tanto o CPV, quanto o CSP e o CMV têm correlação com a receita gerada pela venda do produto, da merca- doria ou do serviço, no mesmo período. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 88 17/10/2016 10:34:53 – 89 – Demonstrações contábeis: DRE e DFC 2 Resultado bruto Depois do levantamento da receita líquida, deve-se deduzir o custo das vendas ou da prestação dos serviços para se obter o resultado bruto, portanto, o resultado bruto é o confronto das receitas líqui- das com seus respectivos custos. Existe uma luta constante pelas empresas para maximizar o lucro bruto, pois é através deste que elas podem remunerar as despe- sas e proporcionar o lucro dos acionistas. Com a obtenção de um maior lucro bruto é possível, por exemplo, investir em propaganda, remunerar melhor a alta administração e os funcionários, ou seja, a empresa depende do sucesso do lucro bruto. Com a apuração do resultado bruto é possível calcular a margem bruta (MB), que é a primeira medida de lucratividade que pode ser utilizada pela organização. Lucratividade signi�ca quantos centavos a empresa ganha por real vendido. Assim, a MB é o primeiro con- ceito de lucratividade deste capítulo. Margem Bruta = Lucro Bruto Receita Líquida A margem bruta é uma boa medida de e�ciência das operações do sistema produtivo da empresa. Quando comparada com empresas concorrentes, do mesmo segmento, do mesmo setor econômico ou de outras atividades, é possível fazer um benchmarking (comparar com o melhor) e gerar informações importantes. Cada ramo de ativi- dade tem suas peculiaridades que devem ser consideradas nas análises. Enquanto um produto de alto valor agregado pode ter uma margem bruta alta (roupas de luxo, por exemplo), outros produtos podem ter margem bruta baixa, mas um alto giro (refrigerantes, por exemplo). 2 Despesas e resultado �nanceiro As despesas são os sacrifícios de recursos econômicos para obtenção de receitas e manutenção do negócio da empresa. Essas despesas diferem do custo, já que custos, de maneira geral, são gastos de produção e as despesas, de maneira geral, são gastos de administra- ção. Os principais grupos para uma demonstração de resultado são: 50687_MIOLO_Controladoria.indb 89 17/10/2016 10:34:53 Controladoria – 90 – 2 Despesas administrativas – despesas relativas às atividades admi- nistrativas, tais como salários e encargos, aluguéis, depreciação dos equipamentos administrativos etc. 2 Despesas comerciais – despesas referentes às atividades de vendas da empresa, como, por exemplo, comissões, fretes e seguros sobre vendas. 2 Resultado �nanceiro – compreende as receitas e despesas que a organização teve com transações �nanceiras. 2 Resultado operacional O resultado operacional é valor obtido pelo confronto de todas as receitas, custos e despesas que têm relação direta com a existência da organização, ou seja, todos os eventos relacionados à atividade �m, que vão desde a compra de fornecedores, passando pela pro- dução, distribuição dos produtos, propaganda, administração do negócio, até a remuneração de capital de terceiros. Apura-se o resultado operacional deduzindo-se do resultado bruto todas as despesas do período e o resultado das transações �nanceiras. O resultado operacional permite calcular a segunda medida de lucratividade que deve ser gerenciada pela organização: Margem Operacional (MO). Margem Operacional = Resultado Operacional Receita Líquida A margem operacional é uma boa medida da e�ciência das operações do sistema produtivo e da administração da organização. Quando comparada com empresas concorrentes, do mesmo segmento, do mesmo setor econô- mico ou de outras atividades, é possível realizar benchmarking e gerar infor- mações importantes. 2 Resultado não operacional Algumas empresas têm, após o resultado operacional, a subtração ou adição de fatores que, normalmente, não estão ligados ao ramo de negócio, à rotina, com a atividade operacional da organização; são itens não recorrentes. Essas transações são classi�cadas como resultados não operacionais. Um exemplo de perda não operacional 50687_MIOLO_Controladoria.indb 90 17/10/2016 10:34:53 – 91 – Demonstrações contábeis: DRE e DFC é a destruição total de um dos veículos da empresa utilizado por um membro da diretoria executiva. Caso a organização receba um valor referente ao seguro pela perda ocorrida, a Contabilidade classi�ca como um ganho não operacional. 2 Resultado antes dos impostos Esse é o lucro (ou prejuízo) auferido realmente pela organização, considerando a e�ciência do produto, do sistema de produção, da administração, vendas e qualquer outro efeito que in�uenciou a organização. Também é conhecido como Lucro Antes do Imposto de Renda (Lair). 2 IRPJ e CSLL O IRPJ (Imposto de Renda de Pessoa Jurídica) e a CSLL (Contribuição Social sobre o Lucro Líquido) são os impostos sobre o “lucro” auferido pela entidade. Basicamente, esses impostos recaem sobre o lucro quando a empresa se enquadra na forma de tributação do lucro real, que é a forma mais comum para empresas de grande porte. Para as empresas de médio e pequeno porte, que geralmente se enquadram no lucro presumido ou no sistema sim- ples, o IRPF e a CSLL são calculados com base no faturamento. 2 Participações A Lei 6.404/76, artigo 187, inciso VI, estabelece que na DRE devem-se discriminar Art. 187. [...] VI - as participações de debêntures, empregados, administradores e partes bene�ciárias, mesmo na forma de instrumentos �nanceiros, e de instituições ou fundos de assistência ou previdência de emprega- dos, que não se caracterizem como despesa. [...] Portanto, todos os valores que a entidade distribuir na forma de participação, seja a empregados e administradores (plano de par- ticipação nos resultados) ou a detentores de títulos da companhia, deverão ser especi�cados na DRE, antes da apuração do lucro líquido. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 91 17/10/2016 10:34:53 Controladoria – 92 – 2 Resultado líquido A última linha da demonstração do resultado é o resultado líquido. É o benefício quando ocorre o lucro, ou sacrifício quando ocorre o prejuízo, gerado pela empresa aos acionistas, aumentando ou dimi- nuindo o patrimônio líquido da sociedade. O resultado líquido permite calcular aterceira medida de lucratividade que deve ser gerenciada pela organização, ou seja, o terceiro conceito de lucra- tividade deste capítulo para medir a e�ciência da empresa, denomi- nado Margem Líquida (ML). Agregado ao valor investido de capital, o resultado líquido é utilizado como base para analisar o retorno do acionista. Margem líquida = Resultado Líquido Receita Líquida 4.3 Demonstração dos Fluxos de Caixa (DFC) É a demonstração que informa as entradas e saídas �nanceiras. A partir do ano 2008, com a publicação da Lei 11.638/07, essa demonstração tor- nou-se obrigatória para as sociedades que precisam publicar as demonstrações contábeis (Artigo 188). Basicamente, a DFC tem como objetivo gerar informações sobre as entradas (recebimentos) e saídas (pagamentos) de caixa durante um determi- nando período. É importante salientar que a informação é do �uxo �nanceiro, considerando todos os saldos equivalentes a caixa, ou seja, valores de disponi- bilidade imediata (por exemplo, aplicações �nanceiras de liquidez imediata). Segundo o Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC, 2008), as informações dos �uxos de caixa de uma entidade são úteis para proporcionar aos usuários das demonstrações contábeis uma base para avaliar a capacidade da entidade em gerar caixa e equivalentes de caixa, bem como suas necessida- des de liquidez. As decisões que são tomadas pelos usuários exigem avaliação 50687_MIOLO_Controladoria.indb 92 17/10/2016 10:34:53 – 93 – Demonstrações contábeis: DRE e DFC da capacidade da entidade em gerar caixa e equivalentes de caixa, bem como da época e do grau de segurança de geração de tais recursos. Destaque-se que a DFC registra as movimentações de caixa já ocorridas na empresa. Isso não impede que a organização elabore um outro relatório gerencial que contenha um �uxo de caixa projetado. Para melhor evidenciação, as transações que devem ser divulgadas pela DFC são divididas em três categorias, conforme prevê o inciso I, alíneas “a”, “b” e “c” do artigo 188 da Lei das S/As: �uxo da atividade operacional, �uxo da atividade de investimento e �uxo da atividade de �nanciamento. 4.3.1 Fluxo da atividade operacional O �uxo da atividade operacional demonstra as transações que afetaram o caixa com base nas operações da empresa; são efeitos diretos das recei- tas, ganhos, despesas e perdas que ocorreram no período e apresentadas na demonstração do resultado. Um exemplo desse relacionamento ocorre quando a empresa registra uma venda, (ou seja, receita) que deve ser evidenciada na DRE; essa venda pode ou não ser evidenciada no mesmo momento da DFC. Se a venda for à vista, ocorrerá simultaneamente o efeito na DRE e na DFC; porém, se a venda for a prazo, o reconhecimento na DFC só ocorrerá no momento do recebimento. São exemplos de transações que aumentam o caixa referente à atividade operacional: vendas de mercadorias ou prestação de serviços com recebi- mento à vista; recebimento de duplicatas de clientes; recebimento de royalties, honorários, comissões, juros por atraso de clientes etc. São exemplos de transações que diminuem o caixa referente à atividade operacional: compra de serviços ou mercadorias com pagamento à vista; pagamentos diversos aos fornecedores de mercadorias e serviços; salários e benefícios de empregados; impostos e contribuições ao governo; adianta- mento a fornecedores de mercadorias e serviços etc. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 93 17/10/2016 10:34:53 Controladoria – 94 – 4.3.2 Fluxo da atividade de investimento O �uxo da atividade de investimento demonstra a forma de aplicação do dinheiro nos ativos imobilizados ou investimentos permanentes. Para o CPC (2008), os �uxos de caixa decorrentes das atividades de investimento representam a extensão em que dispêndios de recursos são feitos pela entidade com a �nalidade de gerar receitas e �uxos de caixa no futuro. São exemplos de transações que aumentam o caixa referente ao �uxo da atividade de investimento: venda de qualquer ativo permanente com recebi- mento à vista; recebimento de venda de ativos permanentes a prazo etc. São exemplos de transações que diminuem o caixa referente ao �uxo da atividade de investimento: compra de investimento em outras empresas; compra à vista de ativo imobilizado; pagamentos por compras de ativo imo- bilizado a prazo etc. 4.3.3 Fluxo da atividade de financiamento O �uxo de atividade de �nanciamento demonstra as transações de caixa referentes à forma de �nanciamentos da organização. Incluem o capital pró- prio (proprietários, acionistas, cotistas) e outros credores (bancos, debenturis- tas etc). Geralmente, a tomada de recursos ocorre quando o �uxo da atividade operacional não está gerando caixa necessário para os objetivos da empresa, ou seja, para cobrir o �uxo da atividade de investimento. São exemplos de transações que aumentam o caixa referente ao �uxo da atividade de �nanciamento: recebimento proveniente de empréstimos bancá- rios; debêntures; aporte de capital por parte dos acionistas etc. São exemplos de transações que diminuem o caixa referente ao �uxo da atividade de �nanciamento: pagamento aos �nanciadores da empresa, podendo ser amortização de empréstimos, dividendos ou qualquer outro tipo de saída de caixa para devolver o dinheiro aos �nanciadores da empresa. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 94 17/10/2016 10:34:53 – 95 – Demonstrações contábeis: DRE e DFC 4.3.4 Transações que não afetam o caixa no mesmo período que ocorrem Existem operações ou reconhecimentos contábeis que não afetam o caixa do exercício social em que ocorrem. No entanto, em prazos médios ou longos, todo registro contábil irá afetar o caixa de maneira direta ou indireta. O que a Contabilidade faz é reconhecer que haverá efeito no caixa no futuro. São exemplos típicos de operações que não afetam o caixa no exercício social em que ocorrem: 2 vendas a prazo (para recebimento em exercícios sociais subsequentes); 2 depreciação, amortização e exaustão; 2 reconhecimento de juros a pagar ou a receber em períodos futuros; 2 provisão para devedores duvidosos; 2 provisões ou reconhecimentos de passivos trabalhistas, tributários ou civis; 2 resultado de equivalência patrimonial; 2 quaisquer outras variações que sejam registradas em ativos, passivos ou resultado que não tenha contrapartida no mesmo exercício social. 4.3.5 Métodos de apresentação São dois os métodos utilizados para elaborar a DFC. O primeiro método é conhecido como método direto, no qual parte-se diretamente das movi- mentações �nanceiras. O segundo método é o indireto, que parte do lucro contábil e ajusta-o para evidenciar o re�exo no caixa. Esta seção do capítulo tem o objetivo de descrever e explicar cada um dos dois métodos: 2 Método direto – a DFC, quando elaborada pelo método direto, evidencia as entradas e saídas de recursos �nanceiros das principais operações e transações derivadas da atividade operacional, como o recebimento por vendas ou prestação de serviços e pagamentos aos fornecedores, aos empregados e aos governos (impostos). A aná- lise da demonstração dos �uxos de caixa pelo método indireto é 50687_MIOLO_Controladoria.indb 95 17/10/2016 10:34:53 Controladoria – 96 – a mesma que pelo método direto, até porque os saldos gerados ou consumidos em cada categoria devem ser os mesmos. No entanto, a diferença está na forma de apresentação dos �uxos derivados das atividades operacionais. 2 Método indireto – a DFC, quando elaborada pelo método indi- reto, evidencia o impacto das atividades operacionais no caixa a partir do resultado líquido do exercício evidenciado na DRE e apu- rado segundo o regime de competência. Dessa forma, o método indireto concilia o resultado líquido e o caixa gerado pelas opera- ções. Para essa conciliação,deve-se ajustar o resultado líquido aos efeitos que não afetaram o caixa no exercício como: depreciação e amortização, vendas a prazo, despesas a serem pagas no futuro, receitas �nanceiras de longo prazo, juros e variações cambiais de longo prazo, entre outras. Pelo método indireto, deve-se (1) ajus- tar o resultado líquido às transações que não afetam o caixa e (2) analisar as variações das contas do ativo e passivo circulante. Com essa análise percebe-se, por exemplo, se houve variação (aumento) na conta de estoques e na conta de fornecedores, evidenciando a aquisição de estoques a prazo. Portanto, a diferença básica entre os dois métodos é que o primeiro evidencia todas as entradas e saídas de caixa por tipo de operação realizada no período, ou seja, mostra as movimentações que impactaram o caixa. Já o método indireto mostra apenas as alterações nos saldos das contas que afetaram o caixa e o resultado. Os dois métodos de preparação e divulgação da DFC são igualmente aceitos, porém a demonstração pelo método indireto é utilizada com mais frequência por companhias por ações (SAs). Um ponto importante é que o método indireto pode evidenciar algumas informações importantes, como as políticas de estoques (aumento ou redução), políticas de contas a receber (modi�cação no prazo de recebimento) e de contas a pagar (alteração no prazo de compras), entre outras. Por essa divulgação de políticas (ou tendências) de aumentos ou redu- ções de ativos e passivos circulantes costuma-se considerar mais informativa 50687_MIOLO_Controladoria.indb 96 17/10/2016 10:34:53 – 97 – Demonstrações contábeis: DRE e DFC a demonstração pelo método indireto. Porém, a DFC pelo método direto é considerada como mais fácil de ser compreendida. 4.4 Resumo A Controladoria deve analisar em conjunto com o balanço patrimo- nial a Demonstração do Resultado do Exercício (DRE) e a Demonstração dos Fluxos de Caixa (DFC). Para tanto, é importante entender a principal diferença entre os dois regimes de registro, apuração e análise das operações de uma entidade: “caixa” e “competência”. O regime de caixa mede o �uxo �nanceiro nos momentos dos recebimentos e pagamentos, ou seja, as receitas e despesas são contabilizadas por ocasião dos recebimentos e pagamentos, res- pectivamente. Já o regime de competência apura o resultado da organização por meio do registro das transações no período da ocorrência de seu fato gerador e não no momento da transferência de recursos �nanceiros. A demonstração responsável por divulgar a mensuração das transações econômicas que ocorreram em um determinado período de tempo é deno- minada Demonstração do Resultado do Exercício (DRE). De maneira geral, os gestores têm a necessidade de veri�car os resultados da organização para utilizar como base para a tomada de decisões referentes à lucratividade e ren- tabilidade da empresa. A apuração do resultado mede a e�ciência das opera- ções da entidade, colocando em uma única demonstração as receitas, ganhos, despesas e perdas acontecidas. Denomina-se lucro quando o valor de receitas e ganhos supera o valor de despesas e perdas (quando for menor, denomina-se prejuízo). A DRE permite a apuração de três medidas de lucratividade: mar- gem bruta (MB), margem operacional (MO) e margem líquida (ML). A Demonstração dos Fluxos de Caixa (DFC) informa as entradas e saídas �nanceiras. A partir do ano 2008, com a publicação da Lei 11.638/07, essa demonstração tornou-se obrigatória para as sociedades que precisam publicar as demonstrações contábeis. Basicamente, a DFC tem como objetivo gerar informações sobre as entradas (recebimentos) e saídas (pagamentos) durante um determinando período. É importante salientar que a informação é do �uxo �nanceiro, considerando todos os saldos equivalentes a caixa, ou seja, valores de disponibilidade imediata (por exemplo, aplicações �nanceiras de 50687_MIOLO_Controladoria.indb 97 17/10/2016 10:34:53 Controladoria – 98 – liquidez imediata). A DFC pode ser elaborada pelos métodos direto e indi- reto e evidenciar, separadamente, os �uxos das atividades operacionais, de investimento e de �nanciamento. Ampliando seus conhecimentos Porque substituir a Doar pela DFC (VILLELA, 2007. Adaptado) Ainda que a Lei 11.638/07 tenha tornado obrigatória a publi- cação da Demonstração dos Fluxos de Caixa (DFC), muito ainda se tem escrito e discutido sobre a substituição desta pela Demonstração de Origens e Aplicações de Recursos (DOAR), principalmente nos meios acadêmicos. Uma das principais justificativas para tal substituição seria a de seguir uma tendência internacional e suprir necessidades de analistas de mercado e investidores. Pesquisadores do assunto têm procurado conceituar a DOAR de forma acadêmica e evidenciar sua importância e riqueza de informações. Por outro lado, existe uma corrente que aprova e defende a implementação e obrigatoriedade da DFC por considerá-la de maior utilidade. A seguir apresentam-se as principais vantagens e desvantagens de cada demonstração, na visão de Villela (2007). Demonstração de Origens e Aplicações de Recursos (DOAR) Vantagens 2 Possibilita um melhor entendimento da política de inves- timentos e de financiamento da empresa. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 98 17/10/2016 10:34:53 – 99 – Demonstrações contábeis: DRE e DFC 2 É mais abrangente que o fluxo de caixa, pois representa as mudanças na posição financeira como um todo. 2 Possui uma capacidade analítica de longo prazo maior que o fluxo de caixa. 2 Permite uma melhor integração entre o lucro contábil e a posição financeira da empresa. 2 Mostra, além da variação do CCL (Capital Circulante Líquido), as mudanças na posição financeira como um todo, ou seja, nos itens não correntes que alteram o qua- dro de financiamentos e investimentos. Desvantagens 2 A demonstração é de difícil entendimento para os usuários. 2 Não é essencialmente financeira, pois considera o Ativo Circulante como um todo, incluindo ativos monetários e não monetários. 2 Para Matarazzo (2003), a DOAR pela legislação socie- tária é muito pobre para a análise. Demonstração do Fluxo de Caixa (DFC) Vantagens: 2 É de fácil entendimento entre os usuários. 2 Mostra a real condição de pagamento das dívidas. 2 Informa sobre os problemas de insolvência e liquidez, podendo previnir da falência. 2 Segundo alguns autores, a DFC é muito mais fácil de se entender do que a DOAR. 2 Evidencia como a empresa gerou caixa e como ela o gastou. 2 A DFC é um instrumento com utilização de nível mundial. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 99 17/10/2016 10:34:53 Controladoria – 100 – 2 Mostra o montante de recursos financeiros disponíveis na empresa, evitando que fiquem ociosos e auxiliando em suas aplicações. Desvantagens 2 As regras de apresentação e classificação das informa- ções ainda não estão claramente definidas. 2 Para alguns, o fluxo de caixa pode ser manipulável, por exemplo, através do atraso no pagamento de fornecedo- res, gerando um caixa ilusório. 2 Há uma tendência de utilização do método indireto, muito parecido com a DOAR, e que, portanto, não resolveria o problema de entendimento por parte dos usuários. 2 Não considera os itens que não transitam pelo caixa, como, por exemplo, os financiamentos obtidos através de financiamento mercantil. A geração operacional de caixa (fluxo de caixa operacional) ganhou importância no meio acadêmico, a partir, principal- mente, do estudo de Largay e Stickney sobre a falência da W. T. Grant Company. Esses autores se preocuparam em fazer algumas análises e verificar se haviam indícios do pro- blema na Grant antes de sua falência e porque eles não foram diagnosticados e solucionados. Através de um levantamento das demonstraçõesfinanceiras dessa empresa, do período de 1966 a 1975, foi possível perceber que a empresa manteve um CCL positivo durante quase todo o período. O grande problema estava no aumento brutal, ano após ano, nas contas de Estoques e Contas a Receber (Afonso, 1998, p. 112). Matarazzo (2003) menciona que a DFC é uma das demons- trações contábeis mais úteis. Ele ressalta o uso imprescindível da DFC, pelo fato de que, quase sempre, os problemas de insolvência ou liquidez ocorrem por falta de uma adequada administração do fluxo de caixa. Diz ainda: “Muitas empresas vão à falência por não saberem administrar seu fluxo de caixa”. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 100 17/10/2016 10:34:53 – 101 – Demonstrações contábeis: DRE e DFC Atividades 1. Qual a relação existente entre o balanço patrimonial, a DRE e a DFC? Explique como os regimes de caixa e de competência figuram nessa relação. 2. Explique como se compõem os resultados “bruto”, “operacional” e “líquido” constantes na DRE. Quais são as medidas de lucratividade que podem se extrair desses resultados? 3. Qual o objetivo, para que servem as informações geradas , e como é subdividida a DFC? O que contém cada subdivisão? 50687_MIOLO_Controladoria.indb 101 17/10/2016 10:34:53 50687_MIOLO_Controladoria.indb 102 17/10/2016 10:34:53 Logística Um dos problemas enfrentados pelas companhias, ao longo dos anos, é que muitas vezes o processo logístico é visto simplesmente como um custo e que precisa ser reduzido. Essa discussão tem como objetivo principal estabelecer e justi� car a importância estratégica da logística como um dos fatores de sucesso � nanceiro nos negócios; dessa forma, a logística deixa de ser considerada um centro de custos e torna- -se um centro de resultados. Assim, para que o desempenho logís- tico receba adequado reconhecimento, deve-se mensurar adequada- mente seus custos e receitas, além de evidenciar o quanto a logística consegue produzir e agregar de valor à empresa. Essa é a contribui- ção que a Controladoria pode fornecer, ou seja, estabelecer uma estrutura de avaliação de desempenho e de resultado econômico-� - nanceiro da logística, utilizando-se das demonstrações contábeis e outros instrumentos e relatórios para demonstrar o resultado obtido pelas atividades logísticas. 5 50687_MIOLO_Controladoria.indb 103 17/10/2016 10:34:55 Controladoria – 104 – 5.1 A importância da logística A logística está envolvida desde a entrada de insumos até a saída de pro- dutos, gerenciando o �uxo de informações, dinheiro e produtos e atuando em diversas atividades, tais como: transportar, manter estoques de materiais, embalagens e produtos acabados, movimentar materiais, processar pedidos, distribuir produtos etc. É um grande sistema interligado entre o mercado for- necedor e o mercado consumidor, conforme demonstrado na �gura 1 a seguir. Figura 1 – Logística interligando o mercado fornecedor e consumidor As Fases Logísticas Fornecedores Clientes Logística Suprimentos (in bound) Logística Interna (in process) Logística Distribuiçao (out bound) Fluxo de Informação, Dinheiro e Produto Fonte: (ALMEIDA, 2006. Adaptado) Considerando a �gura 1, pode-se a�rmar que a logística atua estrategica- mente em três fases distintas, podendo contribuir com a integração de todas as atividades e funções envolvidas nos processos organizacionais: 2 Na aquisição – construir um �uxo integrado entre a compra de insumos e a produção. 2 Na empresa – manter um �uxo de produção interligado e alinhado com a demanda. 2 Na distribuição – interligar os processos estratégicos de produção e distribuição de produtos. Assim sendo, a logística auxilia no gerenciamento dos custos e no enten- dimento das competências da empresa para atender aos diversos níveis de serviços aos clientes. Quando um cliente realiza uma compra (via telefone, diretamente na loja, pela internet ou qualquer outro canal de comercializa- ção), ele espera que o produto seja entregue conforme acordado. Em outras 50687_MIOLO_Controladoria.indb 104 17/10/2016 10:34:55 – 105 – Logística palavras, o cliente espera que o processo logístico funcione. Este pode ser um ponto crucial no sucesso da empresa, pois a falha nesse processo pode gerar impacto negativo na expectativa do cliente, o que pode re�etir em uma diminuição de vendas. Por outro lado, o sucesso no desempenho do processo logístico pode produzir uma vantagem competitiva perante os concorrentes. Uma das importantes ferramentas estratégicas contemporâneas é a apli- cação da logística para a cadeia de valor, ou seja, por conta do forte entrelaça- mento entre fornecedores, empresas e clientes, a gestão integrada da logística das empresas pode trazer benefícios interessantes. Na literatura nacional exis- tem diferentes denominações para esta atividade, como, por exemplo: geren- ciamento da cadeia de suprimentos, gerenciamento da rede de fornecimento ou gestão da cadeia de valor (Supply Chain Management). 5.1.1 Definindo a logística A fonte da palavra logística está ligada ao francês logistique e refere-se à arte da guerra que trata do planejamento e da realização de projeto e desen- volvimento, obtenção, armazenamento, transporte, distribuição, reparação, manutenção e evacuação de material para �ns operativos ou administrativos (FERREIRA, 1986). Christopher (1997) faz uma analogia desse signi�cado com o sentido empresarial, em que a logística é o processo de gerenciar estra- tegicamente a aquisição, movimentação e armazenagem de materiais, peças e produtos acabados (e os �uxos de informações correlatas) através da orga- nização e seus canais de marketing (distribuição), conseguindo maximizar a lucratividade presente e futura através do atendimento dos pedidos a baixo custo. Em resumo, para o correto entendimento do termo logística, devem ser guardados três pontos principais: 2 processo de gestão do �uxo de informação, dinheiro e produtos; 2 procura e�ciente da minimização do custo de comprar, armazenar, utilizar e servir; 2 luta pela e�cácia no atendimento da maximização do nível de serviço. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 105 17/10/2016 10:34:55 Controladoria – 106 – 5.1.2 Os sete “Cs” da logística e a sua operacionalização O sistema de informação envolvido no processo logístico deve estar dis- ponível e interligado de acordo com os diversos níveis de gestão de cada uma das atividades organizacionais com o objetivo de assegurar e�ciente e e�caz- mente os sete “Cs” da logística, que são: disponibilidade do produto certo, na quantidade certa, para o cliente certo, no momento certo, na condição certa, no lugar certo, ao custo certo. (ROBLES, 2001; DA COSTA, 2003) Para a correta gestão dos sete “Cs”, o trabalho e a gestão da logística podem ser divididos em três níveis: estratégico, tático e operacional. 2 Estratégico: decisões relativas a investimentos, localização geográ�ca dos centros de distribuição, volumes de transações, categorias de produtos, redes de transporte, parcerias etc. 2 Tático: decisões gerenciais para executar as atividades de gestão, principalmente as relacionadas à alocação de recursos humanos, espaço físico, materiais, máquinas e equipamentos. 2 Operacional: realização do trabalho cotidiano; envolve as operações de entrada de pedido de clientes, ordens de produção fabril, pedi- dos de compra, entrega do produto vendido etc. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 106 17/10/2016 10:34:55 – 107 – Logística Em complemento, para desempenhar e�cientemente e competir e�caz- mente por meio da logística, com base em Bowersox e Closs (2001), é pos- sível identi�car quatro maneiras práticas de buscar vantagem competitiva: qualidade, velocidade, �exibilidade e custo. 2 Qualidade é aredução das não conformidades. Quando um pro- duto apresenta defeitos ou se as promessas não se concretizam, pouco ou nenhum valor será agregado pela logística. 2 Velocidade se relaciona com o grau de comprometimento da entrega de forma rápida, a �m de satisfazer as exigências do �uxo de inventá- rio de clientes. É importante ter em mente o ciclo de vida do produto; não adianta entregar um produto após a sua utilidade comercial. 2 Flexibilidade busca uma maleabilidade no processo logístico. Essa taxa de elasticidade busca, por exemplo, a diversi�cação de produ- tos, tempo de resposta para aumento ou diminuição no volume e alteração de entregas. 2 Custo equivale à vantagem, seja perante preços baixos, margem alta ou uma ponderação entre esses. Dois pontos são fundamentais: o estoque ótimo (custo de investimento que deve ser realizado no processo) e a consolidação da movimentação (otimização de custo de transporte). 5.1.3 A logística integrada À luz do que propõem Bowersox, Closs e Cooper (2002), o trabalho da logística pode ser integrado por meio da operacionalização de cinco grandes atividades ou áreas: (1) processamento de pedidos, (2) inventário (estoque), (3) transporte, (4) armazenamento e manuseio de materiais e embalagem e (5) rede de instalações. A Controladoria pode auxiliar na forma de obtenção e divulgação de informações em cada uma das etapas. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 107 17/10/2016 10:34:55 Controladoria – 108 – Figura 2 – A logística integrada Processamento de pedidos Armazenamento e manuseio de materiais e embalagens Inventário (estoque) Transportes Rede de instalações Fonte: (BOWERSOX; CLOSS; COOPER, 2002. Adaptado.) 1. O processamento de pedidos compreende a habilidade de se captar as exigências dos clientes, ajuda na aceitação do pedido, entrega, faturamento, até mesmo o recebimento e cobrança. 2. O gerenciamento de estoque deve otimizar a dualidade custo-be- nefício para a empresa, ou seja, o estoque mínimo para se atingir o nível de serviço desejado. 3. O transporte corresponde ao deslocamento da empresa às instala- ções do cliente para proceder à entrega dos produtos (transporte de distribuição) como também para trazer os materiais, insumos ou mercadorias para dentro da empresa (transporte de recebimento); é a ferramenta mais visível da logística, tanto em importância, quanto em custo, e por isso já tem uma apreciável atenção por parte das organizações; três variáveis são de extrema importância: consistência, velocidade e custo. 4. O armazenamento e o manuseio de materiais e embalagens depen- dem das decisões logísticas efetuadas nas áreas de processamento de pedidos, estoque e transporte. Por exemplo: um pedido pode exigir um determinado tipo de embalagem; o inventário pode requerer um armazenamento diferenciado; e o transporte necessita de manu- seio propício de materiais no carregamento e descarregamento. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 108 17/10/2016 10:34:56 – 109 – Logística 5. A rede de instalações é a infraestrutura física para operacionalizar a logística, compreendendo as instalações, os equipamentos, os móveis, os softwares, os utensílios etc; é ela que determina a capaci- dade prática e operacional dos processos logísticos. 5.1.4 Proposta de valor Acredita-se que a maior parte dos níveis de serviços poderia ser atin- gida se a organização estivesse propensa a empenhar os valores requeridos. Atualmente, a restrição ao alcance do nível de serviço não está em procedi- mentos manuais ou tecnológicos, mas sim, nas con�gurações econômico-�- nanceiras. Nesse sentido, a questão estratégica que precisa ser respondida pela empresa é: como gerar benefícios melhores que os concorrentes? Sabe-se que a criação de valor no serviço logístico depende da taxa de disponibilidade (velocidade adequada), do desempenho (qualidade, �exibili- dade e redução das não conformidades) e da con�abilidade (avaliação precisa da disponibilidade e do desempenho continuamente). Porém, a empresa não deve tomar decisões equivocadas objetivando a excelência da prestação de serviços e a consequente criação de valor antes de avaliar o custo total. Portanto, o cerne da questão para conseguir a otimização logística é com- binar satisfatoriamente a geração de valor com o custo total. Nesse momento, a utilização de trocas compensatórias (trade-o�s) é um fator positivo. As trocas compensatórias ocorrem quando se abre mão de algum custo ou serviço para obter níveis alternativos de serviços logísticos. 5.2 Avaliação de desempenho e instrumentos financeiros Os pro�ssionais de logística, muitas vezes, têm negligenciado a men- suração efetiva de custos e benefícios do processo logístico (LAMBERT, COOPER e PAGH, 1998). Para re�etir sobre essa a�rmação, considere o seguinte exemplo: quando uma organização realiza vendas, é comum se atri- buir todos os créditos das vendas ao departamento de marketing (ou comer- cial); todavia, é muito provável que o total de vendas realizado seja resultado 50687_MIOLO_Controladoria.indb 109 17/10/2016 10:34:56 Controladoria – 110 – de um sistema de entregas rápido. Nesse sentido, caberia mensurar o efeito das ações logísticas sobre as vendas da empresa. Mas, será que o valor da logística foi vendido tanto externamente para os clientes, quanto interna- mente para a alta administração? Portanto, para que o desempenho logístico receba adequado reconhecimento, deve-se mensurar o valor que está pro- porcionando. Por isso, é necessária uma boa fonte de informação que possa demonstrar o valor do trabalho logístico. Eis a contribuição que a Controladoria pode fornecer: estabelecer uma estrutura de avaliação do desempenho e do resultado econômico-financeiro do processo logístico. 5.2.1 Agregando valor aos proprietários O objetivo principal dos sistemas de avaliação é fornecer informação ao pro- cesso de gestão em todas as suas etapas de planejamento, execução e controle. O processo de gestão logístico deve ter como missão a excelência do desempe- nho logístico que, na verdade, deve re�etir o valor esperado pelo acionista. Um sistema de avaliação pertinente deve tocar os pontos cruciais de impacto das operações logística no valor para o acionista. O modelo proposto por Bowersox, Closs e Cooper (2002), espelhado na �gura 3, busca re�etir isso, dividindo a forma de apuração de valor para o acionista em duas grades dimensões: excelência operacional e utilização de ativos. Figura 3 – Modelo do valor para o acionista. Sucesso do cliente Redução de capital fixo Redução de capital de giro Menor custo total de serviço Excelência Operacional Utilização de Ativos Fonte: (BOWERSOX; CLOSS; COOPER, 2002. Adaptado.) 50687_MIOLO_Controladoria.indb 110 17/10/2016 10:34:56 – 111 – Logística Na dimensão da excelência operacional, as variáveis-chave para a gestão logística focalizam-se no atendimento otimizado aos clientes, de modo a pro- porcionar um nível adequado de serviços e, ainda, na otimização do custo total dos serviços. Na dimensão da utilização de ativos, as variáveis-chave para a gestão logística re�etem a e�ciência da gestão de ativos �xos e do capital de giro. Os ativos �xos incluem as instalações, equipamentos, hardware, software, além de outros, utilizados no processo logístico. O capital de giro representa o dinheiro em espécie, o valor de estoques, contas a receber e pagar. 5.2.2 Analisando o serviço logístico Alguns autores advertem que a gestão logística é uma tarefa desa�adora e que é muito mais fácil escrever de�nições sobre esses processos do que imple- mentá-los (LAMBERT, COOPER e PAGH, 1998). Em razão disso, algumas empresas preferem terceirizar esse processo (ou parte dele) para especialistas. Porém, tanto internamente, quantoexternamente, é importante que a orga- nização avalie os serviços logísticos. A gestão da logística é possível por meio da mensuração pertinente dos benefícios �nanceiros que se acrescentam no processo logístico. Por exemplo, se a organização tomar a decisão de entregar diretamente e de forma rápida aos clientes, pode gerar um menor valor de estoque parados, diminuindo o valor do capital de giro. Consequentemente, isso irá gerar menor custo de operação. Para o cliente, a entrega de forma rápida pode ajudar na diminui- ção de estoques de segurança. A Controladoria pode auxiliar na gestão logís- tica propondo e operacionalizando algumas métricas de avaliação úteis como os índices de atividade e as métricas de desempenho. 5.2.2.1 Índices de atividade Baseia-se no ciclo operacional da empresa, ou seja, em quanto tempo está sendo exigido para a transformação do dinheiro da compra de insumo até o recebimento do dinheiro de clientes. O objetivo da logística é controlar e reduzir o tempo de recebimento do pedido para entrega, como um esforço para acelerar giros de inventário e recebimentos. Está relacionado com o prazo 50687_MIOLO_Controladoria.indb 111 17/10/2016 10:34:56 Controladoria – 112 – médio de rotação de estoques (PMRE) e de recebimento de vendas (PMRV), como se pode ver a seguir. PMRE = Estoque x 360 dias PMRV = Contas a receber x 360 dias Custo dos produtos vendidos Receita Bruta Quanto menores forem esses prazos médios, mais rápido ocorrerá o retorno do dinheiro. A logística pode contribuir ajudando a reduzir esse tempo entre a entrada de insumo e a saída de produto. Para o departamento �nan- ceiro, o PMRE e o PMRV devem ser analisados junto com o PMPC (prazo médio de pagamento de compras) que é dado conforme a fórmula abaixo: PMPC = Fornecedores x 360 dias Compras Com a união desses três índices de atividade, a Controladoria pode auxi- liar o departamento �nanceiro na análise da vida �nanceira da empresa, ou seja, se ela está em situação favorável ou desfavorável. Por exemplo: imagine que uma empresa tenha PMRE de 30 dias, PMRV de 54 dias e PMPC de 60 dias, a situação está favorável ou desfavorável? Ciclo Operacional PMRE = 30 dias PMRV = 54 dias PMPC = 60 dias 24 dias PMRE 30.º dia venda PMPC 60.º dia pagamento PMRV 84.º dia recebimento 1.º dia compra 24 dias Fonte: Elaborado pelos autores. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 112 17/10/2016 10:34:56 – 113 – Logística Nesse caso a situação da empresa está desfavorável, uma vez que, da data da compra, ela gasta 30 dias para girar o estoque e mais 54 dias para receber pela venda efetuada, totalizando, portanto, 84 dias. Como a empresa obteve 60 dias de prazo para pagar pela compra efetuada, signi�ca que há uma dife- rença de 24 dias entre a data do recebimento da venda e o pagamento da compra. Isso evidencia que a empresa está �nanciando algumas de suas ven- das para os clientes. A logística pode ajudar na melhoria da situação �nan- ceira, por exemplo, com algumas das seguintes ações: melhorando os serviços da logística interna e diminuindo o prazo de estocagem ou aprimorando o tempo de entrega para os clientes, reduzindo o prazo de recebimento. 5.2.2.2 Métricas de desempenho Para avaliar o desempenho logístico, Bowersox, Closs e Cooper (2002), com base numa pesquisa realizada ao longo de vários anos, caracterizaram cinco tipos de medidas funcionais: custo, serviço a clientes, qualidade, pro- dutividade e gestão de ativos. A principal representação do desempenho logístico é o custo real incor- rido versus o planejado, seja ele o custo total, por lote ou unitário. O desem- penho de custo pode ser apurado em relação ao consumo de recursos ocorrido em cada função logística especí�ca, como armazenagem, transporte de dis- tribuição, transporte de recebimento e processamento de pedidos. Também é comum administrar os custos com base em um percentual de vendas. Por exemplo, frequentemente as empresas avaliam os custos de transporte a partir do volume de vendas em valor e do pedido entregue. O quadro 1 demonstra essas e outras métricas relativas aos custos de desempenho logístico. Quadro 1 – Exemplos de métricas típicas de desempenho de custo Medida Exemplos Custos - Custo real x custo orçado - Custo total e unitário - Custo como porcentagem das vendas - Frete de recebimento e expedição - Lucratividade por segmento de clientes 50687_MIOLO_Controladoria.indb 113 17/10/2016 10:34:56 Controladoria – 114 – Medida Exemplos Custos - Custo de produtos devolvidos - Custo de falhas no serviço - Custo de pedidos não atendidos Fonte: (BOWERSOX; CLOSS; COOPER, 2002. Adaptado.) Uma plataforma especí�ca de métricas de atendimento aos clientes deve ser preparada. O índice de atendimento do pedido (pedido completo expedido) é a métrica relativa à disponibilidade do produto mais importante. Nesse cálculo, qualquer pedido que faltar apenas um único item é conside- rado incompleto. O quadro 2 demonstra outros tipos de métrica. Quadro 2 – Exemplos de métricas típicas de desempenho de serviços aos clientes Medida Exemplos Atendimento a clientes - Erros de embarque - Entregas no prazo - Pedidos não atendidos - Consistências das entregas - Pedidos completos - Reclamações de clientes - Nível global de satisfação Fonte: (BOWERSOX; CLOSS; COOPER, 2002. Adaptado.) Muitas das métricas de qualidade são projetadas para monitorar a efe- tividade das atividades individuais, conforme mostra o quadro 3, enquanto outras focam na função logística como um todo. Muitas vezes o desempenho relativo à con�abilidade do serviço é geralmente re�etido nessa avaliação. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 114 17/10/2016 10:34:56 – 115 – Logística Quadro 3 – Exemplos de métricas típicas de desempenho da qualidade Medida Exemplos Qualidade - Frequência de danos - Precisão da entrada de pedidos - Precisão da separação / expedição - Precisão da documentação / faturamento - Disponibilidade de informação - Precisão das informações - Número de devoluções de clientes Fonte: (BOWERSOX; CLOSS; COOPER, 2002. Adaptado.) A produtividade é a relação entre o trabalho realizado e a quantidade de recursos utilizados para produzir o produto. O quadro 4 expõe a preocupação de avaliar algumas métricas de produtividade. Quadro 4 – Exemplos de métricas típicas de desempenho de produtividade Medida Exemplos Produtividade - Unidades expedidas por empregado - Pedidos por representante de vendas - Programas de objetivos - Tempo de uso dos equipamentos - Produtividade da entrada de pedidos - Produtividade da mão de obra do armazém - Produtividade da mão de obra de transporte Fonte: (BOWERSOX; CLOSS; COOPER, 2002. Adaptado.) 50687_MIOLO_Controladoria.indb 115 17/10/2016 10:34:56 Controladoria – 116 – A gestão de ativos destaca a utilização dos ativos, bem como o capital de giro. As instalações logísticas, equipamentos e inventários representam uma parcela substancial dos investimentos no processo logístico. As métricas da gestão de ativos concentram-se em avaliar a otimização da utilização do capi- tal investido nas operações pelos gestores logísticos. Quadro 5 – Exemplos de métricas típicas de desempenho de gestão de ativos Medida Exemplos Gestão de ativos - Giro do inventário - Níveis de inventário, número de dias de suprimento - Inventário obsoleto - Retorno sobre os ativos líquidos - Retorno sobre investimentos - Classificação do inventário (itens ABC) - Valor econômico agregado (EVA) Fonte: (BOWERSOX; CLOSS; COOPER, 2002. Adaptado.) 5.2.3 Instrumentos financeiros No ambiente contemporâneo empresarial, os gestores de logística preci- sam estar preparados para justi�carcomo a atuação do serviço logístico afeta o resultado econômico-�nanceiro da organização. A avaliação tradicional de desempenho logístico não descreve o alcance da linguagem �nanceira utili- zada na alta diretoria. A Controladoria deve auxiliar nos sistemas de avaliação dos gestores logísticos fornecendo uma conexão com os resultados da com- panhia. Desse modo, os gestores devem ter um conhecimento nesse assunto, principalmente nas três principais ferramentas de avaliação: orçamento, metodologia de custeio e modelo estratégico de lucro. O orçamento é a tentativa de organizar o futuro, estimando os custos, despesas e receitas antecipadamente, durante certo período de tempo. Desse modo, o orçamento serve como base de controle dos custos logísticos. O ideal é que as métricas analisadas no item anterior sejam comparadas entre o real (acontecido) e o orçado (planejado). 50687_MIOLO_Controladoria.indb 116 17/10/2016 10:34:56 – 117 – Logística A metodologia de custeio é uma estrutura de análise dos custos e das recei- tas. Existem as metodologias tradicionais de contabilidade (custeio variável, custeio por absorção e custeio pleno), como também, visões um pouco mais contemporâneas (Time-Driven Activity Based Costing1 e Cost-to-Serve2) que podem ajudar a identi�cação das despesas ou custos logísticos. As margens de lucratividade são apuradas com base na metodologia de custeio. Quatro são as principais: margem de contribuição, margem bruta, margem operacional e margem líquida. Embora a avaliação do orçamento, a escolha adequada da metodologia de custeio e a análise da lucratividade sejam aspectos importantes dos demonstrativos econômico-�nanceiros, as medidas mais importantes estão empíricas à análise do modelo estratégico de lucro. Esse modelo trata da rentabilidade da empresa e dos proprietários. A rentabilidade está relacionada com o retorno de investimento, que é o principal indicador da situação econômica de um negócio por ser possível comparar com outros investimentos. A rentabilidade da empresa é dada pela Taxa de Retorno sobre Ativo – TRA (Return on Assets – ROA). Com base nessa taxa é possível fazer o cálculo de payback, ou seja, qual é o prazo do retorno de investimento. TRA = Lucro Líquido Ativo A rentabilidade dos proprietários é calculada pela Taxa de Retorno sobre o Patrimônio Líquido – TRPL (Return on Equity – ROE). Com base nessa taxa é possível fazer o calculo de payback dos empresários, ou seja, qual é o prazo do retorno do investimento dos proprietários. 1 Time-Driven Activity Based Costing é uma nova roupagem do Custeio Baseado em Ativi- dades, desenvolvido por Kaplan e Anderson (2007) na tentativa de simpli�cá-lo. O cerne da simpli�cação é o cálculo de apenas duas métricas, o custo unitário da capacidade de uma ativi- dade e o tempo requerido para executar uma transação. Resumindo, o principal direcionador do custeio é o tempo. 2 Segundo Braithwaite e Samakh (1998) as empresas se esforçam muito para saber em detalhes o custo de produção de seus produtos, mas têm pouca ideia de quanto custa servir a um cliente. O cost-to-serve, que segundo Guerreiro et al (2007) é o custo das atividades relacionadas com a pres- tação de serviços aos clientes, tem como objetivo principal a análise de lucratividade de clientes. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 117 17/10/2016 10:34:56 Controladoria – 118 – TRPL = Lucro Líquido Patrimônio Líquido Embora os proprietários e investidores estejam mais interessados na TRPL, a TRA oferece uma medida da e�ciência e e�cácia da gestão dos ativos da empresa em busca de obtenção de lucros. A análise do modelo estratégico de lucro demonstra como o gerencia- mento do ativo e o gerenciamento das margens de lucratividade in�uenciam a taxa de retorno dos investimentos e a taxa de retorno dos acionistas. Esses são os dois modos fundamentais pelos quais uma empresa pode aumentar o retorno em ativos. As operações logísticas causam impactos signi�cativos em ambos e a Controladoria tem como um de seus propósitos auxiliar os gestores na confecção de orçamentos, na medidas de custos, além de informar sobre a lucratividade de rentabilidade dos diversos processos integrados que formam a função logística. 5.3 Resumo A logística é o processo de gerenciar estrategicamente a aquisição, movi- mentação e armazenagem de materiais, peças e produtos acabados (e os �uxos de informações correlatas) através da organização e seus canais de marketing (distribuição), conseguindo maximizar a lucratividade presente e futura atra- vés do atendimento dos pedidos a baixo custo. A logística deve gerenciar o �uxo de informações, dinheiro e produtos, desde o ponto de aquisição de bens e serviços até o consumo ou venda a clien- tes, envolvendo-se em diversas atividades, como a atividade de transportar, manter estoques, movimentar materiais, embalagens e produtos acabados, processar pedidos, distribuir produtos etc. O processo de logística deve se preocupar, principalmente, com três pontos essenciais: gestão de �uxo de informação, dinheiro e produtos; procura da minimização do custo de servir; e foco na maximização do nível de serviço. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 118 17/10/2016 10:34:56 – 119 – Logística O trabalho da logística pode ser integrado por meio da operacionali- zação de cinco grandes atividades ou áreas: (1) processamento de pedidos, (2) inventário (estoque), (3) transporte, (4) armazenamento e manuseio de materiais e embalagem e (5) rede de instalações. Para desempenhar e�cientemente e competir e�cazmente por meio da logística, dentro dos níveis estratégico, tático e operacional, existem quatro maneiras práticas de buscar a vantagem competitiva: qualidade (redução de não conformidades), velocidade (tempo de entrega), �exibilidade (maleabi- lidade do processo) e custo (custo baixo e/ou margem alta). O sistema de informação envolvido no processo logístico deve estar disponível e interli- gado de acordo com os diversos níveis de gestão de cada uma das atividades. A questão estratégica que �ca é: como a empresa pode gerar benefícios melhores que os concorrentes? O cerne da questão para conseguir liderança logística é combinar satisfatoriamente a geração de valor com o custo total. Nessa hora a utilização de trocas compensatórias (trade-o�s) é um fator positivo. É relevante para as empresas estabelecerem e justi�carem a importância estratégica da logística como um dos fatores de sucesso �nanceiro nos negó- cios. Dessa forma, para que todo o desempenho do trabalho logístico receba adequado reconhecimento da companhia e dos clientes, os gestores devem medir adequadamente seus custos e receitas, além de evidenciar o quanto a logística consegue produzir e agregar de valor à empresa. Essa é a razão de ser estabelecida uma estrutura de avaliação do desempenho e do resultado eco- nômico-�nanceiro do processo logístico. Três medidas de avaliação podem ser úteis na análise do serviço logístico, denominadas de índices de atividade: PMRE, PMRV e PMPC. Adicionalmente, a Controladoria deve auxiliar os sistemas de avaliação dos gestores logísticos fornecendo uma conexão com os resultados da companhia. Desse modo, os pro�ssionais de Controladoria devem ter um conhecimento das três principais ferramentas de avaliação: orçamento, metodologia de custeio e modelo estratégico de lucro. Portanto, a contribuição que a Controladoria pode fornecer está em estabelecer uma estrutura de avaliação de desempenho e de resultado econômico-�nanceiro em cada uma das etapas do processo logístico, utilizando-se das demonstra- ções contábeis e outros instrumentos e relatórios para demonstrar o resultado obtido pelas atividades logísticas. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 119 17/10/2016 10:34:56 Controladoria – 120 – Ampliando seus conhecimentosO caso Dell Computer (FINE, 1999) Um dos mais inspirados projetistas de cadeia de fornecimento do planeta é Michael Dell. Em maio de 1998, o preço da ação da Dell Computer havia aumentado 26.900 por cento nos anos 90 (desempenho superior ao da Intel, Microsoft, Coca-Cola, Disney ou Cisco Systems). A Dell Computer não dispõe de uma tecnologia patenteada que atue como força propulsora de níveis de crescimento e rentabilidade tão estratosféricos. Na verdade, a posição da empresa na cadeia de fornecimento está espremida entre a Intel e a Microsoft a montante, dois dos participantes mais poderosos do setor de computadores e um mercado a jusante composto de milhões de consumidores bem informados, capazes de escolher entre dúzias de empresas que montam computadores pessoais pra- ticamente indistintos. Em termos de adversários diretos, a Dell compete com potências como a IBM, a Hewlett-Packard, a Compaq e uma multidão de participantes asiáticos e america- nos de baixo custo, que se aproveitaram dos reduzidos custos de entrada no setor de PCs. De acordo com qualquer análise no estilo Porter (1989), a posição setorial da Dell pareceria qualquer coisa, mas não algo atrativo. No entanto, mais do que apenas prosperar, o crescimento das vendas e do lucro da Dell é de tirar o fôlego. A principal vantagem da empresa é o notável projeto da sua cadeia de for- necimento, enriquecido ainda mais pela qualidade da gestão. Embora difícil de acreditar, durante a década de 1990 a gestão da cadeia de fornecimento da Dell foi conduzida pelo sof- tware clássico para o planejamento das necessidades de mate- riais (Materials Requirements Planning – MRP). A história do sucesso da Dell é fascinante e importante, em parte porque 50687_MIOLO_Controladoria.indb 120 17/10/2016 10:34:56 – 121 – Logística ilustra um projeto brilhante de cadeia de fornecimento num setor de alta velocidade evolutiva. Utilizando componentes encomendados por catálogo, Michael Dell começou a montar e a vender computadores no seu quarto, na Universidade do Texas. Quando o seu colega de quarto o expulsou por causa da desordem eletrônica, Dell se mudou para dependências maiores e, desde então, continuou em expansão. Felizmente, o Texas é um estado extenso e lhe proporcionou bastante espaço para crescimento. A Dell Computer recebe pedidos para PCs e estações de tra- balho personalizadas pelo telefone e pelo seu site na internet, começa a construir a máquina quase que imediatamente após o recebimento do pedido e embarca o produto acabado assim que estiver pronto, frequentemente em 24 horas. A empresa não mantém estoques de produtos acabados, nem emprega distribuidores ou varejistas que possuam estoques e expede todos os produtos diretamente da fábrica para o consumidor final. Ademais, a Dell praticamente não mantém estoques de materiais: todos os componentes adquiridos pela empresa vão diretamente para as máquinas que estão sendo produzidas e vendidas. Como a Dell sabe o que vai vender? Para compre- ender a resposta é melhor formular a questão ao contrário: a Dell vende tudo que compra. A única variável é o preço. A organização de vendas da Dell é responsável pelas previ- sões e decisões sobre as compras de componentes. Como as comissões estão baseadas nas margens de lucro, as pessoas de vendas devem vender tudo que compram, inclusive os componentes adquiridos em razão de erros de julgamento dos compradores quanto à demanda dos consumidores. Se a demanda cair ou os clientes não mais quiserem determinado componente, a organização de vendas deve baixar o preço, de modo que o produto seja vendido de qualquer maneira. Como a empresa evita se queimar? Primeiro, consegue bons preços dos fornecedores, pois compra grandes volumes. Segundo – e esse é realmente o fator crítico – quando em 50687_MIOLO_Controladoria.indb 121 17/10/2016 10:34:56 Controladoria – 122 – dúvida sobre as preferências dos clientes, os compradores sempre optam por adquirir os componentes com a tecnologia mais recente, pois são os que têm a vida de prateleira mais longa. Como a empresa não mantém estoques e não tem revendedores, consegue ser o produtor de custo mais baixo. Além disso, como os usuários mais sofisticados geralmente adquirem os componentes mais atualizados, a Dell presta ser- viço a esse grupo seleto e mantém elevadas margens de lucro. E aqui está o verdadeiro macete: quanto maior a velocidade evolutiva do setor de computadores, maior a vantagem da Dell em relação aos concorrentes. Como o sistema funciona? Todos os outros grandes fabricantes de PCs produzem para estoque e vendem por meio de revendedores que mantêm estoques. Nesse setor, os estoques não envelhecem de graça. Na realidade, os estoques obsoletos no mercado de compu- tadores são verdadeiras excrescências. O que teria sido pior do que ter um grande estoque de PCs com modem de 28k, quando os novos modems de 56k chegaram ao mercado? Quem gostaria de ter disponível milhares de processadores Pentium, quando a Intel lançou o Pentium II e os preços dos velhos Pentium despencaram? Atividades 1. Com base na discussão levantada neste capítulo, justifique a impor- tância da logística para as organizações. 2. Quais são as cinco medidas necessárias para se analisar o desempenho do serviço logístico? 3. Identifique um instrumento de avaliação financeira na logística e ex- plique qual a informação gerada por ele e que possíveis decisões o gestor poderia tomar? 50687_MIOLO_Controladoria.indb 122 17/10/2016 10:34:56 Métodos de custeio Este capítulo tem como objetivo estabelecer e justi� car a importância de entender, tratar e analisar os custos que ocorrem numa organização. As diversas terminologias empregadas no con- texto da área de custos são apresentadas com o intuito de melhorar a comunicação entre os pro� ssionais e os usuários das informações. Adicionalmente, trata-se do tema de como classi� car, apurar e ana- lisar os custos, possibilitando a gestão e a tomada de decisões. O pro� ssional que pretende atuar na Controladoria deve saber como identi� car, registrar, mensurar, controlar, analisar e avaliar os custos da organização, incluindo análises gerenciais e estratégicas referen- tes à viabilidade de lançamento de produtos e serviços, resultados de produtos, clientes, projetos, centros de responsabilidades, linhas de negócios, otimização de custos etc. 6 50687_MIOLO_Controladoria.indb 123 17/10/2016 10:34:58 Controladoria – 124 – 6.1 Entidade objeto de custeio Toda discussão sobre custos deve iniciar pelo entendimento de o que é uma entidade objeto de custeio, haja vista que esta deverá direcionar toda a forma de aplicações dos conceitos de métodos de custeio numa organização. Assim sendo, pode-se de�nir entidade objeto de custeio como a menor parte de uma organização responsável pela acumulação de custos. Segundo Horngren, Foster e Datar (2000, p. 19) é qualquer coisa para a qual se deseja uma mensuração de custo, ou seja, é o elemento a ser custeado, estudado e analisado. Por exemplo, os custos podem ser apropriados a objetos de custeio dos seguintes tipos: 2 Departamentos e/ou centros de responsabilidade – para facilitar decisões sobre a e�ciência e custear responsabilidades. 2 Produtos e/ou clientes – para facilitar a análise de lucratividade, preci�cação e tomar decisões sobre lançamento, continuidade ou retirada de mercado. 2 Processo e/ou atividades – para facilitar decisões de análise de desem- penho, aperfeiçoamento de processos e terceirização de atividades. 6.2 Terminologia Uma vez de�nido(s) e escolhido(s) o(s) objeto(s) de custeio da empresa, o próximo passo é compreender a signi�cação de algumas terminologias básicas utilizadas no contexto de custos e que, muitas vezes, são tratadasde maneira incorreta. O adequado entendimento das expressões a seguir discuti- das permitirá a geração de informações de custos corretas, levando a decisões igualmente corretas. Tais expressões compreendem: custo, despesa, investi- mento, perda, gasto e desembolso. Item Definição Exemplos Custo Consumo de recursos no sistema produtivo da organização. Só existe custo quando existir uma desta três ações no processo produtivo: con- sumo, utilização ou transformação. Energia elétrica da fábrica, salários e encargos do pessoal de produção, depreciação das máquinas do pro- cesso de produção etc. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 124 17/10/2016 10:34:58 – 125 – Métodos de custeio Item Definição Exemplos Despesa Recurso sacrificado no esforço de obter receita diretamente ou indi- retamente. É o recurso consumido fora do processo produtivo. Aluguel do prédio administrativo, salários e encargos do pessoal da contabilidade etc. Investimento Recurso ativado pela empresa, pois tem característica de gerar benefícios futuros. Portanto, no contexto de custos, todos os bens são investimentos. Máquinas e equipa- mentos, estoque de matéria-prima e produto acabado, veículos de entrega de produtos etc. Perda Recurso consumido de forma anormal e involuntária, e que a entidade não tinha condições de prever. Deterioração de estoques de produtos por incêndio, ociosidade de funcioná- rios causada por queda de energia elétrica etc. Gasto Também denominado dispêndio, é toda a aquisição de bens e serviços que deve gerar sacrifício financeiro para a entidade. Isso significa que os custos, despesas e investimentos são, também, gastos, desde que provoquem sacrifício financeiro. A depreciação, por exemplo, pode ser um custo ou despesa, mas não é um gasto. Compra de uma máquina, salários dos funcio- nários da produção e administrativos, energia elétrica, aluguel etc. Desembolso É o próprio pagamento, ou seja, desconto de cheque, transferência, cartão de débito etc. O desembolso refere-se ao pagamento do gasto. Pagamento de uma máquina, dos salários e encargos, do aluguel etc. Fonte: Elaborado pelos autores. 6.3 Classificação de custos Uma vez especi�cados os conceitos de cada uma das terminologias que compõem a área de custos, é possível aprofundar em algumas destas expres- sões, para que estas, posteriormente, sejam adequadamente aplicadas nos métodos de custeio. Nesse sentido, este tópico busca classi�car os custos e despesas em categorias. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 125 17/10/2016 10:34:58 Controladoria – 126 – Leone (2000, p. 55) a�rma que existem custos diferentes para atender �nalidades especí�cas. Desse modo, torna-se importante conceituar e classi- �car os diferentes tipos de custos e despesas para suas respectivas �nalidades gerenciais. Neste capítulo, descrevem-se dois tipos de classi�cação: quanto à identi�cação e quanto ao comportamento. 6.3.1 Identificação Quanto à identi�cação com a entidade objeto de custeio, os custos e despesas podem ser classi�cados como diretos ou indiretos. Quadro 1 – Características dos custos e despesas diretos e indiretos Classificação Características Diretos - Relacionados a uma entidade objeto de custeio. - Podem ser precisamente rastreados. - Podem ser apropriados diretamente. - Podem ser objetivamente mensura- dos por entidade objeto de custeio. - Podem ser identificados de maneira economicamente viável. Indiretos - Não estão relacionados a uma única entidade objeto de custeio. - Não oferecem condições de uma medida obje- tiva por objeto de custeio. - Precisam ser alocados por meio de rateios ou outras formas de distribuição proporcional. - O grau de precisão da mensuração é baixo em relação aos diretos. Fonte: (ZUCCHI, 1992; HORNGREN et al. 2000; MARTINS, 2004; HANSEN; MOWEN, 2001. Adaptado.) Com base nas características apresentadas no quadro 1, pode se de�nir os custos e despesas diretos como aqueles facilmente relacionados a uma enti- dade objeto de custeio e que podem, de maneira clara, direta e objetiva serem identi�cados e apropriados a tal objeto de custeio. Portanto, não precisam de critérios de rateios para sua apropriação, o que faz com que sua precisão 50687_MIOLO_Controladoria.indb 126 17/10/2016 10:34:58 – 127 – Métodos de custeio quanto à mensuração de custos seja alta. Uma barra de cereal fornecida em um trecho aéreo é um custo direto daquela viagem, por exemplo. Os custos e despesas indiretos, por sua vez, são aqueles que só podem ser apropriados, por sua própria de�nição, de forma indireta, mediante estimati- vas, contendo, em menor ou maior grau, certo subjetivismo. A arbitrariedade sempre existirá nessas alocações, podendo, às vezes, ser bastante aceitável e, em outras oportunidades, por não haver alternativas melhores (MARTINS, 2004, p. 79). O aluguel mensal pago para guardar o avião no galpão pode ser considerado custo indireto de uma viagem aérea. A energia elétrica de um escritório de contabilidade pode ser uma despesa indireta de cada contrato de prestação de serviço. Às vezes, pela facilidade, pela relevância de custos ou pelos gastos neces- sários aos controles, alguns custos e despesas diretos são tratados como indi- retos. Exemplo disso acontece com o custo de energia elétrica que, muitas vezes, é tratado como custo indireto. Se esse custo for relevante, é recomen- dável que a empresa empreenda esforços para a medição direta (colocando um medidor), responsabilizando uma entidade objeto de custeio diretamente pelo custo. 6.3.2 Comportamento Os custos e despesas também podem ser classi�cados quanto ao seu com- portamento em relação ao volume de produção, de atividade ou de venda. São os chamados custos e despesas �xos e custos e despesas variáveis. Os custos �xos são aqueles cujo valor total num determinado período independem do aumento ou diminuição do volume de produtos elaborados naquele período de tempo, considerando-se a capacidade instalada da empresa. Os custos �xos podem sofrer alteração no período analisado, porém, essa alteração não deve ser em função do volume de produção, mas sim com base em outros fatores, como, por exemplo, um reajuste contratual baseado na in�ação. Já os custos variáveis são aqueles cujo valor total num determinado período de tempo oscila de acordo com o volume de produção. O consumo de matéria-prima é um exemplo típico de custo variável. Despesas variáveis e despesas �xas seguem a mesma linha dos custos variáveis e �xos. Todavia, o comportamento não é em relação ao volume de 50687_MIOLO_Controladoria.indb 127 17/10/2016 10:34:59 Controladoria – 128 – produção e sim em relação ao volume de vendas, uma vez que estas não estão ligadas ao sistema produtivo, mas, como visto, relacionam-se ao esforço para se obter receitas. Cabe esclarecer que se a entidade objeto de custeio não for o produto, a classi�cação dos custos e despesas em �xas e variáveis não leva em considera- ção o volume de produção ou venda, mas sim o volume de atividade daquele objeto de custeio. Por exemplo, se a entidade objeto de custeio for uma turma de alunos, numa escola, o custo será �xo ou variável em relação às oscilações do número de alunos. A separação dos custos e despesas em �xos e variáveis fornece subsídios importantes para as decisões da empresa. São exemplos de informações para tomada de decisão com base na separação dos custos em �xos e variáveis: 2 planejamento e simulação nos custos e despesas com base na varia- ção de nível de atividade; 2 per�l de estrutura de custos e despesas (�xos e variáveis) em relação ao custo e despesa total, re�etindo o nível de risco operacional; 2 ponto de equilíbrio; 2 margem de segurança; 2 grau de alavancagem;2 identi�cação, utilização e compreensão dos métodos de custeio. 6.4 Métodos de custeio Métodos de custeio estão relacionados à forma de atribuir custos e des- pesas às entidades objetos de custeio. É a maneira de ordenar o processo de apurar custos e resultados de um objeto de custeio, obedecendo aos prin- cípios estabelecidos pela particularidade de cada método. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 128 17/10/2016 10:34:59 – 129 – Métodos de custeio Os métodos de custeio possuem o objetivo de apurar os custos e resulta- dos das entidades objetos de custeio, sendo adotados para orientar o tomador de decisões na escolha da melhor alternativa para a solução de um problema e, se necessário, efetivar ações corretivas. Os métodos de custeio a serem vistos neste capítulo são: Custeio Variável, Custeio por Absorção, Custeio Pleno e Custeio Baseado em Atividades. 6.4.1 Custeio variável Existem muitas críticas sobre a alocação dos custos e despesas �xas aos produtos. A principal delas refere-se ao critério de rateio destes, que são encargos para a empresa como um todo (custos e despesas estruturais), ou seja, a crítica recai sobre a arbitrariedade no rateio que pode prejudicar toda a análise e decisão. Para evitar essa di�culdade, foi desenvolvido o método do custeio variá- vel, o qual aloca aos produtos (ou a qualquer outra entidade objeto de cus- teio), para �ns de apuração de resultado, somente os custos e despesas variá- veis, separando os custos e despesas �xas, e considerando-os como despesas do período em que ocorreram, sendo, portanto, alocados diretamente no resultado do período, conforme demonstrado no quadro 2. A medida de lucratividade associada ao custeio variável é a Margem de Contribuição (MC), que corresponde ao excesso do preço de venda líquido em relação aos custos e despesas variáveis. A MC destina-se a amortizar os custos e despesas �xas do período e a formar o lucro da empresa. MC = RL - CDV Legenda: MC = Margem de Contribuição RL = Receita Líquida CDV = Custo e Despesas Variáveis 50687_MIOLO_Controladoria.indb 129 17/10/2016 10:34:59 Controladoria – 130 – Para uma análise apropriada, é possível criar uma demonstração de resul- tados por produto (ou qualquer outra entidade objeto de custeio), identi�- cando a margem de contribuição individual e, também, a global da empresa. Quadro 2 – Demonstração de resultados pelo método de custeio variável DRE P1 P2 P3 Pn Empresa Receita bruta $$$ $$$ $$$ $$$ $$$ (-) Impostos $$$ $$$ $$$ $$$ $$$ (=) Receita líquida $$$ $$$ $$$ $$$ $$$ (-) Custos variáveis $$$ $$$ $$$ $$$ $$$ (-) Despesas variáveis $$$ $$$ $$$ $$$ $$$ (=) Margem de contribuição $$$ $$$ $$$ $$$ $$$ (-) Custos fixos $$$ (-) Despesas fixas $$$ (=) Margem operacional $$$ Fonte: Elaborado pelos autores. 6.4.2 Custeio por absorção Apesar dos custos �xos serem estruturais, eles são incorridos para for- necer apoio ao processo produtivo e são planejados com base no volume de operações; desse modo, deveriam onerar parte dos custos dos produtos (ou qualquer outra entidade objeto de custeio), o que não ocorre no custeio variá- vel. Adicionalmente, entende-se que nas operações da entidade a alocação de custos �xos aos produtos (ou qualquer outra entidade objeto de custeio) é necessária para várias �nalidades, tais como: formação de preço, repasse de custo de atividades executadas para a prestação de serviços compartilhados etc. O custeio por absorção veio para auxiliar essa visão. Com base no que foi dito, o custeio por absorção atribui às entidades objeto de custeio todos os custos de produção, sejam eles �xos ou variáveis. A medida de lucratividade associada é a Margem Bruta (MB) ou o Lucro Bruto 50687_MIOLO_Controladoria.indb 130 17/10/2016 10:34:59 – 131 – Métodos de custeio (LB). A MB é o excesso do preço de venda líquido em relação aos custos de produção; destina-se a amortizar as despesas e a formar o lucro da empresa. MB = RL - CFV Legenda: MB = Margem Bruta RL = Receita Líquida CFV = Custos Fixos e Variáveis Para uma análise apropriada, a partir de uma demonstração de resulta- dos por produto (ou qualquer outra entidade objeto de custeio), é possível identi�car a MB individual e a MB global da empresa, conforme demons- trado no quadro 3. Quadro 3 – Demonstração de resultados pelo método de custeio por absorção DRE P1 P2 P3 Pn Empresa Receita bruta $$$ $$$ $$$ $$$ $$$ (-) Impostos $$$ $$$ $$$ $$$ $$$ (=) Receita líquida $$$ $$$ $$$ $$$ $$$ (-) Custos variáveis $$$ $$$ $$$ $$$ $$$ (-) Custos fixos $$$ $$$ $$$ $$$ $$$ (=) Margem bruta $$$ $$$ $$$ $$$ $$$ (-) Despesas variáveis $$$ $$$ $$$ $$$ $$$ (-) Despesas fixas $$$ (=) Margem operacional $$$ Fonte: Elaborado pelos autores. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 131 17/10/2016 10:34:59 Controladoria – 132 – 6.4.3 Custeio pleno Esse método também é conhecido como RKW (Reichskuratorium für Wirtschaftlichtkeit). Segundo Martins (2004, p. 220) trata-se de uma técnica disseminada originalmente na Alemanha, por um órgão que seria semelhante ao nosso antigo Conselho Interministerial de Preços (CIP), que consiste no rateio dos custos de produção (como é feito no Custeio por Absorção) e, também, de todas as despesas da empresa. Portanto, o custeio pleno atribui às entidades objeto de custeio todos os custos e despesas. A medida de lucratividade associada a ele é a Margem Operacional (MO), apurada pelo excesso do preço de venda líquido em rela- ção aos custos e despesas; é destinada a formação do lucro da empresa. MO = RL - C - D Legenda: MO = Margem Operacional RL = Receita Líquida C = Custos D = Respesas Pode-se fazer uma demonstração de resultados para cada produto ou qualquer outra entidade objeto de custeio que a empresa estiver analisando a MO. Também pode-se totalizar a MO global da empresa, que serve para formar o lucro da organização, conforme demonstrado no quadro 4. Quadro 4 – Demonstração de resultados pelo método de custeio pleno DRE P1 P2 P3 Pn Empresa Receita bruta $$$ $$$ $$$ $$$ $$$ (-) Impostos $$$ $$$ $$$ $$$ $$$ (=) Receita líquida $$$ $$$ $$$ $$$ $$$ (-) Custos variáveis $$$ $$$ $$$ $$$ $$$ (-) Custos fixos $$$ $$$ $$$ $$$ $$$ 50687_MIOLO_Controladoria.indb 132 17/10/2016 10:34:59 – 133 – Métodos de custeio DRE P1 P2 P3 Pn Empresa (-) Despesas variáveis $$$ $$$ $$$ $$$ $$$ (-) Despesas fixas $$$ $$$ $$$ $$$ $$$ (=) Margem operacional $$$ $$$ $$$ $$$ $$$ Fonte: Elaborado pelos autores. 6.4.4 Custeio Baseado em Atividades (ABC) O custeio baseado em atividades, conhecido como ABC (Activity Based Costing), é um método que procura reduzir as distorções provocadas pelo rateio arbitrário dos custos indiretos (MARTINS, 2004, p. 87). O diferencial fundamental do ABC está no tratamento dado aos custos e despesas indire- tas; desse modo, o ABC não é instrumento para gerenciamento dos custos de matéria-prima, outros materiais diretos, mão de obra direta ou qualquer outro custo ou despesa direta, mas sim é um mecanismo que serve, principal- mente, para mensurar e gerenciar os custos e despesas indiretas, em especial os de overhead. Nesse sentido, pode se de�nir o ABC da seguinte maneira: É um método de custeio focado no conceito de processo, que atribui às entidades objeto de custeio todos os custos e despesas indiretos, em especial os de overhead, desde que rastreáveis por meio de direcionadores de custos e atividades. Com base nessa de�nição os seguintes pontos devem ser lembrados para a discussão que se segue: 2 atribuição de custos e despesas indiretas e de overhead às entidades objetos de custeio; 2 utilização de direcionadores de custos; 2 rastreamento por meio das atividades. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 133 17/10/2016 10:34:59 Controladoria– 134 – 6.4.4.1 Overhead Overhead, nas empresas multinacionais, se tornou foco de atenção e fator de extrema preocupação na gestão de custos e despesas; é um custo que “pesa” nas organizações! Classi�cam-se como overhead os custos e despesas relativos às atividades de natureza administrativa, inclusive administração da produção, os quais são normalmente indiretos. São exemplos os custos e despesas com gerência e supervisão, logística interna, controle de qualidade, planejamento, orçamento, contabilidade e �nanças. Algumas características podem ser de extrema importância na identi�- cação da relevância do overhead e outros custos e despesas indiretos das orga- nizações, entre elas: diversidade, complexidade, verticalização, qualidade e automatização. A presença dessas características pode indicar uma alta rele- vância nos custos de overhead e, consequentemente, uma forte propensão para utilização do ABC. 2 Diversidade – o aumento da variedade de produtos em resposta às exigências do mercado pode gerar um aumento da necessidade das atividades de suporte, como supervisão e serviços logísticos. 2 Complexidade – a existência de mais componentes em um produto e a di�culdade da tecnologia envolvida no processo de produção podem ser fatores que indicam um maior cuidado no controle de produção. 2 Verticalização – a produção interna de componentes e matérias-pri- mas aumenta a necessidade de atividades de controle. 2 Qualidade – o aumento da qualidade gera mais trabalho para as áreas de suporte e serviço, como as atividades de auditoria e inspeção. 2 Automatização – a opção de aumentar o processamento de dados e robôs gera custos maiores (depreciação e a manutenção) e, também, toda a mão de obra indireta necessária para controle e gerenciamento. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 134 17/10/2016 10:34:59 – 135 – Métodos de custeio 6.4.4.2 Atividades O passo inicial de implantação de um sistema ABC é a identi�cação das atividades relevantes. Segundo Martins (2004), a atividade é uma ação que uti- liza recursos humanos, materiais e �nanceiros para se produzir bens ou serviços, que é composta por um conjunto de tarefas necessárias ao seu desempenho. Uma atividade descreve o que uma empresa faz, a forma como o tempo é gasto e os produtos do processo (BRIMSON, 1996). A principal função de uma atividade é converter recursos (material, mão de obra e tecnologia) em produtos. Para �ns do ABC, um ponto importante é a segregação das atividades relevantes. A atividade relevante é aquela que apresenta um diferencial para a organização, com características especí�cas que geram impacto na vanta- gem competitiva. Ela pode ser identi�cada analisando-se os seguintes fatores: custo relevante, oportunidade de diferenciação, mercado comprador ou ven- dedor e determinantes de capacidades. 2 Custo relevante – a primeira análise que deve ser feita é quanto ao valor do custo da atividade. Se a atividade tem custo relevante, deve- -se segregá-la para uma melhor gestão de custos. Essa atividade pode in�uenciar a escolha da estratégia genérica de liderança de custo. 2 Oportunidade de diferenciação – a existência de oportunidade de uma atividade diferenciar os atributos do produto ou o nível de atendimento ao cliente sugere que a atividade deve ser segregada. A presença de potencial de importância estratégica da atividade pode demonstrar a possibilidade de geração de valor para o cliente; assim a empresa pode enfocar esforços direcionados. Essas ativida- des podem in�uenciar a escolha da estratégia genérica de liderança em diferenciação. 2 Mercado comprador ou vendedor – a existência de um mercado com- prador ou vendedor demonstra que a atividade deve ser segregada. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 135 17/10/2016 10:34:59 Controladoria – 136 – Essa segregação pode auxiliar na análise da e�ciência da atividade, dos executores e dos gestores, principalmente ante ao fato de ser possível realizar uma comparação com a e�ciência de mercado. Com base nes- sas informações a organização pode tomar diversas decisões, como, por exemplo, comprar (vender) ou produzir, analisar por compara- ção com as melhores práticas (benchmark), administrar utilizando- -se do preço de transferência, remunerar gestores com base na e�- ciência etc. 2 Determinantes de capacidades – a existência de determinantes de custos próprios (exemplos: tecnologia, curva de experiência, escala e escopo) é um indicador de que a atividade deve ser segregada, não apenas para que a organização possa administrar os custos melhor do que os concorrentes, mas, também, para o planejamento de alternativas, no caso de falha ou indisponibilidade de alguma capa- cidade da atividade. As atividades podem ser divididas em três tipos principais: operacionais, táticas e estratégicas. Operacionais são as atividades ligadas diretamente com a produção (no sentido amplo); trabalho efetuado no cotidiano. Elas podem ser alocadas a diversas entidades objetos de custeio, como unidades de produto, lotes de produto e pedidos de clientes. Exemplos: fazer pedido de clientes, manusear materiais do almoxarifado, transferir estoques, preparar máquinas e equipa- mentos, executar ordem de produção, fazer a manutenção de equipamentos, inspecionar produtos, entregar produto etc. Táticas são as atividades que suportam os níveis de atendimento aos clientes, de processos e de produtos. Essas atividades costumam ser execu- tadas pelos supervisores e gerentes. Normalmente recursos como humanos, espaços físicos, investimentos em estoque, são afetados por essas atividades. Exemplos: planejar a produção, controlar a produção, controlar a qualidade operacional etc. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 136 17/10/2016 10:34:59 – 137 – Métodos de custeio Estratégicas são as atividades que suportam o empreendimento e o nicho de mercado, dando apoio ao processo de produção de todos os produtos e ao atendimento de clientes e fornecedores. Essas atividades envolvem, nor- malmente, altos executivos. Alguns determinantes de custos podem sofrer alterações importantes se in�uenciados por essas atividades, como níveis de investimentos, localização geográ�ca, volume de transação, diversi�cação de produtos e rede de transporte. Exemplos: desenvolver novos produtos, gerir a empresa, promover campanhas de marketing, realizar a contabilidade, calcu- lar os impostos, atuar juridicamente etc. Essa tipologia permite direcionar a forma de gerenciamento de custos adequada para cada atividade. O custo-padrão (custo predeterminado) é con- siderado uma das formas adequadas para gestão de custos das atividades ope- racionais, porém, pode di�cultar a gestão das atividades táticas e estratégicas, pois pode-se precisar de autonomia que o custo-padrão pode di�cultar. Desse modo, outras formas de gestão de custos podem ser utilizadas, como, por exem- plo, o custo-alvo (atividades táticas) e o orçamento (atividades estratégicas). 6.4.4.3 Direcionador de custos Selecionadas e mapeadas as atividades, é preciso identi�car os fatores que in�uenciam tais atividades e como os objetos de custeio utilizam as ati- vidades, ou seja, os direcionadores de custos. Assim, o direcionador de custo serve para a apuração do custo das atividades e dos objetos de custeio. Alguns exemplos práticos de direcionador de custos são: número de pedidos, metros quadrados, quantidade de transações, número de inspeções etc. No contexto do ABC, portanto, há dois tipos de direcionadores de cus- tos: (1) os de primeiro estágio, também chamados de direcionadores de cus- tos de recursos, e (2) os de segundo estágio, também conhecidos por direcio- nadores de custos das atividades. Como o primeiro estágio do ABC é atribuir os custos e despesas (recur- sos) às atividades que os causaram, os direcionadores de custos derecursos (primeiro estágio) são, portanto, os fatores que determinam ou in�uenciam 50687_MIOLO_Controladoria.indb 137 17/10/2016 10:34:59 Controladoria – 138 – o custo de uma atividade (MARTINS, 2004), ou seja, são os elementos que explicam o consumo de recursos pelas atividades. No segundo estágio, o propósito do ABC é atribuir o custo das atividades aos produtos (ou qualquer outra entidade objeto de custeio) que as consumi- ram. Assim, os direcionadores de custos das atividades (segundo estágio) são os fatores que explicam como os objetos de custeio consomem as atividades. A �gura 1 ilustra o funcionamento do ABC. Figura 1 – Funcionamento do custeio baseado em atividades. Recursos Energia elétrica Aluguel Supervisão Depreciação Etc Atividades Cortar Inspecionar Armazenar Embalar Etc Produtos A B C D N Direcionadores de custo de recursos Direcionadores de custo de atividades Fonte: Elaborado pelos autores. Considerando que a identi�cação do direcionador de custo tem como objetivo veri�car a correlação de custo e consumo, ou seja, o comportamento do direcionador de custo, algumas técnicas podem ser utilizadas para essa identi�cação, a saber: 2 Entrevistas – através de conversas com diretores, gerentes, supervi- sores e funcionários responsáveis pela atividade. 2 Observação direta – veri�cação das tarefas realizadas em loco, a �m de analisar o fator que in�uencia a atividade. 2 Regressão – através de uma análise histórica pode-se validar o dire- cionador cienti�camente. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 138 17/10/2016 10:34:59 – 139 – Métodos de custeio 2 Refazer a atividade – execução da atividade por um observador (ou seja, não o próprio funcionário responsável) a �m de identi�car o direcionador. Adicionalmente, os direcionadores de custos devem ser analisados e sele- cionados com base em dois aspectos: técnico e comportamental. Com base no aspecto técnico, a escolha do direcionador se dá basicamente pelo fator de correlação, ou seja, um critério racional que representa uma relação entre a variação de custo e o direcionador. Já com base no aspecto comportamental, a escolha pode ser direcionada para algum tipo de gestão de pessoas, por exemplo, quando se escolhe o metro quadrado para alocação de espaço, a empresa pode estar querendo diminuir o espaço necessário para a realização de determinada atividade. 6.4.4.4 Análise de lucratividade O ABC atribui às entidades objeto de custeio todos os custos e despe- sas, desde que rastreáveis por meio de direcionadores, e somente eles. Desse modo, pode-se fazer uma demonstração de resultados para cada produto (ou qualquer outra entidade objeto de custeio) que a empresa estiver analisando, conforme quadro a seguir: Quadro 5 – Demonstração de resultados pelo método ABC DRE P1 P2 P3 Pn Empresa Receita bruta $$$ $$$ $$$ $$$ $$$ (-) Impostos $$$ $$$ $$$ $$$ $$$ (=) Receita líquida $$$ $$$ $$$ $$$ $$$ (-) Custos variáveis $$$ $$$ $$$ $$$ $$$ (-) Despesas variáveis $$$ $$$ $$$ $$$ $$$ (=) Margem de contribuição $$$ $$$ $$$ $$$ $$$ (-) Custos rastreáveis $$$ $$$ $$$ $$$ $$$ (-) Despesas rastreáveis $$$ $$$ $$$ $$$ $$$ 50687_MIOLO_Controladoria.indb 139 17/10/2016 10:34:59 Controladoria – 140 – (=) Margem rastreável $$$ $$$ $$$ $$$ $$$ (-) Custos não rastreáveis $$$ (-) Despesas não rastreáveis $$$ (=) Margem operacional $$$ Fonte: Elaborado pelos autores. 6.5 Resumo Este capítulo evidenciou que a estruturação de uma sistemática de cus- tos começa pela identi�cação da entidade objeto de custeio, que é qualquer coisa para a qual se deseja uma mensuração de custo. Alguns exemplos são: produtos, clientes, departamentos, processos, atividades e projetos. Na sequência, discutiu-se que, para se analisar adequadamente as diversas entidades objeto de custeio é preciso agrupar os elementos relacionados a elas nas seguintes categorias: gasto, desembolso, investimento, custo, despesa e perda. Para �ns de gerenciamento, os custos e despesas, que são os principais itens da terminologia básica de custos, devem ser classi�cados segundo duas dimensões: identi�cação com o objeto de custeio (custo e despesa direta e indireta) e comportamento em relação ao volume de atividade do objeto de custeio (custo e despesa �xa e variável). Os custos e despesas, devidamente classi�cados, são tratados dentro do métodos de custeio, que correspondem à forma de atribuir custos e despesas às entidades objeto de custeio, segundo as especi�cidades de cada método. Estes são adotados visando orientar o tomador de decisões na escolha da alternativa adequada para a solução de um problema e, se necessário, efetivar ações corre- tivas. Existem vários métodos para o tratamento dos custos e despesas e alguns são amplamente utilizados e foram discutidos neste texto: Custeio Variável, Custeio por Absorção, Custeio Pleno e Custeio Baseado em Atividades. O custeio variável é aquele que só aloca às entidades objeto de cus- teio, para �ns de apuração de resultado, os custos e despesas variáveis, não incluindo os custos e despesas �xas, os quais são considerados como despesas 50687_MIOLO_Controladoria.indb 140 17/10/2016 10:34:59 – 141 – Métodos de custeio do período e alocados diretamente para o resultado; a medida de lucrativi- dade associada ao custeio variável é a margem de contribuição. O custeio por absorção atribui às entidades objeto de custeio todos os custos de produção, e somente eles; a medida de lucratividade associada ao custeio por absorção é a margem bruta. Já o custeio pleno atribui às entidades objeto de custeio todos os custos e despesas; a medida de lucratividade associada ao custeio pleno é a margem operacional. O custeio baseado em atividade atribui às entidades objeto de custeio todos os custos, desde que rastreáveis por meio de direcio- nadores, e somente eles. Ampliando seus conhecimentos Gestão Baseada em Atividades (Activity-Based Management – ABM) (SOUZA, 20091) Até o momento falou-se bastante em custear produtos, clien- tes, projetos etc, porém, talvez, o passo mais importante não seja o custeamento por si só, mas sim o que a empresa pode fazer com o que foi custeado, ou seja, está se falando de tomada de decisão com base na informação levantada. Com base nas informações geradas pelo Custeio Baseado em Atividade – ABC nasceu a Gestão Baseada em Atividades (Activity-Based Management – ABM). Assim, o ABM é o processo de gestão de custos apoiado em informações for- necidas pelo Custeio Baseado em Atividades. O ABM é útil para a empresa para diversas tomadas de decisões, em especial às seguintes: a) Gestão de preços – com base nas informações fornecidas pelo Custeio Baseado em Atividades, pode-se gerenciar os preços dos produtos e dos serviços oferecidos aos 1 Texto ainda não publicado. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 141 17/10/2016 10:34:59 Controladoria – 142 – clientes através de análise de lucratividade e rentabilidade. A organização consegue identificar e mensurar os subsídios cruzados (um produto subsidiando o outro), que pode ser uma forma de política de atuação de precificação de produtos usado pelo departamento comercial. b) Análise de atividades – o levantamento de processos e atividades permite que a empresa faça a identificação e melhorias nos processos. A identificação de atividades que agregam valor e que não agregam valor é o primeiro passo. Com essa identificação, o gestor pode propor eli- minação das atividades que não agregam valor, como tam- bém propor melhorias nas atividades que agregam valor. Atividade que não agrega valor é qualquer atividade que se for retirada do processo não altera os atributos do pro- duto nem o nível de serviço prestado aos clientes. Um exemplode atividade que não agrega valor ocorre quando uma nota fiscal chega em um departamento e nele acon- tece a conferencia e identificação; num momento seguinte, em outro departamento, ocorre também outra conferência e identificação; nesse caso a organização está ocorrendo em uma atividade em duplicidade. c) Análise de desempenho – pode-se efetuar a análise de desempenho de uma atividade ou processo por inteiro, como também das pessoas que estão executando aquela atividade ou tarefa. Com base nessa análise, a organização pode atrelar metas e atribuir correlação com rendimento vari- ável dependendo do desempenho executado comparando com o desempenho planejado. Adicionalmente, a empresa pode analisar a viabilidade, em relação ao fator custo, de se terceirizar uma atividade (não se comentou que custo é o único fator, mas sim, que existem outros fatores estratégicos a serem analisados, como se a manutenção de informações internamente é ou não necessária à empresa). 50687_MIOLO_Controladoria.indb 142 17/10/2016 10:34:59 – 143 – Métodos de custeio d) Análise de resultado – pode-se efetuar uma análise da demonstração de resultados por produtos, por centro de responsabilidade, por clientes, ou seja, por qualquer enti- dade objeto de custeio que seja interessante à empresa focar. Atualmente, como muitas empresas trabalham por projetos, o Custeio Baseado em Atividades pode ser uma excelente ferramenta para ajudar a custear os projetos, visto que muitas atividades são realizadas pelas empresas para atenderem os diversos projetos; assim, o Custeio Baseado em Atividades pode auxiliar na alocação dos custos de overhead. e) Análise de produtos – a organização pode efetuar planeja- mento baseado em atividades e pode gerar análise de pro- dutos antes mesmo de serem lançados no mercado. Desse modo, a organização pode se planejar para lançamento de novos produtos, como também para retirar produtos que não estão sendo mais rentáveis a ela. Uma outra utilidade é a revi- são de projetos, ou seja, a empresa pode ter um produto que necessite muito de certa atividade, como solicitar materiais; assim, a revisão do projeto do produto pretende diminuir a carga dessa atividade para desonerar os custos indiretos que possam estar prejudicando a lucratividade desse produto. f) Mudança de tecnologia – com o levantamento das ativida- des, a organização pode optar por mudar a forma de como estão sendo desempenhadas as atividades e, assim, redistri- buir os recursos liberados. Pode-se reduzir tempo e esforço, eliminar tarefas desnecessárias, selecionar tarefas de baixo custo, compartilhar tarefas que poderiam estar sendo feitas de uma só vez etc. Desse modo a organização pode redistribuir recursos ociosos, adequar os recursos ofertados aos deman- dados, fazendo um planejamento dos recursos demandados com base nos recursos exigidos desde o planejamento. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 143 17/10/2016 10:34:59 Controladoria – 144 – Atividades 1. Defina três dos seis termos aprendidos neste capítulo: Gasto, Desem- bolso, Investimento, Custo, Despesa ou Perda. Dê exemplos de cada um dos termos definidos. 2. Defina a expressão “entidade objeto de custeio”. Exemplifique pelo menos três tipos de entidade objeto de custeio. 3. Caracterize os métodos de custeio variável, por absorção e pleno e diga quais são as margens de lucratividade relacionadas com esses métodos. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 144 17/10/2016 10:34:59 Gestão estratégica de custos Com o aumento da importância do relacionamento entre as empresas, a visão externa às entidades ganhou uma atenção maior; assim, fontes de informações externas à companhia estão sendo cada vez mais requisitadas pelos gestores, uma vez que as decisões não são mais tomadas somente internamente, mas, igualmente, num con- texto de relacionamentos entre empresas. Ao se expandir a visão do gerenciamento para além dos limites da entidade, abre-se um leque de possibilidades de benefícios para a empresa. Não obstante, o aumento da complexidade das � rmas modernas, bem como do nível de especialização das diversas indús- trias, fez com que muitas atividades, anteriormente executadas de forma vertical no interior das empresas (relações trabalhistas, por exemplo), passassem a ser fornecidas entre � rmas em diferentes for- mas de contratação (fornecedor – cliente, por exemplo). Nesse cenário, surge uma questão pertinente ao gerencia- mento do negócio: em termos econômicos, qual é o limite da � rma? Essa questão, base do trabalho de Coase (1937), contribui com o desenvolvimento de um amplo manancial teórico abordando a tomada de decisão no ambiente empresarial. A � rma pode ser vista, assim, como um conjunto de contratos, que regulam e coordenam as interações entre agentes e ativos na execução de transações. 7 50687_MIOLO_Controladoria.indb 145 17/10/2016 10:35:02 Controladoria – 146 – Assim, torna-se necessário criar e desenvolver mecanismos que propi- ciem análise sobre os atributos das transações que acontecem no ambiente das �rmas e seus contratos. Dentro da Controladoria, a gestão estratégica de custos desenvolveu alguns instrumentos com o intuito de melhorar o geren- ciamento de custos. Entende-se por gestão estratégica de custos a formulação e implementação da estratégia da organização no que tange a custos, ou seja, é o uso gerencial da informação de custos dirigido para temas e preocupações estratégicas de uma organização. Diante disso, este capítulo tem como objetivo delinear três conceitos que podem auxiliar os pro�ssionais que pretendem atuar em Controladoria no que tange ao gerenciamento estratégico de custos, com o objetivo de melhorar a lucratividade e rentabilidade das organizações: 1. Determinantes de custos. 2. Gestão de Custos Interorganizacionais (GCI). 3. Custo de concorrentes. 7.1 Determinantes de custos No contexto da gestão estratégica de custos, a primeira coisa a se pensar é que para compreender o comportamento dos custos em uma organização é necessário entender quais são os elementos determinantes de tais custos, ou seja, quais elementos fazem o custo acontecer. Isso é importante porque todo o processo de gestão dos custos parte da identi�cação da origem do custo, isto é, do seu determinante. Determinantes de custos são os fatores que determinam e/ ou condicionam a existência de um custo e influenciam a estrutura e/ou comportamento dos custos de uma entidade. Alguns exemplos de determinantes de custos são: tecnologia, escala, nível de utilização da capacidade, complexidade da linha de produção, curva de experiência, estrutura de capitais, forma de relacionamento das entidades 50687_MIOLO_Controladoria.indb 146 17/10/2016 10:35:02 – 147 – (estão esUrBU»gJcB de cVsUos na cadeia de valor1, modelo de gestão etc. A seguir apresenta-se a explicação de cada um mais detalhadamente: 2 Tecnologia – é a forma como são produzidos os bens e serviços, ou seja, a maneira como os insumos são transformados em produtos ou serviços. 2 Escala – é o potencial de capacidade de produção ou prestação de serviço que determina o montante de investimento necessário em um sistema produtivo. 2 Nível de utilização da capacidade – é o volume efetivo de produção ou serviços de determinadas instalações. 2 Complexidade da linha de produção – está relacionada com a quanti- dade de linhas de bens e serviços a serem ofertados aos clientes, ou seja, com a diversidade, bem como com o grau de di�culdade para se produzir tais bens e serviços. 2 Curva de experiência – é determinada pelo conhecimento acumu- lado no exercício de uma atividade especí�ca. 2 Estrutura de capitais – diz respeito à proporção da origem dos recur- sos (próprios e de terceiros) que a organização utilizapara �nanciar suas atividades. 2 Forma de relacionamento das entidades na cadeia de valor – diz res- peito à maneira como as entidades da cadeia se relacionam. 2 Modelo de gestão – são os princípios que orientam e norteiam o compor- tamento dos gestores quanto à gestão das atividades organizacionais. Perceba que todos estes itens podem ser chamados de determinantes de custos por possuírem a característica de determinar a existência ou não dos cus- tos, bem como sua estrutura e comportamento. Portanto, entender a interação entre esses determinantes é fundamental para se gerir os custos estrategicamente. 1 Cadeia de valor é uma sequência de atividades que se inicia com a origem dos recursos e vai até o descarte do produto pelo último consumidor. (ROCHA; BORINELLI, 2006, p. 5) 50687_MIOLO_Controladoria.indb 147 17/10/2016 10:35:02 Controladoria – 148 – 7.2 Gestão de Custos Interorganizacionais Todas as organizações são passíveis de melhoria em seus resultados; e uma das maneiras de se atingir esse objetivo é o gerenciamento de custos. Todavia, no cenário de forte competição em que as empresas estão inseridas, o processo de otimização de custos baseado exclusivamente em aspectos inter- nos, ou seja, considerando apenas os fatores da própria empresa, é uma visão míope que não é su�ciente atualmente. Esta parte da aula assume a premissa de que o esforço de otimizar custos dentro da própria entidade já está institucionalizado, transformando-se em hábitos e rotinas. A busca da e�ciência econômica sob uma visão interna já é ponto pací�co e já está, ou deveria estar, equacionada; o que se busca aqui é uma nova visão de gestão de custos. Quando a gestão de custos é realizada de forma míope, enxergando só os eventos e as consequências que ocorrem dentro da própria empresa, as decisões e ações podem até reduzir por algum tempo os seus próprios custos, mas não necessariamente ocorrerá a otimização para a cadeia de valor como um todo ou para um segmento relevante dela. Uma decisão que minimize seus custos pode provocar repasse para um fornecedor ou para um cliente e, ao longo do tempo, esses custos poderão re�uir e retornar, como num efeito bumerangue. Um exemplo disso aconteceu com uma empresa automobilística dos Estados Unidos, que implantou o conceito de gerenciamento Just-in-Time acreditando que poderiam ser eliminados 20% dos seus custos de produção. Porém, ao reduzir sua necessidade de estoques de segurança, a empresa colo- cou mais pressão sobre a capacidade de resposta de seus fornecedores, o que aumentou o custo deles, sendo repassados para a empresa num montante maior do que eram os custos iniciais (SHANK; GOVINDARAJAN, 1997). O fato ocorreu em função de uma estreita perspectiva da cadeia de valor por parte da empresa – miopia de custos, pois a organização descuidou dos impactos das suas mudanças no custo dos fornecedores. Desenvolver uma administração dos custos gerenciando as atividades ao longo da cadeia de valor é a forma que a Gestão de Custos Interorganizacionais (GCI) emprega para atingir os objetivos, não só de otimização dos custos 50687_MIOLO_Controladoria.indb 148 17/10/2016 10:35:02 – 149 – (estão esUrBU»gJcB de cVsUos globais, mas também de criar vantagem competitiva perante as cadeias con- correntes. Assim, a de�nição de GCI pode ser enunciada da seguinte forma: Gestão de Custos Interoganizacionais é um processo coope- rativo de gerenciamento de custos que inclui outras organi- zações de uma cadeia de valor além da própria empresa. A GCI tem como objetivo encontrar soluções de gerenciamento de cus- tos que propiciem que o retorno total da cadeia de valor (ou de uma parte dela) seja garantido ou aumentado, através de ações coordenadas entre as organizações, cujo nível não seria alcançado se as empresas tentassem geren- ciar apenas seus próprios custos, independentemente das demais. Diversas oportunidades adicionais surgem a partir da análise e gestão do entrelaçamento entre as empresas, pois, por meio dos esforços unidos dos agentes da cadeia, as atividades interdependentes podem ser analisadas e recon- �guradas (KAJUTER; KULMALA, 2005). Quando as entidades adotam uma visão de união de esforços, buscam não somente a própria e�ciência e e�cácia, mas a e�ciência e a e�cácia global da cadeia de valor na qual estão operando. Assim, a GCI cria um vasto quadro de possibilidades de estratégias, pro- duzindo deveres e responsabilidades e de�nindo competências organizacio- nais (MOURITSEN et al. 2001). Os posicionamentos perante fornecedores e clientes, na GCI, são estabelecidos a partir de regras de conduta que objeti- vam as metas a serem alcançadas pela cadeia como um todo. Através de troca de informação, as empresas conseguem identi�car com mais facililidade os pontos fortes e fracos, detectando fontes de diferenciação e pontos de melhoria na produtividade do segmento da cadeia de valor ana- lisada. Fazendo a comparação com os fatores ambientais próximos e remotos é possível atuar sobre as oportunidades identi�cadas e criar mecanismos para se proteger das ameaças. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 149 17/10/2016 10:35:02 Controladoria – 150 – Deve se destacar que a GCI não é um processo espontâneo, que ocorre por si só, nem voluntário, no sentido de que basta uma empresa querer para que ele aconteça. As relações entre as empresas, seus fornecedores e seus clien- tes geralmente envolvem con�ito de interesses, pois cada parte procura maxi- mizar seus ganhos. Assim, a efetiva aplicabilidade da GCI, tanto no âmbito estratégico como no nível operacional, depende de fatores que devem ser analisados por iniciativa das entidades envolvidas na cadeia. Esses fatores condicionantes são variáveis que in�uenciam no sucesso de implantação e utilização de um artefato gerencial, nesse caso a GCI, podendo exercer in�uências de ordens técnicas, sociais, comportamentais, econômicas e �nanceiras. Esses fatores podem ser divididos em três grupos: exógenos à cadeia, endógenos à cadeia e especí�cos da organização. 2 Fatores exógenos à cadeia – são as variáveis externas à cadeia de valor que podem in�uenciar a organização, como, por exemplo, nível de competição e tendência econômica. 2 Fatores endógenos à cadeia – são as variáveis especí�cas da cadeia de valor que in�uenciam na implantação e utilização da ferramenta gerencial. Exemplos: características do produto, especi�cidades dos componentes, qualidades dos relacionamentos e tipos de cadeia. 2 Fatores especí�cos da organização – são os aspectos da entidade que direcionam a GCI. Exemplo: tamanho, de�ciência e diversidade nos sistemas de contabilidade de custos. Tanto os fatores exógenos como os endógenos determinam o sucesso ou o fracasso da implantação e utilização da GCI. Quanto mais fatores que propiciem a sua utilização estiverem presentes, aumenta a possibilidade de sucesso da GCI. Além dos fatores condicionantes, a empresa deve decidir sobre os mecanis- mos de controle das entidades e atividades dos envolvidos na cadeia de valor, que podem ser divididos em três tipos: disciplinadores, capacitores e incentivadores. 2 Mecanismos disciplinadores são instrumentos que regram, adestram, desenvolvem metodicamente, criam obrigações que conduzem e regem o relacionamento entre duas ou mais organizações. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 150 17/10/2016 10:35:02 – 151 – (estão esUrBU»gJcB de cVsUos 2 Mecanismos capacitores referem-se a instrumentos que fornecem capacitação e desenvolvem competências com o objetivo de sanar di�culdades no processo de GCI. Esses mecanismos devem ajudar a resolver os problemas encontrados entre as organizações alvo da GCI. 2 Mecanismos incentivadores são instrumentos que grati�cam, utili- zados posteriormente ao alcance de metas estipuladas,para pre- miar e remunerar pelo objetivo alcançado; podem ser monetários (por exemplo: bônus por alcance de metas) ou não monetários (por exemplo: garantia de relacionamentos de longo prazo). É oportuno ressaltar que deve existir integração entre os mecanismos disciplinadores e os capacitores para que ocorra a efetividade da aplicação da GCI. O campo de atuação desses mecanismos contempla a criação, produção e logística do produto como mostra a �gura 1. Figura 1 – Atuação dos mecanismos no processo de GCI GCI Logística do produto Protocolos de rede Reduzir incertezas Reduzir custos de transação Logística do produto *FPQ - Análise de Funcionalidade, Preço e Qualidade ICI - Investigação de CustosInterorganizacionais GPC - Gestão Parelala de Custos Mecanismos Disciplinadores Mecanismos Capacitores Comércio eletrônico Previsões colaborativas Redução do ciclo do produto Relações enxutas entre fornecedores Criação do produto C us te io a lv o E ng en ha ri a de va lo r T ra de -o ffs F Q P, IC I, G P C * A ná lis e de va lo r C us te io k ai ze n Produção do produto 50687_MIOLO_Controladoria.indb 151 17/10/2016 10:35:02 Controladoria – 152 – Fonte: (COOPER; SLAGMULDER, 1999, p. 150. Adaptado.) A primeira etapa do processo, que é a criação do produto, concentra-se na ideia de que é necessário garantir a margem da empresa com aquele pro- duto antes mesmo de ele ser lançado. Assim, de�nem-se as metas de preço, margem e custo, tendo em vista determinada quantidade a ser produzida e vendida ao longo do ciclo de vida. De�nidos tais parâmetros, o papel da GCI, através dos seus mecanismos disciplinadores e capacitores, é auxiliar as empre- sas envolvidas na procura das possíveis ações, para garantir o alcance da mar- gem objetivada sem prejuízo da qualidade e da funcionalidade do produto. Nesse sentido, a GCI deve prover a estrutura e os fundamentos para a coordenação das atividades de desenvolvimento dos produtos e componentes entre as organizações. Custeio alvo e engenharia de valor são exemplos de mecanismos que podem ser utilizados nessa etapa. A segunda etapa, que é o estágio de produção, concentra-se na melhoria dos processos, sem afetar as propriedades do produto e suas funcionalidades. A GCI, através de seus mecanismos, pretende garantir a coordenação e�caz da produção entre as organizações da cadeia, para atingir a taxa de melhoria dos custos demandada pelos clientes. Custeio kaizen e análise de valor são exemplos de mecanismos que podem ser utilizados nessa etapa. A última etapa concentra-se nas interfaces entre os agentes relaciona- dos, objetivando a melhoria da e�ciência e da e�cácia logística. Essas inter- faces incluem todos os custos de transação associados com a transferência de bens e serviços entre as organizações (por exemplo: solicitar produtos, realizar pagamentos, manter inventários e prover logística). São exemplos típicos de mecanismos que podem ser utilizados nessa etapa: gestão baseada em ativida- des, abertura dos livros, Just-in-Time, automatização de processos, código de barras e comunicação eletrônica de dados. Com base nas análises realizadas em cada etapa, algumas atividades podem ser eliminadas ou simpli�cadas, pois podem estar sendo executa- das em mais de um local. Por exemplo, em um estudo narrado por Shank e Govidarajan (1997), um produtor de confeitos analisou as atividades de seu principal fornecedor (produtor de chocolates) e veri�cou que existiam atividades que poderiam ser eliminadas (um exemplo de investigação de custos interorganizacionais). Essa análise permitiu a mudança no processo, 50687_MIOLO_Controladoria.indb 152 17/10/2016 10:35:02 – 153 – (estão esUrBU»gJcB de cVsUos eliminando as atividades desnecessárias nas duas empresas: ao invés de serem entregues barras de chocolates moldadas com quatro quilos e meio, o choco- late passou a ser entregue em forma líquida, em carros-tanque. Dessa forma, o fornecedor de chocolate eliminou as atividades e os custos de moldar as barras e de acondicioná-las e o produtor de confeitos economizou o custo de desembalar e de derreter. Portanto, esses artefatos ou mecanismos são os instrumentos gerenciais utilizados para dar sustentação à GCI, necessários à sua aplicação efetiva. Existem diversos mecanismos e a seleção dos mais apropriados depende dos fatores analisados nas dimensões discutidas anteriormente: as particularida- des da cadeia de valor, o nível de relacionamento entre as empresas, as carac- terísticas do produto e dos seus componentes. Um ponto importante, muito propício nos tempos atuais, considerando as incorporações e internacionalização das empresas brasileiras, é que a GCI pode ser visualizada como ferramenta para encontrar soluções entre as empre- sas, podendo ser, também, empresas de um grupo econômico (mesmo dono) e dentro da própria empresa (Gestão de Custos Intraorganizacional). 7.3 Análise do custo dos concorrentes Cada vez mais percebe-se o aumento da competitividade no mundo em que as organizações atuam. Diante disso, é importante que a empresa esteja sintonizada com o que o mundo está produzindo e esperando a ser produ- zido. Esse mundo é composto por diversos agentes, como clientes, fornecedo- res, concorrentes, acionistas, credores e sociedade. Um dos principais agentes que provoca in�uências signi�cativas na empresa é o grupo de concorrentes. Hamel e Prahalad (1995) a�rmam que concorrência é uma característica de mercado decorrente da ação de empresas rivais disputando os mesmos clientes, consumidores ou fornecedores. Ao se perceber a importância dos concorrentes para o negócio da empresa, é possível analisar diversos fatores como parte de um levantamento de cenário para decisões estratégicas, como, por exemplo: objetivos, estratégias, pontos fortes e fracos. Kotler e Keller (2006) alegam que o objetivo da análise da concorrên- cia é entender, monitorar e tentar predizer o comportamento das empresas 50687_MIOLO_Controladoria.indb 153 17/10/2016 10:35:02 Controladoria – 154 – concorrentes. Porter (1992) propõe uma análise estratégica com base em cinco forças distintas: 1. poder de negociação de fornecedores; 2. poder de negociação de consumidores; 3. intensidade da rivalidade; 4. ameaça de novos entrantes; 5. ameaça de bens substitutos. Os concorrentes podem estar dentro de três forças levantadas pelo autor: intensidade da rivalidade (concorrentes diretos); ameaça de novos entrantes (futuros concorrentes); e ameaça de bens substitutos (possíveis indiretos). Perceba que as outras duas forças do modelo de Porter (fornecedores e consu- midores) podem ser analisadas dentro da GCI, discutida no tópico anterior. Essas cinco forças discutidas por Porter (1992) podem ser visualizadas na �gura 2 que se segue. Figura 2 – As cinco forças de Porter Novos Entrantes Ameaças Substitutos Ameaças Fornecedor Poder de Negociação Concorrentes Intensidade da Rivalidade Consumidor Poder de negociação Fonte: (PORTER, 1992.) A di�culdade de realizar a análise de concorrentes é de não existir uma estrutura conceitual consolidada de conhecimentos cientí�cos que auxilie nas práticas a serem adotadas de análise da concorrência. As técnicas de análise de 50687_MIOLO_Controladoria.indb 154 17/10/2016 10:35:02 – 155 – (estão esUrBU»gJcB de cVsUos custos de concorrentes, por exemplo, não são iguais para todos os negócios e devem ser analisadas caso a caso. Assim, a análise de custos de concorrentes sugerida neste item é uma metodologia de identi�cação de informação dos concorrentes para se conhe- cer sua estrutura de custos. Tem como objetivo principal gerar ideias para auxíliodo planejamento estratégico na busca de vantagens competitivas. Por isso ela faz parte da gestão estratégica de custos. Goulart (2001) sugere que as seguintes etapas sejam efetuadas numa análise de custos de concorrentes: 2 identi�car os principais concorrentes atuais e potenciais; 2 identi�car as principais informações necessárias sobre os concorrentes; 2 identi�car os dados necessários para se gerar tais informações; 2 coletar os dados; 2 classi�car e compilar os dados; 2 analisar os dados; 2 gerar as informações. Identi�car os concorrentes a serem estudados é o passo inicial do pro- cesso, para que se concentrem esforços no alvo. Assim, é possível o levan- tamento de informações que permitam entender as ameaças potenciaIs em relação ao custo, apontar os principais pontos fortes e fracos dos concorrentes e comparar com os pontos fortes e fracos da empresa. Dentre as formas de se procurar informações sobre concorrentes podem- -se ressaltar: 2 informações divulgadas e/ou publicadas – demonstrações contá- beis, relatório anual de atividades, sites, imprensa falada e escrita; 2 observação de preços, qualidade de instalações e produtos; 2 contato com clientes, fornecedores, sindicatos e agentes do governo; 2 cliente oculto; 2 benchmarking; 2 engenharia reversa. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 155 17/10/2016 10:35:02 Controladoria – 156 – Na verdade, a análise de custos dos concorrentes deve se tornar uma �loso�a empresarial, um processo contínuo de busca de informações, sem se limitar a uma única fonte. Um dos pontos de clari�cação na organização é de�nir o responsável por analisar continuamente a concorrência. Segundo Rocha (1999), “[...] é a Controladoria que deve suprir as informações neces- sárias para dar suporte ao processo de gestão, em todas as suas fases”. Na prática, muitas empresas designam esses aspectos de inteligência de mercado ao setor de marketing, pois acreditam ser o mais preparado para desenvolver a análise da concorrência. Pode-se perceber essa a�rmação com base em uma entrevista realizada por Boscov e Rocha (2004) na qual o gerente de marketing da Rhodia, Personal Care & Industrial Ingredients diz: [...] o enfoque da Controladoria é custos. O marketing consegue ter uma visão mais abrangente, inclusive �nanceira [...] no futuro, a análise de infor- mações mercadológicas estará descentralizada pela empresa. Uma empresa madura tem grande cultura de marketing, sem precisar ter um departamento especí�co para isso. A análise de concorrentes tem que estar enraizada na cultura organi- zacional, unindo a força de todos pro�ssionais que possam contribuir para a coleta e análise de dados. Desse modo, é interessante criar uma equipe multidisciplinar, contemplando pro�ssionais da empresa de diversos setores: marketing, vendas, controladoria etc. 7.4 Resumo Com o aumento da importância do relacionamento entre as empresas, a visão externa às companhias ganhou uma atenção maior. A gestão estraté- gica de custos desenvolveu alguns instrumentos, com o intuito de melhorar o gerenciamento de custos, observando o ambiente externo à organização e preocupando-se com a formulação e implementação da estratégia da organi- zação no que tange a custos. Um dos primeiros elementos da gestão estratégica de custos são os determinantes de custos, que compreendem os fatores que determinam e/ou condicionam a existência de um custo e in�uenciam a estrutura e/ou o com- portamento dos custos de uma entidade, como: tecnologia, escala, nível de 50687_MIOLO_Controladoria.indb 156 17/10/2016 10:35:02 – 157 – (estão esUrBU»gJcB de cVsUos utilização da capacidade, escopo, complexidade da linha de produção, curva de experiência, estrutura de capitais, forma de relacionamento das entidades na cadeia de valor, modelo de gestão etc. A Gestão de Custos Interorganizacionais (GCI), por sua vez, é um pro- cesso cooperativo de gerenciamento de custos que inclui outras organizações de uma cadeia de valor além da própria empresa, o que justi�ca ser um arte- fato de gestão estratégica de custos. Tem como objetivo encontrar soluções de gerenciamento de custos que propiciem que o retorno total da cadeia de valor (ou de uma parte dela) seja garantido ou aumentado, através de ações coordenadas entre as organizações, cujo nível não seria alcançado se as empre- sas tentassem gerenciar apenas seus próprios custos, independentemente das demais. Dois aspectos importantes que fazem parte das discussões da GCI são os fatores condicionantes, que representam variáveis que in�uenciam o sucesso de implantação e utilização de um artefato gerencial, e os mecanismos de controle das entidades e atividades dos envolvidos na cadeia de valor, divi- didos em disciplinadores, capacitores e incentivadores. Finalmente, outra possibilidade da gestão estratégica de custos é a aná- lise de custos de concorrentes, que é uma metodologia de identi�cação de informação dos concorrentes para se conhecer sua estrutura de custos. Tem como objetivo principal gerar ideias para auxílio do planejamento estratégico na busca de vantagens competitivas. Ampliando seus conhecimentos Custeio Alvo (BIAZETTE; BORINELLI; CAMACHO, 2008. Adaptado) O Custeio Alvo, ou Target Costing, segundo Sakurai (1997, p. 49), “[...] é um método abrangente de gerenciamento estratégico de custos que envolve a redução de custos durante todo o ciclo de sua ocorrência”, em especial na fase de planejamento e desenho do produto. Para que essa redu- ção de custos seja concretizada, é necessário o envolvimento 50687_MIOLO_Controladoria.indb 157 17/10/2016 10:35:02 Controladoria – 158 – de todos os departamentos da empresa, desde os produtivos até os de marketing e administrativos. Para Martins (2003, p. 223), “O Custeio-Alvo ou Custeio Meta é um processo de planejamento de lucros, preços e custos que parte do preço de venda para chegar ao custo, razão pela qual diz-se que é o custo definido de fora para den- tro”. Sendo assim, o preço de venda não pode ser definido a partir dos custos de produção mais a margem objetivada, mas é o mercado que define o quanto quer pagar pelo produto. Por isso que se diz que o Custeio Alvo é um sistema dire- cionado ao mercado, em que a opinião do consumidor é um parâmetro para o desenvolvimento do processo de produção (COLAUTO et al, 2004, p. 4). Para Camacho (2004, p. 18), o Custeio Alvo é “[...] um pro- cesso de gerenciamento de custos por meio do qual se busca o alcance do custo alvo”. Neste sentido, Martins (2003, p. 224), define custo alvo como “[...] o custo máximo admissível de um produto para que, dado o preço de venda que o mercado ofe- rece, consiga-se o mínimo de rentabilidade que se quer”. Rocha (1999, p. 126), por outro lado, tendo em vista o conceito de GEC, define custo alvo como “[...] o montante de custos que deve ser eliminado, ou aumentado, para que o custo esti- mado de um produto, ou serviço, se ajuste ao permitido, tendo em vista o custo de uso e de propriedade para o consumidor, o preço alvo e as margens objetivadas para cada elo da cadeia”. Portanto, são duas as visões sobre o que é custo alvo, como elucidam os exemplos apresentados na tabela 1, a seguir: Tabela 1 – O custo alvo de acordo com as duas correntes de pensamento Componentes Valor Preço de venda 100 50687_MIOLO_Controladoria.indb 158 17/10/2016 10:35:02 – 159 – (estão esUrBU»gJcB de cVsUos Componentes Valor Lucro meta (10%) 10 Custo Alvo 90 Ou Preço de venda 100 Lucro meta (10%) 10 Custo máximo admissível 90 Custo estimado 93 Custo Alvo (Gap) (3) Fonte: (CAMACHO, 2004, p. 21.) Para fins deste trabalho, está se considerando que o custo alvo é a diferença entre o custo máximo admissível e o custo estimado, dado o preço de venda indicado pelomercado e a margem de lucro objetivada pela empresa. Princípios do Custeio Alvo Para que o Custeio Alvo possa atingir seu objetivo de redu- ção de custos no processo de planejamento e desenho dos produtos, são estabelecidos princípios que devem ser segui- dos, conforme discutem Scapin (2000, p. 63-73), Rocha e Martins (1999, p. 84-87), Hansen (2002, p. 18-21) e Camacho (2004, p. 29-31): 2 A voz do consumidor orienta todo o processo 2 A voz do consumidor é o que determina quais funções não podem ser eliminadas dos produtos e quais carac- terísticas são necessárias. Segundo Camacho (2004, p. 29), “no processo de atingir o custo alvo, não se pode, simplesmente, eliminar de forma aleatória componentes 50687_MIOLO_Controladoria.indb 159 17/10/2016 10:35:02 Controladoria – 160 – ou recursos do produto, pois com isso pode-se perder a qualidade exigida pelo consumidor”. Portanto, durante a elaboração do projeto dos produtos, realiza-se pesquisa de marketing junto aos consumidores para que possam ser determinados os componentes que o produto terá para garantir a qualidade esperada. 2 O lucro é garantia de sobrevivência da empresa Para que a empresa possa garantir sua continuidade, precisa garantir que haja lucro em suas vendas, mesmo que por um tempo sua estratégia seja vender sem lucros para conseguir mais consumidores para seus produtos. Na visão de Camacho (2004, p. 29), “[...] o Custeio Alvo tem o objetivo de garantir a margem almejada, em conformidade com a estratégia adotada pela empresa”. Sakurai (1997, p. 57) reforça que “[...] o programa de redução de custos é fortemente direcionado para o lucro programado estrategicamente”. Portanto, o obje- tivo do Custeio Alvo é reduzir os custos para garantir que se tenha o lucro esperado. 2 O custo é determinado pelo preço Para Colauto et al (2004, p. 5), “O custo meta toma o preço de venda como um parâmetro, baseando-se na pre- missa de que os clientes não estão interessados nos custos do fabricante”. Através deste princípio pode-se concluir que o custo é determinado a partir do preço de venda, tendo em vista a competitividade do mercado. Em sín- tese, dado o preço de venda que o consumidor esteja disposto a pagar e, considerando-se a margem de lucro que a empresa espera obter, chega-se ao custo do produto. 2 O projeto é o principal determinante do custo É durante a fase de planejamento e desenho que são estabelecidas as características dos produtos, quais matérias-primas, mão de obra e máquinas que serão 50687_MIOLO_Controladoria.indb 160 17/10/2016 10:35:02 – 161 – (estão esUrBU»gJcB de cVsUos utilizadas e, portanto, é neste estágio que são determi- nados os custos que deverão acontecer no processo de produção. Martins (2003, p. 224) assegura que “A maioria dos custos a serem incorridos em um processo produtivo é determinado na estruturação deste pro- cesso, ou seja, na fase de projeto do produto”. Sendo assim, depois que os produtos estão sendo elaborados não será fácil a redução dos custos, ou seja, os custos que poderão ser reduzidos podem não ser suficientes para alcançar o custo desejado que garanta a margem de lucro pretendida. Processo do Custeio Alvo No processo do Custeio Alvo, a empresa estabelece qual margem de lucro será necessária para garantir sua continui- dade, sendo que o preço de venda é fixado a partir de pes- quisa e análise de mercado. No que tange ao custeamento, tanto o Custeio por Absorção, quanto o Custeio Pleno ou o Custeio Variável poderão ser utilizados, a depender das características do produto e da empresa. Assim, segundo Camacho (2004, p. 38), “[...] Uma vez definido o preço de venda e a margem desejada, é possível calcular o custo máximo admissível (custo meta), que é obtido pela diferença do preço de venda e a margem objetivada”. Essas atividades, segundo Hansen (2002, p. 72), compreen- dem as oito fases do processo do custeio alvo, a saber: 2 Pesquisa de mercado, para se identificar as características que o consumidor espera encontrar no produto. 2 Análise da competitividade do mercado, para determinar a concorrência que o produto irá enfrentar no mercado. 2 Definição do produto e do nicho de consumidores, para estabelecer, através de pesquisa, para qual consumidor o produto será destinado. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 161 17/10/2016 10:35:02 Controladoria – 162 – 2 Captação dos desejos dos consumidores, pois é a partir das informações dos consumidores, constantes na pes- quisa realizada, que o produto é elaborado. 2 Definição das características do produto, tendo em vista que é o consumidor que determinará as características dos produtos de acordo com suas necessidades. 2 Preço de mercado, para, com base em análise de mer- cado, estabelecer o preço de venda, tendo como deter- minantes a concorrência e o preço que o consumidor está disposto a pagar pelo produto. 2 Margem desejada, ou seja, representa o retorno que a empresa espera obter com o produto, sendo estabele- cida pela própria organização. 2 Custo Meta, que é o custo máximo admissível para o pro- duto, sendo determinado através da diferença entre o preço de venda e a margem desejada. No caso deste estudo, está se considerando a diferença entre o custo máximo admissí- vel e o custo estimado, conforme já explicado. Para que o custo alvo seja atingido, é necessário o envolvi- mento de todos os departamentos da empresa, que através de técnicas de Engenharia do Valor, irão definir a necessidade dos consumidores e analisar as funções de cada produto, visando o alcance do custo máximo admissível. Engenharia do Valor A Engenharia do Valor é um instrumento de gestão de custos utilizado no processo do Custeio Alvo. Para Colauto et al. (2004, p. 6), “a Engenharia do Valor constitui a essência do custo-meta, compreendendo os esforços organizados no sentido de implementar uma análise funcional do produto para atingir, com maior grau de confiabilidade, todas as funções do ciclo de vida, ao menor custo possível”. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 162 17/10/2016 10:35:02 – 163 – (estão esUrBU»gJcB de cVsUos Camacho (2004, p. 45) complementa que a Engenharia do Valor “[...] consiste em decompor o produto ou serviço em funções, examinando-se o valor de cada uma delas”. Assim, durante o processo de planejamento dos produtos são defi- nidas as necessidades dos consumidores em relação a estes produtos. De posse disso, faz-se a decomposição das funções e atributos dos produtos e é estabelecido o valor de cada uma, tornando possível definir qual gera o maior custo do pro- duto. Com a pesquisa feita junto aos consumidores é possível eliminar ou trocar algumas das funções sem que prejudique a qualidade do produto, buscando-se reduzir o custo no mon- tante necessário, antes do produto ser produzido. Atividades 1. O que são os determinantes de custos e para que eles servem? Cite três tipos de determinantes de custos. 2. Caracterize a Gestão de Custos Interorganizacionais (GCI), explique por que ela é um instrumento da gestão estratégica de custos e identifique alguns benefícios que ela pode trazer às organizações, caso seja adotada. 3. O que é a análise de custos de concorrentes, qual seu objetivo e como ela pode ser operacionalizada? 50687_MIOLO_Controladoria.indb 163 17/10/2016 10:35:02 50687_MIOLO_Controladoria.indb 164 17/10/2016 10:35:02 Preço de venda O planejamento e o controle da política de preços de ven- das são, normalmente, responsabilidades dos departamentos de marketing, comercial ou, até mesmo, do departamento � nanceiro. Infelizmente, poucas empresas utilizam-se do trabalho multidisci- plinar, reunindo os pro� ssionais de diversas áreas em um processo de preci� cação integrada.No entanto, a preci� cação é um aspecto estratégico da empresa que deve interagir com diversas áreas. Marketing e comer- cial são, via de regra, as áreas mais diretamente envolvidas nesse pro- cesso. No entanto, é responsabilidade da Controladoria auxiliá-las de diversas formas, principalmente com o levantamento dos custos e a análise da lucratividade e rentabilidade histórica e prevista, pois o estabelecimento dos preços dos produtos pode afetar diretamente a estratégia adotada pela empresa aos clientes e, consequentemente, o resultado da companhia. 8 50687_MIOLO_Controladoria.indb 165 17/10/2016 10:35:05 Controladoria – 166 – Adicionalmente, a Controladoria pode auxiliar na preci�cação de pro- dutos e serviços considerando e integrando em suas informações as visões econômica, de custos, mercado e clientes. Ela deve auxiliar na organização dos dados, gerando informações que ajudem a organização a tomar a decisão que otimize a preci�cação, incluindo todas as visões. Assim, este capítulo aborda uma metodologia de planejamento e análise de preços de venda de produtos e serviços com um modelo multidisciplinar que re�ete as principais variáveis e visões que envolvem o processo de atribuir preços. 8.1 Visão mercadológica Basicamente, se a empresa adotar uma abordagem de preci�cação mer- cadológica, ela deve se atentar para as necessidades dos clientes e consumido- res e as ações dos concorrentes. Quando a empresa se aprofunda na visão das necessidades dos clientes, ela deve considerar a sensibilidade dele quanto aos diversos aspectos de suas preferências. Deve se atentar não somente para o que o cliente quer, mas, também, para o que ele precisa. Os dois pontos devem ser estudados em conjunto, pois nem sempre o cliente tem a consciência do que precisa, porém é uma oportunidade para a empresa criar um novo mercado, fazendo-o per- ceber suas necessidades. Para uma melhor análise, é possível estudar os clien- tes segregando-os por características semelhantes, como, por exemplo classe social, poder aquisitivo, aspectos culturais e religiosos. As técnicas de preci�cação denominadas discriminação de preços e valor percebido, segundo Guerreiro (2006), foram idealizadas com base no foco no cliente. O autor ainda complementa que, com base no emprego da técnica de discriminação de preços, um mesmo produto é vendido por preços diferentes em função do per�l do cliente ou da época da venda; para isso, o produto pode ser comercializado em diversos modelos e embalagens visando atingir diferentes segmentos de mercado. Já com base no emprego da técnica de valor percebido, os preços dos produtos são proporcionais ao valor atribuído pelos clientes aos produtos da empresa, levando-se em conta o quanto os clientes estão dispostos a pagar. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 166 17/10/2016 10:35:05 – 167 – Preço de venda Quando a empresa aprofunda-se na visão do que e a quanto os concor- rentes estão oferecendo, ela deve pesquisar as funcionalidades do produto con- corrente, como, também, a sensibilidade dos clientes quanto à existência de alguma diferenciação. Adicionalmente, deve-se analisar o preço oferecido pelo concorrente. Existem várias técnicas de preci�cação estabelecidas considerando o foco no concorrente. Segundo Guerreiro (2006), dentre elas se destacam: imitação de preço, preço de penetração, preços de mercado e preços diferenciais. 2 A imitação de preços acontece, principalmente, quando o foco da empresa está no mesmo posicionamento dos principais concorren- tes diretos. 2 Os preços de penetração, normalmente, são preços abaixo do con- corrente para a empresa ganhar clientes, ou seja, aumentar suas vendas e mercado (market share). 2 Os preços de mercado são utilizados para produtos padrões, do tipo commodities, pois muitas vezes a empresa não tem gerenciamento sobre o valor do produto, como por exemplo, preço de minérios negociados em bolsa de valores. 2 Preços diferenciais são colocados em produtos que possuem diferen- cial signi�cativo em termos de originalidade ou qualidade. Muitas vezes a empresa quer que o mercado perceba a diferenciação do pro- duto através do preço, que é utilizado como marketing. Os serviços logísticos podem auxiliar na utilização desse tipo de metodologia. 8.2 Visão econômica Na visão econômica, segundo Guerreiro (2006), existem dois princípios básicos: otimização e equilíbrio. O princípio da otimização está fundamen- tado na racionalidade econômica, que in�uencia na escolha dos clientes, ou seja, as pessoas tentam escolher o melhor padrão de consumo possível, pri- vilegiando a melhor relação custo (preço) versus benefício. Já o princípio do equilíbrio está mais voltado ao ajuste de mercado, ou seja, uma “mão invisí- vel”, segundo Adam Smith. Os preços se ajustam até que o total da demanda seja igual ao total da oferta, equilibrando o mercado. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 167 17/10/2016 10:35:05 Controladoria – 168 – Alguns conceitos são importantes para o entendimento da formação de preços com base na visão econômica: lei da procura (demanda), lei da oferta, elasticidade-preço da demanda e estruturas de mercado. Cada uma delas está explicada na sequência, tomando como base a discussão de Samuelson e Nordhaus (1993): 2 Lei da procura (demanda) – o consumo está diretamente relacio- nado ao preço do produto, de maneira que, quando o preço do produto aumenta (mantendo-se os outros fatores constantes), os clientes tendem a consumir menos; de forma similar, quando o preço diminui, aumenta a quantidade consumida. 2 Lei da oferta – a venda está diretamente relacionada ao preço do produto, sendo que, quando o preço do produto aumenta (man- tendo-se os outros fatores constantes), os fornecedores �cam mais dispostos a vender; de forma similar, quando o preço diminui, reduz a disposição para venda. 2 Elasticidade-preço da demanda – é a sensibilidade da quantidade pro- curada de um bem às variações do preço do bem, mantendo-se o res- tante constante. A fórmula precisa de elasticidade (ED) é a variação percentual na quantidade procurada dividida pela variação percen- tual no preço, considerando-se um determinado intervalo de tempo. ED = Variação percentual na quantidade procurada Variação percentual no preço 2 Estruturas de mercado – de forma geral, o mercado é o ambiente onde as organizações podem concretizar os negócios de compra e venda, no qual o sistema de preços funciona como denominador comum das negociações. Os modelos de organização dos mercados são conhecidos como estruturas de mercado. Cada estrutura de mer- cado baseia-se em hipóteses e características observadas na interação entre a oferta e a demanda (procura). As principais características que determinam essa estrutura de mercado são: quantidade de agentes econômicos, tipos de produtos e barreiras de entrada e de saída. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 168 17/10/2016 10:35:05 – 169 – Preço de venda No que se refere aos agentes econômicos, podem ocorrer três situações principais que determinam a estrutura de mercado: 2 Presença de muitos agentes econômicos e a decisão de um deles não in�uencia decisões dos demais concorrentes. Nessa situação os agentes atuam como tomadores de preços e, isoladamente, não in�uenciam o preço, o qual é ditado pelo mercado. 2 Presença de poucos agentes econômicos e a decisão de um deles in�uencia decisões dos demais concorrentes. Nesse mercado os agentes conseguem, em certas circunstâncias, ditar algumas regras. 2 Presença de um único agente econômico em que não há concorrência. No quadro 1 apresentado a seguir, são ilustradas as principais estruturas de mercado, levando-se em consideração a quantidade de agentes econômicos. Quadro 1 – Principais estruturas de mercado a partir da quantidade de agenteseconômicos Um único vendedor Poucos vendedores Muitos vendedores Um único comprador Monopólio bilateral Quase monopsônio Monopsônio Poucos compradores Quase monopólio Oligopólio bilateral Oligopsônio Muitos compradores Monopólio Oligopólio Concorrência Fonte: Elaborado pelos autores. Pode-se entender a terminologia “pólio” como sinônimo de vendedor; então monopólio signi�ca o mercado que tem somente um vendedor e oli- gopólio signi�ca o mercado que tem poucos vendedores (ou um grupo). Por outro lado, pode-se tratar a terminologia “psônio” como sinônimo de com- prador; então monopsônio é o mercado que tem somente um comprador e oligopsônio é o mercado que tem poucos compradores (ou um grupo). No que se refere aos tipos de produtos, podem ocorrer duas situações principais que determinam a estrutura de mercado: 50687_MIOLO_Controladoria.indb 169 17/10/2016 10:35:05 Controladoria – 170 – 2 Presença de produtos similares; portanto, substitutos perfeitos. Exemplos: commodities, caneta esferográ�ca, água mineral sem gás e �ores. 2 Ausência de produtos similares; portanto, não são substitutos per- feitos. Exemplos: serviços de psicologia, consultorias especí�cas e artigos de luxo. No que se refere às barreiras de entrada e de saída determinando as estru- turas de mercado, os mercados podem ter barreiras naturais (decorrente da e�ciência econômica da empresa, por exemplo) ou arti�ciais (decorrente da proteção do Estado, por exemplo). 8.3 Visão de custos Segundo Martins (2004), na visão de custos os preços são calculados de dentro para fora e o ponto de partida é o custo do bem ou serviço apurado segundo um dos métodos de custeio: variável, por absorção, pleno, por ativi- dades etc; sobre esse custo agrega-se uma margem denominada mark-up, que deve ser estimada para cobrir os gastos não incluídos no custo, os tributos e comissões incidentes sobre o preço e o lucro desejado pelos administradores. Segundo Guerreiro (2006), foi a visão de custos que mais in�uenciou as decisões de preços nas décadas passadas e ainda continua a exercer grande in�uência na prática das empresas. Nessa visão, o custo do produto é men- surado com base nos recursos consumidos pela organização no processo de produção e somado ao lucro pretendido para cada produto. Martins (2004) cita algumas considerações importantes: 2 O custo deve ser o de reposição, à vista e em moeda corrente. Assim, o preço calculado também é para venda à vista. 2 Para calcular preços de venda a prazo é necessário embutir os encar- gos �nanceiros correspondentes. 2 Se o critério de custeio for variável, então o mark-up terá que ser acrescido de um percentual estimado para cobrir os custos �xos de produção não incluídos no custo do produto. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 170 17/10/2016 10:35:05 – 171 – Preço de venda 2 O percentual de comissão deve incluir encargos sociais quando os vendedores tiverem vínculo empregatício com a empresa. 2 Os tributos a considerar são os incidentes direta e proporcionalmente sobre a receita, como, por exemplo, ICMS, PIS, Co�ns, ISS etc. 2 O lucro desejado pode ser expresso de várias formas, como, por exemplo, em percentual sobre o preço, em valor absoluto, toman- do-se por base o capital investido ou o custo de oportunidade etc. O autor ainda lembra que esse método de calcular preços com base em custos é muito utilizado pelas empresas, porém apresenta algumas de�ciên- cias, como: não considerar, pelo menos inicialmente, as condições de mercado, �xar o percentual de cobertura das despesas �xas de forma arbitrária etc. Os custos e despesas, devidamente classi�cados, são tratados dentro do métodos de custeio, que correspondem à forma de atribuir custos e despesas às entidades objeto de custeio, segundo as especi�cidades de cada método. Estes são adotados visando orientar o tomador de decisões na escolha da alter- nativa adequada para a solução de um problema e, se necessário, efetivar ações corretivas. Existem vários métodos para o tratamento dos custos e des- pesas. A seguir vamos demonstrar um exemplo que utiliza-se dos seguintes métodos: custeio variável, custeio por absorção e custeio pleno. O custeio variável é aquele que só aloca às entidades objeto de cus- teio, para �ns de apuração de resultado, os custos e despesas variáveis, não incluindo os custos e despesas �xas, os quais são considerados como despesas do período e alocados diretamente para o resultado; a medida de lucrativi- dade associada ao custeio variável é a margem de contribuição. O custeio por absorção atribui às entidades objeto de custeio todos os custos de produção, e somente eles; a medida de lucratividade associada ao custeio por absorção é a margem bruta. Já o custeio pleno atribui às entidades objeto de custeio todos os cus- tos e despesas; a medida de lucratividade associada ao custeio pleno é a margem operacional. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 171 17/10/2016 10:35:05 Controladoria – 172 – Considere o seguinte exemplo: uma indústria de cadeiras deseja formar o preço de venda da cadeira tipo giratória em tecido e, para tanto, levantou os seguintes dados: 2 Custos variáveis de produção: $20,00/unidade 2 Custo �xos de produção: $100.000,00/mês 2 Despesas variáveis de venda: $4,00/unidade 2 Despesas �xas: $20.000,00/mês 2 Impostos sobre vendas: 18% do preço de venda 2 Lucro desejado: 15% do preço de venda 2 A empresa tem capacidade de produção de 10 000 cadeiras por mês, sendo que a cadeira giratória em tecido tem uma participação média de 25% da produção total. Com base nos dados, é possível apurar os seguintes preços de venda, como se pode ver na tabela 1. Tabela 1– Preços de Venda Métodos de custeio Pleno Absorção Variável Custos variáveis ($) 20,00 20,00 20,00 Despesas variáveis ($) 4,00 4,00 4,00 Custos fixos ($) 10,001 10,00 - Despesas fixas ($) 2,002 - - Custo total ($) 36,00 34,00 24,00 Impostos sobre vendas 18% 18% 18% Lucro desejado 15% 15% 15% Despesas fixas 0% 5% 5% Custos fixos 0% 0% 20% Mark-up 33% 38% 58% Preço de venda ($) 53,73 54,84 57,14 Fonte: Elaborado pelos autores 1 Custo �xo = Custo �xo de produção: 100.000,00 / Capacidade total de produção: 10.000,00 = 10,00 2 Despesa �xa = Despesas �xas: 20.000,00 / Capacidade total de produção: 10.000,00 = 2,00 50687_MIOLO_Controladoria.indb 172 17/10/2016 10:35:05 – 173 – Preço de venda Pelo custeio pleno, que é aquele que considera como custo do produto todos os custos e despesas, o custo total seria de $36,00 e o mark-up seria de 33%. Dividindo-se o custo total pelo mark-up considerado em valor decimal e diminuído de 1, tem-se o preço de venda de $53,73, ou seja: $36,00 = $53,73 (1 – 0,33) Nesse caso, o lucro de cada cadeira seria de $8,06, que corresponde a 15% do preço de venda encontrado. Deve-se esclarecer que para �ns do cus- teio pleno, a empresa considera que os custos �xos e as despesas �xas são atri- buídos ao produto mediante rateio com base no volume de produção total. Pelo custeio por absorção, que é aquele que considera como custo do produto todos os custos de produção, o custo total seria de $34,00 (incluindo as despesas variáveis) e o mark-up seria de 38%. Dividindo-se o custo total pelo mark-up considerado em valor decimal e diminuído de 1, tem-se o preço de venda de $54,84, ou seja: $34,00 = $54,84 (1 – 0,38) Nesse caso, o lucro de cada cadeira seria de $8,23, o que corresponde a 15% do preço de venda encontrado. Deve-se esclarecer que para �ns do custeio por absorção, a empresa considera que os custos �xos são atribuídos ao produto mediante rateio com base no volume de produção. Como as des- pesas �xas não �zeram parte do custo do produto, a diretoria considerou uma estimativa que cada cadeira deveria gerar uma margem de 5%do preço de venda para tentar cobrir as despesas �xas. Pelo custeio variável, que é aquele que considera no custo do produto apenas os custos e despesas variáveis, o custo total seria de $24,00 e o mark- -up seria de 58%. Dividindo-se o custo total pelo mark-up considerado em valor decimal e diminuído de 1, tem-se o preço de venda de $57,14, ou seja: $24,00 = $57,14 (1 – 0,58) Nesse caso, o lucro de cada cadeira seria de $8,57, que corresponde a 15% do preço de venda encontrado. Como os custos �xos e as despesas �xas 50687_MIOLO_Controladoria.indb 173 17/10/2016 10:35:05 Controladoria – 174 – não �zeram parte do custo do produto, a diretoria estimou que cada cadeira deveria gerar uma margem de 25% do preço de venda para tentar cobrir as despesas �xas (5%) e custos �xos (20%). A Controladoria pode auxiliar a empresa tanto no levantamento dos valores de custos e despesas, quanto na escolha de qual método de custeio é mais interessante para ser utilizado. Essa escolha do método de custeio depende fundamentalmente do modelo de gestão da empresa, ou seja, como os tomadores de decisão gostariam de visualizar a informação. 8.4 Visão integrada As abordagens mercadológica, econômica e de custos, se considera- das isoladamente, podem não resolver a questão da preci�cação como um todo. Entretanto, como se pôde perceber, cada abordagem oferece variáveis importantes para o planejamento de preços e decisões de rentabilidade. Desse modo, é importante que a organização compreenda um modelo de preci�- cação integrando as visões de mercado, econômica e de custos, como ilustra a �gura 1. Figura 1 – Precificação na visão integrada Fonte: (Disponível em: <http://ruiserranorte.spaces.live.com/blog/ cns!83E124C8AE82843D!275.entry>. Adaptado.) 50687_MIOLO_Controladoria.indb 174 17/10/2016 10:35:05 – 175 – Preço de venda Para o processo de planejamento de preços, segundo Guerreiro (2006), é importante que se tenha um sistema de simulações que permita a integra- ção de conhecimentos proporcionados pelos diferentes enfoques. A sugestão do autor é que as empresas disponham de um software de simulação que empregue os conceitos aqui apresentados; o que deve ser evitado, e é um erro comum na prática, é utilizar o software de orçamento para efetuar simulações. Na prática, as simulações podem ocorrer a partir de duas bases iniciais: estru- tura de custos e preços de mercado. O preço baseado no custo leva em conta as pesquisas de mercado para a de�nição das características e funcionalidades dos produtos. Assim, com base em estudos de engenharia pode-se ter uma estimativa do custo planejado do produto. Adicionando uma margem objetivada ao custo do produto, obtém- -se o preço de venda a ser praticado. Segundo Guerreiro (2006), essa lógica de formação de preços foi muito utilizada nas décadas passadas, quando novos produtos eram lançados no mercado e não existia nenhum produto similar para que se pudesse ter um preço de referência. Ainda hoje, em muitas situa- ções é necessário utilizar o modelo de formar preços a partir de custos, sendo os casos típicos as indústrias de produção sob encomenda e as empresas de serviços especiais. Nesses casos não existe um preço de referência objetivo no mercado para os produtos comercializados. O preço baseado no mercado também leva em conta as pesquisas de mercado para a de�nição das características e funcionalidades dos produtos. Adicionalmente, pesquisa-se também o preço alvo com base na concorrência e na disposição de clientes. Segundo Guerreiro (2006), essa lógica ocorre no caso das empresas que produzem bens e serviços para os quais existam refe- rências de mercado e não tem sentido utilizar a formação de preço somente com base em custos; desse modo, comenta o autor, o processo de simulação para a decisão de preços envolve duas rotinas básicas: formação do preço de venda a partir de dados internos da empresa e análise de rentabilidade pro- porcionada por um preço de mercado. Em suma, um adequado processo de atribuir preços a produtos e ser- viços deve levar em consideração uma visão integrada que contemple, ao menos, os seguintes itens: 50687_MIOLO_Controladoria.indb 175 17/10/2016 10:35:05 Controladoria – 176 – os custos do produto ou serviço e da empresa vendedora; as características da empresa vendedora, incluindo seus objeti- vos de lucratividade; o que a empresa vendedora espera do produto ou serviço ao longo do seu ciclo de vida; os atributos do produto ou serviço; a visão que os clientes têm dos produ- tos ou serviços; os preços praticados pela concorrência; as leis de oferta e procura (demanda); as condições de elasticidade- -preço; quais agentes econômicos fazem parte do mercado, além de outros aspectos que a empresa considerar relevante. 8.5 Considerações na precificação Adicionalmente ao que já foi discutido, algumas considerações no fecha- mento do negócio com o cliente devem ser ponderadas, entre elas: localidade, quantidade, nível de serviço e forma de entrega. 2 Localidade: Bowersox; Closs e Cooper (2002) comentam sobre três sistemas de entrega de produtos e fazem algumas considerações referentes à formação de preços em função da localidade, inerentes a cada sistema. 2 Preci�cação por zona – os clientes pagam um preço único, inde- pendente de onde estão localizados; o preço de entrega geralmente re�ete o custo médio de transporte do vendedor. Desse modo existe subsídio cruzado entre os clientes, ou seja, alguns clientes pagam mais do que outros. Serviços de entrega de pizza utilizam essa taxa de entrega, em que a mesma tarifa de entrega é cobrada para qual- quer quantidade (desde que o motoboy consiga levar) e para dis- tâncias diferentes. 2 Preci�cação por zonas múltiplas – os preços são diferentes para áreas geográ�cas distintas. O serviço de correio faz uma preci�ca- ção parecida. A ideia subjacente é a de que diferenciais de custos 50687_MIOLO_Controladoria.indb 176 17/10/2016 10:35:05 – 177 – Preço de venda logísticos podem ser designados de forma mais justa, quando duas ou mais zonas, comumente baseadas na distância, são usadas para cotar o preço de entrega. 2 Preci�cação por ponto-base – o preço de entrega �nal é determi- nado pela lista de preços do produto mais o custo de transporte, a partir de um ponto-base designado, normalmente o local de pro- dução. Esse ponto designado é utilizado para computar o preço de entrega, tenha ou não o embarque, de fato, origem a partir do local de base. 2 Quantidade: normalmente, a utilização de descontos por quan- tidade é amplamente usada, principalmente com o intuito de aumentar o volume de negócios. Para não haver problemas futuros (problemas comerciais, por exemplo), essa estrutura de desconto deve ser igualitária para todos os clientes. 2 Nível de serviço: determinar um nível de serviço padrão é o passo inicial. Segundo Bowersox, Closs e Cooper (2002), um aspecto mais amplo envolve a especi�cação de cobranças pela concordân- cia de atividades adicionais; essa abordagem resulta em que cada cliente pague pela combinação especí�ca de serviços que demanda. 2 Forma de entrega – CIF e FOB: nas decisões de logística de distri- buição dois modelos a empresa pode se utilizar: 2 Preço CIF – vender o produto aglutinando ao seu valor parcela despendida com embarque, seguro e frete até o comprador; “CIF” é a abreviatura da expressão cost, insurance and freight que signi�ca custo, seguro e frete, respectivamente. Nas transações econômicas de compra e venda, a classi�cação de entrega CIF signi�ca que o preço do produto inclui as despesas com seguro e frete até o local de destino. Desse modo, cabe ao vendedor a obrigação de entregar a mercadoria ao comprador no local estabelecido e todos os riscos e custos estão por contado vendedor. 2 Preço FOB – estabelecer o preço da mercadoria, devidamente preparada no próprio depósito, competindo ao comprador a reti- rada (FOB – free on board). Na prática, nas transações econômicas 50687_MIOLO_Controladoria.indb 177 17/10/2016 10:35:05 Controladoria – 178 – de compra e venda a classi�cação de entrega FOB signi�ca que o preço do produto não inclui as despesas até o local de destino. Desse modo, cabe ao comprador a obrigação de retirar a mercado- ria no local estabelecido pelo vendedor e todos os riscos e custos estão por conta do comprador. O comprador que deve selecionar o tipo de transporte, escolher a empresa, pagar os encargos e encarar os riscos de perdas e danos em trânsito, caso ocorram. Segundo Rodriguez e Junkes (2004), na prática empresarial brasileira, a de�nição sobre a qual das duas partes (comprador ou vendedor) caberá o ônus do frete e dos riscos inerentes tem sido tratada de forma relativamente indistinta, sem levar em consideração amplamente os impactos estratégicos e operacionais que a decisão por um ou outro modelo pode ocasionar. Isso signi�ca que, no âmbito da Controladoria, as discussões de preci�cação de produtos e serviços, bem como a análise de lucratividade e rentabilidade dos preços deve levar em consideração as questões relativas a fretes, além de níveis de serviços e quantidades envolvidas nas negociações. 8.6 Resumo As atividades de planejamento e controle da política de preço de vendas �cam, não raras vezes, na responsabilidade do departamento de marketing, comercial ou, até mesmo, do departamento �nanceiro, a depender de cada entidade. No entanto, a preci�cação é um aspecto da estratégia da empresa que deve ser discutido no âmbito de diversas áreas e, principalmente, envol- vendo a Controladoria. Várias abordagens podem ser utilizadas no planejamento e análise de preço, entre elas encontram-se a abordagem mercadológica, a abordagem econômica e a abordagem de custos. Basicamente, se a empresa adotar uma abordagem de preci�cação mercadológica, ela deve se atentar para as necessi- dades dos clientes e as ações dos concorrentes. Quanto aos clientes, é impor- tante conhecer suas necessidades, preferências e preço que está disposto a pagar. Algumas técnicas de preci�cação com foco no cliente são de discri- minação de preços e valor percebido. Já no que diz respeito aos concorrentes, deve-se atentar às funcionalidades do produto concorrente, à sensibilidade 50687_MIOLO_Controladoria.indb 178 17/10/2016 10:35:05 – 179 – Preço de venda dos clientes quanto à existência de alguma diferenciação e ao preço oferecido pelo concorrente. Algumas técnicas de preci�cação considerando o foco no concorrente são imitação de preço, preço de penetração, preços de mercado e preços diferenciais. Na visão econômica, a preci�cação de produtos e serviços leva em conta os princípios básicos de otimização e equilíbrio, além dos conceitos de lei da procura ou demanda (o consumo está diretamente relacionado ao preço do produto), lei da oferta (a venda está diretamente relacionada ao preço do pro- duto), elasticidade-preço da demanda (a sensibilidade da quantidade procurada de um bem às variações do preço do bem) e estruturas de mercado (determi- nadas pela quantidade de agentes econômicos, tipos de produtos e barreiras de entrada e de saída). Já na visão de custos, os preços são calculados de dentro da empresa para fora, uma vez que o ponto de partida é o custo do bem ou serviço, apurado segundo um dos métodos de custeio, agregando-se uma margem denomi- nada mark-up, a qual deve ser estimada para cobrir os gastos não inclusos no custo, os tributos e comissões incidentes sobre o preço e o lucro desejado pelos administradores. As três abordagens isoladamente podem não resolver o problema da pre- ci�cação como um todo. Cada abordagem oferece variáveis importantes para o planejamento de preços e decisões de rentabilidade, de forma que todas devem ser consideradas nas decisões de por quanto vender os produtos e serviços. Ademais, no processo de de�nição de preços, aspectos referentes à logís- tica de distribuição devem ser considerados, atentando para as questões rela- tivas à localidade de entrega do produto, quantidade, nível de serviço e forma de entrega. Nesse último caso, dois modelos elementares à empresa pode se utilizar: CIF e FOB. CIF é a abreviatura da expressão “cost, insurance and freight” que signi�ca que o preço do produto inclui as despesas com seguro e frete até o local de destino. FOB é a abreviatura da expressão “free on board” que signi�ca que o preço do produto não inclui as despesas até o local de destino, ou seja, o comprador se responsabiliza pelos riscos e custos referentes à retirada do produto. Nesse processo todo, é responsabilidade da Controladoria auxiliar as organizações com o levantamento dos custos, análise da lucratividade e 50687_MIOLO_Controladoria.indb 179 17/10/2016 10:35:05 Controladoria – 180 – rentabilidade históricas e previstas, bem como evidenciação dos impactos dos possíveis preços no resultado da companhia. Adicionalmente, a Controladoria pode auxiliar na preci�cação de produtos e serviços considerando e integrando em suas informações as visões econômica, de custos, concorrente e clientes. Ampliando seus Conhecimentos Definição de preço de mercadoria: impac- tos sobre o desempenho do canal logístico de outbond (RODRIGUEZ; JUNKES, 2004. Adaptado) A visualização além dos limites da organização e a compre- ensão de que todos os elementos da cadeia de valor são fundamentais passou a ser uma atividade imprescindível para o sucesso das empresas. Neste sentido, torna-se necessário avaliar até que ponto a implementação e utilização de ven- das em FOB ou CIF pode representar vantagens estratégicas e operacionais à organização. Assim, é importante decidir qual destes modelos pode oferecer vantagem competitiva e maior eficiência na operação do canal de distribuição com impactos justificáveis sobre as partes adjacentes ou imediatas na empresa e na cadeia. A literatura sobre a questão é bastante primária. Leenders e Fearon (1993) limitam-se a estabelecer que a alegação de que a compra em CIF seria sempre preferível, é incorreta, pois, em final de análise, a parcela referente ao transporte inserida no preço oferecido ao comprador está financiando o transporte realizado pelo vendedor. Bowersox e Closs (1996) expõem considerações sobre aspectos legais, tratando da esfera americana de transações, na utilização de um ou outro modelo, além de discutirem os impactos de esforços promocionais de preços sobre as 50687_MIOLO_Controladoria.indb 180 17/10/2016 10:35:05 – 181 – Preço de venda operações logísticas. Bowersox e Closs apud Cooke (1996) afirmam que “a compra FOB origem não é a melhor estra- tégia para todas as empresas. Algumas vezes, o vendedor pode obter fretes menores, porque pode garantir contratos com maior volume, nas empresas transportadoras”. Nickels e Wood (1997) e Armstrong e Kotler (1997) apresentam, predominantemente, perspectivas ligadas apenas à estratégia de marketing, seus impactos e benefícios, quando do ajusta- mento dos preços por um ou outro modelo. Parâmetros de avaliação Via de regra, a decisão sobre qual variante utilizar na opera- ção do canal de distribuição é bastante particularizada, por levar em consideração peculiares pontos. Os parâmetros de avaliação são: 2 Poder de persuasão e/ou autonomia dentro da cadeia para tomar tal decisão. 2 Valor agregado da mercadoria. 2 Estratégia mercadológica da organização. 2 Experiência logística da organização. 2 Abrangência e capilaridade regional do canal logístico. 2 Capacidade de alavancagem financeira ou de investi- mento próprio para investir na operação e/ou suportá-la.2 Aspectos legais e tributários pertinentes. O modelo de operação do canal de distribuição não tem necessariamente de ser único para toda a organização. A coe- xistência entre variantes é observada na prática empresarial, geralmente segmentada por diferentes famílias de produtos ou por canais com mercados diferenciados. Para maior entendi- mento sobre o tema, compete, ainda, concatenação de análi- ses mais direcionadas sobre os parâmetros. Seguem, portanto, algumas componentes de ponderação. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 181 17/10/2016 10:35:05 Controladoria – 182 – Considerações Tributárias e Financeiras Buscando uma análise sobre o aspecto financeiro, é interes- sante avaliar-se cuidadosamente os impactos para a organiza- ção de um ou outro modelo. Na operação em CIF, supondo o transporte rodoviário realizado por terceiros, do recebi- mento do conhecimento de embarque ao pagamento do frete, a exemplo do mercado brasileiro, a praxe é ter-se um ciclo de duração que flutue de um par de dias a quatro sema- nas. Entretanto, este período é usualmente transposto pelo horizonte facultado aos clientes nas vendas a crédito. Logo, a organização necessita suprir esta lacuna no fluxo de caixa, pois a conta relativa aos transportes é interna. O contraponto disso ocorre na operação FOB, em que esta conta é externa e transparente ao embarcador. Avaliando-se também o caso da operação em CIF com transporte próprio – ao invés de terceirizado – de mesmo modo, a atenção deve ser diligen- temente feita para o custo financeiro do suporte à operação, pois a descompatibilização nos horizontes de recebimento do faturado e de desembolso correspondente aos custos incorri- dos no transporte é, também, frequentemente negligenciada. Especificidades legais de cunho tributário ou não, obviamente, devem ser consideradas. Dependendo da esfera comercial em que se está transacionando, deve-se tomar em conta os por- menores da legislação em questão e avaliar os impactos rele- vantes. Ilustrando, para as circunstâncias brasileiras, no caso de ponderação isolada com relação às implicações tributárias, seguramente a decisão pela venda em FOB é mais vantajosa. Quando se vende em CIF a organização oferece o produto posto no destino, consequentemente o frete e indiretamente o seguro passam a ser componentes da fatura e, portanto, incorrem tributação incidente sobre a carga. Oposto do que ocorre na situação FOB, pois recaem sobre o frete somente as tributações ordinárias. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 182 17/10/2016 10:35:05 – 183 – Preço de venda Considerações sobre a Estratégia Mer- cadológica e Nível de Serviço Logístico A opção apropriada pela venda na condição CIF ou FOB deve servir aos interesses estratégicos da organização e respon- der qual a de melhor desempenho para o canal. Entretanto, com relação ao desempenho do canal, não se deve zelar tão-somente pela eficiência da operação, mas também pela eficácia no atendimento ao cliente. Sob tal aspecto, a ade- quada opção de ajuste de preço geográfico deve satisfazer as expectativas do cliente, dando margem ao oferecimento de condições sob as quais se obtenha contentamento do com- prador em grau suficiente para garantir a competitividade do produto. Para tanto, é interessante a reflexão de Nickels e Wood (1997), em que estes estabelecem dentre outros ele- mentos mercadológicos de balizamento, as preferências dos clientes e a maneira como os concorrentes tratam do ajuste de preços geográficos, para, então, ponderar sobre o apre- çamento geográfico a ser praticado. Uma prática que pode ser seguida é a de superar a expectativa do cliente no tocante ao nível de serviço, quando possível. Assim, pode-se utilizar o ajuste de preços geográficos como diferencial competitivo em favor da organização, de modo que o nível de serviço do canal logístico possa transformar-se em estratégia para a mais competitiva penetração em mercado de interesse inexplorado, ou, ainda, possa se traduzir em elemento de diferencial com- petitividade agregado ao produto podendo contribuir para possível fidelização do cliente. Contudo, o valor agregado da mercadoria pode afetar a intenção de implementação de determinadas estratégias de apreçamento geográfico. O custo de frete envolve maior parcela relativa na composição de cus- tos de mercadorias de baixo valor agregado. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 183 17/10/2016 10:35:05 Controladoria – 184 – Considerações sobre a Estrutura e Efi- ciência do Canal Logístico Com relação à eficiência operacional do canal, tratada iso- ladamente, advoga-se consideravelmente pela operação em CIF. A organização vendedora da mercadoria tem melhores condições de garantir contratos de maior volume para o frete (ou efetivamente realizar o frete), evitando a pulverização do mesmo por diversos contratos isolados – a contraponto do que provavelmente ocorreria na operação FOB. Contudo, adiantando-se ainda mais, neste ponto trata-se fundamen- talmente sobre o domínio do canal de distribuição, o que efetivamente viabiliza maior controle sobre o mesmo. Em con- trapartida, a administração e operação do canal demandam competências, investimentos e recursos, os quais têm de ser devidamente considerados. Entretanto, caso não se possua experiência logística, ou o canal logístico existente não ofereça a abrangência e a capilaridade demandada regionalmente, uma possibilidade a ser considerada como alternativa razoável é a terceirização desta atividade. No entanto, deve-se estar atento para o controle apropriado da prestação de serviço do terceiro por meio de consistente e contínua avaliação de desempenho do mesmo, a fim de zelar pelo desempenho especificado em termos de nível de serviço e custos do canal. Em final de análise, tem-se sob diagnóstico uma troca compen- satória de nível estratégico com relação à eficiência na opera- ção do canal e seu respectivo domínio. Mediante observa- ções e vivências da prática, o que se infere empiricamente é que esquemas logísticos mais sofisticados viabilizados pela venda em CIF apresentam redução de custos suficiente para que se justifiquem os maiores custos tributários e financeiros. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 184 17/10/2016 10:35:05 – 185 – Preço de venda Considerações sobre a Autonomia/ Poder de Persuasão dentro da Cadeia A decisão pelo modelo de operação da distribuição depende de elementos externos importantes, tais como as preferências dos clientes e a maneira como os concorrentes tratam a ques- tão. É conveniente ilustrar que compradores, comumente, acreditam ser mais vantajosa a compra em FOB – seja por estarem convencidos que possuem maior eficiência opera- cional ou por possuírem a impressão de que o fornecedor está oferecendo o produto com o valor do frete excessiva- mente dilatado. A posição de completa autonomia dentro da cadeia para tomar tal decisão é improvável. Entretanto, é sobre este ponto que nasce a recomendação para a realização de avaliações cuidadosas e criteriosas da situação, valendo-se da busca pela eficiência na própria organização, mas também da busca pela eficiência na cadeia. Pois, tendo como base tais avaliações, pode-se lançar mão de recursos de persuasão apropriadamente para demonstrar que o modelo de operação do canal de distribuição que se pretende é interessante em termos integrais para a cadeia. Em suma, o especialista logístico deve visualizar dentre suas ponderações quais são os benefí- cios e vantagens competitivas que podem ser extraídas para sua empresa, mas que não impliquem, por fim, em mais danos do que benefícios para a cadeia de forma integral. Atividades 1. Quais são os dois focos de atenção de uma organização na visão mer- cadológica de definição de preços e quais são as técnicas subjacentes a cada umdesses dois focos? Explique-as. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 185 17/10/2016 10:35:05 Controladoria – 186 – 2. O que são os princípios básicos da otimização e equilíbrio a serem analisados na visão econômica de precificação? O que caracterizam os conceitos da lei da procura (demanda), lei da oferta, elasticidade- -preço da demanda e estruturas de mercado? 3. Quais são as principais características da visão de custos no processo de formação de preços? Explique o que significam as expressões CIF e FOB. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 186 17/10/2016 10:35:05 Orçamento O orçamento é uma ferramenta gerencial que auxilia no con- trole e acompanhamento das atividades empresariais na busca do atendimento das metas estabelecidas pela organização. Contém as prioridades e as direções de� nidas pela administração, estabelecidas em termos de ações a realizar, recursos a serem obtidos e consumi- dos, prazos de realização das ações, bem como os respectivos respon- sáveis. Via de regra, no orçamento todos esses itens são de� nidos em termos de áreas. 9 50687_MIOLO_Controladoria.indb 187 17/10/2016 10:35:08 Controladoria – 188 – A Controladoria deve ser responsável pela organização de todo o pro- cesso orçamentário, conversando com as áreas e analisando as informações que devem ser colocadas no orçamento. Após a confecção do orçamento de cada uma das áreas, a Controladoria tem a incumbência de consolidar os diversos orçamentos das áreas, com o propósito de se obter o orçamento corporativo. Nesse processo, a Controladoria deve ter autonomia para nego- ciar rede�nições orçamentárias com as áreas, de modo que as de�nições das áreas estejam em consonância com o orçamento corporativo. Além disso, o acompanhamento da realização do orçamento, à luz do que foi orçado pela Controladoria, permite, entre outras coisas, avaliar o desempenho das ati- vidades e dos gestores e, caso este não seja satisfatório, medidas corretivas podem ser utilizadas. Neste capítulo as diversas peças que compõem o plano orçamentário são discutidas, além das formas de controle e análise das variações orçamentárias. 9.1 Processo orçamentário O processo orçamentário compreende as etapas necessárias para valo- rar, quantitativamente e monetariamente, os objetivos a serem atendidos pela entidade, constantes no planejamento empresarial. O passo inicial é enten- der qual a situação objetivada (onde a organização quer chegar). Logo em seguida, devem ser analisados os recursos disponíveis e os fatores externos que in�uenciam as suas atividades, conforme ilustra a �gura 1 a seguir. Figura 1 – Fluxo básico do processo orçamentário Situação desejada Recursos atuais Ambiente externo Cenários possíveis Melhor alternativa Orçamento financeiro Plano de vendas Plano de produção Plano de investimentos Plano de recursos humanos Plano de despesas Fonte: Elaborado pelos autores. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 188 17/10/2016 10:35:08 – 189 – Orçamento Com base no que se espera atingir nos recursos existentes e nos fatores ambientais, pode-se simular cenários possíveis que viabilizem o atendimento dos objetivos esperados. Cabe à Controladoria auxiliar a entidade na escolha do melhor cenário e incorporá-lo aos planos estratégico e operacional. Para isso, o orçamento �nanceiro deve conter as ações a serem realizadas para se atingir os objetivos, os recursos a serem obtidos e consumidos, os prazos de realização das ações, bem como os seus respectivos responsáveis. Para isso, o orçamento deve percorrer, no mínimo, as seguintes etapas na sua estruturação: 2 Plano de vendas. 2 Plano de produção. 2 Plano de investimentos. 2 Plano de recursos humanos. 2 Plano de despesas. 9.1.1 Plano de vendas O plano de vendas, ponto de partida de elaboração de todas as peças orçamentárias, representa a fonte de entrada de receitas, ou seja, parte dos recursos a serem obtidos saem desse plano. Normalmente, ocorre em bases anuais, detalhando-se metas com prazos mais curtos, mensais ou trimestrais, por exemplo. Às vezes, a projeção ultrapassa um ano, apresentando informa- ções mais generalizadas e ambições de longo prazo. Ambos os casos devem estar interligados, pois as metas de longo prazo devem ser operacionalizadas no curto prazo. O planejamento estratégico da organização deve dar a orientação da expectativa do plano de vendas. As metas estipuladas devem ser factíveis, de maneira que projeções extremamente agressivas ou conservadoras sejam evi- tadas. Uma análise nos valores históricos e a comunicação com os departa- mentos comercial e marketing podem fornecer subsídios na formulação das expectativas. Essa participação dos departamentos pode aumentar o compro- metimento dos próprios funcionários. A perspectiva do plano de vendas vai direcionar outros planos, como, por exemplo, auxiliando no cálculo do volume necessário de atividade no 50687_MIOLO_Controladoria.indb 189 17/10/2016 10:35:08 Controladoria – 190 – plano de produção e no plano de despesa na de�nição dos gastos com publi- cidade e propaganda. As principais informações necessárias para a elaboração desse plano, que serão base para a projeção do resultado, �uxo de caixa e balanço, são: 2 Produtos a serem vendidos. 2 Preço de venda bruto, à vista e a prazo. 2 Impostos sobre as vendas. 2 Prazo de realização da venda e do recebimento. 2 Volume de vendas. 2 Vendas por regiões ou clientes, se necessário. 9.1.2 Plano de produção Com base no volume do plano de vendas a organização pode calcu- lar o nível necessário de produção de bens e serviços, bem como estimar os volumes de estoques a serem produzidos, conforme a política de estocagem de�nida pela organização. As principais informações necessárias para a elabo- ração desse plano são: 2 Ciclo de produção. 2 Ciclo de estocagem. 2 Capacidade produtiva instalada. 2 Nível de utilização da capacidade (ou ociosidade). 2 Volumes a serem produzidos. 2 Tipos de armazenamento. No plano de produção deve-se levar em conta as condições atuais dos recursos disponibilizados, como, também, a melhoria da tecnologia envol- vida, como a utilização de treinamento e a atualização de processos. O obje- tivo principal é a otimização dos custos, levando em consideração as dife- rentes formas de gestão que possam contribuir para a melhoria do resultado, como atividades de escalonamento de compras, �loso�a Just-in-Time, análise do ciclo de vida dos produtos, controle de obsolescência etc. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 190 17/10/2016 10:35:08 – 191 – Orçamento Deve-se ressaltar que, juntamente do plano de produção devem ser des- tacados os planos referentes aos insumos dessa produção, de forma a se obter os custos de tais insumos, que farão parte dos custos de produção da organi- zação. Nesse plano de insumos devem ser destacados os seguintes itens: 2 Necessidade dos insumos. 2 Preços de compras dos insumos. 2 Impostos a recuperar. 2 Custos dos insumos. 2 Necessidades de estoques. 2 Modais de transporte dos insumos. 2 Tipos de armazenamento. 9.1.3 Plano de investimentos O plano de investimento formaliza as decisões de alocação de novos ati- vos permanentes que a empresa pretende fazer durante o período de execução do orçamento proposto. Pode-se a�rmar que são as aquisições que represen- tam benefício futuro para a empresa. Segundo Welsch (1996), os investimen- tos devem ser realizados de acordo com o plano dos projetos, considerando sua dimensão temporal. Essa consideração é de grande valia, pois auxilia no controle do �uxo de caixa, considerando a disponibilidade e a necessidade de capital no decorrer do tempo, como, também, as estimativas de entradas de recursos �nanceiros consideradasno plano de vendas. 9.1.4 Plano de recursos humanos O plano de recursos humanos consiste na previsão do quadro de fun- cionários; avalia a remuneração e benefícios e, consequentemente, o custo da empresa. As principais informações necessárias para a conclusão desse plano, que serão base para a projeção do resultado, �uxo de caixa e balanço, são: 2 Capacidade produtiva do funcionário. 2 Volume de atividades. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 191 17/10/2016 10:35:08 Controladoria – 192 – 2 Remuneração e benefícios. 2 Quantidade de funcionários. 2 Gastos com recrutamento, contratação, treinamentos e desligamentos. A de�nição da quantidade de funcionários deve ter correlação com o volume de atividade previsto no plano de vendas e produção. Para um controle mais e�caz, essa estimativa deve ser realizada por centro de responsabilidade, delegando as devidas responsabilidades. É importante que o plano de recursos humanos, no aspecto que trata das mensurações de valores, faça a separação dos mesmos em termos de custos (recursos humanos consumidos na produção) e despesas (recursos humanos utilizados fora do processo de produção). 9.1.5 Plano de despesas gerais Esse plano refere-se ao planejamento dos custos e despesas de cada cen- tro de responsabilidade da organização, devendo estar interligado com todos os outros planos. Ele subdivide-se em três planos. Num primeiro momento devem ser estimados todos os demais custos de produção, além dos custos com os insumos (materiais) e com a mão de obra (recursos humanos). É comum denominar esse plano de custos indiretos de fabricação, o qual contempla os valores com manutenção preventiva e corre- tiva das máquinas e equipamentos da produção, depreciação destas, energia elétrica da fábrica, aluguel etc. Vale lembrar que os valores dos planos de custos de insumos (constante no plano de produção), somados com os do plano de recursos humanos e custos indiretos de fabricação, formam o custo da produção planejado pela empresa. O plano de despesas gerais, por sua vez, é semelhante ao plano de cus- tos gerais, com a diferença de estimar os valores a serem consumidos pela empresa nas atividades fora do processo de produção, como, por exemplo: despesas com viagens e consultorias, manutenção preventiva e corretiva dos equipamentos administrativos, energia elétrica da área administrativa, alu- guéis, depreciação e amortização, seguros etc. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 192 17/10/2016 10:35:08 – 193 – Orçamento Finalmente, o plano de despesas comerciais detalha os valores a serem consumidos pela organização com as atividades comerciais, envolvendo gas- tos com propaganda e publicidade, comissões sobre vendas, fretes para entre- gas de produtos, além de outros que se �zerem necessários. Esse plano está estritamente relacionado com o plano de vendas. 9.2 Controle orçamentário e análise de variações Um passo importante para o sucesso da utilização do orçamento é o acompanhamento contínuo. A comparação dos valores estimados com os reais, periodicamente, deve ser fonte de análise para detecção e correção de desvios, bem como para a avaliação do desempenho das áreas e gestores. Figura 2 – Fluxo de acompanhamento do orçamento Planejamento estratégico Controle (real x orçado) Avaliação de desempenho Objetivo a curto prazo Orçamento Execução Objetivo a longo prazo F ee db ac k Fonte: Elaborado pelos autores. Segundo Pereira (in CATELLI, 2001, p. 253), “o controle exige a cor- reção de eventuais desvios, que requerem o levantamento de alternativas de solução”; para esse propósito é fundamental o conhecimento das razões que motivaram tais eventos, de forma analítica, a �m de se atuar efetivamente sobre suas origens. Para esse controle, propõe-se um modelo orçamentário 50687_MIOLO_Controladoria.indb 193 17/10/2016 10:35:08 Controladoria – 194 – que vise identi�car os diversos tipos de variações, nos diversos momentos que compõem o processo orçamentário, podendo ser, inclusive, antes do orça- mento entrar em execução. Para �ns didáticos, utiliza-se um exemplo ilus- trando um modelo orçamentário simpli�cado. Exemplo: A empresa X efetuou um planejamento estratégico e, com base nas suas diretrizes, projetou algumas informações necessárias para abertura de uma nova �lial: Tabela 1 – Informações sobre o planejamento Custos fixos $7.500 Despesas administrativas $2.350 Despesas comerciais fixas $2.000 Despesas financeiras $1.530 Produto 1 (P1) Produto 2 (P2) Custo variável padrão dos produtos $8 $23 Volume de produção e de venda 1.250 unidades 1.500 unidades Preço de venda previsto $22 $35 Impostos e despesas variáveis 20% sobre a receita 17% sobre a receita Fonte: Elaborado pelos autores. Perto da execução do planejamento, uma nova tecnologia foi descoberta e fez com que o processo de produção do produto P1 tivesse um rendimento nos custos variáveis de cerca de 10%. Adicionalmente, no início do período veri�cou-se que os preços dos recursos sofreram alteração conforme pode ser veri�cado na tabela 2. No �nal do período, a Controladoria, responsável pela apuração do resul- tado do exercício, divulgou os números re�etindo o desempenho operacional: 50687_MIOLO_Controladoria.indb 194 17/10/2016 10:35:08 – 195 – Orçamento Tabela 2 – Informações sobre a realização Custos fixos $7.920 Despesas administrativas $2.800 Despesas comerciais fixas $1.980 Despesas financeiras $1.670 Total do custo variável realmente consumido (Produto 1 + Produto 2) $42.180 Produto 1 (P1) Produto 2 Volume de produção e de venda 1.100 unidades 1.345 unidades Preço do custo variável dos produtos $9 $24 Preço de venda praticado $20 $36 Impostos e despesas variáveis 20% sobre a receita 17% sobre a receita Fonte: Elaborado pelos autores. 9.2.1 Orçamento original O orçamento original re�ete o primeiro planejamento efetuado por meio de volumes previstos, índices e valores padrões e com base nas informa- ções iniciais (tabela 1). Tabela 3 – Orçamento original da empresa X Orçamento Original (A) P1 P2 Total Receita 27.500 52.500 80.000 Impostos e despesas variáveis (5.500) (8.925) (14.425) Custos variáveis (10.000) (34.500) (44.500) Margem de contribuição 12.000 9.075 21.075 Custos fixos (7.500) Despesas administrativas (2.350) 50687_MIOLO_Controladoria.indb 195 17/10/2016 10:35:08 Controladoria – 196 – Orçamento Original (A) P1 P2 Total Despesas comerciais (2.000) Despesas financeiras (1.530) Resultado 7.695 Fonte: Elaborado pelos autores. A receita foi obtida pela multiplicação das quantidades vendidas de cada produto pelo seu preço de venda P1 = $22 x 1.250 = $27.500 P2 = $35 x 1.500 = $52.500 A despesa variável foi calculada com o percentual de 20% sobre a receita de P1 = $5.500 17% sobre a receita de P2 = $8.925 Totalizando o valor de $14.425 O custo variável se deu pela multiplicação das quantidades produzidas e vendidas de cada produto pelo seu custo variável P1 = $8 x 1.250 = $10.000 P2 = $23 x 1.500 = $34.500 Os custos e despesas estruturais foram dados no início do exercício. Desse modo o resultado esperado para a nova �lial é de $7.695. 9.2.2 Orçamento corrigido O orçamento corrigido contempla a adequação do orçamento original à época da execução; atualizam-se os valores contemplados no orçamento original pelos preços vigentes próximos à época de execução. É importante notar que nessa etapa não são consideradas as alterações de volume. Ou seja, uti- lizam-se os volumes de produção e venda orçados, porém, os preços de custo variável dos produtos e os preços realizados. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 196 17/10/2016 10:35:08 – 197 – Orçamento Tabela 4 – Orçamentocorrigido da empresa X Orçado Custos fixos $7.500 Despesas administrativas $2.350 Despesas comerciais fixas $2.000 Despesas financeiras $1.530 Produto 1 (P1) Produto 2 (P2) Custo variável padrão dos produtos $8 $23 Volume de produção de venda 1.250 unidades 1.500 unidades Preços previstos $22 $35 Despesas variáveis 20% sobre a receita 17% sobre a receita ↓ Realizado Custos fixos $7.920 Despesas administrativas $2.800 Despesas comerciais fixas $1.980 Despesas financeiras $1.670 Total do custo variável realmente consumido (Produto 1 + Produto 2) $42.180 Produto 1 (P1) Produto 2 (P2) Volume de produção de venda 1.100 unidades 1.345 unidades Preço do custo variável dos produtos $9 $24 Preços efetuados $20 $36 Despesas variáveis 20% sobre a receita 17% sobre a receita Orçamento Corrigido (B) Receita 79.000 Desp. variável (14.180) Custo variável (47.250) Margem de contribuição 17.570 Custo fixo (7.500) Desp. adm. (2.350) 50687_MIOLO_Controladoria.indb 197 17/10/2016 10:35:08 Controladoria – 198 – Orçamento Corrigido (B) Desp. com. (2.000) Desp. financ. (1.530) Resultado 4.190 Fonte: Elaborado pelos autores. O preço de venda para ambos os produtos alterou-se. O P1 passou a $20 e o P2 a $36. Desse modo, a multiplicação das quantidades de venda planeja- das de cada produto (orçado) pelo seu preço de venda atualizado à época do início da execução do orçamento altera o valor da receita para $79.000, pois: P1 = $20 x 1.250 = $25.000 P2 = $36 x 1.500 = $54.000 A despesa variável aumentou proporcionalmente ao aumento de receita, assim, P1, $5.000, e P2, $9.180, totalizando o valor de $14.180. O custo variável se deu pela multiplicação das quantidades produzidas de cada pro- duto pelo seu custo variável corrigido. P1 = $9 x 1.250 = $11.250 P2 = $24 x 1.500 = $36.000 Veri�que que os volumes de vendas esperados não se modi�caram. Assim, percebe-se que perto da execução dos planos, o resultado esperado é de $4.190. 9.2.3 Orçamento ajustado O orçamento ajustado re�ete a adequação do orçamento corrigido, contem- plando alterações no plano original. Considerou-se que uma descoberta tecnoló- gica ocorreu fazendo com que o consumo de custos variáveis de P1 tivesse uma perspectiva de rendimento na casa dos 10%. Desse modo, houve uma diminui- ção da perspectiva de consumo de custos variáveis; assim, deve-se ajustar o orça- mento nessa proporção. O custo variável de P1, que estava em $11.250, passou a ser estimado em $10.125 (11.250 – 10%), alterando o custo variável total de $47.250 para $46.125, conforme demonstrado na tabela de orçamento ajustado. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 198 17/10/2016 10:35:08 – 199 – Orçamento Tabela 5 – Orçamento ajustado da empresa X Orçamento Original (C) P1 P2 Total Receita 25.000 54.000 79.000 Impostos e despesas variáveis (5.000) (9.180) (14.180) Custos variáveis (10.125) (36.000) (46.125) Margem de contribuição 9.875 (8.820) 18.695 Custos fixos (7.500) Despesas administrativas (2.350) Despesas comerciais (2.000) Despesas financeiras (1.530) Resultado 5.315 Fonte: Elaborado pelos autores. 9.2.4 Realizado padrão O realizado padrão é a adequação do orçamento ajustado aos níveis reais de atividade (resultados que deveriam ocorrer dentro do novo nível de ativi- dade efetivamente). O volume de produção e vendas real foi de 1.100 unida- des de P1 e 1.345 de P2. Desse modo, alteram-se a receita total para $70.420. P1 = $20 x 1100 = $22.000 P2 = $36 x 1345 = $48.420 O custo variável alterou-se para $41.190 P1 = $8,10 x 1100 = $8.910 P2 = $24 x 1345 = $32.2801 1 O resultado de P1 é a multiplicação de 1.100 (unidades) por $9, que representa o valor do custo corrigido de $10 considerando o ganho de 10% da tecnologia. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 199 17/10/2016 10:35:08 Controladoria – 200 – E as despesas variáveis totais para $12.631 (P1 = $4.400 e P2 = $8.231), como demonstra a tabela 6. Tabela 6 – Realizado a padrão da empresa X Orçado Custos fixos $7.500 Despesas administrativas $2.350 Despesas comerciais fixas $2.000 Despesas financeiras $1.530 Produto 1 (P1) Produto 2 (P2) Custo variável padrão dos produtos $8 $23 Volume de produção de venda 1.250 unidades 1.500 unidades Preços previstos $22 $35 Despesas variáveis 20% sobre a receita 17% sobre a receita ↓ Realizado Custos fixos $7.920 Despesas administrativas $2.800 Despesas comerciais fixas $1.980 Despesas financeiras $1.670 Total do custo variável realmente consumido (Produto 1 + Produto 2) $42.180 Produto 1 (P1) Produto 2 (P2) Volume de produção e venda 1.100 unidades 1.345 unidades Preço do custo variável dos produtos $9 $24 Preços efetuados $20 $36 Despesas variáveis 20% sobre a receita 17% sobre a receita Realizado Padrão (D) Receita 70.420 Desp. variável (12.631) Custo variável (41.190) 50687_MIOLO_Controladoria.indb 200 17/10/2016 10:35:08 – 201 – Orçamento Margem de contribuição 16.599 Custo fixo (7.500) Desp. adm (2.350) Desp. com. (2.000) Desp. financ. (1.530) Resultado 3.219 Fonte: Elaborado pelos autores. 9.2.5 Realizado real Veri�ca-se, nesse exemplo, que o consumo real de custo variável para o produto P1 foi de $9 e para P2 $24 e que houve alteração na estrutura �xa: custos �xos de produção: $7.920, despesas administrativas: $2.800, despesas comerciais �xas: $1.980 e despesas �nanceiras: $1.670. Observe, igualmente, que os preços de venda são diferentes daquele do início do período orçamen- tário (P1 mudou de $21 para $20 e P2 mudou de $35 para $36). Desse modo o resultado real da empresa foi de $1.239, como mostra a tabela 7. Tabela 7 – Realizado real da empresa X Realizado Real (E) Receita 70.420 Despesa variável (12.631) Custo variável (42.180) Margem de contribuição 15.609 Custo fixo (7.920) Desp. adm (2.800) Desp. com. (1.980) Desp. financ. (1.670) Resultado 1.239 Fonte: Elaborado pelos autores. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 201 17/10/2016 10:35:08 Controladoria – 202 – 9.2.6 Análise das variações Consolidando todo o modelo orçamentário proposto, a organização poderá analisar as variações ocorridas do planejamento original de resultado de $7.695 (Tabela 3) para um lucro �nal realizado de $1.239, ou seja, a �lial não conseguiu fechar sua meta numa diferença de $6.456. Tabela 8 – Demonstração das variações Orçamentos Original Corrig. Ajust. R. Padrão R. Real (A) (B) (C) (D) (E) Receita 80.000 79.000 79.000 70.420 70.420 Impostos e despesas variáveis (14.425) (14.180) (14.180) (12.631) (12.631) Custos variáveis (44.500) (47.250) (46.125) (41.190) (42.180) Margem de contribuição 21.075 17.570 18.695 16.599 15.609 Custos fixos (7.500) (7.500) (7.500) (7.500) (7.920) Despesas administrativas (2.350) (2.350) (2.350) (2.350) (2.800) Despesas comerciais (2.000) (2.000) (2.000) (2.000) (1.980) Despesas financeiras (1.530) (1.530) (1.530) (1.530) (1.670) Resultado 7.695 4.190 5.315 3.219 1.239 Variações Inflação Planos Volume Eficiência Total (B) - (A) (C) - (B) (D) - (C) (E) - (D) Receita (1.000) - (8.580) - (9.580) Impostos e despesas variáveis 245 - (1.549) - 1.794 Custos variáveis (2.750) 1.125 4.935 (990) 2.320 Margem de contribuição (3.505) 1.125 (2.096) (990) (5.466) Custos fixos - - - (420) (420) Despesas administrativas - - - (450) (450) Despesas comerciais - - - 20 20 Despesas financeiras - - - (140) (140) Resultado (3.505) 1.125 (2.096) (1.980) (6.456) Fonte: Elaborado pelos autores. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 202 17/10/2016 10:35:08 – 203 – Orçamento Ao se analisar a diferença entre o orçamento original e o orçamento cor- rigido (B – A), veri�ca-se o que aconteceu em termos de in�ação do período em que o orçamento foi elaborado até o início da sua execução. Nocaso em questão, a in�ação aumentou o valor de custos mais do que o valor das receitas, fazendo com que a margem de contribuição se reduzisse em $3.505. A variação do orçamento corrigido para o orçamento ajustado (C – B) espelha as diferenças dos planos da empresa. No caso exempli�cativo a altera- ção tecnológica no sistema produtivo gerou um ganho de e�ciência no pro- duto P1 valorizado em $1.125. Os valores realizados padrão menos o orçamento ajustado resultam na diferença de volume (D – C). Em razão da queda do volume produzido e vendido, a empresa teve que arcar com uma queda em sua margem de con- tribuição de $2.096. Nessa etapa, a organização deveria veri�car a real causa dessa queda de volume. A última etapa da análise é a identi�cação da real e�ciência expressando a variação de quantidade entre os recursos utilizados e os que deveriam ser consumidos de acordo com o padrão, já ajustado pelos preços corrigidos na época do início da execução orçamentária, bem como pela mudança tecno- lógica. Portanto, ao se comparar o orçamento padrão ao nível de atividade real (D) com o efetivamente realizado (E), percebe-se que a empresa utilizou seus recursos de maneira menos apropriada, proporcionando uma redução na margem de contribuição na ordem de $990. Adicionalmente, os custos e des- pesas estruturais e �nanceiros (soma das despesas administrativas, comerciais e �nanceiras) contribuíram negativamente, uma vez que tiveram elevação total no período na ordem de $570. Agora, a Controladoria poderia reportar as variações com base no modelo orçamentário e ir tentando explicar cada uma delas para a tomada de decisão da diretoria executiva, apontando, sempre que possível, medidas corretivas a serem implementadas. 9.3 Resumo O orçamento é uma ferramenta gerencial que auxilia no controle e acom- panhamento das atividades na busca do atendimento das metas estabelecidas 50687_MIOLO_Controladoria.indb 203 17/10/2016 10:35:08 Controladoria – 204 – pela organização. Contém as prioridades e as direções de�nidas pela admi- nistração da entidade, estabelecidas em termos de ações a realizar, recursos a serem obtidos e consumidos, prazos de realização das ações, bem como os respectivos responsáveis. O processo orçamentário compreende as etapas necessárias para valo- rar, quantitativamente e monetariamente, os objetivos a serem atendidos pela entidade. O passo inicial é entender qual a situação objetivada pela organi- zação. Diante da situação objetivada pela empresa, seus recursos atuais e as variáveis ambientais, é possível a criação de cenários viáveis no atendimento das expectativas dos proprietários. Com os dados em mãos, deve-se formalizar os seguintes planos para o processo orçamentário: 2 Plano de vendas – representa a fonte de entrada de receitas, ou seja, os recursos a serem obtidos pela organização mediante a venda de seus produtos e serviços. 2 Plano de produção – utilizado para calcular o nível necessário de produção de bens e serviços, com vistas a atender o plano de vendas e as políticas de estoques da organização, bem como os custos com os insumos (materiais) utilizados na produção. 2 Plano de investimentos – formaliza as decisões de alocação do dinheiro em ativo permanente que a empresa pretende fazer durante o período de execução do orçamento proposto. 2 Plano de recursos humanos – consiste na previsão do quadro de funcionários, na avaliação da remuneração e benefícios fornecidos, bem como na composição dos custos e despesas com pessoal. 2 Plano de custos gerais, de despesas gerais e de despesas comerciais – refere-se ao planejamento de custos e despesas de cada setor e centro de responsabilidade da organização, detalhando os custos indiretos de fabricação, as despesas gerais administrativas e as despesas relati- vas às vendas. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 204 17/10/2016 10:35:08 – 205 – Orçamento Um passo importante para o sucesso da utilização do orçamento é o acompanhamento dele. A comparação dos valores estimados com os reais, periodicamente, deve ser fonte de análise para detecção e correção de desvios, bem como para a avaliação do desempenho das áreas e gestores. Para esse controle, propõe-se um modelo orçamentário que visa identi�car os diversos tipos de variações nos diversos momentos que compõem o processo orça- mentário. Esse modelo utiliza as seguintes ferramentas: orçamento original; orçamento corrigido; orçamento ajustado; realizado padrão; realizado real; e análise das variações. A diferença entre o orçamento original e o orçamento corrigido mede as variações em termos de in�ação do período em que o orçamento foi ela- borado até o início da sua execução. A diferença entre o orçamento corrigido e o orçamento ajustado espelha as variações orçamentárias decorrentes das mudanças dos planos da empresa. A diferença entre os valores constantes do realizado padrão e o orçamento ajustado mostram as variações decorrentes da diferença de volume. A diferença entre o realizado padrão e o realizado real identi�cam a real e�ciência expressando a variação de quantidade entre os recursos utilizados e os que deveriam ser consumidos de acordo com o padrão, já ajustados pelos preços corrigidos na época do início da execução orçamentária, bem como nas mudanças de planos. A Controladoria deve ser responsável pela organização de todo o pro- cesso orçamentário, conversando com as áreas e analisando as informações que devem ser colocadas no orçamento. A Controladoria também tem a incumbência de consolidar os diversos orçamentos das áreas, com o propósito de se obter o orçamento corporativo, devendo ter autonomia para negociar rede�nições orçamentárias com as áreas, de modo que as de�nições das áreas estejam em consonância com o orçamento corporativo. Cabe, igualmente, à Controladoria o acompanhamento da realização do orçamento e, à luz do que foi orçado, avaliar o desempenho das atividades e dos gestores e, caso este não seja satisfatório, medidas corretivas podem ser utilizadas. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 205 17/10/2016 10:35:08 Controladoria – 206 – Ampliando seus conhecimentos Os dez erros mais comuns na fase inicial das pequenas empresas (SOBANSKI, 1994) Pode se supor, erroneamente, que somente as grandes empre- sas necessitam de planejamento e controle. No entanto, milhares de pequenas organizações fecham suas portas anual- mente. A publicação Management Review, após ouvir empre- sários, consultores e investidores financeiros em empresas, elenca os seguintes 10 erros mais comuns na fase inicial das pequenas empresas. 1. Desprover-se de dinheiro, por não ter estimado adequa- damente as saídas de caixa da organização. É importante determinar previamente e com relativa precisão onde o dinheiro deve ser gasto e onde não deve. 2. Não dispor de um plano para a empresa. 3. Não fazer uma prévia pesquisa de mercado sobre as potencialidades do produto, dos competidores e dos distribuidores. 4. Não ter encontrado um nicho no mercado. É importante que o produto ou serviço a oferecer seja diferenciado. 5. Não obter auxílio; não reconhecer suas próprias fraque- zas e desprezar a assistência de administradores compe- tentes, rigorosamente selecionados. 6. Rapidez em admitir, lentidão ao demitir. Mesmo uma única pessoa fraca na equipe inicial pode comprometer todo o projeto. 7. Não conhecer os verdadeiros níveis das despesas. Não dedicar tempo para sentar-se e responder “Quanto 50687_MIOLO_Controladoria.indb 206 17/10/2016 10:35:09 – 207 – Orçamento obteremos de receitas nos próximos seis meses, um ano e dois anos? Quais serão os níveis reais de despesas?” 8. Não manter os investidores (sócios, bancos) informados sobre seu progresso ou falta de sucesso; isto requer que o próprio empresáriosaiba a quantas a empresa anda. 9. Não manter altos padrões, inclusive os de qualidade. Se a empresa promete que entrega algo, deve entregar o que promete. 10. Não conseguir fazer rapidamente uma clientela. Achar que o produto se venderá por si próprio. Observe que o texto de Sobanski é de 1994, mas continua sendo atual, uma vez que boa parte das razões de insuces- sos das pequenas empresas continuam sendo as mesmas. Adicionalmente, perceba que as quatro primeiras razões enu- meradas por Sobanski, assim como a sétima, estão totalmente atreladas à existência de um adequado processo de planeja- mento e orçamento. * Nota dos autores *. Atividades 1. O que é orçamento, o que ele contém, quais são os principais planos que o integram e qual o papel da Controladoria no processo orçamentário? 2. Defina cada um dos planos que compõem o orçamento e explique as informações pertinentes a cada um deles. 3. No processo de controle e análise de variações são utilizados vários tipos de orçamentos. Explique cada um deles. Em seguida, diga quais são as variações que se pode encontrar pela comparação de cada um deles. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 207 17/10/2016 10:35:09 50687_MIOLO_Controladoria.indb 208 17/10/2016 10:35:09 Governança corporativa A governança corporativa é um conjunto de mecanismos que garante que o comportamento da organização esteja de acordo com os interesses dos acionistas. A expressão governança corpora- tiva tem sido amplamente utilizada nas empresas de capital aberto, sendo cada vez mais recorrente na pauta de gestão das empresas de classe mundial. É um tema tão essencial das companhias na atuali- dade que Carlsson (2001) chega a sugerir que, se o século XIX foi a era dos empreendedores, o século XX foi a era do gerenciamento e o século XXI será a era da governança corporativa. Esta aula tem como objetivo principal apresentar e justi� - car aos pro� ssionais de Controladoria a importância da governança corporativa no desenvolvimento de boas práticas de gestão para um ambiente de negócios que leva em conta um modelo de dis- tribuição do poder. Como será notado no decorrer deste capítulo, a Controladoria pode contribuir para uma gestão de riscos, para a proteção dos valores da companhia e para a maximização dos lucros. 10 50687_MIOLO_Controladoria.indb 209 17/10/2016 10:35:11 Controladoria – 210 – 10.1 Conflitos de agência Pode-se dizer que a governança corporativa surgiu para superar os “con- �itos de agência” decorrentes da separação entre a propriedade e a gestão empresarial. Nessa situação, o proprietário (principal) delega a um gestor (agente) o poder de decisão sobre sua entidade. No entanto, os interesses do gestor nem sempre estão alinhados com os do dono, resultando em um con- �ito de agência (ou con�ito agente-principal). A teoria da agência se interessa pelas relações bilaterais entre o principal (proprietário) e o agente (gestor), na qual três condições necessárias se fazem presentes: 2 O agente, que detém o controle sobre os ativos da �rma, pode se comportar de diversas maneiras. 2 A ação do agente pode afetar seu próprio bem-estar (estabilidade e crescimento na empresa) e a situação do principal (valorização das ações e dos dividendos). 2 A ação do agente é de difícil acompanhamento pelo principal, podendo gerar assimetria informacional entre as partes. Segundo Jensen e Meckling (1976), uma relação de agência é um con- trato sob o qual um ou mais indivíduos (o principal) encarrega outro indi- víduo (o agente) a realizar algum tipo de serviço envolvendo delegação de poder de autoridade decisória. Se ambas as partes na relação comportam-se como maximizadoras de sua utilidade, então, na medida em que essas utili- dades não são coincidentes, ou seja, não há congruência de objetivos, existem razões para acreditar-se que o agente nem sempre vai agir no melhor interesse do principal. Um exemplo de con�ito de agência pode ser percebido quando um ges- tor possui participação nos resultados da companhia (bônus). Nesse caso, suponha que o bônus está atrelado, única e exclusivamente, ao lucro, de forma que, quanto maior for o lucro da companhia, maior será o bônus do gestor. Assim sendo, o gestor tem como objetivo maximizar os lucros da companhia, mesmo que para isso seja necessário sacri�car ativos de forma inadequada, vender sem garantia de recebimento (inadimplência) ou deixar de atentar para a qualidade dos produtos. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 210 17/10/2016 10:35:11 – 211 – Governança corporativa Diante desse contexto, o cerne da questão é: como estabelecer um sis- tema de monitoramento e incentivo adequado de modo que os gestores administrem considerando o interesse dos proprietários e não seu próprio interesse? Assim, a governança corporativa tem o papel de instituir mecanis- mos que regulem as ações dos administradores, com o intuito de se reduzir os con�itos de agência. 10.2 A governança corporativa O Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) de�ne que a governança corporativa “[...] é o sistema pelo qual as sociedades são dirigidas e monitoradas envolvendo os relacionamentos entre acionistas/cotistas, con- selho de administração, diretoria, auditoria independente e conselho �scal.” Pode ser entendida, portanto, como um conjunto de mecanismos que tentam garantir o alinhamento do comportamento dos executivos com os interesses dos proprietários. Esses mecanismos podem ser segregados em dois tipos: 2 Mecanismos disciplinadores – são instrumentos que regram, criam obrigações, que conduzem e regem o relacionamento entre prin- cipal e agente, monitorando as atividades dos administradores. A auditoria externa é um exemplo desse tipo de mecanismo. 2 Mecanismos incentivadores – são instrumentos que grati�cam, utili- zados posteriormente ao alcance de metas, para premiar e remune- rar pelo objetivo alcançado. A concessão de opções de ações é um exemplo desse tipo de mecanismo. Assim a governança corporativa constitui-se numa estrutura de práticas que tem por propósito aumentar o valor da sociedade, auxiliar seu acesso ao capital, otimizar o desempenho da companhia, promovendo proteção aos investidores, empregados e credores, como prevê o IBGC. Nos Estados Unidos, um estudo desenvolvido em 2004 veri�cou as consequências positivas de uma boa governança corporativa ao longo de dez anos: companhias com baixo grau de governança corporativa tiveram mar- gens líquidas de lucro 6,38% abaixo da média obtida pelas empresas de seu 50687_MIOLO_Controladoria.indb 211 17/10/2016 10:35:11 Controladoria – 212 – setor de atuação; ao mesmo tempo, aquelas cujos procedimentos correspon- deram ao alto grau de governança corporativa tiveram margens líquidas de lucro 21,66% acima da média (FACCO, 2005). 10.2.1 A governança corporativa no mundo e no Brasil Diversos investidores de países desenvolvidos estão querendo investir em países emergentes, mas exigem que sejam adotados códigos estruturados de proteção aos seus investimentos. Lodi (2000, p. 17) a�rma que os investido- res externos veem na adoção desses códigos um início de garantia de probi- dade, transparência e respeito às leis, valorizando seus investimentos. Em 1992, na Inglaterra, foi publicado o Relatório Cadbury, que, de acordo com o IBGC, é considerado o primeiro código de boas práticas de governança corporativa como resposta aos escândalos registrados no mercado corporativo e �nanceiro no país no �nal dos anos 80. Na década de noventa, segundo o IBGC, em um movimento iniciado principalmente nos Estados Unidos, os acionistas identi�caram a necessidade de criar novas regras que os protegessem das violações da diretoria execu- tiva das empresas, da omissão de conselhos de administração e das falhas das auditoriasexternas. Assim, a governança corporativa passou a ser introduzida nos negócios daquele país por meio do envolvimento de alguns dos maiores líderes mundiais da iniciativa privada. Um fato que marca a prática da governança corporativa nos Estados Unidos é a entrada em vigor da Lei Sarbanes-Oxley (SOX), promulgada em 2002, após os escândalos das empresas Enron e Worldcom. No Brasil, para auxiliar as empresas nacionais na de�nição de estratégias frente aos desa�os do ambiente globalizado, foi criado, em 1995, o Instituto Brasileiro de Conselheiros de Administração (IBCA), que, a partir de 1999, tornou-se o atual Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), instituição dedicada a desenvolver soluções sobre governança corporativa. Pelos depoimentos de proprietários, acionistas e agentes de mercados, bem como pela observação do disclosure1 das companhias, é possível perceber 1 Dar a conhecer os riscos, benefícios, desconfortos e implicações econômicas de procedimen- tos assistenciais ou experimentais, com o objetivo de que as pessoas tomem decisões devida- 50687_MIOLO_Controladoria.indb 212 17/10/2016 10:35:11 – 213 – Governança corporativa que a prática de boa governança corporativa vem crescendo no país, inclusive em empresas de menor porte. Diversos fatores impulsionam o avanço dessas práticas de governança, podendo-se destacar os seguintes: 2 Aumento da competitividade entre as organizações. 2 Mudanças na legislação. 2 Necessidade de captar �nanciamento estrangeiro. 2 Inexperiência das novas gerações que vêm assumindo os negócios da família. 2 Tendência de pro�ssionalização das empresas. 2 Mudanças na estrutura societária das empresas. 2 Aumento de investimentos de capital estrangeiro. Como auxílio para adotar as boas práticas de governança no Brasil, o IBCG publicou, em 1999, o primeiro “Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa”, com informações sobre o conselho de adminis- tração e suas condutas. Nas versões seguintes, os princípios básicos da boa governança foram mais desenvolvidos e especi�cados. Em dezembro de 2000, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) criou três segmentos especiais de listagem para empresas com padrões de gover- nança corporativa, além do mercado tradicional: nível 1, nível 2 e novo mer- cado. Esses segmentos visam à negociação de ações emitidas por companhias que se comprometem voluntariamente com a adesão das práticas de gover- nança corporativa. De acordo com o IBCG “[...] o segmento de nível 1 caracteriza-se por exigir práticas adicionais de liquidez das ações e evidenciação das demonstra- ções (disclosure)”. A maior parte dos compromissos que as empresas do nível 1 assumem perante os investidores refere-se ao fornecimento de informações que auxiliam na avaliação sobre o valor da empresa. Além disso, a empresa do nível 1 não deve ter partes bene�ciárias. Já o nível 2 “[...] tem por obrigação práticas adicionais relativas aos direi- tos dos acionistas e conselho de administração”, segundo o IBGC (2009). A mente esclarecidas, dentro do processo de Consentimento Informado. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 213 17/10/2016 10:35:11 Controladoria – 214 – principal diferença entre o novo mercado e o nível 2 refere-se à emissão de ações preferenciais, que nesse nível é permitido. Além das regras de transpa- rência e dispersão acionária exigidas no nível 1, contempla, também, as de equilíbrio de direitos entre acionistas controladores e minoritários. O novo mercado, por �m, diferencia-se do nível 2 pela exigência para emissão exclusiva de ações com direito a voto. Esses dois últimos segmentos “[...] apresentam como resultado esperado a redução das incertezas no processo de avaliação, investimento e de risco; o aumento de investidores interessados; e, consequentemente, o fortalecimento do mercado acionário. Portanto, resultados que trazem benefícios para inves- tidores, empresa, mercado e Brasil”, conforme prega o IBGC (2009). A preocupação crescente das empresas brasileiras com procedimentos de governança corporativa segue uma tendência mundial, na medida em que as organizações percebem a associação direta entre fatores como a transparência e a rentabilidade da corporação. De acordo com o IBGC, no Brasil já existe o Índice de Governança Corporativa (IGC), criado pela Bovespa, cujo objetivo é medir o desempenho de uma carteira composta por ações de empresas que apresentem bons níveis de governança; esse indicador quanti�ca as conse- quências positivas de uma governança corporativa adequada. Apesar da crescente necessidade de adotar boas práticas de governança corporativa, o IBCG (2009) salienta que “o Brasil ainda se caracteriza pela alta concentração do controle acionário, pela baixa efetividade dos conselhos de administração e pela alta sobreposição entre propriedade e gestão, o que demonstra vasto campo para o conhecimento, ações e divulgação dos precei- tos da governança corporativa”. 10.2.2 Boas práticas As principais ferramentas das boas práticas de governança corporativa e que asseguram o controle da propriedade sobre a gestão, minimizando o con�ito de agência entre os proprietários e a diretoria executiva, são os que se seguem. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 214 17/10/2016 10:35:11 – 215 – Governança corporativa 10.2.2.1 Conselho de administração Pode ser de�nido como o conjunto dos representantes dos proprietários. Segundo a Lei 6.404/76 (Lei das Sociedades por ações) e suas alterações, artigo 142, Art. 142. Compete ao conselho de administração: I - �xar a orientação geral dos negócios da companhia; II - eleger e destituir os diretores da companhia e �xar-lhes as atribui- ções, observado o que a respeito dispuser o estatuto; III - �scalizar a gestão dos diretores, examinar, a qualquer tempo, os livros e papéis da companhia, solicitar informações sobre contratos celebrados ou em via de celebração, e quaisquer outros atos; IV - convocar a assembleia-geral quando julgar conveniente [...]; V - manifestar-se sobre o relatório da administração e as contas da diretoria; VI - manifestar-se previamente sobre atos ou contratos, quando o estatuto assim o exigir; VII - deliberar, quando autorizado pelo estatuto, sobre a emissão de ações ou de bônus de subscrição; VIII - autorizar, se o estatuto não dispuser em contrário, a alienação de bens do ativo não circulante, a constituição de ônus reais e a pres- tação de garantias a obrigações de terceiros; (Redação dada pela Lei 11.941, de 2009) IX - escolher e destituir os auditores independentes, se houver. §1.o Serão arquivadas no registro do comércio e publicadas as atas das reuniões do conselho de administração que contiverem deliberação destinada a produzir efeitos perante terceiros. (Redação dada pela Lei 10.303, de 2001) §2.o A escolha e a destituição do auditor independente �cará sujeita a veto, devidamente fundamentado, dos conselheiros eleitos na forma do art. 141, §4.o se houver. (Incluído pela Lei 10.303, de 2001) 10.2.2.2 Auditoria independente Sua atribuição básica é validar as informações referentes ao negócio no intuito de que estas re�itam adequadamente a realidade da sociedade. Deve realizar discussão das principais políticas de controles internos e práticas de registro e evidenciação de informações. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 215 17/10/2016 10:35:11 Controladoria – 216 – 10.2.2.3 Conselho fiscal Pode ser de�nido como o órgão �scalizador. Segundo a Lei das Sociedades por Ações, artigo 163, Art. 163. Compete ao conselho �scal: I - �scalizar, por qualquer de seus membros, os atos dos administra- dores e veri�car o cumprimento dos seus deveres legais e estatutários; (Redação dada pela Lei 10.303, de 2001) II - opinar sobre o relatório anual da administração, fazendo constardo seu parecer as informações complementares que julgar necessárias ou úteis à deliberação da assembleia-geral; III - opinar sobre as propostas dos órgãos da administração, a serem submetidas à assembleia-geral, relativas a modi�cação do capital social, emissão de debêntures ou bônus de subscrição, planos de investimento ou orçamentos de capital, distribuição de dividendos, transformação, incorporação, fusão ou cisão; IV - denunciar, por qualquer de seus membros, aos órgãos de admi- nistração e, se estes não tomarem as providências necessárias para a proteção dos interesses da companhia, à assembleia-geral, os erros, fraudes ou crimes que descobrirem, e sugerir providências úteis à companhia; (Redação dada pela Lei 10.303, de 2001) V - convocar a assembleia-geral ordinária, se os órgãos da administra- ção retardarem por mais de 1 (um) mês essa convocação, e a extraor- dinária, sempre que ocorrerem motivos graves ou urgentes, incluindo na agenda das assembleias as matérias que considerarem necessárias; VI - analisar, ao menos trimestralmente, o balancete e demais demons- trações �nanceiras elaboradas periodicamente pela companhia; VII - examinar as demonstrações �nanceiras do exercício social e sobre elas opinar; VIII - exercer essas atribuições, durante a liquidação, tendo em vista as disposições especiais que a regulam. §1.o Os órgãos de administração são obrigados, através de comuni- cação por escrito, a colocar à disposição dos membros em exercício do conselho �scal, dentro de 10 (dez) dias, cópias das atas de suas reuniões e, dentro de 15 (quinze) dias do seu recebimento, cópias dos balancetes e demais demonstrações �nanceiras elaboradas periodica- mente e, quando houver, dos relatórios de execução de orçamentos. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 216 17/10/2016 10:35:11 – 217 – Governança corporativa §2.o O conselho �scal, a pedido de qualquer dos seus membros, soli- citará aos órgãos de administração esclarecimentos ou informações, desde que relativas à sua função �scalizadora, assim como a elabo- ração de demonstrações �nanceiras ou contábeis especiais. (Redação dada pela Lei 10.303, de 2001) §3.o Os membros do conselho �scal assistirão às reuniões do conse- lho de administração, se houver, ou da diretoria, em que se deliberar sobre os assuntos em que devam opinar (ns. II, III e VII). §4.o Se a companhia tiver auditores independentes, o conselho �scal, a pedido de qualquer de seus membros, poderá solicitar-lhes esclare- cimentos ou informações, e a apuração de fatos especí�cos. (Redação dada pela Lei 9.457, de 1997) §5.o Se a companhia não tiver auditores independentes, o conselho �scal poderá, para melhor desempenho das suas funções, escolher contador ou �rma de auditoria e �xar-lhes os honorários, dentro de níveis razoáveis, vigentes na praça e compatíveis com a dimensão eco- nômica da companhia, os quais serão pagos por esta. §6.o O conselho �scal deverá fornecer ao acionista, ou grupo de acio- nistas que representem, no mínimo 5% (cinco por cento) do capi- tal social, sempre que solicitadas, informações sobre matérias de sua competência. §7.o As atribuições e poderes conferidos pela lei ao conselho �scal não podem ser outorgados a outro órgão da companhia. §8.o O conselho �scal poderá, para apurar fato cujo esclarecimento seja necessário ao desempenho de suas funções, formular, com justi- �cativa, questões a serem respondidas por perito e solicitar à diretoria que indique, para esse �m, no prazo máximo de trinta dias, três peri- tos, que podem ser pessoas físicas ou jurídicas, de notório conheci- mento na área em questão, entre os quais o conselho �scal escolherá um, cujos honorários serão pagos pela companhia. (Incluído pela Lei 9.457, de 1997) A boa prática de governança corporativa ultrapassa os limites dos regula- mentos chegando até a qualidade de atitude e escala de valores, o que dá grande peso no momento da escolha dos pro�ssionais para executarem cada cargo. Nesse sentido, a governança corporativa deve considerar os interesses dos proprietários, em compatibilização com as possíveis ações dos funcioná- rios, clientes, fornecedores, credores e comunidade. Sua operação envolve os 50687_MIOLO_Controladoria.indb 217 17/10/2016 10:35:11 Controladoria – 218 – grupos de poder vinculados à condução dos negócios, supervisiona e moni- tora o desempenho dos executivos, garantindo sua capacidade de prestar con- tas de seus atos aos acionistas e outros agentes interessados na empresa. A falta de um sistema de governança corporativa adequado tem levado as organizações a cometerem equívocos, como, por exemplo: 2 Abusos de poder – acionista controlador sobre os minoritários, da diretoria sobre o acionista e dos administradores sobre terceiros. 2 Erros estratégicos – resultado de muito poder concentrado no exe- cutivo principal. 2 Fraudes – uso de informação privilegiada em benefício próprio, atuação em con�ito de interesses. Para empresas que têm ações nas bolsas de valores norte-americanas, as boas práticas de governança corporativa incluem a observância da Lei SOX, desde 2002. Tal lei estabelece mecanismos de auditoria, transparência nas demonstrações contábeis, além de buscar promover segurança nos dados e informações fornecidas aos acionistas, por meio de exigência de comissões encarregadas de supervisionar as atividades e operações das empresas, para inibir a ocorrência de fraudes. Portanto, a SOX foca a responsabilidade cor- porativa no que tange à veracidade do conteúdo dos informes contábeis pro- duzidos e no gerenciamento e avaliação dos controles internos. Cabe ressaltar, inclusive, que a referida lei prevê penas de multas ou prisão para os executivos da companhia caso sejam detectadas divulgações de informações incorretas ou imprecisas. Portanto, mesmo considerando sua abrangência restrita à veracidade das informações contábeis, a SOX tornou-se uma referência no contexto da governança corporativa. 10.2.3 Princípios básicos Os princípios básicos de governança corporativa contam, no mínimo, com os seguintes itens: 50687_MIOLO_Controladoria.indb 218 17/10/2016 10:35:11 – 219 – Governança corporativa 2 Transparência (disclosure) – a administração deve desejar informar, pois uma boa comunicação é fundamental para desenvolver a con- �ança. As comunicações não devem restringir-se ao desempenho econômico-�nanceiro da organização, mas todos os demais fatores que possam impactar na tomada de decisão. 2 Prestação de contas (accountability) – refere-se à responsabilidade dos agentes de prestar contas de sua atuação a quem os elegeu; desse modo, eles devem responder integralmente por todos os atos praticados no exercício de seus mandatos. 2 Equidade (fairness) – refere-se ao tratamento adequado a todos os grupos minoritários, sejam eles os shareholders (donos da empresa) ou os stakeholders (outras partes interessadas, como clientes, forne- cedores, credores e colaboradores). A equidade não admite qual- quer atitude ou política discriminatória. 2 Responsabilidade corporativa (compliance) – caracteriza-se pela sustentabilidade a longo prazo, resguardando pela continuidade das organizações. Observe que esses princípios básicos estão em consonância com os valo- res de governança corporativa disseminados pelas Lei SOX, a saber: 2 senso de justiça; 2 respeito aos direitos dos acionistas minoritários, por participação equânime como dos majoritários; 2 transparência das informações, especialmente as de alta relevância; 2 prestação responsável de contas, com base nas melhores práticas contábeis e de Auditoria e conformidade legal. Nesse sentido, pode-se considerar que a prática da governança corpora- tiva vai além do que trabalhar a imagem externa das organizações. Ao se adotar como elementos chavesa transparência, a prestação de contas, a equidade e a responsabilidade como base de sustentação da governança corporativa, as enti- dades aumentam sua possibilidade de atrair novos acionistas, fornecedores, consumidores e clientes, além de poder reter talentos de forma mais constante. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 219 17/10/2016 10:35:11 Controladoria – 220 – 10.2.4 Modelos de sistemas A utilização da governança corporativa tem se difundido tanto nos mer- cados desenvolvidos quanto em desenvolvimento, sendo que para cada mer- cado o emprego das boas práticas de governança apresenta particularidades quanto ao estilo, estrutura e enfoque. A difusão da governança corporativa se dá pela necessidade de incorporar algumas regras fundamentais, tais como: sistemas regulatórios e leis de proteção aos acionistas; conselho de adminis- tração atento aos interesses e valores dos acionistas; auditoria independente; processo justo de votação em assembleias; e maior transparência nas informa- ções, a �m de ganharem a con�ança dos investidores. A partir da criação dos códigos de governança corporativa locais, as dife- renças culturais e históricas têm sido adaptadas. As particularidades e práticas locais mantiveram sua força. Enquanto algumas nações apresentam o modelo familiar dominante, outras têm no capital difuso sua maior expressão (capital pulverizado entre diversos acionistas). De modo geral, com base na estrutura de propriedade das organizações pode-se dividir os sistemas de governança corporativa em dois tipos: outsider system e insider system. O quadro 1, a seguir, resume as principais característi- cas dos dois tipos de modelos de governança corporativa. Quadro 1 – Principais características dos modelos de governança corporativa Modelo Descrição outsider system Estrutura de propriedade dispersa nas grandes empresas; papel importante do mercado de ações na economia; ativismo e grande porte dos investidores institucionais; foco na maximização do retorno para os acionistas. insider system Estrutura de propriedade mais concentrada; presença de conglomerados industriais-financeiros; baixo ativismo e menor porte dos inves- tidores institucionais; reconhecimento mais explícito e sistemático de outros stakeholders não financeiros, principalmente funcionários. Fonte: Elaborado pelos autores. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 220 17/10/2016 10:35:11 – 221 – Governança corporativa Segundo Lethbridge (2009), no modelo outsider system, tipicamente anglo-saxão (Estados Unidos e Inglaterra), as participações acionárias são caracterizadas pela pulverização do controle. Nos Estados Unidos, por exem- plo, os cinco maiores investidores detêm, em média, menos de 10% do capi- tal de uma empresa (Economist, 1996). As bolsas de valores desenvolvidas garantem a liquidez dessas participações, diminuindo o risco dos acionis- tas. Essas duas condições minimizam a necessidade de um monitoramento direto; portanto, o mecanismo de controle é externo, por meio da variação no preço das ações, sendo que o próprio mercado sinaliza a aprovação ou não em relação às administrações. O sistema exige um nível elevado de transparência e divulgação, impondo automaticamente controles rígidos sobre o uso de informações privilegiadas. Ainda segundo o autor, no modelo insider system, nipo-germânico (Europa Continental e Japão), a propriedade é mais concentrada. Na Alemanha, por exemplo, os cinco maiores acionistas detêm, em média, 40% do capital e, no Japão, 25%, e muitas participações acionárias são de longo prazo. Outro fator importante é visto no Japão, em que cerca de 50% e 70% das ações de empresas listadas nas bolsas de valores são detidas por outras empresas (Nikkei Weekly, 1997), no sistema de participações acionárias cru- zadas que une os membros dos keiretsus2. Na Alemanha, os bancos usam par- ticipações acionárias para fortalecer as relações comerciais com clientes. Nesse sistema, em que a liquidez não é priorizada, os acionistas reduzem o seu risco, colhendo as informações necessárias às suas decisões junto às administrações, utilizando-se de mecanismos internos. Esses modelos de monitoramento re�etem visões diferentes de gestão da empresa: enquanto no modelo anglo-saxão o objetivo tradicional é a cria- ção de valor para os acionistas (shareholder), no modelo nipo-germânico o objetivo é equilibrar os interesses de diversos agentes, como os empregados, fornecedores, clientes, credores e a comunidade (stakeholder). 10.2.5 Medidas de desempenho Ao exigir que o comportamento dos controladores e administradores tenha por escopo agregar valor econômico para a companhia e atender ao 2 Keiretsu é uma palavra japonesa para um modelo organizacional de coalizão ente empresas. 50687_MIOLO_Controladoria.indb 221 17/10/2016 10:35:11 Controladoria – 222 – interesse dos acionistas/investidores em ter segurança das aplicações de suas carteiras, que é fundamental para o bom desempenho de seus objetivos, é necessário adotar medidas e análises de desempenho a �m de garantir a pre- venção contra perdas de valor inesperadas. De acordo com Pereira (in CATELLI, 2001, p. 196), “o ato de avaliar, entendido num sentido genérico, [...] é o exercício da análise e do julgamento sobre qualquer situação que exija uma apreciação de fatos, ideias, objetivos e, também, uma tomada de decisão a �m de se atingir uma situação desejada”. Mais adiante o autor resume: “Avaliar um desempenho signi�ca julgá-lo ou atribuir-lhe um conceito diante de expectativas preestabelecidas.” Na visão de Borinelli (2006, p. 169), “a cronologia do processo de ava- liação de desempenho compreende as seguintes etapas:” identi�cação dos parâmetros, mensuração, observação de parâmetros, análise do desempenho e julgamento do desempenho. 2 A identi�cação de parâmetros corresponde à de�nição do que se espera de um desempenho; ela é necessária para garantir, por meio do controle, os desempenhos esperados. 2 A mensuração compreende a veri�cação do desempenho ocorrido, seu confronto com o esperado e a evidenciação das divergências. 2 A observação de parâmetros tem como objetivo identi�car quais os parâmetros essenciais para quali�car o desempenho. 2 A análise do desempenho tem como objetivo veri�car, inclusive, as causas dos possíveis desvios. 2 O julgamento do desempenho consiste em atribuir um conceito ao desempenho veri�cado, ante ao que era esperado, mediante a análise das diferenças e suas razões. Assim, a avaliação do desempenho dos conselhos e dos conselheiros, de acordo com o IBGC, deve ser feita formalmente a cada ano. A sistemática de avaliação deve ser adaptada à situação de cada socie- dade; contudo deve ser respaldada por processos formais com escopo de atuação e quali�cação bem de�nidos. A condução desse processo de avaliação é de responsabilidade do presidente do conselho. A ava- liação individual dos conselheiros – particularmente nos aspectos de 50687_MIOLO_Controladoria.indb 222 17/10/2016 10:35:11 – 223 – Governança corporativa frequência e participação nas reuniões – é fundamental para a indi- cação à reeleição. O conselho de administração deve fazer, anualmente, uma avaliação formal do desempenho da diretoria executiva. Caberá ao executivo principal (CEO – Chief Executive O�cer) encaminhar as avaliações de sua equipe para o conselho, sugerir ações especí�cas de melhoria, anotar aspectos positivos do desempenho dos diretores e opinar sobre sua reeleição. O principal executivo deve ser anualmente avaliado pelo conselho de administração e é responsável pelo processo de avaliação da dire- toria e pela informação do resultado ao conselho de administração. (IBCG, 2007) 10.3 Resumo A governança corporativa surgiu para superar um “con�ito de agência” decorrente da separação entrea propriedade (principal) e a gestão empresa- rial (agente). A governança corporativa tem o papel de instituir mecanismos que regulem as ações dos administradores para superar esse con�ito de agên- cia (principal X agente), garantindo que o comportamento da organização esteja de acordo com os interesses dos acionistas. Os mecanismos de con- trole podem ser segregados em dois tipos: mecanismos disciplinadores (criam regras e obrigações no relacionamento entre principal e agente) e mecanismos incentivadores (estabelecem mecanismos de grati�cação). Os principais eventos que contribuíram para a disseminação dos meca- nismos de governança corporativa no mundo e no Brasil foram: publicação, em 1992, na Inglaterra, do Relatório Cadbury; a promulgação, em 2002, nos Estados Unidos da Lei Sarbanes-Oxley (SOX), após os escândalos das empre- sas Enron e Worldcom; no Brasil, em 1995, a criação do Instituto Brasileiro de Conselheiros de Administração (IBCA), que, a partir de 1999, tornou-se o atual Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC); a criação, em dezembro de 2000, pela Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), de três segmentos especiais de listagem para empresas com padrões de governança corporativa, além do mercado tradicional: nível 1, nível 2 e novo mercado. As principais ferramentas das boas práticas de governança corporativa e que asseguram o controle da propriedade sobre a gestão, minimizando o 50687_MIOLO_Controladoria.indb 223 17/10/2016 10:35:11 Controladoria – 224 – con�ito de agência entre os proprietários e a diretoria executiva, são: conselho de administração, auditoria independente e conselho �scal. Os princípios básicos de governança corporativa tem que ter no mínimo os seguintes itens: transparência (informar adequadamente), prestação de contas (responsabilidade de prestar contas sobre as ações tomadas), equidade (tratamento sem política discriminatória, senso de justiça) e responsabilidade corporativa (compliance e sustentabilidade). De modo geral, podem-se dividir os sistemas de governança corporativa em dois tipos: outsider system, em que as participações acionárias são caracte- rizadas pela pulverização do controle e importante papel do mercado de ações na economia, e insider system, em que a propriedade é mais concentrada e há presença de grandes conglomerados industriais-�nanceiros. A governança corporativa prevê, também, que gestores e conselhos sejam avaliados em suas ações. Assim, o processo para avaliar o desempenho com- preende as seguintes atividades: identi�cação de parâmetros, mensuração do desempenho ocorrido, observação dos parâmetros, análise do desempenho perante os parâmetros previamente estabelecidos e julgamento do desempenho. Ampliando seus conhecimentos O olhar de uma multinacional de capital aberto e controle pulverizado Empresa global de gerenciamento de crédito aponta o processo de governança corporativa adotado e as dificuldades inerentes ao setor (IBGC EM FOCO, 2008) A palestra de julho do IBGC introduziu pela primeira vez na agenda temática deste ano, pautada na evolução das estruturas de propriedade no país, a questão da propriedade das empre- sas multinacionais. Com ampla experiência, tendo atuado tanto em empresas familiares de capital fechado quanto de capital 50687_MIOLO_Controladoria.indb 224 17/10/2016 10:35:11 – 225 – Governança corporativa aberto de propriedade compartilhada, o palestrante Francisco Tosta Valim Filho trabalha atualmente numa empresa global de capital pulverizado: a Experian. Nela assume o papel de con- selheiro de administração da matriz e o de diretor executivo da subsidiária, a Serasa. A Experian possui 70% da subsidiária brasileira e os outros 30% pertencem aos antigos acionistas. Segundo Valim, o modelo corporativo dessa multinacional concilia a atuação de dois conselhos de administração: um internacional e outro nas subsidiárias. O Conselho da Serasa segue as mesmas regras da matriz, entre elas a de só termi- nar a reunião após cumprir todos os itens da pauta. “Isso é absolutamente fundamental para que o conselho estabeleça um fluxo de aprendizado e de informação. E comunicação é essencial nesse processo”, analisou. De acordo com Valim, o Conselho de Administração da Experian possui foco na estra- tégia, na aprovação de orçamento e no modelo de aquisição, reúne-se a cada dois meses, sendo auxiliado por três comitês: de auditoria, de remuneração e de nomeação. A Experian está presente em mais de 65 países. Valim atribuiu às empresas multinacionais a virtude de serem mais estruturadas em termos de relatórios, controles e pro- cessos do que as nacionais, o que, para ele, também faz da comunicação um item essencial. “O conselho de administra- ção numa multinacional com capital pulverizado tem opinião e participação efetiva no modelo de negócio.” No entanto, para o palestrante, muitas vezes, os conselheiros interagem com as empresas por meio do PowerPoint. “Esse material preparado especialmente para a reunião não implica neces- sariamente nas melhores práticas de governança, havendo a necessidade de se compactuar administração e acionistas num modelo comum.” Em contrapartida, afirmou, as multinacionais possuem caracte- rísticas particulares que impactam o seu bom desenvolvimento, como os aspectos de risco, os culturais ou de controle, os 50687_MIOLO_Controladoria.indb 225 17/10/2016 10:35:11 Controladoria – 226 – quais podem ser alinhados por meio de um conselho de administração atuante, pela regulamentação e por um sistema de remuneração gerencial. “Quando se consegue alinhar esse processo a partir do conselho de administração tudo funciona de forma eficiente”, garantiu. Conforme Valim, a questão da remuneração de executivos envolve um modelo com as variáveis acionistas, conselho de administração, gestão executiva e nível gerencial. No que se refere ao processo regulatório, de acordo com ele, ultrapassa o aspecto da indústria, abrangendo também a ótica trabalhista, de funcionamento dos tributos etc. A regulamentação é um fator bastante polêmico no Brasil, avaliou. “É muito difícil explicar o modelo regulatório brasileiro, por ser um sistema em permanente mutação. Evolui tanto por conta das agências reguladoras quanto do próprio Legislativo e de órgãos como, por exemplo, o Ministério Público e o Procon [Programa de Orientação e Proteção ao Consumidor], responsáveis por criar a regulamentação.” Matriz versus filiais Entre as dificuldades inerentes às empresas multinacio- nais citadas por Valim, encontram-se os aspectos de risco. “Investimentos de capital são muito mais detalhados, avaliados e questionados quando se tem a percepção de risco dife- renciada. E numa empresa de controle pulverizado isso é exponencializado.” Segundo ele, foi assim no caso da Serasa, porque a “[...] matriz não entende bem todas as nuances do processo, tampouco as dificuldades regulatórias e jurídicas”. Outro fator impactante é a dupla concorrência: mundial e local. “É muito fácil explicar sobre os concorrentes mun- diais, porque as lógicas são parecidas; ao passo que os locais operam com regras muito diferentes, adequadas à cultura da região.” Valim chamou à atenção para o fato de entender, quantificar e estabelecer os parâmetros para a tomada de risco 50687_MIOLO_Controladoria.indb 226 17/10/2016 10:35:11 – 227 – Governança corporativa ser fundamental, sendo esse o principal motivo das organiza- ções multinacionais estarem bem estruturadas em termos de relatórios, controles e processos. “Pequenas variáveis culturais muitas vezes impactam de forma relevante o modo de se fazer negócio. E isso é um problema não só para a matriz como para as subsidiárias. Estas últimas possuem práticas e políticas locais, as quais variam na forma como